Transformando neve em ouro: a Australia nos Jogos Olimpicos de Inverno

 Jorge Knijnik

(dedicado a minha mamae querida que esquentava meus pezinhos nas  montanhas geladas de Bariloche)

 Australia… Mar… surfistas ‘top’ de linha…tubarões e baleias… Sol o ano inteiro…milhares de praias inexploradas e meio selvagens, com falésias… Ótimos lugares para se andar de bicicleta, fazer caminhadas e outros esportes em meio a natureza… Enfim, um verdadeiro paraíso tropical – mas com biquínis bem mais largos daqueles usados nas praias cariocas.

Australia, decimo-terceiro colocado geral dos Jogos Olímpicos de inverno de Vancouver, em 2010, quando ‘papou’ dois ouros e uma prata; Australia, 15 atletas ranqueados entre os 10 melhores nos Jogos Olímpicos de inverno de Sochi, 2014, quando abocanhou duas pratas e um bronze. Australia, ‘paraíso tropical’ que nos últimos seis jogos Olímpicos de inverno (desde 1998 em Nagano) ganhou ao menos uma medalha em cada competição.

Como isso aconteceu? Como pode um país que tem sol quase o ano todo, e é mundialmente conhecido não pelos seus ‘alpes’ cobertos de neve mas sim por suas praias e lugares quentes que se estendem por todo o lado, ganhar medalhas em modalidades olímpicas de inverno? De onde veio esta cultura gelada, mas também bronzeada, prateada e dourada?

Primeiramente, um esclarecimento geográfico: existem montanhas com neve na Australia, mais ao Sul do estado de New South Wales (onde fica Sydney). A montanha Kosciuszko é o quinto local mais alto do hemisfério sul, e é lá nas ‘snowy mountains’ que se localiza o ‘playground’ dos esportes de inverno no país. Diversas estacoes de inverno para turistas promovem passeios e competições de esqui, treno, brincadeiras, bonecos de neve; e por lá treinam e competem os ‘doidoes e doidonas’ do snowboarder e de outras modalidades radicais de inverno… Todos treinam ou ao menos começaram a praticar por lá.

Estas montanhas fizeram com que surgisse uma pequena tradição de esportes de inverno por aqui. Um dos clubes mais antigos de esqui na neve no mundo foi fundado em 1870, na cidade de Kiandra, em New South Wales, pertinho das montanhas de neve. O primeiro australiano a representar o país nos Jogos de Inverno foi o atleta de corrida de patins no gelo Kenneth Kennedy, em 1936, em Garmisch-Partenkirchen na Alemanha. Freddie McEvoy foi o outro australiano que competiu nos mesmos Jogos, porem capitaneando o time britânico de bobsled.

Até o inicio dos anos 1990, a Australia em geral participava com pequenas equipes nos Jogos de inverno, times que continham entre três e quinze membros ao máximo. Se compararmos estes números com a delegação de 60 atletas que compareceu aos Jogos de Sochi em 2014 – um terço maior do que a delegação dos jogos imediatamente anteriores em Vancouver – pode-se ver uma nítida evolução não apenas da participação, mas do interesse e do investimento nestes esportes como um todo. Se durante quase 60 anos os atletas de inverno contavam com muito pouco apoio oficial, a partir de 1994 isso mudou: naquele ano, em Lilehamer, a Australia ganhou seu primeiro bronze nos Jogos de Inverno, com a equipe de revezamento da corrida de patins no gelo (5000 metros).

Desde então, a politica esportiva para os Jogos de Inverno começou a mudar por aqui. O investimento oficial nos atletas e nas modalidades de inverno pouco a pouco passou a ser ampliado. Novos esquemas de financiamento oficial surgiram e… Bom, precisa explicar? Dinheiro olímpico ‘compra’ medalhas olímpicas…

Curiosamente, o distanciamento geográfico da Australia dos grandes centros de esportes de inverno (América do Norte e Europa), em conjunto com a relativa curta temporada de neve no país, acabou por se tornar não uma dificuldade, mas um bônus para o desenvolvimento da elite das modalidades de gelo e neve. Eles tiveram que desenvolver um novo modelo de alto desempenho, com criatividade, parcerias internacionais, cooperações e um pouco de sorte. Os australianos acreditam piamente que o fato dos seus atletas terem que passar longas temporadas fora de casa, competindo no exterior nas mais diversas e por vezes adversas circunstancias, acaba por criar gerações de atletas de sucesso, resilientes, que não se afetam facilmente em face de alguma dificuldade, problema ou oponentes difíceis.

Os dirigentes esportivos em geral e os olímpicos em particular por aqui acreditam piamente que sucesso gera mais sucesso – e vão atrás disso. Eles afirmam que o sucesso do país nos Jogos Olímpicos de Verão acabou impactando também os esportes de inverno: a mídia e o publico estão sempre esperando grandes resultados dos atletas australianos. Quando se fala em Jogos Olímpicos, o torcedor australiano vira meio ‘bicho’. Um pouco no sentido do torcedor brasileiro. Segundo lugar não esta legal – medalha, medalha, medalha de ouro! Para eles, isto gera um clima positivo, mais espectadores, mais atenção, mais propaganda, mais investimento publico e privado.

Em 1998 o Comitê Olímpico Australiano (AOC) criou o seu instituto de esportes de inverno (OWI), com o objetivo especifico de financiar e desenvolver atletas de elite nestes esportes.  Em 2002, em Salt Lake City, com um pouquinho de sorte, o país ganhou seus dois primeiros ouros gelados – com Alisa Camplin no esqui estilo livre e Steven Bradbury na patinação de velocidade 1000 metros (curta).

O OWI recebe verba do AOC, mas também de agencias governamentais como o Departamento de Esportes Australiano (ASC)  e apoio do Instituto de Esporte Australiano (AIS) localizado na capital federal (Canberra), do qual usufrui  toda a estrutura reservada aos atletas olímpicos – fisioterapeutas, biomecânicos, médicos, fisiologias e cientistas do esporte em geral que ajudam na preparação dos atletas. O OWI também possui laços estreitos com dois dos maiores institutos de esporte estaduais, em New South Wales e Victoria, e conta com o apoio de diversas federações de esportes de inverno, que auxiliam com técnicos especializados nas diversas modalidades, além de providenciar locais específicos de treinamento como em Perisher, em New South Wales, que possui  uma gigantesca pista (half-pipe) de snowboarder.

Juntem-se todas estas parcerias, com o apoio de patrocinadores do setor privado, e um modelo de sucesso esta sendo construído. No início de 2010  o OWI mudou seus escritórios para o então recém-inaugurado Centro Nacional de Esportes no Gelo, em Melbourne, uma fabulosa edificação de avaliada em 60 milhões de dólares australianos, bancada por um banco privado. Este local de treinamentos e competições marcou uma nova era para os esportes de inverno na Australia.

Com dois ringues oficiais de patinação no gelo, com arquibancadas para mil pessoas; uma academia, um café, uma sala para descanso e recreação dos atletas, escritórios para técnicos e administradores, vestiários, sala para reuniões e celebrações, uma clinica de medicina esportiva, entre outros equipamentos e lugares de apoio a pratica dos esportes gelados, este novo centro deu um impulso final para o desenvolvimento dos esportes de inverno na Australia. Além de atender atletas em modalidades como hóquei no gelo, curling, patinação artística e outras, este ‘quartel general’ tem outra finalidade: atende o publico em geral que deseja apenas participar e brincar de patinar e outros esportes gelados.

Como se isso fosse pouco, em 2012 o Departamento Australiano de Esportes (ASC) abriu em Varese, no norte da Itália, o seu centro de treinamento europeu. Ele serve como base para os atletas australianos – e seu staff –  que estejam competindo na Europa. Seguindo o modelo do Instituto de Esportes Australiano em Canberra – com equipes multidisciplinares a disposição de atletas olímpicos em varias modalidades – e inicialmente planejado apenas para atletas ‘de verão’, esta sede europeia já esta recebendo também os atletas ‘de inverno’.

Algumas iniciativas do Comitê Olímpico Internacional também ajudaram a aumentar tanto o investimento quanto o interesse nos esportes de inverno ao redor do mundo e na Australia. A adoção de um novo ciclo olímpico a partir de 1990, sob o qual os Jogos de Verão e os de Inverno não ocorrem mais no mesmo ano foi a primeira destas. Com seu espaço e tempo determinados e diferentes do seu ‘irmão mais velho’, os Jogos de Inverno deste então conseguem atrair o seu próprio segmento de mídia, patrocinadores e torcedores, que vem aumentando nos últimos anos.

Em segundo lugar, outra iniciativa chave do COI foi a incorporação de esportes radicais no quadro das suas modalidades de inverno. Pressionado pela crescente popularidade dos ‘X-Games’ e seus esportes radicais – com todo o apelo que estes possuem para gerações mais novas – o COI ampliou seu leque de modalidades nos Jogos de Inverno, incluindo, por exemplo, o esqui ‘freestyle’, o snowboarding, entre outros.

Rapidamente, começou a ser ‘cool’ para a juventude australiana passar um tempo nas montanhas de neve aprendendo e se dedicando a estes novos esportes. O surfe e a cultura praiana passaram a dividir a atenção dos jovens com esta nova cultura ‘gelada’. Com uma base maior, mais atletas talentosos podem surgir, gerando o efeito de ‘quanto mais sucesso, maior o sucesso’, tão caro a filosofia do Comitê Olímpico Australiano.

Por fim, o fato de a Australia ser um ‘paraíso tropical’ localizado no hemisfério sul, com neve durante alguns meses, acabou por favorecer os atletas australianos da elite dos esportes de inverno. Eles conseguem treinar em seu próprio país (ou mesmo na vizinha Nova Zelândia que também tem montanhas geladas próprias para estes esportes) durante o verão europeu, e partirem para o hemisfério norte quando o verão derrete tudo por aqui.

Os australianos olímpicos querem mais. Já possuíam a ambição de estarem entre os 15 primeiros colocados no quadro de medalhas em Sochi – ficaram na 24 posição, mas diversos atletas passaram ‘raspando’ e se mantiveram entre os top-10 de suas modalidades, sendo jovens o suficiente para competirem por melhores lugares em Pyeongchang em 2018.  Assim, o AOC manteve sua meta ambiciosa enquanto adotou uma estratégia de financiamento de atletas que promove uma busca mais agressiva e intensa por medalhas.

Esta estratégia, denominada de ‘Winning Edge’ (algo como ‘ganhar o topo’) promove uma distribuição desigual de recursos financeiros, materiais e humanos para os atletas olímpicos. Nitidamente, aqueles atletas que possuem maiores chances de medalhas, receberão mais e melhores  condições, incluindo ai dinheiro. Claro que isso gera uma desigualdade grande entre os piores e os melhores qualificados nos diversos rankings mundiais, promovendo um pouco de ciumeira e muitas reclamações. Mesmo atletas dourados, como Torah Bright, usaram seus canais de mídia social para contestar esta politica antes dos Jogos de Sochi – mas não durante.

Estas reclamações e contestações abalaram, mas não destruíram o espirito da ‘família olímpica australiana’; após muita conversa para apaziguar os ânimos, os dirigentes pretendem continuar e mesmo ampliar no futuro esta estratégia de distribuição de dinheiro àqueles e àquelas com mais chances de subirem aos pódios.

Talvez com isso eles consigam aplacar o desejo da nação por medalhas, medalhas, medalhas – e também abafar a voz crescente daqueles que prefeririam ver esta montanha quente de recursos serem direcionados para as atividades de esporte participativo e de lazer da população em geral.

 

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