A prática do atletismo na Bahia**

24/10/2022

Coriolano P. da Rocha Junior

Ainda hoje a Bahia se ressente de uma maior vivência e experiência com a modalidade atletismo, em qualquer uma de suas provas, no campo ou na pista. Também sente falta de espaços adequados para essa atividade, de forma a dar a sua população condições de a buscar. Mas este cenário é só de hoje? Em tempos anteriores, com a Bahia vivia sua relação com o atletismo? Terá sido melhor? Terá havido espaços adequados? Em que tempo a Bahia viu seus primeiros passos com o atletismo? Enfim, tomando por base a quase nula vivência nessa modalidade hoje, vamos aqui tentar avistar como se deu isso lá atrás.

Pensando sobre os primeiros tempos do atletismo em Salvador, só na segunda década do século XX foi que vimos o surgimento relativamente considerável de informações sobre essas modalidades. Podemos afirmar que a introdução dos esportes atléticos veio a reboque do processo de institucionalização das práticas esportivas em Salvador, via surgimento de entidades que organizavam certames.

Em meados da primeira década do século XX foi criado um clube que iria contribuir muito para o desenvolvimento das corridas a pé, do salto em altura, entre outras modalidades do universo do atletismo. O Yankee foi fundado, em 1914, pelos irmãos Aroldo Maia Bittencourt e Alexandre Maia Bittencourt Filho, filhos de Alexandre Maia Bittencourt, um importante engenheiro, fundador de uma importante escola de engenharia da cidade, a Escola Politécnica, em 1897. Eram também sobrinhos de Augusto Maia Bittencourt, benemérito do clube, um dos fundadores do Esporte Clube Vitória e seu presidente em 1908. Também, muitos médicos e coronéis eram membros da família Maia Bittencourt.

O clube foi considerado pela imprensa como um dos primeiros clubes da cidade que contribuía para a regeneração física. Isso porque era um dos poucos a praticar exercícios atléticos, por alguns considerados os mais adequados para o aperfeiçoamento corporal. Este era um dos seus diferenciais. A prática dessas modalidades atraía adeptos que realizavam, entre si, diversos torneios internos.

O clube era um dos poucos que oferecia para os seus sócios um programa esportivo atlético completo e, segundos os dirigentes, metodicamente elaborado. Entre as atividades estavam as corridas a pé, o salto em distância, o salto com vara, o levantamento de peso.

A organização de torneios no Yankee era facilitada pelo fato de o clube possuir, em aluguel conjunto com o Ypiranga, outro clube importante da cidade, um campo de esportes, localizado à Rua do Prado, no Rio Vermelho. O Yankee foi o primeiro a construir, na Bahia, uma pista de atletismo para os seus sócios.

Foi na década de 1920 que as atividades atléticas começaram a ter uma maior visibilidade na imprensa local. Além da construção do Campo da Graça, houve uma proliferação de discursos que exaltavam as práticas esportivas como um agente regenerador da raça em decorrência dos efeitos da guerra.

Neste sentido, o atletismo tornou-se uma prática elogiada, uma vez que para a imprensa local era a modalidade que mais contribuía para o fortalecimento racial da nação. Na Semana Sportiva encontramos várias referências sobre sua importância. Em um dos artigos mais entusiasmados, encontramos o seguinte ideal:

Dentre todas as manifestações da atividade desportiva, o atletismo é a mais bela, a mais emocionante e a mais expressiva.

O atletismo é que melhor revela o grau de adiantamento desportivo de um povo!

O atletismo é que concorre mais eficientemente para o desenvolvimento físico de uma raça.

O atletismo é que contribui mais facilmente para a propaganda de um país.

O atletismo é que proporciona maiores glórias desportivas a uma nação.

O atletismo é o desporto que mais diretamente atinge os fins visados pela cultura física. Aparelhar o organismo para a luta pela vida; dar-lhe a velocidade que vence o tempo, a agilidade que evita os tropeços, a força que remove os obstáculos, a resistência que transpõe as distâncias.

O atletismo é o esforço do homem contra adversários invisíveis, impessoais, incomensuráveis, gigantescos. É uma peleja em que o vencedor não tem vencidos porque todos os concorrentes são “vencedores”; vencedores do tempo, da distância, do obstáculo…

O atleta é mais útil à Pátria que o perfeito soldado

De um bom atleta pode-se fazer com facilidade, um excelente soldado.

Trabalhemos os nossos músculos, cultivemos a nossa energia, pratiquemos o atletismo*1.

Uma terceira via adotada pela Semana Sportiva, para incutir no leitor o valor da prática dos jogos atléticos era a publicação de artigos específicos, que orientavam os sportmen a se iniciarem no atletismo. Sobre as corridas a pé, o semanário trouxe um texto sobre o papel da respiração:

Esportes atléticos

A respiração na corrida pedestre.

A respiração é a função orgânica que a prática dos desportos atléticos desenvolve ao máximo.

Esse resultado é obtido lenta e automaticamente, desde que os métodos de treino não conduzam a resultados negativos.

Em qualquer hipótese, o ideal será obter indivíduos resistentes. E na grande maioria não são os atletas de grandes massas musculares aqueles que possuem uma maior resistência física. O volume muscular não representa, pois, um sintoma de resistência; pelo contrário, a capacidade pulmonar tem, neste caso, uma importância capital.

Os desportos atléticos são desportos respiratórios, por excelência.

Praticados criteriosamente e seguindo um método conveniente, levam-nos ao um fim comum de todos os métodos atuais: melhoramento da raça, não só sob o ponto de visa da estética, mas principalmente, aumento da resistência física individual*2.

Obviamente que pela quantidade de notícias, artigos e editorais defendendo os jogos atléticos, os clubes gradativamente começaram a se iniciar neste universo, promovendo eventos internos, seguido os passados do Yankee. Nesse ínterim, o Vitória toma uma iniciativa mais inovadora ao promover o primeiro campeonato interno de atletismo. De acordo com a Semana Sportiva:

O Esporte Clube Victória, o decano, dos clubes baianos, foi o primeiro a introduzir em nosso meio, o atletismo. Logo mandou vir do Rio os aparelhos e o seu atual presidente, Sr. Alberto Catharino, muito se tem empenhado para que esta bela ideia tome o incremento digno dos seus esforços.

Agora mesmo o Vitória realizará, pela primeira vez nesta capital, o campeonato interno de Atletismo.

Este gesto tão louvável deverá ser imitado pelos demais clubes*3.

A iniciativa do Vitória não foi isolada. Ao seu modo os outros clubes da cidade buscavam contribuir com a evolução das práticas atlética na cidade. Nesse aspecto, é claro que o Yankee vai assumir uma posição de destaque. Foi o clube dos chamados meninos de ouro que organizou a primeira Maratona da Bahia. Na imprensa local, encontramos a seguinte informação sobre o evento:

Quis o Yankee F. Clube, mais uma vez, mostrar o quanto se interessa pelo desenvolvimento físico da mocidade, instituindo pela primeira vez nesta capital, a grande prova de atletismo, a Maratona.

Assim fazendo o clube de Aroldo Maia e dos Torres, marcou na história esportiva da Bahia mais uma gloriosa imorredoura (sic) que ecoará com jubilo geral fora do Estado, máxime na capital do País, onde não só a Metropolitana, mas, também as suas subligas e coligados incentivam com atividade e propaganda utilíssima do atletismo.

O programa vai publicado na íntegra, em outro local, e para ele chamamos a atenção dos nossos leitores.

Os 700 metros finais – O vencedor ao entrar no ground fará o percurso final de 700 metros, na pista, coroado de loiros, passando em seguida sob o Arco do Triunfo, construído especialmente para este fim, em frente às arquibancadas do Jóquei Clube, hasteando no mastro, antecipadamente preparado, as bandeiras brasileira e do clube a que pertencer, ao som do Hino Nacional e de uma salva de 21 tiros*4.

Pelos indícios encontrados em notícias posteriores, fica claro que a maratona o foi bem sucedida, o que motivou o Yankee a continuar a promover eventos do gênero. Entre algumas iniciativas do clube tricolor, identificamos a realização de um concurso mensal de atletismo:

A comissão de Esportes Atléticos do Yankee F. Clube, a fim de incentivar o atletismo entre nós resolveu realizar mensalmente, no seu campo de esportes, ao Rio Vermelho, com a coadjuvação dos demais associados dos clubes amigos, um Concurso de Atletismo, obedecendo ao seguinte Regimento:

A – O Concurso de Atletismo será realizado mensalmente no nosso campo, e sob a nossa Direção, e compor-se-á das seguintes provas, obedecendo a ordem abaixo:

1 – corrida rasa de 100 metros.

2 – Salto em altura.

3 – Corrida rasa 200 metros.

4 – Lançamento de peso.

5 – Corrida com barreiras 110 metros.

6 – Lançamento de dardo.

7 – Corrida rasa 400 metros.

8 – Salto em distância

9 – Salto de vara.

B – Ao vencedor mensal, de cada prova, O Yankee F. Clube oferecerá um Diploma.

C – No quinto mês, será encerrado o Concurso, dando o Yankee F. Clube aqueles que obtiveram maior número de vitórias em cada prova, uma medalha de prata.

D – Ao concorrente que obtiver maior número de vitórias nas diversas provas, o Yankee oferecerá uma medalha de ouro.

Prevenimos aos nossos associados que os exercícios de atletismo terão lugar diariamente no nosso campo, às 7 horas sendo obrigatórios os exercícios nos dias de domingo, feriados e dias santificados*5.

Além dessas iniciativas, o Yankee também promovia eventos esporádicos, geralmente quando o clube adquiria uma taça ou troféu. Um exemplo foi a chamada Taça Noemia.

Embora a prática do atletismo tenha evoluído nos dois primeiros anos da década 1920, observamos que ele ainda ficava mais circunscrito ao Yankee, quando muito, ao Vitória. Esta situação para a imprensa da cidade não era considerada a ideal, uma vez que os seus esforços em aumentar o número de sportmen envolvidos nas atividades pareciam não estar surtindo efeito pleno.

Nesse sentido, os periódicos procuravam estimular os clubes já ligados ao atletismo a propor que esta modalidade fosse promovida não só pelas agremiações, mas também pela LBDT como uma política esportiva. É nesse bojo que, a Semana Sportiva vai oferecer suas páginas para a publicação de artigos defendendo uma atitude enérgica da Liga no que tange a regulação dos esportes atléticos em Salvador.

O Yankee toma a dianteira nesse processo e propõe aos dirigentes da entidade de esportes terrestres da cidade a criação de um campeonato baiano de atletismo, ação muito louvada pela revista:

O Yankee F. Clube, uma das agremiações que honram a Bahia, acaba de apresentar a L. B. D. T., um Regulamento de Atletismo, no qual fica a mesma obrigada a fazer realizar anualmente, em Fevereiro, o Campeonato Baiano de Atletismo, no qual todos os clubes filiados serão obrigados a inscrever no mínimo 5 dos seus associados em 4 páreos diferentes, sob pena de não poderem tomar parte no campeonato de futebol (sic).

Só assim, graças ao Yankee, a quem enviamos os nossos parabéns, teremos o atletismo entre nós, passo primordial todos os esportes e infelizmente esquecido na Bahia.

Um hurra, pois aos campeões da 2º divisão e à L. B. D. T. por ter aprovado o regulamento*6.

Não foi possível encontrar maiores informações sobre a forma como foi organizado o primeiro campeonato de atletismo na Bahia. Contudo, as informações trazidas pelo semanário sugerem algumas possibilidades de interpretação. A principal delas é que o certame atlético não deveria ser apenas mais uma entre outras competições organizadas na cidade. Pelo contrário, a notícia revela que o evento deveria ser encarado como uma escola de formação de futuros atletas comprometidos com o ideal, qual seja, mente sã, corpo são. Podemos perceber isso na própria obrigatoriedade de envolvimento dos clubes filiados a liga, sob pena de não participação no torneio de futebol.

Foram encontradas algumas referências sobre o andamento do certame. Entretanto, o que mais chamou atenção na imprensa foram os comentários sobre o papel de um torneio daquele gênero em Salvador. De modo mais evidente, um editorial do Semana Sportiva (2 de agosto de 1924) ratifica a ideia de que o campeonato de atletismo, não deve ser tratado meramente como uma questão quantitativa, na intenção de apenas preencher o calendário esportivo da cidade de eventos. Em seguida defende que por mais que os clubes contribuam para o crescimento e desenvolvimento do atletismo em Salvador, é a Liga que deve ter um papel de liderança nesse processo, o que não quer dizer que o valor das agremiações seja desconsiderado.

É mais do que isso. De modo implícito, o editorial entende que a prática do atletismo nos clubes não conseguia tomar uma dimensão almejada: uma política esportiva para a sociedade. Nesse sentido, a Liga é que seria capaz de dar aos jogos atléticos um caráter institucional com códigos, regras, normas e padrões para que ele transpusesse os muros, notadamente do Yankee e do Vitória, irradiando-se pelas ruas da cidade da Bahia. Dito de outro modo, só a Liga seria capaz de fazer do atletismo um agente pedagógico de regeneração racial e social de Salvador.

Ainda é possível ler no editorial que o atletismo não viria para competir com os outros esportes. Pelo contrário, bem organizado só tenderia a beneficiar as outras modalidades, o que favoreceria o desenvolvimento esportivo baiano em uma tentativa de equipar-se às realidades esportivas de outros estados. Aliás, em 1927, já foi possível identificar, nos impressos, notícias sobre a participação da Bahia nos campeonatos brasileiros de atletismo. Naquele ano, O Combate publicava que: “A Bahia tomará partes no Campeonato Brasileiro de Atletismo a se realizar no Rio de Janeiro em 8 e 9 de outubro e fará um campeonato juvenil de atletismo em 28 de outubro”*7. No que tange ao atletismo voltado para os jovens, o mesmo O Combate noticiou a organização de uma competição para os chamados novíssimos.

Mais uma vez, observe que um dos critérios estabelecidos na organização do certame é a sua obrigatoriedade para todos os clubes filiados à Liga. Quando não publicavam notícias relacionadas às inovações, no que tange ao tratamento dado pela Liga ao atletismo, a imprensa trazia uma série de críticas sobre alguns aspectos relacionados à condução técnica dos jogos atléticos na cidade. Na verdade, essa continuava a ser uma das principais bandeiras dos jornais e revistas. Em uma das suas queixas, O Combate teceu alguns comentários quanto ao desrespeito no que se refere ao cumprimento das regras no lançamento de dardos e do revezamento 4×100 metros:

Nós não temos má vontade alguma com a atual comissão Técnica de Atletismo, da LBDT.

Desculpem-nos, porém os que a compõem alguns comentários justos e razoáveis sobre duas das últimas provas realizadas: corrida de revezamento 4×100 e lançamento de dardo.

Aquela, realizada no dia 28, só foi efetuada, por uma diferencia das turmas de atletas do distinto diretor de Esportes da Liga.

A medição não foi bem feita, houve atleta que corresse mais que o outro, quando todos devem “tirar” 100 metros igualmente.

Além disso, é contra os regulamentos de atletismo, o “vencedor” ser numa curva.

Houve protestos em surdina…

O tempo não foi tirado…

Na de anteontem de “dardo” revelou a comissão falta de conhecimentos quanto ao lançamento e à desclassificação.

Manda o Regulamento de Atletismo seguido pela Liga Baiana que na prova de dardo a “linha” seja assinalada por uma tábua de dimensões certas e que, transpondo-a ou pisando-a o atleta, antes de o dardo tocar no solo, é desclassificado.

Anteontem não houve tábua e nem se seguiu aquele critério de desclassificação.

Demais devem disputar as finais os seis colocados nas eliminatórias que terão direito a três jogadas, cada. Isto se obedeceu? Pareceu-nos que não!

Veja, pois a distinta comissão que não está bem assim, e é preciso mais cuidado.

Consta-nos até que vai ser lavrado um protesto contra a prova última.

Não se zangue, pois, conosco a distinta comissão: dê-nos a razão merecida e evite os maus lençóis com o que o Dr. Arthur Oliveira, como diretor de esportes, tem que se ver!*8

Quando não se queixavam do descumprimento das regras e códigos dos jogos atléticos, os jornais também apresentavam queixas sobre o desempenho dos sportmen nesses eventos. Sobre o torneio dos novíssimos O Combate lamentou:

Realizaram-se as provas de novíssimos juniors, os resultados estão a demonstrar do que prometeu os nossos atletas.

As provas de corridas e lançamentos de dardo e peso tiveram um final que quase ninguém o esperava.

Tomem, pois os clubes a sério este problema e amanhã havemos de ver os resultados que isto trará*9.

Todas essas queixas e insatisfações têm uma justificativa principal. Como um esporte base de todos os outros, o atletismo é que prepararia o corpo e a mente, dotando-os de força e disciplina necessárias, para o sucesso em outras modalidades esportivas. Assim, ele não poderia ser encarado com displicência e desorganização. Em outras palavras, a desgraça das práticas atléticas seria a ruína do futebol, do tênis, do remo e de tantas outras atividades. É nessa direção que constantemente O Combate, a Semana Sportiva e outros órgãos da imprensa solicitam que a Liga cuide do atletismo:

Numa das últimas resoluções da Liga Baiana, figura o programa da temporada atlética de 1927.

Como nós, vê a diretoria da nossa Entidade Terrestre de Esportes, no atletismo, a base de todos os esportes.

E sem ele como compreender a prática do violento jogo bretão?

A liga, em vez de licença de passes e atestados médicos, o que devia exigir dos jogadores, era a prática preliminar do atletismo: as corridas (resistência e velocidade) saltos, lançamentos de peso, etc…

Não deve se descuidar como anos atrás do atletismo, praticado apenas pelo Yankee e Vitória*10.

Para os cronistas esportivos locais, seria por meio do interesse e esmero pelas práticas atléticas que, naturalmente, as outras atividades esportivas ganhariam um novo dinamismo. No caso do futebol que, em 1927, atravessava uma fase de relativa violência e baixa técnica, O Combate acreditava que o reforço no atletismo contribuiria para que o jogo bretão voltasse a ter brilho, com as partidas em um nível técnico melhor e jogadores fisicamente mais dispostos e emocionalmente mais estáveis. Para o jornal:

Inegavelmente o Esporte que mais dedicação está a merecer no momento dos amadores é o atletismo. O futebol, e não é traindo a nossa profissão que tal dizemos: o futebol, como está sendo praticado entre nós, onde há mais violência do que técnica, está recebendo dos seus amadores um afastamento notável.

Esta é uma das causas da queda do Esporte entre nós.

O atletismo, porém, praticado como deve ser, dirigido por hábeis e conhecedores. Há de trazer aos moços o que esperam ele do jogo da bola.

Nele não se verificarão os tatás (sic) desastres, uns a propósito e outros casuais, que todos os dias se estão verificando em nosso ground.

Dê-lhe, pois a Diretoria da LBDT o impulso que ele merece: faça-se do atletismo o que sonho Aroldo Maia, e hoje almejam muitos diretores de clubes baianos*11.

A história do atletismo em Salvador, ao menos nas três primeiras décadas do século XX, é marcada por um tipo de estruturação que só encontra sentido se nos atermos a história dos clubes de elites de Salvador e das ligas esportivas. Considerada como uma das práticas em que se nota mais a presença de um discurso eugênico e pedagógico, as elites vão assumir de algum modo, uma centralidade no desenvolvimento das práticas atléticas. Vale lembrar que foi nas agremiações abastadas (composta por médicos, estudantes, profissionais e outros intelectuais) que a relação entre esporte e eugenia encontrou uma maior capilaridade, expressa na tentativa de formar um homem mais saudável e apto as atividades, contando para isso com a prática do atletismo como um elemento de formação corporal e moral.

Mesmo tendo tido o atletismo experiências na Bahia já faz mais que século, ainda não encontramos na cidade esta modalidade espalhada, seja como rendimento, seja como lazer, seja como conhecimento e daí ficam as perguntas das razões para tal.

** Este texto é um trecho do livro: ROCHA JUNIOR, Coriolano P. e SANTOS, Henrique Sena dos. Primórdios do esporte no Brasil: Salvador. Manaus: Reggo, 2016.

*1 Semana Sportiva, Salvador, 21 de janeiro de 1922, p. 9.

 *2 Semana Sportiva, Salvador, 28 de janeiro de 1922, p. 11.

*3 Semana Sportiva, Salvador, 11 de setembro de 1921, p. 6.

 *4 Semana Sportiva, Salvador, 18 de setembro de 1921, p. 13.

*5 Semana Sportiva, Salvador, 26 de novembro de 1921, p. 8.

*6 Semana Sportiva, Salvador, 22 de setembro de 1923, p. 14.

 *7 O Combate, Salvador, 06 de agosto de 1927, p. 5.

 *8 O Combate, Salvador, 07 de setembro de 1927, p. 8.

 *9 O Combate, Salvador, 14 de julho de 1927, p. 5.

*10 O Combate, Salvador, 14 de julho de 1927, p. 5.

*11 O Combate, Salvador, 14 de julho de 1927, p. 5.


O tênis na Bahia e o Clube Bahiano de Tênis

14/03/2022

Coriolano P. da Rocha Junior

A cidade do Salvador viveu experiências com tênis em tempos anteriores, mas foi em 1916 que se viu o Clube Baiano de Tênis. Da mesma forma que outros clubes da elite soteropolitana, este também teve um início modesto, com sua primeira sede não indo além de uma barraca de lona, num terreno na Ladeira da Graça, de propriedade privada, cedido por um período de três anos. Foi nesse local que se iniciaram as construções das quadras de tênis, fato que gerou empolgação nos jovens da cidade e que provocou a adesão de novas pessoas associadas em a agremiação1. Assim, a qualificação da sede passou a ser uma exigência, provocando ações de suas direções, com movimentações financeiras que viabilizassem esse desejo.

Nas memórias de alguns sócios do Baiano de Tênis, publicadas na Semana Sportiva, fica evidente que o principal ideal que norteava a fundação do clube era a necessidade de retomar, na cidade, o cultivo de uma atividade considerara elitizada:

O Baiano de Tênis foi sempre, é e há de ser essencialmente um clube de Tênis. Fundado para incrementar entre nós a prática do tênis, o nosso clube tinha, pois, como fim especial, cuidar de tão lindo esporte.

No Clube Germania notava-se, então, regular frequência, aos domingos. Era esse todo o movimento do tênis na Bahia que já tivera dias áureos. O primeiro serviço do Baiano de Tênis foi, pois, dar vida nova ao tênis, porquanto, da sua formação até os nossos dias, o seu desenvolvimento tem sido crescente2.

O interesse de reativar o tênis na cidade se associava ao ideal de estabelecer ou firmar uma prática de distinção social, pois, neste momento, o futebol já se mostrava popular, alastrado pela cidade. O tênis, como esporte, era muito caro, muito por conta das despesas com a importação de equipamentos como raquetes e bolas. Por essas coisas, o esporte foi tido como uma prática em que apenas abastados participariam, longe dos populares.

Em seu esforço por estabelecer o tênis como uma prática nobre na cidade se mostra também no desejo de ter um espaço bem estruturado, com a construção de várias quadras, inclusive de materiais diferenciados:

Quando teve de ser construído o primeiro court do Baiano, o nosso consócio engenheiro Edgar Luz que dirigia as obras, quis romper com a praxe até então aqui em voga, das quadras de cimento. E, com grande competência, fez o nosso court de uma liga de barro, tal como ora se usa em todos os países tropicais. Os resultados foram magníficos e logo foi a segunda quadra e, em seguida, a terceira, até que, agora, conta o nosso grêmio tem 4 courts, todos eles excelentes, mesmo na estação chuvosa, quando muito pouco tempo depois de um grande aguaceiro, eles por serem inteiramente permeáveis, tornam-se perfeitamente praticáveis. Nessas quadras o tênis tem se desenvolvido assombrosamente3.

A partir da fundação do Clube, o tênis experimentou um certo desenvolvimento em Salvador. De acordo com os registros de Mário Gama (1923, p. 320):

Com a fundação, em 1916, do Clube Baiano de Tênis, nas suas quatro “quadras” o jogo tomou incremento admirável e ali se formaram e aperfeiçoaram muitos jogadores, sob os ensinamentos – é justo registrar – do grande tennismen F. Mc. Even, que, como diretor, dedicava-se extremamente, no preparo e afinamento dos seus consócios. O Bahiano de Tênis conta, dentre as suas melhores páginas, a visita do grande campeão dos Estados Unidos, Sr. Johnston, que jogou várias vezes em seus courts. Mantendo torneios anuais de duplas e simples, são campeões das quadras do alvi-negro F. Sá Macedo de Aguiar (duplas) e Mário Pereira (simples). Com a recente visita do Fluminense, A Bahia pôde mostrar bem que, em tênis, o seu adiantamento é patente, pois que, os representantes tricolores, Srs. Heberto Filgueiras e G. Prechel foram batidos, em simples, pelos nossos conterrâneos Mario Pereira e Macedo de Aguiar, que se houveram brilhantemente. Nos courts do Bahiano e Tênis está em disputa um torneio amistoso de duplas tendo-se feito representar os Clubes, Francês da Bahia, Rio Vermelho, Vitória, Associação Atlética e Baiano de Tênis.

Como um dos principais sócios do Baiano de Tênis, Mário Gama4 não raramente fez questão de circunstanciar o desenvolvimento do esporte no clube marcado pelo um intercâmbio com tenistas de outros estados e países. É possível interpretar como um indício que o desenvolvimento do tênis no alvinegro não ocorreu de forma meramente espontânea. Pelo contrário, houve um constante esforço de estruturação, inclusive no tocante ao aprimoramento das técnicas e estilos de jogo. Além disso, percebe-se um esforço em apresentar os tenistas locais como não inferiores aos de outras localidades. Com o crescimento do número de interessados, o Clube criou campeonatos internos entre os sócios. Os jogos de duplas e simples eram elogiados pela imprensa local, que fazia referência sobre o tênis nas dependências do Bahiano, como esta abaixo:

Dentro em pouco, nós muito confiamos, o tênis gozará na Bahia da brilhante situação em que se acham o futebol, o turfe e o remo. O Baiano de Tênis que é o pioneiro querido desse esporte, vem se empenhando vivamente por que assim aconteça. Ainda há pouco terminou o campeonato de doublés5, com o maior sucesso, e o de singlescomeçou domingo, despertando o mesmo interesse e revestido da mesma animação. O elemento de que mais depende a vitória do tênis, é o feminino, a tomar parte em suas provas elegantes e distintas, ou cercando os courts, enchendo o ambiente da suavidade, do seu perfume, do encanto da sua graça. Este já aderiu francamente e domingo lá estava, em numerosa representação7.

Se vê na matéria o cuidado em não apenas noticias o torneio, mas sim, estimular a sequência e propagação da modalidade na cidade, em outros clubes, buscando também a presença feminina como jogadoras e torcedoras. Em várias ocasiões, a Semana Sportiva manifesta o desejo de ver outros clubes praticando o tênis ou mesmo a realização de um campeonato interclubes:

Não há esporte tão elegante, tão distinto como o tênis não há. Infelizmente na Bahia, não o cultivam assiduamente como seria de desejar. Aqui há somente um clube que se dedica à sua prática, devendo-lhe o nome que honrosamente mantém. É o Clube Baiano de Tênis, o grêmio aristocrático da Avenida da Graça, em cujo courts se realizam, regularmente, campeonatos de singles e doublés. Porque o não imitam os outros clubes? Porque se não organizam turmas femininas? A vida do alvinegro na prática do esporte do tênis como em todos os outros está repleta de fases brilhantíssimas. Os seus courts são uma escola modelar, onde se formaram Mario Pereira, Macedo de Aguiar, Octávio Machado e outros muitos. Temos fé em que o trabalho desse grêmio pela identificação do tênis e nosso meio há de vingar8.

No texto transparece a preocupação de não apenas fortalecer o campo esportivo soteropolitano, mas sim, dotá-lo de uma magnificência e civilidade. Tal ponto fica transparente em artigo publicado pelo semanário, que busca caracterizar o valor social e cultural do tênis:

A Semana Sportiva registra, sempre, com o maior prazer as vitórias do esporte baiano. Semanário que inscreve no seu programa de vida a propaganda de todos os esportes, o futebol como a regata, e o turfe, e os esportes atléticos em geral, não saberia, ainda agora, esconder a sua impressão de franco júbilo para o êxito com que vem sendo praticado na Bahia, o tênis. Esporte de superior elegância e requintada distinção, esporte por excelência aristocrático, nenhum se lhe compara nesse ponto. Os jogos de tênis são de fato, uma das melhores e mais recomendáveis diversões da sociedade. Daí, a alegria com que noticiamos, aqui o seu pleno triunfo na Bahia. Prova disso, e prova iniludível, incontestável é a do sucesso do campeonato interno do Baiano de Tênis, há poucos dias terminado. As duplas de reconhecido valor, demonstrado em encontros anteriores, juntaram-se, para a disputa desse torneio interessantíssimo, duplas novas, que agora se iniciam no esporte elegante, e atestaram todas magníficas disposições de se tornarem tem breve tempo, à altura dos seus valorosos contendores. Quer isto dizer que o tênis, mais do que um simples ensaio, e, já uma esplêndida realidade. Não só pelo interesse com que no Baiano, e já agora na Associação Atlética, vem sendo praticado, mas, também, e principalmente, pelo entusiasmo dos torcedores, que, em verdadeira multidão acorrem aos courts, estimulando os jogadores com seus aplausos ruidosos.

Pois bem: o Baiano, que todo o ano realiza campeonatos internos com real sucesso, não registrara ainda tão grande concorrência de duplas como as que se inscreveram no torneio deste ano, agora findo, com a vitória da double Mario Pereira – Jayme Villas Boas. A Semana Sportiva sente, portanto, vivo prazer em registrar o fato auspicioso. Que os tenistas do Baiano da Associação Atlética do Rio Vermelho, do Clube Francês, que concorreram ao torneio de 1923, não esmoreçam, e se esforçarem sempre mais pela prática do tênis na Bahia. E que a Liga Baiana reconhecendo a necessidade de que não morra o esporte belíssimo, cada vez mais se afirme triunfante saiba, como é do seu dever prestigiar em toda linha o Bahiano de Tênis, a quem se deve mais este notável serviço aos esportes na Bahia9.

Se vê o desejo de exaltar o valor do esporte, em função do perfil social dos seus praticantes: sujeitos endinheirados e abastados, numa tentativa de estabelecer certa hierarquia entre as práticas esportivas.

O noticiário local buscava publicar publicar textos técnicos, no afã de auxiliar que lia a se iniciar na prática, com dicas, exemplos de jogadas, movimentações em quadra e indicações sobre o comportamento do jogador, como nesta matéria do A Semana Sportiva:

A primeira e mais importante condição que deve saber um jogador para disputar uma partida é a maneira de perdê-la. O jogador que se preza de sua dignidade deve saber perder de forma tal, que ninguém perceba o pesar que lhe pode perturbar o espírito. Nada é tão pouco digno do verdadeiro sportman como o de manifestar com um mau humor o sentimento da sua derrota. O sportman deve perder com o sorriso nos lábios, assim como deve proceder com modéstia, com generosidade e sem pretender molestar o seu adversário, quando ganhar; O objeto que tem em vista todo jogador ao disputar uma partida é, inegavelmente, ganhá-la, mas deve fazê-lo de modo nobre, digno e esportivo. Uma vitória conseguida de outra forma se converte em verdadeira derrota. No tênis, o jogo é tudo, e em uma partida, uma derrota honrosa tem mais valor esportivo que uma vitória conseguida pouco nobremente. O tênis é um esporte que se deve praticar pelo que ele é, e não pelos benefícios que dele possam sobrevir ao jogador. O tênis deve jogar-se com quem se põe em contato, e pelo prazer que seu jogo pode proporcionar ao público, que o honra presenciando-o. Muitos jogadores de tênis supõem que nada devem ao público e que, pelo contrário, este é quem devem ficar-lhes agradecido. Há outro fator que também contribui para um bom jogo de tênis. É o espírito competitivo que consiste no desejo de demonstrar a si mesmo de que é capaz de enfrentar lealmente o seu adversário10 .

Se via a preocupação de incutir a ideia de que a prática do tênis envolve um comportamento disciplinado, educado e civilizado, buscando um sentido aristocrático para o tênis, que contava, inclusive, com um cuidado com a atuação de quem atuasse como árbitro da modalidade, função que também deveria abraçar a linha civilizadora do esporte. Assim, a Semana Sportiva orientava:

Uma circunstância que não deve escapar a um comitê organizador de um campeonato importante é a de escolher os juízes e os linesmen11 antes de começar a partida. Estes elementos devem já estar escolhidos antes que os jogadores entrem na quadra para o jogo. Um bom linesman serve de grande auxílio numa partida de tênis. O linesman deve emitir seu juízo no momento em que a bola toca o solo. Se a bola cai fora das linhas, deve dizer – out – imediatamente, com voz clara e decisiva. Se a bola, porém, é boa, deve então permanecer discretamente calado. O juiz deve anunciar o score12 depois de cada ponto, em voz suficientemente alta para que seja ouvido por toda a assistência. Suas decisões devem ser ditas com voz suficientemente alta para que seja ouvida pelos jogadores13.

Nessa mesma linha, ganha destaque o reconhecimento da importância da prática da modalidade pelo gênero feminino. Para os jornais, em especial para a Semana Sportiva, o envolvimento das mulheres no tênis não se tratava apenas de uma questão de embelezamento dos courts, mas sim de contributo para a saúde das jovens:

O Tênis é um dos esportes mais queridos do belo sexo, que o pratica mesmo sem o menor prejuízo para a sua organização. Fala-se com insistência que dentro em pouco ele ocupará papel saliente em nossa vida esportiva. Tomara que assim seja14.

Em outra passagem o semanário é mais claro:

As formosas e promissoras jovens brasileiras, devem, pois, ao nosso modo de ver, lutar, com a mais absoluta das precisões, para que, dentro em breve, rivalizem, em simpatias, com o cultivamento do tênis, os demais esportes que já são comuns no Brasil. Os nossos votos e os nossos esforços não se farão recusar, cuja eficácia consiste nos atrativos que o jogo de tênis oferece, assim como, nos encantos que vulgarmente residem no belo sexo, tudo, portanto lhe sendo útil. Estamos certo que, futuramente as baianas fundarão um clube de tênis e a sua prioridade nesse particular servirá de exemplo as suas rivais dos outros estados do país, continuando a Bahia com a grande ventura de ser mãe, mais uma vez, das coisas auspiciosas e fecundas para a nossa raça15

Se um sentido civilizador se atribuia as atividades esportivas, as mulheres não deveriam ficar de fora desse processo. Como se acreditava à época, mulheres fortes é que fazem uma raça forte. Dito de outro modo, o chamado sexo frágil, com a prática de esportes fortaleceria o seu organismo. Contudo, não era qualquer prática que traria benefícios para as mulheres, modalidades como o boxe ou o futebol eram vistas como nocivas, que poderiam masculinizar corpo feminino e aí, o Tênis ganhava atenção especial, sendo tido como ideal a mulher.

No afã de fazer o esporte ganhar a cidade, para além do Baiano, a imprensa buscou também fazer com que a principal entidade esportiva de Salvador, a Liga Baiana de Desportos Terrestres (LBDT) abraçasse a modalidade e isso se deu, quando a Liga criou um campeonato de tênis envolvendo os clubes filiados à instituição. No dia posterior ao encerramento das inscrições, a Semana Sportiva publicou um efusivo editorial comentando o feito:

Encerraram-se ontem, na secretaria da Liga Baiana, as inscrições para o campeonato de tênis a inaugurar-se este ano. Compreende-se facilmente quanta satisfação nos vai neste registro. Ela é tão intensa como justa. Quem consultar as coleções da Semana Sportiva, há de encontrar em grande parte, na maior parte, mesmo, dos seus números os traços de um vivo empenho porque na Bahia se intensificasse a prática desse esporte. Em artigos, entrevistas, sueltos e comentários, de muito tempo vimos batendo pela vitória de ideia tão magnífica. Ninguém nos excedeu, então, no ardor desse desejo, assim tantas vezes evidenciado. Foi por isso que recebemos com o justo alvoroço de justíssima alegria as palavras a propósito proferidas pelo ilustre Sr. Presidente da Liga Baiana, em excelente entrevista – programa aos nossos confrades do “O Imparcial”. Bem que a Bahia Sportiva já estava reclamando como necessidade inadiável a brilhante realização positivada. Esporte amado e praticado tão somente por um clube, o Bahiano de Tênis, que o instituiu, único nesses últimos tempos, para a prática dos seus associados, em campeonatos internos, o tênis teve ali quem verdadeiramente o compreendesse, atingindo surpreendente perfeição. Formaram-se com assiduidade o capricho, campeões cujos valores se não estimavam devidamente, porque ainda se lhes não oferecerá ensejo de provar que o eram de verdade. Deve-se a esta fase memorável no esporte baiano o toque de rebate para a vida que agora vai ter o tênis nesta capital. Já o praticam em courts próprios e com players valorosos, a Associação Atlética, o Rio Vermelho de Tênis e o Clube Francês. Todos esses se inscreveram também para a temporada que, em breve, se inaugurará sob os melhores auspícios. Tudo está a indicar que o tênis viverá longa e brilhantemente na Bahia. Assim não lhe faltem nunca a direção de espíritos superiores e a dedicação de quantos o amam e desejam vê-lo vitorioso16.

O texto mostra que o Semana Sportivabuscou tomar para si os louros pela criação de um certame de tênis na capital baiana e ainda, reforçar a ideia de que ele era o primeiro a defender o progresso de uma cultura esportiva na cidade. Por outro lado, o semanário não deixa de compartilhar tal conquista com o Bahiano de Tênis. Por fim, ao que parece o texto deixa implícito que tanto a esforço do Bahiano de Tênis quanto da revista surtiram efeito quando se percebe o envolvimento de outros clubes com a prática do tênis, a exemplo do Rio Vermelho, Associação Atlética e o Clube Francês.

Podemos considerar que a centralidade da introdução e, sobretudo, desenvolvimento do tênis em Salvador nas primeiras décadas do século XX é reivindicada pelas elites. Do ponto de vista discursivo, buscavam apresentá-la como uma experiência única e exclusiva das camadas altas.

Dito de outro modo, representada como uma prática distintiva seriam as camadas abastadas as únicas responsáveis por desenvolver a modalidade na cidade, já que possuíam um comportamento refinado, educado e elegante exigido pelo jogo.

Notas:

1. Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 26.

 2.Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 58.

3. Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 59.

4. Homem que atuou largamente no esporte baiano, como atleta, dirigente e que também deixou vários escritos sobre o assunto.
5. Significa os jogos em duplas.
6. Jogos individuais.
7. Semana Sportiva, Salvador, 25 de agosto de 1923, p. 9.

8.  Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 8.

9.  Semana Sportiva, Salvador, 11 de agosto de 1923, p. 7.

10. Semana Sportiva, Salvador, 15 de setembro de 1923, p. 13.

 11. Equivalente a árbitros de linha.

12. O termo se refere à pontuação do jogo.

 13. Semana Sportiva, Salvador, 15 de setembro de 1923, p. 12.

 14. Semana Sportiva, Salvador, 21 de outubro de 1922, p. 13.

 15. Semana Sportiva, Salvador, 12 de maio de 1923, p. 11.

16.  Semana Sportiva, Salvador, 19 de abril de 1924, p. 3.


III Encontro Nacional de Historiadores do Esporte (2022)

22/01/2022

Trabalhos

PRAZOS PRORROGADOS

A submissão de resumos ocorre até o dia 10 de fevereiro de 2022.

Esta edição contemplará duas possibilidades de apresentação: 1) Pesquisadores (profissionais já graduados); 2) alunos de graduação.

No caso da categoria PESQUISADOR, podem submeter propostas de comunicação apenas aqueles que se enquadrarem em ao menos UMA das situações abaixo:

  • Ser filiado à Associação Nacional de História (ANPUH).
  • Ter apresentado trabalho em simpósio temático no âmbito do Simpósio Nacional e/ou Regional da ANPUH.

No caso da categoria ALUNOS DE GRADUÇÃO, não se aplicam as regras acima citadas. Neste caso, serão selecionados até 8 (oito) trabalhos para serem apresentados em formato de comunicações livres. Será avaliada a pertinência na área da História do Esporte.

Observação importante: Ressaltamos que o Encontro Nacional de Historiadores não tem vinculação com a Anpuh ou chancela da entidade. Trata-se apenas de uma exigência que tem por objetivo delinear o público-alvo que apresentará trabalhos.

A inscrição só será confirmada mediante o envio, para o e-mail encontrohistoriaesporte2022@gmail.com, até o prazo final de inscrição, da declaração atualizada de filiação à ANPUH, que pode ser retirada na área do associado, na página da entidade, ou do certificado de apresentação de comunicação em simpósio temático de encontro da ANPUH em nível nacional ou regional.

Trabalhos submetidos por autores que não se enquadrem em qualquer das situações exigidas não serão avaliados/aceitos. Caso exista dúvida, a comissão organizadora solicitará informações ao/aos autores.

ATENÇÃO: Cada autor ou coautor poderá inscrever apenas um trabalho.

A submissão pode ser feita em arquivo com extensão .doc ou .docx.  Cada submissão deve conter:

– Título do trabalho

– Nome do autor, e-mail e vínculo institucional

– Resumo contendo entre 300 e 500 palavras

– Palavras-chave separadas por ponto e vírgula

Trabalhos em coautoria devem conter as informações completas de cada autor(a).

Os resumos aceitos serão reunidos em um caderno a ser publicado no site do evento.

É imprescindível o uso do template, que pode ser encontrado em:

https://docs.google.com/document/d/1Waitb1nZEiowdk3JBJ6jjVa8bxamE7Jw/edit

PROTOCOLO PRESENCIAL
Exigência do cumprimento de todos os protocolos sanitários em vigor e uso de máscara em todas as dependências da Universidade.
COMPROVAÇÃO DE VACINAÇÃO COMPLETA
VAGAS LIMITADAS
Em cumprimento aos protocolos de retomada das atividades presenciais, a quantidade de pessoas nos espaços é limitada.

Dúvidas ou informações pelo e-mail: encontrohistoriaesporte2022@gnail.com

Comissão Organizadora


III Encontro Nacional de Historiadores do Esporte

07/01/2022

Contando com o controle da crise sanitária e o retorno seguro das atividades presenciais, o III Encontro Nacional de Historiadores do Esporte acontecerá em Salvador/BA entre os dias 03 e 05 de agosto de 2022, na Faculdade de Educação (FACED), da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Nesta edição, o ENHE é organizado pelo Grupo CORPO.

O Encontro Nacional de Historiadores do Esporte foi criado com o objetivo de reunir, em anos pares, os pesquisadores que frequentam bienalmente, nos anos ímpares, o Simpósio Temático História do Esporte e das Práticas Corporais, no âmbito do Simpósio Nacional de História. A iniciativa tem duas motivações. Primeiro, uma avaliação positiva das atividades do ST História do Esporte/ANPUH, que vem se reunindo a cada dois anos desde 2003. Tais encontros têm sido cada vez mais interessantes e ricos; avaliamos que a qualidade média dos trabalhos também tem crescido. Em segundo lugar, atender a demanda de uma nova possibilidade de encontro dos pesquisadores e discussão de suas investigações, de forma que, após o encontro realizado em anos ímpares, não esperemos dois anos para nos reunirmos novamente.

Que possamos novamente nos reunir com segurança e alegria, neste evento de significativa representação para área. Participem!

Trabalhos

A submissão de resumos ocorre entre 09 de novembro de 2021 e 23 de janeiro de 2022.

Esta edição contemplará duas possibilidades de apresentação: 1) Pesquisadores (profissionais já graduados); 2) alunos de graduação.

No caso da categoria PESQUISADOR, podem submeter propostas de comunicação apenas aqueles que se enquadrarem em ao menos UMA das situações abaixo:

  • Ser filiado à Associação Nacional de História (Anpuh).
  • Ter apresentado trabalho em simpósio temático no âmbito do Simpósio Nacional e/ou Regional da Anpuh.

No caso da categoria ALUNOS DE GRADUÇÃO, não se aplicam as regras acima citadas. Neste caso, serão selecionados até 8 (oito) trabalhos para serem apresentados em formato de comunicações livres. Será avaliada a pertinência na área da História do Esporte.

Observação importante: Ressaltamos que o Encontro Nacional de Historiadores não tem vinculação com a Anpuh ou chancela da entidade. Trata-se apenas de uma exigência que tem por objetivo delinear o público-alvo que apresentará trabalhos.

A inscrição só será confirmada mediante o envio, para o e-mail encontrohistoriaesporte2022@gmail.com, até o prazo final de inscrição, da declaração atualizada de filiação à ANPUH, que pode ser retirada na área do associado, na página da entidade, ou do certificado de apresentação de comunicação em simpósio temático de encontro da ANPUH em nível nacional ou regional.

Trabalhos submetidos por autores que não se enquadrem em qualquer das situações exigidas não serão avaliados/aceitos. Caso exista dúvida, a comissão organizadora solicitará informações ao/aos autores.

ATENÇÃO: Cada autor ou coautor poderá inscrever apenas um trabalho.

A submissão pode ser feita em arquivo com extensão .doc ou .docx.  Cada submissão deve conter:

– Título do trabalho

– Nome do autor, e-mail e vínculo institucional

– Resumo contendo entre 300 e 500 palavras

– Palavras-chave separadas por ponto e vírgula

Trabalhos em coautoria devem conter as informações completas de cada autor(a).

Os resumos aceitos serão reunidos em um caderno a ser publicado no site do evento.

Dúvidas ou informações pelo e-mail: encontrohistoriaesporte2022@gmail.com

É imprescindível o uso do template, que pode ser encontrado em:

https://docs.google.com/document/d/1Waitb1nZEiowdk3JBJ6jjVa8bxamE7Jw/edit

PROTOCOLO PRESENCIAL
Exigência do cumprimento de todos os protocolos sanitários em vigor e uso de máscara em todas as dependências da Universidade.
COMPROVAÇÃO DE VACINAÇÃO COMPLETA
VAGAS LIMITADAS
Em cumprimento aos protocolos de retomada das atividades presenciais, a quantidade de pessoas nos espaços é limitada.

Comissão Organizadora


APENAS UMA REFLEXÃO

28/06/2021

Coriolano P. da Rocha Junior

Neste post de hoje vou pedir licença a quem fizer a leitura, para escrever fora de meu tema básico. Hoje, considerei mais justo trazer algumas reflexões sobre este nosso tempo.

Vivemos dias em que as ações regulares cotidianas foram absolutamente modificadas por um novo, por um agente externo que chegou e fez, ou deveria fazer, pessoas, cidades e instituições alterarem seus modos, atitudes e comportamentos.

Este novo, que na verdade, mesmo diferente, acaba repetindo situações já vividas, nos trouxe uma inovadora e necessária medida do estar em sociedade, onde o sujeito diretamente tem de agir, em função de si e do outro, tudo isso, em função de possíveis formas de bem estar, ou ao menos assim deveria ser.

Esta nova realidade nos leva a pensar nas formas de ação do poder público e da pessoa. O ente público é aquele que deveria ter em conta o bem estar coletivo, pensar formas de criar redes protetivas para as pessoas e instituições e mais, ser o agente catalisador das boas falas e condutas. A pessoa, caberia se organizar e agir dentro de procedimentos, que para além de si, levem em conta o outro, assim, toda e qualquer atitude individual deve ser pensada dentro do coletivo. Desse jeito, com estas posturas saberíamos viver esta cena e a ultrapassar, na tentativa de nos fazermos melhores, de termos uma nova sociedade e novas formas de vida individual e coletiva.

Neste cenário, a educação aparece como essencial, pois, é ela que poderia e já deveria ter agido na formação desse sujeito que é capaz de entender isto que nos aparece como um novo modo de viver.

Falo aqui de uma educação que se pense para além da seriação tradicional, que vá mais distante do que a transmissão de saberes estandartizados, muito embora estes sejam absolutamente necessários, uma educação que possa pensar uma vida em sociedade que se faz coletiva e que valoriza o indivíduo naquilo que ele tem de melhor, capacidade de se relacionar, onde a empatia e o bem querer sejam o normal cotidiano.

De forma diferente daquilo que possamos pensar como o ajustado, as cenas diárias de nossa sociedade tem nos mostrado outras realidades, que nos fazem pensar e repensar sobre tudo que foi feito e vivido até agora, mais diretamente na educação.

Num tempo onde o poder público deveria assumir o protagonismo das boas ações de controle, segurança e apoio social, com exceções nas esferas estaduais e municipais, temos visto o governo central agir de forma temerária, num claro desrespeito a toda forma de vida e a coisa pública. Se o governo fala e age de maneira calamitosa, incitando a barbárie, gerando medo, insegurança, mal estar e mesmo caos, por seu lado, o sujeito também tem se mostrado atabalhoado e, claro, reconhecemos que estes, felizmente, não são uma maioria, mas mesmo não a sendo, sua forma de ser e estar no mundo causa perplexidade, pois, demonstra absoluto desprezo ao outro, a vida comum, só havendo espaço para o prazer imediato, para aquilo que toca a si.

Mas, de novo, nos perguntamos e a educação com isso? Se estas ações e comportamentos existem, como a educação tem agido então? Esta pergunta fica para reflexão e é nela que vamos nos ater.

Nestes tempos temos assistido um Brasil sem “ar”, asfixiado. Esta ausência de oxigênio começou quando vimos a democracia ser estrangulada e o país respirar cada vez um ar menos puro, mais poluído de ódio, de mentiras, de acentuada desigualdade, de machismo, de misoginia, de fundamentalismo religioso, de conluio de poderes, ou de arremedo destes e assim, a nação foi se esvaindo.

As mãos da tirania, do imperativo do mal se prenderam ao pescoço da nação e aos poucos foi cada vez mais apertando, sufocando. Estas mãos foram muitas e ganharam força com o ódio de classes, se avolumaram com os preconceitos e ficaram potentes com a mentira operada em função de um mal, mal este que prevê a destruição, que ganha peso na intenção de operar a desigualdade estrutural e para isso é preciso esvaziar de ar os pulmões de quem pode ou poderia gritar.

O silenciamento se opera com os likes, com o cinismo da fala distorcida, com a destruição de desejos e sonhos e a afirmação da crença na incapacidade construtiva de uma terra que ousou, algum dia, ser uma nação entre iguais.

Não basta destruir aquilo que um dia se ousou montar, mas sim, é preciso impedir as bases de uma nova construção e isto se faz destruindo a moral de um povo, sua estima, seu poder de crer e para isto servem as investidas diárias no aparato que atua como força educativa da nação.

Mais que destruir, é necessário impedir que se construa e para tal, a Educação, a Ciência, Educadoras, Educadores e Cientistas precisam ser desmontados de seus apoios, afinal, suas bases se dão junto a quem pode e deve ser operado como força para o mal, um mal que busca, exatamente, aniquilar as forças de um bem que deve trabalhar por algo maior, cidadania.

Para tal, valores precisaram ser invertidos. Saíram livros e leitura e entraram armas e tiros, saíram empatia e solidariedade, entraram individualismo e ganância, saíram cultura da paz e fraternidade, entraram ódio e intolerância, saiu o Estado e entrou o mercado, sustentado por este mesmo Estado, que agora deve só a ele servir.

Tudo isto não foi acaso, não foi erro, mas sim uma construção, projeto e vem se dando desde que as mãos da força machista, cretina, mentirosa e vil dos arremedos de poderes constituídos, apertaram o pescoço da democracia.

Numa época onde as exigências sanitárias que foram postas na sociedade passaram a demandar ações imediatas que dessem respostas efetivas e elas vieram e continuam a vir e da ciência. A ciência e seus personagens cientistas, das mais diferentes áreas rapidamente envidaram os maiores esforços para buscar soluções as diversas crises vividas e criadas. No entanto, temos visto, por mais incrível que possa parecer, uma onda de negação a própria ciência e suas capacidades de resposta e aí, esse negacionismo faz com que pensemos: como se deu a educação científica? Bem, somos obrigados a crer que ela falhou. A educação foi incapaz de trabalhar com a formação de pessoas que saibam lidar e reconhecer os saberes científicos como essenciais e nessa incapacidade, negar, duvidar, olvidar acaba sendo a fuga dos que não sabem e não querem saber e a resposta que nos vem: a educação falhou!

Outra situação que esta crise social gerou foi a acentuação das desigualdades e capacidades de acesso aos bens sociais e materiais mínimos a uma segura sobrevivência e aí, de novo, se viu o descaso e a culpabilização destes que não tem acesso por suas condições, sem falar na necessidade de acúmulo, em detrimento de quem não tem. Tudo isto mostra a ausência de empatia, de um olhar para o outro, como alguém que assim como você próprio, tem valor. O individualismo, o egoísmo, o desprezo ao outro se mostram nas atitudes irresponsáveis do ponto de vista da segurança sanitária, pois, mais vale aquilo que me toca de imediato, do que qualquer coisa que se refira ao outro. E aí, de novo: e a educação? Se ela não foi capaz de construir valores éticos, afetivos e de significação social, que aconteceu: ela falhou, mais uma vez!

Se temos visto um negacionismo científico, uma ausência de amor ao outro, por outro lado, tem sido cada vez mais aguda uma virulência social, onde agressões verbais ou físicas e posturas raivosas contra quem é diferente de você acabam se tornando respostas possíveis, para quem não consegue articular uma capacidade de se relacionar e aí, as chamadas minorias acabam se tornando um alvo direto destas aberrações e aqui, chamamos de minorias, todo aquele grupo social ou pessoa que foge de uma pretensa normatividade, que é incapaz de dar respostas não violentas aos problemas sociais, fazendo de uma falsa força, sua resposta. E a educação, bem, de novo falhou! E de novo falhou por não se fazer capaz de criar uma formação que consiga reconhecer a diferença como algo essencial a vida humana.

Nisso tudo, por isso tudo, nos sentimos na obrigação de repensar aquilo que se deu até agora e da mesma forma, repensar nossa ação maior, a educação.

Uma educação que não foi capaz de atuar numa formação científica, onde saberes e sua construção devem ser vistos como essenciais a vida humana. Uma educação que não pode gerar valores, princípios e o bem maior, amor. Uma educação que não soube afirmar a diferença como essencial e comum. Bem de tudo isso, se deve dizer, não houve educação, ou melhor, sim, houve, mas numa direção contrária aquilo que possamos imaginar como valorável.

E nisso, onde nós professores nos colocamos, onde me coloco. Se educadores somos, se educador sou e a educação falhou, falhamos nós, falhei eu. Este reconhecimento e este sentimento por ele gerado pode nos incapacitar, nos paralisar ou ao contrário, pode nos mobilizar e fazer acreditar que há que se mudar e isto deve ser o sentimento que nos mobiliza, que me mobiliza. Reconhecer limites, identificar erros e acreditar que pode ser diferente e melhor é tarefa essencial do ser docente isto, nos mobiliza. Sigamos, seguirei, buscando ser melhor.


Simpósio Nacional de História

27/05/2021

Programação Simpósio de História do Esporte e das Práticas Corporais (69)

31º. Simpósio Nacional de História – ANPUH 2021

Simpósio 69: História do Esporte e das Práticas Corporais

Coordenação:

Prof. Dr. Coriolano Pereira da Rocha Junior (UFBA)

Prof. Dr. André Alexandre Guimarães Couto (CEFET/RJ)

Orientações gerais:

  • As mesas estão compostas por aproximaçáo temática.
  • As sessões acontecerão entre 14h e 16h e entre 16h e 18h.
  • Cada fala terá 15min e 1h de debate por sessão.
  • A última sessão fica guardada para avaliação e organização do simpósio para 2023.

Programação

20/07 – SESSÃO 1: 14h/16h

Sistema de Informações do Arquivo Nacional: potencialidades da pesquisa sobre o esporte e a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985)

Rafael Fortes Soares, João Manuel Casquinha Malaia Santos

Recorde: Revista de História do Esporte – um panorama de suas publicações (2008-2020)

Leonardo do Couto Gomes

Sociologia e História do Esporte: novos diálogos possíveis?

Euclides de Freitas Couto

Mídia Impressa e Esporte: Notas Históricas

Caio Cesar Serpa Madeira

20/07- SESSÃO 2: 16h/18h

Esporte, propaganda política e consenso social nas comemorações do Sesquicentenário da Independência do Brasil (1972): síntese e desdobramento de uma pesquisa

Bruno Duarte Rei

Sugestões metodológicas para o estudo de processos civilizadores a partir das práticas de lazer: uma análise psicogenética em Monte Alegre – PR

Ana Flávia Braun Vieira

Entre tangos e batuques: as danças nos clubes sociais da cidade do Salvador entre os anos de 1912 e 1935

Viviane Rocha Viana

21/07- SESSÃO 1: 14h/16h

O jogo das ressignificações: uma outra história do futebol em Porto Alegre (1903-1909)

Gérson Wasen Fraga

Masculinidades varzeanas: virilidade e idade na organização do futebol amador em Belo Horizonte (anos 1950 a 1980)

Raphael Rajão Ribeiro

O futebol e suas relações com o narcotráfico na Colômbia: uma análise introdutória

Eduardo de Souza Gomes

Qual a cor do seu grito? Copa das Confederações, Jornada de Junho de 2013 e os movimentos sociais na cidade de Fortaleza

Thiago Oliveira Braga

21/07- SESSÃO 2: 16h/18h

Urbanização, trabalho e futebol na cidade de Santos (1892 – 1920)

André Luiz Rodrigues Carreira

Filmes de esporte (futebol) como um gênero cinematográfico: uma proposta de pesquisa

Luiz Carlos Ribeiro de Sant’ana

O futuro das torcidas: das charangas à guinada antifascista na Ultras Resistência Coral

Caio Lucas Morais Pinheiro

Da fidalguia à commodity: uma história econômica do futebol mundial evidenciada no surgimento do “padrão-FIFA” (fins do século XX e início do XXI)

Raul de Paiva Oliveira Castro

22/07- SESSÃO 1: 14h/16h

O Polo Aquático Brasileiro nos Jogos Olímpicos de 1920

João Paulo Maciel de Azevedo

Polo Master – Um espaço “aquático” de memória, sociabilidade e lazer

Alvaro Vicente Graça Truppel Pereira do Cabo

Pugilistas italianos e identidade nacional no jornal imigrante Il Pasquino Coloniale (décadas de 1920 e 1930)

Igor Cavalcante Doi

A Formação do Jiu-Jitsu Brasileiro em Salvador e no Rio de Janeiro: um estudo histórico comparado

Luan Alves Machado

22/07- SESSÃO 2: 16h/18h

As Práticas Corporais no Cotidiano de uma Escola Americana no Sertão: ritos e rituais

Rúbia Mara de Sousa Lapa Cunha

Ofício dos Mestres e Pandemia na percepção dos Capoeiras: narrativas e estratégias na Roda

Zuleika Stefânia Sabino Roque

GINÁSTICA EM ACADEMIA: a práxis em Salvador entre 1975 a 1988

Amanda Azevedo Flores

A natação em Juazeiro da Bahia: registros históricos nas décadas de 1970 – 1990

Joelzio dos Santos Oliveira / Christiane Garcia Macedo

23/07- SESSÃO 1: 14h/16h

Alcyr Ferraro: materializador da formação em educação física na Bahia

Roberto Gondim Pires

Jogos Escolares na Bahia entre as décadas 1950 e 1980: Um olhar sobre a História

Natanael Vaz Sampaio Junior

História da formação de professores de Educação Física da Bahia na década de 1970

Maria Elisa Gomes Lemos

Os primórdios da formação de professores de educação física no Pará (1930-1940)

Carmen Lilia da Cunha Faro

23/07- SESSÃO 2: 16h/18h – AVALIAÇÃO FINAL E DEFINIÇÃO DA COORDENAÇÃO 2021/2023


Chamada 31 Simpósio Nacional de História

01/04/2021

Olá todas e todos
Com alegria informamos que neste ano, mais uma vez, teremos no 31º Encontro Nacional de História, o Simpósio de História do Esporte e das Práticas Corporais (Simpósio 69). Este Simpósio existe continuamente desde 2003 e se caracterizou como um espaço de encontro de pesquisadoras(es) e interessadas(os) no tema, um momento de divulgar, debater e estabelecer redes neste campo de pesquisa, contando sempre com a presença em massa de grandes produções, num ambiente agradável a todas as pessoas. Neste ano, por conta das condições sanitárias vividas, o evento será todo on-line e acontecerá entre 19 e 23 de julho. O simpósio acontecerá nos dias 20, 21, 22 e 23, sempre entre 14h e 18h.

Coordenadores
Coriolano P. da Rocha Junior (UFBA)
André Alexandre Guimarães Couto (CEFET/RJ)

Para o envio de trabalhos ao Simpósio, as condições são estas:

– Exige-se titulação mínima de Graduação.

– Cada inscrito poderá apresentar apenas 1 trabalho em apenas 1 Simpósio Temático.

– O inscrito deverá escolher 5 Simpósios Temáticos, na ordem de sua preferência. Caso não seja aceito no primeiro, a comunicação será submetida à avaliação da opção seguinte e assim por diante.

– Além do resumo expandido (mínimo de 2200 caracteres e máximo de 2.800 com espaço), é importante, mas não obrigatório, enviar o texto completo no ato de inscrição. Isso auxiliará a avaliação do(s) coordenador(es).

– Uma versão revisada do texto completo poderá ser enviada entre os dias 26 de julho a 09 de agosto de 2021.

– Na inscrição, não utilize caixa alta no texto do resumo, apenas na autoria.

– Os apresentadores de trabalho associados da ANPUH deverão estar em dia com a anuidade de 2021.

– O valor da inscrição em ST para associado é de R$60,00.

– O valor da inscrição em ST para não-associado é de R$270,00.

– O valor da inscrição em ST para não-associado professor/a de ensino fundamental e médio é de R$180,00.(necessário comprovante de atuação como professor/a de ensino fundamental e médio)

– O valor da inscrição em ST para não-associado aluno/a de pós-graduação é de R$180,00. (necessário comprovante de atuação como aluno/a de pós-graduação)

– No caso de serem 2 autores (coautoria), cada um deve fazer a inscrição individualmente no sistema. O procedimento é necessário para o sistema gerar duas formas independentes de acesso à Área do Inscrito no site.

– Um Código do Trabalho será gerado ao primeiro autor que realizar a inscrição. Para que isso ocorra, no campo Tipo de Submissão, este primeiro autor deve escolher a opção Coautoria – primeira inscrição do trabalho – e seguir normalmente com sua inscrição. Ao final do processo, um Código do Trabalho será gerado. O segundo autor basta escolher a opção Coautoria – trabalho já inscrito – e informar o Código do Trabalho gerado ao primeiro.

Informações para a elaboração dos resumos:

Título do resumo em CAIXA ALTA e em negrito; fonte Times New Roman, tamanho 12; com nome do autor alinhado à direita e as seguintes informações abaixo: titulação, instituição e e-mail do autor.

Texto do resumo: fonte Times New Roman, tamanho 12, espaçamento simples; máximo de 15 linhas e 3 palavras-chave.


Instruções para a submissão dos trabalhos completos (não obrigatório):

– Os arquivos devem ser em formato .doc (“documento de Word”) e enviados exclusivamente por meio da Área de Inscrito, aqui no site do SNH.

– É possível enviar uma primeira versão do trabalho completo no ato de inscrição e uma versão definitiva para publicação nos anais entre os dias 26 de julho a 09 de agosto de 2021.

Instruções sobre a forma do texto completo:

1. Formato: A4;

2. Fonte: Times New Roman;

3. Tamanho: 12;

4. Espaçamento: 1,5;

5. Número máximo de 15 laudas e mínimo de 10 laudas, incluindo as referências;

6. Margens: superior e inferior 2,5; esquerda e direita 3,0;

7. Alinhamento: justificado;

8. Título em maiúsculo, centralizado e em negrito;

9. Nome do(s) autor(es) alinhado à direita depois de uma linha de espaço do título;

10. Vinculação institucional, logo abaixo do(s) nome(s) do(s) autor(es), também alinhado à direita;

11. Endereço eletrônico logo abaixo da vinculação institucional;

12. Citações com até 3 (três) linhas deverão vir no corpo do texto, sem itálico, com chamada autor-data entre parênteses. As citações com mais de 3 (três) linhas devem vir fora do corpo do texto, tamanho 10, com recuo de 4 cm;

13. Caso o trabalho contenha imagens, estas deverão estar em 300 dpi no formato TIF ou JPEG e colocadas no próprio texto.

14. As indicações bibliográficas no corpo do texto, colocadas entre parênteses, deverão se resumir ao último sobrenome do autor, à data de publicação da obra e à página, quando necessário (BURKE, 2005, p. 20). Se o nome do autor estiver citado no corpo do texto, indicam-se, entre parênteses, apenas a data e a página. Notas de rodapé, apenas em caráter de explicação;

15. As referências bibliográficas finais devem seguir as recomendações da ABNT.


Os esportes em Salvador e seus espaços

08/02/2021

Coriolano P. da Rocha Junior

 Cada modalidade requer, a partir de seu ordenamento legal, um conjunto de exigências em relação ao espaço e suas características, que são constituídas em função das especificidades da prática de cada esporte. Isto também deve ser pensado em associação aos usos pensados para a atividade esportiva em si e ao que se quer do local das ações, em associação as dinâmicas mais gerais de políticas urbanas, ou seja, pensar o espaço esportivo implica também pensar a cidade.

Pensar a prática esportiva implica ter de levar em conta a questão dos espaços para a vivência destas atividades, seus usos, sua localização na cidade, seus modos de construção. Enfim, ao analisar o esporte e sua história, somos levados a também tentar entender a questão de seus locais específicos de vivência.

 A Bahia e mais especificamente Salvador viu a experiência esportiva se instalar a partir de fins do século XIX, quando a cidade assistiu aos primórdios das vivências com os esportes acontecerem. A partir do início do século XX estas ações ganharam mais robustez e se alargaram, com a cidade vendo mais modalidades ocuparem a cena urbana.

Neste sentido, a partir dessa dinamização da prática dos esportes na cidade, podemos pensar que também se viu espaços específicos surgirem, para facilitar as vivências das pessoas interessadas, todavia, tal fato não se deu, ao menos, de forma estruturada, com ações públicas e associadas ao que se pensava para a capital baiana em seu ordenamento urbano.

 Já vimos também que em Salvador as iniciais experiências esportivas acontecerem e ganharam volume num tempo em que a cidade vivia, mais uma vez, seu desejo de buscar ares modernos, de operar reformas urbanas, em seus espaços públicos e também em seus costumes, onde os olhares se voltavam, como modelo, para países e cidades que já haviam orquestrado essas reformas e tinham nestas, pensado os esportes e aí, há de se imaginar que Salvador poderia fazer do mesmo jeito, mas não, a cidade não se pensou esportivamente, mesmo que estes já estivessem se dando na cena urbana da cidade.

 Quando olhamos para os primórdios esportivos da cidade encontramos essas realidades, que eram: a ausência de espaços públicos próprios a cada modalidade; a construção de espaços esportivos privados e o uso efetivos de locais da cidade, adaptados, para as vivências e isto, falando aqui das cenas com o críquete, o turfe, o remo, o futebol, a patinação, o tênis, o atletismo e o ciclismo. Cada uma destas modalidades experimentou uma relação diversa com os espaços de prática e seus usos na cidade.

 Ao longo de sua instituição, em Salvador, cada uma destas modalidades viveu situações diferentes em relação ao espaços e seus usos, indo dos comuns da cidade, adaptados, ao uso de locais privados para suas vivências. Também em relação aos locais de prática e a relação com a cidade e sua população houve diferença, onde nuns casos era aceito e até bem visto, noutros, era caso de polícia, sempre em função de quem estivesse ocupando a cena pública, se sua elite ou a seu estrato mais pobre.

Ao olharmos cada modalidade em específico, vamos encontrar as seguintes situações.

O críquete sempre foi jogado em praças da cidade, locais já existentes, de uso público, sem que houvesse uma condição específica para a modalidade. Rocha Junior e Santos (2015) nos mostram que os jogos ocorriam majoritariamente no Campo Grande, mas também com notícias de jogos na Fonte do Boi[1], na Quinta da Barra, no Campo da Pólvora[2] e no Largo da Madragoa[3].

O turfe conviveu com dois locais, ambos construídos de forma especial para sua prática e privados. A cidade viu a existência de dois hipódromos, que foram: o da Boa Viagem e o do Rio Vermelho.

Em Rocha Junior e Santos (2015) encontramos dados que falam da abertura de hipódromos na cidade. O primeiro foi o da Baia Viagem. Sobre este, o jornal A Locomotiva[4] dava notícias da abertura de um palco específico para a prática na cidade, na data de 30 de dezembro de 1888: “a inauguração do Hipódromo S. Salvador, que teve lugar no dia 30 passado, foi um verdadeiro acontecimento notável para os anais desta grande capital” e “terminamos dando os nossos parabéns ao público e ao empresário do Hipódromo”.

Adiante, Salvador viu surgir um outro espaço para o turfe, sendo este também privado, desta vez instalado no bairro do Rio Vermelho. O jornal Diário do Povo[5] apresentava assim a ideia da criação desse espaço: “No próximo domingo realizar-se-á a inauguração deste prado situado no aprazível arrabalde do Rio Vermelho” e “Leiam os nossos leitores os programas de corridas e não faltem a inauguração do Derby Clube”.

Sobre estes espaços, vale dizer que se localizavam distantes um do outro e que viveram, ao longo dos tempos, dificuldades de manutenção, por problemas de ordem financeira. Estes hipódromos chegaram a funcionar conjuntamente e também se alternaram como locais próprios do turfe. Nos dois casos, vale dizer, que na época de seu funcionamento, as duas localidades eram distantes da parte central da cidade e contaram com dificuldades de transporte.

Outra modalidade que alcançou sucesso e mesmo assim não viu um espaço próprio ser pensado para sua existência foi o remo, muito embora, seu local de disputa pudesse ser considerado apropriado ao esporte, foi sim, uma adaptação de um cenário natural da cidade.

De seu início até hoje, o remo foi e segue acontecendo na Enseada dos Tainheiros. Este local era, quando do início das atividades com o remo, um espaço de veraneio da cidade, também distante da região central, tendo as regatas usado um pedaço de mar, belo, aprazível, de águas calmas, que potencializavam o esporte, porém, nunca contou com uma efetiva intervenção, pública ou privada, de forma a qualificar como local ideal de prática do remo e também para a plateia.

Atividades como patinação e ciclismo nunca puderam contar com algo parecido com espaços específicos, tendo então seus praticantes de usar apenas as ruas e praças da cidade, qualquer que fosse a intenção da vivência, mesmo que dependesse de equipamentos, caros, notadamente na fase inicial do século XX. Locais como o Politeama, o Passeio Público e o bairro do Comércio eram relatados como os preferidos para estas atividades esportivas.

O tênis foi uma atividade esportiva que em Salvador se notabilizou por ser exercida somente em espaços fechados, inclusive residências e notadamente em clubes, sendo um criado com esse perfil. A modalidade, desde seu início se notabilizou como um esporte das elites econômicas e assim, foi vivida como um experiência de distinção.

Em algumas residências de famílias nobres da cidade foram construídas quadras, para que seus membros e convidadas e convidados pudessem viver o esporte. Além disso, no Rio Vermelho, junto a área onde existiu o Hipódromo se teve o esporte. Com mais notoriedade vimos exitir o Clube Baiano de Tênis, que se notabilizou como um espaço específico, mas privado, para o jogo do tênis, mais uma vez caracterizando que na cidade, os esportes aconteceram, mas sem que pudessem contar com a construção de espaços diretos.

Semelhante ao tênis foi a condição do atletismo, atividade que aconteceu de forma tímida em espaços públicos e que viu a construção de um clube próprio para sua prática, privado, que foi o Yankee Foot-ball Club, que inclusive chegou a criar uma pista. Vale dizer que o atletismo, além de tudo, teve sua prática associada a conceitos de saúde, sendo tratado como uma modalidade essencial ao desenvolvimento corporal de quem o executasse.

Por fim, falamos do futebol, uma modalidade que por suas características permite o uso de espaços variados. A prática em Salvador aconteceu em várias praças e ruas, seja isto de forma organizada ou livre, pode mesmo se dizer que a cidade foi “ocupada” pela experiência futebolística. Quando falamos da esfera competitiva, basicamente três espaços foram os usados, que foram: Campo da Pólvora, que na verdade era uma praça aberta da cidade; o Campo do Rio Vermelho, montado onde já existia o Hipódromo, privado e adaptado especificamente para o futebol e por fim, o Campo da Graça, também privado e que foi pensado especificamente para atender a modalidade e suas competições.

Com tudo isto, podemos analisar que o esporte em Salvador se constituiu sem a existência de espaços específicos, públicos, para qualquer modalidade, tendo sempre se aproveitado de lugares públicos ou naturais, adaptados as modalidades ou então, espaços privados foram construídos. Tal cena na cidade perdurou e mesmo perdura, sem que ainda hoje existam muitos espaços públicos espalhados pela cidade, se notabilizando aqueles que são para uso exclusivo da esfera competitiva, sem acesso popular.

Esta condição, no tempo, muito contribuiu para com que o esporte não alargasse suas vivências na cidade, mesmo estas tendo se iniciado em tempos já longínquos, já que poucos investimentos, ao longo dos anos foram executados, de forma a permitir o acesso da população, as práticas, em espaços próprios, sem depender do elemento competitivo ou de clubes ou outras ações privadas.


[1] Localizada no bairro do Rio Vermelho. Diário da Bahia, Salvador, 25 de janeiro de 1902, p. 1.

[2] Diário de Notícias, Salvador, 24 de março de 1903, p. 3 e 12 de setembro de 1903, p. 3.

[3] Diário da Bahia, Salvador, 11 de janeiro de 1902, p. 1. Localizado na Cidade Baixa, na área do bairro da Ribeira.

[4] A Locomotiva, Salvador, 15 de janeiro de 1889, p. 41.

[5] Diário do Povo, Salvador, 21 de maio de 1889, p. 1.

Referência:

ROCHA JUNIOR, Coriolano P. e SANTOS, Henrique Sena dos. Primórdios do esporte no Brasil: Salvador. Manaus: Reggo, 2016.


Uma Salvador e seus esportes iniciais

15/09/2020

Coriolano P. da Rocha Junior

Salvador foi capital do Brasil, todavia, no início do séc. XX vivia uma fase de decadência, num cenário em que a Bahia se viu afastada do poder, sem a influência tivera antes. No estado via-se um apelo ao seu passado de “glória” e isso, acontecia pelo fato desta unidade da federação se considerar “injustiçada” no novo cenário nacional, clamando para si a volta de uma época tida como gloriosa.

Para tentar instalar a modernidade, a Bahia, experimentou ações que buscaram reordenar o espaço urbano e os modos de vida dos cidadãos, num conjunto de mudanças socioeconômicas, culturais, estruturais e higienizantes, marcando um novo momento histórico, que buscou tornar a cidade de Salvador um espaço de novas vivências e práticas sociais.

De maneira geral, podemos afirmar que um projeto modernizador se assenta em alguns pontos básicos, que eram: construção e/ou alargamento de novas vias; construção de edifícios de arquitetura imponente e consequente derrubada de antigos prédios; a higienização da cidade; a criação do belo, do apreciável; a instalação de um comércio caro e de padrões europeus.

Foi durante o governo estadual de J.J. Seabra (1912-1916), que Salvador, viveu as ações que tentaram reordenar seu espaço urbano e adequar seus habitantes aos novos comportamentos e posturas da modernidade.

Ao analisar esse período e o quadro da Bahia, Risério (2004, p. 310), assevera que “sua capitalização era fraca, havia a enorme dificuldade de transporte, a carência de energia e, ainda, a hegemonia dos comerciantes, que não se interessavam tanto por investimentos em atividades produtivas”, ou seja, a Bahia destoava dos princípios aventados pela ideia de progresso. Salvador estava presa a uma lógica econômica que se não impedia, certamente limitava as aspirações por um maior crescimento, pelo progresso, não sendo ainda suficientemente “civilizada”, estando, portanto, fora dos padrões propalados pela modernidade carioca.

Nesse quadro, a elite soteropolitana aspirava mudanças e a bem da verdade, o que existia mesmo era uma tentativa de se criar uma cidade moderna e que exultava o progresso.

Leite (1996), ao falar sobre as aspirações modernizantes de Salvador, mostra que se tentava atender “a um interesse comum de certos segmentos elitistas da sociedade local, inconformados com a cidade em que viviam” (p.18). A cidade de Salvador, em sua aventura pela modernidade, teve de conviver com uma clara dificuldade que em muito limitava qualquer aspiração, a fragilidade econômica.

Se em Salvador o pretendido por Seabra e as elites locais na questão de uma nova urbanização não avançou como se esperava, no que é tocante aos hábitos, também parece não ter havido mudança significativa. Salvador sempre se destacou por possuir uma imensa população negra, herança do longo tempo de escravatura no país e que servia de mão de obra nas fazendas e casas grandes de toda a Bahia e de Salvador. No entanto, essa herança envergonhava a cidade, já que para a elite local, os negros, com seus hábitos e modos mais se assemelhavam a bárbaros e eram símbolos de uma cidade que não atingira padrões modernos. Era preciso embranquecer Salvador, acabar ou ao menos jogar para fora da cidade os rituais e práticas dessa população

Essa tentativa civilizadora de se acabar com festas, gestos, sons e práticas corporais dos negros não avançou muito, já que de certa forma, estavam internalizados na cidade, na população.

Assim, identificamos que existiu na cidade um sentimento e uma ansiedade por mudanças que fizessem com que nela se instaurasse o novo, numa tentativa de apagar o passado. Em ambas, a perspectiva foi de construção sem preocupações com manutenção ou preservação do patrimônio ou de qualquer outro vestígio que as ligasse ao passado. Fundamental nessa análise sobre Salvador é perceber o quanto a cultura foi um foco das ações modernizadoras, já que é nela que se apoiaram as perspectivas de mudanças do cotidiano da cidade, para além das paredes dos prédios e das vias públicas. Era preciso construir um novo povo, com uma nova cultura. Nesse caso, se acentuava o sentimento de inferioridade do brasileiro em relação ao europeu, ao francês, já que para a elite era lá que existia a cultura real e moderna.

O que se operou realmente foi uma reafirmação da cultura de elite, em detrimento da cultura popular, como uma forma de manipulação e afirmação dos detentores do controle econômico e político, assim, as reformas urbanas advindas da modernidade, são mesmo a configuração de um cenário que melhor representava esse princípio de dominação. Todavia, não podemos entender que esse mecanismo se deu de forma plena, sem uma contra ação dos rejeitados, que mesmo sob as forças do poder central e sofrendo as agruras de seu deslocamento e as violências contra um modo de cultura, souberam agir. Mesmo estando à margem das benesses da modernidade, essa população continuou a existir culturalmente, com seus hábitos e gostos, muita das vezes incorporando e ressignificando as práticas vividas pelas elites, que muita das vezes assumiu para si as práticas populares.

Foi nesse cenário e sob essas condições, que em Salvador, se iniciaram as “aventuras” da população com o esporte, sendo esse um dos elementos dessa que se mostrava como uma nova era, a modernidade.

Num contexto onde essa cidade passava pela experiência da modernidade, tentando conjugar reformas urbanas, mudanças de comportamento, construção de novos hábitos e gestar uma nova relação do homem com a cidade, com o espaço, com o tempo, com o outro e consigo próprio, o esporte surgiu como uma das novas formas de vivência, como uma prática social representativa da modernidade. Pode-se atribuir isso ao fato do esporte incorporar elementos que simbolizavam as aspirações por mudanças, assumindo papéis que caracterizaram modificações nas formas de agir e de circular do homem na sociedade, articulando em sua prática elementos como: maior exposição do corpo, movimento, risco e desafio, fatores que significavam uma busca pelo prazer e por uma excitação inovadora, sendo também uma forma das cidades se apropriarem de mais um elemento da modernidade.

Dessa forma, compreendemos que a instauração de todo um conjunto de mudanças nas cidades, ao mesmo tempo em que proporcionou e motivou as pessoas à prática esportiva, também foi por este influenciado, ou seja, a noção de que pessoas e cidades deveriam ser ativas, trabalhar por melhorias, valer-se dos avanços científicos, acelerando suas percepções e relações, significou que a modernidade e seu ideário foram encampados, seja pelas obras na nova cidade, seja pelo movimento no novo ser humano. Era preciso engajar-se em todas as mudanças, identificando-se com o novo.

Para ser moderno, era necessário superar a imagem de um homem lento, sedentário, assim como a cidade deveria deixar de ser antiquada, colonial.

Para falar da presença dos esportes em terras soteropolitanas, tomaremos como elementos de análise, os esportes que tiveram, por alguma razão, uma menor circulação e um deles, foi o críquete. 

O críquete foi uma prática esportiva que aportou em terras brasileiras trazida por ingleses (em meados do século XIX) e em Salvador, alguns clubes foram fundados para sua prática, que acontecia normalmente no Campo Grande (LEAL, 2002), embora também haja notícias de jogos na Fonte do Boi[1] e Quinta da Barra (GAMA, 1923), no Campo da Pólvora[2] e no Largo da Madragoa[3].

Em Salvador, como em outras cidades, essa prática teve vida curta, ficando basicamente restrita aos ingleses e poucos brasileiros. Clubes foram fundados, mas logo mudaram suas bases de ação, a exemplo do Club de Cricket Victoria, fundado por brasileiros em maio de 1899, que passou a se chamar Sport Club Victoria, assumindo o futebol como uma prática, e ainda o Club Internacional de Cricket, fundado por ingleses em novembro de 1899.

Além do críquete, outros esportes existiram, só que com menor impacto na composição do cenário esportivo de Salvador. Foram eles: a natação, a patinação e o ciclismo, esportes que traziam como experiência maior, justamente, a noção de velocidade, desafio e superação de limites, aspectos importantes na vivência da modernidade.

Esses são exemplos de atividades corporais que tiveram seu início vinculado à ideia de desafio e superação de limites, explorando os espaços livres das cidades, implicando uma nova relação como ambiente e ainda mais, alguns desses faziam uso de implementos e equipamentos, que demarcavam uma nova tecnologia.

Em Salvador, as atividades de natação, até mesmo pela inexistência de piscinas, aconteciam no mar e quase sempre sob a forma de desafios, por vezes de longas distâncias. Via-se que por vezes, a natação aparecia como uma atração de festas, notadamente as do Rio Vermelho. O porto de Salvador, que constou no projeto de Seabra para melhoramentos da cidade, teve entre seus funcionários, um clube chamado de Sport Club Docas[4] que promoveu “festas de natação” para comemorar as datas de inauguração do novo porto de Salvador. Tal fato demonstra a vinculação entre a prática esportiva e a modernidade, visto que um celebrava o outro.

Assim, em Salvador, competições mais estruturadas de natação estiveram a cargo da Federação de Regatas, que as promovia entre seus sócios, mas também com espaço para não associados. A natação passava por uma fase de implantação, uma novidade que era apresentada e, portanto, ainda demoraria a ser assimilada pela população e só tempos depois ganhou mais status e estrutura, avançando acentuadamente após a construção de piscinas.

Sobre a patinação, em Salvador, é possível perceber que entre 1912 e 1916 esta atividade despertou razoável interesse. Nesse período existiram clubes de patinação (Internacional Club de Patinagem, Sport Club Colombo de Ciclo-Patinação) e eventos foram realizados na cidade, basicamente nas ruas do Bairro do Comércio ou em passeios do Centro Histórico ao Rio Vermelho. Esses eventos, na maioria das vezes, assumiam um caráter competitivo, cujos participantes eram distribuídos por páreos (como no turfe), em função das distâncias a serem percorridas. Em Salvador, na maior parte das vezes, esse esporte foi competitivo e organizado em clubes específicos, mesmo que em lugares improvisados, porém, também existiu como divertimento nas festas dos diversos outros clubes, que não apenas os de patinação.

O ciclismo foi uma atividade esportiva conhecida desde fins do século XIX, uma “novidade” que a cidade aprendia a lidar, assim como a própria modernidade. O ciclismo e a bicicleta, mais que tudo, têm em si a essência da velocidade, do risco e da tecnologia. Em Salvador jornais noticiavam “garagens” e aluguel de bicicletas, sempre importadas, o que nos faz entender, que já era então algo conhecido na cidade, mesmo que pouco vivido, já que importadas, não faziam parte do cotidiano da população.

Em terras baianas, o ciclismo pareceu acontecer sob a mesma estrutura dos clubes de patinação. Era fato comum que houvesse atividades simultâneas das duas práticas, desenvolvidas pelos mesmos clubes nos mesmos espaços e, aqui, falamos do período entre 1912 e 1916. As corridas eram desenvolvidas para velocidade, sendo mais comuns no Comércio e no Centro Histórico ou para resistência, com deslocamentos até o Rio Vermelho e também faziam parte das festividades promovidas pelos clubes.

O Jornal de Notícias[5] divulgou o que dizia ser a primeira corrida de bicicletas da Bahia, realizada no bairro do Canela. Nos jornais, eram comuns notas com as provas a serem disputadas, clubes, participantes e premiação, além do local em si. Dias após as provas, eram noticiados os vencedores e seus tempos. Em Salvador não construiu (mesmo na atualidade) um espaço específico para as provas de ciclismo, mas soteropolitanos assumiram a bicicleta, por mais que a cidade, até hoje, por sua geografia e estrutura urbana, dificulte seu uso.

Por fim, podemos afirmar que Salvador viveu experiências com o esporte, associando-o as novas configurações da cidade, a partir de seu projeto de modernidade. O esporte era considerado uma atividade que simbolizava novos tempos, um novo homem para um novo espaço urbano

REFERÊNCIAS

GAMA, Mario. Como os “sports” se iniciaram e progrediram na Bahia. In: Diário oficial do Estado da Bahia, Edição Especial do Centenário. Salvador: [s.n], 1923.

LEAL, Geraldo da Costa. Perfis urbanos da Bahia: os bondes, a demolição da Sé, o futebol e os gallegos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2002.

LEITE, Rinaldo C. N. E a Bahia civiliza-se… ideais de civilização e cenas de anti-civilidade em um contexto de modernização urbana 1912-1916. 1996. Dissertação (mestrado em História). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, UFBA, Salvador, 1996.

RISÉRIO, Antonio. Uma história da cidade da Bahia. 2ªed. Rio de Janeiro: Versal, 2004.


[1] Localizado no bairro do Rio Vermelho. Jornal Diário da Bahia, 25/01/1902.

[2] Jornal Diário de Notícias, 24/03/1903 e 12/09/1903.

[3] Jornal Diário da Bahia, 11/01/1902. Localizado na Cidade Baixa, na área do bairro da Ribeira.

[4] Jornal Diário de Notícias, 11/05/1915.

[5] Jornal de Notícias, 23/04/1912.


Um ídolo no esporte baiano: Popó

13/04/2020

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

Neste blog tenho me ocupado de abordar aspectos referentes a história do esporte e das práticas corporais na Bahia. Em tempos de distanciamento social, em meio a uma pandemia que nos assola e nos faz revisitar e repensar nossos modos de vida, a opção de hoje foi escrever sobre um assunto que toca a todas as pessoas, de maneiras diferentes, claro, mas que está conectada a sensações e emoções que o esporte nos traz, no caso, o futebol, mais especificamente a figura do ídolo nesta modalidade e isso, na tentativa de ter mais leveza, em tempos de enormes dificuldades.

Na cidade da Bahia (aqui me refiro a Salvador), o futebol teve início logo que a localidade começou a experimentar as vivências esportivas em seu cotidiano, tendo rapidamente chamado a atenção da população, tanto sob o aspecto positivo, quando sob o negativo, ou seja, a modalidade rapidamente foi alçada a principal prática, fato que não se deu sem algum tipo de oposição, mas que também gerou adoração e por extensão, criou ídolos.

Se fala que na Bahia Zuza Ferreira foi o responsável pela introdução do futebol. Essa posição representa a ideia de um mito fundador, de simbolizar numa pessoa, a responsabilidade social de ser a expressão de uma prática social. Rocha Junior (2011) afirma que

…entendemos que figuras como (…) Zuza contribuíram diretamente para a sistematização do futebol. Entretanto, é difícil atribuir a eles, isoladamente, o “nascimento” do futebol (…) em Salvador, pois este resultou de um complexo processo de desenvolvimento, com realidades específicas… (p.69).

Assim, entendemos que a modalidade faz parte de um complexo tecido social, que envolve sua prática, sua representação, sua organização, seus espaços, seus praticantes e sua apropriação. Daí, na Bahia, assim como em outras cidades, o futebol foi parte de um conjunto de práticas sociais que tentavam dar a Salvador e ao Estado, uma nova forma de vivenciar o cotidiano e suas expressões.

O futebol e sua prática, para a Bahia, representavam o novo, tinha nele a marca de uma ação que era vivida na Europa, ou seja, ele era carregado de marcas que o associavam a ideia de uma nova sociedade, que queria se fazer moderna. Todavia, assim como era e mesmo é a própria sociedade baiana, também o futebol viveu experiências sociais diferentes, a partir do estrato social que com ele tinha contato.

Se praticado por uma elite política e econômica, ele simbolizava ares de civilidade, quando jogado pelas classes populares, era tido como algo inadequado, impróprio, grotesco e digno de ações policiais repressoras. Assim era ou é a cidade e assim se constituiu o futebol, com as marcas de uma divisão de classes, sendo, portanto, uma significativa forma de melhor entender a sociedade e suas incongruências e recortes. Exemplos disto podemos ver abaixo:

Em Salvador, a aceitação do futebol como um esporte das elites se vê em passagens de jornais como esta:

correu brilhante e animadamente a correcta diversão deste tão bemquisto divertimento que entre nós tanto acolhimento tem adquirido. Ao signal dado, os clubes Victória e São Paulo Bahia principaram os renhidos ataques, tendo sempre, no primeiro tempo, o São Paulo Bahia se defendido heroicamente, no segundo tempo, porem, os lutadores do Victoria conseguiram fazer dos pontos, sendo vivamente aclamados.[1]

Em contrapartida a essa aceitação da prática de futebol, também encontramos notícias falando mal do esporte, quando este era jogado entre populares. Vejamos, por exemplo, a nota publicada em A Tarde:

moradores à Rua Ferreira França, ao Polytheama, estão inhibidos de chegar as jannelas das respectivas residências, porque garotos, de manhã a noite, jogam bola, com uma gritaria infernal, com gestos e palavras obscenas. Os guarda civis que ali fazem seu quarto de policiamento, não tem ouvidos para ouvir taes offensas a moral e nem energia para cohibilos ao jogo perene.[2]

Foi nesse meio, nesse embate de compreensões e imagens sociais do esporte, que a Bahia viu surgir aquele que é tido como seu primeiro ídolo esportivo, a pessoa que primeiro carregou plateia. Seu nome era Apolinário Santana, ou simplesmente, Popó.

É sabido o potencial que os esportes tem de gerar paixão, seja espontânea ou criada. Na Bahia, o futebol, mesmo não tendo sido a primeira experiência esportiva, já que outras modalidades foram praticadas antes, foi a que logo alcançou o interesse e coração das pessoas, de todos os estratos sociais e por isso, veio dele o surgimento de um ídolo, alguém capaz de levar as pessoas aos campos (a Bahia ainda não tinha um estádio).

Mas afinal, que futebol era esse o baiano? Quem era Apolinário Santana?

Salvador viu surgir entre fins do século XIX e início do XX, equipes que logo aderiram ao futebol após sua fundação e outras, já fundadas para a prática do esporte. Na cidade, durante longos anos, não existiu um estádio de futebol. Sua vivência ocorria em campos espalhados pela cidade, sendo os mais notáveis o Campo da Pólvora e o Campo do Rio Vermelho.

Em 1904 foi fundada uma entidade organizadora, que foi a Liga Baiana de Sports Terrestres (esta vinculada a elite local) e já em 1905 ocorreu o primeiro campeonato, que foi organizado por esta liga até 1912, sendo a partir de 1913 tocado por outra entidade, a Liga Brazileira de Sports Terrestres (esta mais popular).

Com isso, como vimos, desde seu início o futebol em Salvador mobilizou interesse de todas as classes, tendo vivido adesões e resistências na sociedade, mas logo se firmou como a modalidade de maior interesse e assim, logo as pessoas, mesmo sem estarem nos campeonatos foram as ruas para jogarem seus “babas” e foi neles que surgiu o Popó e isto, no Rio Vermelho, o arrabalde esportivo da cidade.

Nascido em 1902 e falecido em 1955, Popó iniciou suas peripécias com a bola no bairro do Rio Vermelho, local onde nasceu e que contou com vários times de futebol ao longo dos tempos e que sempre teve vários espaços para jogos de futebol. Desde o começo ele se destacava, demonstrando habilidade e qualidade física e técnica, que o distinguiam dos demais praticantes, fato este que fez com que logo se chamasse atenção para seu jogo.

Popó começou cedo a jogar nas equipes de futebol de Salvador e ao todo esteve em onze equipes da cidade, que foram: Sul América, Fluminense, Bahiano de Tênis, Internacional, São Bento, Auto Bahia, Botafogo, Ypiranga, São Cristovão, Royal e S.C.Brasil. Destes, por duas oportunidades jogou pelo Botafogo e pelo Ypiranga (GOMES, 1999). Popó ainda esteve no futebol alagoano (sobre esta passagem não falaremos aqui).

Esta movimentada vida futebolística de Popó nos dá margem para várias interpretações. Uma é a de que ele realmente representava a figura de um jogador que era desejado pelas equipes e seus torcedores, outra, nos faz compreender uma ideia de amadorismo no esporte local, que o fazia e mesmo lhe dava a oportunidade de circular por vários clubes e ainda, confirma nele a condição de ídolo, já que foi pretendido por clubes diferentes, de variados bairros da cidade.

Esta “circulação”, ou melhor, transferência do jogador pelos clubes era noticiada com atenção pelos jornais, a exemplo da edição do A Manhã (08 de maio de 1920). Como esta, outras tantas vezes os jornais deram destaque a mudança de clubes por Popó. Também se notava essa mudança dos clubes, nas escalações trazidas pelas páginas dos periódicos locais.

Outro aspecto notável de Popó é que ele foi capaz de atuar em diversas posições. Tal condição se observa nos jornais, que traziam as escalações e as descrições dos jogos, que o mostram da defesa ao ataque. Ele, desde criança se caracterizou também pelo tipo físico, fato que o fez iniciar nos campeonatos ainda quando adolescente. Abaixo vemos uma figura do astro[3].

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Popó também jogou em certames de caráter nacional pela seleção da Bahia. Tal condição o fez ser reconhecido como um grande jogador por jornais cariocas, que viam nele um grande talento, como a exemplo do O Globo Sportivo (13 de janeiro de 1950), em matéria que se refere ao campeonato de 1934, vencido pela Bahia. Em edição com data não identificada, de 1952, o jornal carioca O Globo Sportivo traz o seguinte texto:

Não devemos esquecer o maior centro-medio de todos os tempos surgido ou consagrado fora do Rio e São Paulo: o célebre Popó, da Bahia. Jogador fenomenal, cuja infelicidade foi unicamente não ter sido atraído por nenhum grande clube das duas capitais. Grande craque foi Popó, com a grande vantagem de ser um jogador “7” instrumentos , pois atuava em qualquer posição (p. 21).

Outra forma de reconhecer seu valor, mesmo em âmbito nacional como futebolista, foi que o Jornal O Globo (RJ), noticiou no dia 20 de setembro de 1955 sua morte. Na página 12, uma nota escrita em letras maiúsculas e com uma foto tinha o título – Morreu Popó -. O texto fazia menção a sua destacada qualidade técnica, ao fato de ter jogado por vários clubes, em diversas posições e ao título brasileiro de 1934 e ainda fala do luto oficial decretado a altura, pela Federação Baiana de Futebol. Estas matérias dão bem a dimensão do que foi Popó como jogador, que mesmo sem ter circulado nos chamados grandes centros, foi reconhecido como um grande jogador. Abaixo uma outra imagem de Popó, com uniforme do S.C. Brasil,  de O Imparcial (19 de dezembro de 1935, p.7).

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Enfim, Popó foi um jogador de talento, um homem capaz de atuar em diferentes funções, com qualidade física destacada, um homem de gols e que viveu um futebol onde o jogo ainda não gerava renda substancial a quem jogava, um homem que explorou o desejo pelo jogo, numa Bahia dividida socialmente, com marcas de racismo, segregação e segmentação social.

A idolatria por Popó foi além de seu tempo de jogador, tanto que fãs fundaram o Popó Bahiano, que chegou a jogar no campeonato local. Tal clube teve a intenção, de já pelo nome homenagear o ídolo baiano. Ídolo, que fora do futebol (parou de jogar em 1937) viveu as amarguras de quem tem de abandonar seu jogo (parou de jogar em 1936) e de não ter podido dele extrair formas melhores de vida. Popó foi um exemplo do futebol e suas paixões, um jogador que viveu as expressões e as dores máximas de uma prática que movimenta multidões e, por tanto, tem significados múltiplos.

 

Referências:

PIRES, Aloildo Gomes. Popó o craque do povo: a trajetória de Apolinário Santana. SAlvador: EPS, 1999.

ROCHA JUNIOR, Coriolano P da. Esporte e modernidade: uma análise comparada da experiência esportiva no Rio de Janeiro e na Bahia nos anos finais do século XIX e iniciais do século XX. Tese (Doutorado em História Comparada) – Instituto de História – Programa de Pós-Graduação em História Comparada, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.

[1]Correio do Brasil, 11 de agosto de 1903, p.1.

[2]A Tarde, 08 de dezembro de 1914, p.2.

[3] O Globo, 20 de setembro de 1955, p. 12.