Medicina, ginástica e saúde no Rio de Janeiro do século XIX: a infância e a escola como objetos e espaços sociais de intervenção (parte 1)

07/11/2022

Fabio Peres e Victor Melo[i]

No último post, falamos um pouco de como as representações sobre sedentarismo foram se constituindo no âmbito de práticas e saberes médicos no Rio de Janeiro do século XIX.

Como dissemos, uma das preocupações dos médicos brasileiros era a necessidade da ginástica ser implementada nas escolas. Era o indício de uma relação que se tornaria cada vez mais consistente e, por conseguinte, naturalizada entre ginástica, escola e medicina. Em 1840, o médico Emilio Joaquim da Silva Maia defendeu, no artigo Utilidade e necessidade da ginástica, publicado na Revista Medica Fluminense[ii], a generalização da prática corporal nos colégios brasileiros, em geral, e particularmente no Colégio Pedro II:

Si taes são os felizes resultados da applicação desta salutar arte, quanto não he para sentir, que ella entre nós se ache ainda em tanto atraso, e que nas nossas casas de educação este meio ainda se não ache em pratica? Pelo que seja-nos permittido ao terminar este artigo, fazer mil votos para vermos esta preciosa arte mais generalisada no nosso paiz, e principalmente para a vermos introduzida nos Collegios Brasileiros, em cujas instituições ella torna se de absoluta necessidade. Possa o nosso illustrado Governo convencer-se desta verdade, e estabelecel-a no util instituto – Collegio de Pedro II. – que com isto fará hum importante serviço ao Brasil e à Sciencia (1840, p.481).

Nesse sentido, se os benefícios da ginástica poderiam ser estendidos a todos, ela encontraria entre seus objetos e espaços sociais principais a infância e a escola.

Parece não ser por acaso, portanto, que a Academia Imperial de Medicina começará a ter como ponto de pauta das suas sessões a ginástica. Pelos jornais da época, conseguimos identificar que, ao menos, em três sessões de 1840 a prática foi discutida: no dia 2 de julho, debate sobre a ginástica que se deveria adotar nos colégios de educação[iii]; no dia 6 de agosto, a utilidade ginástica[iv]; e no dia 20 de agosto, sobre a ginástica[v]. Vale destacar que nessas sessões, o secretário geral, foi Luiz Vicente De Simoni, o mesmo médico que emitiu o parecer sobre o tratado do capitão Guilherme Taube, abordado em outro post.

No mesmo ano, a Academia realizará no dia 17 de setembro uma sessão quase exclusivamente dedicada ao tema, cuja ata foi publicada posteriormente em 1841 na Revista Médica Brasileira (1841-1843)[vi]. A questão da ordem do dia era relativa ao tipo de ginástica que convém ao país. Os embates entre os médicos demonstram que não havia consenso sobre o assunto[vii].

Grande parte das discussões girou em torno de qual ginástica seria a mais adequada ao clima e ao combate das principais moléstias que assolavam a Corte naquele momento; moléstias sobre as quais, vale assinalar, também não havia concordância entre os esculápios. Uma das propostas – dada as divergências de opinião – era a constituição de uma comissão para melhor tratar da matéria. Mas, além disso, o Dr. Maia, que escrevera o artigo Utilidade e necessidade da ginástica, se posiciona a favor de que foco principal da comissão fosse demonstrar a vantagem e a necessidade de introduzir a ginástica nos estabelecimentos de educação. Frente a isso, o presidente da Academia, Dr. Francisco Paula Candido, se encarrega de apresentar uma memória a respeito. Entretanto, não foi possível identificar se realmente tal memória foi apresentada.

De qualquer forma, ao contrário do que, em geral, se conhece sobre o tema, houve pelo menos nesse período um esforço dos médicos da Academia Imperial de Medicina (expresso também no texto Longevidade Brasileira, mencionado no post anterior) em desenvolver conhecimentos sobre a prática corporal que fossem adequados à realidade brasileira e não somente em importar ou reproduzir linearmente determinados métodos estrangeiros. 

O que descobrimos é que em 1841, Paula Candido mencionou a ginástica em seu discurso anual, ocorrido por ocasião da comemoração do 12º aniversário da primeira associação médica brasileira[viii]. Mas essa história ficará para o próximo post.


[i] Parte do texto foi publicado originalmente em: PERES, Fabio de Faria e MELO, Victor Andrade de. O trato da gymnastica nas revistas médicas do Rio de Janeiro na primeira metade do século 19. História da Educação [online]. 2015, v. 19, n. 46, pp. 167-185. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/2236-3459/46494&gt;. ISSN 2236-3459.

[ii] Revista Medica Fluminense, ed.10, Julho de 1840, p. 473-481.

[iii] O Despertador, ed.691, 02/07/1840, p.3.

[iv] Diário do Rio Janeiro, ed.173, 06/08/1840, p.2.

[v] Diário do Rio Janeiro, ed.184, 20/08/1840, p.3.

[vi] Revista Medica Brasileira, ed.1, 05/1841, p. 19-22.

[vii] Os médicos que se pronunciaram sobre o tema foram Francisco Paula Candido, Cuissart (possivelmente Augusto Renato Cuissart), Júlio (possivelmente Francisco Júlio Xavier), Torres (possivelmente Joaquim Vicente Torres Homem) e Emilio Joaquim da Silva Maia.

[viii] Revista Medica Brasileira, ed.3, 07/1841, p. 140-149.


Medicina, ginástica e saúde no Rio de Janeiro do século XIX: preocupações com o sedentarismo em “regiões tropicais”

18/07/2022

Fabio Peres e Victor Melo[i]

No último post, contamos um pouco da história de como a ginástica começou a se legitimar como campo de saberes e práticas médicos no Rio de Janeiro do século XIX.

Um dos marcos nessa história ocorreu em 1839, quando um médico publicou um artigo sobre os benefícios da ginástica, especificamente, no Brasil; talvez o primeiro que – diferente dos publicados anteriormente por seus colegas – considerou as relações entre a prática e os aspectos ambientais e demográficos brasileiros.

O texto Longevidade Brasileira, publicado em julho de 1839, na Revista Medica Fluminense[ii] defende que entre os fatores principais que contribuem para a longevidade e a manutenção da saúde está a prática de exercícios (sobretudo, ginásticos). A inação é vista como origem principal de diversas doenças, inibindo funções corporais que favorecem o prolongamento da vida. 

O artigo aponta como consenso científico que a longevidade está necessariamente associada ao cumprimento das regras higiênicas, entre as quais está prática de exercícios.

Um aspecto importante do texto é a tentativa de adequar as teorias existentes, algo que se tornaria comum em parte da comunidade médica nacional, às condições climáticas brasileiras, ao mesmo tempo em que caracteriza melhor os requisitos básicos do que deve ser entendido como exercício:

Se o exercício é necessário ao homem em todos os climas, ele torna-se da maior necessidade ao que habita as regiões tropicais; ali a elevada temperatura da atmosfera abatendo naturalmente a energia de todos os órgãos, faz com que eles para se reanimarem precisem de uma maior atividade. […] Todavia cumpre dizer, que o verdadeiro exercício e o mais útil, é o que põe em jogo todas as partes do corpo, e o que se faz ao ar livre, e de maneira alguma se deve dar este nome as doces oscilações de uma sege, ou de uma cadeirinha […]. As pessoas que tem uma vida sedentária, devem sempre ter presente, que nada é tão próprio no nosso país para reanimar todos os órgãos e excitar agradavelmente o sistema nervoso, como o exercício a pé e ao ar livre (1839, p.140-141).

No ano seguinte, em 1840, foi publicado um texto integralmente dedicado à ginástica na mesma revista médica[iii]. Sob o título Utilidade e necessidade da ginástica, o médico Emilio Joaquim da Silva Maia argumentará, logo na primeira frase, que a prática corporal é uma parte da medicina, ligada a “restabelecer a saúde”, definindo-a:

[…] segundo os autores modernos, “a arte que tem por objeto exercer com método o todo ou parte do sistema locomotor, tanto para aumentar a esfera da ação dos músculos, como para conservar e restabelecer a saúde, e favorecer assim o aumento das faculdades físicas e morais do homem” (1840, p.473).

De acordo com análise do médico, embora sua difusão e desenvolvimento encontravam-se bastante atrasados no país, a ginástica seria um dos mais poderosos recursos da higiene e da terapêutica, o que justificaria não somente a presença de algumas páginas dedicadas a ela na Revista Medica Fluminense como de certa forma evidenciaria que naquele momento existiam resistências à prática; no campo médico e nas diversas instituições sociais no Império.

Após uma descrição pormenorizada sobre os diversos efeitos locomotores, fisiológicos, intelectuais etc., inclusive utilizando para isso autores antigos e modernos da medicina como fundamento de suas assertivas, Maia advogará a generalização da prática corporal nos colégios brasileiros, em geral, e particularmente no Colégio Pedro II. Era o indício de uma relação, que se tornaria cada vez mais consistente naquele e no século seguinte, entre ginástica, educação e medicina. O campo da “ginástica médica” adquiria novos contornos. Mas essa história ficará para o próximo post.


[i] Parte do texto foi publicado originalmente em: PERES, Fabio de Faria e MELO, Victor Andrade de. O trato da gymnastica nas revistas médicas do Rio de Janeiro na primeira metade do século 19. História da Educação [online]. 2015, v. 19, n. 46, pp. 167-185. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/2236-3459/46494> ISSN 2236-3459.

[ii] Revista Medica Fluminense, ed.4, Julho de 1839, p. 139-146.

[iii] Revista Medica Fluminense, ed.10, Julho de 1840, p. 473-481.


Medicina, ginástica e saúde no Rio de Janeiro do século XIX

28/03/2022

Fabio Peres e Victor Melo*

Em posts anteriores1, 2, 3, contamos um pouco sobre a história do processo de legitimação, institucionalização e difusão do saber médico a respeito das práticas corporais, em especial a ginástica, no Rio de Janeiro do século XIX.

Uma das premissas principais dessa história é que a relação entre exercícios corporais e saúde não era a princípio tão óbvia e muito menos incontestada. Tratou-se de uma construção que se deu de forma lenta, paulatina e muitas vezes pouca harmônica entre agentes, instituições, práticas e saberes que configuravam o campo médico-científico nos oitocentos. Uma relação que se consolidou no decorrer daquele século, apesar de inúmeras controvérsias. Não apenas a comunidade médica teve que “lutar” pela legitimação de suas práticas e saberes junto ao Estado e à sociedade, como também teve que lidar internamente com a regulação dos conflitos e dilemas dessa mesma comunidade pari passu em que o campo científico também mudava.

Os primeiros indícios desse processo se deram nos anos 1830, conforme apresentado nos posts anteriores. Porém, ainda na década de 1830, é possível identificar algumas modificações no trato do tema nos periódicos médicos científicos.

Novos objetos, abordagens e legitimidades

Mesmo que ainda persistissem alguns traços identificados no Semanário de Saúde Pública (1831-1833), a abordagem sobre a ginástica ganhou maior especificidade. Diferente do caráter mais geral e informativo, começou-se a publicar estudos mais detalhados, ao mesmo tempo em que a autoridade e a legitimidade médica se expandiram para outras esferas.

Embora se perceba a permanência de textos com características ensaísticas – um padrão narrativo no qual há, em geral, uma mistura entre opiniões, reconstrução histórica, julgamentos morais e projetos políticos -, alguns artigos já apresentavam feições, consideradas hoje, por assim dizer mais científicas, cuja audiência principal seria a própria comunidade médica[1]. Tais escritos abordaram de maneira mais detalhada os benefícios da ginástica, sejam eles biológicos ou sociais.

O processo de institucionalização da ginástica passou a progressivamente contar com importantes fundamentos e alicerces das ciências médicas. Isso, todavia, não significou que no interior do campo médico havia consenso absoluto. Valerá prospectar os debates publicados na Revista Médica Fluminense (1835-1841) e na Revista Médica Brasileira (1841-1843), ambas editadas pela antiga SMRJ, já transformada em Academia Imperial de Medicina[2], bem como em outros periódicos médicos da ocasião.

Importa assinalar que naquele momento começaram a circular, em alguns jornais da Corte, algumas matérias sobre a ginástica, nas quais há referências a sua importância para a saúde. Um exemplo é o artigo “Da Ginástica”, publicado em duas ocasiões: no Diário do Rio de Janeiro[3] e no Museu Universal[4]. Além do destaque ao estabelecimento de ensino dirigido por Francisco Amoros[5], na França, o texto salienta que, em 1780, o médico Tissot escreveu a obra Ginástica Medica, em que estabeleceu regras e métodos para os exercícios corporais. De acordo com o artigo, a prática contribuiria para educar homens vigorosos, revertendo a má dirigida educação física da primeira infância, que formaria “arlequins” e “afeminados”.

Em abril de 1836, a Revista Médica Fluminense publica um pequeno trecho da obra Essai general d’education physique, morale et intellectuelle, escrito por Jullien de Paris[6].  O autor, ao defender a necessidade de o médico conhecer o homem físico e moral, sugere que a ginástica é uma estratégia eficiente para manter o equilíbrio do corpo humano.

Mesmo não sendo médico, a preocupação do autor francês com as relações entre saúde e educação acabava por reiterar a importância da medicina no que tange à instrução da infância e da juventude. Na Revista Médica Fluminense já houvera antes uma aproximação entre a ginástica e a formação de crianças e da “mocidade”. Nesse caso, todavia, se tratava de uma obra reconhecida no campo educacional, aprovada e adotada pelo Conselho Real de Instrução Pública francês. O periódico, nesse sentido, procura endossar a autoridade do saber médico a partir do reconhecimento da legitimidade que outras áreas lhe conferem.

Alguns anos depois, em 1839, um artigo sobre pneumonia tuberculosa, de autoria de Mr. Fourcault, é publicado na Revista Médica Fluminense[7]. Ao tratar da influência do clima e dos lugares nas afecções ligadas à doença, o autor destaca o problema da falta de exercícios (passeios, corridas, ginástica, dança e esgrima):

É sobretudo na segunda infância, e ao tocar a época da puberdade, que se deve prevenir a incubação lenta e graduada das moléstias tuberculosas; desditosos os meninos débeis e linfáticos, cuja inteligência prematura se cultiva à custa das forças físicas! Os estudos porfiados, a falta de exercício ao ar livre, alteram sua constituição, e os dispõe às mais graves afecções. Os passeios frequentes, as carreiras, a ginástica, a esgrima, a dança etc., são pois indispensáveis na tenra idade para manter o equilíbrio de uma importante função (p. 112).

A ginástica – entendida como um conjunto específico de técnicas corporais ou como sinônimo de qualquer exercício – passaria, no decorrer do século XIX, a ser citada em diversos estudos associados ao tratamento de moléstias de diferentes naturezas: enxaqueca[8], anemia[9], tísica[10],[11], paralisia[12], ortopedia[13], alienação mental[14], doenças crônicas do coração[15] etc.

Ainda em 1839, um médico publicaria um artigo sobre os benefícios da ginástica em terras brasileiras. Mas essa história ficará para um próximo post.


* Parte do texto foi publicado originalmente em: PERES, Fabio de Faria e MELO, Victor Andrade de. O trato da gymnastica nas revistas médicas do Rio de Janeiro na primeira metade do século 19. História da Educação [online]. 2015, v. 19, n. 46, pp. 167-185. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/2236-3459/46494&gt;. ISSN 2236-3459.

[1] A linguagem, o formato, a análise de dados, a citação de referências e pesquisas acadêmicas no corpo do texto, entre outros, são aspectos que os diferem do gênero ensaio.

[2] Brasil. Decreto de 8 de Maio de 1835. Converte a Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro em Academia, com o titulo de Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro; e dá-lhe estatutos. Na ocasião, a Academia passou a receber recursos do Tesouro público.

[3] Diário do Rio de Janeiro, 09/03/1838, p. 1.

[4] Museu Universal, ed. 43, 28/04/1838, p. 341.

[5] Além de diretor do Ginásio Normal de Paris, Francisco Amoros (Valência, 1770 – Paris, 1848) é considerado um dos precursores da Educação Física moderna e um dos difusores do ensino da ginástica na França. Para mais informações, ver Sirvent (2005) e Arnal (2009).

[6] Revista Médica Fluminense, ed. 1, vol. II, abril de 1836, p. 237-243.

[7] Revista Médica Fluminense, ed. 3, junho de 1839, p. 103-112.

[8] Arquivo Médico Brasileiro, dezembro de 1846, p. 89.

[9] Arquivo Médico Brasileiro, janeiro de 1848, p. 73-77.

[10] Arquivo Médico Brasileiro, abril de 1847, p. 175.

[11] O Progresso Médico, 1877, p. 449-457.

[12] Annaes Brasilienses de Medicina, abril de 1852, p. 172-177.

[13] Annaes Brasilienses de Medicina, outubro de 1853, p. 13-16.

[14] Annaes de Medicina Brasiliense, julho de 1848, p. 12-16

[15] O Brasil Médico, setembro de 1888, p. 266-269.


PESQUISA DE MESTRADO NA UFRJ IRÁ COMPARAR PICOS CLÁSSICOS EM SÃO PAULO/SP E RIO DE JANEIRO/RJ[1]

10/05/2021

Entrevista realizada por: Prof. Dr. Leonardo Brandão (FURB)

Instagram: leobrandao77


As pesquisas universitárias sobre skate no Brasil vem crescendo tanto em quantidade quanto em qualidade. Já são vários os Trabalhos de Conclusão de Curso (os famosos TCC’s) que abordam, sob diferentes ângulos, a prática e a cultura do skateboard. Algumas pesquisas avançam também na Pós-Graduação, com dissertações de Mestrado   e Teses de Doutorado. Neste âmbito, a mais recente pesquisa aprovada para se tornar uma dissertação de Mestrado vem do Rio de Janeiro/RJ, na pessoa do geógrafo e skatista Luciano Hermes (43 anos), que recentemente foi aprovado no Mestrado em História Comparada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e com um projeto que visa comparar os processos de reivindicação da prática do skate em dois picos clássicos, o Vale do Anhangabaú em São Paulo (que agora é o Memorial) e a famosa Praça XV no Rio de Janeiro/RJ

Conversei um pouco com Luciano para conhecê-lo melhor e saber um pouco mais de seu projeto de pesquisa, seus objetivos e como ele pretende realizá-lo. A seguir, nosso bate-papo:

1 – Olá Luciano! Gostaria que você se apresentasse, contando um pouco sobre você, em especial sua trajetória na cena do skate e acadêmica.

Olá! Meu nome é Luciano Hermes da Silva. Tenho 43 anos e sou skatista desde 1989. Comecei a andar de skate no breve período de existência da Associação de Skate de São Gonçalo (ASSG). A primeira coisa que se reparava era que os próprios skatistas, em regime de mutirão, montavam rampas e trilhos para andarem de skate em uma rua de asfalto liso. A família de um dos skatistas não se incomodava com a sessão em frente de casa, como também deixava guardar na garagem os obstáculos. A ASSG organizou alguns campeonatos de skate entre 1988 e 1989 que foram muito importantes para a História do skate no RJ.

Bom que se diga, que na virada da década de 1980 até meados da década de 1990, muita coisa mudou no skate e na sua própria prática. Daí que a cada nova fase, um certo tipo de pico se tornava mais frequentado por nós. De início as rampas de madeira da ASSG, e depois, o ringue de patinação do Campo de São Bento, as mini-ramps (Lauro Müller, Urca, Piratininga e Mutuá), a pista de São Francisco, além dos precários picos de rua.

A prática de skate intensa até 1997 foi interrompida por causa de trabalho e estudos, até que só foi ‘resgatada’ junto com a liberação do skate na Praça XV, em 2011.

Atuo como professor de Geografia desde 2001 e, de 2012 até os dias de hoje, trabalho como professor de Geografia na rede municipal do Rio de Janeiro.

A partir de 2013, juntamente com Nelson Diniz, que é também skatista, professor e pesquisador em Planejamento Urbano e Regional, iniciou-se um esforço analítico sobre a prática do skate. Em coautoria, publicamos e apresentamos ao debate acadêmico algumas elaborações nossas a respeito dos conflitos relativos à prática do skate em espaços públicos no Rio de Janeiro.

Fui recentemente aprovado no mestrado no Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ (PPGHC-UFRJ), na turma de 2021, com o projeto cujo título é: “O skate conquista o centro da cidade: Praça XV-RJ e Vale do Anhangabaú-SP em perspectiva comparada”.

2 – Explique como você teve a ideia de escrever este projeto de mestrado que foi aprovado na UFRJ e qual o seu objetivo?

A pesquisa sobre a prática do skate em espaços públicos nos permitiu identificar padrões de ação dos skatistas e dos gestores urbanos no caso da Praça XV, no Rio de Janeiro. De modo que, ao observar o que se passou no Vale do Anhangabaú, já se dispunha de alguns conceitos.

A ideia decorreu do interesse em identificar semelhanças e diferenças nos dois casos. O objetivo central do projeto é estabelecer uma perspectiva comparada dos padrões de ação dos skatistas organizados no Coletivo XV e no Salve o Vale nos processos de reivindicação de uso dos espaços públicos da Praça XV e do Vale do Anhangabaú.

Entre os objetivos específicos da pesquisa, um merece destaque: a discussão sobre a centralidade da categoria espaço público nos discursos dos dois casos considerados.

3 – Como você fará esta pesquisa? Fale um pouco sobre a questão do método.

O projeto está sob orientação do Professor Dr. Fernando Luiz Vale Castro e sob co-orientação da Professora Drª Andréa Casa Nova Maia, o que significa algumas mudanças de estratégia no decorrer do curso. De toda forma, o plano inclui os seguintes procedimentos: revisão da literatura, realização de entrevistas, trabalhos de campo de observação participante, pesquisa iconográfica e audiovisual.

A análise dos Decretos e dos Planos Diretores subsidiará o estabelecimento dos marcos temporais, bem como a elaboração dos questionários das entrevistas.

Como se trata de um processo recente e de pouca sistematização a respeito, o recurso das entrevistas é de grande relevância. Pretende-se realizar entrevistas com os skatistas responsáveis pela organização do Coletivo XV e do Salve o Vale, com representantes das instituições da administração públicas envolvidas nos processos de negociação (Secretaria de Parques e Jardins e Instituo Nacional do Patrimônio Histórico, no Rio de Janeiro e Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras, em São Paulo), bem como com representantes das empresas responsáveis pela construção dos mobiliários urbanos adicionados à Praça XV.

A observação participante é o recurso ao qual se recorrer para o registro da dinâmica da normalidade dos espaços públicos considerados. Pretende-se adotar a prática do registro em diário de campo para a tomada de notas a respeito, por exemplo, do convívio entre skatistas e demais frequentadores e transeuntes tanto da Praça XV, quanto do Vale do Anhangabaú.

Através dos registros fotográficos e audiovisuais, tanto das mídias especializadas, quanto dos acervos particulares, pretende-se reconstituir a trajetória da ocupação dos skatistas na Praça XV e no Vale do Anhangabaú.

4 – O espaço final é seu. Deixe algum recado para quem está lendo essa entrevista e pretende pesquisar skate na Universidade.

Muito obrigado pela recepção e pela consideração à pesquisa.

Diria que o mais importante é definir qual aspecto do skate se vai investigar. Com o objeto bem definido é que se elabora uma questão para ser pesquisada. Um exemplo banal, no caso da História do skate: “Quais manobras já mandaram subindo o corrimão tal?” Nenhuma das manobras descendo o corrimão responde à questão.

No mais, diria que a recepção é sempre muito boa quando se apresenta a ideia a outros pesquisadores.

O caminho está minimamente pavimentado, na medida em que há, tanto no Brasil quanto em outros países, uma produção considerada válida para se tomar por referência.

SAIBA MAIS

“O que o skate pode dizer sobre o ensino de geografia?”

Luciano Hermes da Silva e Nelson Diniz (2014)

https://www.cp2.g12.br/ojs/index.php/GIRAMUNDO/article/view/50

“Contra-uso skatista de espaços públicos no Rio de Janeiro”

Nelson Diniz e Luciano Hermes da Silva

http://emetropolis.net/artigo/202?name=contra-uso-skatista-de-espacos-publicos-no-rio-de-janeiro


[1] Publicado originalmente, com pequenas alterações, no site da revista CemporcentoSKATE.


Histórias do esporte e das práticas corporais em Rubem Fonseca (parte 2)

26/04/2020
Por Fabio Peres

Em A grande arte (1983), romance de Rubem Fonseca, o protagonista-narrador Mandrake nos conta que:

[…] lembrava do primeiro dia: uma noite, ia passando pela avenida Ataulfo de Paiva e vi as janelas iluminadas de uma academia de ginástica. Desde os tempos de Eva Cavalcanti Meier eu ficara fascinado pelas mulheres que faziam ginástica. Mas essa era outra história. Na academia várias mulheres corriam em fila, ao som de música que não se ouvia da calçada. A frente, de malha preta, uma mulher alta e magra, de pernas longas e fortes, o pescoço meio curvado, movimentava-se sem esforço. Esperei a aula acabar e ela sair. Abordei-a na rua. “Estava vendo você fazer ginástica. Parecia um cavalo num quadro de Ucello”, eu disse. “Eu sei quem é Ucello”, ela disse, “da Uffizi”. Não era o da Uffizi era o do Louvre, o negro do centro, com as patas levantadas, mordendo os freios, o focinho torcido para a esquerda. Ela não falava com estranhos, mas meu rosto inspirava confiança a todas as mulheres do mundo. Além disso, era a primeira vez que alguém lhe dizia que ela parecia um cavalo (grifos nossos).

Em um post anterior, defendi que talvez poderíamos usar o adjetivo esportivo para qualificar a literatura de Rubem Fonseca, escritor recém falecido no último dia 15.

O argumento – na época de publicação do post – era que, não apenas o fenômeno esportivo esteve frequentemente presente desde os seus primeiros escritos, como também as diferentes narrativas para representar as práticas esportivas e corporais  eram impregnadas de temporalidades e espacialidades que lhe conferiam uma, por assim dizer, consciência histórica.

A Batalha de San Romano (c. 1435 a 1440). Paolo Uccello. Museu do Louvre (Paris, França). Obra mencionada em A Grande Arte (FONSECA, 1983), na qual a ginástica realizada por uma personagem é comparada ao cavalo negro representda no centro do quadro.

Ao defender a possibilidade de tratar a literatura de Fonseca como objeto ou fonte histórica, a provocação era uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira de nos ajudar a entrever histórias justapostas e entrecruzadas à prática esportiva: histórias “do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia”, entre tantas outras, que a obra fonsequina é capaz de revelar.

Se as histórias são mais ou menos conservadoras ou críticas, lineares ou complexas, ambíguas ou unívocas, sem nuances, é algo que a História do Esporte ainda precisa melhor investigar. Constitui um duplo e intrincado desafio de reconstruir o universo do autor, historicamente situado, e o “mundo” que o texto procura expressar.

Como forma de homenagear o “realismo feroz” de sua obra, como definiu Antonio Candido (1989, p.210), e sua literatura esportiva, reproduzo a seguir o conto O desempenho, publicado em 1969 no livro Lúcia McCartney, no qual uma luta de Vale-tudo é narrada em primeira pessoa.

Clique na imagem para acessar O desempenho (1969).

Sem dúvida, a “vida pregressa como boxeador, jogador de basquete, atleta aquático (chegou a nadar três vezes por semana do Morro da Viúva à Praça 15)” de Rubem Fonseca – como relata seu amigo, jornalista, também escritor, Sergio Augusto (2020) – ajuda a entender a presença e a estética atribuída a tais práticas em suas obras. Mas essa história ficará para um próximo post.

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AUGUSTO, Sérgio. Zé Rubem. Estado de S. Paulo. Especial, H8, 25 de abril de 2020.

CANDIDO, Antonio. A educação pela noite & outros ensaios. Rio de Janeiro: Ática, 1989.


As ideias de Jahn na sociedade da Corte: Deutscher Turnverein

24/11/2019

Fabio Peres e Victor Melo[i]

 

Em 1859, se estruturou, no Rio de Janeiro, a Sociedade Alemã de Ginástica (nos jornais também, por vezes, chamada de Clube Ginástico Alemão), a pioneira agremiação dessa natureza na América do Sul. Sua primeira sede se localizava na Praia de Santa Luzia[ii], no centro da cidade, provavelmente na residência de um dos membros da diretoria, H.W. Reimer[iii].

Em 1861, o clube foi convocado a se ajustar ao decreto 2.711, de 19 de dezembro de 1860[iv]. Deveria solicitar tanto autorização para funcionamento quanto a aprovação de seus estatutos, para que não incorresse no artigo 5º do decreto 2.686, de 10 de novembro de 1860[v]. Quase um ano depois, em outubro de 1862, a agremiação recebeu a licença para continuar a funcionar[vi].

Seus estatutos, contudo, sofreram alterações, claramente indicações do exercício do controle governamental. Uma das exigências estabelecidas é que fosse suprimido o artigo que indicava que a Sociedade seria regida pelas regras germânicas. Exigia-se ainda que o uniforme do clube somente fosse “usado dentro dos edifícios, e lugares sociais, e não nas ruas, ou praças públicas”[vii]. No futuro, o mesmo não será solicitado de outros grupos ginásticos. Tal decisão, naquele momento, pode ter algumas razões: a preocupação com a exibição pública de símbolos de outras nações; ou mesmo simples mudanças de critérios, que, de fato, nem sempre foram muitos claros.

Devemos lembrar que a Alemanha somente concretizou o seu processo de unificação em 1871. Esse aspecto deve ser levado em conta para melhor entendermos o perfil das agremiações germânicas no Brasil instaladas, inclusive o caso da Sociedade Ginástica Alemã. Ajuda a compreender, por exemplo, a força com que certos símbolos eram cultuados, um sinal de desejo de fortalecimento de uma identidade que, embora de construção bastante antiga, ainda estava se estruturando como Estado-Nação[viii].

Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro (RJ), 1867, p.378.

Nos estatutos, estabeleceu-se um nome alemão de referência junto a sua denominação (“Deutscher Turnverein, Sociedade Ginástica Alemã”), bem como o idioma germânico como o que deveria ser adotado nas reuniões. Além de deixar claros os vínculos com a Alemanha, esses artifícios estabeleciam um perfil desejado de associado.

Havia três categorias de sócios: ativos, aqueles que participavam dos exercícios ginásticos; passivos, que não participavam dessas atividades; e alunos de ginástica, categoria destinada aos menores de 18 anos. Somente aos primeiros era concedida a prerrogativa de deliberar nas assembleias, sinal de que a prática era mesmo considerada de importância na agremiação.

Os intuitos do clube eram assim explicitados:

a) Cultivar as forças físicas e intelectuais dos seus membros;

b) Estabelecer relações entre todos os Alemães existentes no Brasil[ix].

Sua fundação tinha motivações semelhantes às que levaram à criação de outras congêneres alemãs, como a Sociedade Germânia, fundada em 1821 e até hoje existente[x]. Era a materialização do desejo de um grupo de estrangeiros de estabelecer laços de sociabilidade ao redor de hábitos culturais de seu lugar de origem. Deixava-se claro nos estatutos que “Cada novo membro é considerado como irmão e amigo”.

Estabeleceu-se como divisa “Frisch, Fromm, Froehlirh, Frei (Fresco, bom, allegre, livre)” e como saudação “Gut Heil (boa ventura)”[xi]. Tratava-se de uma clara vinculação com as ideias de Friedrich Jahn, principal líder do movimento alemão de ginástica, no qual a prática era concebida como uma escola de vida, com regras morais muito bem definidas[xii]. Nas Turnverein, que no Brasil foram muito atuantes em outras cidades (como São Paulo, Juiz de Fora e cidades da região sul do país), concebia-se que os exercícios deveriam estar a serviço da aquisição de determinados comportamentos[xiii].

Essas concepções manifestavam-se claramente na dinâmica cotidiana da sociedade. Os estatutos procuravam garantir de forma rigorosa o seu bom funcionamento. O presidente gozava de grande poder, mas tinha que se reportar, em muitos casos, ao Conselho, uma diretoria formada por 11 membros. Entre os cargos, percebe-se a valorização de algumas atividades: além da ginástica, o canto e a leitura.

Muitos eram os itens destinados a regulamentar a prática da ginástica. Havia indicações sobre a manutenção dos espaços e aparelhos, bem como sobre a dinamização dos ensaios/aulas, dirigidos pelos que melhor desempenho demostrassem: “Os ensaiadores serão escolhidos entre os membros da primeira divisão[xiv]. Superioridade na execução dos exercícios e vivo interesse para a Sociedade decidem a escolha”[xv]. Mais ainda, previa-se: “Os ensaiadores executam os exercícios uma vez por semana na presença do Presidente”[xvi].

Vejamos, portanto, que, a princípio, não se previra a contratação de professores. Os ensaiadores eram escolhidos entre os sócios, considerados personalidades de grande importância. Todos deveriam seguir suas determinações nas aulas/ensaios. Previa-se que:

“Ao ensaiador é lícito excluir da sua divisão qualquer membro que não se portar convenientemente; deverá, porém findos os exercícios, comunicá-lo ao Presidente, cuja resolução determinará mais especialmente as providências que se devem dar”.

Com o decorrer do tempo, houve professores contratados? Não conseguimos identificar. De fato, das sociedades ginásticas que existiram no Rio de Janeiro, o clube dos alemães foi o mais discreto. Nas fontes consultadas, somente eventualmente se vislumbra algo de suas atividades. Por exemplo, em um relatório publicado na Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, a respeito do funcionamento do Jardim Botânico, ficamos sabendo que, em 1884, a colônia alemã organizou uma festividade em honra do Príncipe da Prússia, composta por um banquete, música, canto, ginástica e dança”[xvii]. Não muito mais do que isso. Vejamos que a informação sequer foi publicada em um periódico de grande circulação.

De toda maneira, é possível perceber que o clube se manteve bem ativo no decorrer do século XIX, não só no que se refere aos exercícios ginásticos, como também promovendo atividades sociais, como bailes, saraus, passeios, reuniões de associados[xviii].

Mais conhecida e ativa na vida social da Corte foi a Sociedade Francesa de Ginástica, fundada em 1863. Mas essa história ficará para um próximo post.

 

[i] Texto foi publicado originalmente em MELO, Victor Andrade de; PERES, Fabio de Faria. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7Letras/Faperj, 2014. (Coleção Visão de Campo).

[ii] Em 1874, o clube já estava instalado na Ladeira do Castelo. Em 1884, transferiu-se para a rua do Riachuelo (na Imperial Fábrica de Cerveja Nacional, de Henrique e Leon Leiden). Dois anos depois se localizava na rua da Misericórdia (próxima ao Castelo); em 1888, na rua da Ajuda (nas redondezas da atual Cinelândia).

[iii] Almanak Laemmert, 1862.

[iv] Brasil. Decreto nº 2.711, de 19 de dezembro de 1860. Contém diversas disposições sobre a criação e organização dos Bancos, Companhias, Sociedades anônimas e outras (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1860, p. 1125, v. 1, pt II). Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-2711-19-dezembro-1860-556868-publicacaooriginal-77043-pe.html>. Acesso em: 26 mai. 2013.

[v] Brasil. Decreto nº 2.686, de 10 de Novembro de 1860. Marca o prazo dentro do qual os Bancos e outras Companhias e Sociedades anônimas, suas Caixas Filiais e agências, que atualmente funcionam sem autorização e aprovação de seus Estatutos, devem impetra-las (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1860, p. 1061, v. 1, pt II). Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-2686-10-novembro-1860-556835-publicacaooriginal-77005-pe.html>. Acesso em: 26 mai. 2013.

[vi] Brasil. Decreto nº 2.980, de 2 de Outubro de 1862. Concede á Sociedade Alemã de Ginástica autorização para continuar a exercer as suas funções, e aprova os respectivos Estatutos (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1862, p. 348, v. 1, pt. II). Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-2980-2-outubro-1862-555720-publicacaooriginal-75087-pe.html>. Acesso em: 26 mai. 2013.

[vii] Brasil, 1862, op. cit.

[viii] Para mais informações, ver Andrade (2007).

[ix] Brasil, 1862, op. cit.

[x] Para mais informações sobre a Sociedade Germânia, ver <http://cidadesportiva.wordpress.com/2011/08/27/germania-o-mais-antigo-clube/>. Acesso em: 26 mai. 2013.

[xi] Brasil, 1862, op. cit.

[xii] Para mais informações sobre as propostas de Jahn, ver estudo de Quitzau (2011).

[xiii] Na verdade, a ideia de turnen, que em sentido literal se refere à ginástica (como verbo ou substantivo), também incluía jogos, caminhadas, teatro e coral (TESCHE, 2000).

[xiv] Havia um ensaiador para cada divisão, turma formada por nível de desempenho.

[xv] Brasil, 1862, op. cit.

[xvi] Entre os ensaiadores, sabemos, por exemplo, por uma homenagem pelo clube realizada, que um dos mais ativos foi o dinamarquês Adolphe Jorge Guilherme Hamann. Em 1866, quando a Sociedade era presidida pelo mestre de ginástica H. Frey, um professor de esgrima é admitido no Conselho (M. Sturzenecker).

[xvii] Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, março de 1884, p. 123.

[xviii] Para um olhar sobre a presença de alemães na sociedade da Corte, ver Lenz (1999) e Kelli (2011).


Alfândega, noitadas e mercadorias de presente: uma breve passagem de surfistas sul-africanos pelo Rio de Janeiro

19/08/2019

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

A África do Sul tinha papel importante no cenário internacional do surfe na segunda metade dos anos 1970, tanto pela qualidade das ondas de seu território quanto pela participação de surfistas, dirigentes, juízes, empresários e/ou profissionais de mídia, entre outros, oriundos daquele país. Isto se dava concomitantemente ao crescente isolamento internacional do país, que incluía boicotes como forma de pressão contra os sucessivos governos devido à política de segregação racial conhecida como apartheid. Nos últimos anos, tenho me dedicado tanto a investigar o lugar peculiar do surfe em meio ao boicote esportivo internacional, como também às representações do Brasil e do Rio de Janeiro em revistas internacionais.

Um dos indícios de uma cultura e economia do surfe fortes em um determinado país nos anos 1970 e 1980 é a existência de publicações especializadas, sobretudo revistas. Criada em 1976 na cidade de Durban e ainda em circulação, Zigzag é a mais longeva e provavelmente a mais importante revista de surfe da África do Sul. A edição de junho-agosto (a periodicidade era então trimestral) de 1979 trouxe matéria a respeito de uma viagem realizada por três surfistas às Américas. Os sul-africanos – um deles, autor do texto – viajaram para Brasil, Peru e Canadá. Eis dois trechos:

“(…) passar pela alfândega no Rio de Janeiro (…) Medo de possivelmente passar horas tentando convencer um funcionário olhudo de que só tenho mercadorias para os pobres ratos de surfe brasileiros. Para minha surpresa, sou liberado após dar ao cavalheiro um exemplar de ZigZag – ele ficou amarradão. A animação de Rico ao ver um funcionário da alfândega de fato sorrindo foi contagiante. Os dias que se seguiram são selvagens com noites loucas e gente amigável vivendo apenas o agora. Rico e sua bela mulher Bia quase me convencem a ficar para o Carnaval, mas o chamado da minha próxima parada é grande demais. 1980 será meu ano de carnaval! (…)

Em verdadeiro estilo sul-americano, um voo de seis horas leva 12 para chegar a Lima após o piloto decidir que precisa de algumas horas de pausa para um lanche e faz uma escala imprevista em São Paulo.” (LARMONT, Mike. The Snow Boogie. Zigzag, jun.-ago. 1979. Tradução minha. Abaixo, a primeira página do texto.)

Gostaria de abordar brevemente quatro pontos no trecho citado. Primeiro, as referências à passagem pelo controle alfandegário na entrada em território brasileiro, ocorrida no aeroporto internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Larmont afirma que estava receoso quanto ao trato que receberia por parte dos funcionários responsáveis pela revista de bagagens e a como classificariam os objetos que trazia – segundo ele, agrados para presentear surfistas brasileiros. Relata ainda ter sido um exemplar da própria Zigzag o argumento final que permitiu o desenrolo (como se diria na linguagem corrente das quebradas cariocas) com o trabalhador da alfândega. Seria este um servidor público da Receita Federal? Acredito que sim, embora não seja possível afirmar ao certo. Seria ele um adepto do surfe ou, ao menos, um interessado na modalidade? Também é difícil dizer, mas parece que o exemplar da publicação despertou interesse no servidor, talvez por gosto pessoal, talvez por configurar um item raro a ser dado de presente a uma pessoa querida. Haveria, além dos números de Zigzag, outros itens/mercadorias trazidos como presente na bagagem? A partir do próprio texto não é possível responder.

Segundo, a recepção por parte de Rico de Souza, surfista com grande circulação e contatos internacionais no período. Acredito que as relações de amizade, acolhimento e/ou reciprocidade estabelecidas entre adeptos de diferentes países foram importantes, tanto para reduzir os altos custos envolvidos nas viagens (ficar na casa de conhecidos eliminava os custos de hospedagem e, em alguma medida, de traslados e alimentação), ajudando a viabilizá-las, quanto por facilitarem o acesso a informações (como condições do mar em diferentes praias) e os trâmites do dia-a-dia (facilita muito a vida do viajante, especialmente o monoglota, estar acompanhado de alguém com conhecimento de hábitos e idioma locais). Esta questão, que tem aparecido em diferentes fontes em minhas pesquisas, ainda não foi explorada pelos estudos históricos sobre o surfe – ao menos aqueles publicados em inglês, espanhol ou português.

Terceiro, algumas das menções ao Brasil e aos brasileiros. O autor destaca a beleza de uma mulher (a anfitriã), usa a palavra selvagem para adjetivar as noitadas (o termo também aparece com frequência nas caracterizações da África do Sul feitas por estrangeiros – brasileiros, inclusive) acompanhadas de “gente amigável” que vivia apenas o presente. As intensas atividades de lazer e o estímulo dos anfitriões quase levam o viajante mudar os planos e esticar a estada para incluir o período do Carnaval.

Por fim, a decisão do piloto de realizar uma escala imprevista durante o voo Rio de Janeiro-Lima é classificada como parte de um “verdadeiro estilo sul-americano” – a ver se tal categorização aparecerá em outras edições quando se menciona o Brasil e demais países do continente. Os sul-africanos seguiram viagem rumo a terras peruanas e, posteriormente, da América do Norte, onde os meses iniciais do ano correspondem ao inverno. No Canadá, como se pode notar nas fotos que ilustram a página, os sul-africanos praticaram esqui e snowboard. Era muito comum, na época, que os adeptos de uma modalidade dedicassem parte relevante do seu tempo a outras. No caso do surfe, aqueles com acesso a áreas com neve (como alguns estadunidenses e franceses, por exemplo), costumavam praticar esportes de inverno durante férias, feriados e períodos com pouca oferta de boas ondas. Esse intercâmbio de modalidades é um aspecto ainda pouco explorado nas pesquisas sobre a história do esporte que situam seu recorte na segunda metade do século XX – talvez nos levando a acreditar numa excessiva especialização que não correspondia à experiência concreta do adepto comum, e quiçá tampouco de vários atletas de ponta no âmbito competitivo mais comercial/profissional.

Para saber mais

Conferir os trabalhos do historiador Glen Thompson, incluindo sua tese de doutorado Surfing, Gender and Politics: Identity and Society in the History of South African Surfing Culture in the Twentieth-Century, defendida em 2015 na Stellenbosch University. Agradeço a ele por me facilitar a consulta de seu acervo pessoal de revistas sul-africanas, entre as quais a edição mencionada neste texto.

Uma coleção de capas escaneadas de Zigzag está disponível no site de Al Hunt.

A pesquisa que deu origem a este post tem apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), por meio do edital Jovem Cientista do Nosso Estado (2017).


A História de uma Policronofonia (parte 2): apontamentos sobre a educação física e a ginástica no Rio de Janeiro do século XIX

23/06/2019

Fabio Peres

No dia 27/09/1876, o jornal O Globo, em sua seção de Espetáculos, publicava um anúncio (de tamanho expressivo) do Circo Chiarini. O Circo se apresentaria em São Cristóvão às 20h daquela noite.

Logo abaixo de uma imagem de animais que se assemelhavam a zebras, o anúncio destacava “10 razões incontestáveis” para visitar o circo. Entre elas, argumentava-se que o espetáculo era:

*popular

* composto por artistas enciclopédicos;

* um divertimento para todas as inteligências;

Além desses motivos, por mais inusitado que possa parecer, o anúncio elencava como a 10ª razão para o público comparecer ao espetáculo o fato de o Circo Chiarini ser a verdadeira escola de educação física.

Afinal, desde a década de 1830 (ou seja, cerca de 40 anos até o espetáculo que seria realizado em São Cristovão), a família Chiarini se apresentava no Rio de Janeiro em circos de sua propriedade (como o Círculo Olímpico, inaugurado em 1837, no Largo da Ajuda, atual Cinelândia), depois renomeado Circo Olímpico).

O espetáculo era constituído de exercícios de força, ginástica e equilíbrio, bem como de saltos, lutas e apresentações equestres. Além também de malabarismo, dança, teatro, palhaços, entre outras performances.

E não poucas vezes a família usou a denominação “escola” para designar as práticas corporais de seu estabelecimento.

Por outro lado, cerca de 3 anos antes, em 1873, o renomado editor Alambary Luz do periódico A Instrução Pública, um dos primeiros periódicos brasileiros voltado especificamente para o campo da educação, não apenas defendia e celebrava a união das “vozes” da medicina e da pedagogia quando o assunto era a educação física e a ginástica (19/10/1873, p.385), como também demonstrava sua repugnância com a possibilidade de confusão entre “esta arte fundada nos sãos preceitos das sciencias médicas [isto é, a verdadeira ginástica] e o acrobatismo”. E conclui o seu texto: “ninguém espera saltimbancos”.

Mas afinal, quem era, naquele momento, portador legítimo da “verdadeira” educação física, da ginástica ou de outras práticas corporais?

 

Fantasmas e anacronismos

Um anacronismo comum na história da educação física e, em geral, das práticas corporais se refere a tentação de dotar certos protagonistas e instituições sociais do conhecimento do que aconteceu depois: como se aqueles atores sociais (investigados) antecipassem ou tivessem conhecimento do que eles se tornariam no futuro (NOVAIS, 2000). O historiador muitas vezes esquece que ele conhece a história, mas os personagens da história não.

Esse “pecado dos pecados, o pecado dentre todos imperdoável”, como o denominou Lucien Febvre (2009, p.33), embora nem sempre fácil de se desvencilhar no cotidiano da pesquisa[1],  consiste em “vestir” determinados atores  e contextos “com as roupas talhadas em outras épocas” e em outros lugares (ALENCASTRO, 1991).

Ainda caímos no contrassenso de pensar certos atores e instituições sociais com “roupas” de outras épocas e de outros lugares.

No caso da ginástica e da educação física, alguns estudos sugerem que era fraca sua manifestação no Rio de Janeiro do século XIX (MORENO, 2001), bem como enfatizam uma matriz médica e pedagógica na sua conformação (PAIVA, 2003; GONDRA, 2004).

Com frequência a história narrada sobre as práticas corporais não leva em consideração que as instituições relacionadas à educação, à medicina e às “forças” armadas no século XIX não eram nem como elas se auto representavam naquele momento, nem o que elas se tornariam posteriormente e tampouco que eram exatamente equivalentes às que existiam na Europa.

Ainda que discursivamente os agentes estatais, os médicos, bem como os militares e os educadores dissessem o contrário, as instituições a que pertenciam estavam longe de ser, pelo menos no século XIX, o que certas leituras apontam.

A questão não reside no fato da ginástica e da educação física terem sido incorporadas enquanto saber médico, pedagógico ou das “armas”.

De fato, saberes sobre a prática foram sendo paulatinamente incorporados e difundidos por atores e instituições que se atribuíam o domínio de tal conhecimento (como mostrado aqui, aqui e aqui). Mas esses eram mais heterogêneos e estavam mais em disputa do que determinadas narrativas parecem fazer acreditar: por exemplo, a “modernidade da ginástica” supostamente mostraria a “sua submissão, quase total, ao mundo da higiene, da medicina e da moral” (SOARES, 2009, p. 140).

Mesmo reconhecendo a pertinência de alguns desses argumentos – ou seja, as relações entre medicina, ciência, educação, ginástica e exercícios corporais diversos – o que estamos sugerindo é que elas não são suficientes para dar conta de entender a complexidade da presença da modalidade no cenário fluminense no decorrer daquele século.  Mas os pormenores dessa história ficarão para um próximo post.

__________________

[1] Observa-se, aliás, que outros fantasmas rodam outras disciplinas, como é o caso do etnocentrismo na antropologia.


Histórias do esporte em Rubem Fonseca (parte 1)

17/04/2017

por Fabio Peres

Cruel, realista, desconcertante, brutal, mórbido. Entre tantos termos utilizados para descrever a literatura de Rubem Fonseca, talvez possamos também adicionar o adjetivo esportivo. Afinal, basta uma breve leitura de sua obra para perceber que não são poucos os contos e romances em que o esporte e as atividades físicas, em geral, ocupam lugar – ora mais, ora menos – privilegiado.

Desde a publicação de Os Prisioneiros (1963), primeira coletânea de contos do autor, o objeto está lá, por assim dizer, em suas variadas formas; às vezes de maneira mais clara ou quase desapercebido de modo sútil. Como aponta a escritora Maria Alice Barroso, Rubem já se destacava no conto Fevereiro ou março (1963)  pela incorporação de “um excelente tipo à galeria de personagens da literatura brasileira: o atleta vagabundo, frequentador das academias de boxe, portador de uma ética toda sua” (apud AUGUSTO, 2009, posfácio)[i].

Capa da edição de 1963 de Os Prisioneiros

O personagem-narrador inicia a história descrevendo como a condessa Bernstroa, mulher casada com a qual teve um caso, explicava a manutenção de suas formas corporais:

Era uma velha, mas podia dizer que era uma mulher nova e dizia. Dizia: põe a mão aqui no meu peito e vê como é duro. E o peito era duro, mais duro que os das meninas que eu conhecia. Vê minha perna, dizia ela, como é dura. Era uma perna redonda e forte, com dois costureiros salientes e sólidos. Um verdadeiro mistério. Me explica esse mistério, perguntava eu, bêbado e agressivo. Esgrima, explicava a condessa, fiz parte da equipe olímpica austríaca de esgrima — mas eu sabia que ela mentia.

O personagem continua desfiando a história explicando como foi seu dia, um sábado de carnaval, marcado por certa imprevisibilidade e também, não por acaso, por certa angústia:

Era de manhã, no primeiro dia de carnaval. Ouvi dizer que certas pessoas vivem de acordo com um plano, sabem tudo o que vai acontecer com elas durante os dias, os meses, os anos. […] Eu — eu vaguei pela rua, olhando as mulheres. De manhã não tem muita coisa para ver. Parei numa esquina, comprei uma pera, comi e comecei a ficar inquieto. Fui para a academia.

A descrição dos exercícios na academia é acompanhada por uma série de sentidos, pensamentos, práticas e gestos:

[…] comecei com um supino de noventa quilos, três vezes oito. O olho vai saltar, disse Fausto, parando de se olhar no espelho grande da parede e me espiando enquanto somava os pesos da barra. Vou fazer quatro séries pro peito, de cavalo, e cinco para o braço, disse eu, série de massa, menino, pra homem, vou inchar. E comecei a castigar o corpo, com dois minutos de intervalo entre uma série e outra para o coração deixar de bater forte; e eu poder me olhar no espelho e ver o progresso. E inchei: quarenta e dois de braço, medidos na fita métrica.

A academia, por sua vez, é lugar de encontros, de construção (e também de desconstrução) de vínculos e laços sociais. Os amigos, frequentadores de academia -ao que tudo indica de um bairro da Zona Sul carioca –, organizam a “diversão” para aquele carnaval:  “porrada pra todo lado”. A ideia era simples. Se fantasiar de mulher e então:

O povo cerca a gente pensando que somos bichas, nós estrilamos com voz fina, quando eles quiserem tascar, a gente, e mais vocês, se for preciso, põe a maldade pra jambrar e fazemos um carnaval de porrada pra todo lado. Vamos acabar com tudo que é bloco de crioulo, no pau, mesmo, pra valer. Você topa?

Após alguns desdobramentos (e outras referências aos sentidos e usos do corpo), o narrador se auto descreve para o marido da condessa, adquirindo assim características de um novo “tipo” inserido em um meio social com senso moral e ético próprios, como chamou atenção Maria Alice Barroso:

na academia eu faço ginástica de graça e ajudo o João, que é o dono, que ainda me dá um dinheirinho por conta; vendo sangue pro banco de sangue, não muito para não atrapalhar a ginástica, mas sangue é bem-pago e o dia em que deixar de fazer ginástica vou vender mais e talvez viver só disso, ou principalmente disso. Nessa hora o conde ficou muito interessado e quis saber quantos gramas eu tirava, se eu não ficava tonto, qual era o meu tipo de sangue e outras coisas. Depois o conde disse que tinha uma proposta muito interessante para me fazer e que se eu aceitasse eu nunca mais precisaria vender sangue, a não ser que eu já estivesse viciado nisso, o que ele compreendia, pois respeitava todos os vícios. Não quis ouvir a proposta do conde, não deixei que ele a fizesse; afinal eu tinha dormido com a condessa, ficava feio me passar para o outro lado. Disse para ele, nada que o senhor tenha para me dar me interessa. Tenho a impressão que ele ficou magoado com o que eu disse […] Por isso, continuei, não vou ajudar o senhor a fazer nenhum mal à condessa, não conte comigo para isso. Mas como?, exclamou ele, […], mas eu só quero o bem dela, eu quero ajudá-la, ela precisa de mim, e também do senhor, deixe-me explicar tudo, parece que uma grande confusão está ocorrendo, deixe-me explicar, por favor. Não deixei. Fui-me embora. Não quis explicações. Afinal, elas de nada serviriam.

No mesmo livro (Os prisioneiros de 1963) novamente a ginástica, a “malhação”, bem como as competições de “físico”, típicas de academia, seriam mencionadas no conto Os inimigos; para alguns críticos da época o melhor da coletânea. Além disso, o conto que dá nome ao livro curiosamente se inicia por uma conversa entre uma psicanalista e um cliente sobre a inconveniência e mesmo inadequação de usar roupa “esportiva” no Centro da cidade, lugar por excelência de trabalho.

O panorama, por assim dizer, esportivo da literatura de Rubem Fonseca, de fato, é vasto e instigante. Por exemplo, o ambiente e os frequentadores de academia voltariam a fazer parte da obra do autor em 1965 no conto A Força Humana (do livro A Coleira do cão). Na realidade, trata-se em certo sentido de uma continuação de Fevereiro ou março. Já em 1969, o antigo Vale-Tudo seria objeto central do conto O Desempenho no famoso livro Lúcia McCartney.

Em 1979, breves referências ao futebol e ao balé apareceriam em O cobrador (no livro homônimo). Na mesma obra menções à ginástica retornariam em Mandrake (além do xadrez) e, em 1992, em o Romance Negro. Por outro lado, uma competição inusitada no Pantanal está em AA (abreviação do “esporte” de mesmo nome) em 1998 no livro a Confraria dos Espadas. Também em 1992, há uma menção à rua do Jogo da Bola – uma prática de diversão que esteve presente na cidade do Rio de Janeiro no século XVIII e XIX[ii] – em A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro.

Em 2001, exercícios aeróbicos, de alongamento e de musculação são citados em Copromancia, na obra Secreções, excreções e desatinos. Corrida na praia aparece em Caderninhos de nomes no ano seguinte em Pequenas criaturas. Em Laurinha surge mais uma vez uma referência ao futebol no livro Ela e outras mulheres de 2006. E a relação de Lima Barreto com o futebol é citada no romance O seminarista de 2009.

Mas essas e outras histórias ficarão para os próximos posts. Em todo caso, mais do que uma mera provocação, denominar a literatura de Rubem Fonseca de esportiva pode ser uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira talvez que nos ajude a entrecruzar várias histórias: do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia, das diferentes modalidades e práticas esportivas, das emoções, da estética, da literatura, entre muitas outras histórias.

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[i] AUGUSTO, Sergio. Estreia consagradora. In: FONSECA, Rubem. Os prisioneiros. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

[ii] Maiores informações ver MELO, Victor Andrade de. MUDANÇAS NOS PADRÕES DE SOCIABILIDADE E DIVERSÃO: O jogo da bola no Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). História,  Franca ,  v. 35,  e105,    2016 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742016000100514&lng=en&nrm=iso>. access on  17  Apr.  2017.  Epub Dec 19, 2016.  http://dx.doi.org/10.1590/1980-436920160000000105.


3, 2, 1… Colombia en los Juegos Olímpicos

01/08/2016

Por:
David Quitián

Esta semana empieza la trigésimo primera edición de los Juegos Olímpicos de la era moderna. Los “Juegos Olímpicos de verano” –como también se les conoce- se realizarán en la estación de invierno del hemisferio sur; detalle nominal que delata la eugenesia del evento inventado por el Barón Pierre Fredy de Coubertin (1863-1937).

Es la primera vez que las justas realizadas por el Comité Olímpico Internacional, COI, se escenifican en una nación lusófona y en suelo sudamericano. De esa forma Brasil comparte con México una doble coincidencia: ser los únicos países de América Latina que fueron sede y que –además- asumieron el doble reto de organizar también una Copa Mundo de fútbol en un lapso de dos años (México lo hizo a la inversa: Olímpicos en 1968 y Mundial en 1970).

Jorge Perry fue el primer colombiano en Olímpicos (el desmayo en su debut contribuyó a su leyenda).

              Jorge Perry Villate fue el primer colombiano en Juegos Olímpicos (el desmayo en su debut contribuyó a su leyenda).

Colombia inició su historia olímpica antes de constituir una entidad filial del COI: fue en Los Ángeles 1932 y desde entonces, con la excepción de Helsinki 1952, nunca dejó de participar en el programa atlético que tributa a la diosa griega Nike. Esa primera participación se dio con un boyacense de ascendencia inglesa y española que logró ser admitido para la prueba del maratón: Jorge Perry Villate apenas correría 10 kilómetros de la competencia, pero ganó medalla al mérito de la organización y pasó a la historia como el primer atleta olímpico del país.

Esa participación brindó el empujón que faltaba para que el Comité Olímpico Colombiano, COC, fuese creado el 03 de julio de 1936, días antes del siguiente programa olímpico en Berlín en el que competirían 5 atletas en representación del pabellón patrio. La fecha de creación de la entidad olímpica nacional fue motivo de celebración hace pocas semanas cuando se recordó la octogésima efeméride: en la fundación del COC –hace 80 años- estuvieron representantes del tenis, basquetbol, fútbol y atletismo; con la veeduría de periodistas de El Tiempo, El Espectador y El Mundo al Día.

Son en total 19 participaciones, para un total de 826 deportistas, de ellos 228 mujeres. La primera participación femenina fue en las justas de México a las que acudieron cinco atletas; pero fue desde los primeros juegos del milenio, en Sidney 2000, cuando la presencia de ellas alcanzó tal vigor al punto de superar la representación masculina en Londres 2012 (46 hombres y 58 mujeres) y estar igualada para el torneo en suelo carioca: al momento de publicar este post se han clasificado 73 mujeres y 75 hombres.

María Isabel Urrutia levantó en arranque 110 y en envión 135 kgs para ganar el oro en Sidney 2000

María Isabel Urrutia levantó en arranque 110 y en envión 135 kgs para ganar el oro en Sidney 2000

Sin embargo la eficacia femenina es superior: de las 19 medallas cosechadas en la historia de los juegos, nueve han sido conquistadas por ellas. Una razón más para el orgullo femenino es que los dos únicos oros fueron ganados por mujeres: María Isabel Urrutia en la prueba de levantamiento de pesas (75 kgs) en Sidney 2000 y Mariana Pajón en bicicrós hace cuatro años.

Las 19 medallas sumadas por las delegaciones colombianas a lo largo de los juegos (una en promedio por cada edición), se distribuyen así: 11 de bronce, 6 de plata y 2 de oro. Todas obtenidas en deportes individuales, en ocho disciplinas distintas, que incluyen pódiums de dos de los deportes nacionales: el ciclismo y el boxeo. La estadística es esta:

• Halterofilia: 4 (1 oro, 2 plata, 1 bronce)
• Ciclismo: 4 (1 oro, 1 plata, 2 bronce)
• Tiro deportivo: 2 (2 plata)
• Atletismo: 2 (1 plata, 1 bronce)
• Boxeo: 3 (3 bronces)
• Lucha: 2 (2 bronces)
• Judo: 1 (1 bronce)
• Taekwondo: 1 (1 bronce)

Esas cifras permiten plantear algunas generalidades que merecen mayor desarrollo en otro espacio académico:

• Las mujeres son más eficaces y su progreso es más notorio (9 medallas en 11 juegos)
• Los atletas afrocolombianos han ganado más del 50% de las medallas (10 de las 19)
• Antioquia (7 medallas, una de oro), Valle del Cauca (4 medallas, una de oro) ratifican internacionalmente su supremacía en el ámbito colombiano.
• Medellín es la ciudad de más campeones olímpicos (4), seguida por Barranquilla (2)
• La costa atlántica, como región, es la otra gran aportante de atletas y medallas olímpicas (5 preseas)
• El boxeo en Colombia es caribeño: casi la totalidad de los clasificados por ese deporte son costeños y los tres bronces cosechados hasta el momento son de pugilistas de esa región.
• Las medallas de halterofilia y boxeo han sido cosechadas por afrocolombianos; las de ciclismo por andinos (todos de Antioquia).
• Los logros en ciclismo demuestran que este es el deporte nacional por excelencia: 2 hombres y 2 mujeres (ambas han sido abanderadas) han colectado medallas en tres de las cuatro pruebas olímpicas del ciclismo: la ruta, la pista y el BMX.

Mariana Pajón es llamada la "reina de las pistas" del bicicrós. Medalla de oro del BMX en Londres 2012

Mariana Pajón es llamada la “reina de las pistas” del bicicrós. Medalla de oro del BMX en Londres 2012 y con posibilidades de repetir en Rio. 

Se viene el encendido de la pira olímpica, la cuenta regresiva ya es de un dígito. En breve comenzará a escribirse el libreto de unos juegos que –a juzgar por el cubrimiento de los medios nacionales- puede parecerse en emoción a lo vivido en el Mundial de Brasil 2014: habrá más periodistas colombianos que nunca (especialmente de pequeños medios regionales) y puede darse la llegada de un número de aficionados que se acerque a los 120 mil que vinieron hace dos años.

Por ahora la sensación es que son unos juegos “casi en casa” (de hecho, la Selección femenina de fútbol juega cerca de la frontera, en Manaos) y eso puede estimular una faena parecida a la histórica cifra de ocho medallas conseguidas en Londres 2012.

Llegan estos juegos en medio de un clima de efervescencia por el reciente título de Atletico Nacional en Copa Libetadores y de los podiums de los ciclistas (los “escarabajos”) en el Giro de Italia y el Tour de France.

Se da la largada para RIO 2016 y los que podemos estar en la “cidade maravilhosa” agradecemos la feliz oportunidad.

Twitter: @quitiman