Entre revistas de minha mãe e memórias pessoais: bancas de revista, cotidiano, juventude e história do lazer (1976-1985)

10/01/2022

Por Rafael Fortes

Na letra de Faroeste Caboclo, do grupo Legião Urbana, um “senhor de alta classe com dinheiro na mão” faz uma “proposta indecorosa” para João de Santo Cristo, protagonista da história. Este a recusa: “Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança / Isso eu não faço, não / E não protejo general de dez estrelas / que fica atrás da mesa com o cu na mão”. A música foi composta na virada dos anos 1970 para os 1980, durante o período de abertura política, dentro da década final da ditadura civil-militar. Lançada em disco em 1987, “chegou a ter a execussão proibida nas rádios“.

A colocação de bombas em alvos civis foi uma das iniciativas escolhidas por servidores públicos militares e civis que discordavam do processo de abertura e desejavam manter intactas as estruturas de repressão, de forma que pudessem continuar com a mão na massa: prendendo, torturando, assassinando, estuprando, ameaçando, ocultando cadáveres, sequestrando etc. Em suma, encontrar os meios que fossem para prosseguir com o terrorismo de Estado. Afinal, o que é colocar bombas em alvos civis, senão terrorismo, não é mesmo? Cometer crimes desde o Estado é uma forma historicamente eficaz de jamais ter tal atos caracterizados como crimes e de ficar livre de toda e qualquer possibilidade de responsabilização (cível, penal etc.). Em especial, quando se vive no Brasil, onde todos os presidentes civis desde 1985 fizeram o possível para manter tal situação. Ao contrário do Chile, do Uruguai, da Argentina e do Paraguai, não houve juízos sequer dos que ocuparam a Presidência durante as ditaduras. Em alguns desses países, como Argentina e Chile, os processos contra centenas de acusados vêm tramitando há décadas, sem que a alternância de partidos na presidência da República interfira (nem mesmo presidentes de direita como Mauricio Macri e Sebastián Piñera). Memória, verdade e justiça tornaram-se política de Estado. Por aqui, livres e desembaraçados de qualquer tipo de preocupação, um conjunto de militares da ativa e da reserva ligados de diversas formas ao aparelho repressivo que mencionei no parágrafo anterior reuniu-se na candidatura a presidente em 2018 de quem todos eles sabiam ter sido um péssimo oficial do Exército Brasileiro: Jair Bolsonaro. Deu no que deu.

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Há quem se refira ao mesmo equipamento urbano que coloquei em itálico na letra da música como banca de revistas. Tal é o caso de Maria Celeste Mira (2001), na obra fundamental O leitor e a banca de revistas: a segmentação da cultura no século XX.

Nasci em 1978 e passei a maior parte da infância e adolescência em Icaraí, bairro de classe média e média-alta de Niterói. Eu era fascinado por banca de revista. Acredito que outros da minha idade fossem, também. Morei fora apenas por um período de dois anos na Vila Naval de Inema, um oásis murado para famílias de oficiais da Marinha à margem da Baía de Todos os Santos e situado em um paupérrimo distrito de Salvador chamado São Tomé de Paripe. Fazia falta uma banca de revistas por lá.

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Ao longo dos anos, dezenas de pessoas me perguntaram por que pesquiso revistas de surfe. Sobre isso, lembro de uma frase da professora Marialva Barbosa, que coordenava o Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense quando eu fazia doutorado lá. Ela disse mais ou menos assim: “A gente pesquisa aquilo que fala sobre a gente” (ou “aquilo que toca a gente”, algo por aí…).

O corpus da minha dissertação de mestrado foi formado pelas revistas Istoé e Veja publicadas ao longo do Plano Cruzado (março a novembro de 1986). No doutorado, mergulhei nas edições de Fluir entre 1983 e 1988.

Mudei-me para o Rio de Janeiro em 2006. Em dezembro de 2009, numa ida a Icaraí para visitar a família, um encontro com o jornaleiro cuja banca frequentei durante a infância e adolescência me levou a escrever um texto em meu blogue pessoal.

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“Tem muita coisa misturada nesse texto, Rafael. Lembrança de infância, referência bibliográfia, objeto empírico, objeto de estudo e crítica generalizante à pusilanimilidade dos governos civis pós-ditadura”, poderia dizer um leitor – e estaria coberto de razão. Vou avançar, prometo, mas vai ser tudo junto e misturado mesmo.

As imagens que se seguem são de revistas que pertenciam à minha mãe, falecida em janeiro deste ano. São 44 imagens feitas por mim a partir de oito periódicos. Faço referência à maioria delas no texto, mas as fotos de algumas páginas internas só são para fins ilustrativos.

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Trata-se de uma revista de ponto de cruz chamada Fada do Lar. Na parte superior da capa (imagem 1) estão anotados em caneta azul o nome (ainda de casada) da minha mãe, Rosane Soares, e a provável data de compra: “jun/84”. Ela tinha o hábito de anotar nome e data (dia/mês/ano, mês/ano ou ano) também em livros, guias e panfletos religiosos etc. A capa tem a expressão “ponto de cruz” escrita em diferentes idiomas. Em português, além do título, informações como: “Revista trimestral de ponto de cruz n. 6” e “Preço 37$50”, indicando tratar-se do valor cobrado em Portugal, em escudos. Na contracapa (imegem 4), estão reproduzidas as capas dos números anteriores (1 a 5) e informa-se que o valor para envio pelo correio é de 50$00 cada. Sobre a imagem do número inaugural há uma etiqueta adesiva de preço com o valor 1600 escrito à mão em caneta azul. Trata-se do provável valor de venda em banca no Rio de Janeiro em 1984. Apenas para efeito de referência, o preço de Fluir, lançada em 1983, variou de 900 e 4.500 cruzeiros entre o número 1 e o 7, quando completou um ano (Fortes, 2009, p. 35). Há também uma marca de carimbo com tinta azul (outra forma comum de indicar preços nas mercadorias na primeira metade da década de 1980) na parte superior da contracapa. O valor que aparecia no carimbo está rabiscado por tinta preta, sendo visíveis apenas os dois últimos zeros. Indício quase certo de remarcação de preço por aumento da inflação, embora não se possa desprezar a variação cambial como um possível fator conexo.

O expediente (imagem 2), lista o nome dos trabalhadores que fizeram a tradução para quatro idiomas (espanhol, italiano, inglês e japonês), da firma distribuidora para o território português e de oito outros distribuidores (sete correspondendo a um país cada; e o mexicano cobrindo mais seis nações da América Central e Caribe). Já o distribuidor na Itália e o preço em liras (1.000), diferentemente, aparecem no lado direito da capa, abaixo do nome, o que me permite inferir que o país era o principal destino de exportação do periódico.

A título de curiosidade, incluí uma página (imagem 3) onde se lê “Homenagem a Walt Disney” com Pato Donald, Bâmbis e um Mickey que, quiçá, aparece fazendo uma arminha com a mão. Como observou um amigo que viu a imagem, o revólver no centro da página possivelmente pertence ao personagem de faroeste do canto superior esquerdo.

Meus conhecimentos próximos de zero em relação aos idiomas dos países do leste da Ásia limitam o alcance da descrição. Arrisco dizer que é uma revista de crochê publicada no Japão. Na capa, novamente, nome da minha mãe e o ano, 1980. Na página 3 (imagem 6), uma datação distinta (“Maio/79”) e um carimbo de J.M. Chedid – Livros, Jornais e Revistas, com endereço e telefone da loja, localizada na Rua do Ouvidor, no Centro do Rio de Janeiro. A contracapa (imagem 12, azul) traz duas marcas de carimbo um tanto apagadas, sendo possível ver que os três últimos algarismos são zeros (o valor parece ser 7000). Há um pequeno logotipo vermelho da empresa Mitsubishi na parte inferior da página e estão escritos, em inglês, a indicação de “Impresso no Japão”, a atribuição de copyright a T. Seto e o ano, 1976.

As imagens 10 e 11 correspondem aos dois lados de um cartão-resposta que poderia ser destacado pelo leitor (aproveitando a linha serrilhada que o une à revista), preeenchido e enviado pelo correio. Era comum as editoras usarem esta ferramenta para oferecer o serviço de assinatura. Facilitava-se tanto o preenchimento quanto o envio: era possível eliminar a necessidade de providenciar envelope (e de preenchê-lo e fechá-lo com cola) e/ou de selo (caso a despesa ficasse a cargo da própria editora). O desenho em vermelho mostra uma menina depositando um envelope numa caixa de correio.

As imagens 12 e 13 correspondem à frente e ao verso de duas folhas que estavam soltas dentro da revista. Provavelmente tratou-se de ação promocional da marca Fios Santista, de fios de tricô e crochê, pegando carona num impresso voltado para o assunto. No pé da página, o endereço do Depto. Tricô e Crochê da Moinho Santista Indústrias Gerais. As folhas são apresentadas como “um presente” da marca: uma com dedicatória e assinatura da atriz Tônia Carreiro e a outra de Estela (provavelmente a atriz Maria Estela Rivera). Os dizeres “A moda é ser pão-dura” sugerem que a onda do momento era fazer a própria roupa, em vez de comprá-la. (In)viabilidade financeira de pagar pelo suéter e casaco prontos, numa loja? Escolha “livre” e descolada? Ou algum grau de combinação de ambas?

3. Revista de Supercrochet – Imagens 15 a 19

Publicada em Barcelona (Espanha) e vendida por 250 pesetas. No carimbo retangular azul da contracapa lê-se: “Publicações Castro Ltda.”, endereço, telefones e o valor de 1600. Provavelmente o mesmo valor da Fada do Lar, mas, como inexiste indicação de mês e ano neste exemplar, é impossível afirmar. As Publicações Castro reaparecerem adiante neste texto. A empresa provavelmente atuava como importadora, editora e/ou distribuidora.

Revista de ponto de cruz italiana, preço de capa 600 liras. Na imagem 21 há anotações de algarismos feitas por minha mãe. Localicadas nas margens, imagino que correspondam ao número de quadrados de cada desenho (perdão, leitor, não tive paciência nem tenho vista para contar).

A contracapa (imagem 23) traz imagens de cães e um carimbo circular azul apagado onde é possível ler “Castro Ltda.”, provavelmente a empresa já citada. No meio do carimbo, há uma etiqueta colada com o valor de 12000. É possível que ela esteja precisamente cobrindo um preço (anterior e mais baixo) indicado no carimbo. A se notar, também, que os algarismos são impressos. Provavelmente a tarefa foi realizada com uma pistola de marcação de preços, utensílio usado em larga escala no comércio brasileiro ao longo de toda a década de 1980, por facilitar o trabalho em série de remarcação de preços em meio às altas inflacionárias. Tal tarefa foi aliviada na década seguinte com a disseminação dos códigos de barra e a gradual conversão da identificação e leitura dos preços, na maioria dos estabelecimentos, de sistemas manuais (etiquetas coladas) para os digitalizados.

Revista de tricô e crochê publicada em 1976 em Offenburg, Alemanha Ocidental. “Printed in Westgermany”, informa em inglês a capa (imagem 24). Há indicação de preços que parecem ser 43 xelins austríacos e 5,60 francos suíços. (Parece-me estranho o principal número, E 365, ser o valor em marcos. Talvez 3,65…). No canto superior direito da contracapa (que não fotografei), há um carimbo retangular onde é possível ler “Castro Ltda.” e o valor de $40,00.

Um aviso impresso na capa informa que há um “suplemento em português”. Ele contém 24 páginas e a primeira delas, onde se lê “Tradução portuguesa”, aparece na imagem 26.

Objetos para além de ler, folhear, copiar, usar de referência

Dentro deste exemplar encontrei dois recortes de colunas do escritor Carlos Eduardo Novaes publicadas em domingos consecutivos (11 e 18/7/1976) no Caderno B do Jornal do Brasil. O primeiro texto (imagem 27) aborda o sucesso do paranormal israelense Uri Geller na televisão brasileira e as fortes impressões e expectativas que gerava em muitas pessoas. Há menções à “nossa realidade” e à fome. A moral da história ao final segue a linha da máxima não há almoço grátis. O segundo (imagem 29) alude à prisão dos músicos Gilberto Gil e Chiquinho por porte de drogas em Florianópolis (SC). Tal como na coluna anterior, humor, nonsense e uma mistura entre situações cotidianas plausíveis e outras inteiramente absurdas ou impossíveis são utilizados para abordar a repressão policial em busca de drogas. No verso das folhas, respectivamente (imagens 28 e 30), é possível ver o topo de uma seção intitulada “LAZER” que ocupava ao menos o terço superior da página 11 do caderno naqueles domingos. Os assuntos abordados parecem bastante diversos entre si. Meus pais assinavam o Jornal do Brasil entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990. Lembro de meu pai como um leitor entusiasmado – e peguei um pouco desse hábito, com interesse principal na cobertura de esporte e, em segundo lugar, no Caderno B. Um militar leitor do jornal queridinho – até hoje – de boa parte da esquerda e dos professores universitários fluminenses (os de Humanas, ao menos). E, pelo visto, pelo menos um dos membros do casal andou lendo em 1976. Nos anos 1980, lembro de minha mãe não gostar de ler jornal, mas pode ter havido uma mudança de hábito em relação a anos anteriores.

Pude escrever os três parágrafos acima graças, principalmente, ao fato de alguém (provavelmente minha mãe) ter recortado aquelas duas colunas, colocado dentro de uma revista e nunca mais tê-las tirado dali (nem a revista ter sido jogada fora por um motivo qualquer; ou nossa casa nunca ter pegado fogo ou ter sido destruída nas centenas de enchentes e desabamentos que atingiram de famílias fluminenses desde então etc.). Revistas são, portanto, também lugares onde alguém pode enfiar folhas soltas: para lembrar depois; para guardar; para tirar da vista; para esquecer; para alguém achar, um dia (a própria pessoa? Uma outra pessoa específica? Qualquer pessoa?).

Nas revistas 2 e 4, mencionei anotações do próprio nome, de datas e de números. Estas e outras marcas de interações entre o leitor e o objeto físico revista foram observadas com frequência por mim ao longo das pesquisas em acervos públicos e privados. Nas revistas de surfe, é comum haver páginas inteiras arrancadas ou pedaços de páginas recortados (faltando). Em geral, o que se extraía era uma fotografia considerada boa, que ia parar em distintos lugares: capa de caderno da escola, parte interna da porta de armário, parede do quarto. Eu mesmo fazia isso com revistas de surfe, Placar, jornais diários que comprava (ou pegava depois de meu pai ter lido, situação em que ficavam liberados para serem recortados) nos anos 1980. Cheguei a montar uma pasta com centenas de recortes relacionados ao Flamengo.

6. Ondori – Imagens 31-3 e 44

Graças a uma palavrinha grafada no alfabeto latino, Ondori, pude pesquisar no Google, que exibiu nos resultados exemplares da década de 80 oferecidos atualmente por vendedores online localizados em diferentes cidades brasileiras. Mais um indício da forte circulação de revistas importadas no período. Uns anúncios dizem que é “revista japonesa de tricô”, outros que é “revista japonesa de crochê”.

Nome e data completa (07/3/85) anotados por minha mãe em caneta azul na capa (imagem 31). No índice (imagem 32), ao pé da página, há uma datação com o símbolo de copyright e ano: ’74. Haveria um intervalo de 11 anos entre a fabricação do produto, no Japão, e a aquisição por minha mãe? Na contracapa (imagem 33), ela anotou a lápis o seguinte: “(071) 243-1472 – Centro Gratuito para Viciados em Drogas”. Mudamo-nos para Aratu no início de 1986. Como o número de discagem direta à distância (DDD) é 071, de Salvador, desconfio que o exemplar foi para a Bahia no caminhão de mudança, e que essa anotação foi feita do intervalo de dois anos até o início de 1988, quando retornamos ao RJ.

O exemplar contém itens que não fotografei: um marcador de páginas (com escritos em japonês e em algarismos arábicos) que deve ter vindo encartado de brinde da própria revista e um encarte grande (folha bem maior que o tamanho da revista, tanto que precisou ser dobrada três vezes para caber nela). Na margem inferior da página 88 (imagem 44), abaixo de um desenho de tricô, há uma anotação da minha mãe: “p/ costas sofá – 156 trancinhas”.

Diferentemente dos demais, este exemplar tem folhas manchadas e enrugadas: indícios de que algum líquido foi derramado sobre ele (ou que apanhou chuva).

Publicada na Alemanha, com redação sediada em Hamburgo. A anotação de data na capa (imagem 34), “março/98”, extrapola em mais de uma década o recorte temporal que estabeleci.

Está aqui por motivos especulativos… Entre 1992 e 1996, aproximadamente, diferentes motivos fizeram com que minha mãe pedisse mais de uma licença do trabalho. Acredito que os períodos de licença tenham contribuído para que ela viesse a ser demitida (o que se deu entre os meses finais de 1996, provavelmente). Houve uma redução no consumo de revistas? Se houve, em que medida isto poderia ter a ver com fatores econômicos (minha mãe nunca mais trabalhou fora e recebeu salário) ou também a mudanças gerais na vida de alguém que trabalhara desde a adolescência e, então, passou a ser uma dona de casa em tempo integral? Perda de interesse por antigos hábitos? Novos interesses? Não ir mais ao Centro do Rio de segunda a sexta e passar obrigatoriamente na frente da Banca do Franco para entrar no prédio onde trabalhava?

Mas a data de 1998 pode também estar errada, inclusive porque a etiqueta de preço na capa, das “Publ. Castro”, estampa o valor de 120 00, que certamente não correponde a R$ 120, moeda em vigor naquele momento. Tal como o exemplar japonês anterior, muitas coisas podem ter acontecido, inclusive a passagem de um intervalo de anos entre o exemplar ser impresso na gráfica e minha mãe parado para escrever uma data na capa dele (inclusive o ato dela de anotar uma data na capa da revista não corresponder sempre e necessariamente à mesma situação de contato inicial – compra – daquele objeto). Escrevi o parágrafo especulativo anterior antes de avançar à imagem 36. Nela, há um encarte interno com referência explícita ao ano de 1984. Isso derruba completamente as ilações que fiz? Em que medida vale manter um parágrafo assim, intacto, neste texto? Questões para pensar o papel do historiador e os meandros do nosso trato com as fontes e como aquilo que pensamos termina se materializando em textos.

Este exemplar é uma cópia reprográfica (via máquina de copiar, vulgo xerox). As folhas estão presas por um grampo trilho, muito usado em processos de papel do serviço público fluminense. Isto, claro, haver, em algumas das revistas anteriores, menções a leis proibindo a reprodução não autorizada – uma forte evidência de que havia reproduções não autorizadas.

Este exemplar contém diversas intervenções de minha mãe. Há anotações em várias páginas (por exemplo, em caneta vermelha, imagem 42). No verso de algumas estão colados desenhos coloridos por ela em papel quadriculado (imagens 41 e 43). Uma das vantagens da cópia, quando se reproduz apenas uma página por folha, é ter o verso livre para colar, escrever, anotar e desenhar, sem, para isso, sobrepor o conteúdo da publicação. Duas folhas soltas (imagens 39 e 40) foram preparadas com a palavra “Guilhermina”, nome daquela que era, à época, talvez a melhor amiga de minha mãe.

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Por muitos anos, minha mãe adorou fazer crochê, ponto de cruz e tricô (este, creio, um pouco menos). E comprou, leu, consumiu, usou e guardou muito bem guardadas revistas importadas e nacionais, bem como cópias xerox, dedicadas a estes assuntos. Várias das peças que resultavam dessas atividades decoravam a casa ou ficavam guardadas para ocasiões especiais (toalhas de banho ou de mesa com bordados ou barras de crochê, por exemplo). Hábitos de uma mulher nascida em 1950, em Niterói, que fez curso normal, mas seguiu rumos laborais que não o de professora. Há algo, ali, de minha avó materna Dirce, dona-de-casa que costurava para fora para pagar as contas? Há algo da madrasta da minha mãe, minha avó Myria, que adorava bordar? Há algo ali de meu avô paterno, Jorge, que também era chegado em revistas (National Geographic, por exemplo) e em fazer anotações em tudo que era canto (livros, dicionários, gramáticas etc.), inclusive devido ao trabalho extra que fazia como tradutor?

Parece-me plausível dizer que comprar, ler, manipular, reler, consultar, escrever, guardar, contar, entre outras, eram ações comuns da minha mãe com aquelas e naquelas revistas. Elas permitem pensar neste objeto e em seu consumo (cultural, social, cotidiano, econômico) para além de um simples mediador ou da busca de informações sobre determinados interesses ou atividades que podem ser classificados de múltiplas formas (hobby, lazer, diversão, atividade manual, artesanato etc.), dependendo das circunstâncias. Que papel, nisso tudo, desempenham as questões econômica e de acesso? Recursos para adquirir revistas importadas e também os materiais necessários às atividades (agulhas, linhas etc.). E o acesso a ambos: residir numa cidade de porte médio e circular diariamente pelo Centro dela e do Rio de Janeiro representavam proximidade de lojas de departamento e armarinhos, bem como de bancas de revista enormes, repletas de periódicos de dezenas de países. Como era o caso da banca do Franco, da qual minha mãe era freguesa, localizada em frente ao edifício em que ela trabalhava, na Rua Nilo Peçanha, 50. É, lembro de cabeça o nome dos jornaleiros que atenderam por anos a mim (perto de casa) e, 30 ou 35 anos atrás, à minha mãe (perto do trabalho dela). Eu ficava maravilhado ao olhar tantas revistas dentro das bancas – principalmente essas enormes, do Centro do Rio -, mas também esses lugares eram especiais também porque nelas havia tanta coisa legal, como figurinhas para os álbuns (geralmente de futebol) e jornais esportivos.

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As imagens acima são de revistas adquiridas para uso prioritariamente doméstico e individual. Cenários bastante distintos, contudo, poderiam ocorrer, dependendo de quem comprava e de qual(is) o(s) tema(s) principal da revista importada em questão. Bancas de revista eram também um local de encontro. Desconhecidos poderiam desenvolver conversas e, às vezes, vínculos a partir de interesses em comum. No período histórico em questão, o Centro do Rio e adjacências eram também áreas de circulação de muitos adolescentes e jovens, que se agregavam de forma relativamente solta em grupos. As bancas de jornal eram uma referência para a busca de informações, para saber que novidades havia, que revistas haviam chegado ou se esperava que chegassem (e quando). Um exemplar de revista importada comprado por alguém podia, no mesmo dia, passar de mão em mão por várias pessoas. Folheado com avidez por muitos, depois lido com calma pelo comprador, e então emprestado para amigos. Não era incomum jovens se reunirem na casa de alguém ao saberem que a pessoa tinha comprado ou tinha conseguido emprestada, com um amigo, uma dessas publicações muito raras, caras e/ou desejadas.

Em livros como os de Janice Caiafa (1985) e a biografia da banda Planet Hemp escrita por Pedro de Luna (2018), é possível encontrar narrativas sobre a circulação de grupos de jovens pelo bairro no período aproximado de 1976-1985. Trechos extraídos do último e situados por volta de 1981:

“Além do povo da praça Mahatma Gandhi, tinha também a galera do skate, que ouvia o mesmo tipo de som. Os skatistas costumavam andar de madrugada pelo centro, na ladeira ao lado do Museu da Imagem e do Som, na praça XV, e no monumento a Estácio de Sá, no Aterro. Quem estivesse perto, e com um skate, ia junto. Naquela época, as turmas eram bem misturadas: playboys da Urca, galera do Méier; alguns de Niterói e muitos do Centro, da Lapa, da Glória, do Flamengo. (…) No entanto, havia bastante intolerância. Quando os dois [Skunk e Miltão] começaram a usar camisetas de bandas new wave, foram hostilizados. Camisetas rosas ou vermelhas nem pensar, no máximo uma multicolorida do Devo. (…) Assim como o Skunk, [Miltão] também fuçava as revistas importadas no edifício Central e nas bancas de importados do Centro. Corria atrás da informação para editar fanzines ou escrever letras de música (Luna, 2018, p. 14-5).”

E este, “por volta de 1984″:

“Curioso e interessado, Skunk vivia metido nas bancas de jornal da avenida Rio Branco, folheando as revistas de música importadas, mesmo sem entender quase nada de inglês. Ele queria mesmo é assimilar o visual, antecipar as tendências (p. 15).”

Folhear revista era um hábito de várias pessoas, talvez mais comum entre as que não tinham dinheiro para comprá-las. Ou que só tinham para comprar uma – logo, era preciso folhear bastante para escolher bem.

Descendo a Avenida Rio Branco no sentido da Praça Mauá para o Aterro do Flamengo, o edifício Avenida Central é o seguinte, do lado direito, quando se passa o edifício Rodolfo de Paoli, onde minha mãe trabalhava na Confederação Nacional da Indústria. Todos os dias úteis ela chegava ao Centro e saía dele pela Praça XV. Circulava pela mesma área dessa garotada.

Como um dos trechos evidencia, não se tratava de um passado em que tudo eram flores graças à congregação da garotada e a circulação pelos mesmos espaços. Preconceitos, marcadores sociais e problemas estruturais estavam lá operando, firmes e fortes. Fundador do Planet Hemp, Skunk era negro, bissexual e foi vítimas da AIDS nos anos 1980 (tema/período sobre o qual, sempre que posso, recomendo o documentário Cartas para além dos muros).

Estilo de vida, identidade, música, esporte, lazer, fruição, frustração, amores, amizades, ódios, brigas, crocodilagens, drogas, pertencimento, repressão da “sociedade”. Tudo isso fazia parte da vida destes adolescentes e jovens, como de tantos outros. O punk, o skate, o rap/hip-hop, o rock, e/ou o surfe, entre outros, funcionaram como colas que uniram várias dessas pessoas e ajudaram, às vezes, a dar um sentido, temporário que fosse, a suas vidas. Frequentemente significaram menos que isso: apenas ajudaram a se situarem e terem algumas referências, além de uma galera com quem andar.

Por estes e outros motivos, dentro do recorte temporal estabelecido neste texto, revistas importadas eram itens muito valiosos no cotidiano e na vida de crianças, adolescentes e jovens, fossem skatistas de Pelotas (RS), surfistas de Fortaleza (CE) ou punks da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, conforme, respectivamente as pesquisas de Rocha (2021), Franco (2013) e Caiafa (1985). Tais relações entre revistas importadas de surfe e juventude aparecem em textos meus; e de Leonardo Brandão, que priorizam a história do skate, mas também afirmam, entre outras preciosidades, que as revistas californianas Surfer e Surfing “eram vendidas em São Paulo nas bancas da Praça da República” por volta de 1974 (Brandão, 2014, p. 52).

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Bancas essas escolhidas como um dos alvos preferenciais de terrorismo de Estado por setores da repressão. Há quem diga que, em certos casos, isto se deu por venderem e darem destaque a periódicos de oposição. Estou entre os que consideram que a repressão pode atingir – e muitas vezes atinge, de fato – as pessoas e alvos de forma desigual. Contudo, é pouco producente ficar procurando o que cada um supostamente fez para, então, justificar ou explicar o que lhe aconteceu. Todas as vítimas de terrorismo de Estado são vítimas de terrorismo de Estado. Ponto.

[Texto originalmente publicado no BELA – Blog Estudos do Lazer. Fiz apenas pequenos ajustes, inclusive no título.]

Referências bibliográficas

BRANDÃO, Leonardo. Para além do esporte: uma história do skate no Brasil. Blumenau: Edifurb, 2014.

CAIAFA, Janice. Movimento punk na cidade: a invasão dos bandos sub. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: um estudo de Fluir nos anos 1980.  Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2009.

FRANCO, Bruna Demes Gonçalves. O surfe como prática: cidade, corpo e técnica numa relação entre cultura e natureza em Fortaleza (1972-1986). Dissertação (Mestrado em História) – Universidade do Estado do Ceará, Fortaleza, 2013.

LUNA, Pedro de. Planet Hemp: mantenha o respeito. Caxias do Sul: Belas Letras, 2018.

MIRA, Maria Celeste. O leitor e a banca de revistas: a segmentação da cultura no século XX.  São Paulo: Olho d’Água/Fapesp, 2001.

ROCHA, Manoel José Fonseca. Juventude, lazer e desenvolvimento: o processo de territorialização do skate no município de Pelotas/RS (1975-2005). Tese (Doutorado em Desenvolvimento Regional) – Universidade Regional de Blumenau, Blumenau, 2021.


O ESPORTE NO TRAÇADO URBANO ORIGINAL DE GOIÂNIA

04/10/2021

Por Jean Carlo Ribeiro (UFT, campus Miracema)

jeancarlo@mail.uft.edu.br

Goiânia, capital do estado de Goiás, começou a ser construída a partir do lançamento de sua pedra fundamental em 1933. Efetivada como município em 1935 e transformada oficialmente em capital em 1937, a cidade foi projetada com uma proposta de ressignificação social ambicionada para o Brasil recém-saído da Primeira República.

As cidades-metrópoles seriam o palco idealizado para a “regeneração humana” em voga. Projetada a partir de valores higiênicos, Goiânia definitivamente incluiria Goiás na reestruturação da nação proposta pelo governo de Getúlio Vargas que, em tese, passava pela interiorização, unindo o litoral ao sertão, promovendo o equilíbrio das suas regiões, amenizando suas desigualdades. A nova capital planejada seria um “símbolo civilizador”, referência desse novo país na hinterlândia brasileira (CHAUL, 1999; CHAUL, 2009).

Incluídas nesse propósito, as práticas físico-esportivas fariam parte do conjunto desse programa político que intencionava cultivar novos hábitos, costumes e experiências que alimentariam uma cultura urbana modernizada (DRUMOND, 2009).

À serviço do governo interventor em Goiás, o engenheiro civil Armando Augusto de Godoy, à época chefe da repartição de urbanismo do Distrito Federal assinou um relatório em 24 de abril de 1933, validando a área para a construção da nova capital do estado nas proximidades da pequena cidade de Campinas, localidade elevada à categoria de município em 1914, cujo censo de 1920 denunciou uma população de 3.878 moradores (BRASIL, 1929).

Vista aérea da cidade de Campinas em 1933. Fonte: Arquivo Corrêa Lima (Coleção de fotos). Disponível em: Pires (2005, p. 289).

O relatório de Godoy buscava legitimar de maneira “técnica” e “científica” a escolha argumentando sobre a “ação civilizadora e econômica” de uma cidade moderna, apontando a falta de um grande centro urbano, como principal causa do “atraso” do estado de Goiás em relação a outras unidades federativas (GODOY, 1933).

Com a definição do local, faltava o projeto de cidade. Com a recusa de Armando de Godoy para tal ofício, surgia o nome de Attílio Corrêa Lima, renomado arquiteto e urbanista com formação e experiência em planejamento urbano no Brasil e na Europa, talvez um dos raros brasileiros na época, capaz de atender as expectativas de modernidade almejadas.

Tendo pela frente o desafio de colocar uma “cidade no papel”, em julho de 1933 o arquiteto se mudaria do Rio de Janeiro para o sertão goiano com a esposa e o filho de 4 anos, ocupando uma das três casas de madeira construídas no canteiro de obras (DINIZ, 2007).

O decreto estadual n° 3.547 de 6 de julho de 1933, previa a estrutura do projeto urbanístico e o que deveria conter no traçado da nova capital. Em seu item terceiro, letra “e”, como parte da organização do plano diretor da cidade, o documento apontava a previsão de terrenos para esportes e recreio, além de outros espaços que, em tese, seriam acolhedores à momentos de lazer, passeio, descanso e divertimento da futura população como sistemas de parques, jardins e arborização das ruas.

Cumprindo o decreto, Corrêa Lima demonstrou nos traços do plano original da cidade a influência do urbanismo clássico juntamente ao seu ideal estético de modernidade, traduzindo em larga medida, os desejos políticos do “moderno no sertão”. Ainda em 1933, apresentou um esboço desse traçado urbano, exposto na pesquisa de Diniz (2007). O destaque em cores feito pela autora, nos dá uma ideia de como a cidade foi pensada a partir de zonas e parques.

Implantação do traçado urbano de Corrêa Lima para Goiânia
Fonte: Arquivo Corrêa Lima. Disponível em: Diniz (2007, p. 123).

A seta na parte inferior à direita aponta para o norte. Ainda à direita do desenho, na cor marrom, está a cidade de Campinas (atualmente bairro de Goiânia), cuja praça central (hoje, Praça Joaquim Lúcio), dista aproximadamente 5 quilômetros de onde se iniciariam as obras do “Palácio do Governo” no “Centro Administrativo”, atual Praça Cívica (na cor branca).

Em preto, o “Setor Central” com destaque para o triângulo em vermelho, cujo vértice localizado no “Centro Administrativo”, dá origem às avenidas Araguaia, Goiás e Tocantins. A avenida Anhanguera forma a base do triângulo no eixo leste-oeste, apropriando-se de parte do traçado da antiga estrada de rodagem que ligava a cidade de Campinas ao então povoado de Leopoldo de Bulhões (linha cor-de-rosa) (PIRES, 2005).

Em cinza, o aeródromo com suas duas pistas ortogonais em formato de “cruz” nos sentidos norte-sul e leste-oeste. No projeto, cada uma possuía 1 quilômetro de extensão por 100 metros de largura. Na área em lilás à esquerda das pistas está o “setor Norte”, zona industrial estrategicamente alocada junto ao terminal ferroviário (em salmão).

Em roxo, o “Setor Sul”, tendo logo acima, em azul-turquesa, o “Parque Paineira”, área verde de 16 hectares (ha), localizada no ponto mais elevado do esboço, destinado ao reservatório de água da cidade (DINIZ, 2007).

Outros parques (em verde) protegiam nascentes e matas nativas. Em tom mais escuro, separando o “Setor Central” do “Setor Oeste” (em laranja), o “Parque dos Buritis”, com seus 40ha, destinados à preservação de uma nascente que seria represada com o intuito de formar um lago para atividades esportivas e recreativas.

Já em verde-limão, os “park-ways”, áreas lineares de preservação de matas ciliares dos córregos Botafogo (à esquerda da imagem) e Capim Puba (à direita). O “Parque Botafogo”, projetado para ser o maior e principal parque da cidade com uma área de 54ha, possuía “caminhos naturais”, segundo Corrêa Lima, destinados ao lazer da população (DINIZ, 2007).

À leste (parte esquerda do esboço), na margem direita do córrego Botafogo, Corrêa Lima propôs a abertura de um outro loteamento (em cinza), já prevendo a expansão da cidade. Apesar de estar obrigado a projetar inicialmente uma área para 15.000 moradores, o urbanista devia indicar na planta espaços para comportar uma população de 50.000 habitantes,

A nordeste, a “Represa do Jaó” (em azul-claro, à esquerda da imagem), contenção do rio Meia Ponte com a função de operar a usina hidrelétrica da cidade. Os 4km de comprimento e 500m de extensão em seu ponto mais largo, levaram o urbanista a pensar no local como um “centro de atrações esportivas”, ideal para a prática de diferentes esportes aquáticos e mais um espaço de lazer para a população.

A marca de paisagista se destacou na valorização de espaços ajardinados, como praças, vias públicas e estacionamentos arborizados para veículos. No projeto, a “Avenida Pedro Ludovico” (que, em 1935, seria renomeada para “Avenida Goiás”), “Eixo Monumental” projetado para ligar o centro administrativo à estação férrea, tinha 45% de sua área ajardinada a arborizada (DINIZ, 2007). Trabalhando com o conceito de áreas livres, os setores indicados para abrigar a primeira fase de povoação da cidade, eram contemplados com “playgrounds” (áreas internas nas quadras residenciais).

Ao todo, o primeiro plano urbanístico da nova capital contemplou uma área de 1.082ha, dos quais 375ha (aproximadamente 35%) eram de espaços públicos. Para a vivência de atividades físico-esportivas ou recreativas, foram destinados 162ha, ou seja, quase 15% de toda a área urbanizada da cidade, e 43% de seu espaço público. Além disso, a generosa oferta de parques indicava uma excelente relação de área verde por habitante (ACKEL, 2007).

Especificamente, em relação aos esportes, Corrêa Lima projetou um espaço de 8ha, destinado à prática de diferentes modalidades (MEDEIROS, 2010). Um complexo, nomeado de “Estádio Municipal”, foi alocado na extremidade sul do aeródromo no encontro entre as avenidas Paranaíba e Anhanguera. A praça esportiva era formada por um campo de futebol, pistas para atletismo, corridas e jogos atléticos, arquibancada (voltada para o nascente), 12 quadras de tênis, piscina e sede social (DINIZ, 2007).

A estrutura esportiva jamais sairia do papel em sua ideia e localização original. Somente em 07 de agosto de 1940, por ocasião da visita do presidente Getúlio Vargas à Goiânia (primeiro presidente da república a pisar solo goiano), é que seria lançada a pedra fundamental de um estádio na mesma avenida Paranaíba, mas na esquina com a rua 74, a pelo menos 700 metros do local indicado no plano urbanístico de Corrêa Lima.

Evidenciando símbolos de uma sociedade seletiva e excludente, o urbanista também sugeriu a fundação de um clube esportivo/recreativo exclusivo para as elites da nova capital. Para atender tal demanda, apontou a necessidade de uma área com espaço suficiente para a construção de uma sede social com salão de festas, pavilhão de apartamentos para hóspedes, garagens, além das quadras de tênis e piscina (DINIZ, 2007).

Já em 1935, uma área na avenida anhanguera ao norte do “Parque dos Buritis” foi doada pelo estado de Goiás a uma associação civil constituída para reunir a “alta classe goianiense”, proporcionando-lhes atividades esportivas, de lazer e convívio. Os associados ao “Automóvel Club de Goiaz” inauguraram ali sua sede em 1937.

Apesar do idealismo em atender as expectativas e necessidades de uma “nova sociedade”, em grande medida, boa parte das intenções implícitas no traçado urbano de Goiânia esboçado por Attílio Corrêa Lima em 1933, ficariam comprometidas ao longo do tempo ou sofreriam modificações por dificuldades econômicas, ou mudanças de interesses e prioridades. Alguns aspectos, concretizados totalmente ou em parte, com o tempo seriam reconfigurados atendendo novas tendências e comportamentos sociais relativos ao esporte e ao lazer.

Mesmo com este comprometimento, a inserção de elementos associados ao esporte e aos divertimentos chamam a atenção no traçado urbano inicial da cidade. Certamente estas ideias contribuíram para o início de um ciclo de transição, largamente tratado na historiografia goiana como de significativa transformação estrutural, sociocultural, política e econômica.

Referências

ACKEL, L. G. M. Attílio Correa Lima: uma trajetória para a modernidade. 2007. 342 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de arquitetura e urbanismo, USP, São Paulo, 2007.

BRASIL. Recenseamento do Brasil. Realizado em 1° de setembro de 1920. Volume IV (4ª parte). População. População do Brazil por Estados, Municipios e Districtos, segundo o gráo de instrução, por idade, sexo e nacionalidade. Ministerio da Agricultura, Industria e Commercio – Directoria Geral de Estatística. Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1929.

CHAUL, N. F. A construção de Goiânia e a transferência da capital. Goiânia: Ed. da UFG, 1999.

CHAUL, N. F. Goiânia: a capital do sertão. Revista UFG – Dossiê cidades planejadas na hinterlândia, Goiânia, ano XI, n. 6, p. 100-110, jun. 2009.

DINIZ, A. Goiânia de Attílio Corrêa Lima (1932-1935) – Ideal estético e realidade política. 2007. 240 f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, UNB, Brasília, 2007.

DRUMOND, M. Vargas, Perón e o esporte: propaganda política e a imagem da nação. Estudos históricos. Rio de Janeiro, vol. 22, n. 44, p. 398-421, jul./dez. 2009.

GODOY, A. A. de. A mudança da capital do estado. Relatório apresentado ao sr. dr. interventor federal em Goiaz, pelo engenheiro urbanista dr. Armando de Godoi, relativo à construção da nova capital do Estado de Goiaz nas proximidades da cidade de Campinas. 24 abr. 1933. Correio Oficial – Estado de Goiaz, Goiaz, GO, ano LXXVII, n. 2.470, p. 3-7, 11 maio 1933.

GOIAZ. Decreto n° 3.547 de 6 de julho de 1933. Arquivo histórico do estado – Secretaria de Estado da Cultura (SECULT Goiás). Caixa n° 1 – Pedro Ludovico Teixeira, 1932, 1933, 1934, 1935 – Decretos: mudança da capital. Governo Pedro Ludovico Teixeira. 1933.

MEDEIROS, W. de A. Goiânia metrópole: sonho, vigília e despertar (1933/1973). 2010. 333 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de História, UFG, Goiânia, 2010.

PIRES, J. R. Goiânia – La Ciudad Premoderna del “Cerrado” (1922-1938): Modernidad y Ciudad Jardín en la urbanística de la nueva capital del Estado de Goiás. 2005. 374 f. Tese (Doutorado em Teoría e Historia de la Arquitectura) – Departamento de Composición Arquitectónica, Escola Tècnica Superior D’Arquitectura de Barcelona, Universitat Politecnica de Catalunya, 2005.

 

Para saber mais

Esse texto foi elaborado a partir da tese de doutorado, abaixo identificada. Ainda em 2021 será publicado o livro homônimo pela Editora Kelps de Goiânia.

RIBEIRO, Jean Carlo. A capital dos esportes: poder, idealismo e hábitos físico-esportivos no surgimento de Goiânia (1930-1945). 2020, 187 f. Tese (Doutorado em Estudos do Lazer) – Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Universidade Federal de Minas Gerais, 2020.


Grandes estádios e a memória da ditadura

23/08/2021

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Durante o período da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985), dezenas de estádios de futebol foram construídos e inaugurados. Uma parcela importante – 14 estádios com grande capacidade – foi erguida e, posteriormente, administrada por governos estaduais que tinham à frente políticos da Aliança Renovadora Nacional (Arena). Dez deles receberam o nome do próprio governador que os construiu e inaugurou.

O assunto é explorado no artigo “‘Brasil-grande, estádios gigantescos’: toponímia dos estádios públicos da ditadura civil-militar brasileira e os discursos de reconciliação, 1964-1985“, escrito por João Malaia, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e por mim e publicado no dossiê Lugares de memória e de consciência na América Latina da revista Tempo (UFF).

Abordamos superfaturamentos e fraudes em licitações (condizente com a dinâmica mais ampla de atuação e fortalecimento de empreiteiras descrita e analisada por Campos (2014) ), acidentes e confusões nas inaugurações (com dezenas de feridos e levando a prisões e acusações arbitrárias), evasão de divisas por meio da administração posterior dos estádios e complexos esportivos e o papel predominantemente adesista e celebratório da imprensa esportiva (não só à época, mas também nas décadas seguintes).

Um de nossos objetivos é inserir tal fenômeno nas discussões historiográficas sobre construção de consentimento durante o período e após – considerando que a maioria permanece com os mesmos nomes nos dias atuais. Já no subcampo da história do esporte, embora um número razoável de trabalhos sobre esporte e ditadura tenha sido publicado nos últimos anos, aspectos como a construção de consensos, o papel dos clubes e de seus dirigentes, a atuação de governos estaduais (tanto de governadores quanto de entidades criadas para administrar os estádios, como as superintendências estaduais de desportos) e os estádios têm ficado em segundo plano. A atenção frequentemente se volta para experiências de resistência (em geral utilizando como exemplo um jogador, treinador ou time) e para a seleção brasileira, sobretudo durante o governo Medici.

O teor e os sentidos políticos de tais nomeações, que duram décadas, fazem parte da construção e manutenção, no presente, de imagens positivas do regime ditatorial entre setores da sociedade brasileira. Mesmo entre os pesquisadores e ativistas mais atentos, é pouco provável que tais nomes de estádios chamem a atenção quanto a uma possível identificação com o regime civil-militar. Em outras palavras, tais nomes de governadores – lideranças políticas civis no interior do regime – não causam identificação imediata, diferentemente do que acontece, por exemplo, com as homenagens, em todo o país, aos generais ex-presidentes Medici, Castelo Branco e Costa e Silva.

*  *  *

Amanhã (terça-feira, 24/8/2021) João Malaia e eu falaremos sobre o assunto no III Seminário Brasil Republicano, organizado pelo Instituto de História da Universidade Federal Fluminense. Transmissão pelo canal do Ludopédio: https://www.youtube.com/watch?v=NS87p9dJ5Ew.

Referências

CAMPOS, Pedro Henrique Pedreira. Estranhas catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988. Niterói: Editora da UFF/Faperj, 2014.

MALAIA, João Manuel Casquinha; FORTES, Rafael. “‘Brasil-grande, estádios gigantescos’: toponímia dos estádios públicos da ditadura civil-militar brasileira e os discursos de reconciliação, 1964-1985”. Tempo, v. 27, n. 1, p. 165-183, jan.-abr. 2021. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/tem/a/dxyZ4FpZVhkw6KB6sb7K4Tn/?lang=pt>. Acesso em 18 ago. 2021.


Processo seletivo 2021 de mestrado e doutorado em Estudos do Lazer – PPGIEL/UFMG

03/06/2021

Estão abertas até 26 de junho as inscrições para os processos seletivos de mestrado e doutorado do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer da Universidade Federal de Minas Gerais.

Informações aqui: http://www.eeffto.ufmg.br/eeffto/noticias/4502


Um filme: Fútbol Violencia S.A. (*)

17/05/2021

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Fútbol Violencia S.A. é um documentário de 2009-10 de Pablo Tesoriere,  diretor e fotógrafo de nacionalidade argentina. Ele dirigiu, entre outros, Puerta 12 (que resenhei) sobre a confusão que matou mais de 70 pessoas num River x Boca no Estádio Monumental de Núñez.

Por que a violência no futebol? Por que tanta violência nos estádios argentinos? O futebol é um espelho do mundo? Essas são algumas das questões propostas ao se iniciar a obra. À última pergunta, o escritor Eduardo Galeano responde, de cara, “sim”: a violência faz parte do mundo, portanto, também integra o futebol. Durante quase duas horas, o mosaico de falas combina esta visão do futebol como reflexo da sociedade (e/ou como uma espécie de microcosmo) com o apontamento de elementos de especificidade que esta modalidade esportiva e a experiência concreta de frequentar seus estádios guardam naquele país: masculinidade / heterossexualidade / heteronormatividade, péssimos serviços, violência e hostilidade policial e institucional etc. Sempre considero importante destacar que, do ponto de vista histórico, inexistem características intrínsecas a qualquer modalidade esportiva – todas resultam do processo histórico de atribuição de valores pelas sociedades e indivíduos.

Abaixo está o trailer. Buscando pelo título, é possível encontrar o filme inteiro na mesma plataforma.

O documentário é sobre a violência no futebol, torcidas organizadas (barras bravas), crime e política. Vários entrevistados tratam os membros de torcidas organizadas do país como “militantes profissionais” ou “gente que vive do futebol”. Fala-se bastante sobre o dinheiro envolvido nas atividades, e que circula tanto em torno das partidas (obtenção e vendas de ingressos e drogas; traslados e demais custos para comparecer a jogos em casa e fora), quanto da administração dos clubes (patrocínio, transações de jogadores, categorias de base, contratos de prestação de serviços etc.). As barras bravas costumam ser fundamentais nas relações de poder clubísticas e decisivas nas eleições de diretoria. Não raro, o alcance do futebol e destas relações se integra ao âmbito político-partidário. (Embora o documentário não mencione seu nome – salvo engano meu -, Mauricio Macri presidiu o Boca Juniors entre 1995 e 2008. Em 2005, foi eleito deputado federal. Em 2007 e 2011, prefeito de Buenos Aires. Presidiu a República Argentina de 2015 a 2019.)

A maior parte das imagens que aparecem datadas – em especial vídeos de brigas nas arquibancadas e gramados – são de 2005-6. Há também gravações de protestos e passeatas de torcedores de clubes – neste caso, de 2007 a 2009, período de produção do próprio filme.

Fotos de arquivo retratam episódios passados – muitas delas em preto e branco, quando de décadas anteriores à de 1990. São matérias de jornais diários sobre os crimes e fotos pessoais – de acervos familiares – das vítimas fatais da violência.

A produção do filme realizou muitas entrevistas, gravadas com diferentes enquadramentos de câmera. Elas dão voz a torcedores, empresários, advogados, autoridades do estado (políticos/ex-políticos do Executivo e Legislativo, juízes), um psicólogo da polícia, um pesquisador (o onipresente Pablo Alabarces), familiares de jovens assassinados por torcedores, dirigentes/ex-dirigentes de clubes e jornalistas, muitos jornalistas. Somam-se depoimentos na saída de audiências dos processos criminais sobre a morte de torcedores e a gravação de reuniões envolvendo diferentes atores sociais para tratar de problemas de clubes, como o Talleres de Córdoba. Esse conjunto de imagens parece ter sido produzido e gravado especialmente para o filme.

Há um tanto de imagens repetidas (inclusive uma em que aparece um torcedor com uma camisa do Flamengo numa confusão dentro de um campo).

O filme permite considerar as variáveis que dizem respeito aos modos ou estilos de torcer, que vem sendo abordados por pesquisadores do futebol. Cantar, pular e agitar os braços são hábitos – não necessária nem essencialmente agressivos – de aficionados argentinos em modalidades esportivas distintas. Caso tenha dúvida, recomendo assistir a este vídeo da final da Copa Davis de 2016, em… Zagreb, na Croácia. Ou às imagens, no próprio Fútbol Violencia S.A., de jovens e sorridentes torcedores do Rosario Central num protesto de 2007.

O filme mostra confusões e brigas envolvendo a torcida de dezenas de times diferentes: o problema é geral. Há imagens de arquivo impressionantes. Impressionantes, mas não estranhas para quem está habituado a frequentar estádios brasileiros nos últimos 30 anos, ao menos. (Narrei memórias afins neste texto em que trato do livro Entre os vândalos).

Já estive em partidas de primeira, segunda e terceira divisões em diferentes estádios de Buenos Aires. Vi confusões e brigas a poucos metros de distância em duas ocasiões. A mais violenta delas, de longe, foi uma batalha campal na saída de um jogo de terceira divisão entre All Boys e Atlanta (há testemunhas: estava acompanhado de três colegas pesquisadores). Na “menos” violenta, Ariel, o argentino que acabara de encontrar na entrada do Nuevo Gasómetro (conheci o sujeito na véspera, dentro do metrô; ele me disse que veria o San Lorenzo no domingo e me convidou a ir) e fora gentilmente – sob meus protestos – tentar comprar ingresso com desconto com membros de uma torcida organizada, levou um soco na cara. A isso imediatamente se seguiu um choro do filho, de uns 8-10 anos, que tinha ficado sob meus cuidados e, compreensivelmente, se assustou ao ver o pai apanhar. “Papá peleó, Papá peleó”, gritava o menino, enquanto eu tentava acalmá-lo. O pai foi ao banheiro, lavou o rosto e veio nos encontrar como se nada tivesse acontecido. Dirigiu um “não foi nada” ao garoto, enquanto passava a mão na boca, ainda sangrando um pouco. Retorno ao filme.

Que fazer?

Segundo o documentário, a única providência tomada pela Associação do Futebol Argentino (AFA) fora a proibição de torcida visitante nos jogos. A AFA foi presidida por Julio Grondona por 35 anos, até 2014 – o dirigente estava no cargo durante o período de produção do filme, portanto. O que se convencionou chamar no Brasil de torcida única é uma das medidas “fáceis” de serem tomadas quando o objetivo é fingir que se está fazendo algo, mas não se quer enfrentar o problema. Outra é a perda de pontos – advogada inclusive por alguns pesquisadores do esporte, às vezes sob o pseudo-argumento de que “algo precisa ser feito” -, defendida e aplicada pelos mesmos dirigentes (no Brasil, na Argentina, na Espanha) que são parte crucial e estrutural  do problema.

A polícia frequentemente aparece como parte do problema, e não da solução. Os entrevistados apontam a corrupção estrutural como a principal questão, mas há quem aborde as péssimas condições de trabalho dos policiais, os salários baixos e a conduta muitas vezes violenta de alguns policiais.

A falta de investigações e de responsabilização pelas mortes e crimes correlatos no futebol (e no esporte) grassam na Argentina. Neste ponto, me parece, nada muito diferente do Brasil. Afinal, por aqui, até o Ministério Público Federal (celebrado por muitos por conta da Lava-Jato e outras operações), recusa-se terminantemente a utilizar a cooperação internacional e os documentos recebidos de procuradores e autoridades de países como Suíça e Estados Unidos para investigar dirigentes esportivos e seus corruptores (executivos e proprietários de empresas de comunicação, especialmente canais de televisão, detentores de direitos de exclusividade das transmissões; donos de agências de publicidade e de intermediação de contratos e negócios esportivos, como placas de publicidade fixa nos estádios) – conforme amplamente descrito, documentado e argumentado nas obras jornalísticas abaixo.

(*) Texto originalmente publicado no BELA – Blog Estudos do Lazer.

Sugestões de leitura

BUFORD, Bill. Entre os vândalos: a multidão e a sedução da violência. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 [1991].

JENNINGS, Andrew. Jogo sujo: o mundo secreto da Fifa: compra de votos e escândalo de ingressos. São Paulo: Panda Books, 2011.

RIBEIRO JR., Amaury; CIPOLONI, Leandro; AZENHA, Luiz Carlos; CHASTINET, Tony. O lado sujo do futebol. São Paulo: Planeta, 2014.


A surf music dos anos 1960 e a exaltação da Califórnia (1)

05/04/2021

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Nas pesquisas sobre história da mídia esportiva que venho desenvolvendo utilizando revistas de surfe estrangeiras e brasileiras publicadas ao longo das décadas de 1970 e 1980, assim como em outras fontes com as quais tive contato, há recorrentes referências à expressão surf music.

No livro Surfing About Music, o antropólogo Timothy Cooley se refere a surf music no sentido que a expressão ganhou e mantém nos EUA: abrange músicas da primeira metade dos anos 1960, tanto de rock instrumental (a la Dick Dale & His Del-Tones, cuja música Misirlou ganhou renovada popularidade na década de 1990 com o filme Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino) como cantadas (a la The Beach Boys e Jan and Dean). Esse uso também aparece na obra de outros autores. E, por exemplo, compõe a seleção musical de um “canal” chamado Surf Sounds numa plataforma de música online gratuita que uso, Accuradio. Nos anos 1960, houve iniciativas no Brasil relativas a esta vertente, conforme discorreu Victor Melo aqui neste blogue sobre o caso de Carlos Imperial.

No Brasil, surf music pode se referir a mais do que isto. Lembro-me de ter gravado em fita cassete, na primeira metade dos anos 1990 – por volta de 1992 ou 1993 –, um “especial de surf music” que foi ao ar numa tarde ou noite de domingo numa ótima rádio que existia à época, a Universidade FM, nos 107,9 MHz. O programa era composto por músicas de bandas como Midnight Oil, Hoodoo Gurus, Australian Crawl e V Spy V Spy. Havia uma predominância de grupos australianos – os quatro que citei eram de lá. (Já escrevi sobre o hábito de gravar fitas K7 e sobre essa noção de surf music, rádio e segmentos da juventude). Devo ter ouvido aquela fita centenas de vezes ao longo dos anos.

Golden State, Golden Youth – The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Livro de Kirse Granat May publicado em 2002. Imagem da capa extraída do site da editora da obra.

De acordo com o argumento de Kirse Granat May (2002), entre 1955 e 1966 construiu-se na cultura popular dos EUA um imaginário potente e positivo sobre a Califórnia. O estado e seu modo de vida – ou melhor, a representação midiática estereotipada de um estilo de vida da juventude branca de classe média que vivia na faixa litorânea – tornaram-se referência para famílias em todo o país. A expansão da corporação Disney (incluindo a inauguração e o estrondoso sucesso do parque de diversões Disneylândia, em 1955, em Anaheim, no sul do estado), a ascensão do ex-ator hollywoodiano Ronald Reagan a liderança política importante (tomando posse como governador em 1967; posteriormente, foi eleito duas vezes presidente do país em 1980 e 1984) e a disseminação do surfe e de um estilo de vida associado a ele são três entre os muitos elementos deste processo abordados no livro (imagem da capa acima).

Até ler a obra de May, eu ignorava que um dos principais motivos para o sucesso da surf music foi o fato de ser feita na Califórnia, por artistas californianos (ou que para lá se mudaram) e tematizar o estado e seus habitantes. Apesar de conhecer as íntimas ligações da surf music com a Califórnia, não sabia que sua ascensão integrou de um contexto amplo em que muitos outros elementos associados àquele estado fizeram sucesso e tornaram-se moda nos EUA.

A maioria dos surfistas considerava tais representações na música e no cinema estereotipadas, erradas e irrepresentativas da cultura do surfe. Muitos ficaram enfurecidos com elas e, pior, com os efeitos sociais delas: levas e levas de novos turistas, banhistas e surfistas iniciantes que enchiam as praias californianas a cada verão e, em menor escala, nos períodos de recesso escolar, férias e feriados prolongados. Contudo, conforme acontece na maioria dos casos, quando observamos mais de perto o fenômeno, percebemos muitos tons de cinza, e não apenas preto e branco.

Tomemos, por exemplo, um filme como Quanto mais músculos, melhor (Muscle Beach Party, de 1964), parte da onda de filmes de festa na praia produzidos pela companhia cinematográfica AIP (American International Pictures) e malhados como Judas por boa parte dos surfistas e pelas próprias revistas de surfe. A película conta com participação, em várias cenas e sequências, de Dick Dale & His Del-Tones. Ou seja, aquele que ficou conhecido como “pai da surf music” e era venerado por muitos surfistas aparece num filme considerado pelos mesmos surfistas negativo e estereotipado. (Curiosidade: há também a participação de um jovem cantor chamado Stevie Little Wonder.)

Da mesma forma, um dos que atuam como dublês nas cenas de surfe de Quanto mais músculos, melhor é Mickey Dora, um dos surfistas mais famosos da Califórnia naquela década. Até aí, a princípio, nada demais. Ocorre que Dora era um crítico ferrenho da comercialização do surfe e nutria grande raiva pelo aumento do número de pessoas com pranchas na praia que considerava seu quintal, Malibu. Frequentemente lidava com o problema derrubando os surfistas de suas pranchas ou batendo neles. Esta contradição entre tais atitudes e o trabalho como figurante e/ou dublê em cenas de praia e surfe em filmes comerciais é apontada no verbete sobre Dora na Enclopédia do Surfe de Matt Warshaw.

[Continuação: A surf music dos anos 1960 e a exaltação da Califórnia (2)]

Para saber mais

COOLEY, Timothy J. Surfing About Music. Berkeley: University of California Press, 2014.

LADERMAN, Scott. Empire In Waves: A Political History of Surfing. Berkeley: University of California Press, 2014. (Especialmente o capítulo 2)

MAY, Kirse Granat. Golden State, Golden Youth: The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Chapel Hill, London: The University of North Carolina Press, 2002.


Um encontro entre futebol e surfe na Copa do Mundo de 2010 (África do Sul)

23/11/2020

Por Rafael Fortes

Este texto sintetiza uma parte das discussões presentes em trabalho apresentado no grupo de pesquisa Comunicação e Esporte e publicado nos anais do 42o. Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, organizado pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) em Belém (PA).

Afrika (2011) é um filme dirigido por Thomas Mulcaire e Ricardo de Oliveira e está disponível na íntegra no link abaixo:

O filme contou com patrocínio de empresas e fundos voltados para o fomento às artes.

Rodado ao longo de 2010 em Moçambique e na África do Sul, narra uma viagem de quatro surfistas brasileiros pelos dois países. O primeiro aparece rapidamente, sendo a maior parte do tempo dedicado ao último. Identifiquei onze cenas ou sequências com alguma referência ao futebol. A maioria delas é bastante fugaz: uma bola de futebol ao lado de uma prancha sobre a areia da praia ou um take mostrando uma roda de homens brincando  de altinha. Esta atividade, que consiste em duas ou mais pessoas trocarem passes com uma bola de futebol sem deixá-la tocar o chão, é bastante comum em praias do litoral brasileiro – no Rio de Janeiro e noutros estados -, inclusive naquelas muito frequentadas por surfistas. Cenas semelhantes – e de partidas de golzinho – aparecem esporadicamente em filmes brasileiros dedicados ao surfe, tendo, como participantes, os próprios surfistas do país.

Isto sugere algo que pode parecer óbvio, mas que considero válido mencionar: durante o processo de crescimento, enquanto ainda são crianças e adolescentes, a maioria daqueles que serão atletas futuros de uma modalidade (específica) se dedicam a várias delas, seja do ponto de vista do treinamento e competição, seja do ponto de vista da diversão. Tendo em vista a forte presença do futebol no Brasil, não é de surpreender que muitos surfistas tenham crescido batendo uma bolinha e sigam gostando de fazê-lo.

A principal distinção de Afrika em relação à filmografia de surfe, no que diz respeito à presença futebolística, encontra-se na sequência de aproximadamente três minutos em que os surfistas comparecem ao estádio Soccer City, em Joanesburgo, para assistir à partida entre Brasil e Costa do Marfim pela Copa do Mundo de futebol de homens realizada em 2010. O trecho evidencia a pouca familiaridade dos surfistas com o ambiente do estádio de futebol – no caso, particularmente impressionante por se tratar de uma partida de Copa do Mundo envolvendo a seleção brasileira. O barulho das torcidas – evidentes pelo volume do áudio do próprio filme – é um dos elementos que impressionam os protagonistas do filme.

A vitória da seleção brasileira pelo placar de três a um permitiu-lhes experimentar tanto a comemoração de gols, assistir em uma ocasião à celebração entre aqueles que torciam para a seleção marfinesa. Na mesma sequência, aparecem ainda comemorações, batucadas, gritos e cânticos em português, que prosseguem no pós-jogo pela parte externa do estádio e no interior de um ônibus.

Conforme afirmei no artigo:

As sequências no estádio e as comemorações pós-jogo reproduzem elementos do senso comum a respeito de megaeventos esportivos como a Copa do Mundo – por exemplo, a ideia de que são (exclusivamente) ocasião para congraçamento dos povos.[1] Tal visão se expressa também em um item dos “agradecimentos especiais” nos créditos finais: à “Fifa pela Copa do Mundo de 2010”.

Esporte e cinema vêm sendo estimulados por sucessivos governos da África do Sul pós-apartheid como instrumentos para divulgar uma imagem positiva do país no exterior e para incrementar o afluxo de turistas (Fortes, 2014). A realização das Copas do Mundo de rugby em 1995 e de futebol em 2010, bem como a candidatura da Cidade do Cabo para sediar os Jogos Olímpicos de verão de 2004, integram este conjunto de políticas – também observáveis noutros países dos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Este contexto é importante para se compreender a realização de um filme como Afrika e, também, a inserção particular dele na filmografia brasileira de surfe.

Referências bibliográficas

FORTES, Rafael. Entre o surfe feminino, a indústria de surfwear e a promoção da África do Sul: uma análise de A Onda dos Sonhos 2. In: FORTES, Rafael; MELO, Victor Andrade de (org.). Comunicação e esporte: reflexões a partir do cinema. Rio de Janeiro: 7 Letras/Faperj, 2014. p. 49-70.

FORTES, Rafael. O futebol num filme de surfe: Afrika, Copa do Mundo e a filmografia sobre esporte. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 42, 2019, Belém. Disponível em: https://portalintercom.org.br/anais/nacional2019/resumos/R14-0019-1.pdf . Acesso em 23 nov. 2020.

Notas

[1] Ignorando-se, por exemplo, os impactos sociais e coletivos sobre setores mais vulneráveis da população devido às políticas públicas de remoções forçadas, conforme discutido e denunciado no documentário Tin Town.


Rádio, música, cores berrantes e capas de fita: dois objetos e o surfe na primeira metade dos anos 1990

02/08/2020

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Meses após o falecimento de minha avó Dirce, em 2016, entre os muitos papéis que encontrei na casa dela estavam os abaixo, relativos a um rádio. O aparelho propriamente dito, não achei.

As especificações informam que o rádio funciona com 4 pilhas AA, “não incluídas”, e que a amplitude de frequência do AM vai de 530 a 1710KHz, ao passo que a do FM fica entre 88 e 108 MHz – um padrão internacional. As instruções explicam como sintonizar as estações, que as pilhas devem ser retiradas se o produto ficar fora de uso por duas semanas ou mais etc. O aparelho permite ouvir por um alto-falante ou por fones de ouvido a emissão das estações captadas.

Não há data de fabricação, mas considero provável que tenha sido em meados dos anos 1990. O país de produção foi a China, os papéis originalmente distribuídos com o equipamento que aqui aparecem escaneados foram impressos em Hong Kong e tenho quase certeza de que o aparelho foi adquirido nos Estados Unidos. O fabricante Gran Prix Electronics (daí a sigla GPX) dava garantia de 90 dias: “essa garantia lhe dá direitos legais específicos e você também pode ter outros direitos, os quais variam de estado para estado”, como frequentemente ocorre nos EUA. A GPX INC., empresa situada no estado de Missouri, fazia a distribuição.

Mas o que de fato me interessa é a parte superior da frente da embalagem onde, imagino, veio encartado o aparelho.

Chamo a atenção para dois pontos. Primeiro, a palavra “sports” (esportes) que dá título ao produto. A primeira e principal característica destacada é ser à prova de água e de areia. Os dois elementos remetem à praia, e a ideia de ser um equipamento adequado para uso durante a prática de atividades esportivas na faixa de areia ou no mar é explicitada pela imagem do lado direito: um windsurfista manejando vela e prancha enquanto usa o rádio.

Segundo, a utilização de cores berrantes (amarelo, verde, rosa, azul – as mesmas adotadas pelos fabricantes de post-its/blocos adesivos/stick notes) na composição gráfica, tanto no lado esquerdo quanto na prancha e bermuda do windsurfista. A mistura colorida e o uso de tons chamativos ou “ácidos” eram muito presentes nas revistas de surfe da época, tanto brasileiras quanto californianas. A moda ligada à praia e surfwear, também.

A composição gráfica recortada remete às noções de ação/movimento e a lista colorida de características do lado esquerdo se assemelha aos adesivos (ou “plásticos”, como muitos os chamavam no Rio de Janeiro), um produto muito popular à época entre adolescentes, com destaque para os aficionados da cultura de praia e/ou do surfe.

*  *  *

Um pouco antes, mas ainda na primeira metade dos anos 1990, eu comprava fiado periodicamente revistas de surfe – e outros produtos gráficos – na banca que ficava a cargo do Beto e do Magrão, na esquina das ruas Álvares de Azevedo e Tavares de Macedo, em Icaraí (Niterói). Numa edição de Fluir (publicada em São Paulo, 1983-2016; foi fonte e objeto de minha tese de doutorado, que cobriu o lançamento até 1988), vieram encartados como brinde folhas contendo capas de fitas cassete para recortar.

Comentários breves:

a) Usei totalmente o produto. Comprei a revista, recortei as “capas de fita”, como eram chamadas, escrevi os nomes das músicas, dobrei, troquei pela capa original que vinha com o logotipo do fabricante e encaixei no estojo de plástico. Colei na capa um adesivo com o número 12, o que indicava o número desta fita no acervo que ficava numa gaveta de uma mesinha de cabeceira do meu quarto. Como venho apontando em diferentes textos, era comum os leitores das revistas não apenas as folhearem, mas também recortarem fotos, logotipos, títulos de matérias e colá-los em diferentes superfícies (paredes do quarto, face interna ou mesmo externa da porta de armário guarda-roupa) ou objetos (cadernos, agendas). Além, é claro, de destacar o pôster que comumente vinha encartado nas páginas centrais.

b) O crédito da foto é de Sebastian Rojas, importante fotógrafo de surfe do período. A prancha usada pelo surfista não creditado na peça (possivelmente os créditos vieram no corpo da edição da revista que trouxe as capas de fita como brinde) tem cores nos tons em voga na época, conforme mencionei na primeira parte. Tais tons também figuram nos logotipos de Fluir que aparecem na capa (junto com a foto) e nas lombadas.

c) A marca da fita, TDK, era uma das principais disponíveis no Rio de Janeiro à época, assim como Sony e Basf.

d) O plástico do estojo original da fita está fosco/borrado, dificultando a leitura do que está escrito na capa. Por isso fotografei a capa dentro e fora dele nas imagens acima.

e) A fita é composta basicamente por músicas da banda de rock autraliana Midnight Oil. Ela fazia sucesso entre os interessados por surfe e/ou por rock no Brasil à época, particularmente os ouvintes da Rádio Fluminense FM, de Niterói (RJ), onde nasci e morava. A fita foi gravada por mim a partir de CDs do Midnight Oil emprestados de amigos. Há três músicas do Diesel and Dust (Beds Are Burning, Sometimes e The Dead Heart – essa última, uma das músicas de que mais gosto na vida, em especial nessa versão), do Blue Sky Mining (Blue Sky Mine, Forgotten Years e King of the Mountain) e do Earth and Sun and Moon (Truganini, My Country e Drums of Heaven). Completam o lado B Things Don’t Seem (Australian Crawl), Out That Door e Come Anytime (Hoodoo Gurus) e Orange Crush (R.E.M.). Explorei esta relação entre o que se chamava de “surf music”, formado principalmente por meia dúzia de grupos australianos, as emissoras de rádio e uma certa noção de cultura surf entre setores da juventude de classe média do Rio de Janeiro neste artigo.

*  *  *

Os objetos apontam para diferentes articulações entre produção industrial, exploração comercial do esporte, busca de associação de produtos e marcas ao universo do surfe, em voga e em moda na época, no Brasil e nos Estados Unidos, entre setores da juventude. Grupos empresariais de peso investiram para associar-se à modalidade, buscando ampliar o público consumidor entre as crianças, adolescentes e jovens. Uns investiam mais no esporte, outros menos. Exemplos notórios foram as marcas Juba&Lula e Alternativa (vendidas na Mesbla) e Suncoast (da C&A). Questões que foram tocadas de passagem em um ou outro escrito meu, mas que carecem de exploração e desenvolvimento. Fica a sugestão para os jovens pesquisadores.

Referências

FORTES, Rafael. O surfe brasileiro e as mídias sonora e audiovisual nos anos 1980. Logos, ed. 33, v. 17, n. 2, p. 90-105, 2o. sem. 2010. Disponível em:

<http://www.logos.uerj.br/PDFS/33/08_logos33_fortes_surfe.pdf>.

 


100 anos do futebol feminino no Rio Grande do Norte: histórias de pioneirismo e protagonismo esportivo

27/07/2020

Por Aira Bonfim (airafbonfim@gmail.com)

Enquanto alguns jornais e revistas do início do século passado buscavam associar a imagem de mulheres esportistas à atributos de delicadeza, beleza e frivolidades, acervos fotográficos da coleção do Instituto Tavares de Lyra (RN) e registros da revista carioca Vida Sportiva revelam imagens de garotas atléticas reais – e nem tão graciosas assim.

O olhar marrento, os corpos fardados e os braços cruzados são pistas visuais oferecidas por esses acervos que nos ajudam a pensar as formas de apropriação prática do futebol pelas brasileiras das primeiras décadas do século XX.

O exemplo aqui escolhido refere-se às fontes disponíveis sobre as equipes femininas de futebol do estado do Rio Grande do Norte e que circularam pela imprensa brasileira entre os anos de 1918 a 1920.

Em março de 1920 o semanário Vida Sportiva, responsável pela divulgação de notícias esportivas dos mais longínquos estados do Brasil, revelaria na sua capa a foto do ABC Football Club, time de futebol feminino da cidade de Natal, e, curiosamente associado a Liga de Desportos Terrestres na mesma época.

Futebol feminino de RN na capa da revista Vida Sportiva de março de 1920

Futebol feminino de RN na capa da revista Vida Sportiva de março de 1920

A foto da capa refere-se a um campeonato de futebol feminino realizado no sítio Senegal, residência do Coronel Joaquim Manoel Teixeira de Moura, o Quincas Moura. Tratava-se, de acordo com a mesma revista, de um prélio perdido de 12×0 pelo ABC F.C. (capa) contra o scratch feminino do Centro Sportivo Natalense, outra equipe pertencente à liga potiguar.

Tanto a raridade visual como a evidência histórica da partida de futebol são confirmações importantes que mulheres jogaram bola no Brasil, principalmente quando levamos em conta que na mesma época tal modalidade só crescia e se popularizava em todos os estados.

Jogadoras do ACB Football Club e Centro Sportivo Natalense em 1920

Nos últimos anos, tanto a mídia esportiva, como pesquisadores e instituições tem reiterado o episódio paulistano de 1921 entre as “senhoritas” dos bairros do Tremembé́ e da Cantareira, como um marco inaugural de moças jogando bola no Brasil. No entanto, apesar de existirem novas confirmações de episódios isolados entre meninas, antes e depois de 1921, o futebol feminino, como modalidade esportiva e competitiva, não se desenvolveu oficialmente como modalidade naquela época.

Diferente das experiências iniciadoras do futebol masculino no país, a exemplo de Charles Miller em São Paulo, e outros entusiastas do esporte bretão inglês como Thomas Donohue (Bangu Athletic Club) e Oscar Cox (Fluminense Football Club), às iniciações femininas nesse esporte aproximam-se mais das experiências atléticas vividas entre as crianças, presenciadas principalmente nas ruas, escolas, igrejas, clubes e nas periferias das festividades esportivas.

Meses antes da divulgação da capa feminina na Vida Sportiva, a revista afirmou que a cidade do Natal podia gabar-se de ter sido a primeira do Brasil a criar agremiações esportivas “de elementos exclusivamente femininos”[1]. O texto referia-se ao Centro Náutico Feminino de Natal e o Clube Náutico Jundiahy, da cidade de Macaíba, fundados sob a orientação do Centro Náutico Natalense. Todos, desde 1918, já ostentavam publicamente garotas disputando provas de remo.

Competidores da Yole Anta, do Centro Náutico Potengy, em 1918. Fonte: Vida Sportiva.

De acordo as notícias sobre a vida esportiva norte-rio-grandense, o ano de 1915 havia marcado o grande boom das práticas esportivas entre aquela comunidade do Nordeste. Os cronistas de Vida Sportiva narram que graças ao football e os esportes náuticos em pouco tempo se proliferaram os encontros atléticos entre a juventude de Natal.[2]

Com exceção do turfe, as elites de Natal e redondezas já se consideravam pessoas com acesso a uma variada gama de esportes em 1915. Houve inclusive investimento público do governo local, que apesar de modesto, foi citado na época como uma contribuição significativa para o desenvolvimento esportivo da região.

Imagem da equipe feminina de futebol de Natal publicada em maio de 1920.

Enquanto uma parte da juventude feminina experimentava as competições de regatas (os rowings), os textos da revista também revelam a experimentação feminina em outras variedades esportivas que, na “impossibilidade absoluta de praticarem o football, elas haviam inventado o hand-ball e praticavam o basketball”:

“O bello sexo natalense não quis ficar indifferente a esse louvável movimento patriótico da juventude masculina.

Adheriu à nobre causa, certo de que a educação physica é uma necessidade.

Empreendedora, intelligente, a mocidade feminina natalense, resolveu também entregar-se à prática de desportos (…)” [3]

A novidade o futebol feminino revelado pelo semanário Vida Sportiva, órgão oficial dos cronistas esportivos do Rio de Janeiro, já havia antecipado o tema na sua capa de um mês antes, em 21 de fevereiro de 1920, quando escolheu a ilustração de uma jogadora de futebol vestida com o uniforme do Botafogo Futebol Clube, do Rio de Janeiro.[4]

Se desconhece qualquer performance pública de mulheres jogando bola no clube do Botafogo nessa época, no entanto, o mesmo não se pode dizer de outros clubes cariocas como o Villa Isabel F.C.(1915), o Progresso F.C.(1919), o C.R. Flamengo (1919) e o River S.C.(1919), que já indicavam a exibição de equipes mistas ou de meninas contra meninos nas suas festividades esportivas e domingueiras.[5]

Após alguns meses da publicação das capas da revista Vida Sportiva com jogadoras de futebol, em meados de 1920, encontra-se também no Rio de Janeiro, evidências de mulheres jogando futebol no Helios (1920), C.R. Vasco da Gama (1923), S.C. Celeste (1923) e São Cristóvão A.C. (1929).

A investida das capas com mulheres esportistas, além de outra publicação sobre o team feminino potiguar divulgada em maio de 1920 [6] inserem-se num contexto de divulgação de crônicas que incentivaram a prática dos esportes entre as brasileiras pela revista Vida Sportiva.

Textos com títulos sugestivos como: ‘Porque não se incita o sexo frágil a praticar os sports?’(1918), “a mulher nos sports”, a “a saúde e a belleza da mulher pelo cultura physica”, “o dever physico da mulher moderna”, todas de 1920, exemplificam o tom da campanha empreendida por esse veículo de imprensa da época.

Vale destacar que o ano de 1920 também marcou a profusão de equipes de futebol feminino na Europa. Só na França, no mesmo ano, estima-se que em torno de 150 grupos jogaram bola.[7] Anos antes, também foi fundada La Fédération des Sociétés Feminines et Sportives de France, que entre tantas ações, destaca-se a parceria com as pioneiras do futebol, as desportistas inglesas.

A parceria europeia resultou no primeiro jogo internacional feminino entre Inglaterra e França, em Preston, com 25 mil espectadores em 1920. A partida feminina entre França e Inglaterra, em julho de 1920, ganhou uma página inteira da Vida Sportiva[1]. Esse episódio aconteceu no campo do Chelsea F.C. e a publicação trouxe imagens das capitãs Macgnemond e Kell, assim como uma defesa da goleira da equipe francesa (Fémina Sport) e uma cena da partida de futebol (com um árbitro homem!)

Jogadoras inglesas e francesas ocupam uma página inteira de Vida Sportiva em julho de 1920

De volta ao cenário brasileiro e ao estado do Rio Grande do Norte, endereço das primeiras imagens publicadas do futebol feminino no país, vale destacar algumas pequenas curiosidades sobre as agremiações esportivas potiguares. O Centro Sportivo Natalense foi fundado da associação entre o Flamengo Foot-ball Club com o Alecrim Foot-ball Club[9], ambos de Natal.

O sportman João Café Filho (1899-1970), nessa época, era o diretor de esportes do Alecrim F.C. O jovem potiguar era o goleiro da agremiação e anos mais tarde, o único potiguar a ocupar o cargo de presidente do Brasil, desde que assumiu a presidência entre 24 de agosto de 1954 e 8 de novembro de 1955, depois do suicídio de Getúlio Vargas.

Se já não fosse um episódio revelador, o historiador Dr. Anderson Tavares de Lyra, fundador do Instituto Norte-Rio-Grandense de Genealogia e do Instituto Tavares de Lyra (Macaíba- RN), apresenta na sua catalogação fotográfica informações que identificam a volante da equipe do Centro Sportivo Natalense como sendo Jandira Carvalho de Oliveira Café (1904-1989), futura esposa de João Fernandes Campos Café Filho e primeira dama do Brasil.

Além da constatação que uma primeira dama nordestina atuou nos primórdios do futebol de mulheres no Brasil, ainda há mais novidades entre o seleto grupo. A equipe feminina rival do ABC Football Club também conta com outra personagem de prestígio nacional: Celina Guimarães Viana (1890-1972). A jogadora do ABC F.C. (time da capa da Vida Sportiva), além de dona do acervo de fotos disponíveis hoje no Instituto Tavares de Lyra, se tornou professora e reconhecida como a primeira mulher a conquistar o direito ao voto no Brasil em 1927.[10]

Segundo o memorialista Anderson Tavares de Lyra, as fotografias da época apresentam dois espaços: o estádio Juvenal Lamartine e o sítio Senegal, ambos no bairro do Tirol e pertencentes ao Coronel da Guarda Nacional e Presidente da Intendência de Natal, Joaquim Manoel Teixeira de Moura, Quincas Moura.

O coronel, adepto das animações proporcionadas pelos encontros festivos e esportivos naquela região, tinha entre suas convidadas, sobrinhas, primas e filhas. O episódio das jogadoras de futebol do Rio Grande do Norte é excepcional e curioso em sua época, e ao mesmo tempo, na luz da contemporaneidade, 100 anos mais tarde, são histórias e protagonismos pouco conhecidos de mulheres, jogadoras, historiadores e instituições do esporte.

Em 2020, continuamos demandando esforços coletivos para constituir histórias mais plurais de um esporte que despertou paixões em todos os tipos de pessoas – e essa totalidade também inclui as mulheres.

O recado já estava dado pelo cronista da revista Vida Sportiva de 1918:

“quem está affeito a assistir as lutas de football, quantas vezes não terá adimirado do enthusiasmo com que varias torcedoras assistem o transcorrer da pugna?

Essas torcedoras, adeptas da cultura physica, não sentirão por vezes, ancias de se entremearem nas lutas?

Certamente que sim!

Animome-las! Incitemo-las, para que em breve possamos ver em cada recanto da nossa capital, um club em que a mulher possa cultivar os sports”.[11]

Notas

[1] Vida Sportiva, Rio de Janeiro, p. 11, 13 dez. 1919.

[2] Vida Sportiva, Rio de Janeiro, p. 3, 29 nov. 1919.

[3] Idem.

[4] O escudo da imagem sugere a composição de letras que o clube carioca usava antes da fusão com o Clube de Regatas Botafogo.

[5] BONFIM, Aira Fernandes. Football Feminino entre festas esportivas, circos e campos suburbanos: uma história social do futebol praticado por mulheres da introdução à proibição (1915-1941). 2019. 213 f. Dissertação (Mestrado em História) – CPDOC – Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro.

[6] Vida Sportiva, Rio de Janeiro, p. 18, 15 mai. 1920.

[7] Williams, 2003; Doble, 2017; William e Ress, 2015.

[8] Vida Sportiva, Rio de Janeiro, p. 19, 24 jul. 1920.

[9] Diário de Pernambuco, Recife, p. 2, 6 jul. 1918.

[10]http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/celina-guimara-es-de-primeira-eleitora-a-a-rbitra-de-futebol/451775. Acesso em junho de 2020.

[11] Vida Sportiva, Rio de Janeiro, p. 7, 8 jun. 1918.

Referências

BONFIM, Aira Fernandes. Football Feminino entre festas esportivas, circos e campos suburbanos: uma história social do futebol praticado por mulheres da introdução à proibição (1915–1941). 2019, Dissertação — Mestrado em História, Política e Bens Culturais, Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), Rio de janeiro, 2019.

DOBLE, Anna. The Secrety History of woman’s football. In: Newsbeat. 19/07/2017. http://www.bbc.co.uk/newsbeat/article/40654436/the-secret-history-of-womens-football. Acesso em 23/01/2019.

WILLIAMS, Jean; HESS, Rob. “Women, Football and History: International Perspectives.” The International Journal of the History of Sport. Vol. 32, Iss. 18, 2015.


Em defesa de arquibancadas mais plurais: rememorando a Coligay

17/02/2020

Luiza Aguiar dos Anjos (IFMG – Campus Formiga)

No dia 27 de março de 1977, o Grêmio fez sua estreia na 57ª edição do Campeonato Gaúcho de Futebol. O clube iniciava sua caminhada no torneio com a esperança de acabar com um longo período sem títulos, assim como interromper a série de conquistas estaduais do rival Internacional, que vinha de uma sequência de oito taças consecutivas, sagrando-se campeão anualmente desde 1969. Para agravar o incômodo gremista com o sucesso do principal adversário, a equipe colorada não se impunha apenas em seara local, tendo sido bicampeã nacional ao conquistar a Copa Brasil de 1975 e de 1976.

Ao longo da competição, os dois maiores times do estado fizeram o que se esperava deles: superaram os demais e decidiriam entre si quem seria o campeão estadual daquele ano.

O jogo derradeiro foi disputado no Estádio Olímpico. Em casa, em frente à sua torcida, era que o Grêmio buscaria encerrar aquele infeliz jejum de títulos.

O teor dramático da partida começou quando, aos 22 minutos de jogo, foi marcado um pênalti a favor do Grêmio. O atacante Tarciso, batedor oficial do time e com boa média de acertos, mandou uma bomba à esquerda do goleiro colorado, mantendo o empate sem gols. Mas não tardou para o placar ser inaugurado. Em um embate de ânimos cada vez mais exaltados, aos 42 minutos, ainda no primeiro tempo de jogo, o atacante André Catimba fez a festa dxs[1] gremistas. O momento tornou-se ainda mais memorável com a comemoração. O jogador tentou um salto mortal, mas interrompeu o movimento no meio do caminho, ao sentir uma distensão muscular, caindo de forma completamente desajeitada. Com a aproximação do fim da partida, a torcida tricolor não conteve a comemoração, pulando das arquibancadas e ocupando o campo. Trinta minutos passados da invasão, sem condições de retomar o jogo, o árbitro declarou seu encerramento. Após oito anos, o Grêmio voltava a levantar a taça de campeão estadual.

Em meio ao furor dessa conquista, na edição do dia seguinte à partida, o jornal Zero Hora – periódico mais popular do Rio Grande do Sul – reservou uma página inteira para tratar da história da constituição de uma nova torcida gremista que, desde o início do Campeonato Gaúcho, chamava a atenção dxs frequentadorxs do Estádio Olímpico: a Coligay.

Recorte da reportagem da Zero Hora sobre a Coligay (26/09/1977)

Como o nome indica, essa torcida era formada predominantemente por homens homossexuais, o que já parece ser motivo de surpresa e curiosidade no contexto futebolístico brasileiro, no qual a heterossexualidade, mais do que tomada como norma, é enfatizada como valor. Contudo, tal agrupamento fez-se notório não (apenas) porque explicitava a homossexualidade de seus integrantes em sua retórica, mas, sobretudo, porque fazia de tal identidade sexual o norteador de sua performance estética nas arquibancadas: trajavam longas batas com as cores do Grêmio, cada uma delas com uma letra na frente que formava o nome do clube, complementadas por “rebolados frenéticos e gritinhos um tanto histéricos” (TORCIDA…, 1977, p.42).

Coligay fazendo sua festa no estádio Olímpico

A Coligay surgiu da iniciativa do empresário gremista Volmar Santos. Ele teve a ideia, liderou a mobilização e realizou as articulações financeiras e logísticas necessárias para efetivar sua formação. Volmar era proprietário da boate gay Coliseu e foram seus frequentadores quem ele convidou para fundar a torcida. A boate acabou servindo como sede. Xs componentes iam ao Coliseu no sábado, viravam a madrugada, e, na manhã seguinte, ali mesmo, pegavam seus apetrechos ali armazenados, se organizavam e seguiam para o estádio em que o Grêmio fosse jogar.

Num primeiro momento, o gremismo da torcida foi questionado, mas sua animação e assiduidade fizeram com que conquistassem o reconhecimento dx torcedorxs, jogadores e dirigentes. Prova disso é que a Coligay se manteve em atividade nos estádios até os primeiros anos da década de 1980.

Existindo durante os violentos tempos de ditadura militar, se esquivaram da repressão governamental ao não se envolver com a militância política e por possuir entre seus integrantes ou apoiadores “gente importante”, segundo o líder Volmar (FONSECA, 1977). Também não buscaram compor uma militância homossexual mais ampla ou organizada – o que também poderia fazer deles alvos do policiamento. Baseavam sua atuação na festa. O que não é pouco.

É inegável que o estádio de futebol privilegia um tipo bastante específico de masculinidade, associada, sobretudo, à virilidade e à agressividade, traços também enfatizados na cultura gaúcha. A reafirmação desses valores perpassa com frequência pela definição e representação dos homossexuais como a antítese desse modelo de masculinidade, o que os legitimou como alvos históricos da violência verbal e, por vezes, física de torcedorxs de futebol. A Coligay acaba por desarticular a expectativa de desencaixe e inadequação de homens homossexuais ao espaço futebolístico, sem que ela tenha se mostrado uma torcida “igual às outras”. Ela compactuou com códigos do futebol, se dispondo ao confronto físico e verbal, empunhando bandeiras e apoiando intensamente a sua equipe. Por outro lado, impôs seus requebros, suas vestimentas espalhafatosas, seu linguajar debochado e provocativo.

Nos últimos anos, a participação de sujeitos LGBT+s nos esportes, e mais especificamente no futebol, tem se tornado um tópico de análise e discussão. Torcidas, jogadorxs, clubes e federações, que durante décadas ignoraram a existência de tais sujeitos – e mesmo contribuíram com sua invisibilidade – têm sido convocados a responder e agir sobre alguns dos processos que xs mantém à margem, com destaque para as manifestações homofóbicas, mas não apenas. A mídia tem contribuído com isso ao tratar esses temas de forma mais frequente e crítica.

Nesse processo, a Coligay tem sido relembrada, após algumas décadas de esquecimento (ou ocultação). Sem supor uma idealização dessa torcida, acredito que ela nos ajuda a perceber que outras experiências de torcer, mais plurais, são possíveis.

 

Referências

FONSECA, Divino. Para o que der e vier. Placar, n.370, p.48-50, 27 mai. 1977.

TORCIDA: Coligay: história e pedágio da vitória. Zero Hora, Porto Alegre, p.42, 26 set. 1977.

 

Para saber mais:

Esse texto foi elaborado a partir da minha Tese de Doutorado, abaixo identificada. Nesse ano, publicarei um livro baseado nessa pesquisa, com acréscimos e adaptações. A obra, lançada pela Editora Dolores, será intitulada “Plumas, arquibancadas e paetês: uma história da Coligay”.

ANJOS, Luiza Aguiar dos. De “São bichas, mas são nossas” à “Diversidade da alegria”: uma história da torcida Coligay. 2018. 388f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) – Faculdade de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018.

[1] Utilizo o “x” com o intuito de adotar uma linguagem não-binária. A escolha visa descaracterizar a ideia de que as palavras são masculinas ou femininas, assim como a utilização do masculino como referência. Ao usar o “x” busco contemplar igualmente homens, mulheres e aqueles e aquelas que fogem da norma binária. Especificamente nos momentos em que for tratar de agrupamentos que possuem exclusivamente pessoas identificadas como homens mantenho o uso do masculino.