Uma Salvador e seus esportes iniciais

15/09/2020

Coriolano P. da Rocha Junior

Salvador foi capital do Brasil, todavia, no início do séc. XX vivia uma fase de decadência, num cenário em que a Bahia se viu afastada do poder, sem a influência tivera antes. No estado via-se um apelo ao seu passado de “glória” e isso, acontecia pelo fato desta unidade da federação se considerar “injustiçada” no novo cenário nacional, clamando para si a volta de uma época tida como gloriosa.

Para tentar instalar a modernidade, a Bahia, experimentou ações que buscaram reordenar o espaço urbano e os modos de vida dos cidadãos, num conjunto de mudanças socioeconômicas, culturais, estruturais e higienizantes, marcando um novo momento histórico, que buscou tornar a cidade de Salvador um espaço de novas vivências e práticas sociais.

De maneira geral, podemos afirmar que um projeto modernizador se assenta em alguns pontos básicos, que eram: construção e/ou alargamento de novas vias; construção de edifícios de arquitetura imponente e consequente derrubada de antigos prédios; a higienização da cidade; a criação do belo, do apreciável; a instalação de um comércio caro e de padrões europeus.

Foi durante o governo estadual de J.J. Seabra (1912-1916), que Salvador, viveu as ações que tentaram reordenar seu espaço urbano e adequar seus habitantes aos novos comportamentos e posturas da modernidade.

Ao analisar esse período e o quadro da Bahia, Risério (2004, p. 310), assevera que “sua capitalização era fraca, havia a enorme dificuldade de transporte, a carência de energia e, ainda, a hegemonia dos comerciantes, que não se interessavam tanto por investimentos em atividades produtivas”, ou seja, a Bahia destoava dos princípios aventados pela ideia de progresso. Salvador estava presa a uma lógica econômica que se não impedia, certamente limitava as aspirações por um maior crescimento, pelo progresso, não sendo ainda suficientemente “civilizada”, estando, portanto, fora dos padrões propalados pela modernidade carioca.

Nesse quadro, a elite soteropolitana aspirava mudanças e a bem da verdade, o que existia mesmo era uma tentativa de se criar uma cidade moderna e que exultava o progresso.

Leite (1996), ao falar sobre as aspirações modernizantes de Salvador, mostra que se tentava atender “a um interesse comum de certos segmentos elitistas da sociedade local, inconformados com a cidade em que viviam” (p.18). A cidade de Salvador, em sua aventura pela modernidade, teve de conviver com uma clara dificuldade que em muito limitava qualquer aspiração, a fragilidade econômica.

Se em Salvador o pretendido por Seabra e as elites locais na questão de uma nova urbanização não avançou como se esperava, no que é tocante aos hábitos, também parece não ter havido mudança significativa. Salvador sempre se destacou por possuir uma imensa população negra, herança do longo tempo de escravatura no país e que servia de mão de obra nas fazendas e casas grandes de toda a Bahia e de Salvador. No entanto, essa herança envergonhava a cidade, já que para a elite local, os negros, com seus hábitos e modos mais se assemelhavam a bárbaros e eram símbolos de uma cidade que não atingira padrões modernos. Era preciso embranquecer Salvador, acabar ou ao menos jogar para fora da cidade os rituais e práticas dessa população

Essa tentativa civilizadora de se acabar com festas, gestos, sons e práticas corporais dos negros não avançou muito, já que de certa forma, estavam internalizados na cidade, na população.

Assim, identificamos que existiu na cidade um sentimento e uma ansiedade por mudanças que fizessem com que nela se instaurasse o novo, numa tentativa de apagar o passado. Em ambas, a perspectiva foi de construção sem preocupações com manutenção ou preservação do patrimônio ou de qualquer outro vestígio que as ligasse ao passado. Fundamental nessa análise sobre Salvador é perceber o quanto a cultura foi um foco das ações modernizadoras, já que é nela que se apoiaram as perspectivas de mudanças do cotidiano da cidade, para além das paredes dos prédios e das vias públicas. Era preciso construir um novo povo, com uma nova cultura. Nesse caso, se acentuava o sentimento de inferioridade do brasileiro em relação ao europeu, ao francês, já que para a elite era lá que existia a cultura real e moderna.

O que se operou realmente foi uma reafirmação da cultura de elite, em detrimento da cultura popular, como uma forma de manipulação e afirmação dos detentores do controle econômico e político, assim, as reformas urbanas advindas da modernidade, são mesmo a configuração de um cenário que melhor representava esse princípio de dominação. Todavia, não podemos entender que esse mecanismo se deu de forma plena, sem uma contra ação dos rejeitados, que mesmo sob as forças do poder central e sofrendo as agruras de seu deslocamento e as violências contra um modo de cultura, souberam agir. Mesmo estando à margem das benesses da modernidade, essa população continuou a existir culturalmente, com seus hábitos e gostos, muita das vezes incorporando e ressignificando as práticas vividas pelas elites, que muita das vezes assumiu para si as práticas populares.

Foi nesse cenário e sob essas condições, que em Salvador, se iniciaram as “aventuras” da população com o esporte, sendo esse um dos elementos dessa que se mostrava como uma nova era, a modernidade.

Num contexto onde essa cidade passava pela experiência da modernidade, tentando conjugar reformas urbanas, mudanças de comportamento, construção de novos hábitos e gestar uma nova relação do homem com a cidade, com o espaço, com o tempo, com o outro e consigo próprio, o esporte surgiu como uma das novas formas de vivência, como uma prática social representativa da modernidade. Pode-se atribuir isso ao fato do esporte incorporar elementos que simbolizavam as aspirações por mudanças, assumindo papéis que caracterizaram modificações nas formas de agir e de circular do homem na sociedade, articulando em sua prática elementos como: maior exposição do corpo, movimento, risco e desafio, fatores que significavam uma busca pelo prazer e por uma excitação inovadora, sendo também uma forma das cidades se apropriarem de mais um elemento da modernidade.

Dessa forma, compreendemos que a instauração de todo um conjunto de mudanças nas cidades, ao mesmo tempo em que proporcionou e motivou as pessoas à prática esportiva, também foi por este influenciado, ou seja, a noção de que pessoas e cidades deveriam ser ativas, trabalhar por melhorias, valer-se dos avanços científicos, acelerando suas percepções e relações, significou que a modernidade e seu ideário foram encampados, seja pelas obras na nova cidade, seja pelo movimento no novo ser humano. Era preciso engajar-se em todas as mudanças, identificando-se com o novo.

Para ser moderno, era necessário superar a imagem de um homem lento, sedentário, assim como a cidade deveria deixar de ser antiquada, colonial.

Para falar da presença dos esportes em terras soteropolitanas, tomaremos como elementos de análise, os esportes que tiveram, por alguma razão, uma menor circulação e um deles, foi o críquete. 

O críquete foi uma prática esportiva que aportou em terras brasileiras trazida por ingleses (em meados do século XIX) e em Salvador, alguns clubes foram fundados para sua prática, que acontecia normalmente no Campo Grande (LEAL, 2002), embora também haja notícias de jogos na Fonte do Boi[1] e Quinta da Barra (GAMA, 1923), no Campo da Pólvora[2] e no Largo da Madragoa[3].

Em Salvador, como em outras cidades, essa prática teve vida curta, ficando basicamente restrita aos ingleses e poucos brasileiros. Clubes foram fundados, mas logo mudaram suas bases de ação, a exemplo do Club de Cricket Victoria, fundado por brasileiros em maio de 1899, que passou a se chamar Sport Club Victoria, assumindo o futebol como uma prática, e ainda o Club Internacional de Cricket, fundado por ingleses em novembro de 1899.

Além do críquete, outros esportes existiram, só que com menor impacto na composição do cenário esportivo de Salvador. Foram eles: a natação, a patinação e o ciclismo, esportes que traziam como experiência maior, justamente, a noção de velocidade, desafio e superação de limites, aspectos importantes na vivência da modernidade.

Esses são exemplos de atividades corporais que tiveram seu início vinculado à ideia de desafio e superação de limites, explorando os espaços livres das cidades, implicando uma nova relação como ambiente e ainda mais, alguns desses faziam uso de implementos e equipamentos, que demarcavam uma nova tecnologia.

Em Salvador, as atividades de natação, até mesmo pela inexistência de piscinas, aconteciam no mar e quase sempre sob a forma de desafios, por vezes de longas distâncias. Via-se que por vezes, a natação aparecia como uma atração de festas, notadamente as do Rio Vermelho. O porto de Salvador, que constou no projeto de Seabra para melhoramentos da cidade, teve entre seus funcionários, um clube chamado de Sport Club Docas[4] que promoveu “festas de natação” para comemorar as datas de inauguração do novo porto de Salvador. Tal fato demonstra a vinculação entre a prática esportiva e a modernidade, visto que um celebrava o outro.

Assim, em Salvador, competições mais estruturadas de natação estiveram a cargo da Federação de Regatas, que as promovia entre seus sócios, mas também com espaço para não associados. A natação passava por uma fase de implantação, uma novidade que era apresentada e, portanto, ainda demoraria a ser assimilada pela população e só tempos depois ganhou mais status e estrutura, avançando acentuadamente após a construção de piscinas.

Sobre a patinação, em Salvador, é possível perceber que entre 1912 e 1916 esta atividade despertou razoável interesse. Nesse período existiram clubes de patinação (Internacional Club de Patinagem, Sport Club Colombo de Ciclo-Patinação) e eventos foram realizados na cidade, basicamente nas ruas do Bairro do Comércio ou em passeios do Centro Histórico ao Rio Vermelho. Esses eventos, na maioria das vezes, assumiam um caráter competitivo, cujos participantes eram distribuídos por páreos (como no turfe), em função das distâncias a serem percorridas. Em Salvador, na maior parte das vezes, esse esporte foi competitivo e organizado em clubes específicos, mesmo que em lugares improvisados, porém, também existiu como divertimento nas festas dos diversos outros clubes, que não apenas os de patinação.

O ciclismo foi uma atividade esportiva conhecida desde fins do século XIX, uma “novidade” que a cidade aprendia a lidar, assim como a própria modernidade. O ciclismo e a bicicleta, mais que tudo, têm em si a essência da velocidade, do risco e da tecnologia. Em Salvador jornais noticiavam “garagens” e aluguel de bicicletas, sempre importadas, o que nos faz entender, que já era então algo conhecido na cidade, mesmo que pouco vivido, já que importadas, não faziam parte do cotidiano da população.

Em terras baianas, o ciclismo pareceu acontecer sob a mesma estrutura dos clubes de patinação. Era fato comum que houvesse atividades simultâneas das duas práticas, desenvolvidas pelos mesmos clubes nos mesmos espaços e, aqui, falamos do período entre 1912 e 1916. As corridas eram desenvolvidas para velocidade, sendo mais comuns no Comércio e no Centro Histórico ou para resistência, com deslocamentos até o Rio Vermelho e também faziam parte das festividades promovidas pelos clubes.

O Jornal de Notícias[5] divulgou o que dizia ser a primeira corrida de bicicletas da Bahia, realizada no bairro do Canela. Nos jornais, eram comuns notas com as provas a serem disputadas, clubes, participantes e premiação, além do local em si. Dias após as provas, eram noticiados os vencedores e seus tempos. Em Salvador não construiu (mesmo na atualidade) um espaço específico para as provas de ciclismo, mas soteropolitanos assumiram a bicicleta, por mais que a cidade, até hoje, por sua geografia e estrutura urbana, dificulte seu uso.

Por fim, podemos afirmar que Salvador viveu experiências com o esporte, associando-o as novas configurações da cidade, a partir de seu projeto de modernidade. O esporte era considerado uma atividade que simbolizava novos tempos, um novo homem para um novo espaço urbano

REFERÊNCIAS

GAMA, Mario. Como os “sports” se iniciaram e progrediram na Bahia. In: Diário oficial do Estado da Bahia, Edição Especial do Centenário. Salvador: [s.n], 1923.

LEAL, Geraldo da Costa. Perfis urbanos da Bahia: os bondes, a demolição da Sé, o futebol e os gallegos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2002.

LEITE, Rinaldo C. N. E a Bahia civiliza-se… ideais de civilização e cenas de anti-civilidade em um contexto de modernização urbana 1912-1916. 1996. Dissertação (mestrado em História). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, UFBA, Salvador, 1996.

RISÉRIO, Antonio. Uma história da cidade da Bahia. 2ªed. Rio de Janeiro: Versal, 2004.


[1] Localizado no bairro do Rio Vermelho. Jornal Diário da Bahia, 25/01/1902.

[2] Jornal Diário de Notícias, 24/03/1903 e 12/09/1903.

[3] Jornal Diário da Bahia, 11/01/1902. Localizado na Cidade Baixa, na área do bairro da Ribeira.

[4] Jornal Diário de Notícias, 11/05/1915.

[5] Jornal de Notícias, 23/04/1912.


Um ídolo no esporte baiano: Popó

13/04/2020

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

Neste blog tenho me ocupado de abordar aspectos referentes a história do esporte e das práticas corporais na Bahia. Em tempos de distanciamento social, em meio a uma pandemia que nos assola e nos faz revisitar e repensar nossos modos de vida, a opção de hoje foi escrever sobre um assunto que toca a todas as pessoas, de maneiras diferentes, claro, mas que está conectada a sensações e emoções que o esporte nos traz, no caso, o futebol, mais especificamente a figura do ídolo nesta modalidade e isso, na tentativa de ter mais leveza, em tempos de enormes dificuldades.

Na cidade da Bahia (aqui me refiro a Salvador), o futebol teve início logo que a localidade começou a experimentar as vivências esportivas em seu cotidiano, tendo rapidamente chamado a atenção da população, tanto sob o aspecto positivo, quando sob o negativo, ou seja, a modalidade rapidamente foi alçada a principal prática, fato que não se deu sem algum tipo de oposição, mas que também gerou adoração e por extensão, criou ídolos.

Se fala que na Bahia Zuza Ferreira foi o responsável pela introdução do futebol. Essa posição representa a ideia de um mito fundador, de simbolizar numa pessoa, a responsabilidade social de ser a expressão de uma prática social. Rocha Junior (2011) afirma que

…entendemos que figuras como (…) Zuza contribuíram diretamente para a sistematização do futebol. Entretanto, é difícil atribuir a eles, isoladamente, o “nascimento” do futebol (…) em Salvador, pois este resultou de um complexo processo de desenvolvimento, com realidades específicas… (p.69).

Assim, entendemos que a modalidade faz parte de um complexo tecido social, que envolve sua prática, sua representação, sua organização, seus espaços, seus praticantes e sua apropriação. Daí, na Bahia, assim como em outras cidades, o futebol foi parte de um conjunto de práticas sociais que tentavam dar a Salvador e ao Estado, uma nova forma de vivenciar o cotidiano e suas expressões.

O futebol e sua prática, para a Bahia, representavam o novo, tinha nele a marca de uma ação que era vivida na Europa, ou seja, ele era carregado de marcas que o associavam a ideia de uma nova sociedade, que queria se fazer moderna. Todavia, assim como era e mesmo é a própria sociedade baiana, também o futebol viveu experiências sociais diferentes, a partir do estrato social que com ele tinha contato.

Se praticado por uma elite política e econômica, ele simbolizava ares de civilidade, quando jogado pelas classes populares, era tido como algo inadequado, impróprio, grotesco e digno de ações policiais repressoras. Assim era ou é a cidade e assim se constituiu o futebol, com as marcas de uma divisão de classes, sendo, portanto, uma significativa forma de melhor entender a sociedade e suas incongruências e recortes. Exemplos disto podemos ver abaixo:

Em Salvador, a aceitação do futebol como um esporte das elites se vê em passagens de jornais como esta:

correu brilhante e animadamente a correcta diversão deste tão bemquisto divertimento que entre nós tanto acolhimento tem adquirido. Ao signal dado, os clubes Victória e São Paulo Bahia principaram os renhidos ataques, tendo sempre, no primeiro tempo, o São Paulo Bahia se defendido heroicamente, no segundo tempo, porem, os lutadores do Victoria conseguiram fazer dos pontos, sendo vivamente aclamados.[1]

Em contrapartida a essa aceitação da prática de futebol, também encontramos notícias falando mal do esporte, quando este era jogado entre populares. Vejamos, por exemplo, a nota publicada em A Tarde:

moradores à Rua Ferreira França, ao Polytheama, estão inhibidos de chegar as jannelas das respectivas residências, porque garotos, de manhã a noite, jogam bola, com uma gritaria infernal, com gestos e palavras obscenas. Os guarda civis que ali fazem seu quarto de policiamento, não tem ouvidos para ouvir taes offensas a moral e nem energia para cohibilos ao jogo perene.[2]

Foi nesse meio, nesse embate de compreensões e imagens sociais do esporte, que a Bahia viu surgir aquele que é tido como seu primeiro ídolo esportivo, a pessoa que primeiro carregou plateia. Seu nome era Apolinário Santana, ou simplesmente, Popó.

É sabido o potencial que os esportes tem de gerar paixão, seja espontânea ou criada. Na Bahia, o futebol, mesmo não tendo sido a primeira experiência esportiva, já que outras modalidades foram praticadas antes, foi a que logo alcançou o interesse e coração das pessoas, de todos os estratos sociais e por isso, veio dele o surgimento de um ídolo, alguém capaz de levar as pessoas aos campos (a Bahia ainda não tinha um estádio).

Mas afinal, que futebol era esse o baiano? Quem era Apolinário Santana?

Salvador viu surgir entre fins do século XIX e início do XX, equipes que logo aderiram ao futebol após sua fundação e outras, já fundadas para a prática do esporte. Na cidade, durante longos anos, não existiu um estádio de futebol. Sua vivência ocorria em campos espalhados pela cidade, sendo os mais notáveis o Campo da Pólvora e o Campo do Rio Vermelho.

Em 1904 foi fundada uma entidade organizadora, que foi a Liga Baiana de Sports Terrestres (esta vinculada a elite local) e já em 1905 ocorreu o primeiro campeonato, que foi organizado por esta liga até 1912, sendo a partir de 1913 tocado por outra entidade, a Liga Brazileira de Sports Terrestres (esta mais popular).

Com isso, como vimos, desde seu início o futebol em Salvador mobilizou interesse de todas as classes, tendo vivido adesões e resistências na sociedade, mas logo se firmou como a modalidade de maior interesse e assim, logo as pessoas, mesmo sem estarem nos campeonatos foram as ruas para jogarem seus “babas” e foi neles que surgiu o Popó e isto, no Rio Vermelho, o arrabalde esportivo da cidade.

Nascido em 1902 e falecido em 1955, Popó iniciou suas peripécias com a bola no bairro do Rio Vermelho, local onde nasceu e que contou com vários times de futebol ao longo dos tempos e que sempre teve vários espaços para jogos de futebol. Desde o começo ele se destacava, demonstrando habilidade e qualidade física e técnica, que o distinguiam dos demais praticantes, fato este que fez com que logo se chamasse atenção para seu jogo.

Popó começou cedo a jogar nas equipes de futebol de Salvador e ao todo esteve em onze equipes da cidade, que foram: Sul América, Fluminense, Bahiano de Tênis, Internacional, São Bento, Auto Bahia, Botafogo, Ypiranga, São Cristovão, Royal e S.C.Brasil. Destes, por duas oportunidades jogou pelo Botafogo e pelo Ypiranga (GOMES, 1999). Popó ainda esteve no futebol alagoano (sobre esta passagem não falaremos aqui).

Esta movimentada vida futebolística de Popó nos dá margem para várias interpretações. Uma é a de que ele realmente representava a figura de um jogador que era desejado pelas equipes e seus torcedores, outra, nos faz compreender uma ideia de amadorismo no esporte local, que o fazia e mesmo lhe dava a oportunidade de circular por vários clubes e ainda, confirma nele a condição de ídolo, já que foi pretendido por clubes diferentes, de variados bairros da cidade.

Esta “circulação”, ou melhor, transferência do jogador pelos clubes era noticiada com atenção pelos jornais, a exemplo da edição do A Manhã (08 de maio de 1920). Como esta, outras tantas vezes os jornais deram destaque a mudança de clubes por Popó. Também se notava essa mudança dos clubes, nas escalações trazidas pelas páginas dos periódicos locais.

Outro aspecto notável de Popó é que ele foi capaz de atuar em diversas posições. Tal condição se observa nos jornais, que traziam as escalações e as descrições dos jogos, que o mostram da defesa ao ataque. Ele, desde criança se caracterizou também pelo tipo físico, fato que o fez iniciar nos campeonatos ainda quando adolescente. Abaixo vemos uma figura do astro[3].

popo

Popó também jogou em certames de caráter nacional pela seleção da Bahia. Tal condição o fez ser reconhecido como um grande jogador por jornais cariocas, que viam nele um grande talento, como a exemplo do O Globo Sportivo (13 de janeiro de 1950), em matéria que se refere ao campeonato de 1934, vencido pela Bahia. Em edição com data não identificada, de 1952, o jornal carioca O Globo Sportivo traz o seguinte texto:

Não devemos esquecer o maior centro-medio de todos os tempos surgido ou consagrado fora do Rio e São Paulo: o célebre Popó, da Bahia. Jogador fenomenal, cuja infelicidade foi unicamente não ter sido atraído por nenhum grande clube das duas capitais. Grande craque foi Popó, com a grande vantagem de ser um jogador “7” instrumentos , pois atuava em qualquer posição (p. 21).

Outra forma de reconhecer seu valor, mesmo em âmbito nacional como futebolista, foi que o Jornal O Globo (RJ), noticiou no dia 20 de setembro de 1955 sua morte. Na página 12, uma nota escrita em letras maiúsculas e com uma foto tinha o título – Morreu Popó -. O texto fazia menção a sua destacada qualidade técnica, ao fato de ter jogado por vários clubes, em diversas posições e ao título brasileiro de 1934 e ainda fala do luto oficial decretado a altura, pela Federação Baiana de Futebol. Estas matérias dão bem a dimensão do que foi Popó como jogador, que mesmo sem ter circulado nos chamados grandes centros, foi reconhecido como um grande jogador. Abaixo uma outra imagem de Popó, com uniforme do S.C. Brasil,  de O Imparcial (19 de dezembro de 1935, p.7).

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Enfim, Popó foi um jogador de talento, um homem capaz de atuar em diferentes funções, com qualidade física destacada, um homem de gols e que viveu um futebol onde o jogo ainda não gerava renda substancial a quem jogava, um homem que explorou o desejo pelo jogo, numa Bahia dividida socialmente, com marcas de racismo, segregação e segmentação social.

A idolatria por Popó foi além de seu tempo de jogador, tanto que fãs fundaram o Popó Bahiano, que chegou a jogar no campeonato local. Tal clube teve a intenção, de já pelo nome homenagear o ídolo baiano. Ídolo, que fora do futebol (parou de jogar em 1937) viveu as amarguras de quem tem de abandonar seu jogo (parou de jogar em 1936) e de não ter podido dele extrair formas melhores de vida. Popó foi um exemplo do futebol e suas paixões, um jogador que viveu as expressões e as dores máximas de uma prática que movimenta multidões e, por tanto, tem significados múltiplos.

 

Referências:

PIRES, Aloildo Gomes. Popó o craque do povo: a trajetória de Apolinário Santana. SAlvador: EPS, 1999.

ROCHA JUNIOR, Coriolano P da. Esporte e modernidade: uma análise comparada da experiência esportiva no Rio de Janeiro e na Bahia nos anos finais do século XIX e iniciais do século XX. Tese (Doutorado em História Comparada) – Instituto de História – Programa de Pós-Graduação em História Comparada, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.

[1]Correio do Brasil, 11 de agosto de 1903, p.1.

[2]A Tarde, 08 de dezembro de 1914, p.2.

[3] O Globo, 20 de setembro de 1955, p. 12.


A FORMAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DO JIU-JÍTSU BRASILEIRO EM SALVADOR E A INFLUÊNCIA DO JUDÔ

11/11/2019

Luan Machado

Coriolano P. da Rocha Junior

 

O Judô é um esporte japonês, que foi introduzido no Brasil a partir de um processo migratório de japoneses para o país. Nesse processo de imigração, a prática do Judô foi uma das formas de manutenção da cultura oriental, que foi sendo gradualmente incorporado por brasileiros nativos. Com isso, alguns mestres japoneses, chamados “senseis” (numa nomenclatura mais adequada culturalmente), foram essenciais na consolidação dessa prática em diversas regiões do país.

Sobre esses senseis japoneses, Mitsuyo Maeda (conhecido como Conde Koma), foi um dos que ficaram mais conhecidos. Formado na escola Kodokan, que foi criada por Jigoro Kano, com o objetivo de desenvolver o Judô. Enquanto um aluno de destaque da escola, foi convidado a disseminar as técnicas e filosofia da luta no mundo. Viajou por países como Estados Unidos e Inglaterra, fazendo apresentações em arenas e circos, desafiando atletas por onde foi passando. Chegou no Brasil em 1914, em Porto Alegre, viajou o país junto com um grupo de outros lutadores fazendo demonstrações e desafios de lutas, até se firmar em Belém do Pará em 1915. Koma foi responsável por apresentar os conhecimentos da luta agarrada a Gastão Gracie e a seu filho Carlos, processo que foi fundamental para a criação do clã dos Gracie, e do Jiu-Jitsu Brasileiro.

Soishiro Satake, um lutador de destaque também da escola Kodokan acompanhava Koma e se estabeleceu no Brasil, na cidade de Manaus. Este teve importante impacto no ensino da luta agarrada no estado do Amazonas, mas também se dedicava a outras práticas, tais como o lecionado de basebol, técnicas de massagem oriental e até alguns tratamentos de estética para eliminação de cravos e espinhas. Satake foi embora do Brasil em 1934, mas deixou uma importante marca que influenciou o desenvolvimento das lutas no estado do Amazonas.

É importante ressaltar que o Judô tradicional ou Judô Kodokan, como ficou bastante conhecido, sistematizado pelo sensei Jigoro Kano, descende do ju-jitsu ou ju-jutsu, conhecido no mundo ocidental como Jiu-Jitsu Japonês. Se tratava de um sistema de luta focado nos recursos da luta agarrada, mas também incorporava golpes como socos, chutes, cotoveladas e etc. O Judô contemporâneo, veio passando por sucessivos processos de reformulação, adotando novos sistemas de regras, que impactaram diretamente em como a prática se dá atualmente no mundo, embora com influência fundamental do tradicional, diferente de como este se dava na sua gênese.

Uma interpretação possível dessas mudanças, seja dos nomes, ou das regras dessas modalidades de lutas, se dá, via de regra, por interesses políticos e econômicos de determinados grupos e atores. É indiscutível a existência de outras influências, mas esse é um fator bastante evidente. Isso pode ser interpretado na história do Jigoro Kano, que visava consolidar o Judô enquanto um produto a ser difundido em todo o mundo. E uma nomenclatura nova, que pudesse se distanciar dos estigmas que o Jiu-Jitsu Japonês trazia, era essencial para a fixação desse “novo” produto. A mesma regra pode ser aplicada ao Jiu-Jitsu Brasileiro. O clã dos Gracie, tinha também o objetivo de fundar um “novo” produto no Brasil e no mundo. Nesse sentido, para além das estratégias comuns, tais como os desafios de lutas, precisou de uma nomenclatura que representasse o novo, assim se “criou” o Jiu-Jitsu Gracie ou Jiu-Jitsu Brasileiro, que embora tenha sido fundamentalmente influenciado pelos ensinamentos do Conde Koma, se firmou enquanto uma nova modalidade de luta.

Em Salvador, no estado da Bahia, recorte específico do local em que este trabalho se localiza, um nome que emerge das fontes é o do sensei Kazuo Yoshida. Há uma dificuldade de encontrar fontes que forneçam detalhes sobre a história desse ator, de quando ele chegou em Salvador e sobre as suas filiações as escolas de lutas Japonesas. Sabe-se que se trata de um grande mestre de Judô, que lecionava na capital baiana em meados do século XX. Ricardo Carvalho, um relevante nome do Jiu-Jitsu Brasileiro no estado da Bahia na contemporaneidade, é considerado “neto” de Yoshida, já que seu pai, mestre Cirão, foi um dos discípulos do judoca desde 1963. Ricardo Carvalho afirma em entrevista, que o japonês era um lutador muito habilidoso, e que possuía um Judô mais tradicional, no qual se treinava bastante técnicas de solo e finalizações (golpes que retiram o oponente de combate).

É notável que houve outros importantes atores orientais na cidade no que se refere ao contexto das lutas, no entanto, um fato histórico marcante, é que Yoshida faz parte da linhagem dos irmãos Edson e Ricardo Carvalho, referências na firmação do Jiu-Jitsu Brasileiro na cidade. Ricardo Carvalho é atualmente um dos mais notáveis mestres de Jiu-Jitsu Brasileiro da Bahia. Natural de Salvador, conta que nasceu aprendendo Judô, com o seu pai mestre Cirão, que é também um notável mestre de Judô na cena local. Ricardo é um dos líderes da equipe Edson Carvalho, que leva o nome de seu irmão e também sócio. A Edson Carvalho Team, é uma das mais tradicionais equipes de Jiu-Jitsu Brasileiro da cidade, tendo ampliado inclusive a sua influência com academias em vários países do mundo. Ricardo é também presidente da Federação Baiana de Jiu-Jitsu (FBJJ), fundada em 1997, uma das quatro federações que estão em atividade na organização do Jiu-Jitsu baiano.

A firmação do Jiu-Jitsu Brasileiro na cidade de Salvador se inicia, de acordo com o cruzamento do que contam as fontes, a partir da associação dos irmãos Carvalho, Charles Gracie e outros mestres de Judô locais da época, no início da década de 1990. Há relatos pontuais da existência da prática da “nova” modalidade em períodos anteriores, mas foi a partir da associação desses atores, que a modalidade tomou fôlego, se firmou na capital, e foi se difundindo em todo o estado.

Sobre o enraizamento da modalidade na cidade, há vários fatores de alta relevância. Dentre eles, vale ressaltar que os mestres de Judô locais, de acordo com as fontes, praticavam um Judô mais próximo do tradicional, no qual as técnicas de solo sempre fizeram parte das suas rotinas de treinamento e estudo. Portanto, foi natural para estes a adequação ao foco do treino de solo que o Jiu-Jitsu Brasileiro se dedicava, não houve grandes mudanças no aspecto técnico, apenas uma adequação no foco do treino. Outro fator importante diz respeito a relevância econômica que a “nova” modalidade tinha alcançado nacional e até internacionalmente. A evidência midiática do Jiu-Jitsu Brasileiro, a partir das estratégias de marketing do clã Gracie, colocavam a prática como a “febre” do momento, o que tornou atrativo aos tradicionais mestres de Judô da cidade a se dedicarem.

Os indicativos que esse estudo apresenta, a partir da revisão de algumas fontes sobre a história das modalidades de lutas agarradas existentes nos dias atuais, é que apesar da divisão das modalidades, as histórias se cruzam e se influenciam mutuamente, tanto no espectro Salvador, como Brasil. Os processos migratórios de japoneses para o Brasil tiveram grande impacto na consolidação das modalidades de lutas agarradas no cenário nacional. A incontestável história de atores japoneses em diversas regiões foram fundamentais naquilo que se firmou e que segue vivo nos dias atuais, embora haja reformulações. E no que se refere a cidade de Salvador, que o Judô, prática fixada em períodos anteriores ao Jiu-Jitsu Brasileiro, teve grande importância no processo de firmação da “nova” modalidade sistematizada pelo clã dos Gracie.

REFERÊNCIAS:

Entrevista concedida por SOUZA, Ricardo Barbosa de. [mai. 2015]. Entrevistador: Luan Alves Machado. Salvador, 2015.

Entrevista concedida por SOUZA, Luiz Augusto Barbosa de. [mai. 2015]. Entrevistador: Luan Alves Machado. Salvador, 2015.

Entrevista concedida por PINTO, Ricardo Carvalho. [mar. 2019]. Entrevistador: Luan Alves Machado. Salvador, 2019.

KANO, J. Judô Kodokan. Tradução Wagner Bull. São Paulo: Cultrix, 2008.

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE JIU JITSU. History. Disponível em: <https://cbjj.com.br/history/&gt;. Acesso em: 28 de mar. 2019.

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE JUDÔ. História do Judô. Disponível em: <http://www.cbj.com.br/novo/medalhistas.asp&gt;. Acesso em: 28 mar. 2019.

NUNES, A. V. RUBIO, K. The Japanese immigration influenceon the formation and development of Brazilian judô. International Journal of Sport Studies. Vol. 3 (10), 1087-1094, 2013.

Gracie Seminars: The Best Source of Gracie Jiu-Jitsu Seminars in the World, 2006. Disponível em:<http://www.gracieseminars.com/charles_bio.htm&gt;. Acesso em: 29 de mar. 2019.

LIMA, L. Soishiro Satake: A história do japonês que fundou a primeira academia de jiu-jitsu do Brasil, 2016. Disponível em: <http://escritorio610.blogspot.com/2016/04/soishiro-satake-historia-do-japones-que.html&gt;. Acesso em: 29 mar. 2019.

Perfil: Cirão. Judô Bahia. Revista Oficial da Federação Baiana de Judô. n. 2, p. 16-18, fev. 2017. Disponível em: <https://issuu.com/febaju/docs/revista_febaju_ii_edi____o_21_fev_p&gt;. Acesso em: 28 mar. 2019.


Futebol e tensões sociais na Bahia

12/06/2019

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

 

Na Bahia, sem dúvida, o futebol desde seu início foi o esporte de maior representatividade, que mais despertou interesse e mobilização popular.

Sobre o futebol baiano e seus primórdios, Leal (2002) afirma que:

na Bahia, os rapazes desejavam praticar aquela modalidade de esportes, quando chegou à cidade do Salvador, o estudante José Ferreira, de alcunha Zuza, que tinha concluído seu curso na Inglaterra e viria para empregar-se no Bank of London, nesta capital (p.180).

Na Bahia, a influência inglesa esteve diretamente ligada ao início da experiência esportiva, inclusive no futebol. Também se sabe que em Salvador e mesmo no estado da Bahia, as vivências com os esportes se davam em espaços improvisados e adaptados, a partir de áreas comuns da cidade, a exemplo de praças, largos e outros e assim também aconteceu com o futebol.

Sobre os jogos iniciais, Santos (2010, p.54) afirma que:

o local onde ocorreriam os embates seria o Campo da Pólvora. Localizado no distrito de Nazaré, o campo foi ligeiramente reformado, cercado e nivelado. A sua escolha deveu-se também pela sua ótima localização em decorrência da facilidade de se chegar naquele lugar. Praticamente todas as linhas de bonde passavam por aquela região. Sem a existência de arquibancadas o primeiro campeonato contou com o empréstimo de cadeiras por um circo que estava na cidade para a acomodação das famílias dos jogadores e demais autoridades.

Sobre os espaços adaptados para a prática do esporte, o Diário de Notícias[1] assim escreveu:

na Bahia, porem, ainda se morre de tédio, de aborrecimento… Não fosse o gosto pelo sport, actualmente tão accentuado, e aquellas partidas em que se apagavam os dignos moços em bellos combates – ainda assim num campo impróprio – e não sabemos o que seria da Bahia, cada dia mais decahiada!

No caso do futebol, as práticas iniciais estavam muito associadas a condição de modernização da cidade, de fazer acontecer em terras soteropolitanas, experiências corporais que já se davam na Europa e assim, sua prática era interpretada como um ato de civilidade, algo nobre. Exemplo está na matéria abaixo:

correu brilhante e animadamente a correcta diversão deste tão bemquisto divertimento que entre nós tanto acolhimento tem adquirido. Ao signal dado, os clubes Victória e São Paulo Bahia principaram os renhidos ataques, tendo sempre, no primeiro tempo, o São Paulo Bahia se defendido heroicamente, no segundo tempo, porem, os lutadores do Victoria conseguiram fazer dos pontos, sendo vivamente aclamados.[2]

Em contrapartida, a mesma prática, quando vivida por estratos sociais economicamente inferiores, era tida como rude, bruta, não digna, como indicado na seguinte matéria:

moradores à Rua Ferreira França, ao Polytheama, estão inhibidos de chegar as jannelas das respectivas residências, porque garotos, de manhã a noite, jogam bola, com uma gritaria infernal, com gestos e palavras obscenas. Os guarda civis que ali fazem seu quarto de policiamento, não tem ouvidos para ouvir taes offensas a moral e nem energia para cohibilos ao jogo perene.[3]

Vemos assim, que as experiências esportivas acabavam sendo tratadas como um espaço de distinção social, fazendo refletir as dinâmicas sociais e culturais vividas na sociedade baiana.

Se em seu início a vida esportiva baiana esteve ligada diretamente a presença inglesa, também o setor de serviços e a economia da cidade viviam esta influência. Vivendo uma condição de decadência econômica e política, a Bahia e Salvador, em seu cotidiano, conviviam com carências em vários serviços públicos: transporte, saneamento, iluminação, moradia, saúde, energia, limpeza urbana, já se apontando problemas com o uso desmedido de recursos naturais. Dessa forma, Salvador estava presa a uma lógica econômica que, se não impediu, certamente limitou as aspirações de um maior crescimento e de progresso e ainda, provocava conflitos sociais, que se refletiram também no futebol.

Já no início do século XX, o futebol baiano já contava com uma plateia que crescia em número e interesse. Plateia que já formava gosto por determinadas equipes, em detrimento de outras, fazendo ecoar por vezes as formas de ver a presença estrangeira na cidade.

Na Bahia, a Liga Baiana de Sports Terrestre, fundada em 1904, cuidava da organização do futebol e de seu certame e já nos primeiros anos, contou com dificuldades, que não se deram por conta só do esporte em si, mas também de outros aspectos da vida na cidade.

Alguns problemas marcaram a desistência de organizar o campeonato pela Liga Bahiana. O primeiro se deu ainda em 1906: numa partida[4], os jogadores do Internacional de Cricket (equipe formada por ingleses) foram ostensivamente hostilizados pelo público presente. Essa atitude da plateia presente ao jogo foi alvo da imprensa, que a analisou e a relacionou, segundo suas impressões, ao próprio estado de desenvolvimento da Bahia e dos cidadãos de Salvador.

Ao abordar o ocorrido, o Diário de Notícias[5] assim se posicionou:

é de lamentar que uma malta de desocupados perturbem as belas partidas a que o público acorre tão cheio de curiosa satisfação, prejudicando os movimentos dos jogadores, fazendo-os escutar ofensas quando perdem e dando triste idéia dos nossos foros de civilização. Convém notar que o Internacional é composto de ingleses que devem ter de nossa parte, como hóspedes que são, todas as distinções. Achamos que a polícia bem podia sanar esta inconveniência que vai se tornando um péssimo costume.

Em sua análise sobre o fato, Santos (2010, p.71) assevera que:

talvez uma das principais lamentações dos periódicos relacione-se com o fato de que o clube hostilizado era composto por ingleses. Em todas as notas temos uma sensação de subserviência para com os ingleses, uma vez que estes, pela origem europeia, são os referenciais de bom comportamento e civilidade.

Esse problema fez com que a Liga se reunisse e procurasse sanar as dificuldades surgidas, principalmente a ideia do Internacional de abandonar a competição – fato que se confirmou, mesmo com as atitudes solidárias dos demais clubes e da Liga Bahiana. Essas instituições fizeram questão de rechaçar a atitude popular, considerando-a incoerente com as normas civilizadas do esporte.

Essa reação dos clubes, de sua entidade organizativa e de parte da imprensa demonstrou uma noção elitizante e preconceituosa, a de que a população em geral não sabia como se portar diante de uma nova prática tipicamente moderna, o futebol, que, segundo seus padrões, exigia atitudes cavalheirescas e acima de tudo gentis, expressando ritos e normas de comportamento caracterizados como comuns a elite soteropolitana e aos ingleses residentes em Salvador.

Outro problema decisivo na atuação da liga foi que, com o progressivo aumento de interesse pelo futebol, esse acabou assumindo âmbitos maiores do que o esperado, incentivando rivalidades e exacerbando a competitividade. Este processo chegou ao extremo nos anos de 1911 e 1912, quando a Liga efetivamente desistiu da promoção de campeonatos.

Em 1912, o campeonato da Liga Bahiana, o das elites, viveu uma crise que foi motivada pela intensa e “deseducada” participação popular nos jogos. Para os dirigentes da entidade, o envolvimento e o interesse da população pelo futebol acarretaram a “perda de controle” das competições. Por conta disso, a Liga Bahiana desistiu de organizar o campeonato.

Com isso, a Liga Brazileira de Sports Terrestre, que foi fundada em 1913, de caráter mais popular, seguiu organizando o futebol na Bahia, sem contar com a participação dos primeiros clubes.

Assim, vimos que as tensões econômicas e sociais que a sociedade baiana vivia, também se repercutiram no futebol. O processo de distinção social, comum na comunidade baiana, cindida entre classes e etnias diferentes, também se fez presente no futebol, a partir da criação de ligas variadas, que representavam, estratos sociais diversos. De toda forma, o futebol baiano seguiu e segue existindo, como uma amostra do que é seu povo, suas tensões, modos de vida, de ser, de se colocar em sociedade, seja no cenário local ou nacional.

Referências:

LEAL, Geraldo da Costa. Perfis urbanos da Bahia: os bondes, a demolição da Sé, o futebol e os gallegos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2002.

ROCHA JUNIOR, Coriolano P. e SANTOS, Henrique Sena dos. Primórdios do esporte no Brasil: Salvador. Manaus: Reggo, 2016.

SANTOS, Henrique Sena dos. Uma caixinha de surpresas: Os primeiros anos do futebol em Salvador, 1901 – 1912. Monografia (Graduação em História). Departamento de Ciências Humanas e Filosofia – Colegiado de História, UEFS, Feira de Santana, 2010.

[1]Diário de Notícias, 10 de outubro de 1906, p.1.

[2]Correio do Brasil, 11 de agosto de 1903, p.1.

[3]A Tarde, 08 de dezembro de 1914, p.2.

[4]O jogo foi Victória e Internacional, em 10 de junho de 1906.

[5]Diário de Notícias, 11 de junho de 1906, p.3.


Sobre o tênis e sua prática em Salvador: dos primeiros momentos a fundação do Clube Baiano de Tênis

07/01/2019

Por: Coriolano P. da Rocha Junior*[1]

   Em Salvador, a prática do tênis se deu de modo muito irregular nas primeiras décadas do século XX. A princípio, denominado de lawm tênis, a sua ocorrência se dava de forma tímida, sobretudo, em quadras no interior de residências de famílias abastadas da cidade. Segundo Mário Gama (1923, p. 320):

Foi ele introduzido entre nós, também pelos ingleses, que construíram um court[2] de grama, na Plataforma. A família Benn também possuía um, nesse gênero, em sua residência, ao Canela. Mas, incontestavelmente, onde se formaram os nossos melhores tenismen[3] de agora, foi no court da residência da Exma, Viuva Lydua Costa Pinto, à Vitória. Foi desse court que saíram os nossos hous (sic) e valorosos jogadores, como Mario Pereira, Macedo de Aguiar e tantos outros, tendo também (perdoem-me se o assignato), o court construído em nossa residência à Graça, sido outro fator do desenvolvimento do Tênis na Bahia.

  Sobre a introdução do tênis em Salvador, reconhecemos que esta se deu, principalmente, pela presença de muitos ingleses que residiam na cidade. Ao mesmo tempo, sabe-se que não foram apenas os ingleses os pioneiros da modalidade na cidade, mas também jovens que, ao retornarem da Europa, a trabalho ou estudo, traziam consigo bolas e manuais de práticas esportivas. Na revista Semana Sportiva há uma referência que evidencia a presença de baianos no desenvolvimento inicial do tênis:

Em 1901 e nos anos consecutivos, ao chegarem da Europa, alguns rapazes foram inquestionavelmente, o fator principal, o elemento preponderante na introdução e progresso do desporto em geral. Na Bahia já havia um court de tênis na residência da família Espinheira Costa Pinto. Construído em cimento, as suas linhas de out-side aproximavam-se de um lado, das cercas de pitangueiras; do outro de um bambuzal indiano, espesso e no fundo, de uma jabuticabeira, que era o regalo de quantos a vissem florida ou o tronco enfeitado de frutas roxas[4].

    De toda sorte, de uma forma de outra, não se pode negar que o tênis em Salvador teve uma forte influência europeia, pelos ingleses ou pelos baianos residentes na Europa. Ao que parece, as primeiras partidas de tênis estimularam os jogadores a institucionalizarem a sua prática com a criação de um campeonato regulado pela Liga Baiana de Esportes Terrestres. De acordo com Mário Gama (1923, p. 320), “a antiga Liga fez disputar um campeonato de tênis, em que tomaram parte o S. Salvador, o Vitória e o Internacional de Críquete, vencendo os representantes do primeiro”. A revista Semana Sportiva foi mais especifica ao detalhar como ocorreram as primeiras competições da modalidade:

Com o número crescente de adeptos do jogo aristocrático formaram-se diversos torneiros íntimos com e sem handicap[5], até que em 1905 a Liga Baiana de Desportos Terrestres, procurando desenvolver a sua prática, determinou a abertura de inscrições para os clubes que lhe fossem filiados, estabelecendo o primeiro Campeonato da Cidade.

Para tanto, construiu um court com as medições regulamentares, com o lastro de cinzas e betumado e as linhas marcadas a tinta branca na então moradia do Sr. Ed. Schalaepfer onde deveriam realizar-se as competições oficiais.[6].

   Apenas a partir da segunda metade da década de 1910, especificamente em 1916, que referências sobre a prática do tênis ressurgem. Um motivo principal foi a fundação do Clube Baiano de Tênis. Assim, como os outros clubes da elite soteropolitana, a agremiação alvinegra teve um início bastante modesto. A primeira sede do clube não passava de uma barraca de lona. Ficava em um terreno na Ladeira da Graça que, pertencendo à senhora Adelaide Tarquínio, foi cedido por um período de três anos. Nesse mesmo local, foram iniciadas as construções das quadras de tênis, “onde foram gastos aproximadamente 4:000$000”[7]. Um depoimento de Mário Gama, um dos primeiros sócios, revela detalhes do entusiasmo em construir as estruturas do clube.

A construção do primeiro court começava. Nós, os que havíamos aderido à ideia da fundação de um grêmio para cultivar tão lindo esporte íamos aos domingos e nos dias úteis em que o tempo nos sobrava ao terreno cedido pela Exma. Viúva Tarquínio, a fim de ajudar ao Edgar Luz que estava superintendendo os primeiros trabalhos de nivelamento[8].

   A empolgação parece ter contagiado outros jovens da cidade. Ao final da construção do court, a “natural afluência de pedidos para associados obrigou o clube a aumentar o limite de trinta para cem sócios”[9]. Com a construção das quadras, já não era possível a agremiação ter como sede uma pequena barraca. Na verdade, a construção de um prédio no mesmo terreno já havia sido planejada. Para isso os diretores do Bahiano, “em assembleia geral de 23 de janeiro de 1916 resolveram aumentar as mensalidades de 5$000 para 10$000.” Além disso, contraíram um empréstimo de 8:000$000.

foto1

Imagem 1: Club Bahiano de Tênis (imagem de um postal).

  A nova sede seria “um pequeno pavilhão que, com o máximo de simplicidade, satisfizesse aos requisitos de conforto e higiene”. Fica evidente que o principal ideal que norteava a fundação do clube era a necessidade de retomar, na cidade, o cultivo de uma atividade considerara elitizada.

   Podemos imaginar que o interesse de reavivar o tênis na cidade tem relação com a vontade de estabelecer uma prática de distinção social, uma vez que o futebol na cidade já havia se popularizado e já não era monopolizado pelos grupos abastados. O envolvimento com a modalidade era muito custoso, até mesmo pelas despesas com a importação de equipamentos como raquetes e bolas. Deste modo, o aristocrático esporte acabou se tornando em uma possibilidade de lazer em que não haveria a presença de populares.

   O esforço de fazer do Baiano de Tênis a liderança do renascimento do tênis na Bahia se revela em memórias que destacam um interesse em ter um espaço bem estruturado, com a construção de várias quadras, inclusive de materiais diferenciados:

Quando teve de ser construído o primeiro court do Baiano, o nosso consócio engenheiro Edgar Luz que dirigia as obras, quis romper com a praxe até então aqui em voga, das quadras de cimento. E, com grande competência, fez o nosso court de uma liga de barro, tal como ora se usa em todos os países tropicais. Os resultados foram magníficos e logo foi a segunda quadra e, em seguida, a terceira, até que, agora, conta o nosso grêmio tem 4 courts, todos eles excelentes, mesmo na estação chuvosa, quando muito pouco tempo depois de um grande aguaceiro, eles por serem inteiramente permeáveis, tornam-se perfeitamente praticáveis. Nessas quadras o tênis tem se desenvolvido assombrosamente[10].

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Imagem 2: Jogadores do Clube Baiano perfilados (Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 50).

   Obviamente que com o desenvolvimento estrutural do tênis em Salvador, ocorreu um aumento significativo de referências sobre a prática do esporte na cidade. De acordo com os registros de Mário Gama (1923, p. 320):

Com a fundação, em 1916, do Clube Baiano de Tênis, nas suas quatro “quadras” o jogo tomou incremento admirável e ali se formaram e aperfeiçoaram muitos jogadores, sob os ensinamentos – é justo registrar – do grande tennismen F. Mc. Even, que, como diretor, dedicava-se extremamente, no preparo e afinamento dos seus consócios. O Bahiano de Tênis conta, dentre as suas melhores páginas, a visita do grande campeão dos Estados Unidos, Sr. Johnston, que jogou várias vezes em seus courts. Mantendo torneios anuais de duplas e simples, são campeões das quadras do alvi-negro F. Sá Macedo de Aguiar (duplas) e Mário Pereira (simples). Com a recente visita do Fluminense, A Bahia pôde mostrar bem que, em tênis, o seu adiantamento é patente, pois que, os representantes tricolores, Srs. Heberto Filgueiras e G. Prechel foram batidos, em simples, pelos nossos conterrâneos Mario Pereira e Macedo de Aguiar, que se houveram brilhantemente. Nos courts do Bahiano e Tênis está em disputa um torneio amistoso de duplas tendo-se feito representar os Clubes, Francês da Bahia, Rio Vermelho, Vitória, Associação Atlética e Baiano de Tênis.

   Como um dos principais sócios do Baiano de Tênis, Mário Gama não raramente fez questão de circunstanciar o desenvolvimento do esporte no clube marcado pelo um intercâmbio com tenistas de outros estados e países. É possível interpretar como um indício que o desenvolvimento do tênis no alvinegro não ocorreu de forma meramente espontânea. Pelo contrário, houve um constante esforço de estruturação, inclusive no tocante ao aprimoramento das técnicas e estilos de jogo. Além disso, percebe-se um esforço em apresentar os tenistas locais como não inferiores aos de outras localidades.

   Desta forma vimos as primeiras experiências de instalação da prática do tênis em Salvador e sua relação com um determinado clube e modo de ver a cidade e as relações sociais.

 

[1] Parte deste texto foi publicado em parceria com Henrique Sena dos Santos, na obra Primórdios do esporte no Brasil: Salvador (2015).

[2] Corresponde a quadra de tênis.

[3] Homem praticante e/ou interessado no tênis.

[4] Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 24.

[5] Termo inglês que significa vantagem ou desvantagem, ou o ato de dar vantagem ou desvantagem. Pode também significar obstáculo, ou incapacidade.

[6] Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 54.

[7] Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 26.

[8] Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 54.

[9] Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 26.

[10] Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 59.


FONTE NOVA: a síntese do futebol baiano, palco de sorriso e choro

06/08/2018

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

     O Estádio da Fonte Nova foi inaugurado oficialmente em 28 de janeiro de 1951, um ano após a Copa do Mundo de Futebol que o Brasil sediara e perdera para o Uruguai, em 1950. O jogo de abertura foi Botafogo x Guarany, duas equipes hoje ausentes do cenário esportivo baiano. Nesse início, a capacidade estimada de público estava em torno de 30.000 pessoas. A Fonte Nova viria para substituir o já velho Campo da Graça.

     O estádio deveria ter sido uma das sedes da Copa de 1950, fato que muito orgulharia a Bahia, por a levar para a maior festa do futebol e assim, receber em suas terras equipes, jogadores e torcidas de diferentes nações. Todavia, a obra não ficou pronta a tempo, condição que ao contrário de orgulho, acabou por gerar uma insatisfação para o baiano, não apenas por perder a chance de sediar jogos da Copa, mas também, por naquele momento, ter se sentido a margem de uma pretensa capacidade criadora e renovadora que se vivia no país. Mais uma vez a Bahia ficava de fora da festa nacional, mesmo com toda sua importância e tradição.

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Imagem 1: A Fonte Nova em sua primeira versão, a da inauguração, contando com somente um anel de arquibancadas.  Fonte: http://wwwmemoriasdafontenova.blogspot.com/2010/11/os-maiores-publicos-pagantes-da-fonte.html

     Mesmo com esse dissabor inicial, durante décadas a Fonte Nova animou tardes e noites de futebol soteropolitano e mesmo nacional, sendo palco das principais competições futebolísticas locais e brasileiras. O estádio assumiu um lugar especial no coração baiano, que além de nele viver os prazeres do futebol, acabou por ver nele, mesmo com o atraso da inauguração, um orgulho da arquitetura baiana. Obra do escritório do arquiteto Diógenes Rebouças, um dos gênios baianos, cravado próximo a um cenário a época bucólico e querido, o Dique do Tororó, que foi construído no século XVII, para ser uma frente de proteção da cidade, que então, se concentrava na parte alta e que foi aos poucos, perdendo essa função e passando a fazer parte do cotidiano soteropolitano.

     Foi essa Fonte Nova que existiu em Salvador, até que a cidade entendeu que era preciso um novo estádio, ou melhor, era necessário revigorar e ampliar a Fonte Nova, já que a original se tornara pequena para os grandes públicos que lá iam.

     A remodelação previa a construção de um segundo anel de arquibancadas, que permitiria a ampliação do público. Durante as obras, os baianos lidaram com dúvidas e inquietações quanto a capacidade de segurança do estádio, se perguntava se as bases do antigo estádio suportariam a nova estrutura e aí, se lembrava que a Bahia não foi capaz de construir o Estádio a tempo da Copa de 1950 e que mesmo após a inauguração em 1951, foi mesmo apoximadamente um ano após isso que os trabalhos foram finalizados, até então ainda havia uma condição provisória.

     Após tanta espera, dúvidas, excitações, chegava a hora da nova inauguração, se abriria um novo marco no futebol baiano.

     Era verão em Salvador, mais um dia de sol, mais um dia de futebol na Fonte Nova. A cidade para lá se virava em festa, afinal, jogariam nesta data Bahia e Vitória, os dois clubes com as maiores torcidas do estado. Outros dois grandes clubes brasileiros lá estariam, o Clube de Regatas Flamengo (Rio de Janeiro) e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense (Porto Alegre). Os jogos seriam Bahia x Flamengo, de abertura e Vitória x Grêmo, no fechamento da dupla rodada de festa. Sobre a inauguração, o Jornal dos Sports e também o Jornal do Brasil (Rio de Janeiro, 04/03/1971), além de anunciarem a programação, definiam o novo estádio como um dos maiores e mais bonitos do país, com capacidade oficial de 110.000 pessoas.

     Acontece que a jornada, ao invés de ser de festa, foi de dor. Durante a rodada, no segundo jogo, um desastre aconteceu e acabou gerando acidentes e mortes e assim, o novo estádio baiano, teve sua reabertura marcada pela dor. Em 5 de março de 1971, o Jornal dos Sports e também o Jornal do Brasil estampavam que explosão e pânico causaram a tragédia.

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                   Imagem 3: O público invade o campo.
Fonte: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/fonte-nova-tumulto-marca-festa-de-reabertura-do-anel-superior-em-1971/

     Como dito, na população sempre houve dúvida sobre a segurança no novo estádio e foi assim, que o estouro de uma lâmpada provocou estardalhaço, correria e desespero, provocando os acidentes e as mortes. Ou seja, o temor inicial acabou gerando uma onda de pavor, levando as pessoas a pensarem que seria um desabamento. Para além disso, a platéia estava acima do indicado, com pessoas espremidas em grades.

     A Fonte Nova, espaço querido do soteropolitano, templo do esporte bretão jogado em terras baianas, sempre foi palco de festas, de alegrias e comemorações, de sorrisos por vitórias, de lamentos por derrotas, mas também, em alguns momentos, de dor por tragédias. Tragédias estas que não coadunam com o espírito da torcida baiana, independente de seu time de coração, mas aconteceu e a Fonte Nova, se calou e chorou. Esta relatada foi uma, outra ainda aconteceu, mas isto fica para depois.

     Por enquanto, fiquemos com a imagem de uma Fonte Nova aberta para o Dique, que sorri para a cidade, que alegra e se alegra com a presença do público em suas arquibancadas.

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Imagem 4: A “velha” Fonte Nova, ainda antes da obra.
Fonte: http://ssa2014.blogspot.com/p/arena-fonte-nova.html

 

 

 

 

 


ANPUH – Bahia 2018 – Chamada

15/03/2018

Olá pessoal
Com alegria informamos, que mais uma vez (desde 2010) foi aprovado o Simpósio de História do Esporte e das Práticas Corporais no IX Encontro Estadual de História-Bahia.
Este ano o evento será realizado na cidade de Santo Antônio de Jesus, nas dependências da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus V, entre os dias 04 a 07 de Setembro de 2018.
Com isso, convidamos a todos e todas para participarem do evento e do simpósio, enviando seus trabalhos. Abaixo apresentamos as principais informações:

Instruções gerais para inscrições

1. O sistema de Inscrição é feito por meio eletrônico, tanto para o envio de dados quanto para o pagamento. Todos os itens destas instruções gerais devem ser lidos cuidadosamente para evitar eventuais irregularidades nas inscrições;

2. Para se inscrever, o interessado deve identificar-se em uma das modalidades abaixo, durante o período indicado no cronograma:

  • Coordenação de Simpósio Temático.
  • Coordenação de Minicurso/Oficina.
  • Coordenação de Simpósio Temático e Coordenação de Minicurso/Oficina.
  • Apresentação de trabalho em Simpósio Temático.
  • Ouvinte/Participante em Minicurso/Oficina.

Atenção: Caso o participante deseje propor um simpósio temático e também um minicurso/oficina, ele deve escolher, no preenchimento da ficha inscrição on-line, a opção correspondente a essas duas modalidades.

3. Em todas as etapas / modalidades acima, as categorias e os respectivos valores de inscrição são os da tabela abaixo:

Associado da ANPUH Não associado
Professor da educação básica…….. R$ 50,00 Professor da educação básica……… R$ 150,00
Estudante de Pós-graduação……… R$ 50,00 Estudante de graduação……………. R$ 50,00
Demais associados…………………. R$ 100,00 Estudante de Pós-graduação………. R$ 200,00
Demais participantes……………….. R$ 300,00
Participação em Minicurso/Oficina….. R$25,00

4 . Solicitamos atenção no preenchimento correto de todos os campos da ficha de inscrição, em especial nos campos “Nome” e “Título do Trabalho”, se for o caso, para evitar posteriores problemas quanto à emissão dos certificados. O preenchimento correto do campo “e-mail” também é de fundamental importância para o estabelecimento do vínculo de informações. Após o cadastro, será enviado um e-mail de confirmação contendo os dados de acesso à área do inscrito (login e senha), onde é possível imprimir novamente o boleto de inscrição, caso seja necessário;

5. Os colegas que desejarem associar-se à ANPUH deverão fazê-lo antes de se inscreverem no evento, acessando a página: http://www.anpuh.org/filiacao.

6. Uma vez paga a inscrição como não associado não será possível reverter o valor para associado;

7. Os associados da ANPUH deverão estar quites com as anuidades para fins de usufruto do valor de inscrição exclusivo às modalidades de Sócios;

8. O pagamento da inscrição deverá ser realizado até a data de vencimento registrada nos boletos bancários. Após esta data, a inscrição será cancelada automaticamente pelo sistema;

9. O inscrito poderá acompanhar a confirmação de pagamento do boleto através da área do inscrito;

10. Não haverá devolução do valor referente às inscrições. No caso de propostas de Simpósios Temáticos, Minicursos ou Oficinas que não sejam aprovadas ou efetivadas, os proponentes poderão usar sua inscrição na modalidade de apresentador de trabalho ou ouvinte.
Para a apresentação de trabalho nos Simpósios Temáticos, o proponente deverá ser, no mínimo, graduando, respeitando-se o disposto no item 15.

  • Cada participante poderá apresentar apenas 01 (um) trabalho em apenas 01 (um) simpósio temático, seja na condição de autor ou de coautor, com limite de 01 (uma) coautoria no mesmo trabalho.
  • Todos os autores ou coautores devem estar inscritos no evento e se fazer presente no momento da apresentação a fim de que recebam o certificado.
  • O inscrito deverá escolher 03 (três) Simpósios Temáticos conforme a ordem hierárquica de sua preferência. Caso não seja aceito no primeiro, será realocado na opção seguinte. A avaliação, aceitação e eliminação de trabalhos dentro do simpósio temático são realizadas pelos coordenadores de cada simpósio.
  • O número mínimo de participantes em cada simpósio temático é 12. Caso esse número não seja atingido, o simpósio será cancelado e os inscritos serão realocados na 2ª ou 3ª opção.
  • Caso o trabalho não seja aceito em nenhuma das rodadas de avaliação, o inscrito será automaticamente considerado como ouvinte, sem devolução do valor pago na inscrição.
  • O número máximo de participantes em cada simpósio é de 24 e a preferência é dada ao candidato que se inscreveu primeiro.
  • Verifique os prazos de inscrição, envio do trabalho completo e aceitação.

15. A aceitação do trabalho de graduandos está condicionada à inscrição do orientador no evento.

16. Para a publicação do trabalho nos Anais do Evento, os autores terão que obrigatoriamente submeter o texto completo até a data limite estipulada no Cronograma do Evento e apresentar a comunicação na data e horário indicado pela Comissão Organizadora.

Prazos:

Inscrição de trabalhos nos Simpósios Temáticos .. 05 de Março a 30 de Março.

Divulgação dos Trabalhos Aprovados e Cartas de Aceite .. 31 de Maio.

Envio dos Trabalhos Completos para Publicação nos Anais .. 23 de Julho.
NORMAS GERAIS PARA PROPOSIÇÃO DE TRABALHOS

Atenção: Observe atentamente todas as instruções abaixo antes de submeter seu trabalho:

Além das instruções gerais para inscrições no evento disponíveis no link http://www.encontro2018.bahia.anpuh.org/inscricoes, os itens abaixo devem ser lidos cuidadosamente para evitar irregularidades quanto à submissão de trabalhos para apresentação nos Simpósios Temáticos.

1. As propostas de comunicação deverão ser compostas, obrigatoriamente, de título e resumo, que deverão ser digitados nos campos apropriados da página de inscrições do IX Encontro Estadual de História, e de um texto completo que deverá ser anexado no local indicado até o dia 23 de Julho de 2018.

2. O título do resumo deverá conter no máximo 200 caracteres (com espaços) e o corpo do texto deverá conter no máximo 2800 caracteres (com espaços).

3. O texto completo deverá ser apresentado no seguinte formato:

– Arquivo em formato de texto (.doc ou .rtf) de no máximo 3 Mb.

– Mínimo de 06 (seis) e máximo de 10 (dez) páginas.

– Fonte Times New Roman 12, espaço entre linhas 1,5.

– Citações com mais de três linhas em destaque, com fonte 11, espaço simples.

– Margens superior e esquerda: 3,0 cm; inferior e direita: 2,0 cm.

– As notas devem ser colocadas no final do texto.

– As referências deverão seguir o formato da ABNT NBR 6023.

4. Solicitamos atenção ao preenchimento correto de todos os campos da ficha de inscrição, em especial “Nome” e “Título do Trabalho”, para evitar posteriores problemas quanto à emissão dos certificados. O preenchimento correto do campo “e-mail” também é de fundamental importância para o estabelecimento do vínculo de informações com a comissão organizadora.

5. Para a apresentação de trabalho nos Simpósios Temáticos, o proponente deverá ser, no mínimo, graduado. Estudantes de graduação poderão inscrever trabalhos desde que seus orientadores estejam inscritos no evento.

6. A inscrição para apresentação de trabalho deverá ser feita nas seguintes modalidades:

– Submissão Individual (o trabalho não possui coautores)

– Coautoria – coautores não cadastrados (primeira inscrição do trabalho)

– Coautoria – coautores já cadastrados (trabalho já inscrito por outro coautor)

7. Verifiquem atentamente o cronograma do evento e acompanhem a aceitação do trabalho proposto através da “área do inscrito”.

Coordenadores:
Henrique Sena dos Santos (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia),

Coriolano Pereira da Rocha Junior (UFBA)


A formação em Educação Física na Bahia

05/03/2018

Coriolano P. da Rocha Junior

No Brasil a formação acadêmica civil em nível superior da Educação Física (EF) iniciou-se em 1939, quando foi criada a Escola Nacional de Educação Física e Desportos (ENEFD)[1], vinculada a Universidade do Brasil (UB)[2]. Sua base legal foi o Decreto Lei 1.212 de 17 de abril de 1939. Pelo decreto, a ENEFD teria como funções: formar profissionais de EF; imprimir unidade teórico-prática no ensino; difundir conhecimentos da área e realizar pesquisa, além de capacitar quadros de todo o país, para que estes, ao retornarem aos seus estados de origem dinamizassem a área pelo Brasil e contribuíssem na criação de outros cursos.

Ao pensarmos a Bahia identificamos o Estado tardou a ter um Curso Superior de Educação Física. Embora tivesse ao longo dos tempos ocorrido várias tentativas, foi mesmo só em 1973 que se criou o primeiro. No caso, o da Universidade Católica de Salvador (UCSAL), em 1973, reconhecido em 23 de junho de 1977.

Sendo assim, causa estranhamento o fato de ter sido numa instituição privada, com apoio do poder público, que tenha acontecido a instalação de um Curso Superior de Educação Física na Bahia, ao contrário do que era corrente em outros lugares, onde eram nas Universidades Federais que se montavam os cursos.

Na Bahia, várias foram às tentativas para a criação de uma escola de EF e muitas, senão todas, movidas pelos próprios e poucos professores licenciados pela ENEFD. Todavia, por motivos diversos, nenhuma das investidas deu resultado e até o início da década de 1970 a Bahia continuava sem ter seu curso, ficando para trás em relação a vários estados brasileiros, inclusive alguns do nordeste.

A organização de cursos de formação de professores pelo Brasil, em sua fase inicial, seguia o mesmo padrão da ENEFD, tanto em sua organização curricular como nos métodos adotados, foi provavelmente o meio mais eficaz de moldar a EF brasileira. Na Bahia não foi diferente. É importante ressaltar que os idealizadores e articuladores do primeiro curso de EF eram quase todos graduados na ENEFD.

Esses professores, somados a outros, criaram a Associação dos Professores de Educação Física da Bahia (APEFB)[3]. Tal entidade ao longo de seu funcionamento transformou o objetivo da criação de um curso em seu interesse maior, pra tanto, constituiu uma comissão executiva. Esta comissão tinha o papel de visitar autoridades, entidades e órgãos da imprensa, visando sensibilizá-los para a criação da escola de EF.

A iniciativa da comissão ganhou repercussão nos jornais baianos, que procuravam tratar o assunto, dando destaque ao valor da criação de um curso de EF na Bahia. De certa maneira, a publicação de matérias sobre o assunto acabou sendo uma forma de pressão. Eis alguns exemplos:

  • Escola de Educação Física é importante meta para a Bahia (A Tarde, 10 de agosto de 1971)[4];
  • Comissão executiva para a Escola de Educação Física (A Tarde, 14 de agosto de 1971)[5];
  • Professores movimentam-se pela Escola de Educação Física. (A Tarde, 20 de agosto de 1971)[6];
  • Educação para o esporte (A Tarde, 24 de agosto de 1971)[7];
  • Funcionamento da Escola de Educação Física não demora (A Tarde, 26 de agosto de 1971)[8];
  • Escola de Educação Física em funcionamento é a meta (A Tarde, 17 de setembro de 1971)[9];
  • Educação Física é valor excepcional de um povo. (A Tarde, 28 de setembro de 1971)[10].

Ainda com a ideia firme de montar um Curso de Educação Física na Bahia, alguns professores, dentre outras iniciativas, procuraram uma forma de sensibilizar o então governador do Estado, Antônio Carlos Magalhães, quando de uma visita sua ao Colégio Estadual da Bahia (Central).

Os professores incluíram numa programação festiva do colégio uma demonstração de ginástica, com aproximadamente 500 alunos, ocupando, praticamente todo o espaço físico das instalações desportivas e áreas adjacentes. Após a demonstração, a comissão executiva da APEFB e mais três alunos da escola foram solicitar ao governador a instalação de uma escola de EF.

O Governador deu a seguinte resposta: “escola superior isolada na Capital eu não crio, instalamos Universidades no interior”. A comissão não recuou e fez-lhe uma contraproposta, que foi a de firmar convênio com a Universidade Católica do Salvador, para principalmente fazer uso das instalações da Vila Olímpica (propriedade do Estado). A isso, o Governador de pronto respondeu: “topo”.

Com a perspectiva da criação de um curso de EF numa instituição privada, a UCSAL, o Estado da Bahia aplicou somas de recursos públicos, tanto em instalações (Vila Olímpica), quanto em material, para viabilizar a materialização daquele que se tornou o primeiro curso na Bahia. Assim, essa posição do Governador atendeu a uma dificuldade apontada pela UCSAL (quando em outro momento se tentou a instalação), ausência de espaços, dando margem à criação do curso.

Em relação a esse fato, o jornal A Tarde, em 29 de junho de 1972[11] apresentou a seguinte matéria: “Educação Física tem Escola na Bahia”

Na oportunidade, o Governador Dr. Antônio Carlos Magalhães manifestou a disposição do seu governo em prestigiar a juventude universitária em particular, e a toda mocidade da Bahia, em geral, adiantando que, com este convênio, a juventude terá condições de realizar suas atividades, trazendo assim benefícios não só para o Governo, como para a UCSAL e para toda a comunidade baiana.

A partir de então, com a afirmação do convênio entre UCSAL e o estado da Bahia, o grupo de professores viveu meses de expectativa para a aprovação do curso no Conselho Universitário e sua criação efetiva e ainda, a realização do vestibular. Foi só em 27 de dezembro de 1972, após reunião do Conselho Universitário, que o curso de EF da UCSAL foi aprovado, com o início de seu funcionamento previsto para 1973.

Vemos então que a meta maior, instalação de um curso de EF foi alcançada e isso, a partir de um convênio entre uma Universidade já existente, que faria uso de sua estrutura acadêmica e o Estado, que entraria basicamente com instalações e equipamentos na esfera esportiva. A fase seguinte seria a viabilização do funcionamento do curso.

Cabe salientar que a efervescência para a criação e subseqüente materialização do primeiro curso de EF na Bahia (1973), se deu numa época em o país vivia um contexto político no qual os ventos democráticos estavam reprimidos.

Assim, a perspectiva de formação estava pautada por esse contexto e mesmo, pelas possibilidades teóricas da área, que claramente se diferem do entendimento que hoje podemos ter. E foi assim, nesse contexto e nessas condições que o curso se iniciou.

A estrutura curricular do curso de EF da UCSAL possuía 36 disciplinas. Era perceptível a separação entre as disciplinas para homens e para mulheres, mais notadamente nos 5º e 6º semestres, mas ambos os gêneros eram obrigados a cumprir 36 disciplinas para a conclusão do curso. Das 36 disciplinas do currículo da UCSAL na sua fundação, 05 organizavam seus conteúdos à luz das Ciências Humanas, 06 tratavam do conhecimento pedagógico, 08 se pensavam com base nas Ciências Biológicas e 17 eram de cunho técnico-desportivo.

Sendo assim, a Bahia tardiamente instalou um Curso Superior em Educação Física e ainda, também de forma diferente de outras localidades, isto se deu numa instituição particular. Foi só em 1988 que a Universidade Federal da Bahia criou o seu curso. Certamente, este cenário e estas peculiaridades deram e dão a Bahia, um tom diferente na formação e atuação na área da Educação Física.

 

[1] A partir da reforma universitária de 1968, a ENEFD deixa de ser escola padrão e se torna a ainda hoje existente Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

[2] Na atualidade é a Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

[3] Esta entidade trabalhava na organização da Educação Física e esportes na Bahia, numa tentativa de organizar e sistematizar a área e suas atividades no estado.

[4] A Tarde, 10 de agosto de 1971, p. 9.

[5] A Tarde, 14 de agosto de 1971, p.10.

[6] A Tarde, 20 de agosto de 1971, p. 12.

[7] A Tarde, 24 de agosto de 1971, p.4.

[8] A Tarde, 26 de agosto de 1971, p.7.

[9] A Tarde, 17 de setembro de 1971, p.12.

[10] A Tarde, 28 de setembro de 1971, p.12.

[11] A Tarde, 29 de junho de 1972, p.13.

Este texto tempo por base o artigo – PRIMEIRO CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA NA BAHIA – TRAJETÓRIAS E PERSONAGENS – de autoria de Coriolano Rocha Junior, Roberto Gondim Pires e Felipe Marta, publicado na Revista Brasileira de Ciências do Esporte,  v. 36, n. 1, p. 205-223, jan./mar. 2014


A Ginástica Rítmica em Salvador

11/12/2017

Maria Elisa Gomes Lemos

Em Salvador, as experiências esportivas se desenvolveram em diferentes tempos, sob variadas influências e com contextos diversos. As práticas iniciais tiveram nos clubes e nas entidades reguladoras, um aparato organizacional, que colaborou com uma maior estruturação de algumas modalidades.

Nesse caso, o das modalidades primeiras, falamos de um começo que se deu entre fins do século XIX e início do XX. Todavia, também em outros tempos, até bem recentes, a cidade viu surgir e se estabelecer uma prática, que de certo modo, é também mais “nova” em outros espaços e aqui, falamos da Ginástica Rítmica.

Sabemos que a ginástica, como atividade geral, tem seu termo associado a uma ação educativa, de formação do corpo, praticada em diferentes ciclos históricos da humanidade e, portanto, dessa forma, assumindo feições e sentidos variados.

No caso, a Ginástica Rítmica, prática que em sua estrutura oficial e competitiva é ainda exclusivamente feminina, tem suas bases em outras atividades da ginástica, ou seja, importa dizer que ela não foi inventada e sim, se compôs com fundamentos de outras ações das ginásticas que já eram conhecidas.

A Ginástica Rítmica se caracteriza por associar em sua execução, movimentos corporais de rara beleza, de grande exigência física, tendo sempre um fundo musical e o uso de implementos e equipamentos diversos.

A Ginástica Rítmica incorpora em seus movimentos elementos de ordem natural e ao mesmo tempo os sistematizados e sua prática expressa tanto à singeleza de expressões e representações, quanto à dureza das determinações extrínsecas ao praticante e ainda, faz uso de implementos em suas atividades.

Mais que tudo, nos importa aqui falar sobre a Ginástica Rítmica em Salvador.

Se para outros esportes o clube foi fundamental, na Ginástica Rítmica, a escola foi e ainda é um espaço que colaborou com sua estruturação e desenvolvimento e aqui,  a Escola Normal da Bahia, mais tarde denominado de Instituto Central de Educação Isaías Alves – ICEIA, teve papel central.

Neste espaço vimos se constituir a trajetória de um novo esporte na cidade do Salvador, a Ginástica Rítmica, com Dulce Suzart.

A Professora Dulce é egressa do curso para professores da Escola Nacional de Educação Física, no Rio de Janeiro (1951-1953). Em seu trabalho, ela deu prosseguimento às atividades de Ginástica Feminina, como era denominada em 1954, em substituição a professora de Dança Odete Franco.

Em Salvador, outras ações colaboraram para a organização da Ginástica Rítmica e uma foi a implantação de Escolinhas de Iniciação Esportiva no nosso estado, onde esta modalidade esteve contemplada, com destaque, a década de 1970.

O Serviço Social da Indústria – SESI foi a instituição que efetivamente iniciou nesta década, propostas concretas para um programa de iniciação esportiva, mais precisamente em 1973, com a realização do Curso de Iniciação Esportiva promovido pelo Departamento Nacional em parceria com o Departamento Regional – Bahia. Este curso teve como docentes, professores da Escola Nacional de Educação Física e Desportos e a partir dele, foram selecionados professores que passaram a atura com os esportes, nas escolinhas, inclusive a de Ginástica Rítmica.

Nessa mesma época, Salvador viu surgir o primeiro de Educação Física, que foi o da Universidade Católica do Salvador – UCSAL. Tal curso colaborou com a formação de profissionais especializados, que passaram a atuar com a modalidade e em alguns casos, após terem sido praticantes.

Assim, em Salvador, as práticas de Ginástica Rítmica, que se iniciaram no espaço do hoje ICEIA, tiveram continuidade e expansão junto ao SESI, já contando com a ação docente de profissionais que passaram pelo próprio curso do SESI, mas que também tiveram formação pela UCSAL.

Nesta linha de intervenção sobre a prática da Ginástica Rítmica, contando com pessoas que além de trabalharem com a modalidade, também foram atletas, o exporte teve em Salvador um cenário de desenvolvimento e aceitação, se estendendo até os tempos atuais e atraindo interesse de praticantes e de docentes, que continuam a lidar com as experiências de tal exporte.

Assim, vimos que Salvador, nesse caso, conviveu com um outro tipo de construção esportiva. Se inicialmente os clubes foram essenciais, neste caso, os espaços escolares assumiram centralidade.

 

 


A GINÁSTICA COMO PRÁTICA EDUCATIVA NA BAHIA (1850-1920)

17/07/2017

Aline Gomes Machado

O século XIX, no Brasil, representou um momento de mudanças significativas nos diversos setores. Via-se a efervescência de uma busca pela modernização do país. Civilização e modernidade se convertiam, neste momento, em palavras de ordem; virando instrumento de batalhas, além de fotografias de um ideal alentado.

 A Bahia, como a antiga capital do país, não ficou de fora desse processo. Também ela viu fervilhar o desejo pela modernidade, por novos ares, modos de vida, novos comportamentos e hábitos, inclusive, os de saúde e higiene.

Sabemos que a essa época, Salvador era uma cidade sem nenhum tipo de cuidado com o esgoto, estava sempre suscetível a moléstias infectocontagiosas, que atacavam sua população. Especialmente, a camada negra e pobre era a mais massacrada pelas epidemias que tomavam a cidade, já que era mais exposta às situações de risco sanitário.

Muito em função disso e por possuir em suas terras, uma escola médica, tida como um cenário de ciência, um dos discursos de modernização na Bahia assentou-se no pressuposto de que o saber científico possuía uma proposição especial para promover o desenvolvimento.

Dessa forma, a ciência tornou-se fundamental, por, pretensamente, apresentar caminhos objetivos para solucionar os problemas sociais, especialmente a ciência médica. Sendo assim, vimos que a camada ‘letrada, científica e lógica’, apoiada nos poderes políticos, dirigiu diretamente o projeto de modernidade, inclusive o baiano, justo por conta do papel de destaque dado ao conhecimento científico.

Assim, na Bahia, pautados nos pressupostos higienistas, os senhores da ciência constatavam as mazelas e indicavam os meios para se atingir os objetivos de uma melhor higiene, como podemos perceber no Relatório do Conselho Interino de 1856, elaborado pelo secretário da Commissão de Hygiene Publica, Dr. Malaquias Avares dos Santos:

Nas demais comarcas existem também muitas causas de insalubridade, como sejam mais geralmente habitações húmidas, e mal arejadas, alimentação irregular e de má qualidade, pântanos de todos os gêneros, e nenhum apuro na educação physica; ao que demais se ajunctam muitos vicios na educação.” moral e intelectual dos habitantes, o que se encontra ainda n’esta capital e mormente, nos seus suburbios.

O discurso médico figurou no movimento de modernidade baiano, articulando o progresso, a necessidade de higiene. A exemplo disso temos a fala de Mathias de Campos Velho, na tese apresentada para conclusão do curso de medicina na Faculdade de Medicina da Bahia em 1886, aonde afirma que a higiene:

esta quasi sempre em razão directa com a civilização de um povo e constitue fonte de riqueza, porque concede dous thesouros preciosos, a saude e a ordem (p.70) e, neste sentido diz, também, que o homem civilisado tem sempre em vista: a hygiene geral (p.67).

Dentre as estratégias elaboradas para atingir a higiene necessária, os higienistas reconheciam a importância de uma educação que se enquadrasse nos objetivos desse movimento. Objetivos esses que não se restringiam ao controle das variáveis físicas, biológicas, mas também buscavam uma retidão moral, uma disciplinarização necessária para atender as demandas sociais da época. Assim, os higienistas indicavam quais medidas deveriam ser tomadas pela população e governo, inclusive nas instituições escolares.

Contando com o apoio de articulistas, os higienistas apontavam como elemento basilar para formar o homem higiênico, o cuidado com o corpo, onde a prática de atividades físicas possuía fundamental importância. Dentre eles, a ginástica aparecia como a prática dileta.

Sabemos que a ginástica, como uma prática educativa, era tratada como algo que atuaria na formação de novos corpos e mentes, tida como uma extensão dos poderes e saberes gerados pela higiene, ganhando assim, a defesa de médicos e articulistas que se encarregavam de garantir os porquês da importância dessa atividade, não apenas fundamentando os benefícios corporais, mas também para formação moral do ‘homem vigoroso’.

Como justificativas a este apoio a uma nova ação ‘educativa’, a ginástica, encontramos nos jornais baianos questionamentos, inclusive, sobre a forma como os mais ricos educavam seus filhos. O Correio Mercantil (02 de junho de 1838, p.02) apontava que “os mimos e branduras com que as pessoas mais ricas e poderosas custumão criar os filhos os fazem commummente aleminados e de débil compleição”, e coloca a ginástica “com o exercício acertado” como corretiva desta situação, e segue garantindo que “a gymnastica, porém, nas cidades he absolutamente precisa, não para formar arlequins, como o para cuidado, mas para educar homens vigorosos”.

Por conta de pensamentos como esse, os discursos voltaram-se, então para a prática da ginástica como instrumento capaz de fornecer os idealizados objetivos dessa sociedade modernizada, civilizada e higiênica.

A partir da influência de um saber científico, os propósitos conferidos à prática metódica se tornaram mais expressivos com o passar do século XIX, demarcando que a ginástica valorizada era aquela cujos princípios básicos seriam a disciplina, a saúde e a higiene, distanciando-a de uma prática mais livre e expressiva. Era preciso uma ‘ginástica científica’ que se enquadrasse nos ideais modernizadores e higiênicos, que apresentasse caminhos para resolver as mazelas sociais que se circundavam todo país.

Nesse sentido, o Brasil e a Bahia, sob o prisma do higienismo, esforçando-se para acompanhar o desenvolvimento dos países modernos do continente europeu, adotavam muitas de suas práticas culturais e educacionais como símbolos de modernidade. Se na Europa a ginástica era parte da educação oferecida pelos principais colégios, aqui, ela seria utilizada num sentido semelhante.

A tese Hygiene Pedagogica, de Umbelino Heraclio Muniz Marques, apresentada a Faculdade de Medicina da Bahia, procurou demonstrar como uma educação higiênica, digamos assim, seria o símbolo de uma modernidade

A higiene pedagógica, que aliás age decisivamente sobre o desenvolvimento da creança, e sobre a conservação de sua saude, ainda nos paizes, mais adiantados deixa muito a desejar…(1886, p.01).

O mesmo Umbelino ainda afirma como uma educação higiênica “adapta todas as potencias physycas, intellectuaes e moraes de cada individuo á função plena do papel que lhe esteja destinado desempenhar na coletividade” (p.02). Perceba como a preocupação está centrada em tornar harmônica esta tríade das faculdades humanas para que o sujeito possa desempenhar seu papel sem alterar a ordem social desejada, que neste caso é a ordem para o progresso, a modernização.

Desta forma, nesse momento aqui tratado, vimos, na Bahia, um movimento que visou, sobretudo, civilizar os costumes, moralizar as condutas e moldar comportamentos e corpos para alicerçar as bases da sociedade higiênica e moderna. Este movimento configurou as principais estratégias do projeto higienista. Essa foi à intenção e motivação, agora saber como se deu e mesmo se alcançou tal objetivo, fica para outros escritos.