O dia em que o Maracanã reverenciou o “maior atleta do mundo”: histórias das (des)construções de uma identidade nacional

10/09/2017

por Fabio Peres[i]

A história é fascinante e cheia de nuances. No dia 19 de março de 1955, o leitor do jornal O Globo era informado sobre uma exibição prevista para ocorrer em abril no Maracanã. O evento se daria antes de uma partida de futebol, o match entre Rio-São Paulo. A ocasião não parecia ser trivial. Uma medalha de ouro, inclusive, estaria sendo cunhada especialmente para a ocasião.

O “grande campeão” a ser homenageado, porém, não era ligado (pelo menos diretamente) ao “mundo” do futebol; já na época o esporte mais popular do Brasil. Mas sim ao atletismo. O triplista Adhemar Ferreira da Silva, campeão olímpico em 1952 (Helsinque), havia conquistado mais uma façanha: bateu o recorde mundial no salto triplo nos Jogos Pan-americanos da Cidade do México com a marca de 16,56m – uma diferença de 33 centímetros a mais, que os periódicos buscavam quase sempre registrar, do seu rival russo Leonid Scherbakov. Diante do contexto da época não parece casual o reforço da suposta rivalidade entre Brasil e Rússia (algo que merece ser melhor investigado).

O Globo fez questão de publicar uma matéria especial, de página inteira, similar aos infográficos atuais, com vários dados sobre Adhemar (ver figura 1)[ii].

Figura 1: O Globo, 19/3/1955, segunda seção, p.1.

 

Na perspectiva do periódico carioca não se tratava de um feito que seria rapidamente esquecido, mas sim um marco histórico do atletismo. Uma das manchetes destacava que “OS TÉCNICOS E OS LIVROS EM 16 M 48 O MÁXIMO A SER ALCANÇADO POR QUALQUER ATLETA – FEITO SUPERIOR A [Roger] BANNISTER[iii] AO ULTRAPASSAR A ‘BARREIRA DO SOM’ NA MILHA”. Até mesmo uma charge brincava com a ideia da necessidade de nomear uma avenida com o nome do atleta (ver figura 2).

Figura 2: Charge de Constantino, O Globo, 19/3/1955, 2ª Seção, p.1. No texto superior à direita lê-se: Quando Bob Mathias ganhou o decatlo dos Jogos Olímpicos [o decatleta ganhou ouro nas Olímpiadas de 1948 (Londres) e de 1952 (Helsinque)] , a pequena cidade norte-americana de Tulare – onde nasceu Mathias – resolveu mudar o nome em MATHIASVILLE.
Abaixo da imagem lê-se: TURISTA – Ó mister guarda, pode me indicar a Avenida Ademar Ferreira da Silva?

 

A conquista, porém, não se dera sem um tom dramático. Dias antes, Adhemar havia sido desclassificado no salto em distância (Última Hora, 15/3/1955, p.12). Certa expectativa cercava, então, o desempenho do triplista. Talvez por isso, a notícia de sua vitória ganhou um colorido de catarse. Os jornais não apenas destacavam que aos “soluços” o atleta dissera que poderia ter saltado mais, como “ninguém parecia acreditar no que a fita métrica afirmava”.  A manchete do Última Hora refletia e, ao mesmo tempo, reforçava os sentimentos de orgulho, identidade e pertencimento compartilhados pela “comunidade imaginada” (Anderson, 2008) ao dar destaque a fala do “grande campeão do mundo”: “VENCI NÃO PARA MIM; MAS PARA O BRASIL” (Última Hora, 17/3/1955, p.12). A importância ao feito era tão grande que o jornal publicou a sequência de fotografias que resultou recorde (ver Figura 3).

Figura 3: Última Hora, 17/3/1955, p.12

 

Dias depois, o Última Hora fazia questão de publicar a opinião do técnico americano Don King que afirmava que o Brasil nas Olímpiadas de 1960 só ficaria atrás dos Estados Unidos e da Rússia; expressando assim que tal sentimento de nacionalidade também passava pelo reconhecimento do olhar do outro, não qualquer estrangeiro, mas o estrangeiro “qualificado” (Última Hora, 19/3/1955, 2º Caderno, p.1).

Isso não significava, por sua vez, que esse sentimento não era alvo de críticas. Uma coluna não assinada destacava em seu título: “BRASIL ENVERGONHA NO MÉXICO”. O texto destacava:

O noticiário aí está diário, doloroso, triste para todos os brasileiros. Nós, que temos a péssima moda de achar que nosso avanço esportivo em determinados setores é ultra espetacular, somos forçados a reconhecer que ainda não atingimos a expressão de outras nações, que somos discípulos, ainda, em esportes que nos julgávamos senhores de primazia (Mundo Esportivo, 25/3/1955, p.2).

O desempenho dos atletas brasileiros, de acordo com a análise, não correspondia às expectativas, à “propaganda” que se torna “ruinosa”, mostrando para nós e – vale destacar – principalmente para o mundo “a nossa inferioridade esportiva” que “mais se acentua entre os países que lá estão representados” (op. cit.). A coluna não deixava de sublinhar a decepção com os resultados dos demais atletas brasileiros, ainda que enfatizasse a importância de Adhemar e do boxeador Luiz Ignácio, responsáveis pelas únicas medalhas de ouro que o Brasil conquistou no México:

Tiremos o chapéu ao fabuloso Adhemar Ferreira da Silva. Saudemos Luiz Ignácio, do boxe, outro campeão, que forma, com o campeão do salto triplo, a dupla que se recomenda na delegação brasileira. Estes dois falam bem do Brasil. […] Verdade dura, duríssima, fruto único da ilusão criada de que nossos índices são compatíveis com o avanço internacional no terreno esportivo. […] Nossas equipes envergonham no México. (Mundo Esportivo, 25/3/1955, p.2).

 

As matérias, por conseguinte, acabavam por reforçar os méritos de Adhemar como também por valorizar as competições internacionais como forma de projeção nacional. Por outro lado, as colunas no jornal Mundo Esportivo contrastam com um sentimento ufanista presente em determinadas coberturas sobre a atuação dos atletas brasileiros. Isso se deu, inclusive, no bicampeonato olímpico de Ademar no ano seguinte em Melbourne (1956). Poucos dias após a notícia de sua vitória, uma pequena nota no jornal esportivo já chamava atenção para apropriação política em torno da exaltação exagerada da nação. Na seção Galeria Branca e Negra, em que eram apresentados os piores e melhores da semana, a “pior coisa” escolhida pelo periódico eram os “urubus e demagogos”; “abutres” que revestiam a conquista de Adhemar com “frases ocas, enfeitadas, demagógicas, estarrecedoras falando em bandeiras, patriotadas etc.” (Mundo Esportivo, 30/12/1956, p.13). De fato, não foram poucas as manifestações, inclusive de políticos, exaltando o feito.

Em todo caso e a despeito de alguns contrastes, prevaleceu um tom festivo e celebratório ao redor do herói e, por associação, da nação. A popularidade e o prestígio de Adhemar, não é demais assinalar, se tornaram bastante expressivos no intervalo entre as duas Olimpíadas. Além da repercussão das conquistas de 1952 e no Pan-americano de 1955, seu nome era frequentemente citado como o maior esportista do Brasil, inclusive por atletas de outras modalidades como o futebol[iv]. Matérias e colunas de jornais sobre “famosos”[v], vi] e “personalidades”[vii], mesmo fora do campo esportivo, se referiam a ele.

Figura 4: Vitória de Luiz Ignácio no boxe (Última Hora, 28/3/1955, p.1).

 

O retorno do triplista ao Brasil não poderia ser menos noticiado. A capa do Última Hora do dia 31/3/1955 saudava o campeão que chegara no dia anterior na cidade do Rio de Janeiro, dando mais um destaque à fala daquele que “abalou os meios esportivos do mundo inteiro, pondo em dúvida até o princípio da lei da gravidade”: “NÃO PODIA FALTAR À CONFIANÇA DO MEU POVO”.

Figura 5: capa do Última Hora do dia 31/3/1955.

 

O Globo, por sua vez, destacava que “O BRASIL AGRADECE AO SEU CAMPEÃO” estampando uma fotografia do então presidente Café Filho apertando a mão do triplista. A recepção foi marcada por uma solicitação do atleta ao presidente, que o tratava o triplista por “meu herói”, de que o governo “ajude o esporte cada vez mais”.

Figura 6: O Globo, 1/4/1955, p.10.

 

Não se sabe ao certo o que aconteceu com a exibição do salto de Adhemar, que seria organizado pelo O Globo. Vale lembrar que o atleta se tornou também repórter do Última Hora. De todo modo, Adhemar de terno deu (talvez a primeira) volta olímpica do Maracanã na final do torneio Rio-São Paulo:

Nem tudo foi tristeza para os cariocas, na noite de football no Maracanã. A presença de Ademar Ferreira da Silva, que fez a volta olímpica sob a ovação da assistência, foi uma nota marcante do espetáculo de ontem. Foram torcedores, cariocas e paulistas, irmanados na homenagem ao grande recordista mundial do salto triplo (O Globo, 1/4/1955, p.12).

Figura 7: O Globo, 1/4/1955, p.12.

 

As construções dos sentimentos de nacionalidades através do esporte é cheia matizes. Passaram também por outras modalidades, além do futebol, merecendo ser melhor investigadas, assim como o uso político do esporte e o uso esportivo da política. Mas esse debate ficará para um próximo post.

***

EM TEMPO: esse post é dedicado à memória de Oswaldo Sérvulo de Faria, que não nos deixava esquecer – mesmo diante das adversidades – de mantermos sempre a esperança, e que possuía grande orgulho de Adhemar ter vestido as cores de seu time, o Clube de Regatas Vasco da Gama.

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[i] Uma pequena parte dessa história foi escrita com Victor Melo e está inserida no capítulo “Adhemar Fereira da Silva: Representations of the Brazilian Olympic Hero” do livro organizado por Antonio Sotomayor e Cesar Torres, que será lançado em breve.

[ii] O Globo, 19/03/1955, segunda seção, p.1.

[iii] Por exemplo, no Mundo Esportivo a coluna Perguntas e Respostas – dedicada a entrevistar personalidades esportivas, em sua maioria do futebol – comumente perguntava “qual é a maior expressão esportiva do Brasil?”. Com frequência os atletas escolhiam o nome de Adhemar, às vezes seguido de termos como “indiscutivelmente” (ver edições de 23/3/1956, p.2; 27/4/1956, p.2; 11/5/1956, p.2; 25/5/1956, p.15; 15/6/1956, p.3).

[iv] O Cruzeiro, 12/05/1956, p.118.

[v] Última Hora, 12/10/1956, Caderno 2, p.3.

[vi] A Noite, 31/08/1956, 2º Caderno, p.2.

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Histórias do esporte em Rubem Fonseca (parte 1)

17/04/2017

por Fabio Peres

Cruel, realista, desconcertante, brutal, mórbido. Entre tantos termos utilizados para descrever a literatura de Rubem Fonseca, talvez possamos também adicionar o adjetivo esportivo. Afinal, basta uma breve leitura de sua obra para perceber que não são poucos os contos e romances em que o esporte e as atividades físicas, em geral, ocupam lugar – ora mais, ora menos – privilegiado.

Desde a publicação de Os Prisioneiros (1963), primeira coletânea de contos do autor, o objeto está lá, por assim dizer, em suas variadas formas; às vezes de maneira mais clara ou quase desapercebido de modo sútil. Como aponta a escritora Maria Alice Barroso, Rubem já se destacava no conto Fevereiro ou março (1963)  pela incorporação de “um excelente tipo à galeria de personagens da literatura brasileira: o atleta vagabundo, frequentador das academias de boxe, portador de uma ética toda sua” (apud AUGUSTO, 2009, posfácio)[i].

Capa da edição de 1963 de Os Prisioneiros

O personagem-narrador inicia a história descrevendo como a condessa Bernstroa, mulher casada com a qual teve um caso, explicava a manutenção de suas formas corporais:

Era uma velha, mas podia dizer que era uma mulher nova e dizia. Dizia: põe a mão aqui no meu peito e vê como é duro. E o peito era duro, mais duro que os das meninas que eu conhecia. Vê minha perna, dizia ela, como é dura. Era uma perna redonda e forte, com dois costureiros salientes e sólidos. Um verdadeiro mistério. Me explica esse mistério, perguntava eu, bêbado e agressivo. Esgrima, explicava a condessa, fiz parte da equipe olímpica austríaca de esgrima — mas eu sabia que ela mentia.

O personagem continua desfiando a história explicando como foi seu dia, um sábado de carnaval, marcado por certa imprevisibilidade e também, não por acaso, por certa angústia:

Era de manhã, no primeiro dia de carnaval. Ouvi dizer que certas pessoas vivem de acordo com um plano, sabem tudo o que vai acontecer com elas durante os dias, os meses, os anos. […] Eu — eu vaguei pela rua, olhando as mulheres. De manhã não tem muita coisa para ver. Parei numa esquina, comprei uma pera, comi e comecei a ficar inquieto. Fui para a academia.

A descrição dos exercícios na academia é acompanhada por uma série de sentidos, pensamentos, práticas e gestos:

[…] comecei com um supino de noventa quilos, três vezes oito. O olho vai saltar, disse Fausto, parando de se olhar no espelho grande da parede e me espiando enquanto somava os pesos da barra. Vou fazer quatro séries pro peito, de cavalo, e cinco para o braço, disse eu, série de massa, menino, pra homem, vou inchar. E comecei a castigar o corpo, com dois minutos de intervalo entre uma série e outra para o coração deixar de bater forte; e eu poder me olhar no espelho e ver o progresso. E inchei: quarenta e dois de braço, medidos na fita métrica.

A academia, por sua vez, é lugar de encontros, de construção (e também de desconstrução) de vínculos e laços sociais. Os amigos, frequentadores de academia -ao que tudo indica de um bairro da Zona Sul carioca –, organizam a “diversão” para aquele carnaval:  “porrada pra todo lado”. A ideia era simples. Se fantasiar de mulher e então:

O povo cerca a gente pensando que somos bichas, nós estrilamos com voz fina, quando eles quiserem tascar, a gente, e mais vocês, se for preciso, põe a maldade pra jambrar e fazemos um carnaval de porrada pra todo lado. Vamos acabar com tudo que é bloco de crioulo, no pau, mesmo, pra valer. Você topa?

Após alguns desdobramentos (e outras referências aos sentidos e usos do corpo), o narrador se auto descreve para o marido da condessa, adquirindo assim características de um novo “tipo” inserido em um meio social com senso moral e ético próprios, como chamou atenção Maria Alice Barroso:

na academia eu faço ginástica de graça e ajudo o João, que é o dono, que ainda me dá um dinheirinho por conta; vendo sangue pro banco de sangue, não muito para não atrapalhar a ginástica, mas sangue é bem-pago e o dia em que deixar de fazer ginástica vou vender mais e talvez viver só disso, ou principalmente disso. Nessa hora o conde ficou muito interessado e quis saber quantos gramas eu tirava, se eu não ficava tonto, qual era o meu tipo de sangue e outras coisas. Depois o conde disse que tinha uma proposta muito interessante para me fazer e que se eu aceitasse eu nunca mais precisaria vender sangue, a não ser que eu já estivesse viciado nisso, o que ele compreendia, pois respeitava todos os vícios. Não quis ouvir a proposta do conde, não deixei que ele a fizesse; afinal eu tinha dormido com a condessa, ficava feio me passar para o outro lado. Disse para ele, nada que o senhor tenha para me dar me interessa. Tenho a impressão que ele ficou magoado com o que eu disse […] Por isso, continuei, não vou ajudar o senhor a fazer nenhum mal à condessa, não conte comigo para isso. Mas como?, exclamou ele, […], mas eu só quero o bem dela, eu quero ajudá-la, ela precisa de mim, e também do senhor, deixe-me explicar tudo, parece que uma grande confusão está ocorrendo, deixe-me explicar, por favor. Não deixei. Fui-me embora. Não quis explicações. Afinal, elas de nada serviriam.

No mesmo livro (Os prisioneiros de 1963) novamente a ginástica, a “malhação”, bem como as competições de “físico”, típicas de academia, seriam mencionadas no conto Os inimigos; para alguns críticos da época o melhor da coletânea. Além disso, o conto que dá nome ao livro curiosamente se inicia por uma conversa entre uma psicanalista e um cliente sobre a inconveniência e mesmo inadequação de usar roupa “esportiva” no Centro da cidade, lugar por excelência de trabalho.

O panorama, por assim dizer, esportivo da literatura de Rubem Fonseca, de fato, é vasto e instigante. Por exemplo, o ambiente e os frequentadores de academia voltariam a fazer parte da obra do autor em 1965 no conto A Força Humana (do livro A Coleira do cão). Na realidade, trata-se em certo sentido de uma continuação de Fevereiro ou março. Já em 1969, o antigo Vale-Tudo seria objeto central do conto O Desempenho no famoso livro Lúcia McCartney.

Em 1979, breves referências ao futebol e ao balé apareceriam em O cobrador (no livro homônimo). Na mesma obra menções à ginástica retornariam em Mandrake (além do xadrez) e, em 1992, em o Romance Negro. Por outro lado, uma competição inusitada no Pantanal está em AA (abreviação do “esporte” de mesmo nome) em 1998 no livro a Confraria dos Espadas. Também em 1992, há uma menção à rua do Jogo da Bola – uma prática de diversão que esteve presente na cidade do Rio de Janeiro no século XVIII e XIX[ii] – em A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro.

Em 2001, exercícios aeróbicos, de alongamento e de musculação são citados em Copromancia, na obra Secreções, excreções e desatinos. Corrida na praia aparece em Caderninhos de nomes no ano seguinte em Pequenas criaturas. Em Laurinha surge mais uma vez uma referência ao futebol no livro Ela e outras mulheres de 2006. E a relação de Lima Barreto com o futebol é citada no romance O seminarista de 2009.

Mas essas e outras histórias ficarão para os próximos posts. Em todo caso, mais do que uma mera provocação, denominar a literatura de Rubem Fonseca de esportiva pode ser uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira talvez que nos ajude a entrecruzar várias histórias: do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia, das diferentes modalidades e práticas esportivas, das emoções, da estética, da literatura, entre muitas outras histórias.

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[i] AUGUSTO, Sergio. Estreia consagradora. In: FONSECA, Rubem. Os prisioneiros. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

[ii] Maiores informações ver MELO, Victor Andrade de. MUDANÇAS NOS PADRÕES DE SOCIABILIDADE E DIVERSÃO: O jogo da bola no Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). História,  Franca ,  v. 35,  e105,    2016 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742016000100514&lng=en&nrm=iso>. access on  17  Apr.  2017.  Epub Dec 19, 2016.  http://dx.doi.org/10.1590/1980-436920160000000105.


Educação Física, Higiene e Saúde Pública na Corte – Parte 3

20/11/2016

por Fabio Peres[i]

No século XIX, a educação física e, em particular, a ginástica se tornaram pouco a pouco em um domínio defendido pelo saber médico. Como mencionado em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), tratou-se de uma relação que se consolidou no decorrer daquele século, apesar de inúmeras controvérsias. Não apenas a comunidade médico-científica teve que “lutar” pela legitimação de suas práticas e saberes junto ao Estado e à sociedade, como também teve que lidar internamente com a regulação dos conflitos e dilemas dessa mesma comunidade.

A própria emergência da educação física nos periódicos médicos do século XIX pode ser lida como justaposição entre, por um lado, a formação e, por isso, controle de uma comunidade médico-científica que estava se conformando no período e, por outro, a instrução de um público mais amplo, reforçando a sua legitimação enquanto saber médico.

Um capítulo dessa história, mostrado em um post anterior, foi a elaboração em 1830 do relatório da Comissão de Salubridade Geral, no qual o tema foi abordado[ii]. Outro indício importante desse processo se deu dois anos depois, em 1832. A ginástica voltaria a ser objeto de atenção no Semanário de Saúde Pública (11/08/1832, n.113). A ata da sessão realizada no dia 14 de julho daquele ano informa que o capitão Guilherme Luiz Taube entregou à Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (SMRJ), para avaliação, uma memória intitulada A Short Treatise on the Physic, and Moral Effects of Gymnastic, and Kalistenic Exercises.

Taube na ocasião tinha em mente duas iniciativas: a tradução do material apresentado, escrito em inglês e abrir um estabelecimento para oferecer aulas de ginástica. O sueco exercera o cargo de mestre em um colégio de ginástica em Nova York. No Brasil, atuara como capitão do Exército Imperial (é possível, portanto, que tenha chegado depois de 1822), tendo se casado com uma brasileira. Ficara desempregado em função dos desdobramentos da Lei de 24 de Novembro de 1830[iii], motivo pelo qual desejava ministrar aulas.

Guilherme Taube solicitava que a SMRJ emitisse um parecer sobre seu tratado, atestando os benefícios dos exercícios ginásticos. A intenção era que a escola de ginástica, que pretendia estabelecer na capital, tivesse o respaldo científico da entidade. Na mesma sessão, ficara definido que o relator do parecer seria o médico De-Simoni, membro titular e secretario perpétuo da SMRJ.

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

 

Menos de um mês depois, o relatório foi lido em uma das sessões da SMRJ, sendo depois publicado nas edições do Semanário de Saúde Pública[iv] (o relatório completo pode ser acessado aqui). Luiz Vicente De-Simoni percebe a validade do material, mesmo reconhecendo que carece de base científica:

A Memória que o Sr. Guilherme Luiz Taube apresentou a esta Sociedade, e de cujo exame vos dignastes encarregar-me, não é trabalho de um escritor que se proponha ilustrar esta parte da ciência, mas sim de um indivíduo, que, tencionando estabelecer neste pais uma escola, aonde os exercícios ginásticos sejam praticados debaixo da sua direção; dirige-se a prevenir o público em favor do seu estabelecimento, e do objeto dele; o que, para acreditar perante o mesmo público a utilidade física, e moral deles, assim como a veracidade das asserções com que ele a afiança no seu escrito, recorre a esta Sociedade submetendo ao seu juízo e aprovação o mencionado seu trabalho; não para ela julgar da sua perfeição como obra, mas da sua veracidade como peça dirigida a um público que pode duvidar dos princípios nela expendidos, e da utilidade da instituição que ele se propõe (1832, n.119, p. 413).

Mesmo não tendo acesso ao tratado entregue à SMRJ, é possível dimensionar, pelo relatório escrito por De-Simoni, os principais argumentos que Guilherme Taube utilizou para solicitar um parecer favorável da instituição médica. Além da descrição dos possíveis benefícios físicos (como desenvolvimento da força muscular; aumento da flexibilidade, da agilidade e da energia; diminuição dos efeitos da vida sedentária) e dos morais (como a interdependência do intelecto e do físico, o incremento do brio, da coragem, da confiança, entre outros), Guilherme Taube “assevera que em diferentes partes do mundo, entre as nações mais clássicas, os exercícios ginásticos têm sido adotados, animados, e muito proveitosos, e como tais julgados necessários pelos Médicos” (1832, p. 414).

Para além dos argumentos utilizados por Taube, segundo De-Simoni já havia na época posições consolidadas, pelo menos em parte da comunidade médica, sobre o valor da ginástica:

A Sociedade sem garantir a perfectibilidade do método que o Sr. Taube se propõe empregar, o que ele não expende, pode emitir o seu parecer em geral acerca da utilidade dos estabelecimentos ginásticos, o afiançar que quanto o Sr. Taube assevera no seu escrito, sobre esta utilidade é uma verdade reconhecida por todos os Médicos, e escritores ilustrados […]. Os Médicos mais distintos por seu saber tem abonado a ginástica em todos os tempos e em todas as partes do mundo instruído (1832, p. 414).

De acordo com o membro titular da SMRJ, o parecer positivo refere-se a uma preocupação maior, ao reconhecimento da relação entre saúde e condições sociais, tão cara à naquele início de século:

[…] pois o fim desta declaração não é somente beneficiar um indivíduo que os estabelece, mas a população no meio da qual o estabelecimento vai ser erigido; por isso que as vantagens que este pode produzir podem ser grandes, e gerais, e são incontestáveis, e certas quando os exercícios sejam nele praticados com método, e debaixo dos preceitos da higiene. Trata-se neste caso, não de favorecer a instituição de hum simples estabelecimento particular, mas a de um estabelecimento público cujas vantagens poderão ser aproveitadas por muitas pessoas, e principalmente pela classe mais débil, e enferma da população; estabelecimento que até poderá influir sobre a conservação da saúde dos que o não forem, e sobre o melhoramento da constituição individual da nossa mocidade; desenvolvendo melhor seus órgãos, e a sua forca para melhor defender e servir a pátria, quer como Soldados, quer como Cidadãos, e artífices (1832, p. 414).

Para De-Simoni, a prática poderia “exercer uma grande influência sobre o caráter, a glória, e prosperidade de uma nação, e não só ela é capaz de a beneficiar debaixo de um ponto de vista higiênico, como também social, e politico” (1832, p. 415). O médico enfatizou que a relação entre a prática corporal e as ciências médicas não era uma novidade, lançando mão de um artifício argumentativo: uma mobilização da história:

As vantagens pois da ginástica não são problemáticas a face da Medicina; elas são atestadas pela história, e afiançadas pela ciência; nada há mais reconhecido, e provado do que elas. A opinião favorável dos Médicos de todos os países e de todos os séculos podemos francamente adicionar a nossa, e favorecer com ela a instituição de um estabelecimento a ela destinado, tal como o que se propõe o Sr. Taube (1832, p. 416).

Não temos informação se Guilherme Luiz Taube abriu, de fato, o referido estabelecimento que ofereceria aulas de ginástica na Corte. O que sabemos, através dos jornais, é que Taube foi nomeado mestre de ginástica do Colégio Pedro II em 1841[v].

De todo modo, pode-se entrever que já naquele momento não se tratava somente de uma ginástica, mas de uma ginástica médica, que se institucionalizava à luz dos preceitos da higiene e da saúde pública, mesmo que ainda de forma incipiente.

Anos mais tarde, a tentativa de fundar um instituto ginástico e ortopédico na Corte evidenciaria cisões e divergências na comunidade médica. Mas essa história ficará para um próximo post.

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[i] Esse post é um desdobramento das pesquisas realizadas com Victor Andrade de Melo no pós-doutorado, entre 2012-2015, no PPGHC/IH/UFRJ. Parte dele foi publicado em MELO, V. A.; PERES, F.F. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.

[ii] A ata da sessão da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (19/6/1830), em que houve a aprovação do relatório,  foi posteriormente publicada no Semanário de Saúde Pública (9/4/1831).

[iii] Brasil. Lei de 24 de Novembro de 1830. Fixa as forças de terra para o anno financeiro de 1831-1832 (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1830, p. 55, v. 1, pt. I). Disponível em: <http://www2.camara.gov.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-37992-24-novembro-1830-565665-publicacaooriginal-89410-pl.html>. Acesso em: 18 de novembro de 2016. Por essa lei, à exceção daqueles que participaram da campanha da independência, foram mutilados ou gravemente feridos em conflitos, os estrangeiros foram demitidos e proibidos no Exército.

[iv] Inicialmente, uma síntese do parecer emitido por De-Simoni foi publicada no número 117 de 8 de setembro de 1832 (p. 405). Foi depois publicado na íntegra no número 119 de 22 de setembro de 1832 (p. 413-416).

[v] Jornal do Commercio, 8/10/1841, p.1


Esporte, Política e Humor: o Golpe de 16 (parte 1)

27/06/2016

As relações entre esporte e política são múltiplas. O que talvez possa passar despercebido no contexto atual é que o esporte também permeia (sem perder o bom humor) a luta política.

por Fabio Peres

Desde o acirramento da crise política em 2015, incontáveis manifestações relacionaram política e esporte. Faixas – pró e contra o impeachment – foram exibidas em jogos de futebol. Torcidas procuraram se organizar em torno da luta contra o golpe. Proliferaram-se memes fazendo referência ao mundo do esporte. Torcedores invadiram campos e treinos de times de futebol. Camisas da seleção (ou da CBF como alguns discursos procuram sublinhar) [i], não apenas foram utilizadas em manifestações, como também foram personalizadas com dizeres “Fora Dilma” ou “Fora PT”.  Houve até mesmo torcida homenageando juiz.

O clássico fla X flu, aliás, ganhou corpo em diversas análises como metáfora da polarização política. O que chama atenção nesse caso é a força simbólica que a disputa carioca ainda possui no imaginário social. Não se tem conhecimento, pelo menos com a mesma eficiência semântica, de uso de outras contendas para ilustrar tal conjuntura (não se falou no Derby Paulista e muito menos em Barcelona X Real Madrid).

Política e esporte definitivamente estavam imbricados em todas essas ocasiões.

O que pode parecer inusitado é que – apesar da seriedade da crise (ou justamente por conta disso) – também houve uma profusão de referências, cujo traço comum era o humor.

Com o início do processo de impeachment, jornalistas, artistas e coletivos sociais utilizaram de forma bem-humorada as práticas esportivas para explicitar e questionar o momento político que estamos atravessando.

Na Folha de S. Paulo, por exemplo, Gregório Duvivier (na crônica Festa Estranha com Gente Esquisita, 21/12/2015) colocou em xeque – utilizando para isso modalidades esportivas – a representatividade do Congresso Nacional, a premissa de que o poder legislativo reflete a sociedade brasileira:

Se tem alguém que não está presente no Congresso nacional (além dos deputados que, de modo geral, preferem trabalhar de casa) é o povo brasileiro. As mulheres são quase 52% da população. No entanto, você consegue encontrar mais mulheres jogando rúgbi do que na Câmara dos Deputados. O povo brasileiro se declara, em sua maioria, negro ou pardo (53%). O Senado brasileiro tem menos negros que o Senado da Suécia (não é uma expressão, é um fato). Quanto aos jovens, melhor procurar num jogo de bocha. Jovens com até 34 anos são 39% do eleitorado e 10% do Congresso (grifos nossos).

 

A reflexão continua acentuando ironicamente o perfil elitista do Congresso em contraponto ao da população:

Muito se fala sobre a tal festa da democracia. Que festa estranha com gente esquisita. Eu não tô legal. O Congresso brasileiro parece o salão de jogos do Country Club: uma versão mais masculina, mais branca, mais hétero, mais velha e mais empresária do Brasil. Mas por quê? Será que o brasileiro só confia em homem branco hétero velho empresário? Uma rápida pesquisa revela que eleger um deputado custa, em média, R$ 6 milhões. Uma rápida pesquisa revela que quem tem R$ 6 milhões no Brasil é homem branco hétero velho empresário. O Congresso brasileiro não é a cara do Brasil. Ele é a cara da elite do Brasil. Não é o povo brasileiro que é conservador. É o dinheiro brasileiro que é conservador. Pense no lado bom: talvez o Brasil não seja um país intrinsecamente corrupto ou reacionário. Ou talvez seja. Isso a gente ainda não sabe. Pra isso seria preciso uma coisa inédita: democracia. Por enquanto, pra participar da festa, só com pulseirinha VIP de R$ 6 milhões (mas relaxa que tem consumação).

 

No dia 03 de abril, Juca Kfouri, por sua vez, abriu sua crônica com a seguinte questão: “Nestes dias uma questão paira sobre o Brasil: impeachment de Dilma Rousseff é golpe ou não é golpe?” (Folha de S. Paulo, 03/04/2016).  O futebol é usado para responder de maneira cômica a questão (o artigo completo pode ser encontrado aqui). Rico em figuras de linguagem, o texto conclui:

Só não esqueça que a vitória roubada não é legítima, que sem respeito às regras não tem jogo. E que uma expulsão ilegal, nestas alturas do campeonato, pode virar um tremendo quebra­pau no estádio, pode virar tragédia. Se você acha que vale arriscar só para ver o rival derrotado, lamento dizer que não estamos no mesmo time.

 

Com narração do próprio Juca Kfouri, a crônica foi dramatizada em vídeo pelo coletivo[ii] Um à Esquerda:

 

O coletivo voltaria a usar esse mesmo recurso, também com narração de Juca Kfouri, para falar de possíveis perdas dos direitos trabalhistas – naquela época, num eventual governo interino Temer. O vídeo faz uma analogia entre 7 projetos de lei que buscam “flexibilizar” a CLT e os 7 gols que a seleção brasileira tomou contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014.

 

 

O gol de honra do “Brasil” só apareceria em outro vídeo, quando o ministro do STF Teori Zavascki determinou o afastamento de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) do mandato de deputado federal e, consequentemente, da presidência da Casa, em 05/05/2016.

 

 

Mas mesmo antes da infame votação no dia 17 de abril, quando ainda não se tinha certeza se o impeachment passaria na Câmara, o colunista Celso Rocha de Barros da Folha de S. Paulo alertava para os riscos de dá-lo como certo, ainda que bastante provável. De maneira espirituosa, a coluna O Cenário Deivid (04/04/2016) lembrava do insólito gol perdido pelo jogador do Flamengo, na disputa da Taça Guanabara de 2012, contra o Vasco (veja o lance no vídeo abaixo). Embora o “sim” já aparecesse com franca maioria nas análises divulgadas por parte da mídia, recomendava-se um pouco cautela:

Enfim, o gol está aberto para a oposição. Mas gol aberto é hora de lembrar de Deivid, ótimo centroavante que jogou nos maiores times do Brasil e na seleção. Dentro de uma carreira cheia de títulos e artilharias, o gol perdido por Deivid na semifinal da Taça Guanabara de 2012 é só um episódio pitoresco. Mas ninguém esquece: a poucos centímetros da linha do gol, sem goleiro, Deivid chutou na trave. Como seria um momento Deivid da turma que quer derrubar Dilma?

 

 

Fazendo uso de outras referências ao futebol, o colunista chama atenção para o papel cada vez mais decisivo que o chamado baixo clero possuiria na votação na Câmara, o que ainda conferia uma pequeníssima dose de imprevisibilidade à disputa pelos votos (tanto para o “sim” como para “não”, tanto para direita como para a direita) de “partidos que são pouco mais que máquinas de extração de rendas (o PMDB incluso)”:

Um governo Temer continua muito provável […] Mas é bom lembrar que, embora a zaga petista tenha se distraído do jogo olhando aquela grama toda tão apetitosa, o atacante adversário está sob cerrada marcação da natureza. Agora olhem para todos esses cenários com PMDB e PP e me expliquem de novo por que valeu a pena começar a guerra do impeachment.

 

Com humor mais escrachado, artistas criaram o projeto Supletivão, no qual o golpe é explicado através de aulas de disciplinas diversas: lógica, português, história e educação física. Nessa última, o ciclismo (em suas diversas modalidades) é usado para explicitar as intempéries, para não dizer, bizarrices político-jurídicas de uma democracia em risco:

 

 

Após a votação no Senado, aprovando a abertura de processo de impeachment, Gregório Duvivier voltou a fazer analogias entre esporte e política.  Em Faltou combinar com os russos (Folha de S. Paulo, 16/05/2016), o colunista lembra da folclórica conversa entre Garrinha e o técnico Feola, na Copa de 1958, para retratar a ingenuidade, as ambiguidades e mesmo contradições daqueles que apoiaram o impeachment, alguns provavelmente neófitos na participação política (e talvez no futebol):

Reza a lenda que na Copa de 58, o técnico Feola bolou um esquema infalível contra a seleção soviética: Nilton Santos lançaria a bola pela esquerda para Garrincha, que driblaria três russos e cruzaria para Mazzola marcar de cabeça. Garrincha ouviu o professor atentamente: “Tá legal, seu Feola, mas o senhor combinou com os russos?”. “Primeiro a gente tira a Dilma”, dizia o pessoal do impeachment. “Depois a gente derruba o Temer. Aí a gente prende o Cunha. Quando ele cair, a gente cassa o Renan. Daí pronto: eleições gerais.” O plano era infalível. Só esqueceram de combinar com os russos. No poder, o presidente interino (não pronunciarei mais seu nome) já mostrou que não tem a menor intenção de renunciar –apesar de ter assinado as mesmas pedaladas que derrubaram Dilma. Parabéns a todos os que produziram o efeito dominó mais curto do mundo: parou na primeira peça.

 

Já com o governo interino em curso, talvez o cenário se afastasse bastante daquele imaginado pelas pessoas que, 5 dias antes, comemoraram o afastamento da presidente:

Os russos roubaram a bola antes dela chegar ao ataque e fizeram sete gols. O secretario de segurança genocida foi premiado com a Justiça. A Educação ficou com o PFL (me recuso a chamar de Democratas) –partido que foi contra o ProUni, o Fies, os royalties para educação. A Cultura foi pro mesmo lugar que a democracia: debaixo da terra. Ou do PFL. O que é pior. Serra no Exterior –um sujeito que não tem sequer um amigo vai cuidar da diplomacia. Mudaram a CGU –e junto com ela a torneira da Lava Jato. Achei que aqueles que eram contra a corrupção iriam às ruas contra o primeiro presidente brasileiro que já assume com a ficha suja. Não foram. Achei que fossem contra a indicação de ministros citados na Lava Jato. Tampouco foram. O pato da Fiesp acordou rouco. As panelas voltaram à cozinha. Durante o discurso do vampiro embalsamado que nos governa, tudo o que se ouvia era um silêncio ensurdecedor. Cheguei a ouvir: “ao menos esse presidente fala bem o português”. A vontade é enorme de gostar do mordomo interino. Pode roubar, matar, e esconder cadáver, mas pelo menos não erra o plural.

 

O autor de maneira provocativa e irreverente conclui:

Não se esqueçam do Carlos Lacerda, que fez o que pôde pro governo de Jango cair. Quando o golpe chegou, teve os direitos políticos cassados. Tentou reclamar –era tarde demais. “Mas não era isso que você queria?”, poderiam argumentar os militares. O golpe chegou. Vale lembrar de Lacerda. Quem pediu o golpe não estará imune a ele. É o momento de deixar claro que não era isso que vocês queriam. Com esse silêncio todo, fica parecendo que era.

 

Assim como no caso de outros literatos – como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Joaquim Manuel de Macedo (comentados anteriormente aqui no blog) –  jornalistas, artistas e coletivos sociais “deslocaram” os sentidos habituais do esporte para provocar riso, wit  ou ironia (a despeito da distinções conceituais entre cada um deles)[iii].

Sem dúvida, devemos considerar o caráter relativo do humor, mas não é recomendado abrir mão do “contextualismo linguístico” de produção das narrativas.

De todo modo, o esporte parece cumprir com eficácia o requisito de “familiaridade com os códigos e as normas que ditam a (de)codificação da mensagem humorística” (ERMIDA, 2002, p.76).

Ora mais, ora menos irônica, ora mais, ora menos sútil, as práticas esportivas em todos esses casos foram mobilizadas com sensibilidade cômica para refletir sobre a crise (vale ressaltar multiplamente adjetivada; o que evidencia ainda mais a sua gravidade). Mais do que isso, o esporte também é usado para “demarcar campo”, para se posicionar na disputa política.

Em outras palavras, as práticas esportivas parecem, não apenas ser “boas para pensar” o mundo político, mas – como causa ou consequência disso – parecem também ser “boas para agir” – com bom humor – na vida social e política.

Alguns cartunistas parecem concordar com essa ideia. Articulando referências e linguagens múltiplas (fotografia, música, esporte, entre outras), Aroeira por exemplo desenhou o Impávido que Nem Muhammad Ali:

o Impávido que Nem Muhammad Ali (Aroeira, 06/06/2016)

 

A homenagem sugere um eco que de alguma forma repercuti no contexto político atual:

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos

Surpreenderá a todos não por ser exótico

Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto

Quando terá sido o óbvio

(Um índio, Caetano Veloso. A música pode ser escutada aqui)

 

Mas essa história vai ficar para o próximo post.

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[i] Vale notar que a expressão “camisa da CBF” tem sido utilizada para denotar e sublinhar o tom crítico a tais manifestações.

[ii] Estamos usando a denominação utilizada por Juca Kfouri.

[iii] Maiores informações ver: ERMIDA, Isabel Cristina da Costa Alves. Humor, Linguagem e Narrativa: para uma Análise do Discurso Literário Humorístico. Tese (Doutorado em Ciências da Linguagem). Universidade do Minho, Braga, 2002.


A História de uma Policronofonia: críticas (bem-humoradas) à prática de esportes e exercícios físicos no Rio de Janeiro do século XIX

01/02/2016

A presença e a força dos discursos médicos e pedagógicos no final daquele século eram incontestáveis. O desfio era convencer a população a efetivamente praticá-los no dia-a-dia, sem que antes ela duvidasse de certos argumentos e prescrições.  

por Fabio Peres

A história começa com um sonho esplendido, quase idílico. Naquele 24 de maio de 1895, dia da inauguração do Prado Brasileiro, a multidão se amontoava em torno da arena da nova sociedade esportiva, localizada provisoriamente na Praia de Botafogo, n.171 (sede do Bellódromo Guanabara). O céu era “de um azul lavado e fresco” (A Cigarra, 30/5/1895)[i].

Anúncio do Prado Brasileiro (O Paiz, 22/5/1895, p.8)

Anúncio do Prado Brasileiro (O Paiz, 22/5/1895, p.8)

Voando em pensamento, o cronista entregou a “alma a um sonho radiante”, viajou “para outro clima e para outra idade”. Viu área de jogos, piscinas de mármore, homens fortes, “robustecidos pelo exercício violente”, além de corridas a pé, carruagens, atletas, saltos, lutas e arremessos. Estava definitivamente na “jovem Grécia”.

O deleite provocado pelo sonho, seguido por um desanimo ao despertar, foram depois de um tempo sopesados:

Meu Deus! Cada roca com o seu fuso, e cada século com os seus exercícios. O culpado d’esses sonhos, d’essas saudades ansiosas que o jornalismo fluminense de hoje, de vez em quando, diz sentir pela rija educação física dos tempos heroicos,— o culpado dessa mania é Sr. Ramalho Ortigão que vive a fazer, em livros e artigos, a apologia da ginástica (A Cigarra, 30/05/1895, p.2)[ii].

Dialogando diretamente com os preceitos de saúde e educação física da época, o autor – em tom zombeteiro – chamava atenção para incompatibilidade e mesmo anacronismo entre os discursos de promoção e estimulo de práticas corporais, pautados por uma idealização da Grécia Antiga, e as práticas esportivas adequadas a um carioca de 1895, “com o câmbio a 8 e uma guerra civil de quatro anos de idade”. Tal modo de vida da Antiguidade não seria factível com as obrigações e condições de vida de um cidadão da “era moderna”:

Apanhem-me um honesto burguês destes desventurados tempos modernos. O homem é empregado público: o emprego rende-lhe duzentos mil réis. Mas o desgraçado tem oito filhas que precisam de marido: querem vestir-se, querem piano, fitas, teteias, teatros. E o infeliz, mesmo arranjando para a noite qualquer trabalho suplementar com que se estrompe a ganhar a vida, não consegue, no fim do mês, pagar todos os seus compromissos, Metam agora na cabeça desse burguês a convicção de que, para viver muito, o exercício físico é indispensável: mandem-no perder, de manhã, duas horas em ginástica de quarto, – de tarde, outras duas em corridas a pé, – de noite, outras duas em velocipedia. E digam-me que tempo lhe ficará para ganhar o pão de cada mês. O’ néscios! O problema capital da vida não é viver muito: é viver! Não é ter saúde: é ter dinheiro! Não é ser belo: é comer! (op. cit.)

De acordo com o bem-humorado cronista, o esporte moderno é bem concebido justamente pelo fato da prática ficar restrita somente aos que se “empregam nele, e se divertem quem tem tempo e dinheiro” para assistir. E, por fim, sentencia em clara oposição aos argumentos que “vestem” determinados contextos “com as roupas talhadas em outras épocas” [iii] e em outros lugares:

Nós não somos feitos para essas façanhas, amigos! Contentemo-nos com o que o século nos dá. E, em matéria de sport limitemo-nos a apostar neste ou naquele corredor, neste ou naquele cavalo, neste ou naquele pelotari. A idade heroica foi a dos jogos olímpicos. A idade moderna é a dos jogos de poules. E eu prefiro perder dinheiro, vendo correrem os outros, a ganhá-lo, correndo eu, para que os outros me vejam (A Cigarra, 30/05/1895, p.3).

Uma das chaves para compreender a prática de esportes e exercícios físicos na cidade do Rio de Janeiro do século XIX passa, por certo, pelos discursos pedagógicos e médico-higienistas. Contudo, esses discursos nem sempre, ou muitas vezes, se materializavam ipsis litteris na vida social da cidade.

Em 1892, aliás, um estrangeiro de velocípedes no Passeio Público foi alvo de chacotas: “corre nenê!”. De acordo com o comentarista, a prática de exercícios físicos em determinados espaços da cidade ainda era censurada pela população, onde “moços do Rio de Janeiro, salvas poucas exceções, não têm força muscular”[iv]; algo que certamente mudaria. Mas essa história ficará para um próximo post.

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[i] Havia nos periódicos fluminenses uma certa expectativa em torno da estreia do empreendimento. Nos dias seguintes, porém, as matérias sobre o evento foram marcadas por controvérsias e críticas, sobretudo, em relação à qualidade técnica das provas (O Paiz, 25/5/1895, p.2; O Paiz, 26/5/1895, p.2).

[ii] Vale destacar que em 4/1/1888, a Gazeta de Notícias fazia uma promoção e oferecia livros aos que renovassem sua assinatura, entre os quais “Ginástica de quarto”, a obra de Schreber traduzida pelo renomado Ramalho Ortigão, que já fizera várias referências ao autor em seu “As Farpas: Crônica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes”.

[iii]  ALENCASTRO, Luiz Felipe. “Não sabem dizer coisa certa”.  Revista Brasileira de Ciências Sociais, n. 16, jun. 1991, p. 64. 14.

[iv] O Paiz, 10/6/1892, p.1


Esporte, Política e humor: as eleições no Rio de Janeiro do século XIX

20/09/2015

As eleições sempre despertaram a atenção de importantes literatos e intelectuais. O que parece inusitado é o uso irônico do esporte para apontar os limites da cidadania e da participação política nos pleitos do século XIX.

por Fabio Peres[i]

Há quase dois anos, publiquei um post no qual comentava a presença de determinadas práticas corporais na obra de dois literatos. Naquela ocasião, um dos argumentos era que, mesmo distantes por um pouco mais de um século, Carlos Drummod de Andrade e Joaquim Manuel de Macedo estabeleceram analogias entre aspectos da performance atlética e os cenários políticos em que estavam inseridos[ii].  Os usos dessas práticas, por assim dizer, “fora de lugar” (na política, no caso) funcionavam como recurso de humor; que pelo contraste ou incongruência jogava uma nova luz sobre a vida social.

No século XIX, na verdade, esse tipo de “apropriação” do esporte ou de outras práticas corporais era mais comum do que a princípio poderíamos imaginar.

Em 1894, por exemplo, Machado de Assis demonstrava certa preocupação com as eleições à presidência do estado do Rio de Janeiro[iii]. A abstenção, no olhar do cronista, era talvez o maior inimigo do pleito. No entanto, não bastaria apenas a exortação para convencer o eleitorado a comparecer às urnas, a se interessar pelo direito de eleger seus representantes. Seria necessário um estímulo a fim de reverter a indiferença. A ideia era simples: dar às eleições um aspecto acentuadamente esportivo (Gazeta de Notícias, 15 de julho de 1894, p.1).

A reforma eleitoral proposta por Machado – sem dúvida com tom irônico – partira de um comentário publicado no Jornal do Comércio sobre a “população esportiva” no munícipio. O literato reagiu com surpresa e autocrítica burlesca:

A princípio não pude raciocinar. A certeza de que dois terços da nossa população é esportiva, deixou-me assombrado e estúpido. Voltando a mim, fiquei humilhado. Pois quê! dois terços da população é esportiva, e eu não sou esportivo! Mas que sou então neste mundo? (op. cit.)

 

Não era a primeira vez que Machado expressava tal preocupação. Na verdade, a inquietação do autor/personagem sobre a participação eleitoral, que “não se deixa persuadir com palavras nem raciocínios”, era um assunto recorrente. Ainda que o escritor apontasse distintas causas e soluções ao longo do tempo para tal “moléstia”[iv], o estilo jocoso estava sempre presente. Em 1892, por exemplo, chamava atenção:

Toda esta semana foi empregada em comentar a eleição de domingo. É sabido que o eleitorado ficou em casa. Uma pequena minoria é que se deu ao trabalho de enfiar as calças, pegar do título e da cédula e caminhar para as urnas. Muitas seções não viram mesários, nem eleitores, outras, esperando cem, duzentos, trezentos eleitores, contentaram-se com sete, dez, até quinze. Uma delas, uma escola pública, fez melhor, tirou a urna que a autoridade lhe mandara, e pôs este letreiro na porta: “A urna da 8ª seção está na padaria dos Srs. Alves Lopes & Teixeira, à rua de S. Salvador n…”. Alguns eleitores ainda foram à padaria; acharam a urna, mas não viram mesários. Melhor que isso sucedeu na eleição anterior, em que a urna da mesma escola nem chegou a ser transferida à padaria, foi simplesmente posta na rua, com o papel, tinta e penas. Como pequeno sintoma de anarquia, é valioso GN, 07/08/1892, p.1).

 

Já em 1894, as cores esportivas da reforma consistiam basicamente em trazer a emoção das competições para a disputa eleitoral. Para isso, parâmetros esportivos (em especial, do turfe) deveriam ser adicionados ao pleito a fim de atrair a população, o que incluiria dar alcunhas aos candidatos (assim como no caso dos cavalos), além de institucionalizar as apostas no certame eleitoral:

Em vez de esperar que o desejo de escolher representantes leve o eleitor às urnas, devemos suprir a ausência ou a frouxidão desse impulso pela atração das próprias urnas eleitorais. A lei deve ordenar que os candidatos sejam objeto de apostas, ou com os próprios nomes, ou (para ajudar a inércia dos espíritos) com outros nomes convencionais, um por pessoa, e curto. Não entro no modo prático da ideia; cabe ao legislador, achá-lo e decretá-lo. A abstenção ficará vencida […] (GN, 15/07/1894, p.1).

Em certo sentido, parte da crítica de Machado se dirige à própria população e aos cidadãos que se envolvem com os eventos esportivos, mas que se interessam pouco com as eleições (uma hipótese que merece ser melhor investigada). Contudo, tal crítica é matizada por uma conjuntura que afastava o eleitor das urnas. A participação política, não apenas era minada por um conjunto de instituições sociais frágeis (que deveriam favorecer e zelar por ela), como a própria concepção dominante de cidadania na época, ajudava a institucionalizar a exclusão e a reprodução de relações desiguais de poder.

De fato, a “esportividade” das eleições naquele cenário poderia ter vários desdobramentos para combater as abstenções. Um deles relacionado à própria ambiência política, que era marcada por violência, corrupção, intimidação, desorganização etc. Não por acaso, o literato chama a atenção para certos constrangimentos que cercavam a participação eleitoral: “Não sei quem seja aqui César nem Pompeu. Contento-me em que não haja morte de homem, nem outra arma além da cédula” (GN, 15/07/1894, p.1). De certa maneira, a reforma eleitoral poderia ajudar na construção de uma paisagem política em que “O vencido perde o lugar, mas não perde as costelas” (op. cit.).

Outro benefício seria o aumento de naturalizações, impulsionado pelo clima competitivo das eleições: “A lei deve até facilitar a operação [de se naturalizar], ordenando que o simples talão da aposta sirva de título de nacionalidade” (p.1). Mas caso a reforma eleitoral, por si só, não tivesse êxito em combater a abstenção, as mulheres não poderiam deixar de ter acesso ao sufrágio:

Se a ideia não der o que espero, recorramos então ao exemplo da Nova Zelândia, onde por uma lei recente as mulheres são eleitoras. […] Elevemos a mulher ao eleitorado; é mais discreta que o homem, mais zelosa, mais desinteressada. Em vez de a conservarmos nessa injusta minoridade, convidemo-la a colaborar com o homem na oficina da política. Que perigo pode vir daí? Que as mulheres, uma vez empossadas das urnas, conquistem as câmaras e elejam-se entre si, com exclusão dos homens? Melhor. Elas farão leis brandas e amáveis. As discussões serão pacíficas. Certos usos de mau gosto desaparecerão dos debates (op. cit.).

Ainda que a ironia torne um pouco mais complexa a interpretação sobre as questões de gênero,  devemos ter em vista a preocupação central do autor: fazer com que toda a população participe mais da vida política, ou melhor, que a “população inteira fique esportiva” (op. cit.).

A despeito disso e embora a proposta não passasse de uma brincadeira – uma forma espirituosa de abordar os dilemas de uma cidadania ainda incerta na república recém-formada – a narrativa permite entrever, já naquele momento, a forte presença social do fenômeno esportivo na cidade.

De fato, no final do século XIX uma série de práticas esportivas faziam parte da paisagem fluminense. Não se tratava apenas do turfe – modalidade citada na crônica -, mas também das corridas à pé, de bicicletas, dos jogos de pelota, entre outras, como lutas, tiro, regatas e natação (várias delas, vale destacar, também objeto dos escritos de Machado). Como previra Machado, “o contágio far-nos-ia a todos esportivos” –  talvez não exatamente com a conotação política desejada pelo literato.

Em todo caso, as práticas corporais (o futebol para Drummond, a ginástica para Manuel de Macedo e o tufe para Machado de Assis) eram “boas para pensar” a sociedade política. Isso, sem deixar de articular várias vertentes do humor – como a ironia, espirituosidade, a sátira etc. – à crítica da conjuntura de cada época.

Talvez não seja fortuito que mais de uma década antes da crônica de Machado tivesse sido publicado, em 1881, um anúncio sobre as Grandes Corridas Eleitorais no Prado do Munícipio Neutro, a primeira eleição direta após a reforma eleitoral implementada naquele ano (a conhecida e polêmica Lei Saraiva[v]). A estrutura e a lógica do campo esportivo não apenas tinham comicamente invadido o pleito, como eram usadas – para empregar um termo utilizado por Machado – como “armas” contra o sistema político:

Grandes Corridas Eleitorais no Prado do Munícipio Neutro (Gazeta da Tarde, 31/10/1881, ed. 254, p.4)

 

Mas essa história vai ficar para o próximo post.

 

[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] No caso de Carlos Drummond de Andrade, o inverso também é verdadeiro: o uso do cenário político para falar dos atributos esportivos dos atletas. A crônica de Drummond (“Imagens da Vitória. Seleção de Ouro”, publicada em 20/06/1962 no Correio da Manhã, p.6) não apenas abordava o contexto político, mas talvez mais do que isso celebrava a seleção bicampeã do mundo. Contudo, o sentido crítico, ainda que possa ser considerado mais tênue, não deixa de existir na crônica.

[iii] Gazeta de Notícias, 15 de julho de 1894, n.195 (coluna A Semana), p.1. Também disponível em: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=28393

[iv] Na crônica de 7 de agosto de 1894, por exemplo, Machado aponta a inércia (e não a indiferença, a abtenção e a descrença) para a pouca participação na eleição: “Variam os comentários. Uns querem ver nisto indiferença pública, outros descrença, outros abstenção. No que todos estão de acordo, é que é um mal, e grande mal. Não digo que não; mas há um abismo entre mim e os comentadores; é que eles dizem o mal, sem acrescentar o remédio, e eu trago um remédio, que há de curar o doente. Tudo está em acertar com a causa da moléstia”. (Gazeta de Notícias, 07 de agosto de 1892, n.219, p.1 (coluna A Semana)). Também disponível em: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=28393

[v] Decreto nº 3.029, de 9 de janeiro de 1881.


Só podia ter parte com o diabo! Um “cavalo de ferro” no Rio Grande do Sul do século XIX

24/05/2015

Cleber Eduardo Karls

cleber_hist@yahoo.com.br

A bicicleta foi uma das marcas da prosperidade tecnológica do século XIX. Esta novidade que foi apresentada ao mundo pela primeira vez em Paris no ano de 1861, tanto causava admiração quanto espanto nas suas primeiras aparições. Ferramenta do homem para superar os seus limites, máquina que substituíra o animal nos desafios do seu extremo. O desempenho que o velocípede proporcionava estava baseado tanto na capacidade de engenhar, quanto na técnica e na força física do ser humano. O tempo agora era o mais ferrenho adversário, o homem deveria enfrentá-lo cada vez com mais pujança e superar os seus próprios limites. A ciência, a disciplina, as ideias modernas, faziam das bicicletas e suas competições a própria tradução de um tempo. Novos materiais, medidas, conceitos, conhecimentos, nomeavam as máquinas de duas rodas como um símbolo do progresso em um palco privilegiado, a cidade.

Acontece que o contato inicial com estas “engenhocas” no Rio Grande do Sul parece não ter sido assim tão tranquilo. A primeira bicicleta de que temos notícia foi descrita pelo mecânico Adolfho Pompílio Mabilde. Este estava estabelecido com sua oficina na então Colônia de Santa Cruz, e ao final do ano de 1869 teve de ir a São Leopoldo a negócios. Chegando àquela cidade de colonização alemã, próxima a Porto Alegre, se deparou com o Sr. Alfredo Dillon, filho de comerciante porto-alegrense que lá estava divulgando uma nova máquina importada, americana: um velocípede que foi chamado de “cavalo de ferro”.

A demonstração do comerciante causava furor, espanto, indignação! Havia os que diziam que o ciclista tinha parte com o diabo, pois corria numa máquina em que não se via ninguém puxar a frente ou empurrar atrás. Corria ligeiro feito um raio, e o pior de tudo era ter somente duas rodas, uma atrás da outra!

O mecânico Mabilde, vendo que o Sr. Dillon embarcara no vapor rumo a Porto Alegre, origem do velocípede, fez o mesmo para que pudesse, curiosamente, especular sobre todos os detalhes daquela curiosa máquina. Logo, o hábil braçal percebeu que não era necessário nenhum pacto com o diabo para que se “domasse” aquela engenhoca. Era uma verdadeira máquina infernal! Todas as notas foram tomadas para que em sua oficina em Santa Cruz um equipamento daqueles fosse montado.

O velocípede consistia em uma estrutura com uma roda dianteira de 90 cm e uma traseira de 80 cm de diâmetro. Eram feitas em madeira com arco de ferro, para aperto das cambotas, bem feitas e leves em relação à resistência. A viga curva, em que havia a sela comprida, era uma mola de aço chato maciça, de ferro forjado. Assim era o resto da ferragem, excetuando a bucha que girava a guia, que era de ferro maleável.

Nas manivelas, que eram fixadas diretamente sobre os extremos do eixo da roda grande, tinha os pedais de madeira torneados em forma de carretéis como os de linha, girando sob espigas de ferro. A pintura era toda de vermelhão, com listras brancas e envernizadas. O senhor Adolfho Mabilde se gabava de ter em Santa Cruz produzido a segunda e a terceira bicicleta do Rio Grande do Sul, juntamente com seu irmão e sócio. Com as devidas adaptações na construção, a máquina circulou pelas ruas da pequena colônia causando tanta admiração quanto o fez em São Leopoldo.

Mesmo sendo um equipamento um tanto tosco para os dias atuais, com um funcionamento grosseiro e simples, o mecanismo causou espanto e deslumbramento dos gaúchos à época. A tecnologia, a engenharia, a possibilidade de locomoção rápida sem a ajuda de animais era uma novidade bem-vinda. Podemos perceber que esta motivação foi ampliada constantemente com o desenrolar do século XIX e a chegada do XX. O “cavalo de ferro” passou a fazer parte do cotidiano dos gaúchos, tanto para o seu lazer, funcionalidade, trabalho, quanto para as disputadas esportivas.

O Sr. Adolfho passou a morar em Porto Alegre no ano de 1873 onde adquiriu o velocípede da loja do Sr. Dillon, do qual havia assistido a demonstração em 1869. Este o serviu por muito tempo, assim como outras bicicletas (melhoradas) construídas pelo próprio, até o ano de 1886. Novos modelos vindos da Europa, mais leves e resistentes tornaram aquelas antigas máquinas obsoletas.

Em janeiro de 1886, a imprensa porto-alegrense declarou uma novidade para a cidade, as corridas a velocípedes, que deveriam se realizar no Jockey-Club Porto-Alegrense. Esta nova modalidade que estava estreando na capital do Rio Grande do Sul, e que conquistaria apaixonados desportistas, trazia consigo uma série de significados. Era uma representante de reconhecidos valores modernos, como a tecnologia e a velocidade, que tão fortemente estariam presentes no cotidiano das cidades nos séculos XIX e XX. O “cavalo de ferro” já não espantava, pelo contrário, cada vez mais atraía a atenção dos porto-alegrenses para as suas disputas.