Revista Recorde: chamada para dossiê História do Esporte e Comunicação: para além da imprensa e da mídia como fontes

14/09/2018

 

Dossiê: História do Esporte e Comunicação: para além da imprensa e da mídia como fontes

 

Organizadores: Rafael Fortes (Unirio) e Álvaro do Cabo (Ucam)

 

Os periódicos impressos são, de longe, as fontes mais utilizadas na história do esporte. Contudo, muitos trabalhos tendem a fazer um uso instrumental destas fontes, sem contextualizá-las e sem discutir aspectos básicos  – por exemplo, que tais fontes apresentam ao público não o esporte em si, mas uma construção que obecede a uma série de procedimentos e critérios e é marcada também por escolhas pessoais, acasos etc.

Por outro lado, a maioria dos trabalhos sobre o passado esportivo realizados na Comunicação tende a enfatizar o papel dos meios e a descrição de seus conteúdos, dedicando pouca atenção à contextualização histórica do período, aos estudos históricos sobre o esporte e, às vezes, ao aspecto de construção mencionado anteriormente. Não raro, trabalhos que ignoram os estudos históricos sobre o esporte apresentam um painel memorialístico, atribuindo ao presente ou a décadas recentes características que, na verdade, são perceptíveis desde a estruturação do campo esportivo em décadas anteriores do século XX ou mesmo do XIX. Ademais, diversos pesquisadores da área parecem ter o entendimento de que basta escrever sobre o passado para se realizar um trabalho “de História”.

Em ambos os casos, costuma-se dar um amplo destaque aos veículos jornalísticos. Relativamente poucos esforços têm sido direcionados às produções audiovisuais, de ficção, radiofônicas, publicitárias e editoriais que de alguma forma se relacionam ao esporte.

Este dossiê propõe explorar as múltiplas relações entre a história do esporte e os estudos do fenômeno na Comunicação. Para tanto, privilegiará trabalhos realizados a partir de uma perspectiva histórica abordando os aspectos abaixo:

 

– Esporte, publicidade e marketing

– Relações entre mídia e esporte como partes de um mercado de entretenimento

– Direitos de transmissão, patrocínio e promoção de modalidades, equipes, atletas, eventos e competições

– Comercialização e profissionalização do esporte

– Relações econômicas entre mídia e esporte

– História do Esporte e cinema: ficção e documentários

– O esporte no rádio, na televisão e nas mídias digitais

– O esporte nos meios de comunicação alternativos, contra-hegemônicos, progressistas, comunitários, de esquerda etc.

– Relações políticas entre mídia esporte

– Análise crítica da literatura jornalística sobre esporte (biografias, memórias etc.)

– Midiatização, Direito e legislação

– Veículos de comunicação como fonte para a pesquisa histórica do esporte

– O esporte nos meios de comunicação mainstream

– O esporte nos veículos impressos: jornais, revistas, panfletos, boletins etc.

– Outras abordagens/perspectivas que relacionem História, esporte e Comunicação

 

 

As submissões devem ser enviadas para o email: lachiunirio@gmail.com.

 

Data limite para submissões: até 31 de janeiro de 2019

Divulgação dos aceites: até 30 de abril de 2019

Publicação do dossiê: junho de 2019

 

Sobre a revista: No ar desde 2008, Recorde é a única revista latino-americana dedicada à história do esporte. Atualmente está classificada no Qualis de dez áreas de conhecimento. Endereço: https://revistas.ufrj.br/index.php/Recorde

 

Solicitamos a gentileza de divulgar esta chamada para seus contatos.

 

Atenciosamente,

 

Os organizadores

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Deslizar, escorregar, equilibrar: o corpo e o lúdico nos esportes californianos

17/06/2018

Por Leonardo Brandão

Segundo o historiador Roy Porter (1992) a fotografia pode ser uma grande fonte (embora ainda permaneça “estranhamente subexplorada”) de compreensão do corpo. O registro fotográfico já documenta quase um século e meio dos aspectos físicos e, embora ela não seja um instantâneo da realidade, é um registro da linguagem corporal e do espaço social tão ou mais informativo que o texto impresso. Acreditamos, nesse sentido, que o arquivo fotográfico pode nos revelar e confirmar variados aspectos das transformações físicas na contemporaneidade, apresentando também dados sobre a linguagem corporal, os gestos e seus modos de utilização e investimento.

Observemos a fotografia a seguir:

Figura 1: Jovem praticando o “surfe na rua” na cidade do Rio de Janeiro em 1975. Fonte: Revista Pop, nº 38, 1975, p. 61.

Vemos nessa imagem – originalmente publicada nas páginas de uma revista chamada Pop, existente entre 1972 e 1979 – um jovem praticando skate numa rua levemente em declive. Pela descrição da matéria, sabemos que se trata de um espaço localizado no Rio de Janeiro e que essa imagem data de 1975. Não há dúvidas que se trata de uma fotografia sobre o equilíbrio. Pois o que esse jovem faz é um jogo de equilíbrio corporal. A ausência dos calçados e equipamentos de proteção revela o uso do skate como um “surfinho”, isto é, apenas como divertimento espontâneo e sem vínculos com campeonatos, juízes, tabelas etc. Além disso, o próprio movimento corporal realizado era muito próximo daqueles utilizados pelos surfistas nas ondas do mar.

Essa imagem (figura 1) é ilustrativa de uma característica central dessas atividades oriundas da Califórnia e que estavam se introduzindo no cotidiano das práticas juvenis no Brasil, pois tais atividades investiam mais numa flexibilidade física atenta aos gestos de equilíbrio do que no acúmulo de forças para o levantamento de algum peso, o que fazia do corpo menos um suporte do gesto do que sua expressão.

Ao reduzirem o esforço muscular em prol de outros elementos para praticá-lo, o skate – assim como o surfe ou outras atividades praticadas à maneira californiana – abria novas possibilidades de euforia, êxtase e vertigem. Não tanto a força dos músculos, mas sim a flexibilidade e a busca pelo equilíbrio estariam no cerne performático em questão. De acordo com as palavras da historiadora Denise Bernuzzi de Sant’Anna,

Os esportes californianos, por exemplo, que se expandem em várias partes do mundo a partir dos anos 70, tem por objetivo menos o cansaço salutar – característica dos antigos esportes comprometidos com os ideais higienistas de salvação de uma raça – do que a vivência de sensações de prazer, físicas e mentais, imediatas e inovadoras. O surfe, a asa delta, o windsurf, por exemplo, conduzem o olhar do esportista menos em direção à força realizada por seus músculos do que às flexibilidades motoras que ele é capaz de manter sob controle. De onde se explica, nessas atividades, o emprego de verbos que evocam o prolongamento de sensações de prazer e de controle do conjunto dos movimentos, tais como voar, escorregar, equilibrar (2000, p. 3).

Iniciar-se em tais atividades, portanto, significava dar menos evidência às questões corporais que envolviam força muscular e uma maior atenção ao equilíbrio corporal, controlado sob tênues movimentos de braços e pernas.  Esse investimento lúdico do corpo, para além de suas possibilidades de força, potência muscular e virilidade – aspectos tão bem explorados pelos esportes tradicionais –, favoreceu sua interpretação como um possível objeto de comunicação através de uma série inusitada de gestos e movimentos (os quais passariam a ser chamados, posteriormente, como “manobras” ou “truques”). A construção dessa nova relação com o corpo, ou desta nova corporalidade, também passou a expressar um desejo por aventuras e deslizamentos os mais variados, sendo o aprendizado de tais técnicas uma questão de conquistar, através do corpo – ou “in-corporar” – essas novas possibilidades de movimento, equilíbrio e frenesi estético.

Ao observar o que chama de “práticas emergentes contemporâneas”, o professor Deibar René Herrera (2009) também afirmou ser possível percebermos nessas atividades outras formas de construção do corpo já diferentes daquelas apontadas pelo filósofo Michel Foucault através de seus estudos sobre as instituições disciplinares, as quais evidenciavam a formação de corpos dóceis. Para Herrera, faz-se importante admitirmos que o mundo contemporâneo também vem configurando outros usos do corpo que já não estão de acordo somente com a sociedade disciplinar e nem necessitam da obediência de outros tempos. Usos do corpo, em sua visão, que se formaram a partir dessas novas práticas culturais juvenis e que se constituíram enquanto práticas de subjetivação.

Assim, algumas das análises de Foucault propõem-se a descrever e analisar um mundo no qual estamos deixando de conhecer, um presente que está se transformando em passado, cujas marcas ainda moldam muitas experiências, mas não todas. As atividades do surfe e do skate, entre outras, se constituíram num momento histórico onde os poderes disciplinares já eram menores e menos expressivos.

Para muitos jovens, os chamados “esportes californianos” representaram, nesses anos iniciais, uma espécie de liberdade e fonte de criação para novos movimentos corporais. Além disso, essas atividades também incentivaram outras formas de sociabilidade, que se fizeram como agregações tribais pautadas na diversão, na ludicidade e na vivência festiva do cotidiano.

 

Referências

BRANDÃO, Leonardo. Para além do esporte: uma história do skate no Brasil. Blumenau: Edifurb, 2014.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes, 2009.

HERRERA, Deibar René Hurtado Herrera. “In-corporar en la sociedad moderna y en las prácticas emergentes contemporaneas” In Recorde: Revista de História do Esporte. Volume 2, número 2, dezembro de 2009, p. 1- 19.

PORTER, Roy. História do corpo. In: BURKE, Peter (org.). A Escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Editora UNESP, 1992, p. 291 – 326.

SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Entre o corpo e a técnica: antigas e novas concepções. In Motrivivência, ano XI, n. 15, agosto de 2000, p. 1 – 6.


O surfe e a diplomacia cultural dos EUA

11/06/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

The Endless Summer (no Brasil, Alegria de Verão), dirigido e produzido por Bruce Brown, é, provavelmente, o filme de surfe mais famoso já feito. A película narra a trajetória de surfistas dos EUA que viajam ao redor do mundo em busca de ondas desconhecidas e do verão sem fim do título. Segundo o historiador Scott Laderman (2014), “gravado em 1963, The Endless Summer percorreu o circuito tradicional dos filmes de surfe em centros culturais públicos e auditórios de escolas secundárias na Califórnia, Havaí, Austrália e África do Sul ao longo dos dois anos subsequentes” (p. 48). Laderman e outros pesquisadores da história do surfe afirmam que o documentário foi fundamental para disseminar a ideia de viajar como um valor positivo dentro da subcultura do surfe. O autor afirma ainda que o filme foi “um dos documentários de maior sucesso em todos os tempos” e que “seu impacto cultural foi profundo”, tendo sido decisivo para dar visibilidade ao surfe ao redor do mundo (p. 49).

Contudo, este texto não é uma resenha de Alegria de Verão ou do livro de Laderman (o que já fiz). Meu objetivo é apresentar a descrição e análise de Lazerman a respeito do seguinte: “(…) de formas que ainda não foram exploradas pelos pesquisadores, The Endless Summer também ilustra como, durante o auge da Guerra Fria, os Estados Unidos vieram a enxergar o surfe como uma arma ideológica em sua cruzada anticomunista, pois, em maio de 1967, anunciou-se que o documentário apareceria, sob patrocínio do Departamento de Estado, no bienal Festival de Cinema de Moscou” (p. 49).

De acordo com o autor, algumas características da trama motivaram a escolha. A elas se aliava a liberdade de viajar demonstrada pelos protagonistas – “diferentemente da maioria daqueles vivendo no bloco soviético” -, o que serviria para evidenciar a superioridade do capitalismo. Havia ainda as tentativas simpáticas de contato face-a-face com populações locais de diferentes continentes, “pintando um retrato dos Estados Unidos como uma potência benevolente e simpática” (p. 50). O filme acabaria sendo cortado do festival por iniciativa de uma entidade representativa dos estúdios de Hollywood (MPAA – Motion Picture Association of America). Após a organização decidir que um único documentário dos EUA seria exibido, a entidade escolheu o documentário indicado pelo estúdio Columbia Pictures, que o produzira, em detrimento do filme independente de Bruce Brown.

Mas “aqueles que estavam a cargo da diplomacia cultural americana deram outra chance ao surfe algum tempo depois. O ano era 1970, o local era o Japão, e o cenário era a primeira exposição universal realizada na Ásia: a Exposição Universal do Japão, ou Expo’70, em Osaka” (p. 51). Documentos oficiais do governo dos EUA consultados pelo autor atestam que a participação na exposição converteu-se em mais um campo de disputas com a União Soviética. A organização ficou a cargo da United States Information Agency (USIA). A exposição do Pavilhão dos EUA foi dividida em sete temas – um deles, “esportes”. “Foi lá, no interior da exibição de esportes, que, até onde tenho conhecimento, o surfe tornou-se, pela primeira vez, assunto oficial da diplomacia cultural dos EUA” (p. 52).

Segundo Laderman, “os organizadores deram ao surfe papel de destaque na exibição” de esportes (p. 53). Havia uma instalação com 13 pranchas produzidas por shapers dos EUA (Dewey Weber, Rick Stoner e Bob White), reprodução de imagens cinematográficas de surfe feitas por Bruce Brown e fotografias de surfistas no Havaí. Segundo Laderman, o surfe moderno fora introduzido no Japão após a Segunda Grande Guerra, a partir da presença de militares estadunidenses. Ressalto que isto não ocorreu apenas no arquipélago japonês. Tal foi o caso, por exemplo, da Andaluzia, na Espanha (Esparza, 2015).

Naquele momento (1970), o surfe já era bastante conhecido no Japão e tinha praticantes em diversas partes do litoral. Tamio Katori, um surfista japonês, visitou mais de uma vez a exposição e “escreveu para as autoridades dos EUA perguntando se ele poderia adquirir as pranchas para seu clube de surfe após o término da exposição” (p. 54). Segundo ele, as pranchas poderiam contribuir para a “amizade entre ambos os países”. Eis como termina o episódio: “Três das 13 pranchas haviam sido emprestadas por Bob White e tinham que ser devolvidas ao shaper de Virginia Beach, mas as outras dez tinham sido adquiridas pela USIA. Para os Estados Unidos, atender à solicitação de Katori seria uma maneira eficiente de descartar objetos volumosos e, ao mesmo tempo, contribuir para a globalização daquele que era, agora, o mais americano dos passatempos prazerosos, além de estimular a amizade transpacífica. Não havia o que pensar. As pranchas foram vendidas” (p. 55).

Laderman destaca dois aspectos neste episódio. Primeiro, as ligações cada vez mais comuns entre o surfe e o “poder norte-americano global” (p. 55), como ficaria evidenciado na circulação de surfistas estadunidenses ao redor do globo, na presença de surfistas militares (ou militares surfistas) em praias de dezenas de países (aproveitando a existência de bases militares, especialmente as numerosas unidades da Marinha no Oceano Pacífico), na circulação de produtos de mídia (surf music, cinema, revistas) e no estabelecimento do inglês como língua-padrão da modalidade. Segundo, a exposição de 70 “ilumina o quanto o surfe, tal qual o Havaí, haviam se tornado naturalizados como, de alguma forma, americanos” (p. 55).

Acrescento um terceiro: a questão da nacionalidade, da identidade nacional e das distintas apropriações (culturais e de outras naturezas) do surfe ao redor do mundo são um tema bastante atual. Em março último, foram divulgados os critérios para classificação dos 40 atletas que disputarão, pela primeira vez, medalhas olímpicas na modalidade. Este ano, os atletas que disputam a divisão principal do Circuito Mundial passaram a competir com bandeiras dos países desenhadas no ombro de seus uniformes (acentuando-se a construção, no âmbito da principal liga de surfe profissional, da associação entre competição individual e nacionalidade) – e pelo menos dois deles (Kanoa Igarashi e Tatiana Weston-Webb) trocaram de nacionalidade, de olho em maiores probabilidades de se qualificarem para competir em Tóquio. Ambos criados e residentes em território estadunidense (ele, na Califórnia; ela, no Havaí) e filhos de pais estrangeiros. Ele passou a competir pelo Japão; ela, pelo Brasil. Com isso, ambos evitam participar da dificílima briga por vaga entre americanos e havaianos.

Bibliografia

ESPARZA, Daniel. Hacia una historia del surf en Andalucía: génesis y consolidación del surf en Cádiz y Málaga. Materiales para la Historia del Deporte, n. 13, p. 47-62, 2015. Disponível em: <http://upo.es/revistas/index.php/materiales_historia_deporte/article/view/1327/1210>. Acesso em 10 jul. 2015.

FORTES, Rafael. Surfe, política e relações internacionais. [Resenha de Empire in Waves]. Topoi, v. 18, n. 35, p. 453-456, abr.-ago. 2017. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/topoi/v18n35/2237-101X-topoi-18-35-00453.pdf . Acesso em 10/6/2018.

LADERMAN, Scott. Empire In Waves: A Political History of Surfing. Berkeley: University of California Press, 2014.


Esporte e industrialização

08/03/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Esta semana, discutimos no Laboratório Sport o capítulo “Industrialization and Sport”, de Wray Vamplew, professor emérito de Estudos do Esporte na University of Stirling. O texto integra o volume The Oxford Handbook of Sports History, organizado por Robert Edelman (University of California, San Diego) e Wayne Wilson (LA84 Foundation) e publicado em 2017. Trata-se de um ensaio que realiza um balanço bibliográfico da produção acadêmica em inglês sobre os temas mencionados no título, com ênfase nos EUA e na Grã-Bretanha.

Como destacou Luiz Carlos Sant’ana, o texto relativiza algumas relações que costumam ser tomadas como dadas nos estudos (históricos) do esporte. Por exemplo, as imbricações entre: a) esporte moderno e industrialização; b) disseminação do esporte e o espraiamento do império britânico no mundo. O fato de o autor ser um historiador econômico lhe permite lançar um olhar muito interessante e ainda pouco presente na maioria dos trabalhos de história do esporte – que, no Brasil, tem muito mais influência das histórias cultural e social (mais da primeira do que da segunda), conforme ressaltou Victor Melo.

A julgar por este capítulo, seria muito bom que o volume fosse logo traduzido e publicado no Brasil.

De minha parte, o que motivou estas breves notas foi considerar que o ensaio de Vamplew traz ao menos cinco contribuições para questionar/problematizar certos discursos e pressupostos sobre o esporte que persistem em alguns trabalhos sobre o tema na área de Comunicação – mas não só nela. O olhar de historiador econômico lhe dá elementos (e dados/conhecimento) para trabalhar por fora de categorias que são tomadas como dadas/estruturais quando, como alguns na Comunicação, se observa o plano das representações midiáticas como algo autônomo ou descolado em relação à vida concreta dos indivíduos, grupos, classes sociais e sociedades.

Eis as cinco contribuições:

1) As diferenças que existem entre um time, clube e/ou empresa esportiva e uma empresa comum.

2) A relação simbiótica de natureza diversificada – inclusive comercial – entre mídia e esporte desde, pelo menos, o finzinho do século XVIII (o texto fala de uma revista especializada publicada desde 1792!). Naquele momento, isto se restringia aos impressos (não custa lembrar: rádio, televisão e outros são invenções posteriores).

3) A fabricação de equipamentos para algumas modalidades atingiu graus de industrialização e comercialização em massa já no século XIX.

4) Dos pontos de vista comercial, econômico e profissional, há diferenças entre o modelo de organização em torno de clubes (Grã-Bretanha) e de franquias com proprietários (Estados Unidos).

5) Houve atletas recebendo para competir e obtendo recursos oriundos de fontes diversas antes mesmo da industrialização. A dicotomia amadorismo versus profissionalismo, muito presente nas primeiras décadas do século XX, dá conta de apenas uma parte das múltiplas e complexas relações entre esporte, mercado de entretenimento, lucro, trabalho e circulação de dinheiro.


A juventude sônica de Spike Jonze

15/01/2018

Por Leonardo Brandão (brandaoleonardo@uol.com.br)

É com muita alegria que escrevo este primeiro texto para “História(s) do Sport”, blog que já acompanhava há um tempo e que fui convidado para escrever sobre as relações entre história, juventude e esportes radicais. Neste texto inaugural, quero retomar a conversa iniciada pelo Rafael Fortes neste blog, em texto publicado no dia 27/11/2017 e que teve o seguinte título: “Videoclipe como fonte histórica”. Nele, Fortes abordava algumas possibilidades para se compreender o videoclipe, na esteira dos estudos sobre cinema, música e imagens, como mais uma possibilidade de fonte para a história dos esportes, do lazer e dos divertimentos com o corpo.

Pensemos que o videoclipe é algo que envolve a produção, necessariamente, de música com imagens em movimento. De fato, existe uma relação muito rica entre os chamados “esportes radicais” (ou “esportes californianos”) com a música, em especial, com o rock e seus matizes. E essa relação não começou hoje, ela tem uma – ou várias – história(s). Parte dessas histórias podemos observar em determinados videoclipes de bandas que fizeram uso dessas práticas. Esses videoclipes, ainda subutilizados para a pesquisa histórica, podem nos servir como um farto material de análise e reflexão.

Aqui, não pretendo realizar uma análise, mas apenas algumas considerações sobre um videoclipe lançado no ano de 1992. Trata-se do videoclipe da canção “100%”, da banda norte-americana “Sonic Youth”. Além disso, irei trazer algumas informações sobre seu diretor, chamado Spike Jonze. Minha intenção é apenas chamar à atenção para esse videoclipe, para a obra de Spike Jonze e suas relações com o skate. Num futuro breve, talvez isso possa motivar análises e discussões mais consistentes. Primeiramente, entretanto, vamos assistir ao videoclipe:

Sonic Youth foi uma banda formada no ano de 1981 na cidade de Nova York. A proposta musical da banda girou em torno do chamado “rock alternativo”, trazendo elementos do pós-punk e do noise. Um dos seus integrantes marcantes foi sua baixista, Kim Gordon. Ela, filha de um professor de sociologia, formou-se em Artes Plásticas na UCLA (Universidade de Los Angeles). Gordon roubava as cenas nas apresentações da banda, se declarava feminista e surfava nas horas vagas. A música do clipe acima, “100%”, foi lançada no ano de 1992, sendo o primeiro single do álbum “Dirty” (o sétimo do conjunto). Essa música foi escrita em homenagem a Joe Cole, um amigo dos membros da banda, que acabou morto por um homem armado em 1991.

“100%” é uma canção que fala de uma garota que se apaixona por um rapaz sem grana, mas que “mexia com as garotas” e que acabou assassinado. O fato dele não ter grana não era um problema.  Num certo momento de êxtase, a canção diz: “All I know is you got no money but that’s got nothing to do with a good time” (“tudo o que sei é que você não tem dinheiro, mas isso não tem nada a ver com um tempo bom”). E, neste momento do vídeo, um skatista olha para a sua carteira vazia, sem dinheiro, mas com um sorriso nos lábios, e continua a andar de skate pela cidade.

Mas o que vemos sobre skate neste videoclipe? Simplesmente boas manobras pela cidade. Mas isso – apenas – já não nos diz muito sobre o que era essa atividade juvenil no início da década de 1990? O skate neste período, sobretudo o skate de rua, pode ter sido predominantemente praticado por diversão, sem grandes pretensões mercadológicas, sem muitos ídolos milionários. Em uma palavra: sem muita grana envolvida. Jason Lee, o principal skatista que aparece nesse vídeo (ao lado de Guy Mariano), era tão somente um talentoso skatista de rua (e não o célebre Jason Lee que conhecemos hoje, famoso por ter sido o protagonista do seriado “My name is Earl”, e indicado como melhor ator para o Globo de Ouro nos anos de 2006 e 2007).

O videoclipe apresenta duas tomadas, uma com a banda tocando a música num show dentro de uma casa, com jovens bebendo e esparramados pelos sofás, e outra nas ruas, onde os skatistas aparecem fazendo manobras pela cidade. Esse clipe foi dirigido por Spike Jonze, que na época era tão somente um jovem que gostava de filmar seus amigos praticando skate (e praticava junto também).

Spike Jonze começou a se interessar por esportes alternativos quando jovem, aos 15 anos, e se interessou primeiramente pela BMX. Ele foi o fundador da revista Dirt, uma publicação direcionada para o mundo das bicicletas. Mas, logo em seguida, veio a paixão pelo skate e sua profissionalização enquanto diretor de videoclipes de bandas musicais.

Após “100%”, Spike dirigiu, em 1994, o videoclipe da música “Sabotage” dos Beastie Boys; e depois muitos outros, de bandas como: Fatboy Slim, Weezer, Chemical Brothers, R.E.M, Björk etc. Dirigiu também muitos filmes de skate, como “Goldfish” (1994), “Las Nueve Vidas De Paco” (1995), “Mouse” (1996), “”Chocolate Tour”” (1999), “Yeah Right!” (2003) e “Fully Flared” (2007), considerado seu melhor trabalho com o skate. Dos videoclipes para o cinema foi um caminho rápido. A primeira experiência veio em 1999, com o longa “Como ser John Malkovich”. Neste mesmo ano ele se casou com Sofia Coppola (filha de Francis Ford Coppola), com quem veio a se divorciar em 2009, no mesmo ano em que dirigiu o longa “Onde vivem os monstros”, uma adaptação de um livro do ilustrador Maurice Sendak, de 1963. Seu sucesso mais recente foi “Her”, de 2014, que conquistou cinco indicações ao Oscar.

Mas retornando ao videoclipe de “100%”. O que nos vem à mente quando o assistimos? O skate está lá, ele é um elemento central, mas sem pretensões, apenas skate de rua, improvisos, escadas, corrimãos. Do ponto de vista técnico, aparecem manobras desafiadoras para a época, como os truques em corrimão, escadarias e, certamente, o salto que finaliza o vídeo, executado por Jason Lee, um pulo seguido de uma virada de 180 graus de costas no ar, realizado com estilo e leveza (o nome da manobra em inglês é “backside ollie 180”).

Recuperando algumas ideias lançadas pelo Rafael Fortes no texto “Videoclipe como fonte histórica”, podemos atinar para os seguintes elementos: “Ano/época/contexto/lugar” de produção deste videoclipe, o que nos ajuda a pensar o início da década de 1990. Para uma análise de fato deste videoclipe, quantos elementos não seriam necessários? A noção de Tribos Urbanas, a ideia da cidade apropriada para diversão (qual cidade aparece no vídeo? Los Angeles?), o skate como arte corporal (como contracultura? Como subcultura? Como esporte?) e, além disso: Esse videoclipe dialoga com outras produções dessa mesma época? Creio que sim, e o mais emblemático talvez seja o filme Kids, produzido no ano de 1994 e dirigido por Larry Clark.

Falaremos sobre Kids em um outro momento. Por enquanto, ficamos com a inquietação: como melhor aproveitar esse rico universo dos videoclipes para a pesquisa em história dos esportes, em especial, para a história dos esportes californianos? Não somente o skate, mas o surfe, a BMX e tantos outros. Essa é uma ideia ainda inicial, em desenvolvimento, mas não podemos fechar os olhos para o seu grande potencial.


Tom Carroll no Pipe Masters de 1987, ou sobre a “superação” no esporte

01/01/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Superação é uma palavra comumente associada ao esporte. Aparece com frequência nas representações midiáticas do fenômeno esportivo, em geral relacionada ao desempenho de atletas de alto rendimento. No pouco espaço dedicado aos atletas paralímpicos, o enquadramento de “superação” me parece predominante e onipresente. Muitas narrativas midiáticas construídas a respeito do surfe, de certos surfistas e competições se inserem nesta lógica.

Neste primeiro texto de 2018, abordo brevemente uma delas: a vitória de Tom Carroll no Pipe Masters de 1987. Uso como fonte o filme Pipeline Masters, de 2006 (não encontrei em lugar algum os créditos de direção), disponível na íntegra abaixo (tampouco achei uma versão com legendas em português):

O filme aborda o campeonato disputado em Pipeline/Backdoor, no litoral norte da ilha de Oahu, no arquipélago havaiano. Trata-se, possivelmente, da onda mais famosa do mundo – e uma das mais perigosas. Realizado desde o início dos anos 1970 – antes de haver um circuito mundial de surfe profissional masculino -, o Pipe Masters é o campeonato de maior prestígio na modalidade, além de um dos mais tradicionais. A mídia do surfe em língua inglesa volta e meia usa a expressão “he’s a Pipe Master” (algo como “ele é um mestre de Pipe”) para se referir a algum ex-campeão. Desde que o circuito foi estabelecido, na maioria dos anos ele termina lá. Com isso, o certame decide não apenas quem será o Pipe Master, mas também o campeão da Tríplice Coroa Havaiana (composta pelos campeonatos realizados em Haleiwa, Sunset e Pipeline) e, frequentemente – como em 2017 – o título de campeão mundial masculino.

Por esses e outros motivos, o campeonato é um prato cheio para tais construções narrativas, como se pode perceber ao longo do documentário, tanto em edições anteriores quanto posteriores (por exemplo, na performance de Sunny Garcia em 1992, quase se sagrando campeão apesar de uma contusão séria que limitava-lhe os movimentos de um dos braços – as imagens são impressionantes).

Por volta de 47′, a narração do documentário classifica o que aconteceu em 1987 como “um dos momentos mais dramáticos da história das competições de surfe”. A partir daí, estabelece uma narrativa sobre a trajetória do australiano Tom Carroll. Bicampeão mundial, ele é apresentado como corajoso e até certo ponto irresponsável (até passar a ser um dos poucos a usar capacete por lá), características consideradas importantes para conseguir surfar bem uma onda veloz, poderosa e perigosa como Pipeline. Sua trajetória inclui uma final já na primeira participação, em 1979. Fez outras finais, mas, até então, nunca fora campeão. Novamente ia bem no campeonato de 1987, até que…

…recebe a notícia da morte de sua irmã, na Austrália, num acidente de carro. Em meio ao campeonato mais importante da temporada, Carroll é obrigado a lidar com a tragédia pessoal e familiar e pensar nas providências para retornar à Austrália para o funeral. Numa conversa ao telefone, o pai lhe diz para ficar no Havaí, “porque ela [a irmã] quer que você ganhe”.

Num depoimento emocionado (52′ em diante), o surfista diz: “senti que ela estava lá”. “Eu não surfei para ela. Eu surfei com ela”, afirma. Carroll venceu a final e tornou-se um Pipe Master – depois ganhou duas edições, em 1990 e 1991. Ajuda sobrenatural? Desempenho potencializado por um estado emocional alterado? Coincidência? Rumo natural dos acontecimentos – ou seja, um excelente surfista, em grande forma, finalmente vencendo um campeonato disputado na onda onde era, há anos, um dos melhores? Todas as alternativas anteriores?

Questões boas para a psicologia do esporte, e que considero interessantes para pensarmos o fenômeno esportivo e suas representações midiáticas. E, por que não, também as representações históricas e historiográficas que construímos.

Além disso, frequentemente, nós historiadores somos também admiradores, torcedores, espectadores e/ou praticantes: é possível termos envolvimentos de diversas ordens com os times, atletas, modalidades etc. que pesquisamos.

Para saber mais

Textos com a palavra superação publicados neste blogue.

*  *  *

Este post é uma homenagem a minha avó Dirce, que se foi em agosto de 2016, aos 91 anos. Devo a ela muito do que sou (sobretudo do que tenho de bom). Na tarde em que recebi a notícia da morte dela, faltava menos de uma semana para eu retornar ao Brasil. Tinha uma partida de tênis marcada com Steve, um coroa com quem vinha jogando duas ou três vezes por mês, invariavelmente perdendo por 2×0 (às vezes, em uma hora dava tempo de perder dois sets inteiros). Steve joga muito melhor do que eu – estava uns dois ou três níveis acima, tinha um excelente saque e o forehand mais demolidor que já enfrentei. Pensei em desmarcar a partida. Não o fiz, nem contei a ele o que tinha acontecido. Naquele dia, jogamos apenas um set, que durou cerca de uma hora. Embora arrasado por dentro, senti uma calma e consegui um grau de concentração e foco que nunca experimentara. Pela primeira e única vez, ganhei um set de Steve. Ele me parabenizou, ao mesmo tempo em que não escondia estar bastante irritado consigo mesmo e com o resultado (como acontece com todo tenista fominha). Nos despedimos e ele foi embora. Por um tempo que não sei precisar, fiquei ali, sozinho, sentado no banco à beira da quadra, olhando as árvores e o céu azul de fim de tarde do Balboa Park.


Videoclipe como fonte histórica

27/11/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

A ideia deste texto surgiu meses atrás, num papo com o colega Leonardo Brandão, professor de História na FURB, em Blumenau (SC). Ele pesquisa história do skate no Brasil há muitos anos – e em 2018 junta-se à equipe do blogue. É muito legal que os esportes radicais – ou californianos, como ele denomina – sejam o foco principal de outro pesquisador por aqui.

Faço neste texto alguns apontamentos sobre o potencial do videoclipe como fonte histórica.

Dark Necessities – o clipe e a Califórnia

Eis o clipe de Dark Necessities, do Red Hot Chili Peppers:

O clipe é gravado na Califórnia, estrelado por gente que lá vive (a banda e as skatistas) e dirigido pela atriz hollywoodiana Olivia Wilde – que, segundo o verbete da Wikipedia, “vive e trabalha em Venice e Los Angeles“. Venice é um distrito de Los Angeles com forte presença de artistas, esportistas, hippies etc., sendo, junto com a vizinha Santa Monica, importantes em termos de lançar modas e estilos; e lugares onde o skate tem uma enorme presença e relevância. Abundam no vídeo as referências às subculturas locais.

A Califórnia e, particularmente, a região metropolitana de Los Angeles são temas constantes nas músicas da banda, desde o uso de heroína sob viadutos em áreas degradadas do Centro (Under the Bridge) a brincadeiras com as representações do estado em relação a outros (Dani California). Para além de gostar de um punhado de canções, a banda tem para mim um significado especial, pois foi muito importante na formação, no amadurecimento e na manutenção de outra que me é muito cara, o Pearl Jam.

Voltando ao clipe… Estão lá as palmeiras; as avenidas e ruas; a imensa quantidade de asfalto (uma das características do Sul da Califórnia, onde está Los Angeles); a prática de skate por diversos cantos da cidade – facilitada, em alguma medida, pelas quantidades expressivas de superfície cobertas por asfalto, concreto e cimento; os amplos corredores de supermercado; os estúdios de tatuagem.

Ao mesmo tempo em que é o estado mais populoso e rico dos EUA e sede de boa parte das empresas ligadas a internet e tecnologia (provedores de acesso, Intel, Google, Facebook, indústria pornográfica, desenvolvedores de websites e empresas que os hospedam estão lá; mais fácil é listar as gigantes que não estão: Amazon e Microsoft, ambas no outro extremo da Costa Oeste, na região metropolitana de Seattle), o Sul da Califórnai também representa, nos Estados Unidos, ao menos desde meados do século XX, o paraíso sonhado para se viver, se passar férias ou se mudar após a aposentadoria. Muita gente que para lá viaja acaba decidindo ficar. Se mal compararmos com o caso brasileiro, os estereótipos em torno da Califórnia e algumas de suas características unem boa parte do que, no senso comum brasileiro, se associa ao Rio de Janeiro, ao litoral do Nordeste e a São Paulo.

Os corpos

Estão lá os corpos. Movimentam-se cantando, dançando e brincando (banda) ou rodando no carrinho pela cidade (elas skatistas). Mas não se trata apenas de andar de skate: ali está incorporado um certo estilo associado ao Sul da Califórnia e a grupos que lá vivem, especialmente jovens. Mais: há um recorte de estilo dentro do próprio skate: são longboarders, o que implica a construção de representação de formas de andar de skate distintas de outras. Diferença que se estabelece não apenas pelo tamanho do skate, mas também por como se anda, em que lugares da cidade, o que se faz sobre ele, que tipos de manobras e ações são enfatizadas. Os corpos e seus movimentos são centrais neste produto audiovisual.

Eles – ou melhor, a pele – estão à mostra. Carregam e exibem muitas, muitas tatuagens. Tatuagens que fazem parte de diversos estilos de vida, culturas e subculturas, grupos/segmentos californianos: skatistas, surfistas, artistas, hippies, junkies, latinos, negros e/ou muitos outros.

Os corpos ostentam piercings, pulseiras, brincos, cabelos longos. Estão lá os bonés de aba reta, as camisas de flanela, os shorts, shortinhos, calças e bermudas.

Os corpos da banda exibem marcas da idade: rugas.

Os corpos delas, das skatistas, contém também ralados, machucados, roxos, cicatrizes, cascas de ferida, remendos com esparadrapo.

Estão lá quatro garotas fazendo o que querem com seus corpos. Um texto da jornalista Jéssica Oliveira considerou essa a principal característica do vídeo: estar sintonizado com os tempos atuais e com os progressos na luta das mulheres para se libertar de padrões impostos pelos homens, pela sociedade e/ou pelo machismo. Trata-se de uma leitura muito interessante do videoclipe.

Uma das skatistas faz uma tatuagem no interior da boca. O clipe representa tal escolha como não apenas um feito individual, mas parte de um ritual coletivo. Afinal, quando falamos da cultura em torno de um esporte – e particularmente nos casos em que este evolve para um estilo de vida -, não se trata apenas de praticá-lo, mas de compartilhar uma série de vivências com o grupo do qual se faz parte (por isso alguns autores preferem usar o conceito de tribo ou tribo urbana para se referir aos skatistas). E a vivência em grupos, em especial durante a adolescência, significa se submeter a um conjunto de normas, em busca de ser aceito. Portanto, a meu ver o ato de fazer tal tatuagem pode ser compreendido de diversas formas, desde o prisma da escolha e liberdade individual até a inserção num contexto coletivo mais amplo, com as expectativas, demandas e desejos de participação, integração, reconhecimento e, também, submissão.

Ao mesmo tempo em que tem traços característicos de muitos outros clipes do RHCP – como a própria banda aparecer tocando/cantando/dançando -, é uma ode às mulheres e, a meu ver, também à Califórnia e ao skate.

Videoclipe como fonte histórica

Propor o videoclipe como fonte história significa levar em consideração elementos dos produtos baseados em imagens em movimento (cinema, televisão etc.): os formatos e gêneros; montagem, sonorização, edição, fotografia etc.; ângulos de câmera, enquadramento, duração dos planos, ritmo e tipo de cortes etc. Não analisei tais elementos na seção acima, mas deixo alguns apontamentos: a) o uso de câmeras em movimento para gravar as cenas de skate; b) o close e os enquadramentos para mostrar os corpos femininos (tatuagens, cicatrizes etc., bastante distintos das lógicas de erotização que geralmente cercam a filmagem destes corpos); c) os cortes dados pela música: num padrão até 0’43”, noutro a partir daí, quando entra o baixo tocado por Flea (a partir daí é que as skatistas entram em ação).

A noção de videoclipe como fonte história não se descola, é claro, da música como fonte histórica – outra fonte pouco explorada na história do esporte. No caso das canções, cabe analisar a letra (coisa que tampouco fiz com o clipe acima – entre outros motivos, porque a letra não é explicitamente sobre mulheres, skate ou Califórnia). Penso, por exemplo, na representação de hábitos e atividades de lazer num domingo “típico” do Rio em Eu quero ver gol, do Rappa ou Jesualda, de Jorge Ben Jor (canções que falam de esporte, de hábitos culturais, das clivagens de classe social, de zonas geográficas e de asfalto x morro; ambas permitem discutir gênero). Ou nos três primeiros discos do Rappa e do Planet Hemp como fontes ricas para se analisar representações do Rio de Janeiro nos anos 1990 – infelizmente, boa parte delas, tão verazes e atuais naquela época como hoje (Tumulto, Miséria S.A., Tribunal de rua, Mão na cabeça, Todo camburão tem um pouco de navio negreiro, Legalize já, Hey Joe e Zerovinteum). Não se trataria, evidentemente, de analisar apenas as letras. Pode-se abordar também: as melodias; a forma de cantar; as sirenes de polícia e muitos outros efeitos sonoros; diálogo com gêneros e formas musicais (no caso, influências do dub, do reggae, do hardcore, de Jorge Ben Jor; os samplers de outros artistas e recursos eletrônicos; ritmo; instrumentos e formas de tocá-los.

Ou seja, é possível ter em conta, na análise, forma, conteúdo, aspectos técnicos da música, da letra e das imagens que aparecem no videoclipe; a trama do videoclipe, o contar ou não de uma história, os estilos/gêneros cinematográficos ou televisivos a que remete: ficção, documentário, colagem, desenho animado, experimentações gráficas ou visuais. Feito para consumo massificado ou conceitual, para disputar prêmios em festivais? Ou ambos?

Do ponto de vista cronológico e temporal, penso ser possível estabelecer pelo menos três referências: 1) o ano/época/contexto/lugar em que a música foi produzida; 2) o ano/época/contexto/lugar em que o videoclipe foi produzido (geralmente muito próximo ou idêntico ao da música, mas nem sempre); 3) o ano/época/contexto/lugar em que se passa a trama, ou aos quais ela remete.

Finalizo com dois exemplos. No primeiro, que nada tem a ver com esporte, mas também é do Chili Peppers, a trama homenageia/remete a diferentes bandas, artistas e épocas/décadas (cabelos, maquiagens, roupas, modo dos músicos se portarem no palco, instrumentos tocados, equipamentos de som etc.). A música é Dani California, à qual já me referi antes. Tal com em “Dark Necessities”, as imagens não buscam representar a letra.

Segundo, É Brasil, Representa (Brazilian Storm), de Gabriel O Pensador, Apollo Nove e Alex Freitas Gomes. Lançados este ano, o clipe e a música são uma ode ao surfe brasileiro: destacam uma série de nomes, datas e acontecimentos do passado, ao mesmo tempo em que celebram a presença significativa de brasileiros (em quantidade e em termos de resultados) nos anos recentes no Circuito Mundial profissional masculino, incluindo os títulos conquistados por Gabriel Medina (2014) e Adriano de Souza (2015).

Embora com objetivos, estilos e diálogos bem distintos, ambos representam o passado (mais o primeiro que o segundo) e o presente a partir do presente.

Para saber mais

  • Sobre o uso de fontes ligadas à arte e à mídia para a pesquisa histórica: MELO, Victor A.; DRUMOND, Mauricio; FORTES, Rafael; MALAIA, João. Pesquisa histórica e história do esporte. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013.
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