A GINÁSTICA COMO PRÁTICA EDUCATIVA NA BAHIA (1850-1920)

17/07/2017

Aline Gomes Machado

O século XIX, no Brasil, representou um momento de mudanças significativas nos diversos setores. Via-se a efervescência de uma busca pela modernização do país. Civilização e modernidade se convertiam, neste momento, em palavras de ordem; virando instrumento de batalhas, além de fotografias de um ideal alentado.

 A Bahia, como a antiga capital do país, não ficou de fora desse processo. Também ela viu fervilhar o desejo pela modernidade, por novos ares, modos de vida, novos comportamentos e hábitos, inclusive, os de saúde e higiene.

Sabemos que a essa época, Salvador era uma cidade sem nenhum tipo de cuidado com o esgoto, estava sempre suscetível a moléstias infectocontagiosas, que atacavam sua população. Especialmente, a camada negra e pobre era a mais massacrada pelas epidemias que tomavam a cidade, já que era mais exposta às situações de risco sanitário.

Muito em função disso e por possuir em suas terras, uma escola médica, tida como um cenário de ciência, um dos discursos de modernização na Bahia assentou-se no pressuposto de que o saber científico possuía uma proposição especial para promover o desenvolvimento.

Dessa forma, a ciência tornou-se fundamental, por, pretensamente, apresentar caminhos objetivos para solucionar os problemas sociais, especialmente a ciência médica. Sendo assim, vimos que a camada ‘letrada, científica e lógica’, apoiada nos poderes políticos, dirigiu diretamente o projeto de modernidade, inclusive o baiano, justo por conta do papel de destaque dado ao conhecimento científico.

Assim, na Bahia, pautados nos pressupostos higienistas, os senhores da ciência constatavam as mazelas e indicavam os meios para se atingir os objetivos de uma melhor higiene, como podemos perceber no Relatório do Conselho Interino de 1856, elaborado pelo secretário da Commissão de Hygiene Publica, Dr. Malaquias Avares dos Santos:

Nas demais comarcas existem também muitas causas de insalubridade, como sejam mais geralmente habitações húmidas, e mal arejadas, alimentação irregular e de má qualidade, pântanos de todos os gêneros, e nenhum apuro na educação physica; ao que demais se ajunctam muitos vicios na educação.” moral e intelectual dos habitantes, o que se encontra ainda n’esta capital e mormente, nos seus suburbios.

O discurso médico figurou no movimento de modernidade baiano, articulando o progresso, a necessidade de higiene. A exemplo disso temos a fala de Mathias de Campos Velho, na tese apresentada para conclusão do curso de medicina na Faculdade de Medicina da Bahia em 1886, aonde afirma que a higiene:

esta quasi sempre em razão directa com a civilização de um povo e constitue fonte de riqueza, porque concede dous thesouros preciosos, a saude e a ordem (p.70) e, neste sentido diz, também, que o homem civilisado tem sempre em vista: a hygiene geral (p.67).

Dentre as estratégias elaboradas para atingir a higiene necessária, os higienistas reconheciam a importância de uma educação que se enquadrasse nos objetivos desse movimento. Objetivos esses que não se restringiam ao controle das variáveis físicas, biológicas, mas também buscavam uma retidão moral, uma disciplinarização necessária para atender as demandas sociais da época. Assim, os higienistas indicavam quais medidas deveriam ser tomadas pela população e governo, inclusive nas instituições escolares.

Contando com o apoio de articulistas, os higienistas apontavam como elemento basilar para formar o homem higiênico, o cuidado com o corpo, onde a prática de atividades físicas possuía fundamental importância. Dentre eles, a ginástica aparecia como a prática dileta.

Sabemos que a ginástica, como uma prática educativa, era tratada como algo que atuaria na formação de novos corpos e mentes, tida como uma extensão dos poderes e saberes gerados pela higiene, ganhando assim, a defesa de médicos e articulistas que se encarregavam de garantir os porquês da importância dessa atividade, não apenas fundamentando os benefícios corporais, mas também para formação moral do ‘homem vigoroso’.

Como justificativas a este apoio a uma nova ação ‘educativa’, a ginástica, encontramos nos jornais baianos questionamentos, inclusive, sobre a forma como os mais ricos educavam seus filhos. O Correio Mercantil (02 de junho de 1838, p.02) apontava que “os mimos e branduras com que as pessoas mais ricas e poderosas custumão criar os filhos os fazem commummente aleminados e de débil compleição”, e coloca a ginástica “com o exercício acertado” como corretiva desta situação, e segue garantindo que “a gymnastica, porém, nas cidades he absolutamente precisa, não para formar arlequins, como o para cuidado, mas para educar homens vigorosos”.

Por conta de pensamentos como esse, os discursos voltaram-se, então para a prática da ginástica como instrumento capaz de fornecer os idealizados objetivos dessa sociedade modernizada, civilizada e higiênica.

A partir da influência de um saber científico, os propósitos conferidos à prática metódica se tornaram mais expressivos com o passar do século XIX, demarcando que a ginástica valorizada era aquela cujos princípios básicos seriam a disciplina, a saúde e a higiene, distanciando-a de uma prática mais livre e expressiva. Era preciso uma ‘ginástica científica’ que se enquadrasse nos ideais modernizadores e higiênicos, que apresentasse caminhos para resolver as mazelas sociais que se circundavam todo país.

Nesse sentido, o Brasil e a Bahia, sob o prisma do higienismo, esforçando-se para acompanhar o desenvolvimento dos países modernos do continente europeu, adotavam muitas de suas práticas culturais e educacionais como símbolos de modernidade. Se na Europa a ginástica era parte da educação oferecida pelos principais colégios, aqui, ela seria utilizada num sentido semelhante.

A tese Hygiene Pedagogica, de Umbelino Heraclio Muniz Marques, apresentada a Faculdade de Medicina da Bahia, procurou demonstrar como uma educação higiênica, digamos assim, seria o símbolo de uma modernidade

A higiene pedagógica, que aliás age decisivamente sobre o desenvolvimento da creança, e sobre a conservação de sua saude, ainda nos paizes, mais adiantados deixa muito a desejar…(1886, p.01).

O mesmo Umbelino ainda afirma como uma educação higiênica “adapta todas as potencias physycas, intellectuaes e moraes de cada individuo á função plena do papel que lhe esteja destinado desempenhar na coletividade” (p.02). Perceba como a preocupação está centrada em tornar harmônica esta tríade das faculdades humanas para que o sujeito possa desempenhar seu papel sem alterar a ordem social desejada, que neste caso é a ordem para o progresso, a modernização.

Desta forma, nesse momento aqui tratado, vimos, na Bahia, um movimento que visou, sobretudo, civilizar os costumes, moralizar as condutas e moldar comportamentos e corpos para alicerçar as bases da sociedade higiênica e moderna. Este movimento configurou as principais estratégias do projeto higienista. Essa foi à intenção e motivação, agora saber como se deu e mesmo se alcançou tal objetivo, fica para outros escritos.

 

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ANPUH 2017 – Simpósio Temático História do Esporte e das Práticas Corporais

01/03/2017

Olá Pessoal
Chamando atenção para os prazos de inscrição:
Prazos: 09/01/2017 a 06/03/2017: prazo para inscrição de apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos: prazo para inscrição de apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos.
Vamos fazer força para cumprir as datas.

Prezados e prezadas
Com satisfação chamamos todos e todas a participarem do XXIX Simpósio Nacional de História. O evento acontecerá em Brasília, de 24 a 28 de julho de 2107, na UNB
Para tanto, convidamos que apresentem suas propostas de trabalhos ao nosso Simpósio Temático História do Esporte e das Práticas Corporais (simpósio 52), dentro das condições e prazos estabelecidos pela organização geral, que são demonstradas abaixo:

Instruções gerais para inscrições

  1. O sistema de Inscrição é feito exclusivamente por meio eletrônico, tanto para o envio de dados quanto para a geração de boletos bancários. Solicita-se leitura atenta de todos os itens destas instruções, para evitar eventuais problemas nas inscrições;
  2. As inscrições podem ser feitas numa das modalidades abaixo:
    • SÓCIO APRESENTADOR DE TRABALHO EM SIMPÓSIO TEMÁTICO;
    • NÃO-SÓCIO APRESENTADOR DE TRABALHO EM SIMPÓSIO TEMÁTICO;
  3. Os valores de inscrição para cada modalidade são os da tabela abaixo:
  4. Solicitamos atenção ao preenchimento correto de todos os campos da ficha de inscrição, em especial nos campos “Nome” e “Título do Trabalho”, se for o caso, para evitar posteriores problemas quanto à emissão dos certificados. O preenchimento correto do campo “e-mail” também é de fundamental importância para futuro contato com os inscritos. Feito o cadastro, o interessado receberá e-mail de confirmação, contendo os dados de acesso à área do inscrito (login e senha), onde é possível imprimir novamente o boleto de inscrição, caso seja necessário;
  5. Os colegas que desejarem associar-se à ANPUH deverão fazê-lo antes de se inscreverem no Simpósio Nacional, dirigindo-se a sua Seção Regional. Clique aqui para conhecer as Seções Regionais da ANPUH e seus contatos.
  6. A Anpuh não aceitará novos associados após o dia 27 de abril de 2017 (os formulários de filiação serão reabertos no dia 07 de março). Assim, uma vez paga a inscrição na condição de não associado, não será possível reverter para a opção de sócio.
  7. Os associados da ANPUH deverão estar quites com as anuidades para terem direito ao valor de inscrição estipulado para esta categoria;
  8. O pagamento da inscrição deverá ser realizado até a data de vencimento registrada nos boletos bancários. Após esta data, a inscrição será cancelada;
  9. Informações sobre a confirmação de pagamento do boleto poderão ser obtidas na área do inscrito;
  10. Não haverá devolução do valor referente às inscrições. No caso de propostas não aceitas pela comissão científica ou inviabilizadas por qualquer razão, o proponente poderá usar o valor já pago para inscrever-se em outra modalidade.
  11. A inscrição em Minicurso é específica. Para tanto, o interessado deverá inscrever-se no campo Minicurso, da Ficha de Inscrição, adicionando-se o valor desta modalidade ao boleto bancário. A inscrição em Minicurso não isenta o interessado de pagar os valores de inscrição em outras modalidades de participação. Ao fazer sua inscrição para minicurso, o interessado deve escolher 3 (três) opções dentre as listadas na página do evento, classificadas em 1ª, 2ª e 3ª opções. Caso o minicurso escolhido em 1ª opção já esteja completo ou seja cancelado por não atingir o número mínimo exigido de participantes (20), o inscrito será realocado no minicurso escolhido em 2ª opção, e assim sucessivamente. O número máximo de vagas em cada minicurso é de 30, mas ele poderá ser ampliado, a critério da Comissão Organizadora, em acordo com os professores responsáveis. Nesses casos, será respeitada a ordem de inscrição. Quem já estiver inscrito como proponente de Simpósio Temático, apresentador de trabalho ou ouvinte pode fazer a inscrição em minicurso entrando na “Área do inscrito”, com seu login e senha, e selecionar “Inscrição em minicurso”. Essa opção dá acesso a formulário para a escolha das 3 opções de minicursos que, uma vez realizada, gera novo boleto para pagamento;
  12. Para os interessados em propor Simpósio Temático + Minicurso, basta realizar a inscrição em qualquer uma destas modalidades e, com seus dados de acesso em mãos, voltar ao site do Simpósio, entrar na área de inscrito, localizar a(s) opção(ções) desejada(s) e adicioná-la(s) à inscrição original. O valor extra é acrescido ao boleto bancário. Para os proponentes de Simpósio Temático + Minicurso o valor cobrado é de R$ 100,00. Nesses casos, não haverá cobrança para inscrição na condição de apresentador de trabalho. No caso de proponente de Minicurso que queira inscrever trabalho em Simpósio Temático, há necessidade de pagar as duas taxas (R$ 100,00 + R$ 60,00).
  13. Para apresentar trabalho nos Simpósios Temáticos o proponente deverá ser no mínimo graduado.
  14. Cada inscrito poderá apresentar apenas 1 (um) trabalho em apenas 1 (um) simpósio temático. O inscrito deverá escolher 3 (três) Simpósios Temáticos, conforme a ordem hierárquica de sua preferência. Caso não seja aceito no primeiro, será realocado na opção seguinte. Avaliação, aceitação e eliminação de trabalhos dentro do simpósio temático são realizadas pelos coordenadores de cada simpósio. Caso o simpósio temático seja cancelado por não atingir o número mínimo de participantes (20), os inscritos neste simpósio serão realocados na 2ª ou 3ª opções. Caso o trabalho não seja aceito em nenhuma das rodadas de avaliação, o inscrito será automaticamente considerado como ouvinte, sem devolu ção do valor pago na inscrição. O número máximo de participantes em cada simpósio é de 34, selecionados a partir de critérios acadêmicos. Solicita-se consultar o cronograma do evento para os prazos de inscrição, envio do trabalho completo e aceitação.
  15. Prazos: 09/01/2017 a 06/03/2017: prazo para inscrição de apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos: prazo para inscrição de apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos.
  16. Mais detalhes em: http://www.snh2017.anpuh.org/site/capa
  17. Apresentador de Trabalho em Simpósio Temático (Detalhes abaixo)

    São oferecidas 34 vagas por Simpósio Temático.

    • Os STs serão os espaços para a apresentação e discussão de pesquisas concluídas ou em estágio avançado de realização sobre um mesmo tema.
    • Para a apresentação de trabalho nos Simpósios Temáticos, exige-se titulação mínima de Graduação.
    • Os apresentadores de trabalho associados deverão estar em dia com a anuidade de 2017
    • Cada inscrito poderá apresentar apenas 1 (um) trabalho em apenas 1 (um) Simpósio Temático. O inscrito deverá escolher 3 (três) Simpósios Temáticos na ordem de sua preferência. Caso não seja aceito no primeiro, será realocado na opção seguinte.
    • A avaliação, o aceite e a eliminação de trabalhos são da responsabilidade do(s) Coordenador(es) de cada Simpósio Temático.
    • Além do resumo expandido (mínimo de 2200 caracteres e máximo de 2.800), é importante, mas não obrigatório, enviar o texto completo* no ato de inscrição. Isso auxiliará a avaliação de seu coordenador(a).
    • O certificado de apresentação de trabalho será emitido somente aos presentes em 75% das atividades do Simpósio.
    • Caso o Simpósio Temático seja cancelado, em razão de não atingir o número mínimo de vinte participantes, os inscritos serão realocados nas opções seguintes de sua escolha.
    • Não haverá devolução do valor de inscrição. Caso o trabalho não seja aceito, o inscrito poderá usar o valor pago na inscrição como Ouvinte.
    • No formulário de inscrição, clicada a opção “apresentador de trabalho” três caixas podem ser visualizadas – uma para a inclusão do título do trabalho, outra para inclusão do resumo expandido e mais uma para inclusão do texto completo. Pode ser utilizada qualquer fonte, pois o sistema a padronizará (não utilize caixa alta no texto do resumo, apenas na autoria).

    * uma versão revisada do texto completo poderá ser enviada entre os dias 1 e 15 de agosto de 2017.


    Instruções para trabalhos em coautoria

    Para que possamos localizar os diversos autores de um mesmo trabalho, um Código do Trabalho será gerado ao primeiro coautor que realizar sua inscrição.

    Para que isso ocorra no campo Tipo de Submissão, este primeiro coautor deve escolher a opção Coautoria – primeira inscrição do trabalho – e seguir normalmente com sua inscrição. Ao final do processo, um Código do Trabalho será gerado.

    Aos demais coautores, basta escolherem a opção Coautoria – trabalho já inscrito – e informarem o Código do Trabalho gerado ao primeiro coautor.


    Instruções aos inscritos em Simpósios Temáticos para publicar os textos integrais nos anais eletrônicos

    Os inscritos que apresentarem trabalho em Simpósios Temáticos terão seus textos publicados nos anais eletrônicos e devem seguir estas instruções:
    Enviar o arquivo do texto a ser apresentado através do campo discriminado para este fim em sua ficha de inscrição. A ficha permanecerá acessível na área do inscrito.
    Quitar a anuidade de 2017.
    O envio do texto implica a cessão dos direitos autorais.
    Quanto ao texto, observar o seguinte:
    1. Apenas serão aceitos arquivos enviados através da área do inscrito;

    2. O texto deve conter de 8 a 15 páginas.

    3. Os arquivos deverão ser salvos na extensão “doc” ou “rtf”, digitados em programa editor de texto no padrão do Microsoft Office Word.

    4. Fonte Times New Roman 12 e espaçamento 1,5, justificado;

    5. Margens: superior 3cm, inferior 2cm, esquerda 3cm e direita 2cm;

    6. A autoria (nome completo) deverá vir abaixo do título, à direita, em caixa alta. Em nota de rodapé (asterisco) deve ser colocada a Instituição de origem, Titulação e Agência financiadora, quando for o caso;

    7. Os textos não deverão conter tabulação, colunas ou separação de sílabas hifenizadas;

    8. O tamanho máximo de arquivo aceito é de 3MB. Caso seu trabalho contenha imagens estas deverão ser escaneadas em 300 dpi no formato TIF ou JPG, dimensionadas no formato de aproximadamente 5×5 cm e gravadas no próprio documento;

    9. As tabelas devem ser digitadas seguindo a formatação padrão do programa editor de texto;

    10. As citações de até três linhas devem constar entre aspas, no corpo do texto, com o mesmo tipo e tamanho de fonte do texto normal. As referências devem indicar entre parênteses nome do autor em letras maiúsculas, ano de publicação e páginas (SILVA, 1993:11-14);

    11. As citações a partir de quatro linhas devem ser em Times New Roman 10, itálico, com recuo esquerdo de 4 cm. As referências devem constar no corpo do texto, entre parênteses, como no exemplo acima;

    12. O uso de notas de rodapé deve ter apenas o caráter explicativo/complementar. Devem ser numeradas em algarismos arábicos seqüenciais (Ex.: 1, 2, 3, etc.) na fonte Times New Roman 10 e espaçamento simples;

    13. As referências bibliográficas deverão ser colocadas no final do texto e de acordo com as regras da ABNT, dispostas em ordem alfabética por autor.

    14. As páginas devem ser numeradas (margem superior direita), com exceção da primeira.

Atenciosamente
Coriolano P. da Rocha Junior (UFBA) / Euclides de Freitas Couto (UFSJ)
Coordenadores


Mais sobre cricket em Salvador

20/02/2017

Coriolano P. da Rocha Junior

Neste blog, mais uma vez falamos sobre o cricket em Salvador, desta vez, com mais dados e imagens sobre o tema.

A prática aportou em terras brasileiras pelas mãos dos ingleses. Essa atividade se desenvolveu por algum tempo, todavia, sem efetivamente se estruturar na cidade, restringindo-se a uma pequena parcela da população.

O esporte chegou a Salvador em meados do século XIX. Normalmente os jogos ocorriam no Campo Grande (LEAL, 2002), embora também haja notícias de partidas na Fonte do Boi[1] e Quinta da Barra (GAMA, 1923), no Campo da Pólvora[2] e no Largo da Madragoa[3].

cricket-brasil

Imagem 1: Jogo de cricket no Campo Grande. Ilustração de J. J. Wild.

Fonte: http://www.salvador-antiga.com/campo-grande/cricket.htm

Vejamos alguns exemplos: “no dia 1 de janeiro terá lugar no Campo Grande um grande jogo de críquete entre alguns sócios do Bahia Críquete Clube – uma partida de estrangeiros. Terá início ao meio dia em ponto”[4]. Também sobre o uso do Campo Grande como sede dos jogos, vemos esta chamada: “Sociedade Brazilian Críquete Clube. Pedindo licença para fazer jogos de bolas no Campo Grande…”[5].

Gama (1923, p.319) afirma que em Salvador foram:

membros da colonia inglesa, que fizeram a introdução de um jogo, cuja disputa, para eles, tinha já o cunho de esporte, – pois sendo a sua Pátria o berço do esporte moderno – tinham a noção exacta da significação do vocábulo. Esse jogo, foi o críquete, de origem genuinamente inglesa […]. Esse críquete de então, era disputado no local hoje denominado Praça Duque de Caxias.

Um clube inicialmente fundado para o críquete, logo depois assumiu o futebol, o Clube de Críquete Vitória, criado por brasileiros em maio de 1899, que passou a se chamar Esporte Clube Vitória. Ainda houve o Clube Internacional de Críquete, fundado por ingleses, em novembro de 1899, além dos já citados Sociedade Brazilian Críquete Clube e Bahia Críquete Clube[6].

Em Salvador, o críquete, teve trajetória, de curta duração, iniciada como uma atividade dos ingleses, contando com participação de brasileiros. Assim, logo a prática da modalidade se manteve limitada aos membros da colônia britânica, até se tornar pouco significativa; enquanto isso, em solo baiano, outras práticas ganhavam o interesse da população.

Sobre esse “esquecimento” do esporte, A Tarde[7] apresentou uma matéria em que questionava as razões do seu possível abandono em Salvador: “não sabemos porque motivo ficou inteiramente abandonado pelos nossos sportmen, o interessante e nobre jogo inglês, o críquete. A Bahia, teve nesse jogo, a muitos annos, sua primeira manifestação esportiva”.

O jornal, na mesma matéria, valorizava sua importância inicial e as formas com que foi jogado, tanto pelos ingleses quanto pelos baianos, ressaltando os valores civilizadores do esporte e o quanto sua prática contribuia para a formação de novos hábitos, por meio de um espaço onde os “nobres” homens da Inglaterra tinham a chance de praticar um esporte que simbolizava os ares de sua terra e os brasileiros podiam vivenciar um esporte que era digno de um mundo moderno, como também Salvador deveria se tornar.

Um possível elemento da curta duração da prática e do pouco interesse da população pelo críquete pode ter sido o fato dos clubes terem sido constituídos originalmente por ingleses e só depois brasileiros – neste caso, com a mesma organização dos de estrangeiros. Assim, o esporte teve uma limitada circulação pelas cidades, dificultando sua apropriação por parte dos diferentes estratos da população.

No período da instalação dos clubes de críquete, a cidade ainda mantinha um aspecto colonial e, assim, também os hábitos e gostos não estavam ajustados a uma prática moderna. De toda forma, os clubes de criquete foram importantes, pois foi a partir deles que se estruturam outros que ampliaram as experiências esportivas.

[1] Localizada no bairro do Rio Vermelho. Diário da Bahia, Salvador, 25 de janeiro de 1902, p.

[2] Diário de Notícias, Salvador, 24 de março de 1903, p. 3 e 12 de setembro de 1903, p. 3.

[3] Diário da Bahia, Salvador, 11 de janeiro de 1902, p. 1. Localizado na Cidade Baixa, na área do bairro da Ribeira.

[4] Jornal da Bahia, Salvador, 31 de dezembro de 1874, p. 2.

[5] Correio da Bahia, Salvador, 25 de janeiro de 1873, p. 2.

[6] Diário de Notícias, Salvador, 2 de setembro de 1876, p. 2.

[7]A Tarde, Salvador, 08 de novembro de 1912, p. 2.


XXIX Simpósio Nacional de História

13/01/2017

Prezados e prezadas
Com satisfação chamamos todos e todas a participarem do XXIX Simpósio Nacional de História. O evento acontecerá em Brasília, de 24 a 28 de julho de 2107, na UNB
Para tanto, convidamos que apresentem suas propostas de trabalhos ao nosso Simpósio Temático História do Esporte e das Práticas Corporais (simpósio 52), dentro das condições e prazos estabelecidos pela organização geral, que são demonstradas abaixo:

Instruções gerais para inscrições

  1. O sistema de Inscrição é feito exclusivamente por meio eletrônico, tanto para o envio de dados quanto para a geração de boletos bancários. Solicita-se leitura atenta de todos os itens destas instruções, para evitar eventuais problemas nas inscrições;
  2. As inscrições podem ser feitas numa das modalidades abaixo:
    • SÓCIO APRESENTADOR DE TRABALHO EM SIMPÓSIO TEMÁTICO;
    • NÃO-SÓCIO APRESENTADOR DE TRABALHO EM SIMPÓSIO TEMÁTICO;
  3. Os valores de inscrição para cada modalidade são os da tabela abaixo:
  4. Solicitamos atenção ao preenchimento correto de todos os campos da ficha de inscrição, em especial nos campos “Nome” e “Título do Trabalho”, se for o caso, para evitar posteriores problemas quanto à emissão dos certificados. O preenchimento correto do campo “e-mail” também é de fundamental importância para futuro contato com os inscritos. Feito o cadastro, o interessado receberá e-mail de confirmação, contendo os dados de acesso à área do inscrito (login e senha), onde é possível imprimir novamente o boleto de inscrição, caso seja necessário;
  5. Os colegas que desejarem associar-se à ANPUH deverão fazê-lo antes de se inscreverem no Simpósio Nacional, dirigindo-se a sua Seção Regional. Clique aqui para conhecer as Seções Regionais da ANPUH e seus contatos.
  6. A Anpuh não aceitará novos associados após o dia 27 de abril de 2017 (os formulários de filiação serão reabertos no dia 07 de março). Assim, uma vez paga a inscrição na condição de não associado, não será possível reverter para a opção de sócio.
  7. Os associados da ANPUH deverão estar quites com as anuidades para terem direito ao valor de inscrição estipulado para esta categoria;
  8. O pagamento da inscrição deverá ser realizado até a data de vencimento registrada nos boletos bancários. Após esta data, a inscrição será cancelada;
  9. Informações sobre a confirmação de pagamento do boleto poderão ser obtidas na área do inscrito;
  10. Não haverá devolução do valor referente às inscrições. No caso de propostas não aceitas pela comissão científica ou inviabilizadas por qualquer razão, o proponente poderá usar o valor já pago para inscrever-se em outra modalidade.
  11. A inscrição em Minicurso é específica. Para tanto, o interessado deverá inscrever-se no campo Minicurso, da Ficha de Inscrição, adicionando-se o valor desta modalidade ao boleto bancário. A inscrição em Minicurso não isenta o interessado de pagar os valores de inscrição em outras modalidades de participação. Ao fazer sua inscrição para minicurso, o interessado deve escolher 3 (três) opções dentre as listadas na página do evento, classificadas em 1ª, 2ª e 3ª opções. Caso o minicurso escolhido em 1ª opção já esteja completo ou seja cancelado por não atingir o número mínimo exigido de participantes (20), o inscrito será realocado no minicurso escolhido em 2ª opção, e assim sucessivamente. O número máximo de vagas em cada minicurso é de 30, mas ele poderá ser ampliado, a critério da Comissão Organizadora, em acordo com os professores responsáveis. Nesses casos, será respeitada a ordem de inscrição. Quem já estiver inscrito como proponente de Simpósio Temático, apresentador de trabalho ou ouvinte pode fazer a inscrição em minicurso entrando na “Área do inscrito”, com seu login e senha, e selecionar “Inscrição em minicurso”. Essa opção dá acesso a formulário para a escolha das 3 opções de minicursos que, uma vez realizada, gera novo boleto para pagamento;
  12. Para os interessados em propor Simpósio Temático + Minicurso, basta realizar a inscrição em qualquer uma destas modalidades e, com seus dados de acesso em mãos, voltar ao site do Simpósio, entrar na área de inscrito, localizar a(s) opção(ções) desejada(s) e adicioná-la(s) à inscrição original. O valor extra é acrescido ao boleto bancário. Para os proponentes de Simpósio Temático + Minicurso o valor cobrado é de R$ 100,00. Nesses casos, não haverá cobrança para inscrição na condição de apresentador de trabalho. No caso de proponente de Minicurso que queira inscrever trabalho em Simpósio Temático, há necessidade de pagar as duas taxas (R$ 100,00 + R$ 60,00).
  13. Para apresentar trabalho nos Simpósios Temáticos o proponente deverá ser no mínimo graduado.
  14. Cada inscrito poderá apresentar apenas 1 (um) trabalho em apenas 1 (um) simpósio temático. O inscrito deverá escolher 3 (três) Simpósios Temáticos, conforme a ordem hierárquica de sua preferência. Caso não seja aceito no primeiro, será realocado na opção seguinte. Avaliação, aceitação e eliminação de trabalhos dentro do simpósio temático são realizadas pelos coordenadores de cada simpósio. Caso o simpósio temático seja cancelado por não atingir o número mínimo de participantes (20), os inscritos neste simpósio serão realocados na 2ª ou 3ª opções. Caso o trabalho não seja aceito em nenhuma das rodadas de avaliação, o inscrito será automaticamente considerado como ouvinte, sem devolução do valor pago na inscrição. O número máximo de participantes em cada simpósio é de 34, selecionados a partir de critérios acadêmicos. Solicita-se consultar o cronograma do evento para os prazos de inscrição, envio do trabalho completo e aceitação.
  15. Prazos: 09/01/2017 a 06/03/2017: prazo para inscrição de apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos: prazo para inscrição de apresentação de trabalhos nos Simpósios Temáticos.
  16. Mais detalhes em: http://www.snh2017.anpuh.org/site/capa

Atenciosamente
Coriolano P. da Rocha Junior (UFBA) / Euclides de Freitas Couto (UFSJ)
Coordenadores


Os esportes na água em Salvador: mais uma vez o remo

12/09/2016

            Por: Coriolano P. da Rocha Junior

Em Salvador as regatas se iniciaram nos anos iniciais do século XX, com a fundação de clubes específicos, ainda que no século XIX tenha havido já tentativa de promovê-las. Em dezembro de 1874, o Jornal da Bahia apresentou a seguinte notícia:

 No dia 22 do corrente, reunidos os sócios daquele Clube em casa do Comendador Antonio de Lacerda, foram admitidos mais 59 sócios e marcado o dia 1 de janeiro próximo futuro para a instalação da sociedade, havendo no mesmo dia a primeira regata[1].

Na matéria acima, o que se vê é uma tentativa de pessoas interessadas em fundar um clube náutico, o Clube de Regatas Bahiano. Em data próxima a que faz a chamada, no mesmo jornal, vemos também a apresentação do que seria a primeira prova, a inauguração da agremiação, que se daria em janeiro de 1875:

A comissão acima referida se propõe celebrar a inauguração do Clube, procedente a organizar uma Regata que terá lugar na Barra, no dia 06 de janeiro próximo vindouro, às 4 horas da tarde [..]

Todos os capitães de botes que desejam remar na regata acima mencionada deverão assinar sua completa adesão aos regulamentos estabelecidos pelo Clube[2]

Assim, mesmo sem percebermos a fundação do clube, encontramos anúncios de regatas associadas a festas e cerimônias, nas quais percebemos a influência de profissionais do mar.

No dia 8 do corrente, na ocasião da festa de Santo Antonio da Barra, haverá regata; convida-se aos senhores oficiais de marinha, capitães de navios e pilotos, que desejarem fazer parte dela, a inscreverem-se, devendo para isso dirigirem-se aos senhores Americo de Freitas, Hasselman e George Wilson, e ao porteiro do arsenal da marinha[3].

O desenvolvimento do remo também contribuiu para a ampliação do número de clubes e para o aprofundamento da estruturação do esporte. A organização da modalidade procurou fazer com que suas entidades e agentes também se envolvessem com a cidade. O remo, para Salvador, foi uma prática esportiva que teve implicação com a própria dimensão de “recriação” da urbe.

O avanço do remo não se fez notar somente entre os ricos da cidade, atraindo um público diversificado. Entre seus fatores de interesse, chamava atenção a exibição dos corpos masculinos e seus modos de vestir.

O fato de ser disputado em espaço livre permitiu que a plateia ocupasse as areias e as calçadas. Os dias de regatas movimentavam a cidade, mexiam com as aspirações e os sentimentos do povo que, influenciado pelos jornais, avidamente esperava e se preparava para ir ver os remadores em ação.

Em Salvador, os clubes Esporte Clube Vitória (1899); Clube de Natação e Regatas São Salvador (1902); Clube de Regatas Itapagipe (1902) e Esporte Clube Santa Cruz (1904) promoveram muitas regatas, tornando-as uma atividade importante para a cidade. Na capital baiana, elas sempre aconteceram na Enseada dos Tainheiros, o que ajudou a garantir a esse espaço um lugar na memória sentimental soteropolitana.

As regatas eram, para Salvador, um local de encontro, um espaço onde as pessoas circulavam de forma tal que fossem vistas com suas novas vestes, com um comportamento elegante. Verificava-se um verdadeiro espaço de convivência entre membros das distintas classes sociais soteropolitanas, acima de tudo das elites.

Amanhã, sob a direção do glorioso Clube de Regatas Itapagipe, será realizada a 2ª regata do  ano, na qual é disputado o Campeonato Baiano do Remador. Mais 24 horas apenas e o Porto dos Tainheiros estará em festa, festa do remo, festa da mocidade sadia. E, assim, em meio a tanta alegria e cordialidade, há de ser realizada a regata de amanhã. Belo esporte, o remo.[4]

 A presença do público era constantemente anunciada pelos jornais, como prova do sucesso do remo e de suas regatas na sociedade soteropolitana. Os periódicos destacavam que as pessoas se espalhavam nas diversas partes da Enseada e tratavam ainda das que iam nas embarcações dos clubes.

A enseada de Itapagipe volveu, no domingo último, aos tempos áureos, em que o esporte náutico entusiasmava a nossa mocidade. A concorrência, quer no cais dos Tainheiros quer nas embarcações que singravam a enseada, era numerosa e seleta, vibrando de emoção na fase final de cada páreo[5].

 Os remadores eram vistos pela população de Salvador como mensageiros de uma nova ideia de saúde, representantes da melhor espécie de “forma” e compleição física, homens que inspiravam a juventude a se portar de maneira digna e respeitosa. Os seus corpos eram exaltados por sua aparência robusta, viril, simbolizando uma melhor condição orgânica, um aparente destemor e vigor diante dos desafios.

A compreensão de que o remo era para a sociedade soteropolitana, especialmente para sua juventude, um meio de formação corporal saudável, associava-se às expectativas de progresso. Ao remo se atribuía a capacidade de bem desenvolver, além do aspecto físico, os valores morais, a disciplina e uma pretensa rigidez.

 Essa perspectiva de apresentar o remo como um agente de desenvolvimento dialogava com o que se esperava da cidade e do estado, uma formação que superasse seus limites, suas deficiências. A boa imagem do remador, com sua valorizada capacidade física, era também uma forma de expressar o que a cidade de Salvador deveria ser: ou seja, forte, pujante, ágil e veloz. Se o competidor superasse suas dificuldades pela prática, pelo treinamento, a cidade conseguiria o mesmo por meio de sua organização social, político-econômica e urbana.

Na trajetória do remo, mantiveram-se os quatro clubes de origem[6], tendo ainda o Esporte Clube Bahia[7] participado de algumas regatas. Da mesma forma, a Federação de Clubes de Regatas da Bahia, fundada em 29 de junho de 1904 foi a entidade inicialmente montada, que se firmou como a organizadora do remo em Salvador. A constituição de clubes e federações também representa o valor atribuído ao esporte. As regatas se transformaram em eventos significativos e de peso maior que o esportivo, tornando-se um marco das novas relações sociais.

No remo, na Bahia, o ideal de organização se via numa pretensa seriedade dada ao esporte pelos clubes, já pensando em modelos e treinamento que visavam à melhoria das performances nas regatas, em adaptação ao calendário das provas. Este fato bem demonstra o valor atribuído a esta prática e a necessidade de dar a ela a melhor estruturação possível, mesmo que fosse a época algo ainda amador.

Podemos depreender que o remo foi uma atividade esportiva de valor e repercussão na sociedade baiana. A ele se atribuíam sentidos e significados que representavam o que se esperava de uma cidade que também queria se modernizar. Assim, desenvolver as atividades desta modalidade simbolizaria para a capital também se ver como moderna. Entretanto, mesmo assim, tal prática esportiva sofreu um período de amargura em suas atividades, sob influência direta das condições socioeconômicas e mais, sobre ele impactou o grande avanço do futebol, fazendo diminuir o interesse pelas regatas.

 

[1] Jornal da Bahia, Salvador, 25 de dezembro de 1874, p. 1.

[2] Jornal da Bahia, Salvador, 27 de dezembro de 1874, p. 2.

[3] Correio da Bahia, Salvador, 06 de fevereiro de 1874, p. 4.

[4] Semana Sportiva, Salvador, 17 de maio de 1924, p. 9.

[5] Semana Sportiva, Salvador, 29 de abril de 1922, p. 8.

[6] São os mesmos que ainda competem na atualidade.

[7] Este é outro clube, que não existe mais, com o mesmo nome do atual, que foi fundado em 1931.


UM BAIANO DE DESTAQUE NA EDUCAÇÃO FÍSICA E NO ESPORTE NO BRASIL

18/04/2016

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

Neste blog me cabe falar sobre o esporte na Bahia. Hoje, ao invés de tratar de uma prática ou experiência esportiva, falarei de um personagem baiano, que fez vida e carreira no Rio de Janeiro, como uma homenagem. No caso, dentre as várias facetas de nosso homenageado, nos centraremos nas suas vivências como treinador esportivo e professor no ensino superior.

O personagem de nosso blog [1]é o Prof. Paulo Emanuel da Hora Matta. Paulo Matta, como era mais conhecido, teve larga e vitoriosa trajetória na área da Educação Física, como professor universitário, onde atuou em duas instituições de ensino superior diferentes (UFRJ e UERJ), ambas no Rio de Janeiro e também no campo esportivo, notadamente no voleibol, como treinador de clubes e de seleções nacionais.

Baiano, natural de Ilhéus, nascido em 16/3/1933, Paulo Matta tem raízes familiares fincadas na agropecuária “minha mãe era filha do principal fazendeiro de Ilhéus” (depoimento pessoal, 2000). Nas suas próprias palavras, por conta dessa condição familiar, seu pai entendia que “um Matta só poderia ser um advogado, um médico ou um engenheiro” (depoimento pessoal, 2000)[2]. Neste sentido a predileção e por que não dizer a paixão pelo esporte se sobrepôs a determinação familiar e Paulo Matta, mesmo sem ter tido o apoio de seus familiares ou mais, com a reprovação destes, se lançou ao desafio de estudar Educação Física. Para tanto, se deslocou ao Rio de Janeiro, para cursar a Escola Nacional de Educação Física e Desportos – ENEFED (hoje Escola de Educação Física e Desportos), na Universidade do Brasil – UB (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Paulo Matta desde cedo se envolveu com práticas esportivas. Como aluno demonstrou aptidão esportiva, especialmente no voleibol, tendo sido atleta estudantil e jogador de seleções baianas da modalidade. Sobre sua entrada no voleibol, Paulo Matta, em entrevista concedida a Cochrane, et all (2012, p. 19), afirma assim:

Eu aprendi voleibol de uma maneira bem diferente, eu aprendi por teimosia. Fui autodidata em voleibol, vivia na Bahia e fui tentar treinar no clube do Vitória, o mesmo que tem o time de futebol, e lá o técnico olhou pra mim e mandou-me tentar bola de gude que talvez seria o meu esporte e aquilo bateu muito forte em mim, eu era garoto e achei que ele tinha que ter uma resposta e a partir daí fui procurar e arrumei um livro na época do Adolfo Guilherme de voleibol, com esse livro, uma bola e o meu quarto eu treinava voleibol.

 Além de sua experiência como jogador e ainda quando aluno da educação básica, Paulo Matta teve o que podemos considerar o inicio de sua trajetória como professor, pois, mesmo ainda estudante, assumiu a função de técnico da equipe feminina do Colégio Estadual da Bahia, que atuava pelo Esporte Clube Victória, tendo participado Campeonato Nacional do Quarto Centenário de São Paulo, em 1954.

 Assim, tendo por base sua formação e vivência esportiva e ainda, sua precoce atuação como docente, ainda que sem formação, cursar Educação Física pareceu ser para Paulo Matta um destino natural, mesmo que com isso, contrariasse os interesses de sua abastada família.

Influenciado pelo Professor Alcyr Ferraro[3], importante personagem na constituição da Educação Física na Bahia e que era professor do Colégio Estadual da Bahia e que também havia estudado na ENEFED, Paulo Matta então decidiu buscar a formação em Educação Física e para tanto, deveria concorrer a um ingresso como acadêmico no curso da Universidade do Brasil.

Sobre a sua ida para a ENEFED, Paulo Matta falou:

 Nessa época e nós estamos falando de 1954, após voltar de um campeonato brasileiro pela seleção da Bahia em São Paulo, o Alcyr [Ferraro] me encontrou na rua e me falou sobre um exame de seleção que seria feito no colégio Estadual da Bahia para selecionar o bolsista da Bahia que viria fazer o Curso na ENEFD, era escola padrão para América Latina e era também o sonho de todo elemento da área de Educação Física cursar a escola Nacional (depoimento pessoal, 2000).

 Assim, após a seleção, em 1955 Paulo Matta foi estudar na ENEFD, tendo concluído a licenciatura em 1960. Posteriormente fez um curso de especialização em Técnico desportivo de voleibol e futebol, concluído em 1962.

Mesmo tendo tentado voltar a Bahia para atuar profissionalmente, sem sucesso, Paulo Matta seguiu sua carreira no Rio de Janeiro, onde

iniciou a sua carreira de treinador no Rio de Janeiro, no Centro Israelita Brasileiro (CIB). A partir daí, trabalhou em praticamente todos os clubes do voleibol carioca, Bangu, América, CIB, Hebraica, AABB, Botafogo, Fluminense, Tijuca e Flamengo por onde passou várias vezes e é o seu time do coração (COCHRANE, et all, 2012, p. 19).

Paulo Matta foi diretor técnico da Confederação Brasileira de Voleibol e nas seleções representativas nacionais atuou no maiores eventos esportivos internacionais, de Jogos SulAmericanos, a Jogos Olímpicos. No Rio de Janeiro, também atuou como inspetor de ensino de Educação Física, vinculado ao Departamento próprio desta área. Sua função básica era percorrer as unidades escolares e acompanhar e mesmo fiscalizar a realização das aulas. Tal atividade deu a ele a chance de conhecer grande número de profissionais que atuavam na rede e ainda, a possibilidade de acompanhar e mesmo lidar diretamente com a organização das atividades desta disciplina na cidade.

Sua atuação no ensino superior se iniciou em 1972, quando se tornou Professor da Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, lecionando as disciplinas Prática de Ensino e Estágio Supervisionado, tendo atuado até 1979. Já em 1980, assume trabalho no Instituto de Educação Física e Desportos, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, atuando até 1998, quando então optou pela aposentadoria.

Entendemos que Paulo Matta foi, sem dúvida, um importante baiano nos esportes e na Educação Física, mesmo sem ter tido a oportunidade de como profissional atuar em terras baianas. Suas origens eram sempre lembradas, suas experiências como estudante e professor, claro, tinham por base sua formação familiar e escolar. Assim, fazer a Bahia conhecer, mesmo que um pouco, a larga e vitoriosa trajetória deste professor nos dá satisfação, haja vista a importância que este teve na formação de tantos profissionais e mesmo, no bem sucedido voleibol brasileiro. O visto aqui foi um breve relato da trajetória deste personagem, mas fica como homenagem.

Referências:

COCHRANE, Mariana Vancelotte Almeida, et all. Transformações no sistema tático de ataque do voleibol. Revista Acta Brasileira do Movimento Humano – Vol.2, n.1, p.15-23 – Jan/Mar, 2012.

FARIA JÚNIOR, Alfredo Gomes de. De aluno da ENEFD a Doutor Honoris Causa: a carreira de Alfredo Faria Júnior. Belo Horizonte: Casa da educação Física, 2012.

GUIMARÃES, Guilherme Locks e MATTA, Paulo Emanuel da Hora. Uma história comentada da transformação do voleibol: do jogo ao desporto espetáculo. REVISTA DE EDUCAÇÃO FÍSICA, Nº 128, p. 79-88, 2004.

MELO, Victor Andrade de. O movimento estudantil na educação física brasileira: construção, atuação e contribuições na Escola Nacional de Educação Física e Desportos. Movimento (ESEF/UFRGS), Porto Alegre, v. 4, n. 7, p. 9-19, set. 1997. ISSN 1982-8918. Disponível em: <http://www.seer.ufrgs.br/index.php/Movimento/article/view/2363>. Acesso em: 30 Set. 2015.

[1] O texto deste blog é um recorte de um artigo em preparação,  em parceria com o Prof. Roberto Gondim Pires (UESB).

[2] As entrevistas foram concedidas ao Prof. Roberto Gondim Pires (UESB).

[3] Para conhecer mais sobre a trajetória de Alcyr Ferraro, veja: PIRES, Roberto Gondim; ROCHA JUNIOR, Coriolano Pereira da; MARTA, Felipe Eduardo Ferreira. PRIMEIRO CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA NA BAHIA – TRAJETÓRIAS E PERSONAGENS. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Florianópolis, SC, v. 36, n. 1, jul. 2013. ISSN 2179-3255. Disponível em: <http://revista.cbce.org.br/index.php/RBCE/article/view/1614/920>. Acesso em: 29 Set. 2015. Leia também: FERRARO, Alcyr. A Educação Física na Bahia: memórias de um professor. Salvador: EDUFBA, 1991.


Lançamentos

03/03/2016

Livro “Primórdios do Esporte no Brasil – Salvador”

Em 01/03, na Caixa Cultural de Salvador foi lançada a obra “Primórdios do Esporte no Brasil – Salvador”, de autoria de Coriolano P. da Rocha Junior (UFBA) e Henrique Sena dos Santos (UFRB), o primeiro de uma coleção, que tem Victor Andrade de Melo (UFRJ), como coordenador . A publicação pretende contribuir para o reconhecimento da importância do fenômeno esportivo no Brasil, a partir da difusão dos principais traços dos momentos iniciais de seu percurso na cidade de Salvador. O livro descreve e analisa como o esporte se constituiu e desenvolveu, tendo como foco o período entre meados do século XIX e as décadas iniciais do século XX. Em sua organização, seus capítulos são:

Apresentação

Introdução

Um panorama da cidade

Práticas com animais: tourada e turfe

Práticas na água: remo e natação

O atletismo

Tipicamente britânicos: o tênis e o críquete

O futebol

Outras práticas: patinação e ciclismo

Referências

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Lançamento dos Anais do VII Encontro Estadual de História ANPUH-BA

A publicação dos Anais Eletrônicos do VII Encontro Estadual de História – Diálogos da História está disponível em:
https://drive.google.com/…/0B_RKtO9J4AOneFc4dDhpQ0Z0a…/view…