Futebol e tensões sociais na Bahia

12/06/2019

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

 

Na Bahia, sem dúvida, o futebol desde seu início foi o esporte de maior representatividade, que mais despertou interesse e mobilização popular.

Sobre o futebol baiano e seus primórdios, Leal (2002) afirma que:

na Bahia, os rapazes desejavam praticar aquela modalidade de esportes, quando chegou à cidade do Salvador, o estudante José Ferreira, de alcunha Zuza, que tinha concluído seu curso na Inglaterra e viria para empregar-se no Bank of London, nesta capital (p.180).

Na Bahia, a influência inglesa esteve diretamente ligada ao início da experiência esportiva, inclusive no futebol. Também se sabe que em Salvador e mesmo no estado da Bahia, as vivências com os esportes se davam em espaços improvisados e adaptados, a partir de áreas comuns da cidade, a exemplo de praças, largos e outros e assim também aconteceu com o futebol.

Sobre os jogos iniciais, Santos (2010, p.54) afirma que:

o local onde ocorreriam os embates seria o Campo da Pólvora. Localizado no distrito de Nazaré, o campo foi ligeiramente reformado, cercado e nivelado. A sua escolha deveu-se também pela sua ótima localização em decorrência da facilidade de se chegar naquele lugar. Praticamente todas as linhas de bonde passavam por aquela região. Sem a existência de arquibancadas o primeiro campeonato contou com o empréstimo de cadeiras por um circo que estava na cidade para a acomodação das famílias dos jogadores e demais autoridades.

Sobre os espaços adaptados para a prática do esporte, o Diário de Notícias[1] assim escreveu:

na Bahia, porem, ainda se morre de tédio, de aborrecimento… Não fosse o gosto pelo sport, actualmente tão accentuado, e aquellas partidas em que se apagavam os dignos moços em bellos combates – ainda assim num campo impróprio – e não sabemos o que seria da Bahia, cada dia mais decahiada!

No caso do futebol, as práticas iniciais estavam muito associadas a condição de modernização da cidade, de fazer acontecer em terras soteropolitanas, experiências corporais que já se davam na Europa e assim, sua prática era interpretada como um ato de civilidade, algo nobre. Exemplo está na matéria abaixo:

correu brilhante e animadamente a correcta diversão deste tão bemquisto divertimento que entre nós tanto acolhimento tem adquirido. Ao signal dado, os clubes Victória e São Paulo Bahia principaram os renhidos ataques, tendo sempre, no primeiro tempo, o São Paulo Bahia se defendido heroicamente, no segundo tempo, porem, os lutadores do Victoria conseguiram fazer dos pontos, sendo vivamente aclamados.[2]

Em contrapartida, a mesma prática, quando vivida por estratos sociais economicamente inferiores, era tida como rude, bruta, não digna, como indicado na seguinte matéria:

moradores à Rua Ferreira França, ao Polytheama, estão inhibidos de chegar as jannelas das respectivas residências, porque garotos, de manhã a noite, jogam bola, com uma gritaria infernal, com gestos e palavras obscenas. Os guarda civis que ali fazem seu quarto de policiamento, não tem ouvidos para ouvir taes offensas a moral e nem energia para cohibilos ao jogo perene.[3]

Vemos assim, que as experiências esportivas acabavam sendo tratadas como um espaço de distinção social, fazendo refletir as dinâmicas sociais e culturais vividas na sociedade baiana.

Se em seu início a vida esportiva baiana esteve ligada diretamente a presença inglesa, também o setor de serviços e a economia da cidade viviam esta influência. Vivendo uma condição de decadência econômica e política, a Bahia e Salvador, em seu cotidiano, conviviam com carências em vários serviços públicos: transporte, saneamento, iluminação, moradia, saúde, energia, limpeza urbana, já se apontando problemas com o uso desmedido de recursos naturais. Dessa forma, Salvador estava presa a uma lógica econômica que, se não impediu, certamente limitou as aspirações de um maior crescimento e de progresso e ainda, provocava conflitos sociais, que se refletiram também no futebol.

Já no início do século XX, o futebol baiano já contava com uma plateia que crescia em número e interesse. Plateia que já formava gosto por determinadas equipes, em detrimento de outras, fazendo ecoar por vezes as formas de ver a presença estrangeira na cidade.

Na Bahia, a Liga Baiana de Sports Terrestre, fundada em 1904, cuidava da organização do futebol e de seu certame e já nos primeiros anos, contou com dificuldades, que não se deram por conta só do esporte em si, mas também de outros aspectos da vida na cidade.

Alguns problemas marcaram a desistência de organizar o campeonato pela Liga Bahiana. O primeiro se deu ainda em 1906: numa partida[4], os jogadores do Internacional de Cricket (equipe formada por ingleses) foram ostensivamente hostilizados pelo público presente. Essa atitude da plateia presente ao jogo foi alvo da imprensa, que a analisou e a relacionou, segundo suas impressões, ao próprio estado de desenvolvimento da Bahia e dos cidadãos de Salvador.

Ao abordar o ocorrido, o Diário de Notícias[5] assim se posicionou:

é de lamentar que uma malta de desocupados perturbem as belas partidas a que o público acorre tão cheio de curiosa satisfação, prejudicando os movimentos dos jogadores, fazendo-os escutar ofensas quando perdem e dando triste idéia dos nossos foros de civilização. Convém notar que o Internacional é composto de ingleses que devem ter de nossa parte, como hóspedes que são, todas as distinções. Achamos que a polícia bem podia sanar esta inconveniência que vai se tornando um péssimo costume.

Em sua análise sobre o fato, Santos (2010, p.71) assevera que:

talvez uma das principais lamentações dos periódicos relacione-se com o fato de que o clube hostilizado era composto por ingleses. Em todas as notas temos uma sensação de subserviência para com os ingleses, uma vez que estes, pela origem europeia, são os referenciais de bom comportamento e civilidade.

Esse problema fez com que a Liga se reunisse e procurasse sanar as dificuldades surgidas, principalmente a ideia do Internacional de abandonar a competição – fato que se confirmou, mesmo com as atitudes solidárias dos demais clubes e da Liga Bahiana. Essas instituições fizeram questão de rechaçar a atitude popular, considerando-a incoerente com as normas civilizadas do esporte.

Essa reação dos clubes, de sua entidade organizativa e de parte da imprensa demonstrou uma noção elitizante e preconceituosa, a de que a população em geral não sabia como se portar diante de uma nova prática tipicamente moderna, o futebol, que, segundo seus padrões, exigia atitudes cavalheirescas e acima de tudo gentis, expressando ritos e normas de comportamento caracterizados como comuns a elite soteropolitana e aos ingleses residentes em Salvador.

Outro problema decisivo na atuação da liga foi que, com o progressivo aumento de interesse pelo futebol, esse acabou assumindo âmbitos maiores do que o esperado, incentivando rivalidades e exacerbando a competitividade. Este processo chegou ao extremo nos anos de 1911 e 1912, quando a Liga efetivamente desistiu da promoção de campeonatos.

Em 1912, o campeonato da Liga Bahiana, o das elites, viveu uma crise que foi motivada pela intensa e “deseducada” participação popular nos jogos. Para os dirigentes da entidade, o envolvimento e o interesse da população pelo futebol acarretaram a “perda de controle” das competições. Por conta disso, a Liga Bahiana desistiu de organizar o campeonato.

Com isso, a Liga Brazileira de Sports Terrestre, que foi fundada em 1913, de caráter mais popular, seguiu organizando o futebol na Bahia, sem contar com a participação dos primeiros clubes.

Assim, vimos que as tensões econômicas e sociais que a sociedade baiana vivia, também se repercutiram no futebol. O processo de distinção social, comum na comunidade baiana, cindida entre classes e etnias diferentes, também se fez presente no futebol, a partir da criação de ligas variadas, que representavam, estratos sociais diversos. De toda forma, o futebol baiano seguiu e segue existindo, como uma amostra do que é seu povo, suas tensões, modos de vida, de ser, de se colocar em sociedade, seja no cenário local ou nacional.

Referências:

LEAL, Geraldo da Costa. Perfis urbanos da Bahia: os bondes, a demolição da Sé, o futebol e os gallegos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2002.

ROCHA JUNIOR, Coriolano P. e SANTOS, Henrique Sena dos. Primórdios do esporte no Brasil: Salvador. Manaus: Reggo, 2016.

SANTOS, Henrique Sena dos. Uma caixinha de surpresas: Os primeiros anos do futebol em Salvador, 1901 – 1912. Monografia (Graduação em História). Departamento de Ciências Humanas e Filosofia – Colegiado de História, UEFS, Feira de Santana, 2010.

[1]Diário de Notícias, 10 de outubro de 1906, p.1.

[2]Correio do Brasil, 11 de agosto de 1903, p.1.

[3]A Tarde, 08 de dezembro de 1914, p.2.

[4]O jogo foi Victória e Internacional, em 10 de junho de 1906.

[5]Diário de Notícias, 11 de junho de 1906, p.3.

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Sobre o tênis e sua prática em Salvador: dos primeiros momentos a fundação do Clube Baiano de Tênis

07/01/2019

Por: Coriolano P. da Rocha Junior*[1]

   Em Salvador, a prática do tênis se deu de modo muito irregular nas primeiras décadas do século XX. A princípio, denominado de lawm tênis, a sua ocorrência se dava de forma tímida, sobretudo, em quadras no interior de residências de famílias abastadas da cidade. Segundo Mário Gama (1923, p. 320):

Foi ele introduzido entre nós, também pelos ingleses, que construíram um court[2] de grama, na Plataforma. A família Benn também possuía um, nesse gênero, em sua residência, ao Canela. Mas, incontestavelmente, onde se formaram os nossos melhores tenismen[3] de agora, foi no court da residência da Exma, Viuva Lydua Costa Pinto, à Vitória. Foi desse court que saíram os nossos hous (sic) e valorosos jogadores, como Mario Pereira, Macedo de Aguiar e tantos outros, tendo também (perdoem-me se o assignato), o court construído em nossa residência à Graça, sido outro fator do desenvolvimento do Tênis na Bahia.

  Sobre a introdução do tênis em Salvador, reconhecemos que esta se deu, principalmente, pela presença de muitos ingleses que residiam na cidade. Ao mesmo tempo, sabe-se que não foram apenas os ingleses os pioneiros da modalidade na cidade, mas também jovens que, ao retornarem da Europa, a trabalho ou estudo, traziam consigo bolas e manuais de práticas esportivas. Na revista Semana Sportiva há uma referência que evidencia a presença de baianos no desenvolvimento inicial do tênis:

Em 1901 e nos anos consecutivos, ao chegarem da Europa, alguns rapazes foram inquestionavelmente, o fator principal, o elemento preponderante na introdução e progresso do desporto em geral. Na Bahia já havia um court de tênis na residência da família Espinheira Costa Pinto. Construído em cimento, as suas linhas de out-side aproximavam-se de um lado, das cercas de pitangueiras; do outro de um bambuzal indiano, espesso e no fundo, de uma jabuticabeira, que era o regalo de quantos a vissem florida ou o tronco enfeitado de frutas roxas[4].

    De toda sorte, de uma forma de outra, não se pode negar que o tênis em Salvador teve uma forte influência europeia, pelos ingleses ou pelos baianos residentes na Europa. Ao que parece, as primeiras partidas de tênis estimularam os jogadores a institucionalizarem a sua prática com a criação de um campeonato regulado pela Liga Baiana de Esportes Terrestres. De acordo com Mário Gama (1923, p. 320), “a antiga Liga fez disputar um campeonato de tênis, em que tomaram parte o S. Salvador, o Vitória e o Internacional de Críquete, vencendo os representantes do primeiro”. A revista Semana Sportiva foi mais especifica ao detalhar como ocorreram as primeiras competições da modalidade:

Com o número crescente de adeptos do jogo aristocrático formaram-se diversos torneiros íntimos com e sem handicap[5], até que em 1905 a Liga Baiana de Desportos Terrestres, procurando desenvolver a sua prática, determinou a abertura de inscrições para os clubes que lhe fossem filiados, estabelecendo o primeiro Campeonato da Cidade.

Para tanto, construiu um court com as medições regulamentares, com o lastro de cinzas e betumado e as linhas marcadas a tinta branca na então moradia do Sr. Ed. Schalaepfer onde deveriam realizar-se as competições oficiais.[6].

   Apenas a partir da segunda metade da década de 1910, especificamente em 1916, que referências sobre a prática do tênis ressurgem. Um motivo principal foi a fundação do Clube Baiano de Tênis. Assim, como os outros clubes da elite soteropolitana, a agremiação alvinegra teve um início bastante modesto. A primeira sede do clube não passava de uma barraca de lona. Ficava em um terreno na Ladeira da Graça que, pertencendo à senhora Adelaide Tarquínio, foi cedido por um período de três anos. Nesse mesmo local, foram iniciadas as construções das quadras de tênis, “onde foram gastos aproximadamente 4:000$000”[7]. Um depoimento de Mário Gama, um dos primeiros sócios, revela detalhes do entusiasmo em construir as estruturas do clube.

A construção do primeiro court começava. Nós, os que havíamos aderido à ideia da fundação de um grêmio para cultivar tão lindo esporte íamos aos domingos e nos dias úteis em que o tempo nos sobrava ao terreno cedido pela Exma. Viúva Tarquínio, a fim de ajudar ao Edgar Luz que estava superintendendo os primeiros trabalhos de nivelamento[8].

   A empolgação parece ter contagiado outros jovens da cidade. Ao final da construção do court, a “natural afluência de pedidos para associados obrigou o clube a aumentar o limite de trinta para cem sócios”[9]. Com a construção das quadras, já não era possível a agremiação ter como sede uma pequena barraca. Na verdade, a construção de um prédio no mesmo terreno já havia sido planejada. Para isso os diretores do Bahiano, “em assembleia geral de 23 de janeiro de 1916 resolveram aumentar as mensalidades de 5$000 para 10$000.” Além disso, contraíram um empréstimo de 8:000$000.

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Imagem 1: Club Bahiano de Tênis (imagem de um postal).

  A nova sede seria “um pequeno pavilhão que, com o máximo de simplicidade, satisfizesse aos requisitos de conforto e higiene”. Fica evidente que o principal ideal que norteava a fundação do clube era a necessidade de retomar, na cidade, o cultivo de uma atividade considerara elitizada.

   Podemos imaginar que o interesse de reavivar o tênis na cidade tem relação com a vontade de estabelecer uma prática de distinção social, uma vez que o futebol na cidade já havia se popularizado e já não era monopolizado pelos grupos abastados. O envolvimento com a modalidade era muito custoso, até mesmo pelas despesas com a importação de equipamentos como raquetes e bolas. Deste modo, o aristocrático esporte acabou se tornando em uma possibilidade de lazer em que não haveria a presença de populares.

   O esforço de fazer do Baiano de Tênis a liderança do renascimento do tênis na Bahia se revela em memórias que destacam um interesse em ter um espaço bem estruturado, com a construção de várias quadras, inclusive de materiais diferenciados:

Quando teve de ser construído o primeiro court do Baiano, o nosso consócio engenheiro Edgar Luz que dirigia as obras, quis romper com a praxe até então aqui em voga, das quadras de cimento. E, com grande competência, fez o nosso court de uma liga de barro, tal como ora se usa em todos os países tropicais. Os resultados foram magníficos e logo foi a segunda quadra e, em seguida, a terceira, até que, agora, conta o nosso grêmio tem 4 courts, todos eles excelentes, mesmo na estação chuvosa, quando muito pouco tempo depois de um grande aguaceiro, eles por serem inteiramente permeáveis, tornam-se perfeitamente praticáveis. Nessas quadras o tênis tem se desenvolvido assombrosamente[10].

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Imagem 2: Jogadores do Clube Baiano perfilados (Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 50).

   Obviamente que com o desenvolvimento estrutural do tênis em Salvador, ocorreu um aumento significativo de referências sobre a prática do esporte na cidade. De acordo com os registros de Mário Gama (1923, p. 320):

Com a fundação, em 1916, do Clube Baiano de Tênis, nas suas quatro “quadras” o jogo tomou incremento admirável e ali se formaram e aperfeiçoaram muitos jogadores, sob os ensinamentos – é justo registrar – do grande tennismen F. Mc. Even, que, como diretor, dedicava-se extremamente, no preparo e afinamento dos seus consócios. O Bahiano de Tênis conta, dentre as suas melhores páginas, a visita do grande campeão dos Estados Unidos, Sr. Johnston, que jogou várias vezes em seus courts. Mantendo torneios anuais de duplas e simples, são campeões das quadras do alvi-negro F. Sá Macedo de Aguiar (duplas) e Mário Pereira (simples). Com a recente visita do Fluminense, A Bahia pôde mostrar bem que, em tênis, o seu adiantamento é patente, pois que, os representantes tricolores, Srs. Heberto Filgueiras e G. Prechel foram batidos, em simples, pelos nossos conterrâneos Mario Pereira e Macedo de Aguiar, que se houveram brilhantemente. Nos courts do Bahiano e Tênis está em disputa um torneio amistoso de duplas tendo-se feito representar os Clubes, Francês da Bahia, Rio Vermelho, Vitória, Associação Atlética e Baiano de Tênis.

   Como um dos principais sócios do Baiano de Tênis, Mário Gama não raramente fez questão de circunstanciar o desenvolvimento do esporte no clube marcado pelo um intercâmbio com tenistas de outros estados e países. É possível interpretar como um indício que o desenvolvimento do tênis no alvinegro não ocorreu de forma meramente espontânea. Pelo contrário, houve um constante esforço de estruturação, inclusive no tocante ao aprimoramento das técnicas e estilos de jogo. Além disso, percebe-se um esforço em apresentar os tenistas locais como não inferiores aos de outras localidades.

   Desta forma vimos as primeiras experiências de instalação da prática do tênis em Salvador e sua relação com um determinado clube e modo de ver a cidade e as relações sociais.

 

[1] Parte deste texto foi publicado em parceria com Henrique Sena dos Santos, na obra Primórdios do esporte no Brasil: Salvador (2015).

[2] Corresponde a quadra de tênis.

[3] Homem praticante e/ou interessado no tênis.

[4] Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 24.

[5] Termo inglês que significa vantagem ou desvantagem, ou o ato de dar vantagem ou desvantagem. Pode também significar obstáculo, ou incapacidade.

[6] Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 54.

[7] Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 26.

[8] Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 54.

[9] Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 26.

[10] Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 59.


FONTE NOVA: a síntese do futebol baiano, palco de sorriso e choro

06/08/2018

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

     O Estádio da Fonte Nova foi inaugurado oficialmente em 28 de janeiro de 1951, um ano após a Copa do Mundo de Futebol que o Brasil sediara e perdera para o Uruguai, em 1950. O jogo de abertura foi Botafogo x Guarany, duas equipes hoje ausentes do cenário esportivo baiano. Nesse início, a capacidade estimada de público estava em torno de 30.000 pessoas. A Fonte Nova viria para substituir o já velho Campo da Graça.

     O estádio deveria ter sido uma das sedes da Copa de 1950, fato que muito orgulharia a Bahia, por a levar para a maior festa do futebol e assim, receber em suas terras equipes, jogadores e torcidas de diferentes nações. Todavia, a obra não ficou pronta a tempo, condição que ao contrário de orgulho, acabou por gerar uma insatisfação para o baiano, não apenas por perder a chance de sediar jogos da Copa, mas também, por naquele momento, ter se sentido a margem de uma pretensa capacidade criadora e renovadora que se vivia no país. Mais uma vez a Bahia ficava de fora da festa nacional, mesmo com toda sua importância e tradição.

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Imagem 1: A Fonte Nova em sua primeira versão, a da inauguração, contando com somente um anel de arquibancadas.  Fonte: http://wwwmemoriasdafontenova.blogspot.com/2010/11/os-maiores-publicos-pagantes-da-fonte.html

     Mesmo com esse dissabor inicial, durante décadas a Fonte Nova animou tardes e noites de futebol soteropolitano e mesmo nacional, sendo palco das principais competições futebolísticas locais e brasileiras. O estádio assumiu um lugar especial no coração baiano, que além de nele viver os prazeres do futebol, acabou por ver nele, mesmo com o atraso da inauguração, um orgulho da arquitetura baiana. Obra do escritório do arquiteto Diógenes Rebouças, um dos gênios baianos, cravado próximo a um cenário a época bucólico e querido, o Dique do Tororó, que foi construído no século XVII, para ser uma frente de proteção da cidade, que então, se concentrava na parte alta e que foi aos poucos, perdendo essa função e passando a fazer parte do cotidiano soteropolitano.

     Foi essa Fonte Nova que existiu em Salvador, até que a cidade entendeu que era preciso um novo estádio, ou melhor, era necessário revigorar e ampliar a Fonte Nova, já que a original se tornara pequena para os grandes públicos que lá iam.

     A remodelação previa a construção de um segundo anel de arquibancadas, que permitiria a ampliação do público. Durante as obras, os baianos lidaram com dúvidas e inquietações quanto a capacidade de segurança do estádio, se perguntava se as bases do antigo estádio suportariam a nova estrutura e aí, se lembrava que a Bahia não foi capaz de construir o Estádio a tempo da Copa de 1950 e que mesmo após a inauguração em 1951, foi mesmo apoximadamente um ano após isso que os trabalhos foram finalizados, até então ainda havia uma condição provisória.

     Após tanta espera, dúvidas, excitações, chegava a hora da nova inauguração, se abriria um novo marco no futebol baiano.

     Era verão em Salvador, mais um dia de sol, mais um dia de futebol na Fonte Nova. A cidade para lá se virava em festa, afinal, jogariam nesta data Bahia e Vitória, os dois clubes com as maiores torcidas do estado. Outros dois grandes clubes brasileiros lá estariam, o Clube de Regatas Flamengo (Rio de Janeiro) e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense (Porto Alegre). Os jogos seriam Bahia x Flamengo, de abertura e Vitória x Grêmo, no fechamento da dupla rodada de festa. Sobre a inauguração, o Jornal dos Sports e também o Jornal do Brasil (Rio de Janeiro, 04/03/1971), além de anunciarem a programação, definiam o novo estádio como um dos maiores e mais bonitos do país, com capacidade oficial de 110.000 pessoas.

     Acontece que a jornada, ao invés de ser de festa, foi de dor. Durante a rodada, no segundo jogo, um desastre aconteceu e acabou gerando acidentes e mortes e assim, o novo estádio baiano, teve sua reabertura marcada pela dor. Em 5 de março de 1971, o Jornal dos Sports e também o Jornal do Brasil estampavam que explosão e pânico causaram a tragédia.

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                   Imagem 3: O público invade o campo.
Fonte: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/fonte-nova-tumulto-marca-festa-de-reabertura-do-anel-superior-em-1971/

     Como dito, na população sempre houve dúvida sobre a segurança no novo estádio e foi assim, que o estouro de uma lâmpada provocou estardalhaço, correria e desespero, provocando os acidentes e as mortes. Ou seja, o temor inicial acabou gerando uma onda de pavor, levando as pessoas a pensarem que seria um desabamento. Para além disso, a platéia estava acima do indicado, com pessoas espremidas em grades.

     A Fonte Nova, espaço querido do soteropolitano, templo do esporte bretão jogado em terras baianas, sempre foi palco de festas, de alegrias e comemorações, de sorrisos por vitórias, de lamentos por derrotas, mas também, em alguns momentos, de dor por tragédias. Tragédias estas que não coadunam com o espírito da torcida baiana, independente de seu time de coração, mas aconteceu e a Fonte Nova, se calou e chorou. Esta relatada foi uma, outra ainda aconteceu, mas isto fica para depois.

     Por enquanto, fiquemos com a imagem de uma Fonte Nova aberta para o Dique, que sorri para a cidade, que alegra e se alegra com a presença do público em suas arquibancadas.

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Imagem 4: A “velha” Fonte Nova, ainda antes da obra.
Fonte: http://ssa2014.blogspot.com/p/arena-fonte-nova.html

 

 

 

 

 


ANPUH – Bahia 2018 – Chamada

15/03/2018

Olá pessoal
Com alegria informamos, que mais uma vez (desde 2010) foi aprovado o Simpósio de História do Esporte e das Práticas Corporais no IX Encontro Estadual de História-Bahia.
Este ano o evento será realizado na cidade de Santo Antônio de Jesus, nas dependências da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus V, entre os dias 04 a 07 de Setembro de 2018.
Com isso, convidamos a todos e todas para participarem do evento e do simpósio, enviando seus trabalhos. Abaixo apresentamos as principais informações:

Instruções gerais para inscrições

1. O sistema de Inscrição é feito por meio eletrônico, tanto para o envio de dados quanto para o pagamento. Todos os itens destas instruções gerais devem ser lidos cuidadosamente para evitar eventuais irregularidades nas inscrições;

2. Para se inscrever, o interessado deve identificar-se em uma das modalidades abaixo, durante o período indicado no cronograma:

  • Coordenação de Simpósio Temático.
  • Coordenação de Minicurso/Oficina.
  • Coordenação de Simpósio Temático e Coordenação de Minicurso/Oficina.
  • Apresentação de trabalho em Simpósio Temático.
  • Ouvinte/Participante em Minicurso/Oficina.

Atenção: Caso o participante deseje propor um simpósio temático e também um minicurso/oficina, ele deve escolher, no preenchimento da ficha inscrição on-line, a opção correspondente a essas duas modalidades.

3. Em todas as etapas / modalidades acima, as categorias e os respectivos valores de inscrição são os da tabela abaixo:

Associado da ANPUH Não associado
Professor da educação básica…….. R$ 50,00 Professor da educação básica……… R$ 150,00
Estudante de Pós-graduação……… R$ 50,00 Estudante de graduação……………. R$ 50,00
Demais associados…………………. R$ 100,00 Estudante de Pós-graduação………. R$ 200,00
Demais participantes……………….. R$ 300,00
Participação em Minicurso/Oficina….. R$25,00

4 . Solicitamos atenção no preenchimento correto de todos os campos da ficha de inscrição, em especial nos campos “Nome” e “Título do Trabalho”, se for o caso, para evitar posteriores problemas quanto à emissão dos certificados. O preenchimento correto do campo “e-mail” também é de fundamental importância para o estabelecimento do vínculo de informações. Após o cadastro, será enviado um e-mail de confirmação contendo os dados de acesso à área do inscrito (login e senha), onde é possível imprimir novamente o boleto de inscrição, caso seja necessário;

5. Os colegas que desejarem associar-se à ANPUH deverão fazê-lo antes de se inscreverem no evento, acessando a página: http://www.anpuh.org/filiacao.

6. Uma vez paga a inscrição como não associado não será possível reverter o valor para associado;

7. Os associados da ANPUH deverão estar quites com as anuidades para fins de usufruto do valor de inscrição exclusivo às modalidades de Sócios;

8. O pagamento da inscrição deverá ser realizado até a data de vencimento registrada nos boletos bancários. Após esta data, a inscrição será cancelada automaticamente pelo sistema;

9. O inscrito poderá acompanhar a confirmação de pagamento do boleto através da área do inscrito;

10. Não haverá devolução do valor referente às inscrições. No caso de propostas de Simpósios Temáticos, Minicursos ou Oficinas que não sejam aprovadas ou efetivadas, os proponentes poderão usar sua inscrição na modalidade de apresentador de trabalho ou ouvinte.
Para a apresentação de trabalho nos Simpósios Temáticos, o proponente deverá ser, no mínimo, graduando, respeitando-se o disposto no item 15.

  • Cada participante poderá apresentar apenas 01 (um) trabalho em apenas 01 (um) simpósio temático, seja na condição de autor ou de coautor, com limite de 01 (uma) coautoria no mesmo trabalho.
  • Todos os autores ou coautores devem estar inscritos no evento e se fazer presente no momento da apresentação a fim de que recebam o certificado.
  • O inscrito deverá escolher 03 (três) Simpósios Temáticos conforme a ordem hierárquica de sua preferência. Caso não seja aceito no primeiro, será realocado na opção seguinte. A avaliação, aceitação e eliminação de trabalhos dentro do simpósio temático são realizadas pelos coordenadores de cada simpósio.
  • O número mínimo de participantes em cada simpósio temático é 12. Caso esse número não seja atingido, o simpósio será cancelado e os inscritos serão realocados na 2ª ou 3ª opção.
  • Caso o trabalho não seja aceito em nenhuma das rodadas de avaliação, o inscrito será automaticamente considerado como ouvinte, sem devolução do valor pago na inscrição.
  • O número máximo de participantes em cada simpósio é de 24 e a preferência é dada ao candidato que se inscreveu primeiro.
  • Verifique os prazos de inscrição, envio do trabalho completo e aceitação.

15. A aceitação do trabalho de graduandos está condicionada à inscrição do orientador no evento.

16. Para a publicação do trabalho nos Anais do Evento, os autores terão que obrigatoriamente submeter o texto completo até a data limite estipulada no Cronograma do Evento e apresentar a comunicação na data e horário indicado pela Comissão Organizadora.

Prazos:

Inscrição de trabalhos nos Simpósios Temáticos .. 05 de Março a 30 de Março.

Divulgação dos Trabalhos Aprovados e Cartas de Aceite .. 31 de Maio.

Envio dos Trabalhos Completos para Publicação nos Anais .. 23 de Julho.
NORMAS GERAIS PARA PROPOSIÇÃO DE TRABALHOS

Atenção: Observe atentamente todas as instruções abaixo antes de submeter seu trabalho:

Além das instruções gerais para inscrições no evento disponíveis no link http://www.encontro2018.bahia.anpuh.org/inscricoes, os itens abaixo devem ser lidos cuidadosamente para evitar irregularidades quanto à submissão de trabalhos para apresentação nos Simpósios Temáticos.

1. As propostas de comunicação deverão ser compostas, obrigatoriamente, de título e resumo, que deverão ser digitados nos campos apropriados da página de inscrições do IX Encontro Estadual de História, e de um texto completo que deverá ser anexado no local indicado até o dia 23 de Julho de 2018.

2. O título do resumo deverá conter no máximo 200 caracteres (com espaços) e o corpo do texto deverá conter no máximo 2800 caracteres (com espaços).

3. O texto completo deverá ser apresentado no seguinte formato:

– Arquivo em formato de texto (.doc ou .rtf) de no máximo 3 Mb.

– Mínimo de 06 (seis) e máximo de 10 (dez) páginas.

– Fonte Times New Roman 12, espaço entre linhas 1,5.

– Citações com mais de três linhas em destaque, com fonte 11, espaço simples.

– Margens superior e esquerda: 3,0 cm; inferior e direita: 2,0 cm.

– As notas devem ser colocadas no final do texto.

– As referências deverão seguir o formato da ABNT NBR 6023.

4. Solicitamos atenção ao preenchimento correto de todos os campos da ficha de inscrição, em especial “Nome” e “Título do Trabalho”, para evitar posteriores problemas quanto à emissão dos certificados. O preenchimento correto do campo “e-mail” também é de fundamental importância para o estabelecimento do vínculo de informações com a comissão organizadora.

5. Para a apresentação de trabalho nos Simpósios Temáticos, o proponente deverá ser, no mínimo, graduado. Estudantes de graduação poderão inscrever trabalhos desde que seus orientadores estejam inscritos no evento.

6. A inscrição para apresentação de trabalho deverá ser feita nas seguintes modalidades:

– Submissão Individual (o trabalho não possui coautores)

– Coautoria – coautores não cadastrados (primeira inscrição do trabalho)

– Coautoria – coautores já cadastrados (trabalho já inscrito por outro coautor)

7. Verifiquem atentamente o cronograma do evento e acompanhem a aceitação do trabalho proposto através da “área do inscrito”.

Coordenadores:
Henrique Sena dos Santos (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia),

Coriolano Pereira da Rocha Junior (UFBA)


A formação em Educação Física na Bahia

05/03/2018

Coriolano P. da Rocha Junior

No Brasil a formação acadêmica civil em nível superior da Educação Física (EF) iniciou-se em 1939, quando foi criada a Escola Nacional de Educação Física e Desportos (ENEFD)[1], vinculada a Universidade do Brasil (UB)[2]. Sua base legal foi o Decreto Lei 1.212 de 17 de abril de 1939. Pelo decreto, a ENEFD teria como funções: formar profissionais de EF; imprimir unidade teórico-prática no ensino; difundir conhecimentos da área e realizar pesquisa, além de capacitar quadros de todo o país, para que estes, ao retornarem aos seus estados de origem dinamizassem a área pelo Brasil e contribuíssem na criação de outros cursos.

Ao pensarmos a Bahia identificamos o Estado tardou a ter um Curso Superior de Educação Física. Embora tivesse ao longo dos tempos ocorrido várias tentativas, foi mesmo só em 1973 que se criou o primeiro. No caso, o da Universidade Católica de Salvador (UCSAL), em 1973, reconhecido em 23 de junho de 1977.

Sendo assim, causa estranhamento o fato de ter sido numa instituição privada, com apoio do poder público, que tenha acontecido a instalação de um Curso Superior de Educação Física na Bahia, ao contrário do que era corrente em outros lugares, onde eram nas Universidades Federais que se montavam os cursos.

Na Bahia, várias foram às tentativas para a criação de uma escola de EF e muitas, senão todas, movidas pelos próprios e poucos professores licenciados pela ENEFD. Todavia, por motivos diversos, nenhuma das investidas deu resultado e até o início da década de 1970 a Bahia continuava sem ter seu curso, ficando para trás em relação a vários estados brasileiros, inclusive alguns do nordeste.

A organização de cursos de formação de professores pelo Brasil, em sua fase inicial, seguia o mesmo padrão da ENEFD, tanto em sua organização curricular como nos métodos adotados, foi provavelmente o meio mais eficaz de moldar a EF brasileira. Na Bahia não foi diferente. É importante ressaltar que os idealizadores e articuladores do primeiro curso de EF eram quase todos graduados na ENEFD.

Esses professores, somados a outros, criaram a Associação dos Professores de Educação Física da Bahia (APEFB)[3]. Tal entidade ao longo de seu funcionamento transformou o objetivo da criação de um curso em seu interesse maior, pra tanto, constituiu uma comissão executiva. Esta comissão tinha o papel de visitar autoridades, entidades e órgãos da imprensa, visando sensibilizá-los para a criação da escola de EF.

A iniciativa da comissão ganhou repercussão nos jornais baianos, que procuravam tratar o assunto, dando destaque ao valor da criação de um curso de EF na Bahia. De certa maneira, a publicação de matérias sobre o assunto acabou sendo uma forma de pressão. Eis alguns exemplos:

  • Escola de Educação Física é importante meta para a Bahia (A Tarde, 10 de agosto de 1971)[4];
  • Comissão executiva para a Escola de Educação Física (A Tarde, 14 de agosto de 1971)[5];
  • Professores movimentam-se pela Escola de Educação Física. (A Tarde, 20 de agosto de 1971)[6];
  • Educação para o esporte (A Tarde, 24 de agosto de 1971)[7];
  • Funcionamento da Escola de Educação Física não demora (A Tarde, 26 de agosto de 1971)[8];
  • Escola de Educação Física em funcionamento é a meta (A Tarde, 17 de setembro de 1971)[9];
  • Educação Física é valor excepcional de um povo. (A Tarde, 28 de setembro de 1971)[10].

Ainda com a ideia firme de montar um Curso de Educação Física na Bahia, alguns professores, dentre outras iniciativas, procuraram uma forma de sensibilizar o então governador do Estado, Antônio Carlos Magalhães, quando de uma visita sua ao Colégio Estadual da Bahia (Central).

Os professores incluíram numa programação festiva do colégio uma demonstração de ginástica, com aproximadamente 500 alunos, ocupando, praticamente todo o espaço físico das instalações desportivas e áreas adjacentes. Após a demonstração, a comissão executiva da APEFB e mais três alunos da escola foram solicitar ao governador a instalação de uma escola de EF.

O Governador deu a seguinte resposta: “escola superior isolada na Capital eu não crio, instalamos Universidades no interior”. A comissão não recuou e fez-lhe uma contraproposta, que foi a de firmar convênio com a Universidade Católica do Salvador, para principalmente fazer uso das instalações da Vila Olímpica (propriedade do Estado). A isso, o Governador de pronto respondeu: “topo”.

Com a perspectiva da criação de um curso de EF numa instituição privada, a UCSAL, o Estado da Bahia aplicou somas de recursos públicos, tanto em instalações (Vila Olímpica), quanto em material, para viabilizar a materialização daquele que se tornou o primeiro curso na Bahia. Assim, essa posição do Governador atendeu a uma dificuldade apontada pela UCSAL (quando em outro momento se tentou a instalação), ausência de espaços, dando margem à criação do curso.

Em relação a esse fato, o jornal A Tarde, em 29 de junho de 1972[11] apresentou a seguinte matéria: “Educação Física tem Escola na Bahia”

Na oportunidade, o Governador Dr. Antônio Carlos Magalhães manifestou a disposição do seu governo em prestigiar a juventude universitária em particular, e a toda mocidade da Bahia, em geral, adiantando que, com este convênio, a juventude terá condições de realizar suas atividades, trazendo assim benefícios não só para o Governo, como para a UCSAL e para toda a comunidade baiana.

A partir de então, com a afirmação do convênio entre UCSAL e o estado da Bahia, o grupo de professores viveu meses de expectativa para a aprovação do curso no Conselho Universitário e sua criação efetiva e ainda, a realização do vestibular. Foi só em 27 de dezembro de 1972, após reunião do Conselho Universitário, que o curso de EF da UCSAL foi aprovado, com o início de seu funcionamento previsto para 1973.

Vemos então que a meta maior, instalação de um curso de EF foi alcançada e isso, a partir de um convênio entre uma Universidade já existente, que faria uso de sua estrutura acadêmica e o Estado, que entraria basicamente com instalações e equipamentos na esfera esportiva. A fase seguinte seria a viabilização do funcionamento do curso.

Cabe salientar que a efervescência para a criação e subseqüente materialização do primeiro curso de EF na Bahia (1973), se deu numa época em o país vivia um contexto político no qual os ventos democráticos estavam reprimidos.

Assim, a perspectiva de formação estava pautada por esse contexto e mesmo, pelas possibilidades teóricas da área, que claramente se diferem do entendimento que hoje podemos ter. E foi assim, nesse contexto e nessas condições que o curso se iniciou.

A estrutura curricular do curso de EF da UCSAL possuía 36 disciplinas. Era perceptível a separação entre as disciplinas para homens e para mulheres, mais notadamente nos 5º e 6º semestres, mas ambos os gêneros eram obrigados a cumprir 36 disciplinas para a conclusão do curso. Das 36 disciplinas do currículo da UCSAL na sua fundação, 05 organizavam seus conteúdos à luz das Ciências Humanas, 06 tratavam do conhecimento pedagógico, 08 se pensavam com base nas Ciências Biológicas e 17 eram de cunho técnico-desportivo.

Sendo assim, a Bahia tardiamente instalou um Curso Superior em Educação Física e ainda, também de forma diferente de outras localidades, isto se deu numa instituição particular. Foi só em 1988 que a Universidade Federal da Bahia criou o seu curso. Certamente, este cenário e estas peculiaridades deram e dão a Bahia, um tom diferente na formação e atuação na área da Educação Física.

 

[1] A partir da reforma universitária de 1968, a ENEFD deixa de ser escola padrão e se torna a ainda hoje existente Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

[2] Na atualidade é a Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

[3] Esta entidade trabalhava na organização da Educação Física e esportes na Bahia, numa tentativa de organizar e sistematizar a área e suas atividades no estado.

[4] A Tarde, 10 de agosto de 1971, p. 9.

[5] A Tarde, 14 de agosto de 1971, p.10.

[6] A Tarde, 20 de agosto de 1971, p. 12.

[7] A Tarde, 24 de agosto de 1971, p.4.

[8] A Tarde, 26 de agosto de 1971, p.7.

[9] A Tarde, 17 de setembro de 1971, p.12.

[10] A Tarde, 28 de setembro de 1971, p.12.

[11] A Tarde, 29 de junho de 1972, p.13.

Este texto tempo por base o artigo – PRIMEIRO CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA NA BAHIA – TRAJETÓRIAS E PERSONAGENS – de autoria de Coriolano Rocha Junior, Roberto Gondim Pires e Felipe Marta, publicado na Revista Brasileira de Ciências do Esporte,  v. 36, n. 1, p. 205-223, jan./mar. 2014


A Ginástica Rítmica em Salvador

11/12/2017

Maria Elisa Gomes Lemos

Em Salvador, as experiências esportivas se desenvolveram em diferentes tempos, sob variadas influências e com contextos diversos. As práticas iniciais tiveram nos clubes e nas entidades reguladoras, um aparato organizacional, que colaborou com uma maior estruturação de algumas modalidades.

Nesse caso, o das modalidades primeiras, falamos de um começo que se deu entre fins do século XIX e início do XX. Todavia, também em outros tempos, até bem recentes, a cidade viu surgir e se estabelecer uma prática, que de certo modo, é também mais “nova” em outros espaços e aqui, falamos da Ginástica Rítmica.

Sabemos que a ginástica, como atividade geral, tem seu termo associado a uma ação educativa, de formação do corpo, praticada em diferentes ciclos históricos da humanidade e, portanto, dessa forma, assumindo feições e sentidos variados.

No caso, a Ginástica Rítmica, prática que em sua estrutura oficial e competitiva é ainda exclusivamente feminina, tem suas bases em outras atividades da ginástica, ou seja, importa dizer que ela não foi inventada e sim, se compôs com fundamentos de outras ações das ginásticas que já eram conhecidas.

A Ginástica Rítmica se caracteriza por associar em sua execução, movimentos corporais de rara beleza, de grande exigência física, tendo sempre um fundo musical e o uso de implementos e equipamentos diversos.

A Ginástica Rítmica incorpora em seus movimentos elementos de ordem natural e ao mesmo tempo os sistematizados e sua prática expressa tanto à singeleza de expressões e representações, quanto à dureza das determinações extrínsecas ao praticante e ainda, faz uso de implementos em suas atividades.

Mais que tudo, nos importa aqui falar sobre a Ginástica Rítmica em Salvador.

Se para outros esportes o clube foi fundamental, na Ginástica Rítmica, a escola foi e ainda é um espaço que colaborou com sua estruturação e desenvolvimento e aqui,  a Escola Normal da Bahia, mais tarde denominado de Instituto Central de Educação Isaías Alves – ICEIA, teve papel central.

Neste espaço vimos se constituir a trajetória de um novo esporte na cidade do Salvador, a Ginástica Rítmica, com Dulce Suzart.

A Professora Dulce é egressa do curso para professores da Escola Nacional de Educação Física, no Rio de Janeiro (1951-1953). Em seu trabalho, ela deu prosseguimento às atividades de Ginástica Feminina, como era denominada em 1954, em substituição a professora de Dança Odete Franco.

Em Salvador, outras ações colaboraram para a organização da Ginástica Rítmica e uma foi a implantação de Escolinhas de Iniciação Esportiva no nosso estado, onde esta modalidade esteve contemplada, com destaque, a década de 1970.

O Serviço Social da Indústria – SESI foi a instituição que efetivamente iniciou nesta década, propostas concretas para um programa de iniciação esportiva, mais precisamente em 1973, com a realização do Curso de Iniciação Esportiva promovido pelo Departamento Nacional em parceria com o Departamento Regional – Bahia. Este curso teve como docentes, professores da Escola Nacional de Educação Física e Desportos e a partir dele, foram selecionados professores que passaram a atura com os esportes, nas escolinhas, inclusive a de Ginástica Rítmica.

Nessa mesma época, Salvador viu surgir o primeiro de Educação Física, que foi o da Universidade Católica do Salvador – UCSAL. Tal curso colaborou com a formação de profissionais especializados, que passaram a atuar com a modalidade e em alguns casos, após terem sido praticantes.

Assim, em Salvador, as práticas de Ginástica Rítmica, que se iniciaram no espaço do hoje ICEIA, tiveram continuidade e expansão junto ao SESI, já contando com a ação docente de profissionais que passaram pelo próprio curso do SESI, mas que também tiveram formação pela UCSAL.

Nesta linha de intervenção sobre a prática da Ginástica Rítmica, contando com pessoas que além de trabalharem com a modalidade, também foram atletas, o exporte teve em Salvador um cenário de desenvolvimento e aceitação, se estendendo até os tempos atuais e atraindo interesse de praticantes e de docentes, que continuam a lidar com as experiências de tal exporte.

Assim, vimos que Salvador, nesse caso, conviveu com um outro tipo de construção esportiva. Se inicialmente os clubes foram essenciais, neste caso, os espaços escolares assumiram centralidade.

 

 


A GINÁSTICA COMO PRÁTICA EDUCATIVA NA BAHIA (1850-1920)

17/07/2017

Aline Gomes Machado

O século XIX, no Brasil, representou um momento de mudanças significativas nos diversos setores. Via-se a efervescência de uma busca pela modernização do país. Civilização e modernidade se convertiam, neste momento, em palavras de ordem; virando instrumento de batalhas, além de fotografias de um ideal alentado.

 A Bahia, como a antiga capital do país, não ficou de fora desse processo. Também ela viu fervilhar o desejo pela modernidade, por novos ares, modos de vida, novos comportamentos e hábitos, inclusive, os de saúde e higiene.

Sabemos que a essa época, Salvador era uma cidade sem nenhum tipo de cuidado com o esgoto, estava sempre suscetível a moléstias infectocontagiosas, que atacavam sua população. Especialmente, a camada negra e pobre era a mais massacrada pelas epidemias que tomavam a cidade, já que era mais exposta às situações de risco sanitário.

Muito em função disso e por possuir em suas terras, uma escola médica, tida como um cenário de ciência, um dos discursos de modernização na Bahia assentou-se no pressuposto de que o saber científico possuía uma proposição especial para promover o desenvolvimento.

Dessa forma, a ciência tornou-se fundamental, por, pretensamente, apresentar caminhos objetivos para solucionar os problemas sociais, especialmente a ciência médica. Sendo assim, vimos que a camada ‘letrada, científica e lógica’, apoiada nos poderes políticos, dirigiu diretamente o projeto de modernidade, inclusive o baiano, justo por conta do papel de destaque dado ao conhecimento científico.

Assim, na Bahia, pautados nos pressupostos higienistas, os senhores da ciência constatavam as mazelas e indicavam os meios para se atingir os objetivos de uma melhor higiene, como podemos perceber no Relatório do Conselho Interino de 1856, elaborado pelo secretário da Commissão de Hygiene Publica, Dr. Malaquias Avares dos Santos:

Nas demais comarcas existem também muitas causas de insalubridade, como sejam mais geralmente habitações húmidas, e mal arejadas, alimentação irregular e de má qualidade, pântanos de todos os gêneros, e nenhum apuro na educação physica; ao que demais se ajunctam muitos vicios na educação.” moral e intelectual dos habitantes, o que se encontra ainda n’esta capital e mormente, nos seus suburbios.

O discurso médico figurou no movimento de modernidade baiano, articulando o progresso, a necessidade de higiene. A exemplo disso temos a fala de Mathias de Campos Velho, na tese apresentada para conclusão do curso de medicina na Faculdade de Medicina da Bahia em 1886, aonde afirma que a higiene:

esta quasi sempre em razão directa com a civilização de um povo e constitue fonte de riqueza, porque concede dous thesouros preciosos, a saude e a ordem (p.70) e, neste sentido diz, também, que o homem civilisado tem sempre em vista: a hygiene geral (p.67).

Dentre as estratégias elaboradas para atingir a higiene necessária, os higienistas reconheciam a importância de uma educação que se enquadrasse nos objetivos desse movimento. Objetivos esses que não se restringiam ao controle das variáveis físicas, biológicas, mas também buscavam uma retidão moral, uma disciplinarização necessária para atender as demandas sociais da época. Assim, os higienistas indicavam quais medidas deveriam ser tomadas pela população e governo, inclusive nas instituições escolares.

Contando com o apoio de articulistas, os higienistas apontavam como elemento basilar para formar o homem higiênico, o cuidado com o corpo, onde a prática de atividades físicas possuía fundamental importância. Dentre eles, a ginástica aparecia como a prática dileta.

Sabemos que a ginástica, como uma prática educativa, era tratada como algo que atuaria na formação de novos corpos e mentes, tida como uma extensão dos poderes e saberes gerados pela higiene, ganhando assim, a defesa de médicos e articulistas que se encarregavam de garantir os porquês da importância dessa atividade, não apenas fundamentando os benefícios corporais, mas também para formação moral do ‘homem vigoroso’.

Como justificativas a este apoio a uma nova ação ‘educativa’, a ginástica, encontramos nos jornais baianos questionamentos, inclusive, sobre a forma como os mais ricos educavam seus filhos. O Correio Mercantil (02 de junho de 1838, p.02) apontava que “os mimos e branduras com que as pessoas mais ricas e poderosas custumão criar os filhos os fazem commummente aleminados e de débil compleição”, e coloca a ginástica “com o exercício acertado” como corretiva desta situação, e segue garantindo que “a gymnastica, porém, nas cidades he absolutamente precisa, não para formar arlequins, como o para cuidado, mas para educar homens vigorosos”.

Por conta de pensamentos como esse, os discursos voltaram-se, então para a prática da ginástica como instrumento capaz de fornecer os idealizados objetivos dessa sociedade modernizada, civilizada e higiênica.

A partir da influência de um saber científico, os propósitos conferidos à prática metódica se tornaram mais expressivos com o passar do século XIX, demarcando que a ginástica valorizada era aquela cujos princípios básicos seriam a disciplina, a saúde e a higiene, distanciando-a de uma prática mais livre e expressiva. Era preciso uma ‘ginástica científica’ que se enquadrasse nos ideais modernizadores e higiênicos, que apresentasse caminhos para resolver as mazelas sociais que se circundavam todo país.

Nesse sentido, o Brasil e a Bahia, sob o prisma do higienismo, esforçando-se para acompanhar o desenvolvimento dos países modernos do continente europeu, adotavam muitas de suas práticas culturais e educacionais como símbolos de modernidade. Se na Europa a ginástica era parte da educação oferecida pelos principais colégios, aqui, ela seria utilizada num sentido semelhante.

A tese Hygiene Pedagogica, de Umbelino Heraclio Muniz Marques, apresentada a Faculdade de Medicina da Bahia, procurou demonstrar como uma educação higiênica, digamos assim, seria o símbolo de uma modernidade

A higiene pedagógica, que aliás age decisivamente sobre o desenvolvimento da creança, e sobre a conservação de sua saude, ainda nos paizes, mais adiantados deixa muito a desejar…(1886, p.01).

O mesmo Umbelino ainda afirma como uma educação higiênica “adapta todas as potencias physycas, intellectuaes e moraes de cada individuo á função plena do papel que lhe esteja destinado desempenhar na coletividade” (p.02). Perceba como a preocupação está centrada em tornar harmônica esta tríade das faculdades humanas para que o sujeito possa desempenhar seu papel sem alterar a ordem social desejada, que neste caso é a ordem para o progresso, a modernização.

Desta forma, nesse momento aqui tratado, vimos, na Bahia, um movimento que visou, sobretudo, civilizar os costumes, moralizar as condutas e moldar comportamentos e corpos para alicerçar as bases da sociedade higiênica e moderna. Este movimento configurou as principais estratégias do projeto higienista. Essa foi à intenção e motivação, agora saber como se deu e mesmo se alcançou tal objetivo, fica para outros escritos.