Dois livros de ficção sobre futebol

05/07/2015

No texto anterior, discuti livros biográficos de atletas como fontes. Desta vez, abordo duas obras de ficção que tratam de futebol.

Antes de falar dos livros, porém, gostaria de contextualizar minha posição com relação ao assunto. Há muitos anos, sou um leitor ávido de obras ficcionais sobre o tema, escritas por brasileiros e estrangeiros. Contudo, na grande maioria dos casos, fico com a sensação de que não conseguem captar a magia do esporte. (Aliás, tenho a mesma impressão em relação à maioria dos filmes sobre a modalidade – sobretudo os ficcionais.) Até quando se trata de um dos meus autores preferidos, Nick Hornby, o livro sobre skate (Slam) é, em minha opinião, muito superior ao que trata de futebol (Febre de bola).

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13582_gO primeiro título é, se não me falha a memória, o melhor romance sobre futebol que li: O drible, de Sérgio Rodrigues. O grande mérito é que não se trata de um bom livro de ficção sobre futebol, mas sim um bom livro de ficção – e ponto. Estou aplicando, para a obra, o mesmo raciocínio que aplico a boa parte dos trabalhos científicos que leio sobre esporte, principalmente sobre futebol.

É comum autores acadêmicos reclamarem de preconceito contra o tema dentro das ciências humanas. Sem dúvida, tal preconceito existe. Sem dúvida, também, hoje ele é muito mais fraco do que há, digamos, dez ou vinte anos. Persiste em áreas nas quais a pesquisa sobre o tema é recente e incipiente, como a Comunicação; ao passo que, em outras, como Antropologia e Sociologia, as pesquisas sobre esporte contam com grau maior de aceitação e legitimidade.

Contudo, a meu ver, o principal problema para a inserção das produções sobre esporte na Comunicação não reside no tema, e sim na qualidade dos trabalhos. Um exemplo: Marcio Telles ganhou o Prêmio Compós de melhor dissertação de 2014 com o trabalho “A recriação dos tempos mortos do futebol pela televisão : molduras, moldurações e figuras televisivas“. Ela não foi escolhida apesar de abordar o futebol, mas porque era excelente. Ponto. (Na verdade, não a li; mas, a julgar pelos artigos e apresentações relativos a ela que li/assisti, deve ser ótima mesmo.)

Voltando ao livro… A trama tem, digamos, três personagens principais. Um velho jornalista esportivo que vive recluso no interior fluminense, o filho do jornalista (que vive na Zona Sul carioca) e um talentoso jogador de futebol oriundo da mesma cidade do jornalista. Na verdade, são tramas e narrativas que se entremeiam, tratando de futebol, mas também de conflitos familiares barra-pesada, de relações/conflitos de classe social e gênero, da ditadura civil-militar, dos meandros do futebol e da relação dessa modalidade com o mundo dos espíritos. As histórias do personagem que trabalhou por décadas em redações evocaram-me Mario Filho, Nelson Rodrigues e Armando Nogueira, entre outros.

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O segundo é No estilo de Jalisco, de Juan Pablo Villalobos, de quem tomei conhecimento recentemente, por dica de um dos escribas deste blogue. A recomendação inicial foi ler o espetacular Se vivêssemos em um lugar normal. Depois parti para o ótimo Fiesta en la madriguera, romance de estreia do autor, também traduzido no Brasil.
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No entanto, No estilo de Jalisco, cuja história se passa num bar, me pareceu bem menos interessante – não por se passar num bar, é óbvio. Um mexicano e um desconhecido (brasileiro) da mesa ao lado conversam, regados a muita bebida, a respeito de futebol e de reminiscências do primeiro sobre a seleção brasileira de 1970. “Conversam” talvez não seja o termo mais adequado, pois, como ocorre com frequência em bares cariocas – a ficção capta a realidade com maestria -, o sujeito manguaçado aluga quem está por perto, contando histórias e insistindo em sustentar de forma errática argumentos que pouco ou nada interessam ao ouvinte (in)voluntário. Para quem não conhece a Zona Sul da cidade: a escassez de espaço coloca as mesas  exageradamente próximas umas das outras, favorecendo as investidas dos ébrios malas solitários em busca desesperada de um interlocutor, como se o mundo fosse acabar caso um coitado não se disponha a ouvi-los. Você almoça, janta, bebe, petisca e/ou faz confidências a (às vezes, bem) menos de um metro de um estranho – ou de vários estranhos, dependendo da lotação e distribuição das mesas ao redor.

Trata-se, segundo li, do primeiro romance escrito diretamente em português pelo autor, que vive no Brasil.

*  *  *El rescate

Uma das atividades de Villalobos é traduzir para o espanhol autores brasileiros de ficção. Curiosidade: fazendo uma pesquisa para este texto, “descobri” que, entre as obras já traduzidas, está… O Drible. Saiu no México pela Anagrama, mesma editora que publica os livros de Villalobos.


Jogos Olímpicos de 2016 – O que o Massacre de Tlatelolco tem a nos ensinar?

03/07/2011

por Felipe Deveza

Mestre em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutorando em História pela mesma universidade.

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Em 1968 no México, há dez dias do início das Olimpíadas que ocorreriam na capital mexicana, tanques, metralhadoras e atiradores de elite cercaram a Praça das Três Culturas, em Tlatelolco, e abriram fogo contra a multidão. Mais de 300 pessoas foram covardemente assassinadas, alguns falam em mais de mil mortos, centenas foram espancados e foi imposto o terror contra os que ousavam protestar em meio aos Jogos Olímpicos.

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Grandes manifestações evocam os estudantes assassinados

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A Matança de Tlatelolco, como o episódio ficou conhecido no México, pode nos dar uma importante lição sobre o que os governos são capazes de fazer para manter a aparência de controle social nos períodos que antecedem os Jogos Olímpicos ou outro evento internacional qualquer. A invasão das favelas cariocas com a justificativa de “pacificação” demonstrou o primeiro esforço nesse sentido. Como tropas de um exército inimigo, impuseram o terror, romperam com qualquer resquício de legalidade, invadiram casas, roubaram, extorquiram, destruíram. É claro, como sempre, “todos os mortos eram traficantes”. Tudo com o apoio incondicional da imprensa e da manipulação do sentimento de insegurança.

Esses ingredientes não faltaram em 1968: desrespeito aos direitos do povo por parte do Estado, massacre premeditado, terror de Estado e apoio incondicional da imprensa reacionária.

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O ano de 1968 foi um período emblemático para a geração que tinha por volta de 20 anos. Foi o ano das famosas rebeliões estudantis e operárias em diversos países pelo mundo afora. Foi um ano de radicalização do movimento negro nos Estados Unidos, de enormes protestos contra a Guerra do Vietnã e muito conhecido pela rebelião estudantil na França.

No México, os estudantes do Instituto Politécnico e da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) se rebelariam contra diversas medidas repressivas do governo mexicano, reclamariam liberdade política e procurariam utilizar a visibilidade que o México ganharia no mundo com os jogos olímpicos para protestar.

Foi formado um Comitê Nacional de Greve e várias universidades e escolas no país aderem à greve. A UNAM se transforma em centro da rebelião juvenil. Um estudante declararia no megafone: “UNAM, território libre de la America Latina!”. Muitos estudantes dormiam nas salas de aulas para não perder sequer uma assembleia. A universidade fervilhava. O auditório da UNAM seria rebatizado com o nome de Ernesto Che Guevara e diversos estudantes participariam de brigadas de panfletagem nas ruas, entre os operários e moradores de bairros populares.

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O governo reprimia os atos e mantinha presos os estudantes. Quanto mais o governo reprimia, mais volumosas se tornavam as manifestações.

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A MATANÇA DE TLATELOLCO

02 de outubro, 18 horas. Dia e hora marcados para um protesto na Praça das Três Culturas, em Tlatelolco. Para reprimir o ato, o exército infiltrou atiradores de elite nos prédios que cercam a praça. Trezentos tanques foram mobilizados e helicópteros sobrevovaram a área.

Devido ao clima de repressão, um estudante anuncia o cancelamento do protesto. Já era tarde, às 18:10, fachos de luz sinalizadora verde são lançados de um helicóptero autorizando o massacre. Policiais infiltrados atiram em direção aos soldados, a fim de justificar o ataque, e em pouco tempo os estudantes estão cercados. Começa a saraivada de tiros. No início, imaginavam ser balas de festim, mas logo começam a cair os corpos, os tanques avançam sobre a multidão, uns correm sobre os outros, as tropas avançam e os que não são atingidos pelos atiradores, são espancados barbaramente.

O massacre não termina. Seguiria pela noite adentro, com mais espancamentos e invasões de apartamentos nos prédios que circundam a praça.

Muitos foram levados para a penitenciária de Lecumberri, outros tiveram de atravessar um corredor polonês de pontapés e socos, suas roupas são rasgadas, suas calças arriadas e outros simplesmente desaparecem.

No dia seguinte ninguém falava do massacre. Nada. Nem uma palavra nos jornais, nem uma denúncia.

Passados alguns dias, os jornais começariam a noticiar o ocorrido em Tlatelolco, mas à semelhança de muitos episódios de repressão brutal, as vítimas apareceriam como causadoras de suas mortes. O jornal Novedades colocaria a seguinte manchete no dia 4 de outubro: “O exército mantém a tranquilidade e informa oficialmente 29 mortos. O senado condena a agitação e diz que existem nacionais e estrangeiros com propósitos antiamericanos e muito perigosos!”

Calados os estudantes, as Olimpíadas de 68 ficariam conhecidas pelo mundo como a Olimpíada Black Power, pelo protesto de atletas norte-americanos negros contra o racismo. Dois atletas negros eternizaram a imagem dos punhos cerrados, com luvas características do grupo revolucionário Panteras Negras, no pódio olímpico.

Poucos foram responsabilizados mais de 40 anos depois. Não se sabe ao certo o número de mortos e muita coisa ainda falta descobrir sobre os acontecimentos de 2 de outubro de 1968.

Foi construído um memorial e um monumento em homenagem às vítimas, mas o maior legado deixado pelos que lutaram em 1968 foi a manifestação que acontece todos os anos no dia 2 de outubro, data de rebeldia, de luto e de protesto popular no México.

2 DE OUTUBRO NÃO SE ESQUECE

Ao som de palavras de ordem “2 de octubre no se olvida!” (não se esquece, em português), milhares de mexicanos marcham por cerca de 3 quilômetros, indo de Tlatelolco até o Zócalo capitalino, em frente ao Palácio Nacional, sede do governo mexicano. A manifestação de 2 de outubro já chegou a reunir mais de 3 milhões de pessoas.

Nesse dia, os estudantes ficam mais ousados, escrevem mensagens rebeldes pelas ruas, os professores parecem mais orgulhosos da profissão, os eletricistas ostentam suas faixas e protestam contra as recentes privatizações. Os bravos camponeses trazem Zapata e Pancho Villa em suas faixas, relembram as conquistas e lutas, animando-se para as que virão.

No Brasil o Massacre de Tlatelolco é quase desconhecido, mas nos mostra o que as classes dominantes são capazes de fazer para passar ao mundo uma imagem de tranquilidade e controle social que garanta os gordos lucros que, Olimpíadas, Copas do Mundo de futebol e outros eventos podem trazer.

Tlatelolco nos alerta que os massacres, as repressões e o desrespeito aos direitos do povo, que ocorreram recentemente sob o nome de “pacificação” no Rio de Janeiro, são somente o início do que virá.