Bra Boys

01/06/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

No Cineclube Sport de maio, vimos Bra Boys, dirigido por Sunny Aberton e Macario de Souza e lançado em 2007. O que segue abaixo é um conjunto de anotações de minha lavra, em parte estimuladas pelo filme, em parte pelo debate que se seguiu. Agradeço a todos(as) que participaram pelas estimulantes contribuições e questões.

O tema é um grupo de surfistas conhecidos como Bra Boys, residentes do bairro e locais da praia de Maroubra, em Sydney (Austrália).

Do ponto de vista estético, trata-se inegavelmente de um filme de surfe. Feito por e para surfistas, com cenas de surfe. Reifica determinadas visões sobre o esporte (quase todas positivas, muitas idealizadas), que permeiam um certo senso comum da modalidade. Por exemplo, a ideia de que o mar e o surfe fornecem um escape da sociedade. Em parte, evidentemente, isto é verdade. Mas é retratada como se o surfista, antes, durante e depois de surfar, não falasse ou convivesse com outros surfistas.

Do ponto de vista da circulação, me parece que não foi exibido em circuito no Brasil e na maioria dos países (exceto a Austrália e partes dos EUA), tendo circulado em festivais de documentários e festivais de filmes de surfe (obtendo prêmios em alguns destes).

Classe social e enquadramentos midiáticos

Bra Boys permite discutir a questão de classe social, bem como uma frase que escuto com frequência em âmbito acadêmico: “surfe é esporte de elite”. Na mesma linha, é um bom filme para debater estas perguntas: o que é o surfe? Há possibilidades de respostas universais para esta pergunta? Acredito que não. É preciso investigar as realidades locais. Buscar respostas locais para perguntas universais, como disse Giovanni Levi em texto que li recentemente (agradeço ao também escriba deste blogue, Victor Melo, pela indicação). Em outras palavras, à pergunta geral o que é o surfe?, é possível elaborar outras, específicas, para as quais Bra Boys dá algumas respostas e subsídios: o que é o surfe na Austrália? O que é o surfe para os australianos? O que é o surfe para aqueles garotos de Maroubra? O que é o surfe para os que ficam impedidos de surfar (por servirem nas forças armadas e terem sido transferidos para lugares sem onda; por estarem na prisão ou longe do litoral)?

(Pequena digressão: uma das coisas que mais me impressionaram e impactaram quando pesquisei revistas de surfe californianas publicadas entre os anos 1970 e 1990 foram as cartas de leitores enviadas desde a prisão. Fiquei impressionado por dois motivos: o teor das cartas; e também por, depois de um tempo, perceber que algumas prisões da Califórnia contavam com bibliotecas, que, por sua vez, tinham assinaturas de revistas de surfe – uma das leituras que mais atraíam jovens presos, muitos dos quais por crimes relacionados a drogas.)

Outro assunto a discutir é o enquadramento realizado pela mídia, que tende a tratar como banditismo as atividades desenvolvidas por grupos juvenis de camadas populares. Caminhando na direção oposta, o filme é uma construção realizada pelos próprios jovens: direção, produção, edição etc., exceto a narração, feita pelo ator Russel Crowe. Um dos motivos para fazê-lo, como afirmam logo no início, é estarem cansados de apanhar, sofrer abusos, ser tratados como bandidos ou invisíveis pela mídia, pelo governo e pela polícia (o tratamento da polícia para com esses jovens, guardadas as devidas proporções, parece muito mais civilizado do que o padrão vigente nas quebradas do Rio de Janeiro – o padrão do que é aceitável, é claro, pode mudar bastante de uma sociedade para outra). A cor da pele da maioria também é diferente daquela hegemônica entre os pobres do Rio, mas são, de fatos, jovens de uma área degradada. O alto número de mortos (sempre um indício de problemas) é um dado importante.

 

Território e localismo

Um dos principais assuntos/questões que o filme permite discutir é o vínculo com o território e o localismo. O localismo, em suas diferentes manifestações, é um fenômeno presente em praias de vários países, ainda que pouco apareça nas representações midiáticas do esporte. Pelo que observei até hoje, a postura mais comum é silenciar sobre o tema. E, na maioria das ocasiões em que é tratado, isto se dá sob a forma de crítica: o localismo é classificado como um comportamento atrasado, violento e de ignorantes. Contudo, algum grau de relativismo, contextualização e até glamourização pode ocorrer (às vezes combinado com criminalização e acusações) quando se trata do North Shore da ilha de Oahu, no Havaí. (Para uma interessante – embora a meu ver exageradamente engajada e maniqueísta – análise e crítica da criminalização promovida pela mídia hegemônica a respeito dos locais e do localimo no North Shore, ver o último capítulo de Walker, 2011).

Por outro lado, o bairro é pouquíssimo explorado na trama. Fiquei curioso para saber e entender mais, já que argumenta-se que o vínculo com ele é um dos aspectos que definem o caráter, a identidade e os valores desses jovens (como, por exemplo, a alegada rejeição do racismo e da xenofobia). Bra Boys argumenta que o localismo não necessariamente significa recusa e intolerância com relação ao outro. Quando se trata de uma comunidade “multicultural” como Maroubra, não é a etnia, religião ou país de origem que decidirá quem cabe no grupo: todos podem fazer parte do que é o nós.

Gênero e masculinidades

A partir tanto do comportamento dos personagens e do fato de serem praticamente todos masculinos, quanto da quase ausência de personagens femininas, é possível discutir questões relativas a gênero e masculinidade. Há ainda, o contraponto da avó Ma (possivelmente uma corruptela de “avó”, em inglês). É impressionante a força desta mulher, cuja casa é uma espécie de abrigo seguro (safe heaven, se diria em inglês) para crianças e adolescentes de famílias destrambelhadas e destruídas pela pobreza, desemprego, violência e drogas. Isso inclui os próprios netos de Ma, o trio de irmãos que protagoniza o filme (um deles co-diretor da obra).

Um tema que aparece rapidamente no filme são as diferentes medidas restritivas impostas pelo poder público aos banhistas australianos ao longo do século XX. Segundo Douglas Booth (2001), em seu fascinante livro sobre as culturas de praia australianas, houve momentos em que cercas de arame farpado dividiam as praias, de forma a separar homens de mulheres.

Por sinal, as restrições, perseguições e criminalização do surfe e dos surfistas são um dos muitos assuntos por investigar na história desta prática no país. Em alguns dos poucos trabalhos sobre a modalidade (Cunha, 2000; Fortes, 2011), há indícios de uma série de problemas, controvérsias e até notícias de mortes em vários municípios do litoral catarinense, Arraial do Cabo (RJ) e Recife (PE). Há tanto repressão e conflitos com o Estado quanto com determinados grupos ou setores da sociedade, como pescadores e banhistas. Também no caso da história do skate no Brasil, este é um caminho tão promissor quanto pouco explorado, exceto, até onde sei, por iniciativas pontuais do pesquisador Leonardo Brandão (como este e este artigos).

Bibliografia

BOOTH, Douglas. Australian Beach Cultures: The History of Sun, Sand and Surf. London: Frank Cass, 2001.

CUNHA, Delgado Goulart da. Pescadores e surfistas: uma disputa pelo uso do espaço da Praia Grande. 2000. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2000.

FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2011.

WALKER, Isaiah Helekunihi. Waves of Resistance: Surfing and History in Twentieth-Century Hawai’i. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2011.

 

 

 

 

 

 

 


Os museus de surfe da Califórnia

06/02/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Como prometi, hoje trato dos cinco museus de surfe localizados na Califórnia. Neste texto, estou usando a categoria nativa, ou seja, considero museus de surfe as cinco instituições que se classificam como tais. Eles se estendem desde Oceanside, no sul do estado, até Santa Cruz. Seguirei este trajeto sul-norte na ordem de apresentação. Todas as fotos sem crédito de autor foram feitas por mim. Informações específicas sobre itens dos acervos estão nas legendas das fotos.

California Surf Museum (CSM, Oceanside)

Este slideshow necessita de JavaScript.

Foi o museu em que estive mais vezes. Fica perto da estação de trem e do píer onde surfam e treinam locais e/ou profissionais – o píer aparece constamentemente em séries do canal Off.

Tem uma excelente coleção de revistas, que ficam numa sala confortável e exclusiva para pesquisadores. A pesquisa neste museu fez parte de uma experiência maior, daquelas que não têm preço nessa vida: durante o ano em que vivi na Califórnia, fui respeitado como pesquisador de história do surfe e da mídia do surfe de uma forma como raramente aconteceu noutros lugares – incluindo o Rio de Janeiro e o Brasil – em mais de dez anos dedicados ao tema.

Comandada pela historiadora Jane Schmauss, a equipe é prestativa e simpática – quando solicitadas por mim, as pessoas sorriam e se interessavam pelo meu trabalho, em vez de rosnarem, como acontece noutros lugares e cidades por aí. Conta com voluntários e trabalhadores assalariados. Segundo me explicou Jane, o museu recebe cerca de 25 mil visitantes anuais. O imóvel onde está há alguns anos pertence à Prefeitura de Oceanside – cuja sede fica próxima -, que o alugado a preço subsidiado. Ali pertinho também está a biblioteca municipal (a visita à biblioteca da cidade é um programa bacana, assim como em várias cidades e bairros californianos).

O forte do acervo, como em três outros museus, são as pranchas. Entre doações, empréstimos, exposição permanente e temporária, é possível ter contato com boa parte da produção de pranchas do sul da Califórnia desde os anos 1950. Há também exemplares mais antigos: paipos havaianos, pranchas para salvamento no mar etc. Mas o foco está nos shapers da própria região – vários dos quais são sócios contribuintes do próprio museu e doaram e/ou emprestaram pranchas de sua lavra. Algumas estão autografadas pelos shapers, outras, pelos que as surfaram. Há doações de Kelly Slater e de outros atletas famosos do esporte profissional e/ou das ondas grandes (nas ocasiões em que estive lá, a exposição temporária era sobre surfe em ondas grandes; preparava-se uma exposição sobre surfe durante a Guerra entre os EUA e o Vietnã). Há também seções dedicadas a outros aspectos, como bodyboard e surfe de peito. Tem uma vitrine muito interessante com jogos e brinquedos que têm o surfe como tema – de Barbie a Banco Imobiliário – e outra com dezenas de parafinas.

Sou suspeito para falar, pois nesse museu fiz parte de minha pesquisa de pós-doutorado. Além disso, tive uma experiência bacana como usuário (e não como pesquisador) em todas as ocasiões em que estive lá. Isso porque está em exibição a prancha de Bethany Hamilton – de quem eu nunca ouvira falar até recentemente. Trata-se de uma havaiana, de uma família de surfistas, que teve um braço arrancado por um tubarão enquanto pegava onda com uma amiga, aos 12 anos de idade. A história está contada em dois filmes (um documentário e um de ficção) e um livro. Bethany tornou-se ícone dos e das adolescentes e tem sua própria linha de produtos de beleza. Além disso, o que mais me impressionou: continuou surfando. E bem: embora não corra o circuito mundial, volta e meia participa de um etapa como convidada. Em 2016, chegou à semifinal da de Fiji – é bom lembrar, Bethany surfa com a desvantagem de não ter um braço para remar, se equilibrar e, dependendo do lado para o qual a onda quebra, adequar a velocidade colocando a mão na parede da onda e/ou segurando a borda da prancha.

Enfim, a experiência definitiva de visitante é ficar sentado num pufe, perto da prancha de Bethany, e esperar para ver alguma criança se aproximar (a Califórnia é cheia de crianças, tanto locais quanto turistas). A cara de surpresa que as crianças fazem é indescritível. Cobrem a boca com a mão, mordem os dedos, andam para trás, correm para chamar a atenção de alguém. Ao que parece, todas conhecem a história de Bethany (e por isso a reação). Fica a dica: se você, leitor(a) um dia for ao CSM, e a prancha de Bethany ainda estiver lá, fique uns minutos na área central, como quem não quer nada, até que chegue uma criança ou grupo de crianças à parte dedicada à surfista. A reação delas valerá a visita.

Surfing Heritage and Culture Center (SHACC, San Clemente)

Este slideshow necessita de JavaScript.

Para quem vem do sul, San Clemente é a primeira cidade litorânea do Condado de Orange (vulgo OC). Nesta importante cidade de surfe está o SHACC. A entrada para a exposição, que consiste basicamente de pranchas (ver informações no álbum de fotos), custa US$ 5. Para fazer pesquisa no acervo, que conta com revistas, livros e outros documentos, como cartas, é preciso ser membro da associação, o que custa US$ 50 por ano. A reprodução de materiais (uso de scanner etc.) é paga à parte.

Assim como o congênere de Oceanside, o museu é obra do esforço de um conjunto de surfistas, boa parte deles sócios que doam tempo e/ou dinheiro para a manutenção e desenvolvimento do local. Servem também como espaço para a realização de lançamentos de livros e filmes, homenagens, leilões (nos quais se leiloam pranchas e outros objetos para arrecadar recursos para o próprio museu), jantares de homenagem e/ou de arrecadação de fundos para as próprias entidades e para outros fins. Quando estive lá, fui atendido de forma muito simpática por Barry Haun, que, de bermuda e chinelo, me deu informações, forneceu contatos que poderiam ser úteis à minha pesquisa e, enquanto eu fazia a visita, fez a gentileza de telefonar para uma das pessoas para avisar que eu entraria em contato.

International Surfing Museum (Huntington Beach)

Este é o museu em que fui recebido com menos simpatia. Talvez as condições fossem desfavoráveis: era um domingo, ali pela hora do almoço, e havia dezenas de torcedores ruidosos do San Francisco 49ers tocando o terror assistindo ao jogo num pub em frente. (Tocando o terror nos padrões dos EUA, evidentemente; brincadeira de criança, quando se compara com as torcidas de futebol no Brasil.) O que me pareceu mais interessante do acervo foram itens específicos do surfe na própria cidade, sede de importantes campeonatos ao longo de décadas.

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

Santa Cruz Surf Museum (Santa Cruz)

Este slideshow necessita de JavaScript.

O Santa Cruz Surf Museum é tão pequeno que não daria para o acervo focar em pranchas – elas não caberiam no local. Contudo, tem seus atrativos. O primeiro deles é ficar dentro de um farol. Segundo, fica num lugar belíssimo, à beira-mar, em cima da ponta onde, logo abaixo, está Steamer Lane, uma das ondas mais famosas da Califórnia. Ou seja, a visita ao museu pode ser combinada com uma sessão nas gélidas águas locais – ou, em casos como o meu, com a assistência. O mesmo estacionamento é usado pelos visitantes do museu e pelos surfistas. Terceiro, tem entrada gratuita. Quarto, o acervo tem algumas fotos interessantes, assim como informações sobre aspectos do surfe local, como… ataques de tubarão.

Além de importante cidade de surfe californiana, conhecida pelas boas ondas e pelo mar frio, Santa Cruz é o lugar de origem de um dos principais fabricantes de roupas térmicas para surfe do mundo: O’Neill.

Santa Barbara Surf Museum (Santa Barbara)

Deste, não sei por que, não consegui encontrar as fotos. Assim como o de Santa Cruz, o forte são as pranchas. Há também muitas capas de discos e cartazes de filmes. De todos, foi o que me pareceu mais amador: na verdade, parece uma iniciativa pessoal de um apaixonado pelo surfe. O inacreditável: no domingo em que estive lá, não vi ninguém no museu. Isso mesmo: desde o momento que cheguei até a hora em que saí, não havia absolutamente ninguém lá dentro. O museu não cobra entrada, e é possível levar um adesivo deixando numa caixinha, em troca, uma doação de US$ 1. A casa onde funciona é meio difícil de achar, pois fica numa daquelas ruas meio estranhas: termina do nada numa linha de trem e recomeça do outro lado, só que você olha e não sabe por onde atravessar (pois há grades e muros). E uma vantagem, sem dúvida, é ficar na linda Santa Barbara.


Pesquisando história do surfe no Sul da Califórnia

04/09/2016

Por Rafael Fortes

San Diego é uma das principais cidades de surfe do mundo (cidade de surfe sendo a tradução possível de surf city). A afirmação pode parecer, a princípio, exagerada.

Darei, então, alguns exemplos e informações para justificá-la. Antes, ressalto que tal exuberância de manifestações da cultura do surfe é observada também nos condados litorâneos californianos que se sucedem rumo ao norte, até Santa Barbara: Orange County, Los Angeles, Ventura e Santa Barbara. Neles estão dezenas de praias, picos ou cidades importantes na história do surfe, como Huntington Beach, Malibu, Rincon, Santa Monica e Venice. Os cinco condados entre San Diego (ao sul) e Santa Barbara (ao norte) são uma das caracterizações do que constitui o Sul da Califórnia (Southern California). A definição é imprecisa, mas a expressão é muito utilizada em todos os âmbitos, inclusive o acadêmico. Por exemplo, numa dissertação de mestrado defendida em 1992, Wallace Zane afirma que ficou impressionado com a quantidade de imagens do surfe usadas em anúncios de diferentes produtos na televisão canadense, e que “as representações de surfistas que se vê na mídia nacional são quase sempre aquelas dos surfistas sul-californianos” (p. 1). Grosso modo, esta região engloba praias, indústria, mídia (editoras de revistas de surfe, produtoras de filmes especializados de surfe, Hollywood), moda, campeonatos, ídolos, música e outros aspectos relevantes das representações construídas a respeito do surfe (e do skate) a partir da segunda metade do século XX.

Foi nesta região que morei entre setembro de 2015 e agosto de 2016, realizando um estágio pós-doutoral – com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) – como pesquisador-visitante no Departamento de História da University of California, San Diego (UCSD).

San Diego

San Diego sediou dois dos seis campeonatos mundiais de surfe realizados entre 1964 e 1972. Antes da criação do circuito mundial profissional em 1976, eles eram a principal competição internacional da modalidade. Depois, continuaram sendo a mais importante no âmbito amador (Warshaw, 2003, p. 710-11).

A cidade conta com praias que atraem grande número de surfistas: Mission Beach, Ocean Beach, La Jolla Cove e La Jolla Shores, entre outras. A imensa quantidade de turistas na cidade (mais de 30 milhões por ano), vários deles dispostos a pagar por aulas para (tentar) surfar pela primeira vez, somada às milhares de pessoas de fora morando por alguns meses ou anos (militares, estudantes e pesquisadores), muitas das quais também dispostas a aprender a pegar onda, inviabilizam a possibilidade de localismo. Este fica restrito a certas praias ou pedaços, permitindo que vários trechos sejam um playground alegre para haolespregos e iniciantes.

O Condado de San Diego é um dos mais extensos dos Estados Unidos. Reúne uma quantidade ainda maior de praias, que se estendem desde Tijuana Sloughs, próxima à fronteira com o México, até San Onofre. No meio, algumas cidades com forte cultura praiana e presença do surfe: Imperial Beach, Coronado, Del Mar, Solana Beach, Encinitas, Carlsbad e Oceanside, além das praias na costa da base militar de Camp Pendleton (que incluem as famosas San Onofre e Trestles). Imperial Beach, por exemplo, tem um “Museu a Céu Aberto de Pranchas de Surfe”, com esculturas com as silhuetas de modelos de pranchas de diferentes décadas (imagens do folder de divulgação abaixo). Há também pranchas em exibição dentro de um prédio administrativo próximo ao pier local.

Imperial Beach0002 Imperial Beach0001

 

 

 

 

 

San Diego é sede de empresas de surfwear, como a Reef Brazil, dos proprietários argentinos Fernando e Diego Aguerre. O primeiro é também presidente, desde 1994 (sim, também no surfe dirigentes ocupam cargos durante décadas), da Associação Internacional de Surfe, a federação internacional responsável pela modalidade – e que coordenou os esforços que resultaram na recente inclusão nos Jogos Olímpicos de 2020.

Na cidade há também empresas de skatewear e alguns importantes e tradicionais fabricantes de pranchas de surfe (e/ou skate), como Gordon & Smith.

ACA PCA 2017A força da associação com surfe também se mostra no âmbito acadêmico. À esquerda está a ilustração do anúncio do congresso das Associações de Cultura Popular e de Cultura Americana, que em 2017 ocorrerá em San Diego. Em primeiro plano encontra-se o item principal acionado para representar a cidade: uma prancha de surfe (no caso, de longboard). Ao fundo aparecem ícones locais como o museu porta-aviões e o Hotel del Coronado. A cor laranja é uma referência ao sol e ao céu, e as palmeiras… bom, estas são onipresentes no Sul da Califórnia.

Universidades, centros de documentação e bibliotecas

Sendo um elemento cultural, econômico, social e político relevante, estranho seria se o surfe não fosse objeto de pesquisa nas universidades locais. Ele é.

Na UCSD há investigações sobre o tema a partir de variadas perspectivas e áreas. Conheci dois físicos que desenvolviam pesquisas sobre as ondulações do mar com o objetivo de aprimorar a fabricação de piscinas de ondas, de maneira que as ondas artificiais imitem, o máximo possível, as da natureza. No primeiro semestre de 2015, a universidade anunciou a fabricação da primeira prancha produzida usando material secretado por algas em laboratório.

Em março de 2016, fotografei três de cerca de dez cartazes espalhados pela rua de pedestres que dá acesso à espetacular biblioteca central da universidade, a Geisel. Da esquerda para a direita, se lê nas imagens abaixo:

– 4a. melhor universidade pública dos EUA

– Top 15 no mundo em impacto científico

– Campus número 1 do país para surfar

20160312_151558 20160312_15180420160312_151626

 

Ou seja, além de objeto de pesquisa, no caso da UCSD, situada em La Jolla, o surfe é também um mecanismo de atração de estudantes.

Na San Diego State University (SDSU), o setor de Coleções Especiais e Arquivo Universitário (SCUA, na sigla em inglês) mantém acervos relacionados a temas específicos, como movimentos religiosos alternativos, história em quadrinhos, estudos judaicos e surfe. Segundo me informaram os funcionários, uma volumosa doação espontânea incentivou o SCUA a instituir uma coleção dedicada ao surfe. Desde então, o setor recebeu outras doações, como uma recente (2015) com centenas de periódicos de Kurt Ledterman, morador de San Diego e ex-editor da revista Surfer. Como é comum nos EUA, após o falecimento do dono da coleção, um membro da família procurou uma universidade cuja biblioteca pudesse ter interesse pelo material e fez a doação. Durante os meses que passei pesquisando o acervo de surfe do SCUA, vi algumas dezenas de pessoas aparecerem para doarem itens, especialmente para as coleções de ficção científica, fanzines e história em quadrinhos – em alguns casos, elas já sabem que instituição procurar, pois conhecem as coleções/especialidades de cada uma. Além disso, o SCUA tem orçamento para aquisição de obras raras – há uma política ativa de compras, além do recebimento de doações. Afinal, uma das funções da biblioteca é funcionar como um centro de pesquisa e documentação, o que pressupõe a constituição, manutenção e ampliação de acervos.

A coleção de surfe tem diversos materiais, como fotos, pôsteres, cartões postais, livros, revistas e manuscritos. Entre as revistas, meu objeto principal de pesquisa, há dezenas de títulos de vários países, incluindo do Brasil.

A SDSU conta também com um Centro para a Pesquisa do Surfe, coordenado por um professor da Escola de Turismo e Hospitalidade. Ainda nas Humanidades, em abril deste ano, por exemplo, foi defendida uma dissertação de mestrado em História intitulada The Girls Who Surf: Women in Surfer Magazine, 1963-1976 [As garotas que surfam: mulheres na revista Surfer (1963-1976)], de Jasmine Tocki.

As bibliotecas das universidades são integradas numa base chamada Circuit. Nela é possível consultar os acervos e, mediante login e senha (os mesmos da sua universidade de origem), solicitar o empréstimo das Livros 3 bibliotecasobras. Ao fazer a reserva, o usuário escolhe em qual biblioteca de sua universidade irá buscá-los (no meu caso, havia três opções). Em uma das ocasiões, fiz a reserva num domingo, e na terça-feira os livros (foto à esquerda) – um da University of San Diego e outro da SDSU já estavam à minha espera na estante do balcão principal. Feito o empréstimo, tive um prazo de devolução de um mês – sim, 30 dias para devolver obras de bibliotecas de universidades diferentes daquela a que estava vinculado. O prazo da biblioteca da UCSD é de um ano e, como pesquisador visitante, eu podia ter até 200 livros emprestados simultaneamente.

Nos acervos encontrei muitos títulos relativos ao surfe: na maioria, obras acadêmicas. Mas também obras sobre o passado e/ou memorialísticas de jornalistas e/ou surfistas, livros de arte (fotografia, música, artes visuais) e guias.

A esta estrutura se soma a da Biblioteca Pública de San Diego (SDPL), com dezenas de filiais espalhadas pelos bairros. O sistema de bibliotecas públicas conta com outro grande acervo relativo ao surfe, tanto de itens que qualquer usuário cadastrado pode pegar emprestados e levar para casa, como filmes em DVD, CDs de música e livros, quanto de fontes para pesquisa na monumental biblioteca central, no Centro. Durante os quase doze meses que passei lá, com a conveniência de uma filial de bairro a duas quadras de casa, consegui ver dezenas de filmes em DVD, boa parte deles relacionados ao surfe.

Tal como nas universidades, a busca e reserva pode ser feita pela internet, as obras disponíveis em qualquer unidade do sistema são transportadas até a unidade de escolha do usuário. Este recebe um email informando que o item está disponível para retirada e pode fazer sozinho o check-out dos livros, usando um cartão com código de barras. A obras podem ser devolvidas em qualquer filial ou depositadas em totens do lado de fora (ou seja, para devolução não é preciso comparecer à biblioteca durante o horário de funcionamento). Dá para renovar os itens pela internet ou telefone, e o sistema envia um email de aviso quando o prazo está para vencer.

Em tempo: meu cadastro era no sistema da cidade. Existe o do condado de San Diego, que conta com outras dezenas de bibliotecas. E existem ainda os sistemas de outros condados e cidades do Sul da Califórnia, que contam com unidades com revistas de surfe entre as dezenas de títulos que assinam e disponibilizam para consulta, leitura, estudo, trabalho e prazer dos usuários.

Museus

O litoral da Califórnia é sede de cinco museus de surfe: California Surf Museum (Oceanside), Surfing Heritage and Culture Center (SHACC, San Clemente), International Surfing Museum (Huntington Beach), Santa Cruz Surf Museum (Santa Cruz) e Santa Barbara Surf Museum (Santa Barbara). A maioria cobra entrada para visitação, geralmente US$ 5. Os dois últimos praticamente se limitam à exposição de pranchas, fotografias e outros itens. Os três primeiros contam também com acervos de periódicos, fotografias e outros documentos, que são disponibilizados para consulta de pesquisadores.

No que diz respeito ao acervo de revistas, um bastante completo é o do California Surf Museum, que conta com uma equipe muito prestativa e uma sala de pequisa confortável. Já no SHACC, a pesquisa é limitada aos sócios – o acervo de lá parece ser bem bacana, também.

Os museus de surfe serão tema de texto específico que publicarei posteriormente neste blogue.

Além de museus específicos, o status do surfe no Sul da Califórnia inclui a presença de pranchas e a realização de exibições e mostras em outros espaços dedicados à arte. O Mingei International Museum, em San Diego, voltado para artesanato e cultura popular, realizou uma exposição de pranchas de surfe que ocupou todo o primeiro andar do prédio entre junho de 2014 e janeiro de 2015. Uma das ênfases do livro resultante da exposição é destacar o papel de shapers de San Diego no desenvolvimento de novos desenhos, tipos e materiais de pranchas (KEVIN, 2014).

 

Referências bibliográficas

KENVIN, Richard. Surf Craft: Design and the Culture of Board Riding. San Diego/Cambridge: Mingei International Museum/MIT Press, 2014.

WARSHAW, Matt. Encyclopedia of Surfing. Orlando: Harcourt, 2003. (Há verbetes disponíveis em: http://encyclopediaofsurfing.com/)

ZANE, Wallace W. Surfers of Southern California: Structures of Identity. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – McGill University, Montreal, 1992.


Os Garotos da Praia de Waikiki: surfe, turismo, homens e mulheres

10/04/2016

Por Rafael Fortes

Num livro publicado em 2011, o historiador Isaiah Helekunihi Walker celebra o surfe como prática de resistência no Havaí durante o século XX. Entre os méritos da obra estão o uso de fontes que transcendem o inglês – sobretudo jornais em havaiano – e o destaque à articulação do surfe com movimentos políticos do arquipélago. Tem também problemas, comWalker - Waveso a grande facilidade para enxergar resistências e o esforço de corrigir textos de memória e jornalísticos – frequentemente, rechaçando os mitos apenas para colocar outros em seu lugar. Contudo, esse texto não é uma resenha do livro. Avisos aos navegantes: todas as citações do livro estão originalmente em inglês e foram traduzidas por mim; os vídeos, quando narrados, o são em inglês.

O que me interessa discutir é um trecho – intitulado “Garotos da Praia: Empurrando Mulheres e Fronteiras” (p. 70-77) – do capítulo três. O capítulo trata da rivalidade entre os frequentadores da praia de Waikiki, em Honolulu, que se agruparam em torno de dois clubes: o Outrigger Canoe Club, “formado em 1908 por (…) Alexander Hume Ford” e composto majoritariamente por haoles brancos nascidos no continente (p. 59); e o Hui Nalu, fundado e composto por membros de famílias históricas havaianas, entre os quais Duke Kahanamoku e o príncipe Jonah Kūhiō Kalanianaʻole, membro da família real deposta na última década do século XIX, antes da anexação pelos EUA, em 1898 (não confundir este clube com o Hui O He’e Nalu, formado nos anos 1970 e existente até hoje, cujos membros se tornaram conhecidos no Brasil como black trunks). O Hui Nalu, “embora existisse de forma pouco organizada desde 1905, (…) foi oficialmente formado (…) em 1911” (p. 62). Waikiki era e continua sendo a praia mais turística do arquipélago.

De acordo com Walker, “a partir de 1915, surfistas do Hui Nalu abriram lucrativos negócios sob concessão em Waikiki” e passaram a ser conhecidos como os “Garotos da Praia de Waikiki” (p. 70). Eles “eram salva-vidas, guarda-costas, instrutores, animadores e guias turísticos para os visitantes. Por um preço relativamente alto, levavam clientes para a arrebentação para descer ondas em canoas e pranchas.” Faziam e vendiam artesanato e davam aulas de ukelele.  À medida que os negócios se desenvolveram, alguns garotos passaram a atuar em tempo integral como funcionários particulares de famílias ou indivíduos de alta renda que visitavam Waikiki: levavam para passeios, atuavam como secretários particulares e desempenhavam funções diversas por períodos que variavam de “duas semanas até três meses” (p. 71).

As informações contidas e as histórias contadas nesta parte do capítulo se baseiam majoritariamente em entrevistas de história oral feitas com os próprios Garotos da Praia (a maioria, feitas em 1985 e disponíveis num banco de dados). Ao narrarem as relações com os e, principalmente, as turistas, a coisa fica mais animada.

Entre as graças que faziam para entreter os clientes, contavam histórias e piadas e surfavam sentados em cadeiras de praia ou na companhia de um cachorro. Este vídeo identifica um dos irmãos Kahanamoku como um surfista que descia ondas com seu cão Spot, o que pode ser visto em 3’19”. (Adendo: em outras ondas, a prancha em que está o cachorro não consegue ser captada pela câmera, o que provavelmente se deve à dificuldade de manejar o equipamento e à diferença de velocidade entre a prancha filmada e a canoa em que, suponho, encontrava-se a câmera.)

“À medida que ostentavam suas habilidades sociais e surfísticas, eles se tornaram celebridades locais capazes de atrair mais do que dinheiro. Garotas e mulheres brancas se aglomeravam na praia para aprender a surfar com os Garotos da Praia havaianos. ‘Naquela época’, recordou Louis Kahanamoku, ‘especialmente as wahine [mulheres] brancas iam todas nos Garotos da Praia. Os Garotos da Praia eram conhecidos por cortejar diversos tipos de mulheres de fora – divorciadas, ricas, vedetes e filhas de visitantes ricos” (p. 72).

Havia turistas que confiavam suas filhas aos cuidados dos Garotos da Praia. Houve histórias de amor entre os Garotos e vedetes que deram em casamento. E evidentemente, havia quem os considerasse “um bando de homens preguiçosos que se prostituem ganhando a vida em cima de desquitadas do continente” (p. 72).

Uma das principais formas de ensinar as damas a surfar, e também de “impressioná-las”, era descer as ondas junto com elas, na mesma prancha. Por exemplo, levantando-as sobre os ombros, o que, de acordo com um dos Garotos, “convidava a manobras excitantes e íntimas”. Na volta, “subiam em cima da parte de trás das garotas haoles” na remada para o outside (p. 72). O vídeo abaixo mostra, em 2’20”, uma sorridente mulher descendo uma onda em surfe duplo. (No último vídeo deste texto, há também um amplo sorriso captado em 5’07, em meio à excitação de descer uma onda numa canoa.)

(Breve comentário sobre o vídeo acima: como se pode ver, ele traz fartura de boas ondas surfadas com desenvoltura – e grande estilo – por um cachorro, que abre os trabalhos no sonrisal em 2’44” e depois manda ver no hang ten.)

Cenas com homens aproveitando a aproximação dos corpos para certos contatos e iniciativas, embora mantendo uma postura que cinicamente permita alegar que nada demais está acontecendo, também aparecem em Gidget, produção de 1959 com trama situada no litoral da Califórnia. Eis o trecho:

A partir de 0’16”, um dos personagens fala: “Aí está, querida! Reta como uma panqueca, hein?! Quase, né? (…) Posso te deixar mais à vontade?” Ao final, o mesmo personagem diz: “Muito bom para a primeira vez, né? Agora vou um levá-la um pouco mais fundo!” O filme, de acordo com vários pesquisadores, foi decisivo para espalhar a febre do surfe pelos EUA. A situação da personagem adolescente Gidget, que busca aceitação e tenta aprender a surfar em meio a vagabundos de praia mais velhos, é muito distinta daquela das turistas que buscavam e contratavam os serviços dos Garotos da Praia de Waikiki – elementos que podem permitir uma boa e complexa discussão sobre consentimento, abuso, vulnerabilidade etc.

Voltando a Waikiki… Quando na areia, a legítima preocupação de evitar queimaduras pela exposição ao sol levava os Garotos a realizar, “com frequência regular”, sessões de massagem para aplicação de óleos na pele de quem estava sob seus cuidados (p. 73).

À noite, vestindo smoking, os Garotos cantavam e tocavam instrumentos musicais, atraindo especial interesse do público feminino. As letras de algumas músicas tratam destas interações, do clima de romance e do duplo sentido em movimentos e gestos. Após o encerramento das atividades, os pares/casais se espalhavam em diversas direções – alguns, rumo ao mar, para novas sessões de surfe a dois.

O vídeo a seguir reitera esta narrativa da “boa vida” dos Garotos com diversas fotos, especialmente a partir de 3′ (e, diga-se de passagem, tem uma visão ainda mais positiva e idílica que Walker).

Como se pode imaginar, “por meio de tais interações, os Garotos da Praia de Waikiki violavam regras sociais de uma sociedade americana governada por leis antimiscigenação e ameaçavam a hegemonia haole por conquistarem propriedade que haviam construído e que era seu privilégio” (p. 75). Para Walker, isto evidencia que o mar – e, particularmente, a prática do surfe – constituía um espaço de exceção, de inversão de valores. Ali os homens havaianos eram poderosos, admirados e desejados. “Enquanto a indústria do turismo promovia as ilhas como uma ‘mulher’ a ser conquistada, os homens havaianos não eram propagandeados como objetos sexuais da maneira como ocorria com as mulheres dançarinas de hula-hula. Portanto, estes homens não estavam desempenhando ou se adequando a expectativas de conquista sexual de turistas; em vez disso, as desafiavam” (p. 75-6). Embora o argumento tenha valor, eu sugeriria que eles estavam também se adequando às expectativas das turistas.

No início dos anos 1930, num contexto de intensa crise econômica; acusações de estupro; e o transplante, para as ilhas, do discurso racista e histérico a respeito do negro como um predador sexual, o clamor social legitimou uma intensa reorganização do espaço social e econômico da praia de Waikiki, que passou a ser completamente controlada pelos brancos ligados ao Outrigger. Restou aos Garotos se sujeitarem a trabalhar em condições muito piores que as anteriores, tentarem ganhar a vida como frilas ou simplesmente abandonar a praia. A Segunda Grande Guerra fecharia as praias do arquipélago – de acordo com Walker, Waikiki foi cercada com arame farpado.

Bibliografia

WALKER, Isaiah Helekunihi. Waves of Resistance: Surfing and History in Twentieth-Century Hawai’i. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2011.

 

 

 

 


Apontamentos metodológicos: biografias de atletas como fontes

23/02/2015

Por Rafael Fortes

As biografias de atletas de ponta são, creio, o principal filão editorial envolvendo o esporte. No segundo semestre do ano passado, li livros sobre Kelly Slater, Rafael Nadal e Roger Federer. Em comum, o fato de serem esportistas que admiro e estarem em atividade (e entre os melhores) em modalidades de que gosto e com as quais tenho razoável envolvimento: pesquiso e escrevo sobre surfe desde 2005 e, nos últimos três anos ou quatro, tenho visto e jogado tênis.

Neste texto, discuto alguns aspectos destas obras desde um olhar da história do esporte.

Quatro pontos para pensar

1) Trata-se de biografias publicadas há poucos anos sobre atletas relativamente jovens (independentemente da idade, jovens, capazes e motivados o suficiente para, ao final de 2014, estarem entre os três melhores na principal liga profissional de suas respectivas modalidades), em atividade e com títulos a conquistar. Ou seja, por um lado, se assemelham às biografias em geral; por outro, abordam conquistas, resultados e acontecimentos de uma carreira ainda em andamento.

2) O tênis e o surfe são comumente classificados como modalidades individuais. Uma análise histórica biografias poderia ajudar a compreender e problematizar a dicotomia esportes individuais x esportes coletivos, que vigora no senso comum do campo esportivo e costuma ser reproduzida acriticamente por nós, pesquisadores, que a tomamos como algo dado. Por exemplo: considerando que as biografias são obras sobre um indivíduo, que elementos são mobilizados para construir, descrever, explicar, narrar etc. sua trajetória (noção por si só rica, em termos de análise), bem como seus resultados, realizações etc.? É possível identificar traços comuns às biografias de atletas de modalidades individuais? E às de atletas de modalidades coletivas? Indo além: é possível perceber semelhanças e diferenças entre as características comuns, considerando tal dicotomia?

3) Quanto à autoria: quem é o autor da obra? O próprio atleta? O jornalista? Ambos? Parece-me haver três principais tipos, do ponto de vista formal:

a) Autobiografias em sentido estrito: o atleta escreve o texto (ou, ao menos, é assim que o livro é publicado: atribuindo o texto ao esportista)Nadal.

b) Autobiografias com um (co)autor (geralmente um jornalista). É o caso dos livros de Nadal e Slater: o “com” ou um “e” seguido do nome do jornalista está estampado na capa. Fico com a sensação de que, nestes casos, o autor é o jornalista e coube ao atleta dar os depoimentos e ajudá-lo com outras informações. Contudo, como as obras não apresentam autorreflexividade, é impossível saber ao certo que papeis foram desempenhados por cada um.

c) Biografias escritas por um jornalista. Neste caso, há a divisão entre “autorizadas” e “não-autorizadas”. As categorias são discutíveis (como, em parte, ficou evidente o debate travado em certos veículos de comunicação brasileiros há cerca de um ano e meio, a partir do grupo Procure Saber), mas há outros aspectos que podem ser analisados: os objetivos de quem escreve, os interesses da obra para a coletividade, a forma e o conteúdo.

O livro de Chris Bowers sobre Roger Federer abre espaço para pensar tais questões, pois é uma biografia não-autorizada. Diferentemente das outras duas, não contou com depoimentos do atleta, nem de familiares e pessoas próximas (pessoal e profissionalmente). Além disso, trata-se da segunda obra do autor sobre o tenista – inclusive mencionando que vários trechos de capítulos são reproduções da anterior.

FedererTalvez por isso pareceu-me o livro menos rico, e que mais se assemelha à cobertura jornalística tradicional sobre o esporte (relato de resultados, competições etc.). Uma hipótese é que, além de ter menos informações privilegiadas sobre o biografado, justamente por não ser autorizado, o autor tenha tido mais cuidado, de forma a evitar problemas (como um processo judicial). Já as biografias de Slater e Nadal são versões contadas/ditadas/oficiais, que provavelmente também passaram pelo crivo de  empresário, assessor de imprensa etc.

4) Outra questão diz respeito à tradução e à qualidade do texto. Nos casos das obras de/sobre Nadal e Slater, o texto final em português tem sérios problemas (como alguns dos que apontei ao tratar de outro livro). Além disso, há numerosos erros na tradução de termos específicos – como o nome de golpes e manobras. Creio que se trata de um problema crônico do mercado brasileiro, em que raras editoras investem o suficiente na qualidade da tradução e revisão, mesmo quando se trata de obras que se sabe que vão vender bastante.

Apontamentos finais

– As biografias sob a forma de livro são um importante elemento da construção de representações sobre o esporte, embora não tão poderosas quanto o jornalismo periódico e as transmissões ao vivo por televisão e rádio.

– Os livros biográficos são uma fonte pouco explorada na história do esporte no Brasil. As fontes principais continuam sendo jornais e revistas, além de crônicas, obras de literatos etc.

– Uma análise de tais obras poderia ser enriquecida pela discussão existente na História a respeito da viabilidade/possibilidade da biografia como trabalho científico. Aliás, vale a pena acompanhar este debate, por proporcionar reflexões teórico-metodológicas interessantes.

– Trata-se de fonte que permite alargar o subcampo da História do Esporte. A análise destas obras possibilita abordar novas questões, bem como lançar novas questões para temas já abordados: esportes individuais; construção de representações coletivas; identidade nacional; ídolos; popularidade de atletas e de modalidades; comercialização; produção e reprodução do próprio campo esportivo (formação dos biografados e sua trajetória até se tornarem estrelas); produção e reprodução de estereótipos sobre o esporte, tanto por proporcionar olhares peculiares sobre o âmbito profissional (que podem ser muito diferentes da visão glamourizada veiculada pelos meios de comunicação), quanto porque perdedores e aqueles que se afastam das competições (por variados motivos) raramente são objeto de cobertura midiática, quanto mais de biografia em livro.

– Pode-se também refletir sobre o caráter estético da fonte – algo que deveria acontecer em qualquer trabalho histórico, mas que raramente é feito quando se trata de fontes vinculadas ao jornalismo.

Slater– O autor também deve ser levado em consideração ao se discutir as obras. Neste texto, me referi genericamente aos autores não-atletas como “jornalistas”. Contudo, a atuação profissional deles pode ser bastante extensa, e nem sempre o jornalismo é a atividade principal. Jason Borte, coautor de Pipe Dreams, foi surfista profissional, editor de revistas de surfe, é mestre em educação e atua como professor tanto em uma escolinha de surfe quanto no ensino fundamental.

Referências bibliográficas

Biografias citadas

BOWERS, Chris. Roger Federer: Spirit of a Champion. London: John Blake, 2009.

NADAL, Rafael; CARLIN, John. Rafa: minha história. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.

SLATER, Kelly; BORTE, Jason. A biografia de Kelly Slater: pipe dreams. São Paulo: Gaia, 2004.

Para saber mais sobre metodologia e história do esporte

MELO, Victor Andrade de. Esporte, lazer e artes plásticas: diálogos. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2009.

MELO, Victor Andrade de; DRUMOND, Mauricio; FORTES, Rafael; SANTOS, João M. C. M. Pesquisa histórica e história do esporte. Rio de Janeiro: 7Letras/Faperj, 2013.


Uma aventura juvenil na África do Sul

06/10/2014

Por Rafael Fortes

Uma garota rica que vive na Califórnia parte para a África do Sul para conhecer a terra de sua finada mãe, viajando e surfando. Esta é a trama inicial de A Onda dos Sonhos 2, dirigido por Mike Elliott e lançado em 2011. Neste texto, chamo a atenção para dois aspectos desta obra: o protagonismo feminino e o papel da África do Sul (outros elementos foram explorados no artigo que deu origem a este texto).

Protagonismo 110719081405832853feminino

Onda 2 foi lançado nove anos após o original. Embora a trama não seja uma sequência do primeiro – as atrizes principais tampouco são as mesmas -, um dos pontos em comum é ser protagonizado por mulheres surfistas. Trata-se de algo raro na filmografia sobre a modalidade, amplamente dominada por homens nos papéis principais.

Dana torna-se amiga de Pushy, sul-africana cujo sonho é aprender a realizar uma manobra (aéreo 360) e vencer a seletiva para a equipe Roxy, da qual já faz parte Tara, a sul-africana que fecha o trio. Tara é a antagonista de Dana.

Por falar em Roxy, a ampla presença da marca na trama é uma das chaves explicativas para compreender a realização do filme. O nicho feminino vem apresentando taxas de crescimento significativas nos últimos anos, amplicando um mercado consumidor que, décadas atrás, atingia majoritariamente os homens.

No making of, surfistas profissionais (homens e mulheres) afirmam ter a expectativa de que, tal como ocorrera com A Onda dos Sonhos (de 2002), Onda 2 contribua para divulgar o surfe feminino e estimule muitas a garotas a começar a surfar. Segundo este ponto de vista, filmes como Onda 1 e Onda 2 estimulam o crescimento de uma prática social – surfar – profundamente articulada a uma indústria florescente. Neste contexto, cabe ressaltar que a Roxy é a marca criada pela Quiksilver (uma das principais multinacionais do surfe mundial) voltada para o público feminino. Os logotipos abaixo explicitam a relação entre ambas: Roxy, à esquerda; Quiksilver, à direita.

roxy_logo quiksilver

 

África do Sul

Onda 2 apresenta a África do Sul como um país de paisagens exuberantes, repleto de belos locais para o turismo, a prática do surfe e o contato com a natureza. Não é acaso o filme ter sido rodado em 2010: os governos sul-africanos vêm investindo no esporte como ferramenta para promover uma imagem positiva do país e incrementar o fluxo turístico. A Copa do Mundo de futebol realizada em 2010 é o principal exemplo desta política – e das consequências para setores da população local (como discuti em texto sobre o documentário Cidade de Lata).

A tarefa é árdua, tendo em vista o período de segregação racial como política de Estado, que recebeu ampla divulgação e condenação ao redor do mundo. Isto incluiu o próprio universo esportivo, com boicotes que vigoraram durante décadas.

Aos investimentos no esporte soma-se uma política de incentivos estatais para a indústria cinematográfica, sobretudo para coproduções que sejam rodadas em solo sul-africano. De acordo com documentos oficiais, os objetivos são o fortalecimento do cinema no país, bem como os benefícios econômicos relativos aos gastos durante o período de produção e à contratação de mão-de-obra local.

As gravações de Onda 2 foram realizadas no país e, como dito, é nele que se passa a trama. A aventura e o desejo da protagonista de conhecer os lugares mencionados no diário de sua mãe, bem como surfar as mesmas ondas, funciona como um pano de fundo que permite a circulação das personagens por diferentes regiões e paisagens.

O gran finale se passa em Jeffrey´s Bay, principal destino de surfe do continente africano e um dos locais mais famosos para a prática do esporte no mundo.

Para saber mais

FORTES, Rafael. Surfe feminino, indústria do surfwear e promoção da África do Sul: uma análise de A Onda dos Sonhos 2. Licere, Belo Horizonte, v. 17, n. 2, p. 283-311, jun. 2014.


Australianos e sul-africanos metem o pé na porta do surfe no Havaí (1974-1977)

01/06/2014

Por Rafael Fortes

Bustin´ Down The Door (As Lendas do Surf) narra/constrói a história de como um punhado de surfistas australianos e sul-africanos transformou a modalidade durante a segunda metade dos anos 1970. Até então, havia dois parâmetros para o ato de surfar:

Entre os havianos, cabia ao surfista seguir a onda, unir-se a ela. Na Califórnia, o objetivo era embelezar a onda, aparentando um certo desdém e realizando poucas manobras: ‘esforçar-se muito na onda era um sinal de indignidade’ (Fisher, 2005, p. 18). Os australianos (e os sul-africanos) pegaram o estilo californiano e desenvolveram cada vez mais a agressividade. Na Austrália, particularmente, o objetivo era dominar, despedaçar, destruir a onda (Booth, 2001, p. 100-1). A existência de visões distintas foi um dos problemas impostos aos que queriam desenvolver o surfe competitivo: ‘competições organizadas requeriam regras formais, mas a codificação não era uma questão fácil, pois os estilos de surfe refletiam variações regionais’ (Booth, 2001, p. 100). A construção de parâmetros unificados de avaliação das manobras nas competições internacionais se deu em meio a conflitos, mas a vertente australiana acabou se impondo. Nos dias atuais, a predominância do padrão agressivo leva à realização constante de manobras impensáveis, raríssimas ou impossíveis de completar nos anos 1980, como as muitas variedades de aéreo. Como ressalta Booth, a evolução se deve a fatores técnicos (como número de quilhas, peso, formato e material das pranchas), esportivos e culturais.

É destes australianos e sul-africanos que o documentário trata.

Pôster do filme (extraído daqui).

Pôster do filme (extraído daqui).

Introdução

Como recurso narrativo, embora enfoque o período 1974-1977, a trama começa e termina no presente. O início mostra campeões do final dos anos 1970 recebendo troféus na festa de fim de ano da ASP (Associação dos Surfistas Profissionais) na Austrália em 2007. E finaliza com diversos entrevistados – tanto os premiados quanto outros, de gerações posteriores – confirmando a relevância do papel desempenhado pelos primeiros para o surfe chegar ao estágio atual.

E o que fizeram esses agentes – além de serem os primeiros vencedores do circuito mundial de surfe – para merecer tal honraria? “Criamos um esporte, uma cultura e uma indústria”, afirma um deles. Foram fundamentais na criação do surfe profissional, porque queriam ser surfistas profissionais.

Narrado por Edward Norton, o filme fala basicamente de Pete Townend (Austrália), Shaun Tomson (África do Sul), Mark Richards (Austrália) e Wayne “Rabbit” Bartholomew (Austrália), que foram os quatro primeiros campeões mundiais de surfe, e de Michael Tomson (África do Sul) e Ian Cairns (Austrália). O documentário considera-os figuras fundamentais nas notáveis mudanças observadas na modalidade naquele período. Boa parte do tempo é preenchido com depoimentos dos seis.

O primeiro inverno havaiano (1974-1975)

Sendo surfistas de destaque em seus países, os seis sonhavam com o Havaí. Nas palavras de Rabbit: “Fizemos o Havaí. Conquistamos o lugar.” Tal postura, de acordo com eles, não significava desrespeito pelos locais. No início do filme, um dos depoentes se refere a Reno Abellira e outros que entravam na água em dias casca-grossa do North Shore como “deuses”.

Shaun Tomson afirma que, no primeiro verão “de verdade” no Havaí, seu objetivo era mostrar-se o melhor, porque era contestado em Durban, sua cidade natal. Praticantes de outros continentes viajavam para as ilhas porque, a partir de 1965, elas sediavam campeonatos. De 1970 em diante, ocorria algo inédito: o pagamento de prêmios em dinheiro para os vencedores.

Foram distribuídos 24 convites para participar dos campeonatos daquela temporada, sendo 22 para havaianos, o que Wayne Bartholomew considera “justo”. Afinal, surfar no North Shore era uma atividade para havaianos. Cabia aos cidadãos das demais nações do mundo mandar cartas pedindo para serem convidados para os campeonatos. Três dos protagonistas foram suplentes do Smirnoff Pro e disputaram uma vaga para a competição.

Naquele ano, os havaianos foram hospitaleiros com os visitantes.

A temporada 1975-1976

É o ponto de virada do surfe em direção ao profissionalismo.

As pranchas eram monoquilhas, mas Shaun Tomson inovou na forma de pegar tubos. Novas pranchas permitiram manobras e performances antes impossíveis, como surfar Pipeline de backside.

Tem início um “novo estilo” que valoriza a adrenalina. “Queríamos ser os mais agressivos, os mais radicais, fazer novas manobras”, diz um depoente. Os haoles inovam ao surfar Off The Wall e afirmam que criaram aquele pico. Fotógrafos passam a acompanhá-los com avidez de uma praia a outra.

“Quebrando a tradição”, aussies e sul-africanos ganham todas as competições do inverno havaiano de 1975. Os membros da nova geração se tornam ídolos da molecada e ocupam as capas de revista e os filmes. Ciosos do que desejavam – viver do esporte -, fizeram marketing e promoveram a si mesmos e ao surfe.

Passada a temporada, Rabbit escreve um artigo (Bustin´ down the door) no qual afirma que ele e os demais não ficariam mais esperando favores para entrar pela porta dos fundos nos campeonatos: haviam arrombado a porta.

Os havaianos ficaram enfurecidos. No inverno seguinte vieram as consequências.

A temporada 1976-1977

Uma delas foi a criação dos black trunks (ou Da Hui), um grupo de locais do North Shore. Entre eles, Eddie Rothman, cujo depoimento no filme é uma pérola, repleto de episódios dos quais não se lembra, sempre rindo. Chegaram a ser presos e ganharam fama pelo localismo casca-grossa.

Além do texto de Rabbit, outros textos publicados em revistas de surfe – como um que criticava a formação do Da Hui – irritaram os havaianos.

Os membros do clube meteram a porrada em Rabbit na primeira ocasião em que o australiano surfou em Sunset naquele ano. Na sequência, ameaçaram queimar a casa em que estava hospedado. O haole fugiu para o meio do mato e depois se escondeu com Ian Cairns num hotel, do qual não podiam sair.

Ambos receberam escolta policial para comparecer ao Pipe Masters (até hoje o importante campeonato de surfe mais importante do mundo). Os protagonistas relatam ter apanhado muito, e mais de uma vez. Um comprou uma escopeta. Outro comprou uma arma e um taco de beisebol.

Em dado momento, ainda isolados no hotel, recebem a visita de Eddie Aikau, lendário surfista e salva-vidas. Eddie os conduz a um julgamento, em que atua como mediador. Mark Richards, um dos protagonistas, é usado no julgamento como o bom australiano, em oposição a Cairns e Bartholomew. No salão de conferências de um famoso resort de Oahu, 150 pessoas participaram do julgamento de dois estrangeiros – com veredito e tudo.

De acordo com os depoimentos, os problemas extrapolavam o universo das praias: havia um clima de violência em Oahu, em meio a intenso consumo e tráfico de drogas. Muitos havaianos tinham a sensação de que haviam perdido tudo para os estrangeiros e ocupantes – a começar pelos EUA. Só lhes sobrara o surfe, e agora haoles estavam querendo tomá-lo. No universo do surfe, houve ameaças de morte até para os jornalistas que escrevessem sobre as brigas, grupos e ameaças.

Outros conflitos

Embora o documentário trate o ocorrido com os australianos e sul-africanos como sui generis, há ao menos duas experiências similares, respectivamente com californianos e brasileiros:

a) no “inverno de 1969-70, quando os havaianos atacaram os ‘surfistas hippies e cabeludos principalmente da Califórnia [sic] que traziam drogas e se sentiam os donos de tudo’.” (Reinaldo Andraus, “Arrepio: só nas ondas”, Fluir 20, mai 1987, p. 48)

b) no inverno de 1986-1987, foi a vez dos brasileiros. Um grupo teve a casa onde passava a temporada cercada e ameaçada de incêndio por havaianos. O sítio ao imóvel “repetiu-se algumas vezes e só foi suspenso com apelos à polícia e ao consulado brasileiro”. (Alberto A. Sodré, “Hawaii: um inverno quente nas ilhas”, Fluir 20, mai 1987, p. 44)

(Para os historiadores que se encantam com a leitura de fontes, fica a dica: estas duas reportagens são maravilhosas!)

Considerações finais

O filme termina com informações sobre a criação da IPS (International Professional Surfers), primeira entidade a organizar um circuito mundial de surfe. Executivos de multinacionais da indústria de surfwear afirmam que aqueles seis foram fundamentais para as empresas crescerem e se tornarem o que passaram a ser: com eles, havia ídolos para estampar os anúncios das marcas nas páginas das revistas e despertar a admiração dos jovens.

Bustin´ Down the Door traz depoimentos riquíssimos. (Fico imaginando o material bruto com o depoimento completo de cada entrevistado…) Também pode ser visto como uma produção audiovisual que cristaliza e reforça um mito fundador bastante presente na subcultura da modalidade (para uma reflexão sobre a relação entre mitos fundadores no surfe e pesquisa científica, ver Dias, 2011).

Para além do conteúdo – foco deste texto -, é um filme bonito, que mescla imagens produzidas para ele com gravações de arquivo. Há muitas imagens granuladas de grande beleza, tanto em cor quanto em P&B.

Informações técnicas

EUA, 2008, 96′

Direção: Jeremy Gosch

Um dos protagonistas, Shaun Tomson, filmou boa parte das imagens registradas no campeonato de 1974-5 em que Mark Richards tomou parte. Tomson é também o produtor executivo e um dos roteiristas.

O filme é “inspirado” por Wayne “Rabbit” Bartholomew.

Entre os depoentes estão lendas do surfe como Ben Aipa, Tom Carroll e Greg Noll.

Na trilha sonora: Leonardo Cohen, The Stooges e David Bowie, entre outros.

Para saber mais

– Sobre o esporte na Austrália, ler os textos de Jorge Knijnik;

– Sobre esporte e cinema, os de Luiz Carlos Sant´Ana;

BOOTH, Douglas. Australian Beach Cultures: The History of Sun, Sand and Surf. London: Frank Cass, 2001.

DIAS, Cleber. Vaca longa: repensando a historiografia brasileira do esporte a partir do surfe na Bahia. Recorde: Revista de História do Esporte, Rio de Janeiro, v. 4, n. 2, p. 1-11, dez. 2011.

FISHER, Kevin. Economies of Loss and Questions of Style in Contemporary Surf Subcultures. Junctures: The Journal for Thematic Dialogue, Dunedin, n. 4, p. 13-20, June 2005.

A primeira citação longa foi extraída de FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2011, p. 194-5.

Em tempos de redes sociais, cabe registrar a dificuldade de encontrar dados no site atual da ASP (reformulado em 2014). Deve ser ótimo para ver na tela do celular, mas simplesmente sumiu com boa parte das informações antes disponíveis – e, pior, com os meios de encontrá-las! A extensa quantidade e qualidade de dados que havia sobre a entidade e o passado do surfe profissional foi trocada por uma historinha pobre e sem links.