Deslizar, escorregar, equilibrar: o corpo e o lúdico nos esportes californianos

17/06/2018

Por Leonardo Brandão

Segundo o historiador Roy Porter (1992) a fotografia pode ser uma grande fonte (embora ainda permaneça “estranhamente subexplorada”) de compreensão do corpo. O registro fotográfico já documenta quase um século e meio dos aspectos físicos e, embora ela não seja um instantâneo da realidade, é um registro da linguagem corporal e do espaço social tão ou mais informativo que o texto impresso. Acreditamos, nesse sentido, que o arquivo fotográfico pode nos revelar e confirmar variados aspectos das transformações físicas na contemporaneidade, apresentando também dados sobre a linguagem corporal, os gestos e seus modos de utilização e investimento.

Observemos a fotografia a seguir:

Figura 1: Jovem praticando o “surfe na rua” na cidade do Rio de Janeiro em 1975. Fonte: Revista Pop, nº 38, 1975, p. 61.

Vemos nessa imagem – originalmente publicada nas páginas de uma revista chamada Pop, existente entre 1972 e 1979 – um jovem praticando skate numa rua levemente em declive. Pela descrição da matéria, sabemos que se trata de um espaço localizado no Rio de Janeiro e que essa imagem data de 1975. Não há dúvidas que se trata de uma fotografia sobre o equilíbrio. Pois o que esse jovem faz é um jogo de equilíbrio corporal. A ausência dos calçados e equipamentos de proteção revela o uso do skate como um “surfinho”, isto é, apenas como divertimento espontâneo e sem vínculos com campeonatos, juízes, tabelas etc. Além disso, o próprio movimento corporal realizado era muito próximo daqueles utilizados pelos surfistas nas ondas do mar.

Essa imagem (figura 1) é ilustrativa de uma característica central dessas atividades oriundas da Califórnia e que estavam se introduzindo no cotidiano das práticas juvenis no Brasil, pois tais atividades investiam mais numa flexibilidade física atenta aos gestos de equilíbrio do que no acúmulo de forças para o levantamento de algum peso, o que fazia do corpo menos um suporte do gesto do que sua expressão.

Ao reduzirem o esforço muscular em prol de outros elementos para praticá-lo, o skate – assim como o surfe ou outras atividades praticadas à maneira californiana – abria novas possibilidades de euforia, êxtase e vertigem. Não tanto a força dos músculos, mas sim a flexibilidade e a busca pelo equilíbrio estariam no cerne performático em questão. De acordo com as palavras da historiadora Denise Bernuzzi de Sant’Anna,

Os esportes californianos, por exemplo, que se expandem em várias partes do mundo a partir dos anos 70, tem por objetivo menos o cansaço salutar – característica dos antigos esportes comprometidos com os ideais higienistas de salvação de uma raça – do que a vivência de sensações de prazer, físicas e mentais, imediatas e inovadoras. O surfe, a asa delta, o windsurf, por exemplo, conduzem o olhar do esportista menos em direção à força realizada por seus músculos do que às flexibilidades motoras que ele é capaz de manter sob controle. De onde se explica, nessas atividades, o emprego de verbos que evocam o prolongamento de sensações de prazer e de controle do conjunto dos movimentos, tais como voar, escorregar, equilibrar (2000, p. 3).

Iniciar-se em tais atividades, portanto, significava dar menos evidência às questões corporais que envolviam força muscular e uma maior atenção ao equilíbrio corporal, controlado sob tênues movimentos de braços e pernas.  Esse investimento lúdico do corpo, para além de suas possibilidades de força, potência muscular e virilidade – aspectos tão bem explorados pelos esportes tradicionais –, favoreceu sua interpretação como um possível objeto de comunicação através de uma série inusitada de gestos e movimentos (os quais passariam a ser chamados, posteriormente, como “manobras” ou “truques”). A construção dessa nova relação com o corpo, ou desta nova corporalidade, também passou a expressar um desejo por aventuras e deslizamentos os mais variados, sendo o aprendizado de tais técnicas uma questão de conquistar, através do corpo – ou “in-corporar” – essas novas possibilidades de movimento, equilíbrio e frenesi estético.

Ao observar o que chama de “práticas emergentes contemporâneas”, o professor Deibar René Herrera (2009) também afirmou ser possível percebermos nessas atividades outras formas de construção do corpo já diferentes daquelas apontadas pelo filósofo Michel Foucault através de seus estudos sobre as instituições disciplinares, as quais evidenciavam a formação de corpos dóceis. Para Herrera, faz-se importante admitirmos que o mundo contemporâneo também vem configurando outros usos do corpo que já não estão de acordo somente com a sociedade disciplinar e nem necessitam da obediência de outros tempos. Usos do corpo, em sua visão, que se formaram a partir dessas novas práticas culturais juvenis e que se constituíram enquanto práticas de subjetivação.

Assim, algumas das análises de Foucault propõem-se a descrever e analisar um mundo no qual estamos deixando de conhecer, um presente que está se transformando em passado, cujas marcas ainda moldam muitas experiências, mas não todas. As atividades do surfe e do skate, entre outras, se constituíram num momento histórico onde os poderes disciplinares já eram menores e menos expressivos.

Para muitos jovens, os chamados “esportes californianos” representaram, nesses anos iniciais, uma espécie de liberdade e fonte de criação para novos movimentos corporais. Além disso, essas atividades também incentivaram outras formas de sociabilidade, que se fizeram como agregações tribais pautadas na diversão, na ludicidade e na vivência festiva do cotidiano.

 

Referências

BRANDÃO, Leonardo. Para além do esporte: uma história do skate no Brasil. Blumenau: Edifurb, 2014.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes, 2009.

HERRERA, Deibar René Hurtado Herrera. “In-corporar en la sociedad moderna y en las prácticas emergentes contemporaneas” In Recorde: Revista de História do Esporte. Volume 2, número 2, dezembro de 2009, p. 1- 19.

PORTER, Roy. História do corpo. In: BURKE, Peter (org.). A Escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Editora UNESP, 1992, p. 291 – 326.

SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Entre o corpo e a técnica: antigas e novas concepções. In Motrivivência, ano XI, n. 15, agosto de 2000, p. 1 – 6.

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O surfe e a diplomacia cultural dos EUA

11/06/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

The Endless Summer (no Brasil, Alegria de Verão), dirigido e produzido por Bruce Brown, é, provavelmente, o filme de surfe mais famoso já feito. A película narra a trajetória de surfistas dos EUA que viajam ao redor do mundo em busca de ondas desconhecidas e do verão sem fim do título. Segundo o historiador Scott Laderman (2014), “gravado em 1963, The Endless Summer percorreu o circuito tradicional dos filmes de surfe em centros culturais públicos e auditórios de escolas secundárias na Califórnia, Havaí, Austrália e África do Sul ao longo dos dois anos subsequentes” (p. 48). Laderman e outros pesquisadores da história do surfe afirmam que o documentário foi fundamental para disseminar a ideia de viajar como um valor positivo dentro da subcultura do surfe. O autor afirma ainda que o filme foi “um dos documentários de maior sucesso em todos os tempos” e que “seu impacto cultural foi profundo”, tendo sido decisivo para dar visibilidade ao surfe ao redor do mundo (p. 49).

Contudo, este texto não é uma resenha de Alegria de Verão ou do livro de Laderman (o que já fiz). Meu objetivo é apresentar a descrição e análise de Lazerman a respeito do seguinte: “(…) de formas que ainda não foram exploradas pelos pesquisadores, The Endless Summer também ilustra como, durante o auge da Guerra Fria, os Estados Unidos vieram a enxergar o surfe como uma arma ideológica em sua cruzada anticomunista, pois, em maio de 1967, anunciou-se que o documentário apareceria, sob patrocínio do Departamento de Estado, no bienal Festival de Cinema de Moscou” (p. 49).

De acordo com o autor, algumas características da trama motivaram a escolha. A elas se aliava a liberdade de viajar demonstrada pelos protagonistas – “diferentemente da maioria daqueles vivendo no bloco soviético” -, o que serviria para evidenciar a superioridade do capitalismo. Havia ainda as tentativas simpáticas de contato face-a-face com populações locais de diferentes continentes, “pintando um retrato dos Estados Unidos como uma potência benevolente e simpática” (p. 50). O filme acabaria sendo cortado do festival por iniciativa de uma entidade representativa dos estúdios de Hollywood (MPAA – Motion Picture Association of America). Após a organização decidir que um único documentário dos EUA seria exibido, a entidade escolheu o documentário indicado pelo estúdio Columbia Pictures, que o produzira, em detrimento do filme independente de Bruce Brown.

Mas “aqueles que estavam a cargo da diplomacia cultural americana deram outra chance ao surfe algum tempo depois. O ano era 1970, o local era o Japão, e o cenário era a primeira exposição universal realizada na Ásia: a Exposição Universal do Japão, ou Expo’70, em Osaka” (p. 51). Documentos oficiais do governo dos EUA consultados pelo autor atestam que a participação na exposição converteu-se em mais um campo de disputas com a União Soviética. A organização ficou a cargo da United States Information Agency (USIA). A exposição do Pavilhão dos EUA foi dividida em sete temas – um deles, “esportes”. “Foi lá, no interior da exibição de esportes, que, até onde tenho conhecimento, o surfe tornou-se, pela primeira vez, assunto oficial da diplomacia cultural dos EUA” (p. 52).

Segundo Laderman, “os organizadores deram ao surfe papel de destaque na exibição” de esportes (p. 53). Havia uma instalação com 13 pranchas produzidas por shapers dos EUA (Dewey Weber, Rick Stoner e Bob White), reprodução de imagens cinematográficas de surfe feitas por Bruce Brown e fotografias de surfistas no Havaí. Segundo Laderman, o surfe moderno fora introduzido no Japão após a Segunda Grande Guerra, a partir da presença de militares estadunidenses. Ressalto que isto não ocorreu apenas no arquipélago japonês. Tal foi o caso, por exemplo, da Andaluzia, na Espanha (Esparza, 2015).

Naquele momento (1970), o surfe já era bastante conhecido no Japão e tinha praticantes em diversas partes do litoral. Tamio Katori, um surfista japonês, visitou mais de uma vez a exposição e “escreveu para as autoridades dos EUA perguntando se ele poderia adquirir as pranchas para seu clube de surfe após o término da exposição” (p. 54). Segundo ele, as pranchas poderiam contribuir para a “amizade entre ambos os países”. Eis como termina o episódio: “Três das 13 pranchas haviam sido emprestadas por Bob White e tinham que ser devolvidas ao shaper de Virginia Beach, mas as outras dez tinham sido adquiridas pela USIA. Para os Estados Unidos, atender à solicitação de Katori seria uma maneira eficiente de descartar objetos volumosos e, ao mesmo tempo, contribuir para a globalização daquele que era, agora, o mais americano dos passatempos prazerosos, além de estimular a amizade transpacífica. Não havia o que pensar. As pranchas foram vendidas” (p. 55).

Laderman destaca dois aspectos neste episódio. Primeiro, as ligações cada vez mais comuns entre o surfe e o “poder norte-americano global” (p. 55), como ficaria evidenciado na circulação de surfistas estadunidenses ao redor do globo, na presença de surfistas militares (ou militares surfistas) em praias de dezenas de países (aproveitando a existência de bases militares, especialmente as numerosas unidades da Marinha no Oceano Pacífico), na circulação de produtos de mídia (surf music, cinema, revistas) e no estabelecimento do inglês como língua-padrão da modalidade. Segundo, a exposição de 70 “ilumina o quanto o surfe, tal qual o Havaí, haviam se tornado naturalizados como, de alguma forma, americanos” (p. 55).

Acrescento um terceiro: a questão da nacionalidade, da identidade nacional e das distintas apropriações (culturais e de outras naturezas) do surfe ao redor do mundo são um tema bastante atual. Em março último, foram divulgados os critérios para classificação dos 40 atletas que disputarão, pela primeira vez, medalhas olímpicas na modalidade. Este ano, os atletas que disputam a divisão principal do Circuito Mundial passaram a competir com bandeiras dos países desenhadas no ombro de seus uniformes (acentuando-se a construção, no âmbito da principal liga de surfe profissional, da associação entre competição individual e nacionalidade) – e pelo menos dois deles (Kanoa Igarashi e Tatiana Weston-Webb) trocaram de nacionalidade, de olho em maiores probabilidades de se qualificarem para competir em Tóquio. Ambos criados e residentes em território estadunidense (ele, na Califórnia; ela, no Havaí) e filhos de pais estrangeiros. Ele passou a competir pelo Japão; ela, pelo Brasil. Com isso, ambos evitam participar da dificílima briga por vaga entre americanos e havaianos.

Bibliografia

ESPARZA, Daniel. Hacia una historia del surf en Andalucía: génesis y consolidación del surf en Cádiz y Málaga. Materiales para la Historia del Deporte, n. 13, p. 47-62, 2015. Disponível em: <http://upo.es/revistas/index.php/materiales_historia_deporte/article/view/1327/1210>. Acesso em 10 jul. 2015.

FORTES, Rafael. Surfe, política e relações internacionais. [Resenha de Empire in Waves]. Topoi, v. 18, n. 35, p. 453-456, abr.-ago. 2017. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/topoi/v18n35/2237-101X-topoi-18-35-00453.pdf . Acesso em 10/6/2018.

LADERMAN, Scott. Empire In Waves: A Political History of Surfing. Berkeley: University of California Press, 2014.


Tom Carroll no Pipe Masters de 1987, ou sobre a “superação” no esporte

01/01/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Superação é uma palavra comumente associada ao esporte. Aparece com frequência nas representações midiáticas do fenômeno esportivo, em geral relacionada ao desempenho de atletas de alto rendimento. No pouco espaço dedicado aos atletas paralímpicos, o enquadramento de “superação” me parece predominante e onipresente. Muitas narrativas midiáticas construídas a respeito do surfe, de certos surfistas e competições se inserem nesta lógica.

Neste primeiro texto de 2018, abordo brevemente uma delas: a vitória de Tom Carroll no Pipe Masters de 1987. Uso como fonte o filme Pipeline Masters, de 2006 (não encontrei em lugar algum os créditos de direção), disponível na íntegra abaixo (tampouco achei uma versão com legendas em português):

O filme aborda o campeonato disputado em Pipeline/Backdoor, no litoral norte da ilha de Oahu, no arquipélago havaiano. Trata-se, possivelmente, da onda mais famosa do mundo – e uma das mais perigosas. Realizado desde o início dos anos 1970 – antes de haver um circuito mundial de surfe profissional masculino -, o Pipe Masters é o campeonato de maior prestígio na modalidade, além de um dos mais tradicionais. A mídia do surfe em língua inglesa volta e meia usa a expressão “he’s a Pipe Master” (algo como “ele é um mestre de Pipe”) para se referir a algum ex-campeão. Desde que o circuito foi estabelecido, na maioria dos anos ele termina lá. Com isso, o certame decide não apenas quem será o Pipe Master, mas também o campeão da Tríplice Coroa Havaiana (composta pelos campeonatos realizados em Haleiwa, Sunset e Pipeline) e, frequentemente – como em 2017 – o título de campeão mundial masculino.

Por esses e outros motivos, o campeonato é um prato cheio para tais construções narrativas, como se pode perceber ao longo do documentário, tanto em edições anteriores quanto posteriores (por exemplo, na performance de Sunny Garcia em 1992, quase se sagrando campeão apesar de uma contusão séria que limitava-lhe os movimentos de um dos braços – as imagens são impressionantes).

Por volta de 47′, a narração do documentário classifica o que aconteceu em 1987 como “um dos momentos mais dramáticos da história das competições de surfe”. A partir daí, estabelece uma narrativa sobre a trajetória do australiano Tom Carroll. Bicampeão mundial, ele é apresentado como corajoso e até certo ponto irresponsável (até passar a ser um dos poucos a usar capacete por lá), características consideradas importantes para conseguir surfar bem uma onda veloz, poderosa e perigosa como Pipeline. Sua trajetória inclui uma final já na primeira participação, em 1979. Fez outras finais, mas, até então, nunca fora campeão. Novamente ia bem no campeonato de 1987, até que…

…recebe a notícia da morte de sua irmã, na Austrália, num acidente de carro. Em meio ao campeonato mais importante da temporada, Carroll é obrigado a lidar com a tragédia pessoal e familiar e pensar nas providências para retornar à Austrália para o funeral. Numa conversa ao telefone, o pai lhe diz para ficar no Havaí, “porque ela [a irmã] quer que você ganhe”.

Num depoimento emocionado (52′ em diante), o surfista diz: “senti que ela estava lá”. “Eu não surfei para ela. Eu surfei com ela”, afirma. Carroll venceu a final e tornou-se um Pipe Master – depois ganhou duas edições, em 1990 e 1991. Ajuda sobrenatural? Desempenho potencializado por um estado emocional alterado? Coincidência? Rumo natural dos acontecimentos – ou seja, um excelente surfista, em grande forma, finalmente vencendo um campeonato disputado na onda onde era, há anos, um dos melhores? Todas as alternativas anteriores?

Questões boas para a psicologia do esporte, e que considero interessantes para pensarmos o fenômeno esportivo e suas representações midiáticas. E, por que não, também as representações históricas e historiográficas que construímos.

Além disso, frequentemente, nós historiadores somos também admiradores, torcedores, espectadores e/ou praticantes: é possível termos envolvimentos de diversas ordens com os times, atletas, modalidades etc. que pesquisamos.

Para saber mais

Textos com a palavra superação publicados neste blogue.

*  *  *

Este post é uma homenagem a minha avó Dirce, que se foi em agosto de 2016, aos 91 anos. Devo a ela muito do que sou (sobretudo do que tenho de bom). Na tarde em que recebi a notícia da morte dela, faltava menos de uma semana para eu retornar ao Brasil. Tinha uma partida de tênis marcada com Steve, um coroa com quem vinha jogando duas ou três vezes por mês, invariavelmente perdendo por 2×0 (às vezes, em uma hora dava tempo de perder dois sets inteiros). Steve joga muito melhor do que eu – estava uns dois ou três níveis acima, tinha um excelente saque e o forehand mais demolidor que já enfrentei. Pensei em desmarcar a partida. Não o fiz, nem contei a ele o que tinha acontecido. Naquele dia, jogamos apenas um set, que durou cerca de uma hora. Embora arrasado por dentro, senti uma calma e consegui um grau de concentração e foco que nunca experimentara. Pela primeira e única vez, ganhei um set de Steve. Ele me parabenizou, ao mesmo tempo em que não escondia estar bastante irritado consigo mesmo e com o resultado (como acontece com todo tenista fominha). Nos despedimos e ele foi embora. Por um tempo que não sei precisar, fiquei ali, sozinho, sentado no banco à beira da quadra, olhando as árvores e o céu azul de fim de tarde do Balboa Park.


Bra Boys

01/06/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

No Cineclube Sport de maio, vimos Bra Boys, dirigido por Sunny Aberton e Macario de Souza e lançado em 2007. O que segue abaixo é um conjunto de anotações de minha lavra, em parte estimuladas pelo filme, em parte pelo debate que se seguiu. Agradeço a todos(as) que participaram pelas estimulantes contribuições e questões.

O tema é um grupo de surfistas conhecidos como Bra Boys, residentes do bairro e locais da praia de Maroubra, em Sydney (Austrália).

Do ponto de vista estético, trata-se inegavelmente de um filme de surfe. Feito por e para surfistas, com cenas de surfe. Reifica determinadas visões sobre o esporte (quase todas positivas, muitas idealizadas), que permeiam um certo senso comum da modalidade. Por exemplo, a ideia de que o mar e o surfe fornecem um escape da sociedade. Em parte, evidentemente, isto é verdade. Mas é retratada como se o surfista, antes, durante e depois de surfar, não falasse ou convivesse com outros surfistas.

Do ponto de vista da circulação, me parece que não foi exibido em circuito no Brasil e na maioria dos países (exceto a Austrália e partes dos EUA), tendo circulado em festivais de documentários e festivais de filmes de surfe (obtendo prêmios em alguns destes).

Classe social e enquadramentos midiáticos

Bra Boys permite discutir a questão de classe social, bem como uma frase que escuto com frequência em âmbito acadêmico: “surfe é esporte de elite”. Na mesma linha, é um bom filme para debater estas perguntas: o que é o surfe? Há possibilidades de respostas universais para esta pergunta? Acredito que não. É preciso investigar as realidades locais. Buscar respostas locais para perguntas universais, como disse Giovanni Levi em texto que li recentemente (agradeço ao também escriba deste blogue, Victor Melo, pela indicação). Em outras palavras, à pergunta geral o que é o surfe?, é possível elaborar outras, específicas, para as quais Bra Boys dá algumas respostas e subsídios: o que é o surfe na Austrália? O que é o surfe para os australianos? O que é o surfe para aqueles garotos de Maroubra? O que é o surfe para os que ficam impedidos de surfar (por servirem nas forças armadas e terem sido transferidos para lugares sem onda; por estarem na prisão ou longe do litoral)?

(Pequena digressão: uma das coisas que mais me impressionaram e impactaram quando pesquisei revistas de surfe californianas publicadas entre os anos 1970 e 1990 foram as cartas de leitores enviadas desde a prisão. Fiquei impressionado por dois motivos: o teor das cartas; e também por, depois de um tempo, perceber que algumas prisões da Califórnia contavam com bibliotecas, que, por sua vez, tinham assinaturas de revistas de surfe – uma das leituras que mais atraíam jovens presos, muitos dos quais por crimes relacionados a drogas.)

Outro assunto a discutir é o enquadramento realizado pela mídia, que tende a tratar como banditismo as atividades desenvolvidas por grupos juvenis de camadas populares. Caminhando na direção oposta, o filme é uma construção realizada pelos próprios jovens: direção, produção, edição etc., exceto a narração, feita pelo ator Russel Crowe. Um dos motivos para fazê-lo, como afirmam logo no início, é estarem cansados de apanhar, sofrer abusos, ser tratados como bandidos ou invisíveis pela mídia, pelo governo e pela polícia (o tratamento da polícia para com esses jovens, guardadas as devidas proporções, parece muito mais civilizado do que o padrão vigente nas quebradas do Rio de Janeiro – o padrão do que é aceitável, é claro, pode mudar bastante de uma sociedade para outra). A cor da pele da maioria também é diferente daquela hegemônica entre os pobres do Rio, mas são, de fatos, jovens de uma área degradada. O alto número de mortos (sempre um indício de problemas) é um dado importante.

 

Território e localismo

Um dos principais assuntos/questões que o filme permite discutir é o vínculo com o território e o localismo. O localismo, em suas diferentes manifestações, é um fenômeno presente em praias de vários países, ainda que pouco apareça nas representações midiáticas do esporte. Pelo que observei até hoje, a postura mais comum é silenciar sobre o tema. E, na maioria das ocasiões em que é tratado, isto se dá sob a forma de crítica: o localismo é classificado como um comportamento atrasado, violento e de ignorantes. Contudo, algum grau de relativismo, contextualização e até glamourização pode ocorrer (às vezes combinado com criminalização e acusações) quando se trata do North Shore da ilha de Oahu, no Havaí. (Para uma interessante – embora a meu ver exageradamente engajada e maniqueísta – análise e crítica da criminalização promovida pela mídia hegemônica a respeito dos locais e do localimo no North Shore, ver o último capítulo de Walker, 2011).

Por outro lado, o bairro é pouquíssimo explorado na trama. Fiquei curioso para saber e entender mais, já que argumenta-se que o vínculo com ele é um dos aspectos que definem o caráter, a identidade e os valores desses jovens (como, por exemplo, a alegada rejeição do racismo e da xenofobia). Bra Boys argumenta que o localismo não necessariamente significa recusa e intolerância com relação ao outro. Quando se trata de uma comunidade “multicultural” como Maroubra, não é a etnia, religião ou país de origem que decidirá quem cabe no grupo: todos podem fazer parte do que é o nós.

Gênero e masculinidades

A partir tanto do comportamento dos personagens e do fato de serem praticamente todos masculinos, quanto da quase ausência de personagens femininas, é possível discutir questões relativas a gênero e masculinidade. Há ainda, o contraponto da avó Ma (possivelmente uma corruptela de “avó”, em inglês). É impressionante a força desta mulher, cuja casa é uma espécie de abrigo seguro (safe heaven, se diria em inglês) para crianças e adolescentes de famílias destrambelhadas e destruídas pela pobreza, desemprego, violência e drogas. Isso inclui os próprios netos de Ma, o trio de irmãos que protagoniza o filme (um deles co-diretor da obra).

Um tema que aparece rapidamente no filme são as diferentes medidas restritivas impostas pelo poder público aos banhistas australianos ao longo do século XX. Segundo Douglas Booth (2001), em seu fascinante livro sobre as culturas de praia australianas, houve momentos em que cercas de arame farpado dividiam as praias, de forma a separar homens de mulheres.

Por sinal, as restrições, perseguições e criminalização do surfe e dos surfistas são um dos muitos assuntos por investigar na história desta prática no país. Em alguns dos poucos trabalhos sobre a modalidade (Cunha, 2000; Fortes, 2011), há indícios de uma série de problemas, controvérsias e até notícias de mortes em vários municípios do litoral catarinense, Arraial do Cabo (RJ) e Recife (PE). Há tanto repressão e conflitos com o Estado quanto com determinados grupos ou setores da sociedade, como pescadores e banhistas. Também no caso da história do skate no Brasil, este é um caminho tão promissor quanto pouco explorado, exceto, até onde sei, por iniciativas pontuais do pesquisador Leonardo Brandão (como este e este artigos).

Bibliografia

BOOTH, Douglas. Australian Beach Cultures: The History of Sun, Sand and Surf. London: Frank Cass, 2001.

CUNHA, Delgado Goulart da. Pescadores e surfistas: uma disputa pelo uso do espaço da Praia Grande. 2000. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2000.

FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2011.

WALKER, Isaiah Helekunihi. Waves of Resistance: Surfing and History in Twentieth-Century Hawai’i. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2011.

 

 

 

 

 

 

 


Os museus de surfe da Califórnia

06/02/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Como prometi, hoje trato dos cinco museus de surfe localizados na Califórnia. Neste texto, estou usando a categoria nativa, ou seja, considero museus de surfe as cinco instituições que se classificam como tais. Eles se estendem desde Oceanside, no sul do estado, até Santa Cruz. Seguirei este trajeto sul-norte na ordem de apresentação. Todas as fotos sem crédito de autor foram feitas por mim. Informações específicas sobre itens dos acervos estão nas legendas das fotos.

California Surf Museum (CSM, Oceanside)

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Foi o museu em que estive mais vezes. Fica perto da estação de trem e do píer onde surfam e treinam locais e/ou profissionais – o píer aparece constamentemente em séries do canal Off.

Tem uma excelente coleção de revistas, que ficam numa sala confortável e exclusiva para pesquisadores. A pesquisa neste museu fez parte de uma experiência maior, daquelas que não têm preço nessa vida: durante o ano em que vivi na Califórnia, fui respeitado como pesquisador de história do surfe e da mídia do surfe de uma forma como raramente aconteceu noutros lugares – incluindo o Rio de Janeiro e o Brasil – em mais de dez anos dedicados ao tema.

Comandada pela historiadora Jane Schmauss, a equipe é prestativa e simpática – quando solicitadas por mim, as pessoas sorriam e se interessavam pelo meu trabalho, em vez de rosnarem, como acontece noutros lugares e cidades por aí. Conta com voluntários e trabalhadores assalariados. Segundo me explicou Jane, o museu recebe cerca de 25 mil visitantes anuais. O imóvel onde está há alguns anos pertence à Prefeitura de Oceanside – cuja sede fica próxima -, que o alugado a preço subsidiado. Ali pertinho também está a biblioteca municipal (a visita à biblioteca da cidade é um programa bacana, assim como em várias cidades e bairros californianos).

O forte do acervo, como em três outros museus, são as pranchas. Entre doações, empréstimos, exposição permanente e temporária, é possível ter contato com boa parte da produção de pranchas do sul da Califórnia desde os anos 1950. Há também exemplares mais antigos: paipos havaianos, pranchas para salvamento no mar etc. Mas o foco está nos shapers da própria região – vários dos quais são sócios contribuintes do próprio museu e doaram e/ou emprestaram pranchas de sua lavra. Algumas estão autografadas pelos shapers, outras, pelos que as surfaram. Há doações de Kelly Slater e de outros atletas famosos do esporte profissional e/ou das ondas grandes (nas ocasiões em que estive lá, a exposição temporária era sobre surfe em ondas grandes; preparava-se uma exposição sobre surfe durante a Guerra entre os EUA e o Vietnã). Há também seções dedicadas a outros aspectos, como bodyboard e surfe de peito. Tem uma vitrine muito interessante com jogos e brinquedos que têm o surfe como tema – de Barbie a Banco Imobiliário – e outra com dezenas de parafinas.

Sou suspeito para falar, pois nesse museu fiz parte de minha pesquisa de pós-doutorado. Além disso, tive uma experiência bacana como usuário (e não como pesquisador) em todas as ocasiões em que estive lá. Isso porque está em exibição a prancha de Bethany Hamilton – de quem eu nunca ouvira falar até recentemente. Trata-se de uma havaiana, de uma família de surfistas, que teve um braço arrancado por um tubarão enquanto pegava onda com uma amiga, aos 12 anos de idade. A história está contada em dois filmes (um documentário e um de ficção) e um livro. Bethany tornou-se ícone dos e das adolescentes e tem sua própria linha de produtos de beleza. Além disso, o que mais me impressionou: continuou surfando. E bem: embora não corra o circuito mundial, volta e meia participa de um etapa como convidada. Em 2016, chegou à semifinal da de Fiji – é bom lembrar, Bethany surfa com a desvantagem de não ter um braço para remar, se equilibrar e, dependendo do lado para o qual a onda quebra, adequar a velocidade colocando a mão na parede da onda e/ou segurando a borda da prancha.

Enfim, a experiência definitiva de visitante é ficar sentado num pufe, perto da prancha de Bethany, e esperar para ver alguma criança se aproximar (a Califórnia é cheia de crianças, tanto locais quanto turistas). A cara de surpresa que as crianças fazem é indescritível. Cobrem a boca com a mão, mordem os dedos, andam para trás, correm para chamar a atenção de alguém. Ao que parece, todas conhecem a história de Bethany (e por isso a reação). Fica a dica: se você, leitor(a) um dia for ao CSM, e a prancha de Bethany ainda estiver lá, fique uns minutos na área central, como quem não quer nada, até que chegue uma criança ou grupo de crianças à parte dedicada à surfista. A reação delas valerá a visita.

Surfing Heritage and Culture Center (SHACC, San Clemente)

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Para quem vem do sul, San Clemente é a primeira cidade litorânea do Condado de Orange (vulgo OC). Nesta importante cidade de surfe está o SHACC. A entrada para a exposição, que consiste basicamente de pranchas (ver informações no álbum de fotos), custa US$ 5. Para fazer pesquisa no acervo, que conta com revistas, livros e outros documentos, como cartas, é preciso ser membro da associação, o que custa US$ 50 por ano. A reprodução de materiais (uso de scanner etc.) é paga à parte.

Assim como o congênere de Oceanside, o museu é obra do esforço de um conjunto de surfistas, boa parte deles sócios que doam tempo e/ou dinheiro para a manutenção e desenvolvimento do local. Servem também como espaço para a realização de lançamentos de livros e filmes, homenagens, leilões (nos quais se leiloam pranchas e outros objetos para arrecadar recursos para o próprio museu), jantares de homenagem e/ou de arrecadação de fundos para as próprias entidades e para outros fins. Quando estive lá, fui atendido de forma muito simpática por Barry Haun, que, de bermuda e chinelo, me deu informações, forneceu contatos que poderiam ser úteis à minha pesquisa e, enquanto eu fazia a visita, fez a gentileza de telefonar para uma das pessoas para avisar que eu entraria em contato.

International Surfing Museum (Huntington Beach)

Este é o museu em que fui recebido com menos simpatia. Talvez as condições fossem desfavoráveis: era um domingo, ali pela hora do almoço, e havia dezenas de torcedores ruidosos do San Francisco 49ers tocando o terror assistindo ao jogo num pub em frente. (Tocando o terror nos padrões dos EUA, evidentemente; brincadeira de criança, quando se compara com as torcidas de futebol no Brasil.) O que me pareceu mais interessante do acervo foram itens específicos do surfe na própria cidade, sede de importantes campeonatos ao longo de décadas.

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Santa Cruz Surf Museum (Santa Cruz)

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O Santa Cruz Surf Museum é tão pequeno que não daria para o acervo focar em pranchas – elas não caberiam no local. Contudo, tem seus atrativos. O primeiro deles é ficar dentro de um farol. Segundo, fica num lugar belíssimo, à beira-mar, em cima da ponta onde, logo abaixo, está Steamer Lane, uma das ondas mais famosas da Califórnia. Ou seja, a visita ao museu pode ser combinada com uma sessão nas gélidas águas locais – ou, em casos como o meu, com a assistência. O mesmo estacionamento é usado pelos visitantes do museu e pelos surfistas. Terceiro, tem entrada gratuita. Quarto, o acervo tem algumas fotos interessantes, assim como informações sobre aspectos do surfe local, como… ataques de tubarão.

Além de importante cidade de surfe californiana, conhecida pelas boas ondas e pelo mar frio, Santa Cruz é o lugar de origem de um dos principais fabricantes de roupas térmicas para surfe do mundo: O’Neill.

Santa Barbara Surf Museum (Santa Barbara)

Deste, não sei por que, não consegui encontrar as fotos. Assim como o de Santa Cruz, o forte são as pranchas. Há também muitas capas de discos e cartazes de filmes. De todos, foi o que me pareceu mais amador: na verdade, parece uma iniciativa pessoal de um apaixonado pelo surfe. O inacreditável: no domingo em que estive lá, não vi ninguém no museu. Isso mesmo: desde o momento que cheguei até a hora em que saí, não havia absolutamente ninguém lá dentro. O museu não cobra entrada, e é possível levar um adesivo deixando numa caixinha, em troca, uma doação de US$ 1. A casa onde funciona é meio difícil de achar, pois fica numa daquelas ruas meio estranhas: termina do nada numa linha de trem e recomeça do outro lado, só que você olha e não sabe por onde atravessar (pois há grades e muros). E uma vantagem, sem dúvida, é ficar na linda Santa Barbara.


Pesquisando história do surfe no Sul da Califórnia

04/09/2016

Por Rafael Fortes

San Diego é uma das principais cidades de surfe do mundo (cidade de surfe sendo a tradução possível de surf city). A afirmação pode parecer, a princípio, exagerada.

Darei, então, alguns exemplos e informações para justificá-la. Antes, ressalto que tal exuberância de manifestações da cultura do surfe é observada também nos condados litorâneos californianos que se sucedem rumo ao norte, até Santa Barbara: Orange County, Los Angeles, Ventura e Santa Barbara. Neles estão dezenas de praias, picos ou cidades importantes na história do surfe, como Huntington Beach, Malibu, Rincon, Santa Monica e Venice. Os cinco condados entre San Diego (ao sul) e Santa Barbara (ao norte) são uma das caracterizações do que constitui o Sul da Califórnia (Southern California). A definição é imprecisa, mas a expressão é muito utilizada em todos os âmbitos, inclusive o acadêmico. Por exemplo, numa dissertação de mestrado defendida em 1992, Wallace Zane afirma que ficou impressionado com a quantidade de imagens do surfe usadas em anúncios de diferentes produtos na televisão canadense, e que “as representações de surfistas que se vê na mídia nacional são quase sempre aquelas dos surfistas sul-californianos” (p. 1). Grosso modo, esta região engloba praias, indústria, mídia (editoras de revistas de surfe, produtoras de filmes especializados de surfe, Hollywood), moda, campeonatos, ídolos, música e outros aspectos relevantes das representações construídas a respeito do surfe (e do skate) a partir da segunda metade do século XX.

Foi nesta região que morei entre setembro de 2015 e agosto de 2016, realizando um estágio pós-doutoral – com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) – como pesquisador-visitante no Departamento de História da University of California, San Diego (UCSD).

San Diego

San Diego sediou dois dos seis campeonatos mundiais de surfe realizados entre 1964 e 1972. Antes da criação do circuito mundial profissional em 1976, eles eram a principal competição internacional da modalidade. Depois, continuaram sendo a mais importante no âmbito amador (Warshaw, 2003, p. 710-11).

A cidade conta com praias que atraem grande número de surfistas: Mission Beach, Ocean Beach, La Jolla Cove e La Jolla Shores, entre outras. A imensa quantidade de turistas na cidade (mais de 30 milhões por ano), vários deles dispostos a pagar por aulas para (tentar) surfar pela primeira vez, somada às milhares de pessoas de fora morando por alguns meses ou anos (militares, estudantes e pesquisadores), muitas das quais também dispostas a aprender a pegar onda, inviabilizam a possibilidade de localismo. Este fica restrito a certas praias ou pedaços, permitindo que vários trechos sejam um playground alegre para haolespregos e iniciantes.

O Condado de San Diego é um dos mais extensos dos Estados Unidos. Reúne uma quantidade ainda maior de praias, que se estendem desde Tijuana Sloughs, próxima à fronteira com o México, até San Onofre. No meio, algumas cidades com forte cultura praiana e presença do surfe: Imperial Beach, Coronado, Del Mar, Solana Beach, Encinitas, Carlsbad e Oceanside, além das praias na costa da base militar de Camp Pendleton (que incluem as famosas San Onofre e Trestles). Imperial Beach, por exemplo, tem um “Museu a Céu Aberto de Pranchas de Surfe”, com esculturas com as silhuetas de modelos de pranchas de diferentes décadas (imagens do folder de divulgação abaixo). Há também pranchas em exibição dentro de um prédio administrativo próximo ao pier local.

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San Diego é sede de empresas de surfwear, como a Reef Brazil, dos proprietários argentinos Fernando e Diego Aguerre. O primeiro é também presidente, desde 1994 (sim, também no surfe dirigentes ocupam cargos durante décadas), da Associação Internacional de Surfe, a federação internacional responsável pela modalidade – e que coordenou os esforços que resultaram na recente inclusão nos Jogos Olímpicos de 2020.

Na cidade há também empresas de skatewear e alguns importantes e tradicionais fabricantes de pranchas de surfe (e/ou skate), como Gordon & Smith.

ACA PCA 2017A força da associação com surfe também se mostra no âmbito acadêmico. À esquerda está a ilustração do anúncio do congresso das Associações de Cultura Popular e de Cultura Americana, que em 2017 ocorrerá em San Diego. Em primeiro plano encontra-se o item principal acionado para representar a cidade: uma prancha de surfe (no caso, de longboard). Ao fundo aparecem ícones locais como o museu porta-aviões e o Hotel del Coronado. A cor laranja é uma referência ao sol e ao céu, e as palmeiras… bom, estas são onipresentes no Sul da Califórnia.

Universidades, centros de documentação e bibliotecas

Sendo um elemento cultural, econômico, social e político relevante, estranho seria se o surfe não fosse objeto de pesquisa nas universidades locais. Ele é.

Na UCSD há investigações sobre o tema a partir de variadas perspectivas e áreas. Conheci dois físicos que desenvolviam pesquisas sobre as ondulações do mar com o objetivo de aprimorar a fabricação de piscinas de ondas, de maneira que as ondas artificiais imitem, o máximo possível, as da natureza. No primeiro semestre de 2015, a universidade anunciou a fabricação da primeira prancha produzida usando material secretado por algas em laboratório.

Em março de 2016, fotografei três de cerca de dez cartazes espalhados pela rua de pedestres que dá acesso à espetacular biblioteca central da universidade, a Geisel. Da esquerda para a direita, se lê nas imagens abaixo:

– 4a. melhor universidade pública dos EUA

– Top 15 no mundo em impacto científico

– Campus número 1 do país para surfar

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Ou seja, além de objeto de pesquisa, no caso da UCSD, situada em La Jolla, o surfe é também um mecanismo de atração de estudantes.

Na San Diego State University (SDSU), o setor de Coleções Especiais e Arquivo Universitário (SCUA, na sigla em inglês) mantém acervos relacionados a temas específicos, como movimentos religiosos alternativos, história em quadrinhos, estudos judaicos e surfe. Segundo me informaram os funcionários, uma volumosa doação espontânea incentivou o SCUA a instituir uma coleção dedicada ao surfe. Desde então, o setor recebeu outras doações, como uma recente (2015) com centenas de periódicos de Kurt Ledterman, morador de San Diego e ex-editor da revista Surfer. Como é comum nos EUA, após o falecimento do dono da coleção, um membro da família procurou uma universidade cuja biblioteca pudesse ter interesse pelo material e fez a doação. Durante os meses que passei pesquisando o acervo de surfe do SCUA, vi algumas dezenas de pessoas aparecerem para doarem itens, especialmente para as coleções de ficção científica, fanzines e história em quadrinhos – em alguns casos, elas já sabem que instituição procurar, pois conhecem as coleções/especialidades de cada uma. Além disso, o SCUA tem orçamento para aquisição de obras raras – há uma política ativa de compras, além do recebimento de doações. Afinal, uma das funções da biblioteca é funcionar como um centro de pesquisa e documentação, o que pressupõe a constituição, manutenção e ampliação de acervos.

A coleção de surfe tem diversos materiais, como fotos, pôsteres, cartões postais, livros, revistas e manuscritos. Entre as revistas, meu objeto principal de pesquisa, há dezenas de títulos de vários países, incluindo do Brasil.

A SDSU conta também com um Centro para a Pesquisa do Surfe, coordenado por um professor da Escola de Turismo e Hospitalidade. Ainda nas Humanidades, em abril deste ano, por exemplo, foi defendida uma dissertação de mestrado em História intitulada The Girls Who Surf: Women in Surfer Magazine, 1963-1976 [As garotas que surfam: mulheres na revista Surfer (1963-1976)], de Jasmine Tocki.

As bibliotecas das universidades são integradas numa base chamada Circuit. Nela é possível consultar os acervos e, mediante login e senha (os mesmos da sua universidade de origem), solicitar o empréstimo das Livros 3 bibliotecasobras. Ao fazer a reserva, o usuário escolhe em qual biblioteca de sua universidade irá buscá-los (no meu caso, havia três opções). Em uma das ocasiões, fiz a reserva num domingo, e na terça-feira os livros (foto à esquerda) – um da University of San Diego e outro da SDSU já estavam à minha espera na estante do balcão principal. Feito o empréstimo, tive um prazo de devolução de um mês – sim, 30 dias para devolver obras de bibliotecas de universidades diferentes daquela a que estava vinculado. O prazo da biblioteca da UCSD é de um ano e, como pesquisador visitante, eu podia ter até 200 livros emprestados simultaneamente.

Nos acervos encontrei muitos títulos relativos ao surfe: na maioria, obras acadêmicas. Mas também obras sobre o passado e/ou memorialísticas de jornalistas e/ou surfistas, livros de arte (fotografia, música, artes visuais) e guias.

A esta estrutura se soma a da Biblioteca Pública de San Diego (SDPL), com dezenas de filiais espalhadas pelos bairros. O sistema de bibliotecas públicas conta com outro grande acervo relativo ao surfe, tanto de itens que qualquer usuário cadastrado pode pegar emprestados e levar para casa, como filmes em DVD, CDs de música e livros, quanto de fontes para pesquisa na monumental biblioteca central, no Centro. Durante os quase doze meses que passei lá, com a conveniência de uma filial de bairro a duas quadras de casa, consegui ver dezenas de filmes em DVD, boa parte deles relacionados ao surfe.

Tal como nas universidades, a busca e reserva pode ser feita pela internet, as obras disponíveis em qualquer unidade do sistema são transportadas até a unidade de escolha do usuário. Este recebe um email informando que o item está disponível para retirada e pode fazer sozinho o check-out dos livros, usando um cartão com código de barras. A obras podem ser devolvidas em qualquer filial ou depositadas em totens do lado de fora (ou seja, para devolução não é preciso comparecer à biblioteca durante o horário de funcionamento). Dá para renovar os itens pela internet ou telefone, e o sistema envia um email de aviso quando o prazo está para vencer.

Em tempo: meu cadastro era no sistema da cidade. Existe o do condado de San Diego, que conta com outras dezenas de bibliotecas. E existem ainda os sistemas de outros condados e cidades do Sul da Califórnia, que contam com unidades com revistas de surfe entre as dezenas de títulos que assinam e disponibilizam para consulta, leitura, estudo, trabalho e prazer dos usuários.

Museus

O litoral da Califórnia é sede de cinco museus de surfe: California Surf Museum (Oceanside), Surfing Heritage and Culture Center (SHACC, San Clemente), International Surfing Museum (Huntington Beach), Santa Cruz Surf Museum (Santa Cruz) e Santa Barbara Surf Museum (Santa Barbara). A maioria cobra entrada para visitação, geralmente US$ 5. Os dois últimos praticamente se limitam à exposição de pranchas, fotografias e outros itens. Os três primeiros contam também com acervos de periódicos, fotografias e outros documentos, que são disponibilizados para consulta de pesquisadores.

No que diz respeito ao acervo de revistas, um bastante completo é o do California Surf Museum, que conta com uma equipe muito prestativa e uma sala de pequisa confortável. Já no SHACC, a pesquisa é limitada aos sócios – o acervo de lá parece ser bem bacana, também.

Os museus de surfe serão tema de texto específico que publicarei posteriormente neste blogue.

Além de museus específicos, o status do surfe no Sul da Califórnia inclui a presença de pranchas e a realização de exibições e mostras em outros espaços dedicados à arte. O Mingei International Museum, em San Diego, voltado para artesanato e cultura popular, realizou uma exposição de pranchas de surfe que ocupou todo o primeiro andar do prédio entre junho de 2014 e janeiro de 2015. Uma das ênfases do livro resultante da exposição é destacar o papel de shapers de San Diego no desenvolvimento de novos desenhos, tipos e materiais de pranchas (KEVIN, 2014).

 

Referências bibliográficas

KENVIN, Richard. Surf Craft: Design and the Culture of Board Riding. San Diego/Cambridge: Mingei International Museum/MIT Press, 2014.

WARSHAW, Matt. Encyclopedia of Surfing. Orlando: Harcourt, 2003. (Há verbetes disponíveis em: http://encyclopediaofsurfing.com/)

ZANE, Wallace W. Surfers of Southern California: Structures of Identity. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – McGill University, Montreal, 1992.


Os Garotos da Praia de Waikiki: surfe, turismo, homens e mulheres

10/04/2016

Por Rafael Fortes

Num livro publicado em 2011, o historiador Isaiah Helekunihi Walker celebra o surfe como prática de resistência no Havaí durante o século XX. Entre os méritos da obra estão o uso de fontes que transcendem o inglês – sobretudo jornais em havaiano – e o destaque à articulação do surfe com movimentos políticos do arquipélago. Tem também problemas, comWalker - Waveso a grande facilidade para enxergar resistências e o esforço de corrigir textos de memória e jornalísticos – frequentemente, rechaçando os mitos apenas para colocar outros em seu lugar. Contudo, esse texto não é uma resenha do livro. Avisos aos navegantes: todas as citações do livro estão originalmente em inglês e foram traduzidas por mim; os vídeos, quando narrados, o são em inglês.

O que me interessa discutir é um trecho – intitulado “Garotos da Praia: Empurrando Mulheres e Fronteiras” (p. 70-77) – do capítulo três. O capítulo trata da rivalidade entre os frequentadores da praia de Waikiki, em Honolulu, que se agruparam em torno de dois clubes: o Outrigger Canoe Club, “formado em 1908 por (…) Alexander Hume Ford” e composto majoritariamente por haoles brancos nascidos no continente (p. 59); e o Hui Nalu, fundado e composto por membros de famílias históricas havaianas, entre os quais Duke Kahanamoku e o príncipe Jonah Kūhiō Kalanianaʻole, membro da família real deposta na última década do século XIX, antes da anexação pelos EUA, em 1898 (não confundir este clube com o Hui O He’e Nalu, formado nos anos 1970 e existente até hoje, cujos membros se tornaram conhecidos no Brasil como black trunks). O Hui Nalu, “embora existisse de forma pouco organizada desde 1905, (…) foi oficialmente formado (…) em 1911” (p. 62). Waikiki era e continua sendo a praia mais turística do arquipélago.

De acordo com Walker, “a partir de 1915, surfistas do Hui Nalu abriram lucrativos negócios sob concessão em Waikiki” e passaram a ser conhecidos como os “Garotos da Praia de Waikiki” (p. 70). Eles “eram salva-vidas, guarda-costas, instrutores, animadores e guias turísticos para os visitantes. Por um preço relativamente alto, levavam clientes para a arrebentação para descer ondas em canoas e pranchas.” Faziam e vendiam artesanato e davam aulas de ukelele.  À medida que os negócios se desenvolveram, alguns garotos passaram a atuar em tempo integral como funcionários particulares de famílias ou indivíduos de alta renda que visitavam Waikiki: levavam para passeios, atuavam como secretários particulares e desempenhavam funções diversas por períodos que variavam de “duas semanas até três meses” (p. 71).

As informações contidas e as histórias contadas nesta parte do capítulo se baseiam majoritariamente em entrevistas de história oral feitas com os próprios Garotos da Praia (a maioria, feitas em 1985 e disponíveis num banco de dados). Ao narrarem as relações com os e, principalmente, as turistas, a coisa fica mais animada.

Entre as graças que faziam para entreter os clientes, contavam histórias e piadas e surfavam sentados em cadeiras de praia ou na companhia de um cachorro. Este vídeo identifica um dos irmãos Kahanamoku como um surfista que descia ondas com seu cão Spot, o que pode ser visto em 3’19”. (Adendo: em outras ondas, a prancha em que está o cachorro não consegue ser captada pela câmera, o que provavelmente se deve à dificuldade de manejar o equipamento e à diferença de velocidade entre a prancha filmada e a canoa em que, suponho, encontrava-se a câmera.)

“À medida que ostentavam suas habilidades sociais e surfísticas, eles se tornaram celebridades locais capazes de atrair mais do que dinheiro. Garotas e mulheres brancas se aglomeravam na praia para aprender a surfar com os Garotos da Praia havaianos. ‘Naquela época’, recordou Louis Kahanamoku, ‘especialmente as wahine [mulheres] brancas iam todas nos Garotos da Praia. Os Garotos da Praia eram conhecidos por cortejar diversos tipos de mulheres de fora – divorciadas, ricas, vedetes e filhas de visitantes ricos” (p. 72).

Havia turistas que confiavam suas filhas aos cuidados dos Garotos da Praia. Houve histórias de amor entre os Garotos e vedetes que deram em casamento. E evidentemente, havia quem os considerasse “um bando de homens preguiçosos que se prostituem ganhando a vida em cima de desquitadas do continente” (p. 72).

Uma das principais formas de ensinar as damas a surfar, e também de “impressioná-las”, era descer as ondas junto com elas, na mesma prancha. Por exemplo, levantando-as sobre os ombros, o que, de acordo com um dos Garotos, “convidava a manobras excitantes e íntimas”. Na volta, “subiam em cima da parte de trás das garotas haoles” na remada para o outside (p. 72). O vídeo abaixo mostra, em 2’20”, uma sorridente mulher descendo uma onda em surfe duplo. (No último vídeo deste texto, há também um amplo sorriso captado em 5’07, em meio à excitação de descer uma onda numa canoa.)

(Breve comentário sobre o vídeo acima: como se pode ver, ele traz fartura de boas ondas surfadas com desenvoltura – e grande estilo – por um cachorro, que abre os trabalhos no sonrisal em 2’44” e depois manda ver no hang ten.)

Cenas com homens aproveitando a aproximação dos corpos para certos contatos e iniciativas, embora mantendo uma postura que cinicamente permita alegar que nada demais está acontecendo, também aparecem em Gidget, produção de 1959 com trama situada no litoral da Califórnia. Eis o trecho:

A partir de 0’16”, um dos personagens fala: “Aí está, querida! Reta como uma panqueca, hein?! Quase, né? (…) Posso te deixar mais à vontade?” Ao final, o mesmo personagem diz: “Muito bom para a primeira vez, né? Agora vou um levá-la um pouco mais fundo!” O filme, de acordo com vários pesquisadores, foi decisivo para espalhar a febre do surfe pelos EUA. A situação da personagem adolescente Gidget, que busca aceitação e tenta aprender a surfar em meio a vagabundos de praia mais velhos, é muito distinta daquela das turistas que buscavam e contratavam os serviços dos Garotos da Praia de Waikiki – elementos que podem permitir uma boa e complexa discussão sobre consentimento, abuso, vulnerabilidade etc.

Voltando a Waikiki… Quando na areia, a legítima preocupação de evitar queimaduras pela exposição ao sol levava os Garotos a realizar, “com frequência regular”, sessões de massagem para aplicação de óleos na pele de quem estava sob seus cuidados (p. 73).

À noite, vestindo smoking, os Garotos cantavam e tocavam instrumentos musicais, atraindo especial interesse do público feminino. As letras de algumas músicas tratam destas interações, do clima de romance e do duplo sentido em movimentos e gestos. Após o encerramento das atividades, os pares/casais se espalhavam em diversas direções – alguns, rumo ao mar, para novas sessões de surfe a dois.

O vídeo a seguir reitera esta narrativa da “boa vida” dos Garotos com diversas fotos, especialmente a partir de 3′ (e, diga-se de passagem, tem uma visão ainda mais positiva e idílica que Walker).

Como se pode imaginar, “por meio de tais interações, os Garotos da Praia de Waikiki violavam regras sociais de uma sociedade americana governada por leis antimiscigenação e ameaçavam a hegemonia haole por conquistarem propriedade que haviam construído e que era seu privilégio” (p. 75). Para Walker, isto evidencia que o mar – e, particularmente, a prática do surfe – constituía um espaço de exceção, de inversão de valores. Ali os homens havaianos eram poderosos, admirados e desejados. “Enquanto a indústria do turismo promovia as ilhas como uma ‘mulher’ a ser conquistada, os homens havaianos não eram propagandeados como objetos sexuais da maneira como ocorria com as mulheres dançarinas de hula-hula. Portanto, estes homens não estavam desempenhando ou se adequando a expectativas de conquista sexual de turistas; em vez disso, as desafiavam” (p. 75-6). Embora o argumento tenha valor, eu sugeriria que eles estavam também se adequando às expectativas das turistas.

No início dos anos 1930, num contexto de intensa crise econômica; acusações de estupro; e o transplante, para as ilhas, do discurso racista e histérico a respeito do negro como um predador sexual, o clamor social legitimou uma intensa reorganização do espaço social e econômico da praia de Waikiki, que passou a ser completamente controlada pelos brancos ligados ao Outrigger. Restou aos Garotos se sujeitarem a trabalhar em condições muito piores que as anteriores, tentarem ganhar a vida como frilas ou simplesmente abandonar a praia. A Segunda Grande Guerra fecharia as praias do arquipélago – de acordo com Walker, Waikiki foi cercada com arame farpado.

Bibliografia

WALKER, Isaiah Helekunihi. Waves of Resistance: Surfing and History in Twentieth-Century Hawai’i. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2011.