Bra Boys

01/06/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

No Cineclube Sport de maio, vimos Bra Boys, dirigido por Sunny Aberton e Macario de Souza e lançado em 2007. O que segue abaixo é um conjunto de anotações de minha lavra, em parte estimuladas pelo filme, em parte pelo debate que se seguiu. Agradeço a todos(as) que participaram pelas estimulantes contribuições e questões.

O tema é um grupo de surfistas conhecidos como Bra Boys, residentes do bairro e locais da praia de Maroubra, em Sydney (Austrália).

Do ponto de vista estético, trata-se inegavelmente de um filme de surfe. Feito por e para surfistas, com cenas de surfe. Reifica determinadas visões sobre o esporte (quase todas positivas, muitas idealizadas), que permeiam um certo senso comum da modalidade. Por exemplo, a ideia de que o mar e o surfe fornecem um escape da sociedade. Em parte, evidentemente, isto é verdade. Mas é retratada como se o surfista, antes, durante e depois de surfar, não falasse ou convivesse com outros surfistas.

Do ponto de vista da circulação, me parece que não foi exibido em circuito no Brasil e na maioria dos países (exceto a Austrália e partes dos EUA), tendo circulado em festivais de documentários e festivais de filmes de surfe (obtendo prêmios em alguns destes).

Classe social e enquadramentos midiáticos

Bra Boys permite discutir a questão de classe social, bem como uma frase que escuto com frequência em âmbito acadêmico: “surfe é esporte de elite”. Na mesma linha, é um bom filme para debater estas perguntas: o que é o surfe? Há possibilidades de respostas universais para esta pergunta? Acredito que não. É preciso investigar as realidades locais. Buscar respostas locais para perguntas universais, como disse Giovanni Levi em texto que li recentemente (agradeço ao também escriba deste blogue, Victor Melo, pela indicação). Em outras palavras, à pergunta geral o que é o surfe?, é possível elaborar outras, específicas, para as quais Bra Boys dá algumas respostas e subsídios: o que é o surfe na Austrália? O que é o surfe para os australianos? O que é o surfe para aqueles garotos de Maroubra? O que é o surfe para os que ficam impedidos de surfar (por servirem nas forças armadas e terem sido transferidos para lugares sem onda; por estarem na prisão ou longe do litoral)?

(Pequena digressão: uma das coisas que mais me impressionaram e impactaram quando pesquisei revistas de surfe californianas publicadas entre os anos 1970 e 1990 foram as cartas de leitores enviadas desde a prisão. Fiquei impressionado por dois motivos: o teor das cartas; e também por, depois de um tempo, perceber que algumas prisões da Califórnia contavam com bibliotecas, que, por sua vez, tinham assinaturas de revistas de surfe – uma das leituras que mais atraíam jovens presos, muitos dos quais por crimes relacionados a drogas.)

Outro assunto a discutir é o enquadramento realizado pela mídia, que tende a tratar como banditismo as atividades desenvolvidas por grupos juvenis de camadas populares. Caminhando na direção oposta, o filme é uma construção realizada pelos próprios jovens: direção, produção, edição etc., exceto a narração, feita pelo ator Russel Crowe. Um dos motivos para fazê-lo, como afirmam logo no início, é estarem cansados de apanhar, sofrer abusos, ser tratados como bandidos ou invisíveis pela mídia, pelo governo e pela polícia (o tratamento da polícia para com esses jovens, guardadas as devidas proporções, parece muito mais civilizado do que o padrão vigente nas quebradas do Rio de Janeiro – o padrão do que é aceitável, é claro, pode mudar bastante de uma sociedade para outra). A cor da pele da maioria também é diferente daquela hegemônica entre os pobres do Rio, mas são, de fatos, jovens de uma área degradada. O alto número de mortos (sempre um indício de problemas) é um dado importante.

 

Território e localismo

Um dos principais assuntos/questões que o filme permite discutir é o vínculo com o território e o localismo. O localismo, em suas diferentes manifestações, é um fenômeno presente em praias de vários países, ainda que pouco apareça nas representações midiáticas do esporte. Pelo que observei até hoje, a postura mais comum é silenciar sobre o tema. E, na maioria das ocasiões em que é tratado, isto se dá sob a forma de crítica: o localismo é classificado como um comportamento atrasado, violento e de ignorantes. Contudo, algum grau de relativismo, contextualização e até glamourização pode ocorrer (às vezes combinado com criminalização e acusações) quando se trata do North Shore da ilha de Oahu, no Havaí. (Para uma interessante – embora a meu ver exageradamente engajada e maniqueísta – análise e crítica da criminalização promovida pela mídia hegemônica a respeito dos locais e do localimo no North Shore, ver o último capítulo de Walker, 2011).

Por outro lado, o bairro é pouquíssimo explorado na trama. Fiquei curioso para saber e entender mais, já que argumenta-se que o vínculo com ele é um dos aspectos que definem o caráter, a identidade e os valores desses jovens (como, por exemplo, a alegada rejeição do racismo e da xenofobia). Bra Boys argumenta que o localismo não necessariamente significa recusa e intolerância com relação ao outro. Quando se trata de uma comunidade “multicultural” como Maroubra, não é a etnia, religião ou país de origem que decidirá quem cabe no grupo: todos podem fazer parte do que é o nós.

Gênero e masculinidades

A partir tanto do comportamento dos personagens e do fato de serem praticamente todos masculinos, quanto da quase ausência de personagens femininas, é possível discutir questões relativas a gênero e masculinidade. Há ainda, o contraponto da avó Ma (possivelmente uma corruptela de “avó”, em inglês). É impressionante a força desta mulher, cuja casa é uma espécie de abrigo seguro (safe heaven, se diria em inglês) para crianças e adolescentes de famílias destrambelhadas e destruídas pela pobreza, desemprego, violência e drogas. Isso inclui os próprios netos de Ma, o trio de irmãos que protagoniza o filme (um deles co-diretor da obra).

Um tema que aparece rapidamente no filme são as diferentes medidas restritivas impostas pelo poder público aos banhistas australianos ao longo do século XX. Segundo Douglas Booth (2001), em seu fascinante livro sobre as culturas de praia australianas, houve momentos em que cercas de arame farpado dividiam as praias, de forma a separar homens de mulheres.

Por sinal, as restrições, perseguições e criminalização do surfe e dos surfistas são um dos muitos assuntos por investigar na história desta prática no país. Em alguns dos poucos trabalhos sobre a modalidade (Cunha, 2000; Fortes, 2011), há indícios de uma série de problemas, controvérsias e até notícias de mortes em vários municípios do litoral catarinense, Arraial do Cabo (RJ) e Recife (PE). Há tanto repressão e conflitos com o Estado quanto com determinados grupos ou setores da sociedade, como pescadores e banhistas. Também no caso da história do skate no Brasil, este é um caminho tão promissor quanto pouco explorado, exceto, até onde sei, por iniciativas pontuais do pesquisador Leonardo Brandão (como este e este artigos).

Bibliografia

BOOTH, Douglas. Australian Beach Cultures: The History of Sun, Sand and Surf. London: Frank Cass, 2001.

CUNHA, Delgado Goulart da. Pescadores e surfistas: uma disputa pelo uso do espaço da Praia Grande. 2000. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2000.

FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2011.

WALKER, Isaiah Helekunihi. Waves of Resistance: Surfing and History in Twentieth-Century Hawai’i. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2011.

 

 

 

 

 

 

 

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Mais sobre a cultura do surfe no Sul da Califórnia

29/05/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Esta postagem completa uma trilogia iniciada por “Pesquisando história do surfe no Sul da Califórnia” e “Os museus de surfe da Califórnia“. Diferentemente do que geralmente faço, foco é mais em imagens que no texto. Todas as fotos são de minha autoria.

*  *  *

A lista de surf shops, marcas, empresas, shapers e oficinas de produção de materiais e equipamentos originários do Sul da Califórnia é enorme. Cito algumas: Clark Foam, Dewey Weber, Gordon & Smith, Hobie, Infinity Surfboards, Mark Diffenderfer, Pat Curren, Rusty, Ventura Surf Shop, (há listas extensas na internet, como esta).

Em entrevista [em inglês] ao projeto Sport in the Cold War (Esporte na Guerra Fria), o historiador Mark Dyreson afirma que os Jogos Olímpicos foram arenas para a divulgação de produtos, hábitos, práticas, modalidades esportivas e valores associados à Califórnia: camisas “havaianas”, calças jeans, filmes de Hollywood, praia, natação, vôlei de praia, mountain bike. Isto se deu em diferentes momentos do século XX, em especial nos anos 1930 e nos anos 1980, quando Los Angeles sediou as Olimpíadas de verão, em 1932 e 1984. Na mesma cidade encontram-se os estúdios hollywoodianos, cujos filmes cumpriram uma dupla função: produtos de exportação, também funcionaram como instrumentos de propaganda de uma série de elementos do que se convencionou chamar de culturas californianas, tanto para consumo interno (para públicos dentro do país e tropas espalhadas pelo planeta) quanto em escala mundial.

Esta postagem está organizada por cidade/localidade, começando pelo Condado de San Diego.

San Diego

Entre os diversos centros culturais, museus e galerias do Balboa Park está o San Diego Hall of Champions. Um dos atrativos é um Hall da Fama homenageando atletas nascidos na cidade e/ou no condado. O skatista Tony Hawk, de Carlsbad (no norte do condado), é um dos homenageados no Hall da Fama.

San Diego é uma das capitais da cerveja e das cervejarias artesanais nos EUA. Algumas têm referências a praia (e se localizam próximas à praia) e/ou ao surfe, como Rip Current. De uma lista de cinco cervejas temáticas de surfe disponível no site da revista Surfer, duas são de cervejarias localizadas no Condado de San Diego (em San Diego e San Marcos). E outra da Surf Brewery de Ventura, outra importante cidade de surfe californiana.

Ao sul de San Diego encontra-se Imperial Beach, a última cidade e uma das últimas praias da Costa Oeste do país. Como de costume, o píer favorece a formação de boas ondas dos dois lados. Além de humanos, Imperial Beach também recebe surfistas caninos, que contam com um apoio de seus donos para dropar nas ondas. Até campeonato de surfe de cachorros eu tive oportunidade de assistir (uma boa onda está em 3’14”). Note-se que a gravação foi disponibilizada num site chamado Dog Sports News, algo como Notícias de Esportes Caninos. Havia um conjunto de barraquinhas com produtos especializados, venda de petiscos e cervejas, brinquedos e brincadeiras para crianças etc. O campeonato contava com palanque, sistema de som, chamada de competidores e distribuição de camisetas antes do início de cada bateria etc.

Ao norte do condado, Oceanside, sede do California Surf Museum, é outra cidade que respira surfe. Tal como Imperial Beach, tem seu píer.

Huntington Beach

Esta pequena cidade considera a si mesma a capital do surfe competitivo na Califórnia. Motivos não faltam, como se pode ver nas fotos e legendas acima. Campeonatos, história, passado, campeões, ídolos, comércio, turismo e outros elementos formam uma notória e especial relação entre surfe, território, cultura e economia. Os lados do píer são um importante pico de surfe, assim como da prática de vôlei de praia – a Califórnia é o principal celeiro de jogadores(as) de vôlei de praia dos EUA. Atravessando a rua a partir do píer, chega-se à Calçada da Fama do Surfe, inaugurada em 1978 (mais informações nas legendas das fotos). Nela há uma estátua de Duke Kahanamoku.

Cerca de Los Angeles: DE Santa Monica a Venice

Embora haja um predomínio do surfe no litoral, o skate também é muito praticado. Em cidades como Santa Monica e Venice, a quantidade de cartazes e placas proibindo o skate é um indicativo de sua relevância e ubiquidade.

Santa Cruz

Santa Cruz é outra surf city importante. Localizada bem mais ao norte, é também conhecida pelas águas geladas. Na colina da qual se desce para pegar onda em Steamer Lane encontra-se a placa acima – o tipo de artefato cultural que enche os olhos de um pesquisador de humanidades. Nele lê-se o seguinte (tradução minha):

– O primeiro surfista na onda [ou seja, a ficar de pé sobre a prancha] tem a preferência

– Reme dando a volta na onda, não pelo meio dela

– Controle sua prancha

– Ajude os outros surfistas

Por Sam Reid

O estabelecimento de regras – e os métodos e iniciativas para tentar garantir que sejam cumpridas e obedecidas – são uma característica importante do surfe, ainda que objeto de muita controvérsia. Na visão de muitos de seus praticantes, devido ao número limitado de ondas (sobretudo de ondas boas e de fácil acesso), é preciso estabelecer critérios de preferência e convivência de forma a reduzir a ocorrência de conflitos.

San Clemente

Abaixo estão outras fotos do Surfing Heritage and Culture Center:

*  *  *

Este texto já estava pronto quando soube da notícia da morte de John Severson, aos 83 anos.”Nascido e criado em Pasadena e San Clemente” [ambas na Califórnia], em 1960  Severson publicou um impresso para divulgar um filme que produzira. Chamava-se The Surfer, depois virou Surfer. Transformou para sempre esta notável atividade sobre a qual escrevo desde 2004, além de ter inspirado praticamente todos os periódicos congêneres de surfe do mundo. Severson vendeu a revista na primeira metade dos anos 1970, mas sempre se manteve próximo ao surfe, inclusive em sua produção artística. Surfline, Liga Mundial de Surfe e a Surfer publicaram belos necrológios. Outros virão.


Os museus de surfe da Califórnia

06/02/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Como prometi, hoje trato dos cinco museus de surfe localizados na Califórnia. Neste texto, estou usando a categoria nativa, ou seja, considero museus de surfe as cinco instituições que se classificam como tais. Eles se estendem desde Oceanside, no sul do estado, até Santa Cruz. Seguirei este trajeto sul-norte na ordem de apresentação. Todas as fotos sem crédito de autor foram feitas por mim. Informações específicas sobre itens dos acervos estão nas legendas das fotos.

California Surf Museum (CSM, Oceanside)

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Foi o museu em que estive mais vezes. Fica perto da estação de trem e do píer onde surfam e treinam locais e/ou profissionais – o píer aparece constamentemente em séries do canal Off.

Tem uma excelente coleção de revistas, que ficam numa sala confortável e exclusiva para pesquisadores. A pesquisa neste museu fez parte de uma experiência maior, daquelas que não têm preço nessa vida: durante o ano em que vivi na Califórnia, fui respeitado como pesquisador de história do surfe e da mídia do surfe de uma forma como raramente aconteceu noutros lugares – incluindo o Rio de Janeiro e o Brasil – em mais de dez anos dedicados ao tema.

Comandada pela historiadora Jane Schmauss, a equipe é prestativa e simpática – quando solicitadas por mim, as pessoas sorriam e se interessavam pelo meu trabalho, em vez de rosnarem, como acontece noutros lugares e cidades por aí. Conta com voluntários e trabalhadores assalariados. Segundo me explicou Jane, o museu recebe cerca de 25 mil visitantes anuais. O imóvel onde está há alguns anos pertence à Prefeitura de Oceanside – cuja sede fica próxima -, que o alugado a preço subsidiado. Ali pertinho também está a biblioteca municipal (a visita à biblioteca da cidade é um programa bacana, assim como em várias cidades e bairros californianos).

O forte do acervo, como em três outros museus, são as pranchas. Entre doações, empréstimos, exposição permanente e temporária, é possível ter contato com boa parte da produção de pranchas do sul da Califórnia desde os anos 1950. Há também exemplares mais antigos: paipos havaianos, pranchas para salvamento no mar etc. Mas o foco está nos shapers da própria região – vários dos quais são sócios contribuintes do próprio museu e doaram e/ou emprestaram pranchas de sua lavra. Algumas estão autografadas pelos shapers, outras, pelos que as surfaram. Há doações de Kelly Slater e de outros atletas famosos do esporte profissional e/ou das ondas grandes (nas ocasiões em que estive lá, a exposição temporária era sobre surfe em ondas grandes; preparava-se uma exposição sobre surfe durante a Guerra entre os EUA e o Vietnã). Há também seções dedicadas a outros aspectos, como bodyboard e surfe de peito. Tem uma vitrine muito interessante com jogos e brinquedos que têm o surfe como tema – de Barbie a Banco Imobiliário – e outra com dezenas de parafinas.

Sou suspeito para falar, pois nesse museu fiz parte de minha pesquisa de pós-doutorado. Além disso, tive uma experiência bacana como usuário (e não como pesquisador) em todas as ocasiões em que estive lá. Isso porque está em exibição a prancha de Bethany Hamilton – de quem eu nunca ouvira falar até recentemente. Trata-se de uma havaiana, de uma família de surfistas, que teve um braço arrancado por um tubarão enquanto pegava onda com uma amiga, aos 12 anos de idade. A história está contada em dois filmes (um documentário e um de ficção) e um livro. Bethany tornou-se ícone dos e das adolescentes e tem sua própria linha de produtos de beleza. Além disso, o que mais me impressionou: continuou surfando. E bem: embora não corra o circuito mundial, volta e meia participa de um etapa como convidada. Em 2016, chegou à semifinal da de Fiji – é bom lembrar, Bethany surfa com a desvantagem de não ter um braço para remar, se equilibrar e, dependendo do lado para o qual a onda quebra, adequar a velocidade colocando a mão na parede da onda e/ou segurando a borda da prancha.

Enfim, a experiência definitiva de visitante é ficar sentado num pufe, perto da prancha de Bethany, e esperar para ver alguma criança se aproximar (a Califórnia é cheia de crianças, tanto locais quanto turistas). A cara de surpresa que as crianças fazem é indescritível. Cobrem a boca com a mão, mordem os dedos, andam para trás, correm para chamar a atenção de alguém. Ao que parece, todas conhecem a história de Bethany (e por isso a reação). Fica a dica: se você, leitor(a) um dia for ao CSM, e a prancha de Bethany ainda estiver lá, fique uns minutos na área central, como quem não quer nada, até que chegue uma criança ou grupo de crianças à parte dedicada à surfista. A reação delas valerá a visita.

Surfing Heritage and Culture Center (SHACC, San Clemente)

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Para quem vem do sul, San Clemente é a primeira cidade litorânea do Condado de Orange (vulgo OC). Nesta importante cidade de surfe está o SHACC. A entrada para a exposição, que consiste basicamente de pranchas (ver informações no álbum de fotos), custa US$ 5. Para fazer pesquisa no acervo, que conta com revistas, livros e outros documentos, como cartas, é preciso ser membro da associação, o que custa US$ 50 por ano. A reprodução de materiais (uso de scanner etc.) é paga à parte.

Assim como o congênere de Oceanside, o museu é obra do esforço de um conjunto de surfistas, boa parte deles sócios que doam tempo e/ou dinheiro para a manutenção e desenvolvimento do local. Servem também como espaço para a realização de lançamentos de livros e filmes, homenagens, leilões (nos quais se leiloam pranchas e outros objetos para arrecadar recursos para o próprio museu), jantares de homenagem e/ou de arrecadação de fundos para as próprias entidades e para outros fins. Quando estive lá, fui atendido de forma muito simpática por Barry Haun, que, de bermuda e chinelo, me deu informações, forneceu contatos que poderiam ser úteis à minha pesquisa e, enquanto eu fazia a visita, fez a gentileza de telefonar para uma das pessoas para avisar que eu entraria em contato.

International Surfing Museum (Huntington Beach)

Este é o museu em que fui recebido com menos simpatia. Talvez as condições fossem desfavoráveis: era um domingo, ali pela hora do almoço, e havia dezenas de torcedores ruidosos do San Francisco 49ers tocando o terror assistindo ao jogo num pub em frente. (Tocando o terror nos padrões dos EUA, evidentemente; brincadeira de criança, quando se compara com as torcidas de futebol no Brasil.) O que me pareceu mais interessante do acervo foram itens específicos do surfe na própria cidade, sede de importantes campeonatos ao longo de décadas.

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Santa Cruz Surf Museum (Santa Cruz)

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O Santa Cruz Surf Museum é tão pequeno que não daria para o acervo focar em pranchas – elas não caberiam no local. Contudo, tem seus atrativos. O primeiro deles é ficar dentro de um farol. Segundo, fica num lugar belíssimo, à beira-mar, em cima da ponta onde, logo abaixo, está Steamer Lane, uma das ondas mais famosas da Califórnia. Ou seja, a visita ao museu pode ser combinada com uma sessão nas gélidas águas locais – ou, em casos como o meu, com a assistência. O mesmo estacionamento é usado pelos visitantes do museu e pelos surfistas. Terceiro, tem entrada gratuita. Quarto, o acervo tem algumas fotos interessantes, assim como informações sobre aspectos do surfe local, como… ataques de tubarão.

Além de importante cidade de surfe californiana, conhecida pelas boas ondas e pelo mar frio, Santa Cruz é o lugar de origem de um dos principais fabricantes de roupas térmicas para surfe do mundo: O’Neill.

Santa Barbara Surf Museum (Santa Barbara)

Deste, não sei por que, não consegui encontrar as fotos. Assim como o de Santa Cruz, o forte são as pranchas. Há também muitas capas de discos e cartazes de filmes. De todos, foi o que me pareceu mais amador: na verdade, parece uma iniciativa pessoal de um apaixonado pelo surfe. O inacreditável: no domingo em que estive lá, não vi ninguém no museu. Isso mesmo: desde o momento que cheguei até a hora em que saí, não havia absolutamente ninguém lá dentro. O museu não cobra entrada, e é possível levar um adesivo deixando numa caixinha, em troca, uma doação de US$ 1. A casa onde funciona é meio difícil de achar, pois fica numa daquelas ruas meio estranhas: termina do nada numa linha de trem e recomeça do outro lado, só que você olha e não sabe por onde atravessar (pois há grades e muros). E uma vantagem, sem dúvida, é ficar na linda Santa Barbara.


Kapuscinski e “A Guerra do Futebol”

27/10/2016

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

soccer-warConheci o trabalho do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski uns anos atrás lendo O imperador, livro que me foi indicado por um amigo de faculdade de jornalismo (obrigado, Baiano!). A narrativa trata das vivências do repórter em meio à corte do imperador Selassiê, da Etiópia. O conteúdo parece de ficção, mas não é. Contudo, não acreditei, como não o fiz ao ler a obra objeto deste texto, que tudo que ele narrava era verdade absoluta – na verdade, isto pouco importa, ao menos para mim, quando se trata de fruir a narrativa deste autor.

Anos depois, esbarrei com The Soccer War (existe tradução publicada no Brasil: A Guerra do Futebol) na estante de livros usados à venda na biblioteca pública do bairro em que morava em San Diego. Custou o inacreditável preço de um dólar e furou a fila: comecei a ler. Não sabia do que se tratava, apenas de três coisas: que era um livro de Kapuscinski; que provavelmente seria bom; e que, com esse  título, abordaria o futebol.

The Soccer War é uma coletânea de histórias relativas a viagens do jornalista a trabalho, como correspondente da Agência de Imprensa Polonesa, entre as décadas de 1950 e 1970, na África, na Ásia e na América Latina. São relatos encharcados de suor, tiros, humanidade e desumanidade. Tem guerra entre palestinos e israelenses no Monte Hérmon e  atrocidades de parte a parte entre gregos e turcos no Chipre; há uma bela descrição dos povos nômades somalianos e etíopes, entre muitos outros relatos sobre áreas do globo em geral ignoradas pelo mercado mundial de notícias.

A guerra do futebol (capítulo)

O título da obra é retirado de um dos textos, que aborda um confronto armado entre El Salvador e Honduras que “durou cem horas. Suas vítimas: 6.000 mortos, mais de 12.000 feridos. Cinquenta mil pessoas perderam suas casas e terras. Muitas vilas foram destruídas” (p. 182; este e os demais trechos foram traduzidos por mim). Segundo o autor, o confronto teve como estopim as partidas entre as seleções dos países pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1970 (tema já brevemente comentado neste blogue).

“A primeira partida foi realizada no domingo, 8 de junho de 1969, na capital hondurenha, Tegucigalpa.

Ninguém ao redor do mundo prestou qualquer atenção.

A equipe salvadorenha chegou em Tegucigalpa no sábado e passou a noite sem dormir (…). O time não podia dormir porque foi alvo de guerra psicológica travada pelos torcedores hondurenhos. Uma multidão cercou o hotel. A turba atirava pedras nas janelas e batucava em placas de latão e latas de lixo. Eles soltavam seguidos fogos de artifício. Eles buzinavam nos carros estacionados na frente do hotel. Os torcedores apitavam, gritavam e cantavam músicas hostis. Isso durou toda a noite. A ideia era que um time tenso, sonolento e exausto estaria inclinado à derrota. Na América Latina, estas são práticas comuns” (p. 157).

Adiante, após dar exemplos hilários de denúncias pintadas em muros, prossegue ele:

“Os latinos são obcecados com espiões, conspirações de inteligência e complôs. Na guerra, todo mundo é um quinta-coluna. Eu não estava numa situação confortável: a propaganda oficial de ambos os lados culpava os comunistas por cada desgraça, e eu era o único correspondente na região oriundo de um país socialista. (…)

Fui até o correio e convidei o operador de telex para tomar uma cerveja. Ele estava aterrorizado porque, embora tivesse pai hondurenho, sua mãe era cidadã de El Salvador. Ele tinha nacionalidade mista e, portanto, figurava entre os suspeitos. (…) Durante toda a manhã, a polícia estivera tangendo salvadorenhos para acampamentos provisórios, a maioria deles montados em estádios. Por toda a América Latina, os estádios têm um duplo papel: em tempo de paz, são arenas esportivas; na guerra, viram campos de concentração” (p. 166).

Por fim,

“a guerra terminou num impasse. (…) Ambos os governos estão satisfeitos: por vários dias Honduras e El Salvador ocuparam as primeiras páginas da imprensa mundial e foram objeto de interesse e preocupação. A única chance que pequenos países do Terceiro Mundo têm de despertar vivo interesse internacional é quando decidem derramar sangue. Isto é uma triste verdade, mas é assim.

O jogo decisivo da melhor de três foi realizado em campo neutro, no México (El Salvador venceu, 3×2). Os torcedores hondurenhos foram colocados de um lado do estádio, os salvadorenhos do outro, e no meio sentaram-se 5.000 policiais mexicanos armados com grossos cacetetes” (p. 184).

O esporte e o lazer noutros capítulos

Os espaços de lazer e o esporte aparecem, em menor escala, em alguns outros textos. Logo no seguinte, “Victoriano Gomez na TV”, a chapa continua quente. O tema é a transmissão ao vivo, pela televisão, da execução de um guerrilheiro de 24 anos que lutava contra a concentração latifundiária:

“Victoriano Gomez morreu em 8 de fevereiro na pequena cidade de San Miguel, El Salvador. Ele foi morto a tiros sob o sol da tarde, no estádio de futebol. Havia gente sentada na arquibancada do estádio desde a manhã. Furgões de rádio e televisão chegaram. Os cinegrafistas armaram seus equipamentos. Alguns fotógrafos se posicionaram no campo de jogo verdejante, agrupados em volta de uma das balizas. Parecia que uma partida estava prestes a começar.

(…) as pessoas (…) compravam sorvetes e bebidas geladas. As crianças faziam a maior parte do barulho. Quem não achava lugar na arquibancada, subia numa árvore para ver.

Um caminhão do Exército adentrou o campo. Primeiro, saíram os soldados que estariam no pelotão de fuzilamento. (…) [Victoriano Gomez] olhou para as arquibancadas, e disse bem alto (…): ‘Sou inocente, meus amigos’.

O estádio ficou em silêncio de novo, embora assovios de reprimenda pudessem ser ouvidos desde os lugares de honra onde os dignitários locais estavam sentados.

As câmeras foram ligadas: a transmissão ia começar. Por todo El Salvador, o povo estava assistindo à execução (…) na televisão.

Victoriano estava de pé próximo à pista de atletismo, encarando a arquibancada. Mas os cinegrafistas gritaram para ele ir para o meio do estádio, de forma que eles tivessem mais luz e uma cena melhor. Ele compreendeu e caminhou de volta até o centro do campo (…). Agora apenas uma pequena figura podia ser vista da arquibancada, e isso era bom. A morte perde sua literalidade naquela distância: deixa de ser morte e torna-se o espetáculo da morte. Contudo, os cinegrafistas fizeram um close-up de Victoriano; o rosto dele preenchia a tela; as pessoas assistindo pela televisão viam mais do que o público reunido no estádio.

Após a salva de tiros do pelotão, Victoriano caiu e as câmeras mostraram os soldados cercando seu corpo para contar as perfurações. (…)

Estava tudo terminado. A arquibancada começou a se esvaziar. A transmissão terminou. (…) Sua [de Victoriano] mãe ficou um pouco mais, sem se mexer, cercada por um grupo de pessoas que olhavam para ela em silêncio” (p. 185-6).

Lendo tal narrativa, penso nos pesquisadores e professores da área de Comunicação (existem também em outras áreas das Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas) que continuam tratando espetáculo e entretenimento como elementos estranhos ao esporte (ou, pior ainda, à “essência” do esporte) e que apenas recentemente adentraram o campo esportivo. Um pouco de leitura de história do esporte talvez caísse bem…

Em “Lumumba”, sobre o líder congolês, descreve o ambiente do Alex, “meu bar preferido na África”. Um trecho:

“Isto é uma segunda casa. (…) Casa é restrição e o bar é liberdade. Um informante branco não irá a um bar, porque uma pessoa branca iria se sobressair. Portanto, você pode falar de tudo. O bar está sempre repleto de palavras. O bar delibera, argumenta e pontifica. O bar topa qualquer assunto (…). Reputações (…) nascem aqui. (…) Se você encanta o bar, terá uma carreira de sucesso; se o bar escarnece de você, você pode voltar direto para a selva. (…) Alguém gesticula, uma mulher nina um bebê, risadas explodem em outra mesa. Fofoca, febre e muita gente. Aqui eles estão negociando o preço para passarem uma noite juntos, ali eles estão delineando um programa revolucionário, na mesa ao lado alguém está recomendando um bom feiticeiro, e acolá alguém está dizendo que vai ter greve. Um bar como este é tudo que você pode desejar: um clube, uma casa de penhores, um calçadão, uma varanda lateral de igreja, um teatro e uma escola (…).

Você tem que levar em consideração os bares e Lumumba compreendia isto perfeitamente. Ele também aparece para uma cerveja.” (p. 52-3)

Em “Algeria Hides Its Face” (“A Argélia esconde seu rosto”), ao narrar as atividades de Ben Bella na véspera do golpe que sofreu na Argélia: “Na sexta-feira, 18 de junho, poucas horas antes do coup, Ben Bella discursou numa manifestação em Orã. (…) Depois, foi a uma partida de futebol – ele nunca perdia um jogo (…)” (p. 113).

Segundo Kapuscinski, “Ben Bella tinha (…) uma personalidade fascinante. O futebol era sua paixão. Ele adorava assistir e também jogar. Com frequência, entre uma reunião e outra, ele dirigia até um campo de futebol e ficava chutando uma bola. Nesses jogos improvisados, a companhia mais próxima de Ben Bella era outro entusiasmado jogador de futebol, o ministro do exterior e um dos organizadores do complô contra o próprio Ben Bella: Abdel Azis Buteflika” (p. 96).

Fiquei pensando no argumento que vem sendo desenvolvido por pesquisadores de história da África como Victor Andrade de Melo e Marcelo Bittencourt (2012, 2013) de que diversos líderes revolucionários das lutas de independência contra Portugal tinham intenso envolvimento com o esporte, particularmente com o futebol.

O texto também faz uma extensa análise de problemas que cercam os governos de países recém-independentes, as realizações de Bella, o lugar de destaque ao qual a Argélia foi alçada no cenário internacional, particularmente no que diz respeito às lutas de esquerda e anti-imperialistas. A análise política é entremeada com episódios cotidianos e histórias saborosas, algumas delas envolvendo o esporte.

A narrativa e a trajetória do autor

A prosa de Kapuscinski tem características interessantes, misturando o formato de reportagem com o de diário, relato de viajante, obra de ficção. O jornalista era daqueles que gostavam de se jogar no olho do furacão: guerras, revoluções, guerras civis: falou em confusão, em dramas humanos e em lugares e situações de que a maioria dos repórteres quer distância, lá ia ele.

Outro aspecto interessante são suas convicções políticas, assim como o fato de ser polonês e trabalhar para uma agência de notícias de um país do bloco comunista. Por um lado, a narrativa tem momentos de um certo preconceito de europeu viajando ao Terceiro Mundo, além de momentos de incompreensão face ao que vê. Em “A Dispute over a Judge Ends in the Fall of a Government” (algo como “Uma contenda sobre um juiz vai dar na queda de um governo”):

“Há vários meses o Estado parara de funcionar. O gabinete não se reunira; o país estava paralisado.

Aqui podemos ver perfeitamente os mecanismos da política na África: o Daomé é um país pobre e subdesenvolvido. Tirar o Daomé da pobreza exigirá um esforço enorme, união de forças e educação. Mas ninguém sequer está trabalhando” (p. 123).

A isto se somam situações difíceis que se criam devido à aparência física de branco europeu, semelhante às dos opressores/colonizadores. Em “The Offensive” (“A Ofensiva”):

“Pensei em ir lá e explicar: sou da Polônia. Aos dezesseis anos de idade, entrei para uma organização de jovens. Nas faixas daquela organização estavam escritos slogans sobre a fraternidade das raças e o esforço comum contra o colonialismo. Organizei manifestações de solidariedade aos povos da Coreia, do Vietnã e da Argélia, com gente de todo o mundo. (…) Sempre considerei os colonialistas os piores vermes que existem” (p. 63).

Há vários episódios de risco, como tentativas de desenrolo ao levar dura de policiais, militares, guerrilheiros e/ou bandos armados de difícil classificação; há também uma impressionante narração do que se sente ao levar uma picada de escorpião no meio da noite.

Por outro, trata-se de alguém simpático às reivindicações populares e às causas da esquerda; e oriundo de um país periférico no próprio cenário europeu, e que não colonizou territórios nos demais continentes. O assunto vem à tona, por exemplo, num papo com alguns membros do conselho de anciãos de uma vila em Gana, em que a ajuda de Kofi, um amigo e intérprete, foi fundamental para explicar a eles que a Polônia, da qual nunca haviam ouvido falar, não tinha colônias e que “nem todos os brancos são colonialistas”. O papo desemboca numa discussão sobre colonialismo e pós-colonialismo. Prossegue Kofi, a respeito de sua terra natal: “Por cem anos eles nos ensinaram de que o branco é alguém maior, super, extra. Eles tinham seus clubes, suas piscinas, seus bairros, suas putas, seus carros e sua língua balbuciante. Nós sabíamos que a Inglaterra era o único país do mundo, que Deus era inglês, que apenas os ingleses viajavam pelo mundo. Sabíamos justamente o quanto eles desejavam que soubéssemos. Agora é difícil mudar” (p. 231).

Há muitas reflexões sobre a guerra, abordando temas como as perdas humanas; ou as transformações introduzidas por novas máquinas de matar:

“Agora os tempos mudaram, e a face da guerra mudou. Os homens foram retirados do campo de visão no terreno de batalha. Vemos equipamentos. Vemos tanques, artilharia automática, foguetes e aeronaves. Oficiais apertam botões num bunker, observam os saltos de uma linha verde numa tela, manipulam um joystick e apertam outro botão. Um bum, um silvo, e em algum lugar, à distância, um tanque se desintegra, nalgum trecho do céu um avião se despedaça” (p. 203-4).

Livro com bônus

inside-travelerComo às vezes acontece com livros usados, este veio com três itens:

1) Um cartão postal de uma companhia aérea dos EUA, estampando um modelo 767.

2) Uma resenha recortada (e cortada; ver imagem à esquerda), ao que parece, de uma revista chamada Inside Traveler, repleta de elogios ao que define como “uma coletânea de artigos das viagens de Kapuscinski como correspondente da Agência de Imprensa Polonesa (…), parte relato de viagem, parte reflexão filosófica sombria, parte narrativa de aventura no fio da navalha”.

3) E um recorte de jornal (à direita), evidenciando que a morte do escritor, como diria Jorge Benjor, deu no New York Times. No obituário, fiquei sabendo que ele chegou a escrever para a revista do próprio jornal. Termina mais ou menos assim:obituario-nyt0003

“‘Existe, admito, um certo egoísmo no que escrevo’, disse ele certa vez, ‘sempre reclamando do calor ou da fome ou da dor que sinto. Mas é terrivelmente importante ter o que escrevo autenticado por ter sido vivido. Você pode chamar isso, suponho, de reportagem pessoal, porque o autor está sempre presente. Eu às vezes chamo de literatura a pé.”

Observando os itens, me parece que, antes de vir parar no Rio de Janeiro, o exemplar pertenceu a alguém interessado em literatura de viagens/viajantes.

Referências bibliográficas

KAPUSCINSKI, Ryszard. The Soccer War. New York: Alfred A. Knopf, 1991.

MELO, Victor Andrade de; BITTENCOURT, Marcelo. Sob suspeita: o controle dos clubes esportivos
no contexto colonial português. Revista Tempo, Niterói, v. 17, n. 33, p. 191-215, dez. 2012.

______. O esporte na política colonial portuguesa: o Boletim Geral do Ultramar. Revista Tempo,
Niterói, v. 17, n. 34, p. 69-80, jan.-jun. 2013.

Para quem tiver curiosidade, diversos livros de Kapuscinski estão traduzidos no Brasil.

[Adendo em 27/4/2017: recomendo também esta entrevista (em inglês) a respeito da documentação sobre a Guerra do Futebol nos arquivos da CIA, nos EUA.]


Pesquisando história do surfe no Sul da Califórnia

04/09/2016

Por Rafael Fortes

San Diego é uma das principais cidades de surfe do mundo (cidade de surfe sendo a tradução possível de surf city). A afirmação pode parecer, a princípio, exagerada.

Darei, então, alguns exemplos e informações para justificá-la. Antes, ressalto que tal exuberância de manifestações da cultura do surfe é observada também nos condados litorâneos californianos que se sucedem rumo ao norte, até Santa Barbara: Orange County, Los Angeles, Ventura e Santa Barbara. Neles estão dezenas de praias, picos ou cidades importantes na história do surfe, como Huntington Beach, Malibu, Rincon, Santa Monica e Venice. Os cinco condados entre San Diego (ao sul) e Santa Barbara (ao norte) são uma das caracterizações do que constitui o Sul da Califórnia (Southern California). A definição é imprecisa, mas a expressão é muito utilizada em todos os âmbitos, inclusive o acadêmico. Por exemplo, numa dissertação de mestrado defendida em 1992, Wallace Zane afirma que ficou impressionado com a quantidade de imagens do surfe usadas em anúncios de diferentes produtos na televisão canadense, e que “as representações de surfistas que se vê na mídia nacional são quase sempre aquelas dos surfistas sul-californianos” (p. 1). Grosso modo, esta região engloba praias, indústria, mídia (editoras de revistas de surfe, produtoras de filmes especializados de surfe, Hollywood), moda, campeonatos, ídolos, música e outros aspectos relevantes das representações construídas a respeito do surfe (e do skate) a partir da segunda metade do século XX.

Foi nesta região que morei entre setembro de 2015 e agosto de 2016, realizando um estágio pós-doutoral – com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) – como pesquisador-visitante no Departamento de História da University of California, San Diego (UCSD).

San Diego

San Diego sediou dois dos seis campeonatos mundiais de surfe realizados entre 1964 e 1972. Antes da criação do circuito mundial profissional em 1976, eles eram a principal competição internacional da modalidade. Depois, continuaram sendo a mais importante no âmbito amador (Warshaw, 2003, p. 710-11).

A cidade conta com praias que atraem grande número de surfistas: Mission Beach, Ocean Beach, La Jolla Cove e La Jolla Shores, entre outras. A imensa quantidade de turistas na cidade (mais de 30 milhões por ano), vários deles dispostos a pagar por aulas para (tentar) surfar pela primeira vez, somada às milhares de pessoas de fora morando por alguns meses ou anos (militares, estudantes e pesquisadores), muitas das quais também dispostas a aprender a pegar onda, inviabilizam a possibilidade de localismo. Este fica restrito a certas praias ou pedaços, permitindo que vários trechos sejam um playground alegre para haolespregos e iniciantes.

O Condado de San Diego é um dos mais extensos dos Estados Unidos. Reúne uma quantidade ainda maior de praias, que se estendem desde Tijuana Sloughs, próxima à fronteira com o México, até San Onofre. No meio, algumas cidades com forte cultura praiana e presença do surfe: Imperial Beach, Coronado, Del Mar, Solana Beach, Encinitas, Carlsbad e Oceanside, além das praias na costa da base militar de Camp Pendleton (que incluem as famosas San Onofre e Trestles). Imperial Beach, por exemplo, tem um “Museu a Céu Aberto de Pranchas de Surfe”, com esculturas com as silhuetas de modelos de pranchas de diferentes décadas (imagens do folder de divulgação abaixo). Há também pranchas em exibição dentro de um prédio administrativo próximo ao pier local.

Imperial Beach0002 Imperial Beach0001

 

 

 

 

 

San Diego é sede de empresas de surfwear, como a Reef Brazil, dos proprietários argentinos Fernando e Diego Aguerre. O primeiro é também presidente, desde 1994 (sim, também no surfe dirigentes ocupam cargos durante décadas), da Associação Internacional de Surfe, a federação internacional responsável pela modalidade – e que coordenou os esforços que resultaram na recente inclusão nos Jogos Olímpicos de 2020.

Na cidade há também empresas de skatewear e alguns importantes e tradicionais fabricantes de pranchas de surfe (e/ou skate), como Gordon & Smith.

ACA PCA 2017A força da associação com surfe também se mostra no âmbito acadêmico. À esquerda está a ilustração do anúncio do congresso das Associações de Cultura Popular e de Cultura Americana, que em 2017 ocorrerá em San Diego. Em primeiro plano encontra-se o item principal acionado para representar a cidade: uma prancha de surfe (no caso, de longboard). Ao fundo aparecem ícones locais como o museu porta-aviões e o Hotel del Coronado. A cor laranja é uma referência ao sol e ao céu, e as palmeiras… bom, estas são onipresentes no Sul da Califórnia.

Universidades, centros de documentação e bibliotecas

Sendo um elemento cultural, econômico, social e político relevante, estranho seria se o surfe não fosse objeto de pesquisa nas universidades locais. Ele é.

Na UCSD há investigações sobre o tema a partir de variadas perspectivas e áreas. Conheci dois físicos que desenvolviam pesquisas sobre as ondulações do mar com o objetivo de aprimorar a fabricação de piscinas de ondas, de maneira que as ondas artificiais imitem, o máximo possível, as da natureza. No primeiro semestre de 2015, a universidade anunciou a fabricação da primeira prancha produzida usando material secretado por algas em laboratório.

Em março de 2016, fotografei três de cerca de dez cartazes espalhados pela rua de pedestres que dá acesso à espetacular biblioteca central da universidade, a Geisel. Da esquerda para a direita, se lê nas imagens abaixo:

– 4a. melhor universidade pública dos EUA

– Top 15 no mundo em impacto científico

– Campus número 1 do país para surfar

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Ou seja, além de objeto de pesquisa, no caso da UCSD, situada em La Jolla, o surfe é também um mecanismo de atração de estudantes.

Na San Diego State University (SDSU), o setor de Coleções Especiais e Arquivo Universitário (SCUA, na sigla em inglês) mantém acervos relacionados a temas específicos, como movimentos religiosos alternativos, história em quadrinhos, estudos judaicos e surfe. Segundo me informaram os funcionários, uma volumosa doação espontânea incentivou o SCUA a instituir uma coleção dedicada ao surfe. Desde então, o setor recebeu outras doações, como uma recente (2015) com centenas de periódicos de Kurt Ledterman, morador de San Diego e ex-editor da revista Surfer. Como é comum nos EUA, após o falecimento do dono da coleção, um membro da família procurou uma universidade cuja biblioteca pudesse ter interesse pelo material e fez a doação. Durante os meses que passei pesquisando o acervo de surfe do SCUA, vi algumas dezenas de pessoas aparecerem para doarem itens, especialmente para as coleções de ficção científica, fanzines e história em quadrinhos – em alguns casos, elas já sabem que instituição procurar, pois conhecem as coleções/especialidades de cada uma. Além disso, o SCUA tem orçamento para aquisição de obras raras – há uma política ativa de compras, além do recebimento de doações. Afinal, uma das funções da biblioteca é funcionar como um centro de pesquisa e documentação, o que pressupõe a constituição, manutenção e ampliação de acervos.

A coleção de surfe tem diversos materiais, como fotos, pôsteres, cartões postais, livros, revistas e manuscritos. Entre as revistas, meu objeto principal de pesquisa, há dezenas de títulos de vários países, incluindo do Brasil.

A SDSU conta também com um Centro para a Pesquisa do Surfe, coordenado por um professor da Escola de Turismo e Hospitalidade. Ainda nas Humanidades, em abril deste ano, por exemplo, foi defendida uma dissertação de mestrado em História intitulada The Girls Who Surf: Women in Surfer Magazine, 1963-1976 [As garotas que surfam: mulheres na revista Surfer (1963-1976)], de Jasmine Tocki.

As bibliotecas das universidades são integradas numa base chamada Circuit. Nela é possível consultar os acervos e, mediante login e senha (os mesmos da sua universidade de origem), solicitar o empréstimo das Livros 3 bibliotecasobras. Ao fazer a reserva, o usuário escolhe em qual biblioteca de sua universidade irá buscá-los (no meu caso, havia três opções). Em uma das ocasiões, fiz a reserva num domingo, e na terça-feira os livros (foto à esquerda) – um da University of San Diego e outro da SDSU já estavam à minha espera na estante do balcão principal. Feito o empréstimo, tive um prazo de devolução de um mês – sim, 30 dias para devolver obras de bibliotecas de universidades diferentes daquela a que estava vinculado. O prazo da biblioteca da UCSD é de um ano e, como pesquisador visitante, eu podia ter até 200 livros emprestados simultaneamente.

Nos acervos encontrei muitos títulos relativos ao surfe: na maioria, obras acadêmicas. Mas também obras sobre o passado e/ou memorialísticas de jornalistas e/ou surfistas, livros de arte (fotografia, música, artes visuais) e guias.

A esta estrutura se soma a da Biblioteca Pública de San Diego (SDPL), com dezenas de filiais espalhadas pelos bairros. O sistema de bibliotecas públicas conta com outro grande acervo relativo ao surfe, tanto de itens que qualquer usuário cadastrado pode pegar emprestados e levar para casa, como filmes em DVD, CDs de música e livros, quanto de fontes para pesquisa na monumental biblioteca central, no Centro. Durante os quase doze meses que passei lá, com a conveniência de uma filial de bairro a duas quadras de casa, consegui ver dezenas de filmes em DVD, boa parte deles relacionados ao surfe.

Tal como nas universidades, a busca e reserva pode ser feita pela internet, as obras disponíveis em qualquer unidade do sistema são transportadas até a unidade de escolha do usuário. Este recebe um email informando que o item está disponível para retirada e pode fazer sozinho o check-out dos livros, usando um cartão com código de barras. A obras podem ser devolvidas em qualquer filial ou depositadas em totens do lado de fora (ou seja, para devolução não é preciso comparecer à biblioteca durante o horário de funcionamento). Dá para renovar os itens pela internet ou telefone, e o sistema envia um email de aviso quando o prazo está para vencer.

Em tempo: meu cadastro era no sistema da cidade. Existe o do condado de San Diego, que conta com outras dezenas de bibliotecas. E existem ainda os sistemas de outros condados e cidades do Sul da Califórnia, que contam com unidades com revistas de surfe entre as dezenas de títulos que assinam e disponibilizam para consulta, leitura, estudo, trabalho e prazer dos usuários.

Museus

O litoral da Califórnia é sede de cinco museus de surfe: California Surf Museum (Oceanside), Surfing Heritage and Culture Center (SHACC, San Clemente), International Surfing Museum (Huntington Beach), Santa Cruz Surf Museum (Santa Cruz) e Santa Barbara Surf Museum (Santa Barbara). A maioria cobra entrada para visitação, geralmente US$ 5. Os dois últimos praticamente se limitam à exposição de pranchas, fotografias e outros itens. Os três primeiros contam também com acervos de periódicos, fotografias e outros documentos, que são disponibilizados para consulta de pesquisadores.

No que diz respeito ao acervo de revistas, um bastante completo é o do California Surf Museum, que conta com uma equipe muito prestativa e uma sala de pequisa confortável. Já no SHACC, a pesquisa é limitada aos sócios – o acervo de lá parece ser bem bacana, também.

Os museus de surfe serão tema de texto específico que publicarei posteriormente neste blogue.

Além de museus específicos, o status do surfe no Sul da Califórnia inclui a presença de pranchas e a realização de exibições e mostras em outros espaços dedicados à arte. O Mingei International Museum, em San Diego, voltado para artesanato e cultura popular, realizou uma exposição de pranchas de surfe que ocupou todo o primeiro andar do prédio entre junho de 2014 e janeiro de 2015. Uma das ênfases do livro resultante da exposição é destacar o papel de shapers de San Diego no desenvolvimento de novos desenhos, tipos e materiais de pranchas (KEVIN, 2014).

 

Referências bibliográficas

KENVIN, Richard. Surf Craft: Design and the Culture of Board Riding. San Diego/Cambridge: Mingei International Museum/MIT Press, 2014.

WARSHAW, Matt. Encyclopedia of Surfing. Orlando: Harcourt, 2003. (Há verbetes disponíveis em: http://encyclopediaofsurfing.com/)

ZANE, Wallace W. Surfers of Southern California: Structures of Identity. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – McGill University, Montreal, 1992.


Ali e as estrelas do Dream Team: quando os ídolos viraram crianças

04/06/2016

Por Rafael Fortes

Morreu Muhammad Ali.

Lembrei de uma bela homenagem a ele, Cassius Marcelo Clay, de Jorge Ben Jor (então Ben), ao que parece, em parceria com Toquinho. A canção faz parte do espetacular disco Negro É Lindo (1971). É uma das numerosas pérolas pouco conhecidas de Benjor.

Não sou grande acompanhador de boxe. E, mais importante, não tive idade para ver Ali lutar e acompanhar sua trajetória esportiva e pessoal. Talvez por isso (e por só haver conhecido a música de Benjor há coisa de 10-12 anos) sempre me impressionou a ampla admiração por ele nos EUA, especialmente intensa entre atletas negros (de todas as modalidades). A cena que me fez entender isso – cair a ficha, como se diz – ocorreu numa partida a que eu assistia pela televisão e está capturada no vídeo abaixo.

Durante os Jogos de Atlanta em 1996, Ali recebeu uma medalha do Comitê Olímpico Internacional (COI), pois, segundo consta, muitos anos antes perdera a que conquistara lutando nos Jogos de Roma, em 1960. A princípio, pode parecer estranho que se tenha escolhido o intervalo de um jogo de basquete masculino – e não de um evento de boxe – para realizar a cerimônia. Certamente o basquete – e particularmente os jogos do Dream Team – tinha muito mais visibilidade que o boxe, em se tratando de Olimpíada. Veja o vídeo e o que acontece poucos segundos após Ali receber a medalha:

Em 2’56”, num curto corte de câmera, já se pode ver Karl Malone aplaudindo e se esticando para espiar. Pouco depois, a maioria dos jogadores dos EUA não se contém. Entram na quadra e cercam o ídolo, num gesto/momento que, mesmo visto 20 anos depois, continuo considerando emocionante e de rara beleza. Olajuwon, O’Neal, Pippen, Barkley, Hardaway, Malone, Payton e outros, eles próprios grandes ídolos e homens enormes, reúnem-se como crianças pequenas em torno do seu herói. (Na sequência, os jogadores da Iugoslávia – sim, da Iugoslávia -, capitaneados por Divac, também posam para a foto.)

A Olimpíada de 1996 foi realizada em Atlanta. Conhecida por ser a sede da Coca-Cola e de emissoras de televisão como CNN e TNT, a cidade é a capital da Geórgia, no sul dos EUA, um dos estados que compuseram a Confederação durante a Guerra Civil Americana. Região de cultura e tradição barra-pesada de escravidão e racismo. Naquele time olímpico de basquete, Charles Barkley, por exemplo, nasceu e foi criado no Alabama (outro estado barra-pesada) e, hoje comentarista de TV, volta e meia conta histórias pessoais e/ou faz críticas sobre o racismo quando participa de mesas-redondas, como num excelente debate no programa Open Court durante o Mês da História Negra, em fevereiro deste ano (infelizmente, não consegui achar o vídeo na internet).

Observando a extensa e sentida reação à notícia da morte de Ali, noto a variedade de razões pelas quais as pessoas o admiravam. Surpreso, não mais; de novo impressionado, sem dúvida.


Os Garotos da Praia de Waikiki: surfe, turismo, homens e mulheres

10/04/2016

Por Rafael Fortes

Num livro publicado em 2011, o historiador Isaiah Helekunihi Walker celebra o surfe como prática de resistência no Havaí durante o século XX. Entre os méritos da obra estão o uso de fontes que transcendem o inglês – sobretudo jornais em havaiano – e o destaque à articulação do surfe com movimentos políticos do arquipélago. Tem também problemas, comWalker - Waveso a grande facilidade para enxergar resistências e o esforço de corrigir textos de memória e jornalísticos – frequentemente, rechaçando os mitos apenas para colocar outros em seu lugar. Contudo, esse texto não é uma resenha do livro. Avisos aos navegantes: todas as citações do livro estão originalmente em inglês e foram traduzidas por mim; os vídeos, quando narrados, o são em inglês.

O que me interessa discutir é um trecho – intitulado “Garotos da Praia: Empurrando Mulheres e Fronteiras” (p. 70-77) – do capítulo três. O capítulo trata da rivalidade entre os frequentadores da praia de Waikiki, em Honolulu, que se agruparam em torno de dois clubes: o Outrigger Canoe Club, “formado em 1908 por (…) Alexander Hume Ford” e composto majoritariamente por haoles brancos nascidos no continente (p. 59); e o Hui Nalu, fundado e composto por membros de famílias históricas havaianas, entre os quais Duke Kahanamoku e o príncipe Jonah Kūhiō Kalanianaʻole, membro da família real deposta na última década do século XIX, antes da anexação pelos EUA, em 1898 (não confundir este clube com o Hui O He’e Nalu, formado nos anos 1970 e existente até hoje, cujos membros se tornaram conhecidos no Brasil como black trunks). O Hui Nalu, “embora existisse de forma pouco organizada desde 1905, (…) foi oficialmente formado (…) em 1911” (p. 62). Waikiki era e continua sendo a praia mais turística do arquipélago.

De acordo com Walker, “a partir de 1915, surfistas do Hui Nalu abriram lucrativos negócios sob concessão em Waikiki” e passaram a ser conhecidos como os “Garotos da Praia de Waikiki” (p. 70). Eles “eram salva-vidas, guarda-costas, instrutores, animadores e guias turísticos para os visitantes. Por um preço relativamente alto, levavam clientes para a arrebentação para descer ondas em canoas e pranchas.” Faziam e vendiam artesanato e davam aulas de ukelele.  À medida que os negócios se desenvolveram, alguns garotos passaram a atuar em tempo integral como funcionários particulares de famílias ou indivíduos de alta renda que visitavam Waikiki: levavam para passeios, atuavam como secretários particulares e desempenhavam funções diversas por períodos que variavam de “duas semanas até três meses” (p. 71).

As informações contidas e as histórias contadas nesta parte do capítulo se baseiam majoritariamente em entrevistas de história oral feitas com os próprios Garotos da Praia (a maioria, feitas em 1985 e disponíveis num banco de dados). Ao narrarem as relações com os e, principalmente, as turistas, a coisa fica mais animada.

Entre as graças que faziam para entreter os clientes, contavam histórias e piadas e surfavam sentados em cadeiras de praia ou na companhia de um cachorro. Este vídeo identifica um dos irmãos Kahanamoku como um surfista que descia ondas com seu cão Spot, o que pode ser visto em 3’19”. (Adendo: em outras ondas, a prancha em que está o cachorro não consegue ser captada pela câmera, o que provavelmente se deve à dificuldade de manejar o equipamento e à diferença de velocidade entre a prancha filmada e a canoa em que, suponho, encontrava-se a câmera.)

“À medida que ostentavam suas habilidades sociais e surfísticas, eles se tornaram celebridades locais capazes de atrair mais do que dinheiro. Garotas e mulheres brancas se aglomeravam na praia para aprender a surfar com os Garotos da Praia havaianos. ‘Naquela época’, recordou Louis Kahanamoku, ‘especialmente as wahine [mulheres] brancas iam todas nos Garotos da Praia. Os Garotos da Praia eram conhecidos por cortejar diversos tipos de mulheres de fora – divorciadas, ricas, vedetes e filhas de visitantes ricos” (p. 72).

Havia turistas que confiavam suas filhas aos cuidados dos Garotos da Praia. Houve histórias de amor entre os Garotos e vedetes que deram em casamento. E evidentemente, havia quem os considerasse “um bando de homens preguiçosos que se prostituem ganhando a vida em cima de desquitadas do continente” (p. 72).

Uma das principais formas de ensinar as damas a surfar, e também de “impressioná-las”, era descer as ondas junto com elas, na mesma prancha. Por exemplo, levantando-as sobre os ombros, o que, de acordo com um dos Garotos, “convidava a manobras excitantes e íntimas”. Na volta, “subiam em cima da parte de trás das garotas haoles” na remada para o outside (p. 72). O vídeo abaixo mostra, em 2’20”, uma sorridente mulher descendo uma onda em surfe duplo. (No último vídeo deste texto, há também um amplo sorriso captado em 5’07, em meio à excitação de descer uma onda numa canoa.)

(Breve comentário sobre o vídeo acima: como se pode ver, ele traz fartura de boas ondas surfadas com desenvoltura – e grande estilo – por um cachorro, que abre os trabalhos no sonrisal em 2’44” e depois manda ver no hang ten.)

Cenas com homens aproveitando a aproximação dos corpos para certos contatos e iniciativas, embora mantendo uma postura que cinicamente permita alegar que nada demais está acontecendo, também aparecem em Gidget, produção de 1959 com trama situada no litoral da Califórnia. Eis o trecho:

A partir de 0’16”, um dos personagens fala: “Aí está, querida! Reta como uma panqueca, hein?! Quase, né? (…) Posso te deixar mais à vontade?” Ao final, o mesmo personagem diz: “Muito bom para a primeira vez, né? Agora vou um levá-la um pouco mais fundo!” O filme, de acordo com vários pesquisadores, foi decisivo para espalhar a febre do surfe pelos EUA. A situação da personagem adolescente Gidget, que busca aceitação e tenta aprender a surfar em meio a vagabundos de praia mais velhos, é muito distinta daquela das turistas que buscavam e contratavam os serviços dos Garotos da Praia de Waikiki – elementos que podem permitir uma boa e complexa discussão sobre consentimento, abuso, vulnerabilidade etc.

Voltando a Waikiki… Quando na areia, a legítima preocupação de evitar queimaduras pela exposição ao sol levava os Garotos a realizar, “com frequência regular”, sessões de massagem para aplicação de óleos na pele de quem estava sob seus cuidados (p. 73).

À noite, vestindo smoking, os Garotos cantavam e tocavam instrumentos musicais, atraindo especial interesse do público feminino. As letras de algumas músicas tratam destas interações, do clima de romance e do duplo sentido em movimentos e gestos. Após o encerramento das atividades, os pares/casais se espalhavam em diversas direções – alguns, rumo ao mar, para novas sessões de surfe a dois.

O vídeo a seguir reitera esta narrativa da “boa vida” dos Garotos com diversas fotos, especialmente a partir de 3′ (e, diga-se de passagem, tem uma visão ainda mais positiva e idílica que Walker).

Como se pode imaginar, “por meio de tais interações, os Garotos da Praia de Waikiki violavam regras sociais de uma sociedade americana governada por leis antimiscigenação e ameaçavam a hegemonia haole por conquistarem propriedade que haviam construído e que era seu privilégio” (p. 75). Para Walker, isto evidencia que o mar – e, particularmente, a prática do surfe – constituía um espaço de exceção, de inversão de valores. Ali os homens havaianos eram poderosos, admirados e desejados. “Enquanto a indústria do turismo promovia as ilhas como uma ‘mulher’ a ser conquistada, os homens havaianos não eram propagandeados como objetos sexuais da maneira como ocorria com as mulheres dançarinas de hula-hula. Portanto, estes homens não estavam desempenhando ou se adequando a expectativas de conquista sexual de turistas; em vez disso, as desafiavam” (p. 75-6). Embora o argumento tenha valor, eu sugeriria que eles estavam também se adequando às expectativas das turistas.

No início dos anos 1930, num contexto de intensa crise econômica; acusações de estupro; e o transplante, para as ilhas, do discurso racista e histérico a respeito do negro como um predador sexual, o clamor social legitimou uma intensa reorganização do espaço social e econômico da praia de Waikiki, que passou a ser completamente controlada pelos brancos ligados ao Outrigger. Restou aos Garotos se sujeitarem a trabalhar em condições muito piores que as anteriores, tentarem ganhar a vida como frilas ou simplesmente abandonar a praia. A Segunda Grande Guerra fecharia as praias do arquipélago – de acordo com Walker, Waikiki foi cercada com arame farpado.

Bibliografia

WALKER, Isaiah Helekunihi. Waves of Resistance: Surfing and History in Twentieth-Century Hawai’i. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2011.