Processo seletivo 2021 de mestrado e doutorado em Estudos do Lazer – PPGIEL/UFMG

03/06/2021

Estão abertas até 26 de junho as inscrições para os processos seletivos de mestrado e doutorado do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer da Universidade Federal de Minas Gerais.

Informações aqui: http://www.eeffto.ufmg.br/eeffto/noticias/4502


Um filme: Fútbol Violencia S.A. (*)

17/05/2021

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Fútbol Violencia S.A. é um documentário de 2009-10 de Pablo Tesoriere,  diretor e fotógrafo de nacionalidade argentina. Ele dirigiu, entre outros, Puerta 12 (que resenhei) sobre a confusão que matou mais de 70 pessoas num River x Boca no Estádio Monumental de Núñez.

Por que a violência no futebol? Por que tanta violência nos estádios argentinos? O futebol é um espelho do mundo? Essas são algumas das questões propostas ao se iniciar a obra. À última pergunta, o escritor Eduardo Galeano responde, de cara, “sim”: a violência faz parte do mundo, portanto, também integra o futebol. Durante quase duas horas, o mosaico de falas combina esta visão do futebol como reflexo da sociedade (e/ou como uma espécie de microcosmo) com o apontamento de elementos de especificidade que esta modalidade esportiva e a experiência concreta de frequentar seus estádios guardam naquele país: masculinidade / heterossexualidade / heteronormatividade, péssimos serviços, violência e hostilidade policial e institucional etc. Sempre considero importante destacar que, do ponto de vista histórico, inexistem características intrínsecas a qualquer modalidade esportiva – todas resultam do processo histórico de atribuição de valores pelas sociedades e indivíduos.

Abaixo está o trailer. Buscando pelo título, é possível encontrar o filme inteiro na mesma plataforma.

O documentário é sobre a violência no futebol, torcidas organizadas (barras bravas), crime e política. Vários entrevistados tratam os membros de torcidas organizadas do país como “militantes profissionais” ou “gente que vive do futebol”. Fala-se bastante sobre o dinheiro envolvido nas atividades, e que circula tanto em torno das partidas (obtenção e vendas de ingressos e drogas; traslados e demais custos para comparecer a jogos em casa e fora), quanto da administração dos clubes (patrocínio, transações de jogadores, categorias de base, contratos de prestação de serviços etc.). As barras bravas costumam ser fundamentais nas relações de poder clubísticas e decisivas nas eleições de diretoria. Não raro, o alcance do futebol e destas relações se integra ao âmbito político-partidário. (Embora o documentário não mencione seu nome – salvo engano meu -, Mauricio Macri presidiu o Boca Juniors entre 1995 e 2008. Em 2005, foi eleito deputado federal. Em 2007 e 2011, prefeito de Buenos Aires. Presidiu a República Argentina de 2015 a 2019.)

A maior parte das imagens que aparecem datadas – em especial vídeos de brigas nas arquibancadas e gramados – são de 2005-6. Há também gravações de protestos e passeatas de torcedores de clubes – neste caso, de 2007 a 2009, período de produção do próprio filme.

Fotos de arquivo retratam episódios passados – muitas delas em preto e branco, quando de décadas anteriores à de 1990. São matérias de jornais diários sobre os crimes e fotos pessoais – de acervos familiares – das vítimas fatais da violência.

A produção do filme realizou muitas entrevistas, gravadas com diferentes enquadramentos de câmera. Elas dão voz a torcedores, empresários, advogados, autoridades do estado (políticos/ex-políticos do Executivo e Legislativo, juízes), um psicólogo da polícia, um pesquisador (o onipresente Pablo Alabarces), familiares de jovens assassinados por torcedores, dirigentes/ex-dirigentes de clubes e jornalistas, muitos jornalistas. Somam-se depoimentos na saída de audiências dos processos criminais sobre a morte de torcedores e a gravação de reuniões envolvendo diferentes atores sociais para tratar de problemas de clubes, como o Talleres de Córdoba. Esse conjunto de imagens parece ter sido produzido e gravado especialmente para o filme.

Há um tanto de imagens repetidas (inclusive uma em que aparece um torcedor com uma camisa do Flamengo numa confusão dentro de um campo).

O filme permite considerar as variáveis que dizem respeito aos modos ou estilos de torcer, que vem sendo abordados por pesquisadores do futebol. Cantar, pular e agitar os braços são hábitos – não necessária nem essencialmente agressivos – de aficionados argentinos em modalidades esportivas distintas. Caso tenha dúvida, recomendo assistir a este vídeo da final da Copa Davis de 2016, em… Zagreb, na Croácia. Ou às imagens, no próprio Fútbol Violencia S.A., de jovens e sorridentes torcedores do Rosario Central num protesto de 2007.

O filme mostra confusões e brigas envolvendo a torcida de dezenas de times diferentes: o problema é geral. Há imagens de arquivo impressionantes. Impressionantes, mas não estranhas para quem está habituado a frequentar estádios brasileiros nos últimos 30 anos, ao menos. (Narrei memórias afins neste texto em que trato do livro Entre os vândalos).

Já estive em partidas de primeira, segunda e terceira divisões em diferentes estádios de Buenos Aires. Vi confusões e brigas a poucos metros de distância em duas ocasiões. A mais violenta delas, de longe, foi uma batalha campal na saída de um jogo de terceira divisão entre All Boys e Atlanta (há testemunhas: estava acompanhado de três colegas pesquisadores). Na “menos” violenta, Ariel, o argentino que acabara de encontrar na entrada do Nuevo Gasómetro (conheci o sujeito na véspera, dentro do metrô; ele me disse que veria o San Lorenzo no domingo e me convidou a ir) e fora gentilmente – sob meus protestos – tentar comprar ingresso com desconto com membros de uma torcida organizada, levou um soco na cara. A isso imediatamente se seguiu um choro do filho, de uns 8-10 anos, que tinha ficado sob meus cuidados e, compreensivelmente, se assustou ao ver o pai apanhar. “Papá peleó, Papá peleó”, gritava o menino, enquanto eu tentava acalmá-lo. O pai foi ao banheiro, lavou o rosto e veio nos encontrar como se nada tivesse acontecido. Dirigiu um “não foi nada” ao garoto, enquanto passava a mão na boca, ainda sangrando um pouco. Retorno ao filme.

Que fazer?

Segundo o documentário, a única providência tomada pela Associação do Futebol Argentino (AFA) fora a proibição de torcida visitante nos jogos. A AFA foi presidida por Julio Grondona por 35 anos, até 2014 – o dirigente estava no cargo durante o período de produção do filme, portanto. O que se convencionou chamar no Brasil de torcida única é uma das medidas “fáceis” de serem tomadas quando o objetivo é fingir que se está fazendo algo, mas não se quer enfrentar o problema. Outra é a perda de pontos – advogada inclusive por alguns pesquisadores do esporte, às vezes sob o pseudo-argumento de que “algo precisa ser feito” -, defendida e aplicada pelos mesmos dirigentes (no Brasil, na Argentina, na Espanha) que são parte crucial e estrutural  do problema.

A polícia frequentemente aparece como parte do problema, e não da solução. Os entrevistados apontam a corrupção estrutural como a principal questão, mas há quem aborde as péssimas condições de trabalho dos policiais, os salários baixos e a conduta muitas vezes violenta de alguns policiais.

A falta de investigações e de responsabilização pelas mortes e crimes correlatos no futebol (e no esporte) grassam na Argentina. Neste ponto, me parece, nada muito diferente do Brasil. Afinal, por aqui, até o Ministério Público Federal (celebrado por muitos por conta da Lava-Jato e outras operações), recusa-se terminantemente a utilizar a cooperação internacional e os documentos recebidos de procuradores e autoridades de países como Suíça e Estados Unidos para investigar dirigentes esportivos e seus corruptores (executivos e proprietários de empresas de comunicação, especialmente canais de televisão, detentores de direitos de exclusividade das transmissões; donos de agências de publicidade e de intermediação de contratos e negócios esportivos, como placas de publicidade fixa nos estádios) – conforme amplamente descrito, documentado e argumentado nas obras jornalísticas abaixo.

(*) Texto originalmente publicado no BELA – Blog Estudos do Lazer.

Sugestões de leitura

BUFORD, Bill. Entre os vândalos: a multidão e a sedução da violência. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 [1991].

JENNINGS, Andrew. Jogo sujo: o mundo secreto da Fifa: compra de votos e escândalo de ingressos. São Paulo: Panda Books, 2011.

RIBEIRO JR., Amaury; CIPOLONI, Leandro; AZENHA, Luiz Carlos; CHASTINET, Tony. O lado sujo do futebol. São Paulo: Planeta, 2014.


A surf music dos anos 1960 e a exaltação da Califórnia (1)

05/04/2021

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Nas pesquisas sobre história da mídia esportiva que venho desenvolvendo utilizando revistas de surfe estrangeiras e brasileiras publicadas ao longo das décadas de 1970 e 1980, assim como em outras fontes com as quais tive contato, há recorrentes referências à expressão surf music.

No livro Surfing About Music, o antropólogo Timothy Cooley se refere a surf music no sentido que a expressão ganhou e mantém nos EUA: abrange músicas da primeira metade dos anos 1960, tanto de rock instrumental (a la Dick Dale & His Del-Tones, cuja música Misirlou ganhou renovada popularidade na década de 1990 com o filme Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino) como cantadas (a la The Beach Boys e Jan and Dean). Esse uso também aparece na obra de outros autores. E, por exemplo, compõe a seleção musical de um “canal” chamado Surf Sounds numa plataforma de música online gratuita que uso, Accuradio. Nos anos 1960, houve iniciativas no Brasil relativas a esta vertente, conforme discorreu Victor Melo aqui neste blogue sobre   o caso de Carlos Imperial.

No Brasil, surf music pode se referir a mais do que isto. Lembro-me de ter gravado em fita cassete, na primeira metade dos anos 1990 – por volta de 1992 ou 1993 –, um “especial de surf music” que foi ao ar numa tarde ou noite de domingo numa ótima rádio que existia à época, a Universidade FM, nos 107,9 MHz. O programa era composto por músicas de bandas como Midnight Oil, Hoodoo Gurus, Australian Crawl e V Spy V Spy, entre outras. Havia uma predominância de bandas australianas – as quatro que citei eram de lá. (Já escrevi sobre o hábito de gravar fitas K7 e sobre essa noção de surf music, rádio e segmentos da juventude). Devo ter ouvido aquela fita centenas de vezes ao longo dos anos.

Golden State, Golden Youth – The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Livro de Kirse Granat May publicado em 2002. Imagem da capa extraída do site da editora da obra.

De acordo com o argumento de Kirse Granat May (2002), entre 1955 e 1966 construiu-se na cultura popular dos EUA um imaginário potente e positivo sobre a Califórnia. O estado e seu modo de vida – ou melhor, a representação midiática estereotipada de um estilo de vida da juventude branca de classe média que vivia na faixa litorânea – tornaram-se referência para famílias em todo o país. A expansão da corporação Disney (incluindo a inauguração e o estrondoso sucesso do parque de diversões Disneylândia, em 1955, em Anaheim, no sul do estado), a ascensão do ex-ator hollywoodiano Ronald Reagan a liderança política importante (tomando posse como governador em 1967; posteriormente, foi eleito duas vezes presidente do país em 1980 e 1984) e a disseminação do surfe e de um estilo de vida associado a ele são três entre os muitos elementos deste processo abordados no livro (imagem da capa acima).

Até ler a obra de May, eu ignorava que um dos principais motivos para o sucesso da surf music foi o fato de ser feita na Califórnia, por artistas californianos (ou que para lá se mudaram) e tematizar o estado e seus habitantes. Apesar de conhecer as íntimas ligações da surf music com a Califórnia, não sabia que sua ascensão integrou de um contexto amplo em que muitos outros elementos associados àquele estado fizeram sucesso e tornaram-se moda nos EUA.

A maioria dos surfistas considerava tais representações na música e no cinema estereotipadas, erradas e irrepresentativas da cultura do surfe. Muitos ficaram enfurecidos com elas e, pior, com os efeitos sociais delas: levas e levas de novos turistas, banhistas e surfistas iniciantes que enchiam as praias californianas a cada verão e, em menor escala, nos períodos de recesso escolar, férias e feriados prolongados. Contudo, conforme acontece na maioria dos casos, quando observamos mais de perto o fenômeno, percebemos muitos tons de cinza, e não apenas preto e branco.

Tomemos, por exemplo, um filme como Quanto mais músculos, melhor (Muscle Beach Party, de 1964), parte da onda de filmes de festa na praia produzidos pela companhia cinematográfica AIP (American International Pictures) e malhados como Judas por boa parte dos surfistas e pelas próprias revistas de surfe. A película conta com participação, em várias cenas e sequências, de Dick Dale & His Del-Tones. Ou seja, aquele que ficou conhecido como “pai da surf music” e era venerado por muitos surfistas aparece num filme considerado negativo e estereotipado. (Curiosidade: há também a participação de um jovem cantor chamado Stevie Little Wonder.)

Da mesma forma, um dos que atuam como dublês nas cenas de surfe é Mickey Dora, um dos surfistas mais famosos da Califórnia naquela década. Até aí, nada demais. Ocorre que Dora era um crítico ferrenho da comercialização do esporte e nutria grande raiva pelo aumento do número de pessoas com pranchas na praia que considerava seu quintal, Malibu. Frequentemente lidava com o problema derrubando os surfistas de suas pranchas ou batendo neles. Esta a contradição entre tais atitudes e o trabalho como figurante e/ou dublê em cenas de praia e surfe em filmes comerciais é apontada no verbete sobre Dora na Enclopédia do Surfe de Matt Warshaw.

[Continua…]

Para saber mais

COOLEY, Timothy J. Surfing About Music. Berkeley: University of California Press, 2014.

LADERMAN, Scott. Empire In Waves: A Political History of Surfing. Berkeley: University of California Press, 2014. (Especialmente o capítulo 2)

MAY, Kirse Granat. Golden State, Golden Youth: The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Chapel Hill, London: The University of North Carolina Press, 2002.


Um encontro entre futebol e surfe na Copa do Mundo de 2010 (África do Sul)

23/11/2020

Por Rafael Fortes

Este texto sintetiza uma parte das discussões presentes em trabalho apresentado no grupo de pesquisa Comunicação e Esporte e publicado nos anais do 42o. Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, organizado pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) em Belém (PA).

Afrika (2011) é um filme dirigido por Thomas Mulcaire e Ricardo de Oliveira e está disponível na íntegra no link abaixo:

O filme contou com patrocínio de empresas e fundos voltados para o fomento às artes.

Rodado ao longo de 2010 em Moçambique e na África do Sul, narra uma viagem de quatro surfistas brasileiros pelos dois países. O primeiro aparece rapidamente, sendo a maior parte do tempo dedicado ao último. Identifiquei onze cenas ou sequências com alguma referência ao futebol. A maioria delas é bastante fugaz: uma bola de futebol ao lado de uma prancha sobre a areia da praia ou um take mostrando uma roda de homens brincando  de altinha. Esta atividade, que consiste em duas ou mais pessoas trocarem passes com uma bola de futebol sem deixá-la tocar o chão, é bastante comum em praias do litoral brasileiro – no Rio de Janeiro e noutros estados -, inclusive naquelas muito frequentadas por surfistas. Cenas semelhantes – e de partidas de golzinho – aparecem esporadicamente em filmes brasileiros dedicados ao surfe, tendo, como participantes, os próprios surfistas do país.

Isto sugere algo que pode parecer óbvio, mas que considero válido mencionar: durante o processo de crescimento, enquanto ainda são crianças e adolescentes, a maioria daqueles que serão atletas futuros de uma modalidade (específica) se dedicam a várias delas, seja do ponto de vista do treinamento e competição, seja do ponto de vista da diversão. Tendo em vista a forte presença do futebol no Brasil, não é de surpreender que muitos surfistas tenham crescido batendo uma bolinha e sigam gostando de fazê-lo.

A principal distinção de Afrika em relação à filmografia de surfe, no que diz respeito à presença futebolística, encontra-se na sequência de aproximadamente três minutos em que os surfistas comparecem ao estádio Soccer City, em Joanesburgo, para assistir à partida entre Brasil e Costa do Marfim pela Copa do Mundo de futebol de homens realizada em 2010. O trecho evidencia a pouca familiaridade dos surfistas com o ambiente do estádio de futebol – no caso, particularmente impressionante por se tratar de uma partida de Copa do Mundo envolvendo a seleção brasileira. O barulho das torcidas – evidentes pelo volume do áudio do próprio filme – é um dos elementos que impressionam os protagonistas do filme.

A vitória da seleção brasileira pelo placar de três a um permitiu-lhes experimentar tanto a comemoração de gols, assistir em uma ocasião à celebração entre aqueles que torciam para a seleção marfinesa. Na mesma sequência, aparecem ainda comemorações, batucadas, gritos e cânticos em português, que prosseguem no pós-jogo pela parte externa do estádio e no interior de um ônibus.

Conforme afirmei no artigo:

As sequências no estádio e as comemorações pós-jogo reproduzem elementos do senso comum a respeito de megaeventos esportivos como a Copa do Mundo – por exemplo, a ideia de que são (exclusivamente) ocasião para congraçamento dos povos.[1] Tal visão se expressa também em um item dos “agradecimentos especiais” nos créditos finais: à “Fifa pela Copa do Mundo de 2010”.

Esporte e cinema vêm sendo estimulados por sucessivos governos da África do Sul pós-apartheid como instrumentos para divulgar uma imagem positiva do país no exterior e para incrementar o afluxo de turistas (Fortes, 2014). A realização das Copas do Mundo de rugby em 1995 e de futebol em 2010, bem como a candidatura da Cidade do Cabo para sediar os Jogos Olímpicos de verão de 2004, integram este conjunto de políticas – também observáveis noutros países dos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Este contexto é importante para se compreender a realização de um filme como Afrika e, também, a inserção particular dele na filmografia brasileira de surfe.

Referências bibliográficas

FORTES, Rafael. Entre o surfe feminino, a indústria de surfwear e a promoção da África do Sul: uma análise de A Onda dos Sonhos 2. In: FORTES, Rafael; MELO, Victor Andrade de (org.). Comunicação e esporte: reflexões a partir do cinema. Rio de Janeiro: 7 Letras/Faperj, 2014. p. 49-70.

FORTES, Rafael. O futebol num filme de surfe: Afrika, Copa do Mundo e a filmografia sobre esporte. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 42, 2019, Belém. Disponível em: https://portalintercom.org.br/anais/nacional2019/resumos/R14-0019-1.pdf . Acesso em 23 nov. 2020.

Notas

[1] Ignorando-se, por exemplo, os impactos sociais e coletivos sobre setores mais vulneráveis da população devido às políticas públicas de remoções forçadas, conforme discutido e denunciado no documentário Tin Town.


Rádio, música, cores berrantes e capas de fita: dois objetos e o surfe na primeira metade dos anos 1990

02/08/2020

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Meses após o falecimento de minha avó Dirce, em 2016, entre os muitos papéis que encontrei na casa dela estavam os abaixo, relativos a um rádio. O aparelho propriamente dito, não achei.

As especificações informam que o rádio funciona com 4 pilhas AA, “não incluídas”, e que a amplitude de frequência do AM vai de 530 a 1710KHz, ao passo que a do FM fica entre 88 e 108 MHz – um padrão internacional. As instruções explicam como sintonizar as estações, que as pilhas devem ser retiradas se o produto ficar fora de uso por duas semanas ou mais etc. O aparelho permite ouvir por um alto-falante ou por fones de ouvido a emissão das estações captadas.

Não há data de fabricação, mas considero provável que tenha sido em meados dos anos 1990. O país de produção foi a China, os papéis originalmente distribuídos com o equipamento que aqui aparecem escaneados foram impressos em Hong Kong e tenho quase certeza de que o aparelho foi adquirido nos Estados Unidos. O fabricante Gran Prix Electronics (daí a sigla GPX) dava garantia de 90 dias: “essa garantia lhe dá direitos legais específicos e você também pode ter outros direitos, os quais variam de estado para estado”, como frequentemente ocorre nos EUA. A GPX INC., empresa situada no estado de Missouri, fazia a distribuição.

Mas o que de fato me interessa é a parte superior da frente da embalagem onde, imagino, veio encartado o aparelho.

Chamo a atenção para dois pontos. Primeiro, a palavra “sports” (esportes) que dá título ao produto. A primeira e principal característica destacada é ser à prova de água e de areia. Os dois elementos remetem à praia, e a ideia de ser um equipamento adequado para uso durante a prática de atividades esportivas na faixa de areia ou no mar é explicitada pela imagem do lado direito: um windsurfista manejando vela e prancha enquanto usa o rádio.

Segundo, a utilização de cores berrantes (amarelo, verde, rosa, azul – as mesmas adotadas pelos fabricantes de post-its/blocos adesivos/stick notes) na composição gráfica, tanto no lado esquerdo quanto na prancha e bermuda do windsurfista. A mistura colorida e o uso de tons chamativos ou “ácidos” eram muito presentes nas revistas de surfe da época, tanto brasileiras quanto californianas. A moda ligada à praia e surfwear, também.

A composição gráfica recortada remete às noções de ação/movimento e a lista colorida de características do lado esquerdo se assemelha aos adesivos (ou “plásticos”, como muitos os chamavam no Rio de Janeiro), um produto muito popular à época entre adolescentes, com destaque para os aficionados da cultura de praia e/ou do surfe.

*  *  *

Um pouco antes, mas ainda na primeira metade dos anos 1990, eu comprava fiado periodicamente revistas de surfe – e outros produtos gráficos – na banca que ficava a cargo do Beto e do Magrão, na esquina das ruas Álvares de Azevedo e Tavares de Macedo, em Icaraí (Niterói). Numa edição de Fluir (publicada em São Paulo, 1983-2016; foi fonte e objeto de minha tese de doutorado, que cobriu o lançamento até 1988), vieram encartados como brinde folhas contendo capas de fitas cassete para recortar.

Comentários breves:

a) Usei totalmente o produto. Comprei a revista, recortei as “capas de fita”, como eram chamadas, escrevi os nomes das músicas, dobrei, troquei pela capa original que vinha com o logotipo do fabricante e encaixei no estojo de plástico. Colei na capa um adesivo com o número 12, o que indicava o número desta fita no acervo que ficava numa gaveta de uma mesinha de cabeceira do meu quarto. Como venho apontando em diferentes textos, era comum os leitores das revistas não apenas as folhearem, mas também recortarem fotos, logotipos, títulos de matérias e colá-los em diferentes superfícies (paredes do quarto, face interna ou mesmo externa da porta de armário guarda-roupa) ou objetos (cadernos, agendas). Além, é claro, de destacar o pôster que comumente vinha encartado nas páginas centrais.

b) O crédito da foto é de Sebastian Rojas, importante fotógrafo de surfe do período. A prancha usada pelo surfista não creditado na peça (possivelmente os créditos vieram no corpo da edição da revista que trouxe as capas de fita como brinde) tem cores nos tons em voga na época, conforme mencionei na primeira parte. Tais tons também figuram nos logotipos de Fluir que aparecem na capa (junto com a foto) e nas lombadas.

c) A marca da fita, TDK, era uma das principais disponíveis no Rio de Janeiro à época, assim como Sony e Basf.

d) O plástico do estojo original da fita está fosco/borrado, dificultando a leitura do que está escrito na capa. Por isso fotografei a capa dentro e fora dele nas imagens acima.

e) A fita é composta basicamente por músicas da banda de rock autraliana Midnight Oil. Ela fazia sucesso entre os interessados por surfe e/ou por rock no Brasil à época, particularmente os ouvintes da Rádio Fluminense FM, de Niterói (RJ), onde nasci e morava. A fita foi gravada por mim a partir de CDs do Midnight Oil emprestados de amigos. Há três músicas do Diesel and Dust (Beds Are Burning, Sometimes e The Dead Heart – essa última, uma das músicas de que mais gosto na vida, em especial nessa versão), do Blue Sky Mining (Blue Sky Mine, Forgotten Years e King of the Mountain) e do Earth and Sun and Moon (Truganini, My Country e Drums of Heaven). Completam o lado B Things Don’t Seem (Australian Crawl), Out That Door e Come Anytime (Hoodoo Gurus) e Orange Crush (R.E.M.). Explorei esta relação entre o que se chamava de “surf music”, formado principalmente por meia dúzia de grupos australianos, as emissoras de rádio e uma certa noção de cultura surf entre setores da juventude de classe média do Rio de Janeiro neste artigo.

*  *  *

Os objetos apontam para diferentes articulações entre produção industrial, exploração comercial do esporte, busca de associação de produtos e marcas ao universo do surfe, em voga e em moda na época, no Brasil e nos Estados Unidos, entre setores da juventude. Grupos empresariais de peso investiram para associar-se à modalidade, buscando ampliar o público consumidor entre as crianças, adolescentes e jovens. Uns investiam mais no esporte, outros menos. Exemplos notórios foram as marcas Juba&Lula e Alternativa (vendidas na Mesbla) e Suncoast (da C&A). Questões que foram tocadas de passagem em um ou outro escrito meu, mas que carecem de exploração e desenvolvimento. Fica a sugestão para os jovens pesquisadores.

Referências

FORTES, Rafael. O surfe brasileiro e as mídias sonora e audiovisual nos anos 1980. Logos, ed. 33, v. 17, n. 2, p. 90-105, 2o. sem. 2010. Disponível em:

<http://www.logos.uerj.br/PDFS/33/08_logos33_fortes_surfe.pdf>.

 


100 anos do futebol feminino no Rio Grande do Norte: histórias de pioneirismo e protagonismo esportivo

27/07/2020

Por Aira Bonfim (airafbonfim@gmail.com)

Enquanto alguns jornais e revistas do início do século passado buscavam associar a imagem de mulheres esportistas à atributos de delicadeza, beleza e frivolidades, acervos fotográficos da coleção do Instituto Tavares de Lyra (RN) e registros da revista carioca Vida Sportiva revelam imagens de garotas atléticas reais – e nem tão graciosas assim.

O olhar marrento, os corpos fardados e os braços cruzados são pistas visuais oferecidas por esses acervos que nos ajudam a pensar as formas de apropriação prática do futebol pelas brasileiras das primeiras décadas do século XX.

O exemplo aqui escolhido refere-se às fontes disponíveis sobre as equipes femininas de futebol do estado do Rio Grande do Norte e que circularam pela imprensa brasileira entre os anos de 1918 a 1920.

Em março de 1920 o semanário Vida Sportiva, responsável pela divulgação de notícias esportivas dos mais longínquos estados do Brasil, revelaria na sua capa a foto do ABC Football Club, time de futebol feminino da cidade de Natal, e, curiosamente associado a Liga de Desportos Terrestres na mesma época.

Futebol feminino de RN na capa da revista Vida Sportiva de março de 1920

Futebol feminino de RN na capa da revista Vida Sportiva de março de 1920

A foto da capa refere-se a um campeonato de futebol feminino realizado no sítio Senegal, residência do Coronel Joaquim Manoel Teixeira de Moura, o Quincas Moura. Tratava-se, de acordo com a mesma revista, de um prélio perdido de 12×0 pelo ABC F.C. (capa) contra o scratch feminino do Centro Sportivo Natalense, outra equipe pertencente à liga potiguar.

Tanto a raridade visual como a evidência histórica da partida de futebol são confirmações importantes que mulheres jogaram bola no Brasil, principalmente quando levamos em conta que na mesma época tal modalidade só crescia e se popularizava em todos os estados.

Jogadoras do ACB Football Club e Centro Sportivo Natalense em 1920

Nos últimos anos, tanto a mídia esportiva, como pesquisadores e instituições tem reiterado o episódio paulistano de 1921 entre as “senhoritas” dos bairros do Tremembé́ e da Cantareira, como um marco inaugural de moças jogando bola no Brasil. No entanto, apesar de existirem novas confirmações de episódios isolados entre meninas, antes e depois de 1921, o futebol feminino, como modalidade esportiva e competitiva, não se desenvolveu oficialmente como modalidade naquela época.

Diferente das experiências iniciadoras do futebol masculino no país, a exemplo de Charles Miller em São Paulo, e outros entusiastas do esporte bretão inglês como Thomas Donohue (Bangu Athletic Club) e Oscar Cox (Fluminense Football Club), às iniciações femininas nesse esporte aproximam-se mais das experiências atléticas vividas entre as crianças, presenciadas principalmente nas ruas, escolas, igrejas, clubes e nas periferias das festividades esportivas.

Meses antes da divulgação da capa feminina na Vida Sportiva, a revista afirmou que a cidade do Natal podia gabar-se de ter sido a primeira do Brasil a criar agremiações esportivas “de elementos exclusivamente femininos”[1]. O texto referia-se ao Centro Náutico Feminino de Natal e o Clube Náutico Jundiahy, da cidade de Macaíba, fundados sob a orientação do Centro Náutico Natalense. Todos, desde 1918, já ostentavam publicamente garotas disputando provas de remo.

Competidores da Yole Anta, do Centro Náutico Potengy, em 1918. Fonte: Vida Sportiva.

De acordo as notícias sobre a vida esportiva norte-rio-grandense, o ano de 1915 havia marcado o grande boom das práticas esportivas entre aquela comunidade do Nordeste. Os cronistas de Vida Sportiva narram que graças ao football e os esportes náuticos em pouco tempo se proliferaram os encontros atléticos entre a juventude de Natal.[2]

Com exceção do turfe, as elites de Natal e redondezas já se consideravam pessoas com acesso a uma variada gama de esportes em 1915. Houve inclusive investimento público do governo local, que apesar de modesto, foi citado na época como uma contribuição significativa para o desenvolvimento esportivo da região.

Imagem da equipe feminina de futebol de Natal publicada em maio de 1920.

Enquanto uma parte da juventude feminina experimentava as competições de regatas (os rowings), os textos da revista também revelam a experimentação feminina em outras variedades esportivas que, na “impossibilidade absoluta de praticarem o football, elas haviam inventado o hand-ball e praticavam o basketball”:

“O bello sexo natalense não quis ficar indifferente a esse louvável movimento patriótico da juventude masculina.

Adheriu à nobre causa, certo de que a educação physica é uma necessidade.

Empreendedora, intelligente, a mocidade feminina natalense, resolveu também entregar-se à prática de desportos (…)” [3]

A novidade o futebol feminino revelado pelo semanário Vida Sportiva, órgão oficial dos cronistas esportivos do Rio de Janeiro, já havia antecipado o tema na sua capa de um mês antes, em 21 de fevereiro de 1920, quando escolheu a ilustração de uma jogadora de futebol vestida com o uniforme do Botafogo Futebol Clube, do Rio de Janeiro.[4]

Se desconhece qualquer performance pública de mulheres jogando bola no clube do Botafogo nessa época, no entanto, o mesmo não se pode dizer de outros clubes cariocas como o Villa Isabel F.C.(1915), o Progresso F.C.(1919), o C.R. Flamengo (1919) e o River S.C.(1919), que já indicavam a exibição de equipes mistas ou de meninas contra meninos nas suas festividades esportivas e domingueiras.[5]

Após alguns meses da publicação das capas da revista Vida Sportiva com jogadoras de futebol, em meados de 1920, encontra-se também no Rio de Janeiro, evidências de mulheres jogando futebol no Helios (1920), C.R. Vasco da Gama (1923), S.C. Celeste (1923) e São Cristóvão A.C. (1929).

A investida das capas com mulheres esportistas, além de outra publicação sobre o team feminino potiguar divulgada em maio de 1920 [6] inserem-se num contexto de divulgação de crônicas que incentivaram a prática dos esportes entre as brasileiras pela revista Vida Sportiva.

Textos com títulos sugestivos como: ‘Porque não se incita o sexo frágil a praticar os sports?’(1918), “a mulher nos sports”, a “a saúde e a belleza da mulher pelo cultura physica”, “o dever physico da mulher moderna”, todas de 1920, exemplificam o tom da campanha empreendida por esse veículo de imprensa da época.

Vale destacar que o ano de 1920 também marcou a profusão de equipes de futebol feminino na Europa. Só na França, no mesmo ano, estima-se que em torno de 150 grupos jogaram bola.[7] Anos antes, também foi fundada La Fédération des Sociétés Feminines et Sportives de France, que entre tantas ações, destaca-se a parceria com as pioneiras do futebol, as desportistas inglesas.

A parceria europeia resultou no primeiro jogo internacional feminino entre Inglaterra e França, em Preston, com 25 mil espectadores em 1920. A partida feminina entre França e Inglaterra, em julho de 1920, ganhou uma página inteira da Vida Sportiva[1]. Esse episódio aconteceu no campo do Chelsea F.C. e a publicação trouxe imagens das capitãs Macgnemond e Kell, assim como uma defesa da goleira da equipe francesa (Fémina Sport) e uma cena da partida de futebol (com um árbitro homem!)

Jogadoras inglesas e francesas ocupam uma página inteira de Vida Sportiva em julho de 1920

De volta ao cenário brasileiro e ao estado do Rio Grande do Norte, endereço das primeiras imagens publicadas do futebol feminino no país, vale destacar algumas pequenas curiosidades sobre as agremiações esportivas potiguares. O Centro Sportivo Natalense foi fundado da associação entre o Flamengo Foot-ball Club com o Alecrim Foot-ball Club[9], ambos de Natal.

O sportman João Café Filho (1899-1970), nessa época, era o diretor de esportes do Alecrim F.C. O jovem potiguar era o goleiro da agremiação e anos mais tarde, o único potiguar a ocupar o cargo de presidente do Brasil, desde que assumiu a presidência entre 24 de agosto de 1954 e 8 de novembro de 1955, depois do suicídio de Getúlio Vargas.

Se já não fosse um episódio revelador, o historiador Dr. Anderson Tavares de Lyra, fundador do Instituto Norte-Rio-Grandense de Genealogia e do Instituto Tavares de Lyra (Macaíba- RN), apresenta na sua catalogação fotográfica informações que identificam a volante da equipe do Centro Sportivo Natalense como sendo Jandira Carvalho de Oliveira Café (1904-1989), futura esposa de João Fernandes Campos Café Filho e primeira dama do Brasil.

Além da constatação que uma primeira dama nordestina atuou nos primórdios do futebol de mulheres no Brasil, ainda há mais novidades entre o seleto grupo. A equipe feminina rival do ABC Football Club também conta com outra personagem de prestígio nacional: Celina Guimarães Viana (1890-1972). A jogadora do ABC F.C. (time da capa da Vida Sportiva), além de dona do acervo de fotos disponíveis hoje no Instituto Tavares de Lyra, se tornou professora e reconhecida como a primeira mulher a conquistar o direito ao voto no Brasil em 1927.[10]

Segundo o memorialista Anderson Tavares de Lyra, as fotografias da época apresentam dois espaços: o estádio Juvenal Lamartine e o sítio Senegal, ambos no bairro do Tirol e pertencentes ao Coronel da Guarda Nacional e Presidente da Intendência de Natal, Joaquim Manoel Teixeira de Moura, Quincas Moura.

O coronel, adepto das animações proporcionadas pelos encontros festivos e esportivos naquela região, tinha entre suas convidadas, sobrinhas, primas e filhas. O episódio das jogadoras de futebol do Rio Grande do Norte é excepcional e curioso em sua época, e ao mesmo tempo, na luz da contemporaneidade, 100 anos mais tarde, são histórias e protagonismos pouco conhecidos de mulheres, jogadoras, historiadores e instituições do esporte.

Em 2020, continuamos demandando esforços coletivos para constituir histórias mais plurais de um esporte que despertou paixões em todos os tipos de pessoas – e essa totalidade também inclui as mulheres.

O recado já estava dado pelo cronista da revista Vida Sportiva de 1918:

“quem está affeito a assistir as lutas de football, quantas vezes não terá adimirado do enthusiasmo com que varias torcedoras assistem o transcorrer da pugna?

Essas torcedoras, adeptas da cultura physica, não sentirão por vezes, ancias de se entremearem nas lutas?

Certamente que sim!

Animome-las! Incitemo-las, para que em breve possamos ver em cada recanto da nossa capital, um club em que a mulher possa cultivar os sports”.[11]

Notas

[1] Vida Sportiva, Rio de Janeiro, p. 11, 13 dez. 1919.

[2] Vida Sportiva, Rio de Janeiro, p. 3, 29 nov. 1919.

[3] Idem.

[4] O escudo da imagem sugere a composição de letras que o clube carioca usava antes da fusão com o Clube de Regatas Botafogo.

[5] BONFIM, Aira Fernandes. Football Feminino entre festas esportivas, circos e campos suburbanos: uma história social do futebol praticado por mulheres da introdução à proibição (1915-1941). 2019. 213 f. Dissertação (Mestrado em História) – CPDOC – Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro.

[6] Vida Sportiva, Rio de Janeiro, p. 18, 15 mai. 1920.

[7] Williams, 2003; Doble, 2017; William e Ress, 2015.

[8] Vida Sportiva, Rio de Janeiro, p. 19, 24 jul. 1920.

[9] Diário de Pernambuco, Recife, p. 2, 6 jul. 1918.

[10]http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/celina-guimara-es-de-primeira-eleitora-a-a-rbitra-de-futebol/451775. Acesso em junho de 2020.

[11] Vida Sportiva, Rio de Janeiro, p. 7, 8 jun. 1918.

Referências

BONFIM, Aira Fernandes. Football Feminino entre festas esportivas, circos e campos suburbanos: uma história social do futebol praticado por mulheres da introdução à proibição (1915–1941). 2019, Dissertação — Mestrado em História, Política e Bens Culturais, Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), Rio de janeiro, 2019.

DOBLE, Anna. The Secrety History of woman’s football. In: Newsbeat. 19/07/2017. http://www.bbc.co.uk/newsbeat/article/40654436/the-secret-history-of-womens-football. Acesso em 23/01/2019.

WILLIAMS, Jean; HESS, Rob. “Women, Football and History: International Perspectives.” The International Journal of the History of Sport. Vol. 32, Iss. 18, 2015.


Em defesa de arquibancadas mais plurais: rememorando a Coligay

17/02/2020

Luiza Aguiar dos Anjos (IFMG – Campus Formiga)

No dia 27 de março de 1977, o Grêmio fez sua estreia na 57ª edição do Campeonato Gaúcho de Futebol. O clube iniciava sua caminhada no torneio com a esperança de acabar com um longo período sem títulos, assim como interromper a série de conquistas estaduais do rival Internacional, que vinha de uma sequência de oito taças consecutivas, sagrando-se campeão anualmente desde 1969. Para agravar o incômodo gremista com o sucesso do principal adversário, a equipe colorada não se impunha apenas em seara local, tendo sido bicampeã nacional ao conquistar a Copa Brasil de 1975 e de 1976.

Ao longo da competição, os dois maiores times do estado fizeram o que se esperava deles: superaram os demais e decidiriam entre si quem seria o campeão estadual daquele ano.

O jogo derradeiro foi disputado no Estádio Olímpico. Em casa, em frente à sua torcida, era que o Grêmio buscaria encerrar aquele infeliz jejum de títulos.

O teor dramático da partida começou quando, aos 22 minutos de jogo, foi marcado um pênalti a favor do Grêmio. O atacante Tarciso, batedor oficial do time e com boa média de acertos, mandou uma bomba à esquerda do goleiro colorado, mantendo o empate sem gols. Mas não tardou para o placar ser inaugurado. Em um embate de ânimos cada vez mais exaltados, aos 42 minutos, ainda no primeiro tempo de jogo, o atacante André Catimba fez a festa dxs[1] gremistas. O momento tornou-se ainda mais memorável com a comemoração. O jogador tentou um salto mortal, mas interrompeu o movimento no meio do caminho, ao sentir uma distensão muscular, caindo de forma completamente desajeitada. Com a aproximação do fim da partida, a torcida tricolor não conteve a comemoração, pulando das arquibancadas e ocupando o campo. Trinta minutos passados da invasão, sem condições de retomar o jogo, o árbitro declarou seu encerramento. Após oito anos, o Grêmio voltava a levantar a taça de campeão estadual.

Em meio ao furor dessa conquista, na edição do dia seguinte à partida, o jornal Zero Hora – periódico mais popular do Rio Grande do Sul – reservou uma página inteira para tratar da história da constituição de uma nova torcida gremista que, desde o início do Campeonato Gaúcho, chamava a atenção dxs frequentadorxs do Estádio Olímpico: a Coligay.

Recorte da reportagem da Zero Hora sobre a Coligay (26/09/1977)

Como o nome indica, essa torcida era formada predominantemente por homens homossexuais, o que já parece ser motivo de surpresa e curiosidade no contexto futebolístico brasileiro, no qual a heterossexualidade, mais do que tomada como norma, é enfatizada como valor. Contudo, tal agrupamento fez-se notório não (apenas) porque explicitava a homossexualidade de seus integrantes em sua retórica, mas, sobretudo, porque fazia de tal identidade sexual o norteador de sua performance estética nas arquibancadas: trajavam longas batas com as cores do Grêmio, cada uma delas com uma letra na frente que formava o nome do clube, complementadas por “rebolados frenéticos e gritinhos um tanto histéricos” (TORCIDA…, 1977, p.42).

Coligay fazendo sua festa no estádio Olímpico

A Coligay surgiu da iniciativa do empresário gremista Volmar Santos. Ele teve a ideia, liderou a mobilização e realizou as articulações financeiras e logísticas necessárias para efetivar sua formação. Volmar era proprietário da boate gay Coliseu e foram seus frequentadores quem ele convidou para fundar a torcida. A boate acabou servindo como sede. Xs componentes iam ao Coliseu no sábado, viravam a madrugada, e, na manhã seguinte, ali mesmo, pegavam seus apetrechos ali armazenados, se organizavam e seguiam para o estádio em que o Grêmio fosse jogar.

Num primeiro momento, o gremismo da torcida foi questionado, mas sua animação e assiduidade fizeram com que conquistassem o reconhecimento dx torcedorxs, jogadores e dirigentes. Prova disso é que a Coligay se manteve em atividade nos estádios até os primeiros anos da década de 1980.

Existindo durante os violentos tempos de ditadura militar, se esquivaram da repressão governamental ao não se envolver com a militância política e por possuir entre seus integrantes ou apoiadores “gente importante”, segundo o líder Volmar (FONSECA, 1977). Também não buscaram compor uma militância homossexual mais ampla ou organizada – o que também poderia fazer deles alvos do policiamento. Baseavam sua atuação na festa. O que não é pouco.

É inegável que o estádio de futebol privilegia um tipo bastante específico de masculinidade, associada, sobretudo, à virilidade e à agressividade, traços também enfatizados na cultura gaúcha. A reafirmação desses valores perpassa com frequência pela definição e representação dos homossexuais como a antítese desse modelo de masculinidade, o que os legitimou como alvos históricos da violência verbal e, por vezes, física de torcedorxs de futebol. A Coligay acaba por desarticular a expectativa de desencaixe e inadequação de homens homossexuais ao espaço futebolístico, sem que ela tenha se mostrado uma torcida “igual às outras”. Ela compactuou com códigos do futebol, se dispondo ao confronto físico e verbal, empunhando bandeiras e apoiando intensamente a sua equipe. Por outro lado, impôs seus requebros, suas vestimentas espalhafatosas, seu linguajar debochado e provocativo.

Nos últimos anos, a participação de sujeitos LGBT+s nos esportes, e mais especificamente no futebol, tem se tornado um tópico de análise e discussão. Torcidas, jogadorxs, clubes e federações, que durante décadas ignoraram a existência de tais sujeitos – e mesmo contribuíram com sua invisibilidade – têm sido convocados a responder e agir sobre alguns dos processos que xs mantém à margem, com destaque para as manifestações homofóbicas, mas não apenas. A mídia tem contribuído com isso ao tratar esses temas de forma mais frequente e crítica.

Nesse processo, a Coligay tem sido relembrada, após algumas décadas de esquecimento (ou ocultação). Sem supor uma idealização dessa torcida, acredito que ela nos ajuda a perceber que outras experiências de torcer, mais plurais, são possíveis.

 

Referências

FONSECA, Divino. Para o que der e vier. Placar, n.370, p.48-50, 27 mai. 1977.

TORCIDA: Coligay: história e pedágio da vitória. Zero Hora, Porto Alegre, p.42, 26 set. 1977.

 

Para saber mais:

Esse texto foi elaborado a partir da minha Tese de Doutorado, abaixo identificada. Nesse ano, publicarei um livro baseado nessa pesquisa, com acréscimos e adaptações. A obra, lançada pela Editora Dolores, será intitulada “Plumas, arquibancadas e paetês: uma história da Coligay”.

ANJOS, Luiza Aguiar dos. De “São bichas, mas são nossas” à “Diversidade da alegria”: uma história da torcida Coligay. 2018. 388f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) – Faculdade de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018.

[1] Utilizo o “x” com o intuito de adotar uma linguagem não-binária. A escolha visa descaracterizar a ideia de que as palavras são masculinas ou femininas, assim como a utilização do masculino como referência. Ao usar o “x” busco contemplar igualmente homens, mulheres e aqueles e aquelas que fogem da norma binária. Especificamente nos momentos em que for tratar de agrupamentos que possuem exclusivamente pessoas identificadas como homens mantenho o uso do masculino.


Divulgação: eventos, publicações e disciplina de pós

14/02/2020

Eventos

Em meados deste ano serão realizados em Portugal eventos nos quais se pretende debater o tema “desporto e lazer no continente africano”:

* VI Encontro Internacional Desporto e Lazer em África
25 e 26 de junho de 2020
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
http://www.centrodehistoria-flul.com/encontrosobredesportoporto.html

* 11º Congresso Ibérico de Estudos Africanos
Painel 58 – Desporto e lazer no continente africano
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
2 a 4 de Julho de 2020
https://ciea11.pt/
https://ciea11.pt/index.php/submissao/comunicacoes

E, como divulgado anteriormente, entre 12 e 14 de agosto acontecerá o II Encontro Nacional de Historiadores do Esporte, em Belo Horizonte.

 

Publicações/atividades/notícias

André Couto e Álvaro do Cabo publicaram o trabalho “A Copa já Chegou!! O Sul-Americano de Futebol de 1949 e as Crônicas do Jornal dos Sports“.

Rafael Fortes concedeu entrevista ao Podcast Mais História, por favor!, da UFSM, tratando de história do surfe, juventude e anos 1980. Outra entrevista está no filme BIW, Sal e Som, que estreou esta semana e está sendo exibido em diferentes dias e horários no Canal Curta! de TV por assinatura.

Vale a pena conferir também o podcast Stadium, programa mensal dedicado à história do esporte produzido pelo grupo de pesquisa homônimo da UFSM coordenado por João Malaia.

Ainda no terreno dos podcasts ligados à história do esporte, para quem compreende inglês, vale a pena ouvir o Sport in the Cold War.

Foi lançado recentemente um portal dedicado ao surfe feminino: ManaSurf.

 

Disciplina de pós-graduação

A disciplina Diversão, Educação, Corpo (Séculos XVIII e XIX) será oferecida por Victor Andrade de Melo no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRJ neste primeiro semestre de 2020.

Dia/Horário/Local: Terças-feiras – 13 às 16 horas – Faculdade de Educação, UFRJ, Campus Praia Vermelha

Ementa

No decorrer dos séculos XVIII e XIX, foi se definindo o que hoje chamamos de lazer, o formato moderno da diversão, fruto de uma mais clara divisão dos tempos sociais, bem como do desenvolvimento de uma cultura de massa. Nesse cenário, os momentos de entretenimento foram se constituindo em instâncias importantes de educação, compreensíveis a partir de uma dupla dimensão: para e pelo divertimento. De um lado, todos deveriam aprender a se portar nesses novos espaços públicos de convivência. Ao mesmo tempo, nesses fóruns eram difundidas formas de se portar relacionadas aos intuitos governamentais e de certas lideranças políticas, ligadas às novas necessidades de se comportar em público, mas também ao forjar da nação, mobilizadas por noções de progresso e de identidade. Parte significativa dessas intervenções/negociações/ressignificações penderam sob o corpo, tanto no que se refere aos comportamentos julgados adequados (roupas, abordagem, toques, cheiros etc.) quanto no tocante aos seus usos possíveis nas cenas públicas e privadas (processo que dialogava notadamente com o crescimento de preocupações com a saúde e a higiene). Essa disciplina objetiva aprofundar o debate sobre essas articulações entre a diversão, a educação e o corpo.

Cronograma

10 de março

# Apresentação

Apresentação dos alunos, dos docentes e do curso

Levantamento de expectativas

Acerto das estratégias didático/pedagógicas (leitura de textos, organização de debatedores, procedimentos de aula, analecto)

Lista de e-mails/contatos

 

17 de março

# Educação, diversão, corpo: um programa de pesquisa

* Discussão de texto:

MELO, Victor Andrade de. Educação, diversão, corpo: um programa de pesquisa. Rio de Janeiro, 2019. mimeo.

MELO, Victor Andrade de. Lazer, modernidade, capitalismo: um olhar a partir da obra de Edward Palmer Thompson. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 23, n. 45, p. 5-26, 2010.

 

24 de março

# Novos arranjos da diversão

* Discussão de texto:

SOARES, Luiz Carlos. Comercialização do lazer, ampliação dos espaços públicos de diversão e novas formas de sociabilidade: uma outra dimensão da Ilustração pública. In: SOARES, Luiz Carlos. A Albion revisitada. Rio de Janeiro: 7 Letras/Faperj, 2007. p. 139-185.

 

31 de março

# Novos arranjos da diversão

* Discussão de textos:

CORBIN, Alain. A história dos tempos livres. In: CORBIN, Alain (org.). História dos tempos livres. Lisboa: Teorema, 2001. p. 5-18.

PORTER, Roy. Os ingleses e o lazer. In: CORBIN, Alain (org.). História dos tempos livres. Lisboa: Teorema, 2001. p. 19-58.

 

7 de abril

# Novos arranjos da diversão

* Discussão de textos:

CORBIN, Alain. Do lazer culto à classe de lazer. In: CORBIN, Alain (org.). História dos tempos livres. Lisboa: Teorema, 2001. p. 59-90.

THIESSE, Anne-Marie. Organização dos lazeres dos trabalhadores e tempos roubados (1880-1930). In: CORBIN, Alain (org.). História dos tempos livres. Lisboa: Teorema, 2001. p. 363-392.

 

14 de abril

# Diversão e trabalho: cenários fluminenses

* Discussão de textos:

POPINIGIS, Fabiane. Introdução. In: POPINIGIS, Fabiane. Proletários de casaca. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. p. 23-32.

POPINIGIS, Fabiane. Domingo de trabalho e compras. In: POPINIGIS, Fabiane. Proletários de casaca. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. p. 33-104.

 

21 de abril – Não haverá aula – Feriado

 

28 de abril

# Diversão e trabalho: cenários fluminenses

* Discussão de textos:

POPINIGIS, Fabiane. “Deixem-nos o domingo”: protesto social e regulamentação do trabalho no comércio. In: POPINIGIS, Fabiane. Proletários de casaca. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. p. 105-168.

 

5 de maio

# Diversão e trabalho: cenários fluminenses

* Discussão de textos:

POPINIGIS, Fabiane. Vida de botequim: caixeiros nos processos criminais. In: POPINIGIS, Fabiane. Proletários de casaca. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. p. 169-240.

 

12 de maio

# Diversão, educação, corpo: cenas fluminenses

* Discussão de textos:

MELO, Victor Andrade de. Mudanças nos padrões de sociabilidade e diversão: o jogo da bola no Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). História, Franca, v. 35, e105, 2016.

MELO, Victor Andrade de. As touradas nas festividades reais do Rio de Janeiro Colonial. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 19, n. 40, p. 365-392, 2013.

 

19 de maio

# Diversão, educação, corpo: cenas fluminenses

* Discussão de textos:

MELO, Victor Andrade de. Educação do corpo – bailes no Rio de Janeiro do século XIX: o olhar de Paranhos. Educação e Pesquisa – Revista da Faculdade de Educação da USP, v. 40, p.751 – 766, 2014.

MELO, Victor Andrade de. Uma diversão civilizada – a patinação no Rio de Janeiro do século XIX (1872-1892). Locus, Juiz de Fora, v. 23, n. 1, p. 811-100, 2017

 

26 de maio

# Diversão, educação, corpo: cenas fluminenses

* Discussão de textos:

MELO, Victor Andrade de. Educação, civilização, entretenimento: o Tivoli – um parque de diversão no Rio de Janeiro do século XIX (1846-1848). REVISTA BRASILEIRA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO. 2020. No prelo

MELO, Victor Andrade de; SCHWAN, Thaina Pacheco. Bebida, comida diversão e arte: as fábricas de cerveja no Rio de Janeiro do século XIX (1856-1884). Movimento, Porto Alegre, v. 24, n. 1., p. 147-160, jan./mar. de 2018.

 

2 de junho

# Diversão, educação, corpo: cenas fluminenses

* Discussão de textos:

MELO, Victor Andrade de. Entre a elite e o povo: o sport no Rio de Janeiro do século XIX (1851-1857). Tempo (Niterói. Online). v. ahead, 2015.

MELO, Victor Andrade de. A sociabilidade britânica no Rio de Janeiro do século XIX: os clubes de cricket. Almanack, Guarulhos, n. 16, p. 168-205, ago.  2017a.


Aberta a submissão de trabalhos para o II Encontro Nacional de Historiadores do Esporte

07/02/2020

Está aberto o período de submissão de trabalhos para o II Encontro Nacional de Historiadores do Esporte. O evento será realizado na PUC Minas, em Belo Horizonte (MG), de 12 a 14 de agosto de 2020. Informações podem ser obtidas no  e através do email encontrohistoriaesporte2020@gmail.com .


Publicado novo número de Recorde: Revista de História do Esporte

01/02/2020

Em dezembro foi publicado o número mais recente de Recorde: Revista de História do Esporte – confira abaixo o sumário. Com ele completaram-se doze anos de publicação contínua da primeira revista da América Latina dedicada à História do Esporte e das Práticas Corporais Institucionalizadas. O periódico recebe artigos e resenhas em fluxo contínuo.

 

v. 12, n. 2 (2019)

Sumário

Artigos

Leonardo Brandão, Giancarlo Marques Carraro Machado
Onésimo Rodríguez Aguilar, Luis Diego Soto Kiewit, Cindy Zúñiga Valerio
Juliana Carneiro
Kelen Katia Prates Silva
Tiago Sales de Lima Figueiredo
Narayana Astra van Amstel, Carlos Alberto Bueno dos Reis Júnior, Leonardo do Couto Gomes, Ricardo João Sonoda Nunes
Ivo Lopes Müller Junior, André Mendes Capraro
Everton de Souza da Silva
Samuel Ribeiro dos Santos Neto, Edivaldo Góis Junior
Rogério Othon Teixeira Alves, Georgino Jorge de Souza Neto, Luciano Pereira da Silva
Luiz Antonio C. Norder

Resenhas

Mariana de Paula, Letícia Cristina Lima Moraes, Leonardo do Couto Gomes, Marcelo Moraes e Silva
Leonardo do Couto Gomes, Duilio Queiroz de Almeida, Marcelo Moraes e Silva
Miguel Archanjo de Freitas Junior, Edilson de Oliveira, Tatiane Perucelli, Bruno Pedroso