APENAS UMA REFLEXÃO

28/06/2021

Coriolano P. da Rocha Junior

Neste post de hoje vou pedir licença a quem fizer a leitura, para escrever fora de meu tema básico. Hoje, considerei mais justo trazer algumas reflexões sobre este nosso tempo.

Vivemos dias em que as ações regulares cotidianas foram absolutamente modificadas por um novo, por um agente externo que chegou e fez, ou deveria fazer, pessoas, cidades e instituições alterarem seus modos, atitudes e comportamentos.

Este novo, que na verdade, mesmo diferente, acaba repetindo situações já vividas, nos trouxe uma inovadora e necessária medida do estar em sociedade, onde o sujeito diretamente tem de agir, em função de si e do outro, tudo isso, em função de possíveis formas de bem estar, ou ao menos assim deveria ser.

Esta nova realidade nos leva a pensar nas formas de ação do poder público e da pessoa. O ente público é aquele que deveria ter em conta o bem estar coletivo, pensar formas de criar redes protetivas para as pessoas e instituições e mais, ser o agente catalisador das boas falas e condutas. A pessoa, caberia se organizar e agir dentro de procedimentos, que para além de si, levem em conta o outro, assim, toda e qualquer atitude individual deve ser pensada dentro do coletivo. Desse jeito, com estas posturas saberíamos viver esta cena e a ultrapassar, na tentativa de nos fazermos melhores, de termos uma nova sociedade e novas formas de vida individual e coletiva.

Neste cenário, a educação aparece como essencial, pois, é ela que poderia e já deveria ter agido na formação desse sujeito que é capaz de entender isto que nos aparece como um novo modo de viver.

Falo aqui de uma educação que se pense para além da seriação tradicional, que vá mais distante do que a transmissão de saberes estandartizados, muito embora estes sejam absolutamente necessários, uma educação que possa pensar uma vida em sociedade que se faz coletiva e que valoriza o indivíduo naquilo que ele tem de melhor, capacidade de se relacionar, onde a empatia e o bem querer sejam o normal cotidiano.

De forma diferente daquilo que possamos pensar como o ajustado, as cenas diárias de nossa sociedade tem nos mostrado outras realidades, que nos fazem pensar e repensar sobre tudo que foi feito e vivido até agora, mais diretamente na educação.

Num tempo onde o poder público deveria assumir o protagonismo das boas ações de controle, segurança e apoio social, com exceções nas esferas estaduais e municipais, temos visto o governo central agir de forma temerária, num claro desrespeito a toda forma de vida e a coisa pública. Se o governo fala e age de maneira calamitosa, incitando a barbárie, gerando medo, insegurança, mal estar e mesmo caos, por seu lado, o sujeito também tem se mostrado atabalhoado e, claro, reconhecemos que estes, felizmente, não são uma maioria, mas mesmo não a sendo, sua forma de ser e estar no mundo causa perplexidade, pois, demonstra absoluto desprezo ao outro, a vida comum, só havendo espaço para o prazer imediato, para aquilo que toca a si.

Mas, de novo, nos perguntamos e a educação com isso? Se estas ações e comportamentos existem, como a educação tem agido então? Esta pergunta fica para reflexão e é nela que vamos nos ater.

Nestes tempos temos assistido um Brasil sem “ar”, asfixiado. Esta ausência de oxigênio começou quando vimos a democracia ser estrangulada e o país respirar cada vez um ar menos puro, mais poluído de ódio, de mentiras, de acentuada desigualdade, de machismo, de misoginia, de fundamentalismo religioso, de conluio de poderes, ou de arremedo destes e assim, a nação foi se esvaindo.

As mãos da tirania, do imperativo do mal se prenderam ao pescoço da nação e aos poucos foi cada vez mais apertando, sufocando. Estas mãos foram muitas e ganharam força com o ódio de classes, se avolumaram com os preconceitos e ficaram potentes com a mentira operada em função de um mal, mal este que prevê a destruição, que ganha peso na intenção de operar a desigualdade estrutural e para isso é preciso esvaziar de ar os pulmões de quem pode ou poderia gritar.

O silenciamento se opera com os likes, com o cinismo da fala distorcida, com a destruição de desejos e sonhos e a afirmação da crença na incapacidade construtiva de uma terra que ousou, algum dia, ser uma nação entre iguais.

Não basta destruir aquilo que um dia se ousou montar, mas sim, é preciso impedir as bases de uma nova construção e isto se faz destruindo a moral de um povo, sua estima, seu poder de crer e para isto servem as investidas diárias no aparato que atua como força educativa da nação.

Mais que destruir, é necessário impedir que se construa e para tal, a Educação, a Ciência, Educadoras, Educadores e Cientistas precisam ser desmontados de seus apoios, afinal, suas bases se dão junto a quem pode e deve ser operado como força para o mal, um mal que busca, exatamente, aniquilar as forças de um bem que deve trabalhar por algo maior, cidadania.

Para tal, valores precisaram ser invertidos. Saíram livros e leitura e entraram armas e tiros, saíram empatia e solidariedade, entraram individualismo e ganância, saíram cultura da paz e fraternidade, entraram ódio e intolerância, saiu o Estado e entrou o mercado, sustentado por este mesmo Estado, que agora deve só a ele servir.

Tudo isto não foi acaso, não foi erro, mas sim uma construção, projeto e vem se dando desde que as mãos da força machista, cretina, mentirosa e vil dos arremedos de poderes constituídos, apertaram o pescoço da democracia.

Numa época onde as exigências sanitárias que foram postas na sociedade passaram a demandar ações imediatas que dessem respostas efetivas e elas vieram e continuam a vir e da ciência. A ciência e seus personagens cientistas, das mais diferentes áreas rapidamente envidaram os maiores esforços para buscar soluções as diversas crises vividas e criadas. No entanto, temos visto, por mais incrível que possa parecer, uma onda de negação a própria ciência e suas capacidades de resposta e aí, esse negacionismo faz com que pensemos: como se deu a educação científica? Bem, somos obrigados a crer que ela falhou. A educação foi incapaz de trabalhar com a formação de pessoas que saibam lidar e reconhecer os saberes científicos como essenciais e nessa incapacidade, negar, duvidar, olvidar acaba sendo a fuga dos que não sabem e não querem saber e a resposta que nos vem: a educação falhou!

Outra situação que esta crise social gerou foi a acentuação das desigualdades e capacidades de acesso aos bens sociais e materiais mínimos a uma segura sobrevivência e aí, de novo, se viu o descaso e a culpabilização destes que não tem acesso por suas condições, sem falar na necessidade de acúmulo, em detrimento de quem não tem. Tudo isto mostra a ausência de empatia, de um olhar para o outro, como alguém que assim como você próprio, tem valor. O individualismo, o egoísmo, o desprezo ao outro se mostram nas atitudes irresponsáveis do ponto de vista da segurança sanitária, pois, mais vale aquilo que me toca de imediato, do que qualquer coisa que se refira ao outro. E aí, de novo: e a educação? Se ela não foi capaz de construir valores éticos, afetivos e de significação social, que aconteceu: ela falhou, mais uma vez!

Se temos visto um negacionismo científico, uma ausência de amor ao outro, por outro lado, tem sido cada vez mais aguda uma virulência social, onde agressões verbais ou físicas e posturas raivosas contra quem é diferente de você acabam se tornando respostas possíveis, para quem não consegue articular uma capacidade de se relacionar e aí, as chamadas minorias acabam se tornando um alvo direto destas aberrações e aqui, chamamos de minorias, todo aquele grupo social ou pessoa que foge de uma pretensa normatividade, que é incapaz de dar respostas não violentas aos problemas sociais, fazendo de uma falsa força, sua resposta. E a educação, bem, de novo falhou! E de novo falhou por não se fazer capaz de criar uma formação que consiga reconhecer a diferença como algo essencial a vida humana.

Nisso tudo, por isso tudo, nos sentimos na obrigação de repensar aquilo que se deu até agora e da mesma forma, repensar nossa ação maior, a educação.

Uma educação que não foi capaz de atuar numa formação científica, onde saberes e sua construção devem ser vistos como essenciais a vida humana. Uma educação que não pode gerar valores, princípios e o bem maior, amor. Uma educação que não soube afirmar a diferença como essencial e comum. Bem de tudo isso, se deve dizer, não houve educação, ou melhor, sim, houve, mas numa direção contrária aquilo que possamos imaginar como valorável.

E nisso, onde nós professores nos colocamos, onde me coloco. Se educadores somos, se educador sou e a educação falhou, falhamos nós, falhei eu. Este reconhecimento e este sentimento por ele gerado pode nos incapacitar, nos paralisar ou ao contrário, pode nos mobilizar e fazer acreditar que há que se mudar e isto deve ser o sentimento que nos mobiliza, que me mobiliza. Reconhecer limites, identificar erros e acreditar que pode ser diferente e melhor é tarefa essencial do ser docente isto, nos mobiliza. Sigamos, seguirei, buscando ser melhor.


Simpósio Nacional de História

27/05/2021

Programação Simpósio de História do Esporte e das Práticas Corporais (69)

31º. Simpósio Nacional de História – ANPUH 2021

Simpósio 69: História do Esporte e das Práticas Corporais

Coordenação:

Prof. Dr. Coriolano Pereira da Rocha Junior (UFBA)

Prof. Dr. André Alexandre Guimarães Couto (CEFET/RJ)

Orientações gerais:

  • As mesas estão compostas por aproximaçáo temática.
  • As sessões acontecerão entre 14h e 16h e entre 16h e 18h.
  • Cada fala terá 15min e 1h de debate por sessão.
  • A última sessão fica guardada para avaliação e organização do simpósio para 2023.

Programação

20/07 – SESSÃO 1: 14h/16h

Sistema de Informações do Arquivo Nacional: potencialidades da pesquisa sobre o esporte e a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985)

Rafael Fortes Soares, João Manuel Casquinha Malaia Santos

Recorde: Revista de História do Esporte – um panorama de suas publicações (2008-2020)

Leonardo do Couto Gomes

Sociologia e História do Esporte: novos diálogos possíveis?

Euclides de Freitas Couto

Mídia Impressa e Esporte: Notas Históricas

Caio Cesar Serpa Madeira

20/07- SESSÃO 2: 16h/18h

Esporte, propaganda política e consenso social nas comemorações do Sesquicentenário da Independência do Brasil (1972): síntese e desdobramento de uma pesquisa

Bruno Duarte Rei

Sugestões metodológicas para o estudo de processos civilizadores a partir das práticas de lazer: uma análise psicogenética em Monte Alegre – PR

Ana Flávia Braun Vieira

Entre tangos e batuques: as danças nos clubes sociais da cidade do Salvador entre os anos de 1912 e 1935

Viviane Rocha Viana

21/07- SESSÃO 1: 14h/16h

O jogo das ressignificações: uma outra história do futebol em Porto Alegre (1903-1909)

Gérson Wasen Fraga

Masculinidades varzeanas: virilidade e idade na organização do futebol amador em Belo Horizonte (anos 1950 a 1980)

Raphael Rajão Ribeiro

O futebol e suas relações com o narcotráfico na Colômbia: uma análise introdutória

Eduardo de Souza Gomes

Qual a cor do seu grito? Copa das Confederações, Jornada de Junho de 2013 e os movimentos sociais na cidade de Fortaleza

Thiago Oliveira Braga

21/07- SESSÃO 2: 16h/18h

Urbanização, trabalho e futebol na cidade de Santos (1892 – 1920)

André Luiz Rodrigues Carreira

Filmes de esporte (futebol) como um gênero cinematográfico: uma proposta de pesquisa

Luiz Carlos Ribeiro de Sant’ana

O futuro das torcidas: das charangas à guinada antifascista na Ultras Resistência Coral

Caio Lucas Morais Pinheiro

Da fidalguia à commodity: uma história econômica do futebol mundial evidenciada no surgimento do “padrão-FIFA” (fins do século XX e início do XXI)

Raul de Paiva Oliveira Castro

22/07- SESSÃO 1: 14h/16h

O Polo Aquático Brasileiro nos Jogos Olímpicos de 1920

João Paulo Maciel de Azevedo

Polo Master – Um espaço “aquático” de memória, sociabilidade e lazer

Alvaro Vicente Graça Truppel Pereira do Cabo

Pugilistas italianos e identidade nacional no jornal imigrante Il Pasquino Coloniale (décadas de 1920 e 1930)

Igor Cavalcante Doi

A Formação do Jiu-Jitsu Brasileiro em Salvador e no Rio de Janeiro: um estudo histórico comparado

Luan Alves Machado

22/07- SESSÃO 2: 16h/18h

As Práticas Corporais no Cotidiano de uma Escola Americana no Sertão: ritos e rituais

Rúbia Mara de Sousa Lapa Cunha

Ofício dos Mestres e Pandemia na percepção dos Capoeiras: narrativas e estratégias na Roda

Zuleika Stefânia Sabino Roque

GINÁSTICA EM ACADEMIA: a práxis em Salvador entre 1975 a 1988

Amanda Azevedo Flores

A natação em Juazeiro da Bahia: registros históricos nas décadas de 1970 – 1990

Joelzio dos Santos Oliveira / Christiane Garcia Macedo

23/07- SESSÃO 1: 14h/16h

Alcyr Ferraro: materializador da formação em educação física na Bahia

Roberto Gondim Pires

Jogos Escolares na Bahia entre as décadas 1950 e 1980: Um olhar sobre a História

Natanael Vaz Sampaio Junior

História da formação de professores de Educação Física da Bahia na década de 1970

Maria Elisa Gomes Lemos

Os primórdios da formação de professores de educação física no Pará (1930-1940)

Carmen Lilia da Cunha Faro

23/07- SESSÃO 2: 16h/18h – AVALIAÇÃO FINAL E DEFINIÇÃO DA COORDENAÇÃO 2021/2023


Chamada 31 Simpósio Nacional de História

01/04/2021

Olá todas e todos
Com alegria informamos que neste ano, mais uma vez, teremos no 31º Encontro Nacional de História, o Simpósio de História do Esporte e das Práticas Corporais (Simpósio 69). Este Simpósio existe continuamente desde 2003 e se caracterizou como um espaço de encontro de pesquisadoras(es) e interessadas(os) no tema, um momento de divulgar, debater e estabelecer redes neste campo de pesquisa, contando sempre com a presença em massa de grandes produções, num ambiente agradável a todas as pessoas. Neste ano, por conta das condições sanitárias vividas, o evento será todo on-line e acontecerá entre 19 e 23 de julho. O simpósio acontecerá nos dias 20, 21, 22 e 23, sempre entre 14h e 18h.

Coordenadores
Coriolano P. da Rocha Junior (UFBA)
André Alexandre Guimarães Couto (CEFET/RJ)

Para o envio de trabalhos ao Simpósio, as condições são estas:

– Exige-se titulação mínima de Graduação.

– Cada inscrito poderá apresentar apenas 1 trabalho em apenas 1 Simpósio Temático.

– O inscrito deverá escolher 5 Simpósios Temáticos, na ordem de sua preferência. Caso não seja aceito no primeiro, a comunicação será submetida à avaliação da opção seguinte e assim por diante.

– Além do resumo expandido (mínimo de 2200 caracteres e máximo de 2.800 com espaço), é importante, mas não obrigatório, enviar o texto completo no ato de inscrição. Isso auxiliará a avaliação do(s) coordenador(es).

– Uma versão revisada do texto completo poderá ser enviada entre os dias 26 de julho a 09 de agosto de 2021.

– Na inscrição, não utilize caixa alta no texto do resumo, apenas na autoria.

– Os apresentadores de trabalho associados da ANPUH deverão estar em dia com a anuidade de 2021.

– O valor da inscrição em ST para associado é de R$60,00.

– O valor da inscrição em ST para não-associado é de R$270,00.

– O valor da inscrição em ST para não-associado professor/a de ensino fundamental e médio é de R$180,00.(necessário comprovante de atuação como professor/a de ensino fundamental e médio)

– O valor da inscrição em ST para não-associado aluno/a de pós-graduação é de R$180,00. (necessário comprovante de atuação como aluno/a de pós-graduação)

– No caso de serem 2 autores (coautoria), cada um deve fazer a inscrição individualmente no sistema. O procedimento é necessário para o sistema gerar duas formas independentes de acesso à Área do Inscrito no site.

– Um Código do Trabalho será gerado ao primeiro autor que realizar a inscrição. Para que isso ocorra, no campo Tipo de Submissão, este primeiro autor deve escolher a opção Coautoria – primeira inscrição do trabalho – e seguir normalmente com sua inscrição. Ao final do processo, um Código do Trabalho será gerado. O segundo autor basta escolher a opção Coautoria – trabalho já inscrito – e informar o Código do Trabalho gerado ao primeiro.

Informações para a elaboração dos resumos:

Título do resumo em CAIXA ALTA e em negrito; fonte Times New Roman, tamanho 12; com nome do autor alinhado à direita e as seguintes informações abaixo: titulação, instituição e e-mail do autor.

Texto do resumo: fonte Times New Roman, tamanho 12, espaçamento simples; máximo de 15 linhas e 3 palavras-chave.


Instruções para a submissão dos trabalhos completos (não obrigatório):

– Os arquivos devem ser em formato .doc (“documento de Word”) e enviados exclusivamente por meio da Área de Inscrito, aqui no site do SNH.

– É possível enviar uma primeira versão do trabalho completo no ato de inscrição e uma versão definitiva para publicação nos anais entre os dias 26 de julho a 09 de agosto de 2021.

Instruções sobre a forma do texto completo:

1. Formato: A4;

2. Fonte: Times New Roman;

3. Tamanho: 12;

4. Espaçamento: 1,5;

5. Número máximo de 15 laudas e mínimo de 10 laudas, incluindo as referências;

6. Margens: superior e inferior 2,5; esquerda e direita 3,0;

7. Alinhamento: justificado;

8. Título em maiúsculo, centralizado e em negrito;

9. Nome do(s) autor(es) alinhado à direita depois de uma linha de espaço do título;

10. Vinculação institucional, logo abaixo do(s) nome(s) do(s) autor(es), também alinhado à direita;

11. Endereço eletrônico logo abaixo da vinculação institucional;

12. Citações com até 3 (três) linhas deverão vir no corpo do texto, sem itálico, com chamada autor-data entre parênteses. As citações com mais de 3 (três) linhas devem vir fora do corpo do texto, tamanho 10, com recuo de 4 cm;

13. Caso o trabalho contenha imagens, estas deverão estar em 300 dpi no formato TIF ou JPEG e colocadas no próprio texto.

14. As indicações bibliográficas no corpo do texto, colocadas entre parênteses, deverão se resumir ao último sobrenome do autor, à data de publicação da obra e à página, quando necessário (BURKE, 2005, p. 20). Se o nome do autor estiver citado no corpo do texto, indicam-se, entre parênteses, apenas a data e a página. Notas de rodapé, apenas em caráter de explicação;

15. As referências bibliográficas finais devem seguir as recomendações da ABNT.


Os esportes em Salvador e seus espaços

08/02/2021

Coriolano P. da Rocha Junior

 Cada modalidade requer, a partir de seu ordenamento legal, um conjunto de exigências em relação ao espaço e suas características, que são constituídas em função das especificidades da prática de cada esporte. Isto também deve ser pensado em associação aos usos pensados para a atividade esportiva em si e ao que se quer do local das ações, em associação as dinâmicas mais gerais de políticas urbanas, ou seja, pensar o espaço esportivo implica também pensar a cidade.

Pensar a prática esportiva implica ter de levar em conta a questão dos espaços para a vivência destas atividades, seus usos, sua localização na cidade, seus modos de construção. Enfim, ao analisar o esporte e sua história, somos levados a também tentar entender a questão de seus locais específicos de vivência.

 A Bahia e mais especificamente Salvador viu a experiência esportiva se instalar a partir de fins do século XIX, quando a cidade assistiu aos primórdios das vivências com os esportes acontecerem. A partir do início do século XX estas ações ganharam mais robustez e se alargaram, com a cidade vendo mais modalidades ocuparem a cena urbana.

Neste sentido, a partir dessa dinamização da prática dos esportes na cidade, podemos pensar que também se viu espaços específicos surgirem, para facilitar as vivências das pessoas interessadas, todavia, tal fato não se deu, ao menos, de forma estruturada, com ações públicas e associadas ao que se pensava para a capital baiana em seu ordenamento urbano.

 Já vimos também que em Salvador as iniciais experiências esportivas acontecerem e ganharam volume num tempo em que a cidade vivia, mais uma vez, seu desejo de buscar ares modernos, de operar reformas urbanas, em seus espaços públicos e também em seus costumes, onde os olhares se voltavam, como modelo, para países e cidades que já haviam orquestrado essas reformas e tinham nestas, pensado os esportes e aí, há de se imaginar que Salvador poderia fazer do mesmo jeito, mas não, a cidade não se pensou esportivamente, mesmo que estes já estivessem se dando na cena urbana da cidade.

 Quando olhamos para os primórdios esportivos da cidade encontramos essas realidades, que eram: a ausência de espaços públicos próprios a cada modalidade; a construção de espaços esportivos privados e o uso efetivos de locais da cidade, adaptados, para as vivências e isto, falando aqui das cenas com o críquete, o turfe, o remo, o futebol, a patinação, o tênis, o atletismo e o ciclismo. Cada uma destas modalidades experimentou uma relação diversa com os espaços de prática e seus usos na cidade.

 Ao longo de sua instituição, em Salvador, cada uma destas modalidades viveu situações diferentes em relação ao espaços e seus usos, indo dos comuns da cidade, adaptados, ao uso de locais privados para suas vivências. Também em relação aos locais de prática e a relação com a cidade e sua população houve diferença, onde nuns casos era aceito e até bem visto, noutros, era caso de polícia, sempre em função de quem estivesse ocupando a cena pública, se sua elite ou a seu estrato mais pobre.

Ao olharmos cada modalidade em específico, vamos encontrar as seguintes situações.

O críquete sempre foi jogado em praças da cidade, locais já existentes, de uso público, sem que houvesse uma condição específica para a modalidade. Rocha Junior e Santos (2015) nos mostram que os jogos ocorriam majoritariamente no Campo Grande, mas também com notícias de jogos na Fonte do Boi[1], na Quinta da Barra, no Campo da Pólvora[2] e no Largo da Madragoa[3].

O turfe conviveu com dois locais, ambos construídos de forma especial para sua prática e privados. A cidade viu a existência de dois hipódromos, que foram: o da Boa Viagem e o do Rio Vermelho.

Em Rocha Junior e Santos (2015) encontramos dados que falam da abertura de hipódromos na cidade. O primeiro foi o da Baia Viagem. Sobre este, o jornal A Locomotiva[4] dava notícias da abertura de um palco específico para a prática na cidade, na data de 30 de dezembro de 1888: “a inauguração do Hipódromo S. Salvador, que teve lugar no dia 30 passado, foi um verdadeiro acontecimento notável para os anais desta grande capital” e “terminamos dando os nossos parabéns ao público e ao empresário do Hipódromo”.

Adiante, Salvador viu surgir um outro espaço para o turfe, sendo este também privado, desta vez instalado no bairro do Rio Vermelho. O jornal Diário do Povo[5] apresentava assim a ideia da criação desse espaço: “No próximo domingo realizar-se-á a inauguração deste prado situado no aprazível arrabalde do Rio Vermelho” e “Leiam os nossos leitores os programas de corridas e não faltem a inauguração do Derby Clube”.

Sobre estes espaços, vale dizer que se localizavam distantes um do outro e que viveram, ao longo dos tempos, dificuldades de manutenção, por problemas de ordem financeira. Estes hipódromos chegaram a funcionar conjuntamente e também se alternaram como locais próprios do turfe. Nos dois casos, vale dizer, que na época de seu funcionamento, as duas localidades eram distantes da parte central da cidade e contaram com dificuldades de transporte.

Outra modalidade que alcançou sucesso e mesmo assim não viu um espaço próprio ser pensado para sua existência foi o remo, muito embora, seu local de disputa pudesse ser considerado apropriado ao esporte, foi sim, uma adaptação de um cenário natural da cidade.

De seu início até hoje, o remo foi e segue acontecendo na Enseada dos Tainheiros. Este local era, quando do início das atividades com o remo, um espaço de veraneio da cidade, também distante da região central, tendo as regatas usado um pedaço de mar, belo, aprazível, de águas calmas, que potencializavam o esporte, porém, nunca contou com uma efetiva intervenção, pública ou privada, de forma a qualificar como local ideal de prática do remo e também para a plateia.

Atividades como patinação e ciclismo nunca puderam contar com algo parecido com espaços específicos, tendo então seus praticantes de usar apenas as ruas e praças da cidade, qualquer que fosse a intenção da vivência, mesmo que dependesse de equipamentos, caros, notadamente na fase inicial do século XX. Locais como o Politeama, o Passeio Público e o bairro do Comércio eram relatados como os preferidos para estas atividades esportivas.

O tênis foi uma atividade esportiva que em Salvador se notabilizou por ser exercida somente em espaços fechados, inclusive residências e notadamente em clubes, sendo um criado com esse perfil. A modalidade, desde seu início se notabilizou como um esporte das elites econômicas e assim, foi vivida como um experiência de distinção.

Em algumas residências de famílias nobres da cidade foram construídas quadras, para que seus membros e convidadas e convidados pudessem viver o esporte. Além disso, no Rio Vermelho, junto a área onde existiu o Hipódromo se teve o esporte. Com mais notoriedade vimos exitir o Clube Baiano de Tênis, que se notabilizou como um espaço específico, mas privado, para o jogo do tênis, mais uma vez caracterizando que na cidade, os esportes aconteceram, mas sem que pudessem contar com a construção de espaços diretos.

Semelhante ao tênis foi a condição do atletismo, atividade que aconteceu de forma tímida em espaços públicos e que viu a construção de um clube próprio para sua prática, privado, que foi o Yankee Foot-ball Club, que inclusive chegou a criar uma pista. Vale dizer que o atletismo, além de tudo, teve sua prática associada a conceitos de saúde, sendo tratado como uma modalidade essencial ao desenvolvimento corporal de quem o executasse.

Por fim, falamos do futebol, uma modalidade que por suas características permite o uso de espaços variados. A prática em Salvador aconteceu em várias praças e ruas, seja isto de forma organizada ou livre, pode mesmo se dizer que a cidade foi “ocupada” pela experiência futebolística. Quando falamos da esfera competitiva, basicamente três espaços foram os usados, que foram: Campo da Pólvora, que na verdade era uma praça aberta da cidade; o Campo do Rio Vermelho, montado onde já existia o Hipódromo, privado e adaptado especificamente para o futebol e por fim, o Campo da Graça, também privado e que foi pensado especificamente para atender a modalidade e suas competições.

Com tudo isto, podemos analisar que o esporte em Salvador se constituiu sem a existência de espaços específicos, públicos, para qualquer modalidade, tendo sempre se aproveitado de lugares públicos ou naturais, adaptados as modalidades ou então, espaços privados foram construídos. Tal cena na cidade perdurou e mesmo perdura, sem que ainda hoje existam muitos espaços públicos espalhados pela cidade, se notabilizando aqueles que são para uso exclusivo da esfera competitiva, sem acesso popular.

Esta condição, no tempo, muito contribuiu para com que o esporte não alargasse suas vivências na cidade, mesmo estas tendo se iniciado em tempos já longínquos, já que poucos investimentos, ao longo dos anos foram executados, de forma a permitir o acesso da população, as práticas, em espaços próprios, sem depender do elemento competitivo ou de clubes ou outras ações privadas.


[1] Localizada no bairro do Rio Vermelho. Diário da Bahia, Salvador, 25 de janeiro de 1902, p. 1.

[2] Diário de Notícias, Salvador, 24 de março de 1903, p. 3 e 12 de setembro de 1903, p. 3.

[3] Diário da Bahia, Salvador, 11 de janeiro de 1902, p. 1. Localizado na Cidade Baixa, na área do bairro da Ribeira.

[4] A Locomotiva, Salvador, 15 de janeiro de 1889, p. 41.

[5] Diário do Povo, Salvador, 21 de maio de 1889, p. 1.

Referência:

ROCHA JUNIOR, Coriolano P. e SANTOS, Henrique Sena dos. Primórdios do esporte no Brasil: Salvador. Manaus: Reggo, 2016.


Uma Salvador e seus esportes iniciais

15/09/2020

Coriolano P. da Rocha Junior

Salvador foi capital do Brasil, todavia, no início do séc. XX vivia uma fase de decadência, num cenário em que a Bahia se viu afastada do poder, sem a influência tivera antes. No estado via-se um apelo ao seu passado de “glória” e isso, acontecia pelo fato desta unidade da federação se considerar “injustiçada” no novo cenário nacional, clamando para si a volta de uma época tida como gloriosa.

Para tentar instalar a modernidade, a Bahia, experimentou ações que buscaram reordenar o espaço urbano e os modos de vida dos cidadãos, num conjunto de mudanças socioeconômicas, culturais, estruturais e higienizantes, marcando um novo momento histórico, que buscou tornar a cidade de Salvador um espaço de novas vivências e práticas sociais.

De maneira geral, podemos afirmar que um projeto modernizador se assenta em alguns pontos básicos, que eram: construção e/ou alargamento de novas vias; construção de edifícios de arquitetura imponente e consequente derrubada de antigos prédios; a higienização da cidade; a criação do belo, do apreciável; a instalação de um comércio caro e de padrões europeus.

Foi durante o governo estadual de J.J. Seabra (1912-1916), que Salvador, viveu as ações que tentaram reordenar seu espaço urbano e adequar seus habitantes aos novos comportamentos e posturas da modernidade.

Ao analisar esse período e o quadro da Bahia, Risério (2004, p. 310), assevera que “sua capitalização era fraca, havia a enorme dificuldade de transporte, a carência de energia e, ainda, a hegemonia dos comerciantes, que não se interessavam tanto por investimentos em atividades produtivas”, ou seja, a Bahia destoava dos princípios aventados pela ideia de progresso. Salvador estava presa a uma lógica econômica que se não impedia, certamente limitava as aspirações por um maior crescimento, pelo progresso, não sendo ainda suficientemente “civilizada”, estando, portanto, fora dos padrões propalados pela modernidade carioca.

Nesse quadro, a elite soteropolitana aspirava mudanças e a bem da verdade, o que existia mesmo era uma tentativa de se criar uma cidade moderna e que exultava o progresso.

Leite (1996), ao falar sobre as aspirações modernizantes de Salvador, mostra que se tentava atender “a um interesse comum de certos segmentos elitistas da sociedade local, inconformados com a cidade em que viviam” (p.18). A cidade de Salvador, em sua aventura pela modernidade, teve de conviver com uma clara dificuldade que em muito limitava qualquer aspiração, a fragilidade econômica.

Se em Salvador o pretendido por Seabra e as elites locais na questão de uma nova urbanização não avançou como se esperava, no que é tocante aos hábitos, também parece não ter havido mudança significativa. Salvador sempre se destacou por possuir uma imensa população negra, herança do longo tempo de escravatura no país e que servia de mão de obra nas fazendas e casas grandes de toda a Bahia e de Salvador. No entanto, essa herança envergonhava a cidade, já que para a elite local, os negros, com seus hábitos e modos mais se assemelhavam a bárbaros e eram símbolos de uma cidade que não atingira padrões modernos. Era preciso embranquecer Salvador, acabar ou ao menos jogar para fora da cidade os rituais e práticas dessa população

Essa tentativa civilizadora de se acabar com festas, gestos, sons e práticas corporais dos negros não avançou muito, já que de certa forma, estavam internalizados na cidade, na população.

Assim, identificamos que existiu na cidade um sentimento e uma ansiedade por mudanças que fizessem com que nela se instaurasse o novo, numa tentativa de apagar o passado. Em ambas, a perspectiva foi de construção sem preocupações com manutenção ou preservação do patrimônio ou de qualquer outro vestígio que as ligasse ao passado. Fundamental nessa análise sobre Salvador é perceber o quanto a cultura foi um foco das ações modernizadoras, já que é nela que se apoiaram as perspectivas de mudanças do cotidiano da cidade, para além das paredes dos prédios e das vias públicas. Era preciso construir um novo povo, com uma nova cultura. Nesse caso, se acentuava o sentimento de inferioridade do brasileiro em relação ao europeu, ao francês, já que para a elite era lá que existia a cultura real e moderna.

O que se operou realmente foi uma reafirmação da cultura de elite, em detrimento da cultura popular, como uma forma de manipulação e afirmação dos detentores do controle econômico e político, assim, as reformas urbanas advindas da modernidade, são mesmo a configuração de um cenário que melhor representava esse princípio de dominação. Todavia, não podemos entender que esse mecanismo se deu de forma plena, sem uma contra ação dos rejeitados, que mesmo sob as forças do poder central e sofrendo as agruras de seu deslocamento e as violências contra um modo de cultura, souberam agir. Mesmo estando à margem das benesses da modernidade, essa população continuou a existir culturalmente, com seus hábitos e gostos, muita das vezes incorporando e ressignificando as práticas vividas pelas elites, que muita das vezes assumiu para si as práticas populares.

Foi nesse cenário e sob essas condições, que em Salvador, se iniciaram as “aventuras” da população com o esporte, sendo esse um dos elementos dessa que se mostrava como uma nova era, a modernidade.

Num contexto onde essa cidade passava pela experiência da modernidade, tentando conjugar reformas urbanas, mudanças de comportamento, construção de novos hábitos e gestar uma nova relação do homem com a cidade, com o espaço, com o tempo, com o outro e consigo próprio, o esporte surgiu como uma das novas formas de vivência, como uma prática social representativa da modernidade. Pode-se atribuir isso ao fato do esporte incorporar elementos que simbolizavam as aspirações por mudanças, assumindo papéis que caracterizaram modificações nas formas de agir e de circular do homem na sociedade, articulando em sua prática elementos como: maior exposição do corpo, movimento, risco e desafio, fatores que significavam uma busca pelo prazer e por uma excitação inovadora, sendo também uma forma das cidades se apropriarem de mais um elemento da modernidade.

Dessa forma, compreendemos que a instauração de todo um conjunto de mudanças nas cidades, ao mesmo tempo em que proporcionou e motivou as pessoas à prática esportiva, também foi por este influenciado, ou seja, a noção de que pessoas e cidades deveriam ser ativas, trabalhar por melhorias, valer-se dos avanços científicos, acelerando suas percepções e relações, significou que a modernidade e seu ideário foram encampados, seja pelas obras na nova cidade, seja pelo movimento no novo ser humano. Era preciso engajar-se em todas as mudanças, identificando-se com o novo.

Para ser moderno, era necessário superar a imagem de um homem lento, sedentário, assim como a cidade deveria deixar de ser antiquada, colonial.

Para falar da presença dos esportes em terras soteropolitanas, tomaremos como elementos de análise, os esportes que tiveram, por alguma razão, uma menor circulação e um deles, foi o críquete. 

O críquete foi uma prática esportiva que aportou em terras brasileiras trazida por ingleses (em meados do século XIX) e em Salvador, alguns clubes foram fundados para sua prática, que acontecia normalmente no Campo Grande (LEAL, 2002), embora também haja notícias de jogos na Fonte do Boi[1] e Quinta da Barra (GAMA, 1923), no Campo da Pólvora[2] e no Largo da Madragoa[3].

Em Salvador, como em outras cidades, essa prática teve vida curta, ficando basicamente restrita aos ingleses e poucos brasileiros. Clubes foram fundados, mas logo mudaram suas bases de ação, a exemplo do Club de Cricket Victoria, fundado por brasileiros em maio de 1899, que passou a se chamar Sport Club Victoria, assumindo o futebol como uma prática, e ainda o Club Internacional de Cricket, fundado por ingleses em novembro de 1899.

Além do críquete, outros esportes existiram, só que com menor impacto na composição do cenário esportivo de Salvador. Foram eles: a natação, a patinação e o ciclismo, esportes que traziam como experiência maior, justamente, a noção de velocidade, desafio e superação de limites, aspectos importantes na vivência da modernidade.

Esses são exemplos de atividades corporais que tiveram seu início vinculado à ideia de desafio e superação de limites, explorando os espaços livres das cidades, implicando uma nova relação como ambiente e ainda mais, alguns desses faziam uso de implementos e equipamentos, que demarcavam uma nova tecnologia.

Em Salvador, as atividades de natação, até mesmo pela inexistência de piscinas, aconteciam no mar e quase sempre sob a forma de desafios, por vezes de longas distâncias. Via-se que por vezes, a natação aparecia como uma atração de festas, notadamente as do Rio Vermelho. O porto de Salvador, que constou no projeto de Seabra para melhoramentos da cidade, teve entre seus funcionários, um clube chamado de Sport Club Docas[4] que promoveu “festas de natação” para comemorar as datas de inauguração do novo porto de Salvador. Tal fato demonstra a vinculação entre a prática esportiva e a modernidade, visto que um celebrava o outro.

Assim, em Salvador, competições mais estruturadas de natação estiveram a cargo da Federação de Regatas, que as promovia entre seus sócios, mas também com espaço para não associados. A natação passava por uma fase de implantação, uma novidade que era apresentada e, portanto, ainda demoraria a ser assimilada pela população e só tempos depois ganhou mais status e estrutura, avançando acentuadamente após a construção de piscinas.

Sobre a patinação, em Salvador, é possível perceber que entre 1912 e 1916 esta atividade despertou razoável interesse. Nesse período existiram clubes de patinação (Internacional Club de Patinagem, Sport Club Colombo de Ciclo-Patinação) e eventos foram realizados na cidade, basicamente nas ruas do Bairro do Comércio ou em passeios do Centro Histórico ao Rio Vermelho. Esses eventos, na maioria das vezes, assumiam um caráter competitivo, cujos participantes eram distribuídos por páreos (como no turfe), em função das distâncias a serem percorridas. Em Salvador, na maior parte das vezes, esse esporte foi competitivo e organizado em clubes específicos, mesmo que em lugares improvisados, porém, também existiu como divertimento nas festas dos diversos outros clubes, que não apenas os de patinação.

O ciclismo foi uma atividade esportiva conhecida desde fins do século XIX, uma “novidade” que a cidade aprendia a lidar, assim como a própria modernidade. O ciclismo e a bicicleta, mais que tudo, têm em si a essência da velocidade, do risco e da tecnologia. Em Salvador jornais noticiavam “garagens” e aluguel de bicicletas, sempre importadas, o que nos faz entender, que já era então algo conhecido na cidade, mesmo que pouco vivido, já que importadas, não faziam parte do cotidiano da população.

Em terras baianas, o ciclismo pareceu acontecer sob a mesma estrutura dos clubes de patinação. Era fato comum que houvesse atividades simultâneas das duas práticas, desenvolvidas pelos mesmos clubes nos mesmos espaços e, aqui, falamos do período entre 1912 e 1916. As corridas eram desenvolvidas para velocidade, sendo mais comuns no Comércio e no Centro Histórico ou para resistência, com deslocamentos até o Rio Vermelho e também faziam parte das festividades promovidas pelos clubes.

O Jornal de Notícias[5] divulgou o que dizia ser a primeira corrida de bicicletas da Bahia, realizada no bairro do Canela. Nos jornais, eram comuns notas com as provas a serem disputadas, clubes, participantes e premiação, além do local em si. Dias após as provas, eram noticiados os vencedores e seus tempos. Em Salvador não construiu (mesmo na atualidade) um espaço específico para as provas de ciclismo, mas soteropolitanos assumiram a bicicleta, por mais que a cidade, até hoje, por sua geografia e estrutura urbana, dificulte seu uso.

Por fim, podemos afirmar que Salvador viveu experiências com o esporte, associando-o as novas configurações da cidade, a partir de seu projeto de modernidade. O esporte era considerado uma atividade que simbolizava novos tempos, um novo homem para um novo espaço urbano

REFERÊNCIAS

GAMA, Mario. Como os “sports” se iniciaram e progrediram na Bahia. In: Diário oficial do Estado da Bahia, Edição Especial do Centenário. Salvador: [s.n], 1923.

LEAL, Geraldo da Costa. Perfis urbanos da Bahia: os bondes, a demolição da Sé, o futebol e os gallegos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2002.

LEITE, Rinaldo C. N. E a Bahia civiliza-se… ideais de civilização e cenas de anti-civilidade em um contexto de modernização urbana 1912-1916. 1996. Dissertação (mestrado em História). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, UFBA, Salvador, 1996.

RISÉRIO, Antonio. Uma história da cidade da Bahia. 2ªed. Rio de Janeiro: Versal, 2004.


[1] Localizado no bairro do Rio Vermelho. Jornal Diário da Bahia, 25/01/1902.

[2] Jornal Diário de Notícias, 24/03/1903 e 12/09/1903.

[3] Jornal Diário da Bahia, 11/01/1902. Localizado na Cidade Baixa, na área do bairro da Ribeira.

[4] Jornal Diário de Notícias, 11/05/1915.

[5] Jornal de Notícias, 23/04/1912.


Um ídolo no esporte baiano: Popó

13/04/2020

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

Neste blog tenho me ocupado de abordar aspectos referentes a história do esporte e das práticas corporais na Bahia. Em tempos de distanciamento social, em meio a uma pandemia que nos assola e nos faz revisitar e repensar nossos modos de vida, a opção de hoje foi escrever sobre um assunto que toca a todas as pessoas, de maneiras diferentes, claro, mas que está conectada a sensações e emoções que o esporte nos traz, no caso, o futebol, mais especificamente a figura do ídolo nesta modalidade e isso, na tentativa de ter mais leveza, em tempos de enormes dificuldades.

Na cidade da Bahia (aqui me refiro a Salvador), o futebol teve início logo que a localidade começou a experimentar as vivências esportivas em seu cotidiano, tendo rapidamente chamado a atenção da população, tanto sob o aspecto positivo, quando sob o negativo, ou seja, a modalidade rapidamente foi alçada a principal prática, fato que não se deu sem algum tipo de oposição, mas que também gerou adoração e por extensão, criou ídolos.

Se fala que na Bahia Zuza Ferreira foi o responsável pela introdução do futebol. Essa posição representa a ideia de um mito fundador, de simbolizar numa pessoa, a responsabilidade social de ser a expressão de uma prática social. Rocha Junior (2011) afirma que

…entendemos que figuras como (…) Zuza contribuíram diretamente para a sistematização do futebol. Entretanto, é difícil atribuir a eles, isoladamente, o “nascimento” do futebol (…) em Salvador, pois este resultou de um complexo processo de desenvolvimento, com realidades específicas… (p.69).

Assim, entendemos que a modalidade faz parte de um complexo tecido social, que envolve sua prática, sua representação, sua organização, seus espaços, seus praticantes e sua apropriação. Daí, na Bahia, assim como em outras cidades, o futebol foi parte de um conjunto de práticas sociais que tentavam dar a Salvador e ao Estado, uma nova forma de vivenciar o cotidiano e suas expressões.

O futebol e sua prática, para a Bahia, representavam o novo, tinha nele a marca de uma ação que era vivida na Europa, ou seja, ele era carregado de marcas que o associavam a ideia de uma nova sociedade, que queria se fazer moderna. Todavia, assim como era e mesmo é a própria sociedade baiana, também o futebol viveu experiências sociais diferentes, a partir do estrato social que com ele tinha contato.

Se praticado por uma elite política e econômica, ele simbolizava ares de civilidade, quando jogado pelas classes populares, era tido como algo inadequado, impróprio, grotesco e digno de ações policiais repressoras. Assim era ou é a cidade e assim se constituiu o futebol, com as marcas de uma divisão de classes, sendo, portanto, uma significativa forma de melhor entender a sociedade e suas incongruências e recortes. Exemplos disto podemos ver abaixo:

Em Salvador, a aceitação do futebol como um esporte das elites se vê em passagens de jornais como esta:

correu brilhante e animadamente a correcta diversão deste tão bemquisto divertimento que entre nós tanto acolhimento tem adquirido. Ao signal dado, os clubes Victória e São Paulo Bahia principaram os renhidos ataques, tendo sempre, no primeiro tempo, o São Paulo Bahia se defendido heroicamente, no segundo tempo, porem, os lutadores do Victoria conseguiram fazer dos pontos, sendo vivamente aclamados.[1]

Em contrapartida a essa aceitação da prática de futebol, também encontramos notícias falando mal do esporte, quando este era jogado entre populares. Vejamos, por exemplo, a nota publicada em A Tarde:

moradores à Rua Ferreira França, ao Polytheama, estão inhibidos de chegar as jannelas das respectivas residências, porque garotos, de manhã a noite, jogam bola, com uma gritaria infernal, com gestos e palavras obscenas. Os guarda civis que ali fazem seu quarto de policiamento, não tem ouvidos para ouvir taes offensas a moral e nem energia para cohibilos ao jogo perene.[2]

Foi nesse meio, nesse embate de compreensões e imagens sociais do esporte, que a Bahia viu surgir aquele que é tido como seu primeiro ídolo esportivo, a pessoa que primeiro carregou plateia. Seu nome era Apolinário Santana, ou simplesmente, Popó.

É sabido o potencial que os esportes tem de gerar paixão, seja espontânea ou criada. Na Bahia, o futebol, mesmo não tendo sido a primeira experiência esportiva, já que outras modalidades foram praticadas antes, foi a que logo alcançou o interesse e coração das pessoas, de todos os estratos sociais e por isso, veio dele o surgimento de um ídolo, alguém capaz de levar as pessoas aos campos (a Bahia ainda não tinha um estádio).

Mas afinal, que futebol era esse o baiano? Quem era Apolinário Santana?

Salvador viu surgir entre fins do século XIX e início do XX, equipes que logo aderiram ao futebol após sua fundação e outras, já fundadas para a prática do esporte. Na cidade, durante longos anos, não existiu um estádio de futebol. Sua vivência ocorria em campos espalhados pela cidade, sendo os mais notáveis o Campo da Pólvora e o Campo do Rio Vermelho.

Em 1904 foi fundada uma entidade organizadora, que foi a Liga Baiana de Sports Terrestres (esta vinculada a elite local) e já em 1905 ocorreu o primeiro campeonato, que foi organizado por esta liga até 1912, sendo a partir de 1913 tocado por outra entidade, a Liga Brazileira de Sports Terrestres (esta mais popular).

Com isso, como vimos, desde seu início o futebol em Salvador mobilizou interesse de todas as classes, tendo vivido adesões e resistências na sociedade, mas logo se firmou como a modalidade de maior interesse e assim, logo as pessoas, mesmo sem estarem nos campeonatos foram as ruas para jogarem seus “babas” e foi neles que surgiu o Popó e isto, no Rio Vermelho, o arrabalde esportivo da cidade.

Nascido em 1902 e falecido em 1955, Popó iniciou suas peripécias com a bola no bairro do Rio Vermelho, local onde nasceu e que contou com vários times de futebol ao longo dos tempos e que sempre teve vários espaços para jogos de futebol. Desde o começo ele se destacava, demonstrando habilidade e qualidade física e técnica, que o distinguiam dos demais praticantes, fato este que fez com que logo se chamasse atenção para seu jogo.

Popó começou cedo a jogar nas equipes de futebol de Salvador e ao todo esteve em onze equipes da cidade, que foram: Sul América, Fluminense, Bahiano de Tênis, Internacional, São Bento, Auto Bahia, Botafogo, Ypiranga, São Cristovão, Royal e S.C.Brasil. Destes, por duas oportunidades jogou pelo Botafogo e pelo Ypiranga (GOMES, 1999). Popó ainda esteve no futebol alagoano (sobre esta passagem não falaremos aqui).

Esta movimentada vida futebolística de Popó nos dá margem para várias interpretações. Uma é a de que ele realmente representava a figura de um jogador que era desejado pelas equipes e seus torcedores, outra, nos faz compreender uma ideia de amadorismo no esporte local, que o fazia e mesmo lhe dava a oportunidade de circular por vários clubes e ainda, confirma nele a condição de ídolo, já que foi pretendido por clubes diferentes, de variados bairros da cidade.

Esta “circulação”, ou melhor, transferência do jogador pelos clubes era noticiada com atenção pelos jornais, a exemplo da edição do A Manhã (08 de maio de 1920). Como esta, outras tantas vezes os jornais deram destaque a mudança de clubes por Popó. Também se notava essa mudança dos clubes, nas escalações trazidas pelas páginas dos periódicos locais.

Outro aspecto notável de Popó é que ele foi capaz de atuar em diversas posições. Tal condição se observa nos jornais, que traziam as escalações e as descrições dos jogos, que o mostram da defesa ao ataque. Ele, desde criança se caracterizou também pelo tipo físico, fato que o fez iniciar nos campeonatos ainda quando adolescente. Abaixo vemos uma figura do astro[3].

popo

Popó também jogou em certames de caráter nacional pela seleção da Bahia. Tal condição o fez ser reconhecido como um grande jogador por jornais cariocas, que viam nele um grande talento, como a exemplo do O Globo Sportivo (13 de janeiro de 1950), em matéria que se refere ao campeonato de 1934, vencido pela Bahia. Em edição com data não identificada, de 1952, o jornal carioca O Globo Sportivo traz o seguinte texto:

Não devemos esquecer o maior centro-medio de todos os tempos surgido ou consagrado fora do Rio e São Paulo: o célebre Popó, da Bahia. Jogador fenomenal, cuja infelicidade foi unicamente não ter sido atraído por nenhum grande clube das duas capitais. Grande craque foi Popó, com a grande vantagem de ser um jogador “7” instrumentos , pois atuava em qualquer posição (p. 21).

Outra forma de reconhecer seu valor, mesmo em âmbito nacional como futebolista, foi que o Jornal O Globo (RJ), noticiou no dia 20 de setembro de 1955 sua morte. Na página 12, uma nota escrita em letras maiúsculas e com uma foto tinha o título – Morreu Popó -. O texto fazia menção a sua destacada qualidade técnica, ao fato de ter jogado por vários clubes, em diversas posições e ao título brasileiro de 1934 e ainda fala do luto oficial decretado a altura, pela Federação Baiana de Futebol. Estas matérias dão bem a dimensão do que foi Popó como jogador, que mesmo sem ter circulado nos chamados grandes centros, foi reconhecido como um grande jogador. Abaixo uma outra imagem de Popó, com uniforme do S.C. Brasil,  de O Imparcial (19 de dezembro de 1935, p.7).

2 (2)

Enfim, Popó foi um jogador de talento, um homem capaz de atuar em diferentes funções, com qualidade física destacada, um homem de gols e que viveu um futebol onde o jogo ainda não gerava renda substancial a quem jogava, um homem que explorou o desejo pelo jogo, numa Bahia dividida socialmente, com marcas de racismo, segregação e segmentação social.

A idolatria por Popó foi além de seu tempo de jogador, tanto que fãs fundaram o Popó Bahiano, que chegou a jogar no campeonato local. Tal clube teve a intenção, de já pelo nome homenagear o ídolo baiano. Ídolo, que fora do futebol (parou de jogar em 1937) viveu as amarguras de quem tem de abandonar seu jogo (parou de jogar em 1936) e de não ter podido dele extrair formas melhores de vida. Popó foi um exemplo do futebol e suas paixões, um jogador que viveu as expressões e as dores máximas de uma prática que movimenta multidões e, por tanto, tem significados múltiplos.

 

Referências:

PIRES, Aloildo Gomes. Popó o craque do povo: a trajetória de Apolinário Santana. SAlvador: EPS, 1999.

ROCHA JUNIOR, Coriolano P da. Esporte e modernidade: uma análise comparada da experiência esportiva no Rio de Janeiro e na Bahia nos anos finais do século XIX e iniciais do século XX. Tese (Doutorado em História Comparada) – Instituto de História – Programa de Pós-Graduação em História Comparada, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.

[1]Correio do Brasil, 11 de agosto de 1903, p.1.

[2]A Tarde, 08 de dezembro de 1914, p.2.

[3] O Globo, 20 de setembro de 1955, p. 12.


A FORMAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DO JIU-JÍTSU BRASILEIRO EM SALVADOR E A INFLUÊNCIA DO JUDÔ

11/11/2019

Luan Machado

Coriolano P. da Rocha Junior

 

O Judô é um esporte japonês, que foi introduzido no Brasil a partir de um processo migratório de japoneses para o país. Nesse processo de imigração, a prática do Judô foi uma das formas de manutenção da cultura oriental, que foi sendo gradualmente incorporado por brasileiros nativos. Com isso, alguns mestres japoneses, chamados “senseis” (numa nomenclatura mais adequada culturalmente), foram essenciais na consolidação dessa prática em diversas regiões do país.

Sobre esses senseis japoneses, Mitsuyo Maeda (conhecido como Conde Koma), foi um dos que ficaram mais conhecidos. Formado na escola Kodokan, que foi criada por Jigoro Kano, com o objetivo de desenvolver o Judô. Enquanto um aluno de destaque da escola, foi convidado a disseminar as técnicas e filosofia da luta no mundo. Viajou por países como Estados Unidos e Inglaterra, fazendo apresentações em arenas e circos, desafiando atletas por onde foi passando. Chegou no Brasil em 1914, em Porto Alegre, viajou o país junto com um grupo de outros lutadores fazendo demonstrações e desafios de lutas, até se firmar em Belém do Pará em 1915. Koma foi responsável por apresentar os conhecimentos da luta agarrada a Gastão Gracie e a seu filho Carlos, processo que foi fundamental para a criação do clã dos Gracie, e do Jiu-Jitsu Brasileiro.

Soishiro Satake, um lutador de destaque também da escola Kodokan acompanhava Koma e se estabeleceu no Brasil, na cidade de Manaus. Este teve importante impacto no ensino da luta agarrada no estado do Amazonas, mas também se dedicava a outras práticas, tais como o lecionado de basebol, técnicas de massagem oriental e até alguns tratamentos de estética para eliminação de cravos e espinhas. Satake foi embora do Brasil em 1934, mas deixou uma importante marca que influenciou o desenvolvimento das lutas no estado do Amazonas.

É importante ressaltar que o Judô tradicional ou Judô Kodokan, como ficou bastante conhecido, sistematizado pelo sensei Jigoro Kano, descende do ju-jitsu ou ju-jutsu, conhecido no mundo ocidental como Jiu-Jitsu Japonês. Se tratava de um sistema de luta focado nos recursos da luta agarrada, mas também incorporava golpes como socos, chutes, cotoveladas e etc. O Judô contemporâneo, veio passando por sucessivos processos de reformulação, adotando novos sistemas de regras, que impactaram diretamente em como a prática se dá atualmente no mundo, embora com influência fundamental do tradicional, diferente de como este se dava na sua gênese.

Uma interpretação possível dessas mudanças, seja dos nomes, ou das regras dessas modalidades de lutas, se dá, via de regra, por interesses políticos e econômicos de determinados grupos e atores. É indiscutível a existência de outras influências, mas esse é um fator bastante evidente. Isso pode ser interpretado na história do Jigoro Kano, que visava consolidar o Judô enquanto um produto a ser difundido em todo o mundo. E uma nomenclatura nova, que pudesse se distanciar dos estigmas que o Jiu-Jitsu Japonês trazia, era essencial para a fixação desse “novo” produto. A mesma regra pode ser aplicada ao Jiu-Jitsu Brasileiro. O clã dos Gracie, tinha também o objetivo de fundar um “novo” produto no Brasil e no mundo. Nesse sentido, para além das estratégias comuns, tais como os desafios de lutas, precisou de uma nomenclatura que representasse o novo, assim se “criou” o Jiu-Jitsu Gracie ou Jiu-Jitsu Brasileiro, que embora tenha sido fundamentalmente influenciado pelos ensinamentos do Conde Koma, se firmou enquanto uma nova modalidade de luta.

Em Salvador, no estado da Bahia, recorte específico do local em que este trabalho se localiza, um nome que emerge das fontes é o do sensei Kazuo Yoshida. Há uma dificuldade de encontrar fontes que forneçam detalhes sobre a história desse ator, de quando ele chegou em Salvador e sobre as suas filiações as escolas de lutas Japonesas. Sabe-se que se trata de um grande mestre de Judô, que lecionava na capital baiana em meados do século XX. Ricardo Carvalho, um relevante nome do Jiu-Jitsu Brasileiro no estado da Bahia na contemporaneidade, é considerado “neto” de Yoshida, já que seu pai, mestre Cirão, foi um dos discípulos do judoca desde 1963. Ricardo Carvalho afirma em entrevista, que o japonês era um lutador muito habilidoso, e que possuía um Judô mais tradicional, no qual se treinava bastante técnicas de solo e finalizações (golpes que retiram o oponente de combate).

É notável que houve outros importantes atores orientais na cidade no que se refere ao contexto das lutas, no entanto, um fato histórico marcante, é que Yoshida faz parte da linhagem dos irmãos Edson e Ricardo Carvalho, referências na firmação do Jiu-Jitsu Brasileiro na cidade. Ricardo Carvalho é atualmente um dos mais notáveis mestres de Jiu-Jitsu Brasileiro da Bahia. Natural de Salvador, conta que nasceu aprendendo Judô, com o seu pai mestre Cirão, que é também um notável mestre de Judô na cena local. Ricardo é um dos líderes da equipe Edson Carvalho, que leva o nome de seu irmão e também sócio. A Edson Carvalho Team, é uma das mais tradicionais equipes de Jiu-Jitsu Brasileiro da cidade, tendo ampliado inclusive a sua influência com academias em vários países do mundo. Ricardo é também presidente da Federação Baiana de Jiu-Jitsu (FBJJ), fundada em 1997, uma das quatro federações que estão em atividade na organização do Jiu-Jitsu baiano.

A firmação do Jiu-Jitsu Brasileiro na cidade de Salvador se inicia, de acordo com o cruzamento do que contam as fontes, a partir da associação dos irmãos Carvalho, Charles Gracie e outros mestres de Judô locais da época, no início da década de 1990. Há relatos pontuais da existência da prática da “nova” modalidade em períodos anteriores, mas foi a partir da associação desses atores, que a modalidade tomou fôlego, se firmou na capital, e foi se difundindo em todo o estado.

Sobre o enraizamento da modalidade na cidade, há vários fatores de alta relevância. Dentre eles, vale ressaltar que os mestres de Judô locais, de acordo com as fontes, praticavam um Judô mais próximo do tradicional, no qual as técnicas de solo sempre fizeram parte das suas rotinas de treinamento e estudo. Portanto, foi natural para estes a adequação ao foco do treino de solo que o Jiu-Jitsu Brasileiro se dedicava, não houve grandes mudanças no aspecto técnico, apenas uma adequação no foco do treino. Outro fator importante diz respeito a relevância econômica que a “nova” modalidade tinha alcançado nacional e até internacionalmente. A evidência midiática do Jiu-Jitsu Brasileiro, a partir das estratégias de marketing do clã Gracie, colocavam a prática como a “febre” do momento, o que tornou atrativo aos tradicionais mestres de Judô da cidade a se dedicarem.

Os indicativos que esse estudo apresenta, a partir da revisão de algumas fontes sobre a história das modalidades de lutas agarradas existentes nos dias atuais, é que apesar da divisão das modalidades, as histórias se cruzam e se influenciam mutuamente, tanto no espectro Salvador, como Brasil. Os processos migratórios de japoneses para o Brasil tiveram grande impacto na consolidação das modalidades de lutas agarradas no cenário nacional. A incontestável história de atores japoneses em diversas regiões foram fundamentais naquilo que se firmou e que segue vivo nos dias atuais, embora haja reformulações. E no que se refere a cidade de Salvador, que o Judô, prática fixada em períodos anteriores ao Jiu-Jitsu Brasileiro, teve grande importância no processo de firmação da “nova” modalidade sistematizada pelo clã dos Gracie.

REFERÊNCIAS:

Entrevista concedida por SOUZA, Ricardo Barbosa de. [mai. 2015]. Entrevistador: Luan Alves Machado. Salvador, 2015.

Entrevista concedida por SOUZA, Luiz Augusto Barbosa de. [mai. 2015]. Entrevistador: Luan Alves Machado. Salvador, 2015.

Entrevista concedida por PINTO, Ricardo Carvalho. [mar. 2019]. Entrevistador: Luan Alves Machado. Salvador, 2019.

KANO, J. Judô Kodokan. Tradução Wagner Bull. São Paulo: Cultrix, 2008.

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE JIU JITSU. History. Disponível em: <https://cbjj.com.br/history/&gt;. Acesso em: 28 de mar. 2019.

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE JUDÔ. História do Judô. Disponível em: <http://www.cbj.com.br/novo/medalhistas.asp&gt;. Acesso em: 28 mar. 2019.

NUNES, A. V. RUBIO, K. The Japanese immigration influenceon the formation and development of Brazilian judô. International Journal of Sport Studies. Vol. 3 (10), 1087-1094, 2013.

Gracie Seminars: The Best Source of Gracie Jiu-Jitsu Seminars in the World, 2006. Disponível em:<http://www.gracieseminars.com/charles_bio.htm&gt;. Acesso em: 29 de mar. 2019.

LIMA, L. Soishiro Satake: A história do japonês que fundou a primeira academia de jiu-jitsu do Brasil, 2016. Disponível em: <http://escritorio610.blogspot.com/2016/04/soishiro-satake-historia-do-japones-que.html&gt;. Acesso em: 29 mar. 2019.

Perfil: Cirão. Judô Bahia. Revista Oficial da Federação Baiana de Judô. n. 2, p. 16-18, fev. 2017. Disponível em: <https://issuu.com/febaju/docs/revista_febaju_ii_edi____o_21_fev_p&gt;. Acesso em: 28 mar. 2019.


Futebol e tensões sociais na Bahia

12/06/2019

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

 

Na Bahia, sem dúvida, o futebol desde seu início foi o esporte de maior representatividade, que mais despertou interesse e mobilização popular.

Sobre o futebol baiano e seus primórdios, Leal (2002) afirma que:

na Bahia, os rapazes desejavam praticar aquela modalidade de esportes, quando chegou à cidade do Salvador, o estudante José Ferreira, de alcunha Zuza, que tinha concluído seu curso na Inglaterra e viria para empregar-se no Bank of London, nesta capital (p.180).

Na Bahia, a influência inglesa esteve diretamente ligada ao início da experiência esportiva, inclusive no futebol. Também se sabe que em Salvador e mesmo no estado da Bahia, as vivências com os esportes se davam em espaços improvisados e adaptados, a partir de áreas comuns da cidade, a exemplo de praças, largos e outros e assim também aconteceu com o futebol.

Sobre os jogos iniciais, Santos (2010, p.54) afirma que:

o local onde ocorreriam os embates seria o Campo da Pólvora. Localizado no distrito de Nazaré, o campo foi ligeiramente reformado, cercado e nivelado. A sua escolha deveu-se também pela sua ótima localização em decorrência da facilidade de se chegar naquele lugar. Praticamente todas as linhas de bonde passavam por aquela região. Sem a existência de arquibancadas o primeiro campeonato contou com o empréstimo de cadeiras por um circo que estava na cidade para a acomodação das famílias dos jogadores e demais autoridades.

Sobre os espaços adaptados para a prática do esporte, o Diário de Notícias[1] assim escreveu:

na Bahia, porem, ainda se morre de tédio, de aborrecimento… Não fosse o gosto pelo sport, actualmente tão accentuado, e aquellas partidas em que se apagavam os dignos moços em bellos combates – ainda assim num campo impróprio – e não sabemos o que seria da Bahia, cada dia mais decahiada!

No caso do futebol, as práticas iniciais estavam muito associadas a condição de modernização da cidade, de fazer acontecer em terras soteropolitanas, experiências corporais que já se davam na Europa e assim, sua prática era interpretada como um ato de civilidade, algo nobre. Exemplo está na matéria abaixo:

correu brilhante e animadamente a correcta diversão deste tão bemquisto divertimento que entre nós tanto acolhimento tem adquirido. Ao signal dado, os clubes Victória e São Paulo Bahia principaram os renhidos ataques, tendo sempre, no primeiro tempo, o São Paulo Bahia se defendido heroicamente, no segundo tempo, porem, os lutadores do Victoria conseguiram fazer dos pontos, sendo vivamente aclamados.[2]

Em contrapartida, a mesma prática, quando vivida por estratos sociais economicamente inferiores, era tida como rude, bruta, não digna, como indicado na seguinte matéria:

moradores à Rua Ferreira França, ao Polytheama, estão inhibidos de chegar as jannelas das respectivas residências, porque garotos, de manhã a noite, jogam bola, com uma gritaria infernal, com gestos e palavras obscenas. Os guarda civis que ali fazem seu quarto de policiamento, não tem ouvidos para ouvir taes offensas a moral e nem energia para cohibilos ao jogo perene.[3]

Vemos assim, que as experiências esportivas acabavam sendo tratadas como um espaço de distinção social, fazendo refletir as dinâmicas sociais e culturais vividas na sociedade baiana.

Se em seu início a vida esportiva baiana esteve ligada diretamente a presença inglesa, também o setor de serviços e a economia da cidade viviam esta influência. Vivendo uma condição de decadência econômica e política, a Bahia e Salvador, em seu cotidiano, conviviam com carências em vários serviços públicos: transporte, saneamento, iluminação, moradia, saúde, energia, limpeza urbana, já se apontando problemas com o uso desmedido de recursos naturais. Dessa forma, Salvador estava presa a uma lógica econômica que, se não impediu, certamente limitou as aspirações de um maior crescimento e de progresso e ainda, provocava conflitos sociais, que se refletiram também no futebol.

Já no início do século XX, o futebol baiano já contava com uma plateia que crescia em número e interesse. Plateia que já formava gosto por determinadas equipes, em detrimento de outras, fazendo ecoar por vezes as formas de ver a presença estrangeira na cidade.

Na Bahia, a Liga Baiana de Sports Terrestre, fundada em 1904, cuidava da organização do futebol e de seu certame e já nos primeiros anos, contou com dificuldades, que não se deram por conta só do esporte em si, mas também de outros aspectos da vida na cidade.

Alguns problemas marcaram a desistência de organizar o campeonato pela Liga Bahiana. O primeiro se deu ainda em 1906: numa partida[4], os jogadores do Internacional de Cricket (equipe formada por ingleses) foram ostensivamente hostilizados pelo público presente. Essa atitude da plateia presente ao jogo foi alvo da imprensa, que a analisou e a relacionou, segundo suas impressões, ao próprio estado de desenvolvimento da Bahia e dos cidadãos de Salvador.

Ao abordar o ocorrido, o Diário de Notícias[5] assim se posicionou:

é de lamentar que uma malta de desocupados perturbem as belas partidas a que o público acorre tão cheio de curiosa satisfação, prejudicando os movimentos dos jogadores, fazendo-os escutar ofensas quando perdem e dando triste idéia dos nossos foros de civilização. Convém notar que o Internacional é composto de ingleses que devem ter de nossa parte, como hóspedes que são, todas as distinções. Achamos que a polícia bem podia sanar esta inconveniência que vai se tornando um péssimo costume.

Em sua análise sobre o fato, Santos (2010, p.71) assevera que:

talvez uma das principais lamentações dos periódicos relacione-se com o fato de que o clube hostilizado era composto por ingleses. Em todas as notas temos uma sensação de subserviência para com os ingleses, uma vez que estes, pela origem europeia, são os referenciais de bom comportamento e civilidade.

Esse problema fez com que a Liga se reunisse e procurasse sanar as dificuldades surgidas, principalmente a ideia do Internacional de abandonar a competição – fato que se confirmou, mesmo com as atitudes solidárias dos demais clubes e da Liga Bahiana. Essas instituições fizeram questão de rechaçar a atitude popular, considerando-a incoerente com as normas civilizadas do esporte.

Essa reação dos clubes, de sua entidade organizativa e de parte da imprensa demonstrou uma noção elitizante e preconceituosa, a de que a população em geral não sabia como se portar diante de uma nova prática tipicamente moderna, o futebol, que, segundo seus padrões, exigia atitudes cavalheirescas e acima de tudo gentis, expressando ritos e normas de comportamento caracterizados como comuns a elite soteropolitana e aos ingleses residentes em Salvador.

Outro problema decisivo na atuação da liga foi que, com o progressivo aumento de interesse pelo futebol, esse acabou assumindo âmbitos maiores do que o esperado, incentivando rivalidades e exacerbando a competitividade. Este processo chegou ao extremo nos anos de 1911 e 1912, quando a Liga efetivamente desistiu da promoção de campeonatos.

Em 1912, o campeonato da Liga Bahiana, o das elites, viveu uma crise que foi motivada pela intensa e “deseducada” participação popular nos jogos. Para os dirigentes da entidade, o envolvimento e o interesse da população pelo futebol acarretaram a “perda de controle” das competições. Por conta disso, a Liga Bahiana desistiu de organizar o campeonato.

Com isso, a Liga Brazileira de Sports Terrestre, que foi fundada em 1913, de caráter mais popular, seguiu organizando o futebol na Bahia, sem contar com a participação dos primeiros clubes.

Assim, vimos que as tensões econômicas e sociais que a sociedade baiana vivia, também se repercutiram no futebol. O processo de distinção social, comum na comunidade baiana, cindida entre classes e etnias diferentes, também se fez presente no futebol, a partir da criação de ligas variadas, que representavam, estratos sociais diversos. De toda forma, o futebol baiano seguiu e segue existindo, como uma amostra do que é seu povo, suas tensões, modos de vida, de ser, de se colocar em sociedade, seja no cenário local ou nacional.

Referências:

LEAL, Geraldo da Costa. Perfis urbanos da Bahia: os bondes, a demolição da Sé, o futebol e os gallegos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2002.

ROCHA JUNIOR, Coriolano P. e SANTOS, Henrique Sena dos. Primórdios do esporte no Brasil: Salvador. Manaus: Reggo, 2016.

SANTOS, Henrique Sena dos. Uma caixinha de surpresas: Os primeiros anos do futebol em Salvador, 1901 – 1912. Monografia (Graduação em História). Departamento de Ciências Humanas e Filosofia – Colegiado de História, UEFS, Feira de Santana, 2010.

[1]Diário de Notícias, 10 de outubro de 1906, p.1.

[2]Correio do Brasil, 11 de agosto de 1903, p.1.

[3]A Tarde, 08 de dezembro de 1914, p.2.

[4]O jogo foi Victória e Internacional, em 10 de junho de 1906.

[5]Diário de Notícias, 11 de junho de 1906, p.3.


Sobre o tênis e sua prática em Salvador: dos primeiros momentos a fundação do Clube Baiano de Tênis

07/01/2019

Por: Coriolano P. da Rocha Junior*[1]

   Em Salvador, a prática do tênis se deu de modo muito irregular nas primeiras décadas do século XX. A princípio, denominado de lawm tênis, a sua ocorrência se dava de forma tímida, sobretudo, em quadras no interior de residências de famílias abastadas da cidade. Segundo Mário Gama (1923, p. 320):

Foi ele introduzido entre nós, também pelos ingleses, que construíram um court[2] de grama, na Plataforma. A família Benn também possuía um, nesse gênero, em sua residência, ao Canela. Mas, incontestavelmente, onde se formaram os nossos melhores tenismen[3] de agora, foi no court da residência da Exma, Viuva Lydua Costa Pinto, à Vitória. Foi desse court que saíram os nossos hous (sic) e valorosos jogadores, como Mario Pereira, Macedo de Aguiar e tantos outros, tendo também (perdoem-me se o assignato), o court construído em nossa residência à Graça, sido outro fator do desenvolvimento do Tênis na Bahia.

  Sobre a introdução do tênis em Salvador, reconhecemos que esta se deu, principalmente, pela presença de muitos ingleses que residiam na cidade. Ao mesmo tempo, sabe-se que não foram apenas os ingleses os pioneiros da modalidade na cidade, mas também jovens que, ao retornarem da Europa, a trabalho ou estudo, traziam consigo bolas e manuais de práticas esportivas. Na revista Semana Sportiva há uma referência que evidencia a presença de baianos no desenvolvimento inicial do tênis:

Em 1901 e nos anos consecutivos, ao chegarem da Europa, alguns rapazes foram inquestionavelmente, o fator principal, o elemento preponderante na introdução e progresso do desporto em geral. Na Bahia já havia um court de tênis na residência da família Espinheira Costa Pinto. Construído em cimento, as suas linhas de out-side aproximavam-se de um lado, das cercas de pitangueiras; do outro de um bambuzal indiano, espesso e no fundo, de uma jabuticabeira, que era o regalo de quantos a vissem florida ou o tronco enfeitado de frutas roxas[4].

    De toda sorte, de uma forma de outra, não se pode negar que o tênis em Salvador teve uma forte influência europeia, pelos ingleses ou pelos baianos residentes na Europa. Ao que parece, as primeiras partidas de tênis estimularam os jogadores a institucionalizarem a sua prática com a criação de um campeonato regulado pela Liga Baiana de Esportes Terrestres. De acordo com Mário Gama (1923, p. 320), “a antiga Liga fez disputar um campeonato de tênis, em que tomaram parte o S. Salvador, o Vitória e o Internacional de Críquete, vencendo os representantes do primeiro”. A revista Semana Sportiva foi mais especifica ao detalhar como ocorreram as primeiras competições da modalidade:

Com o número crescente de adeptos do jogo aristocrático formaram-se diversos torneiros íntimos com e sem handicap[5], até que em 1905 a Liga Baiana de Desportos Terrestres, procurando desenvolver a sua prática, determinou a abertura de inscrições para os clubes que lhe fossem filiados, estabelecendo o primeiro Campeonato da Cidade.

Para tanto, construiu um court com as medições regulamentares, com o lastro de cinzas e betumado e as linhas marcadas a tinta branca na então moradia do Sr. Ed. Schalaepfer onde deveriam realizar-se as competições oficiais.[6].

   Apenas a partir da segunda metade da década de 1910, especificamente em 1916, que referências sobre a prática do tênis ressurgem. Um motivo principal foi a fundação do Clube Baiano de Tênis. Assim, como os outros clubes da elite soteropolitana, a agremiação alvinegra teve um início bastante modesto. A primeira sede do clube não passava de uma barraca de lona. Ficava em um terreno na Ladeira da Graça que, pertencendo à senhora Adelaide Tarquínio, foi cedido por um período de três anos. Nesse mesmo local, foram iniciadas as construções das quadras de tênis, “onde foram gastos aproximadamente 4:000$000”[7]. Um depoimento de Mário Gama, um dos primeiros sócios, revela detalhes do entusiasmo em construir as estruturas do clube.

A construção do primeiro court começava. Nós, os que havíamos aderido à ideia da fundação de um grêmio para cultivar tão lindo esporte íamos aos domingos e nos dias úteis em que o tempo nos sobrava ao terreno cedido pela Exma. Viúva Tarquínio, a fim de ajudar ao Edgar Luz que estava superintendendo os primeiros trabalhos de nivelamento[8].

   A empolgação parece ter contagiado outros jovens da cidade. Ao final da construção do court, a “natural afluência de pedidos para associados obrigou o clube a aumentar o limite de trinta para cem sócios”[9]. Com a construção das quadras, já não era possível a agremiação ter como sede uma pequena barraca. Na verdade, a construção de um prédio no mesmo terreno já havia sido planejada. Para isso os diretores do Bahiano, “em assembleia geral de 23 de janeiro de 1916 resolveram aumentar as mensalidades de 5$000 para 10$000.” Além disso, contraíram um empréstimo de 8:000$000.

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Imagem 1: Club Bahiano de Tênis (imagem de um postal).

  A nova sede seria “um pequeno pavilhão que, com o máximo de simplicidade, satisfizesse aos requisitos de conforto e higiene”. Fica evidente que o principal ideal que norteava a fundação do clube era a necessidade de retomar, na cidade, o cultivo de uma atividade considerara elitizada.

   Podemos imaginar que o interesse de reavivar o tênis na cidade tem relação com a vontade de estabelecer uma prática de distinção social, uma vez que o futebol na cidade já havia se popularizado e já não era monopolizado pelos grupos abastados. O envolvimento com a modalidade era muito custoso, até mesmo pelas despesas com a importação de equipamentos como raquetes e bolas. Deste modo, o aristocrático esporte acabou se tornando em uma possibilidade de lazer em que não haveria a presença de populares.

   O esforço de fazer do Baiano de Tênis a liderança do renascimento do tênis na Bahia se revela em memórias que destacam um interesse em ter um espaço bem estruturado, com a construção de várias quadras, inclusive de materiais diferenciados:

Quando teve de ser construído o primeiro court do Baiano, o nosso consócio engenheiro Edgar Luz que dirigia as obras, quis romper com a praxe até então aqui em voga, das quadras de cimento. E, com grande competência, fez o nosso court de uma liga de barro, tal como ora se usa em todos os países tropicais. Os resultados foram magníficos e logo foi a segunda quadra e, em seguida, a terceira, até que, agora, conta o nosso grêmio tem 4 courts, todos eles excelentes, mesmo na estação chuvosa, quando muito pouco tempo depois de um grande aguaceiro, eles por serem inteiramente permeáveis, tornam-se perfeitamente praticáveis. Nessas quadras o tênis tem se desenvolvido assombrosamente[10].

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Imagem 2: Jogadores do Clube Baiano perfilados (Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 50).

   Obviamente que com o desenvolvimento estrutural do tênis em Salvador, ocorreu um aumento significativo de referências sobre a prática do esporte na cidade. De acordo com os registros de Mário Gama (1923, p. 320):

Com a fundação, em 1916, do Clube Baiano de Tênis, nas suas quatro “quadras” o jogo tomou incremento admirável e ali se formaram e aperfeiçoaram muitos jogadores, sob os ensinamentos – é justo registrar – do grande tennismen F. Mc. Even, que, como diretor, dedicava-se extremamente, no preparo e afinamento dos seus consócios. O Bahiano de Tênis conta, dentre as suas melhores páginas, a visita do grande campeão dos Estados Unidos, Sr. Johnston, que jogou várias vezes em seus courts. Mantendo torneios anuais de duplas e simples, são campeões das quadras do alvi-negro F. Sá Macedo de Aguiar (duplas) e Mário Pereira (simples). Com a recente visita do Fluminense, A Bahia pôde mostrar bem que, em tênis, o seu adiantamento é patente, pois que, os representantes tricolores, Srs. Heberto Filgueiras e G. Prechel foram batidos, em simples, pelos nossos conterrâneos Mario Pereira e Macedo de Aguiar, que se houveram brilhantemente. Nos courts do Bahiano e Tênis está em disputa um torneio amistoso de duplas tendo-se feito representar os Clubes, Francês da Bahia, Rio Vermelho, Vitória, Associação Atlética e Baiano de Tênis.

   Como um dos principais sócios do Baiano de Tênis, Mário Gama não raramente fez questão de circunstanciar o desenvolvimento do esporte no clube marcado pelo um intercâmbio com tenistas de outros estados e países. É possível interpretar como um indício que o desenvolvimento do tênis no alvinegro não ocorreu de forma meramente espontânea. Pelo contrário, houve um constante esforço de estruturação, inclusive no tocante ao aprimoramento das técnicas e estilos de jogo. Além disso, percebe-se um esforço em apresentar os tenistas locais como não inferiores aos de outras localidades.

   Desta forma vimos as primeiras experiências de instalação da prática do tênis em Salvador e sua relação com um determinado clube e modo de ver a cidade e as relações sociais.

 

[1] Parte deste texto foi publicado em parceria com Henrique Sena dos Santos, na obra Primórdios do esporte no Brasil: Salvador (2015).

[2] Corresponde a quadra de tênis.

[3] Homem praticante e/ou interessado no tênis.

[4] Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 24.

[5] Termo inglês que significa vantagem ou desvantagem, ou o ato de dar vantagem ou desvantagem. Pode também significar obstáculo, ou incapacidade.

[6] Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 54.

[7] Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 26.

[8] Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 54.

[9] Semana Sportiva, Salvador, 21 de julho de 1923, p. 26.

[10] Semana Sportiva, Salvador, 02 de julho de 1924, p. 59.


FONTE NOVA: a síntese do futebol baiano, palco de sorriso e choro

06/08/2018

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

     O Estádio da Fonte Nova foi inaugurado oficialmente em 28 de janeiro de 1951, um ano após a Copa do Mundo de Futebol que o Brasil sediara e perdera para o Uruguai, em 1950. O jogo de abertura foi Botafogo x Guarany, duas equipes hoje ausentes do cenário esportivo baiano. Nesse início, a capacidade estimada de público estava em torno de 30.000 pessoas. A Fonte Nova viria para substituir o já velho Campo da Graça.

     O estádio deveria ter sido uma das sedes da Copa de 1950, fato que muito orgulharia a Bahia, por a levar para a maior festa do futebol e assim, receber em suas terras equipes, jogadores e torcidas de diferentes nações. Todavia, a obra não ficou pronta a tempo, condição que ao contrário de orgulho, acabou por gerar uma insatisfação para o baiano, não apenas por perder a chance de sediar jogos da Copa, mas também, por naquele momento, ter se sentido a margem de uma pretensa capacidade criadora e renovadora que se vivia no país. Mais uma vez a Bahia ficava de fora da festa nacional, mesmo com toda sua importância e tradição.

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Imagem 1: A Fonte Nova em sua primeira versão, a da inauguração, contando com somente um anel de arquibancadas.  Fonte: http://wwwmemoriasdafontenova.blogspot.com/2010/11/os-maiores-publicos-pagantes-da-fonte.html

     Mesmo com esse dissabor inicial, durante décadas a Fonte Nova animou tardes e noites de futebol soteropolitano e mesmo nacional, sendo palco das principais competições futebolísticas locais e brasileiras. O estádio assumiu um lugar especial no coração baiano, que além de nele viver os prazeres do futebol, acabou por ver nele, mesmo com o atraso da inauguração, um orgulho da arquitetura baiana. Obra do escritório do arquiteto Diógenes Rebouças, um dos gênios baianos, cravado próximo a um cenário a época bucólico e querido, o Dique do Tororó, que foi construído no século XVII, para ser uma frente de proteção da cidade, que então, se concentrava na parte alta e que foi aos poucos, perdendo essa função e passando a fazer parte do cotidiano soteropolitano.

     Foi essa Fonte Nova que existiu em Salvador, até que a cidade entendeu que era preciso um novo estádio, ou melhor, era necessário revigorar e ampliar a Fonte Nova, já que a original se tornara pequena para os grandes públicos que lá iam.

     A remodelação previa a construção de um segundo anel de arquibancadas, que permitiria a ampliação do público. Durante as obras, os baianos lidaram com dúvidas e inquietações quanto a capacidade de segurança do estádio, se perguntava se as bases do antigo estádio suportariam a nova estrutura e aí, se lembrava que a Bahia não foi capaz de construir o Estádio a tempo da Copa de 1950 e que mesmo após a inauguração em 1951, foi mesmo apoximadamente um ano após isso que os trabalhos foram finalizados, até então ainda havia uma condição provisória.

     Após tanta espera, dúvidas, excitações, chegava a hora da nova inauguração, se abriria um novo marco no futebol baiano.

     Era verão em Salvador, mais um dia de sol, mais um dia de futebol na Fonte Nova. A cidade para lá se virava em festa, afinal, jogariam nesta data Bahia e Vitória, os dois clubes com as maiores torcidas do estado. Outros dois grandes clubes brasileiros lá estariam, o Clube de Regatas Flamengo (Rio de Janeiro) e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense (Porto Alegre). Os jogos seriam Bahia x Flamengo, de abertura e Vitória x Grêmo, no fechamento da dupla rodada de festa. Sobre a inauguração, o Jornal dos Sports e também o Jornal do Brasil (Rio de Janeiro, 04/03/1971), além de anunciarem a programação, definiam o novo estádio como um dos maiores e mais bonitos do país, com capacidade oficial de 110.000 pessoas.

     Acontece que a jornada, ao invés de ser de festa, foi de dor. Durante a rodada, no segundo jogo, um desastre aconteceu e acabou gerando acidentes e mortes e assim, o novo estádio baiano, teve sua reabertura marcada pela dor. Em 5 de março de 1971, o Jornal dos Sports e também o Jornal do Brasil estampavam que explosão e pânico causaram a tragédia.

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                   Imagem 3: O público invade o campo.
Fonte: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/fonte-nova-tumulto-marca-festa-de-reabertura-do-anel-superior-em-1971/

     Como dito, na população sempre houve dúvida sobre a segurança no novo estádio e foi assim, que o estouro de uma lâmpada provocou estardalhaço, correria e desespero, provocando os acidentes e as mortes. Ou seja, o temor inicial acabou gerando uma onda de pavor, levando as pessoas a pensarem que seria um desabamento. Para além disso, a platéia estava acima do indicado, com pessoas espremidas em grades.

     A Fonte Nova, espaço querido do soteropolitano, templo do esporte bretão jogado em terras baianas, sempre foi palco de festas, de alegrias e comemorações, de sorrisos por vitórias, de lamentos por derrotas, mas também, em alguns momentos, de dor por tragédias. Tragédias estas que não coadunam com o espírito da torcida baiana, independente de seu time de coração, mas aconteceu e a Fonte Nova, se calou e chorou. Esta relatada foi uma, outra ainda aconteceu, mas isto fica para depois.

     Por enquanto, fiquemos com a imagem de uma Fonte Nova aberta para o Dique, que sorri para a cidade, que alegra e se alegra com a presença do público em suas arquibancadas.

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Imagem 4: A “velha” Fonte Nova, ainda antes da obra.
Fonte: http://ssa2014.blogspot.com/p/arena-fonte-nova.html