POR UMA HISTÓRIA CULTURAL DOS SHAPES

27/09/2021

Por: Leonardo Brandão – @leobrandao77

Historiador e Professor Universitário

A história do skate geralmente é associada a eventos e personagens, sua evolução técnica, a formação de um campo esportivo ou aos conflitos que engendrou no espaço urbano. Entretanto, há um elemento importante que também nos ajuda a compreender sua trajetória: a prancha do skate, chamada de shape, seus formatos e grafismos.

De acordo com o pesquisador carioca Thiago Cambará, autor de uma dissertação de mestrado sobre este assunto, um primeiro desenvolvimento mais notável na arte dos grafismos nos shapes começou por volta de 1974 nos Estados Unidos, e isso a partir de um dos integrantes do grupo Z-Boys, chamado Wes Humpston. Ele começou a fazer nas suas pranchas (e na de alguns amigos), desenhos influenciados por símbolos encontrados nas jaquetas de motoqueiros ou mesmo em histórias em quadrinhos undergrounds (como as produzidas pelo desenhista Robert Crumb). Não demorou para que ele, junto a outro membro desta equipe (Jim Muir) fundassem uma marca de skate. Assim, no ano de 1978 nascia a Dogtown Skateboards, que foi a primeira empresa a fazer o uso de serigrafia para imprimir design gráficos em séries nos shapes.

Imagem 1: Shape Dogtown

Ainda de acordo com este autor, o contexto histórico do final do final dos anos 70 e início da década seguinte, marcado fortemente pela ascensão do punk-rock e do heavy metal, explica a escolha por desenhos baseados em caveiras, ossos ou animais ferozes. No ano de 1978, por exemplo, surgia nos Estados Unidos a empresa Powell Peralta, que se destacou pelo uso da famosa caveira – apelidada de Ripper – concebida pelo artista Vernon Courtlandt Johnson (VCJ).

Imagem 2: Ripper: a famosa caveira da Powel Peralta

Outra marca que fez um bom uso dos grafismos foi a Santa Cruz, que teve no artista Jim Phillips seu centro criativo, famoso pela criação da mão gritante (Screaming Hand) no ano de 1985, a qual estampou não apenas shapes mas também muitas roupas e adesivos desta marca e, até hoje, continua sendo sua principal identidade visual.

Imagem 3: Screaming Hand, da marca Santa Cruz

Com o tempo, outras influências foram surgindo, como tons mais abstratos vindo da cena musical da New Wave, e os desenhos também foram se modificando e apresentando abstracionismos e texturas mais coloridas, como vários modelos de shapes das marcas Sims e Vision atestam à época.

No Brasil, a arte dos shapes também teve um expressivo desenvolvimento. Empresas como a Lifestyle e Urgh! (entre outras) produziram shapes memoráveis no final da segunda metade da década de 1980 e início da seguinte. Nesta época, segundo Mallo Ryker (skatista desde 1987 e animador de gráficos em shapes):

“O skate tinha uma identidade com os models e com a personalidade dos skatistas, e cada um tinha a sua especialidade. Você se identificava muito com o rolê do skatista e com o model que ele usava, tanto o gráfico quanto o formato do shape, e aquilo era tua bandeira, o que te representava” (Entrevista realizada em 05/05/2020 – Arquivo do Autor).

Numa entrevista que também realizei com o Mauro Azevedo (proprietário da empresa Lifestyle), ele explicou que neste período sua marca tinha por “foco principal ouvir o skatista. A gente teve essa visão: uma marca de skate tem que ouvir o skatista. Então a Lifestyle passou a traduzir a ideia do skatista nos desenhos e formatos dos shapes (…)”. Mauro conta que cada skatista de sua equipe tinha um formato de shape diferente. Ele deu o exemplo do skatista Fernandinho “Batman”, que foi desenvolvendo o formato de seus shapes para ladeira conforme as manobras que ia realizando e aprendendo; então, conforme ele pegava no shape para dar um slide, ele falava:

“Aqui eu pego assim, aqui eu dou a manobra tal, então, ele sempre fez uns shapes diferentes né! O Daniel Bourqui, que era um skatista de vertical, era um shape largo com um tail bem alto em função das manobras que ele fazia no vertical, e o Rui Muleque e Beto or Die, ambos streeteiros, foram aperfeiçoando os pro models deles ao longo dos anos. Então, o pro model traduzia muito o rolê de cada skatista…e isso era o que era legal, o model era a característica do skatista” (Entrevista realizada em 15/06/2020 – Arquivo do Autor).

Atualmente – e infelizmente – os shapes perderam muito da estética que tinha no final dos anos 80. Tanto é que são apelidados de shapes Band-Aid ou Shapes Palito de Picolé, pois apresentam sempre um mesmo formato e gráficos pouco trabalhados. Por outro lado, há um movimento crescente que parece dizer que nada impõe que este destino seja inexorável. Nos Estados Unidos, o skatistas canadense Andy Anderson passou a assinar um model de shape todo quadrado, útil para adaptar manobras de freestyle no street moderno; empresas como a New Deal estão relançando shapes do início dos anos 90 com duas furações para os eixos e o skatista Mike Vallely vem produzindo shapes diferenciados com sua marca Street Plant.

No Brasil, recentemente, a marca Lodo Boards, numa parceria com o site Trocando Manobras do skatista Filipe Maia, lançou um shape no formato oval; e a própria Lifestyle relançou seus models que fizeram sucesso no final dos anos 80, como podemos observar na imagem a seguir:

Imagem 4: Shape da Lifestyle, model Rui Muleque (Stage III)

Talvez o futuro não seja dominado unicamente pelos shapes band-aid, pois o crescente saudosismo dos shapes com gráficos elaborados, outros formatos, com nose pequeno e tail grande, ou todo cheio de dobras e quinas, possa de fato retornar e construir um futuro mais aberto para experimentações estéticas e para a pluralidade de estilos!

Para saber mais:

CAMBARÁ, Thiago. Skate e o seu design gráfico: uma breve análise. In: BRANDÃO, Leonardo; HONORATO, Tony (Org.). Skate & Skatistas: questões contemporâneas. Londrina: UEL, 2012, p. 111 – 146.

PHILLIPS, Jim. Surf, Skate & Rock Art. Atglen: Schiffer Publishing, 2004.


Skate, atitude e política

25/06/2021

Por: Leonardo Brandão (@leobrandao77)

Universidade Regional de Blumenau – FURB

IMAGEM: Murilo Romão, do coletivo Flanantes, praticando skate de rua no centro de São Paulo/SP. Fotografia: André Calvão. Clique sobre a imagem para ampliá-la.

NOTA INTRODUTÓRIA:

No dia 21 de junho comemora-se o Dia Mundial do Skate. Neste ano, fui convidado para realizar um depoimento num evento organizado na Unibes Cultural, em São Paulo/SP. O organizador deste evento solicitou um depoimento sobre a relação entre skate, atitude e política. O depoimento que proferi tomou por base este texto que segue abaixo para leitura.

***

A relação entre a prática do skate e a noção de atitude é antiga. Podemos retornar no tempo e nos lembrar dos Z-Boys, grupo de skatistas que, nos Estados Unidos, revolucionou essa atividade durante a década de 1970 ao invadir piscinas em propriedades particulares e praticar skate em suas transições, fato este que está no documentário “Dog Town and Z-Boys”, dirigido por Stacy Peralta e que, inclusive, pode ser conferido no You Tube para quem tiver curiosidade[1].

A atitude na prática do skate se revela de inúmeras maneiras, seja pelo visual (a indumentária), na sua relação com a música (geralmente com o punk-rock, ou o chamado skate-rock e também ao rap) e, sobretudo, nas manobras; isto é, na escolha das manobras e onde realiza-las. Na prática do skate de rua (street), há um elemento incontestável de atitude no flanar pelo urbano, quando os skatistas se apropriam de determinados elementos da cidade, os chamados aparelhos urbanos, tais como escadas, transições, bancos, guias etc.

Na história do Skate, tais atitudes ganham dimensões políticas. No caso do Brasil, é conhecida sua proibição na cidade de São Paulo no ano de 1988, pelo autoritarismo de seu prefeito à época, Jânio Quadros…O skate apenas voltou a legalidade na gestão de Luiza Erundina no início dos anos 90. Todo este episódio da proibição do skate em São Paulo encontra-se muito bem documentado, e isso tanto no Jornal “A Folha de S. Paulo” quanto na revista Yeah!, que tinha como editor-chefe Paulo Anshowinhas e que foi uma das principais mídias de skate da década de 1980 no país. Posteriormente, vale destacar que também tivemos políticas públicas que beneficiaram o skate ao construir espaços específicos para sua prática. Exemplos neste sentido podem ser observados na gestão da ex-prefeita Marta Suplicy, que viabilizou a entrega de inúmeras pistas no Projeto Centros de Bairro[2] ou na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad, que além de incentivar a ideia de “cidade para pessoas”, também realizou a construção de pistas de skate, como o Centro de Esportes Radicais, localizado no Bom Retiro ou ainda a Pista de Skate da Chácara do Jóckey.

Mas há uma relação mais complexa que envolve skatistas e a temática do poder. Para além das políticas públicas aqui destacadas, podemos pensar que o poder se relaciona com a atitude do skate de inúmeras maneiras. Recentemente, tivemos a destruição de um pico clássico do skate paulistano, no Vale do Anhangabaú. Inconformados, os skatistas resistiram e conseguiram, através de um movimento urbano que ficou conhecido como “Salve o Vale”, viabilizar parte da reconstrução deste pico, sob supervisão e projeto do arquiteto Rafael Murolo. Este novo pico atualmente é conhecido como o Memorial. Esta história de luta e negociação com o poder público virou um livro, organizado pelo skatista profissional Murilo Romão e que conta toda a saga do skate no Vale do Anhangabaú, desde os primórdios, passando pela destruição e a posterior construção do memorial, que se tornou um aparelho urbano skatável.

Este acontecimento, portanto, nos mostra que o poder não tem apenas uma via, ele pode reprimir, mas também pode ser usado para a construção, para algo positivo. No caso do skate praticado na rua, os skatistas conhecem há muito tempo a temática do poder, que neste caso é quase sempre utilizado na forma disciplinar, sobretudo com guardas e policiais, que não autorizam o uso de determinados espaços urbanos. Mas existem maneiras de contornar esse poder disciplinar e realizar a apropriação da cidade, e o coletivo Flanantes, que vem produzindo uma série de filmes sobre o uso criativo do skate nos espaços públicos é uma prova disso (Todos os vídeos dos Flanantes podem ser conferidos também no Youtube).

Por fim, há também uma outra dimensão do poder, e na minha tese de doutorado, que deu origem ao livro “Para Além do Esporte: Uma História do Skate no Brasil”, que eu intitulei de Poder Esportivo. Esta modalidade do poder visa transformar o skate num esporte de competição, criando regras, categorias, rankings etc. Trata-se de um poder que visa moldar o skate no campo esportivo, sendo, uma de suas maiores conquistas, a entrada do Skate nas Olimpíadas.

Este breve panorama nos faz ver, portanto, que não podemos falar no skate no singular, mas sim no plural. Não existe o skate ou o skatista, mas sim determinadas formas de utilizar o skate, seu uso heterotópico nas ruas ou na forma de competição em espaços delimitados e organizados para tanto; como também não existe o skatista, mas skatistas, com identidades múltiplas, pois enquanto há aquele que se reconhece enquanto um atleta (houve num passado até quem já se intitulou “Atleta de Cristo”), existem outros que preferem interpretar o skate, na expressão do skatista Klaus Bohms, como uma “ferramenta de reinterpretar espaço”, o que associa o skate muito diretamente ao campo artístico.

Para saber mais:

BRANDÃO, Leonardo. Para além do Esporte: uma história do skate no Brasil. Blumeau: Edifurb, 2014.

ROMÃO, Murilo (Org.) Vale TXT. São Paulo: Flanantes, 2020.


[1] https://www.youtube.com/watch?v=7YKPEDayb_U, acesso em 15/06/2021.

[2] https://cemporcentoskate.com.br/fiksperto/marta-suplicy-oficializa-a-entrega-das-44-pistas-de-skate-em-sp/, acesso em 15/06/2021.


PESQUISA DE MESTRADO NA UFRJ IRÁ COMPARAR PICOS CLÁSSICOS EM SÃO PAULO/SP E RIO DE JANEIRO/RJ[1]

10/05/2021

Entrevista realizada por: Prof. Dr. Leonardo Brandão (FURB)

Instagram: leobrandao77


As pesquisas universitárias sobre skate no Brasil vem crescendo tanto em quantidade quanto em qualidade. Já são vários os Trabalhos de Conclusão de Curso (os famosos TCC’s) que abordam, sob diferentes ângulos, a prática e a cultura do skateboard. Algumas pesquisas avançam também na Pós-Graduação, com dissertações de Mestrado   e Teses de Doutorado. Neste âmbito, a mais recente pesquisa aprovada para se tornar uma dissertação de Mestrado vem do Rio de Janeiro/RJ, na pessoa do geógrafo e skatista Luciano Hermes (43 anos), que recentemente foi aprovado no Mestrado em História Comparada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e com um projeto que visa comparar os processos de reivindicação da prática do skate em dois picos clássicos, o Vale do Anhangabaú em São Paulo (que agora é o Memorial) e a famosa Praça XV no Rio de Janeiro/RJ

Conversei um pouco com Luciano para conhecê-lo melhor e saber um pouco mais de seu projeto de pesquisa, seus objetivos e como ele pretende realizá-lo. A seguir, nosso bate-papo:

1 – Olá Luciano! Gostaria que você se apresentasse, contando um pouco sobre você, em especial sua trajetória na cena do skate e acadêmica.

Olá! Meu nome é Luciano Hermes da Silva. Tenho 43 anos e sou skatista desde 1989. Comecei a andar de skate no breve período de existência da Associação de Skate de São Gonçalo (ASSG). A primeira coisa que se reparava era que os próprios skatistas, em regime de mutirão, montavam rampas e trilhos para andarem de skate em uma rua de asfalto liso. A família de um dos skatistas não se incomodava com a sessão em frente de casa, como também deixava guardar na garagem os obstáculos. A ASSG organizou alguns campeonatos de skate entre 1988 e 1989 que foram muito importantes para a História do skate no RJ.

Bom que se diga, que na virada da década de 1980 até meados da década de 1990, muita coisa mudou no skate e na sua própria prática. Daí que a cada nova fase, um certo tipo de pico se tornava mais frequentado por nós. De início as rampas de madeira da ASSG, e depois, o ringue de patinação do Campo de São Bento, as mini-ramps (Lauro Müller, Urca, Piratininga e Mutuá), a pista de São Francisco, além dos precários picos de rua.

A prática de skate intensa até 1997 foi interrompida por causa de trabalho e estudos, até que só foi ‘resgatada’ junto com a liberação do skate na Praça XV, em 2011.

Atuo como professor de Geografia desde 2001 e, de 2012 até os dias de hoje, trabalho como professor de Geografia na rede municipal do Rio de Janeiro.

A partir de 2013, juntamente com Nelson Diniz, que é também skatista, professor e pesquisador em Planejamento Urbano e Regional, iniciou-se um esforço analítico sobre a prática do skate. Em coautoria, publicamos e apresentamos ao debate acadêmico algumas elaborações nossas a respeito dos conflitos relativos à prática do skate em espaços públicos no Rio de Janeiro.

Fui recentemente aprovado no mestrado no Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ (PPGHC-UFRJ), na turma de 2021, com o projeto cujo título é: “O skate conquista o centro da cidade: Praça XV-RJ e Vale do Anhangabaú-SP em perspectiva comparada”.

2 – Explique como você teve a ideia de escrever este projeto de mestrado que foi aprovado na UFRJ e qual o seu objetivo?

A pesquisa sobre a prática do skate em espaços públicos nos permitiu identificar padrões de ação dos skatistas e dos gestores urbanos no caso da Praça XV, no Rio de Janeiro. De modo que, ao observar o que se passou no Vale do Anhangabaú, já se dispunha de alguns conceitos.

A ideia decorreu do interesse em identificar semelhanças e diferenças nos dois casos. O objetivo central do projeto é estabelecer uma perspectiva comparada dos padrões de ação dos skatistas organizados no Coletivo XV e no Salve o Vale nos processos de reivindicação de uso dos espaços públicos da Praça XV e do Vale do Anhangabaú.

Entre os objetivos específicos da pesquisa, um merece destaque: a discussão sobre a centralidade da categoria espaço público nos discursos dos dois casos considerados.

3 – Como você fará esta pesquisa? Fale um pouco sobre a questão do método.

O projeto está sob orientação do Professor Dr. Fernando Luiz Vale Castro e sob co-orientação da Professora Drª Andréa Casa Nova Maia, o que significa algumas mudanças de estratégia no decorrer do curso. De toda forma, o plano inclui os seguintes procedimentos: revisão da literatura, realização de entrevistas, trabalhos de campo de observação participante, pesquisa iconográfica e audiovisual.

A análise dos Decretos e dos Planos Diretores subsidiará o estabelecimento dos marcos temporais, bem como a elaboração dos questionários das entrevistas.

Como se trata de um processo recente e de pouca sistematização a respeito, o recurso das entrevistas é de grande relevância. Pretende-se realizar entrevistas com os skatistas responsáveis pela organização do Coletivo XV e do Salve o Vale, com representantes das instituições da administração públicas envolvidas nos processos de negociação (Secretaria de Parques e Jardins e Instituo Nacional do Patrimônio Histórico, no Rio de Janeiro e Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras, em São Paulo), bem como com representantes das empresas responsáveis pela construção dos mobiliários urbanos adicionados à Praça XV.

A observação participante é o recurso ao qual se recorrer para o registro da dinâmica da normalidade dos espaços públicos considerados. Pretende-se adotar a prática do registro em diário de campo para a tomada de notas a respeito, por exemplo, do convívio entre skatistas e demais frequentadores e transeuntes tanto da Praça XV, quanto do Vale do Anhangabaú.

Através dos registros fotográficos e audiovisuais, tanto das mídias especializadas, quanto dos acervos particulares, pretende-se reconstituir a trajetória da ocupação dos skatistas na Praça XV e no Vale do Anhangabaú.

4 – O espaço final é seu. Deixe algum recado para quem está lendo essa entrevista e pretende pesquisar skate na Universidade.

Muito obrigado pela recepção e pela consideração à pesquisa.

Diria que o mais importante é definir qual aspecto do skate se vai investigar. Com o objeto bem definido é que se elabora uma questão para ser pesquisada. Um exemplo banal, no caso da História do skate: “Quais manobras já mandaram subindo o corrimão tal?” Nenhuma das manobras descendo o corrimão responde à questão.

No mais, diria que a recepção é sempre muito boa quando se apresenta a ideia a outros pesquisadores.

O caminho está minimamente pavimentado, na medida em que há, tanto no Brasil quanto em outros países, uma produção considerada válida para se tomar por referência.

SAIBA MAIS

“O que o skate pode dizer sobre o ensino de geografia?”

Luciano Hermes da Silva e Nelson Diniz (2014)

https://www.cp2.g12.br/ojs/index.php/GIRAMUNDO/article/view/50

“Contra-uso skatista de espaços públicos no Rio de Janeiro”

Nelson Diniz e Luciano Hermes da Silva

http://emetropolis.net/artigo/202?name=contra-uso-skatista-de-espacos-publicos-no-rio-de-janeiro


[1] Publicado originalmente, com pequenas alterações, no site da revista CemporcentoSKATE.


SKATE, HISTÓRIAS PLURAIS

28/12/2020

Leonardo Brandão – leohst@hotmail.com

            Chimamanda Adichie é uma mulher negra, escritora nigeriana e feminista. Numa palestra cujo o título é “The danger of a single story” – ou “O perigo de uma história única” – ela nos alerta para a armadilha, quase sempre presente, de cairmos numa explicação simplista dos acontecimentos. Ela fala, evidentemente, da África, continente que teve sua história contada pelo colonizador europeu. Entretanto, pondera a escritora: tantas outras vozes são possíveis de se escutar sobre a África! Nós podemos partir, por exemplo, do ponto-de-vista dos próprios africanos (e lembrando que os africanos são diversos, logo, teremos histórias também diversas!).

            Para ela, é impossível falarmos de uma história única; se ela existe, é preciso questioná-la, problematizá-la e pesquisar para se escrever outras histórias, com outros olhares, personagens, regiões etc. Em suas palavras, ela reitera que “quando rejeitamos a história única, quando nos apercebemos de que nunca há uma história única sobre nenhum lugar, reconquistamos uma espécie de paraíso”.

            Acerca da História do Skate, poderíamos perguntar: Que espécie de paraíso poderíamos recuperar ao negarmos uma história única do skate? Ao questionarmos, por exemplo, a verdade de uma versão que se quer oficial, e que por repetição, nos faz acreditar que o skate teria uma história que iria de sua origem como brincadeira de criança e chegaria, na maturidade, a ser um esporte Olímpico? Por que haveria, necessariamente, essa linha evolutiva na história do skate? A quem interessa contar esse tipo de história? Pois todo mundo já ouviu – pelo menos nos veículos da mídia hegemônica – histórias como: “O skate veio do surfe”, ou ainda: “era uma brincadeira que virou esporte”, ou aquela famosa frase: “o skate se tornou um esporte radical”.

            Tais ideias e conceitos, de tanto aparecer e se repetir, podem até mesmo ganhar a aparência de naturalidade, de obviedade. Mas cabe aos historiadores, entretanto, estranhar aquilo que nos fazem querer crer, neste caso, a própria ideia de um desenvolvimento linear da prática do skate. Pois se o skate é (e sempre foi) uma ideia, essa ideia guarda em si outras formas de interpretação e significados. A título de exemplo, podemos aqui recuperar o que disse Ian MacKaye, vocalista da banda Fugazi, sobre o início de seu envolvimento com o skate nos Estados Unidos:

Como sempre nada estava acontecendo e eu resolvi me tornar um skatista. Skateboard não é um hobby, não é um esporte. Skateboard é uma maneira de aprender a redefinir o mundo a sua volta. O jeito de como sair de sua casa, se conectar com outras pessoas, e olhar o mundo através de um ponto de vista diferente!

            No skate, as histórias são múltiplas, seus agentes são complexos, suas tramas se desenvolvem por caminhos diversos e, não raras vezes, conflitantes. A história de sua organização como um esporte não apaga outras tantas histórias que, ao lado dos eventos oficiais, dos calendários e das competições, imprimem à prática um sabor especial.

Para saber mais:

BRANDÃO, Leonardo. Para além do esporte: uma história do skate no Brasil. Blumenau: Edifurb, 2014.

BRANDÃO, Leonardo. A cidade e a tribo skatista: juventude, cotidiano e práticas corporais na História Cultural. Dourados: Ed. UFGD, 2011.

 


SKATE POÉTICO: UM PROJETO SOCIAL NA PERIFERIA DE SÃO PAULO/SP

03/09/2020

Por Leonardo Brandão

(Historiador/FURB)

Skate e Poesia podem andar – ou deslizar – juntos! Esta é a ideia de um projeto social surgido de um skatista, professor de Educação Física e morador do Jardim Romano, na periferia da cidade de São Paulo. Seu nome é Nanderson Silveira dos Santos, mais conhecido como Nando. Segundo ele, o Projeto Skate Poético (PROSKAP) começou no ano de 2016, inicialmente com a ideia de oferecer aulas de skate e produção de poesias para crianças e adolescentes do Jardim Romano, bairro carente situado no extremo leste da periferia de São Paulo.

Nando explica que, para entendermos melhor a gênese deste projeto, é necessário retornar alguns anos no tempo, ou melhor, ao ano de 2004.  Pois foi neste ano que ocorreu as eleições para a prefeitura de São Paulo, sendo que a atual prefeita à época, Marta Suplicy, prometeu, caso fosse reeleita, a construção do Centro Educacional Unificado (CEU) Três Pontes, no bairro Jardim Romano. Entretanto, esse fato não se consolidou naquele momento em função da vitória do candidato da oposição, José Serra (PSDB). Mesmo assim, essa promessa, segundo ele, fez surgir o sonho de uma pista de skate no local, uma vez que todos CEUs construídos pelas administrações petistas contavam com pistas de skate em suas dependências.

Passados quatro anos, no dia 31 de agosto de 2008, fora inaugurado o CEU Três Pontes, sob a administração do vice de Serra, Gilberto Kassab (DEM), mas sem nenhuma pista de skate. A partir dessa conjuntura, surgiu um movimento dos skatistas locais com o objetivo de reivindicar um espaço qualquer para à prática do skate na região. Porém, somente em 2014, depois de muito diálogo e insistência, foi cedido pela diretoria do CEU Três Pontes uma quadra poliesportiva e um espaço para guardar os obstáculos de skate (rampas, “caixote”, corrimãos etc.) feitos de madeira.

Assim, foi nesse contexto de luta por espaço e reconhecimento que surgiu a ideia de dar aulas de skate e, por conseguinte, em 2016, foi desenvolvido o Projeto Skate Poético. Nesta época, Nando explica que estava escrevendo com frequência poesias e também frequentando Saraus de “poesias periféricas” em seu bairro; e em função disso, embora a ideia ainda estivesse pouco madura, surgiu o objetivo de unir skate com a prática da leitura de poesias, visto que esse gênero dá mais liberdade e é mais fácil de ser trabalhado com crianças e adolescentes, pois permite ir além da norma culta da língua portuguesa (recurso conhecido como licença poética).

Na época, o projeto já contava com oficinas de customização de skates, rodas de conversa, saraus e pequenos campeonatos de skate. Contudo, as atividades aconteciam de maneira muito esporádica. Foi somente em 2017 que o projeto começou a ter um calendário organizado. Isso ocorreu quando Kevin Nascimento da Silva (skatista e professor de História no município) passou a integrar o projeto Skate Poético e, com a sua ajuda, foi possível revisar o projeto original e incluir mais oficinas, como a de mercenária e de produção de “shapes sustentáveis”, essa última ainda em fase de experimentação. Neste mesmo ano, logo após a entrada de Kevin, Rafael Souza Alves Diniz (skatista e também professor de História do município) se voluntariou a participar, fechando a equipe atual. De lá para cá, o projeto amadureceu, expandiu e conseguiu se sustentar com periodicidade e um bom número de participantes fixos.

Atualmente, Nando conta que ainda utilizam a quadra poliesportiva do CEU Três Pontes para as aulas de skate, rodas de conversa, leitura e interpretação de textos, sendo que o projeto passou a contar também com oficinas de marcenaria (em que os alunos aprendem a construir seus próprios obstáculos de skate); oficinas de customização de lixas (na qual os alunos aprendem a criar estêncil com uso de ferramentas manuais e digitais); oficinas de fabricação de shapes sustentáveis, jogos e brincadeiras.

Sobre os desafios atuais para a continuidade deste projeto, Nando explica que como se trata de um projeto independente e que atua no extremo leste da periferia de São Paulo, eles não contam com nenhum apoio governamental, nenhuma política de fomento ao esporte, lazer e educação e nem com recursos privados. Evidentemente, em virtude disso, eles tem algumas dificuldades, sobretudo para a aquisição dos utensílios próprios de skate, como shapes, rodas e equipamentos de segurança, pois aos poucos, os skates montados com peças usadas já não são mais suficientes para atender a demanda crescente de novos alunos. Em razão disso, ele explica que separam os alunos em grupos, de acordo com a idade e nível de habilidade, e fazem um rodízio para o uso dos skates. Também faltam livros suficientes e significativos para atividades de leitura e escrita, bem como materiais para atividades lúdico-recreativas. A maior parte dos materiais que usamos, explica Nando, como poemas impressos em papel sulfite, cones esportivos, bambolês, skates e equipamentos de segurança, são comprados com dinheiro do próprio bolso e/ou com rifas que organizamos junto à comunidade.

A falta de apoio prejudica, por exemplo, quando eles se organizam para fazer passeios às pistas de skate de outros bairros ou em museus, pois nem todos alunos conseguem ir, devido à falta de dinheiro para a passagem de trem e/ou ônibus. Por isso, este ano começaram a buscar informações de como formalizar e regularizar o projeto com o intuito de conseguir recursos públicos e/ou privados para a aquisição de skates, equipamentos de segurança, livros de poemas/poesias e outros materiais para a realização das demais atividades. Por esse motivo, recentemente responderam a um formulário realizado pela Confederação Brasileira de Skate e a ONG Social Skate, o qual tinha como objetivo mapear, conhecer e colaborar com ações sociais em todo Brasil que utilizam skate como ferramenta de inclusão social.

A seguir, apresentamos algumas fotos do Projeto Skate Poético cedidas e legendadas pelo próprio Nando e que estão disponíveis no Instagram @projetoskatepoetico de modo público.

Imagem 1: Oficina experimental no recreio do CEU Três Pontes.

 

Imagem 2: Aula de “tail drop” na rampa reta.

 

Imagem 3: Aluna do Projeto trabalha equilíbrio numa gangorra proprioceptiva.

 

Imagem 4: Aula de ‘rolamento’ (quedas) com skate.

Imagem 5: Roda de conversa sobre diversidade e respeito às diferenças

Para ajudar esse projeto com doação de livros, peças de skate, equipamentos de proteção e/ou ver mais fotos das atividades realizadas, siga e entre em contato com seus idealizadores através do Instagram @projetoskatepoetico


Skate e Antropologia: uma conversa com o Prof. Dr. Giancarlo Machado

22/06/2020

Entrevista realizada por Leonardo Brandão

Giancarlo Machado. Fonte: Acervo pessoal.

Meu primeiro contato com Giancarlo Machado foi pela Internet em 2007, e isso através de um blog que ele editava chamado “Skate é Cultura” (o qual chegou a receber a premiação de melhor blog neste mesmo ano durante as festividades do Troféu Street/Beach). Eu enviei um e-mail e ele respondeu; e assim começou uma relação que se consolidou em 2009, ano em que eu começava meu doutorado em História e fui visitá-lo em sua casa, à época, na cidade de São Paulo.

Mineiro, Giancarlo é um sujeito muito agradável e de bom papo. Começou a pesquisar skate ainda na graduação, fazendo carreira na pós-graduação (mestrado e doutorado, ambos na USP), depois passou num concurso público e se tornou professor universitário, atuando tanto na graduação quanto na pós-graduação. Além disso, em função de suas pesquisas e publicações acadêmicas sobre skate, Giancarlo se tornou uma das vozes mais importantes sobre o assunto, principalmente na relação entre a prática do skate, os espaços urbanos e a questão da citadinidade – relação essa que vem explorando através do método etnográfico.

Em isolamento social em função da pandemia do novo Coronavírus, esta entrevista ocorreu por e-mail e não por intermédio de um gravador, como geralmente são realizadas entrevistas. Ao todo, foram quatro questões sobre sua relação acadêmica com o skate, incluindo também sugestões bibliográficas e dicas de possíveis temas que ainda necessitam ser pesquisados.

 

1 – Como o skate se tornou, para você, um objeto de estudo?

R: Durante a minha graduação em Ciências Sociais, ainda no segundo período do curso, o professor responsável pela disciplina Antropologia II, Prof. Dr. João Batista de Almeida Costa, solicitou que cada aluno escolhesse algum tema a fim de realizar uma etnografia. Fiquei muito indeciso quanto a escolha. Sempre tive curiosidade por questões urbanas, sobretudo pela relação entre juventudes e cidades. Eu tinha notável interesse em compreender as particularidades de várias práticas e experiências citadinas – punk, rap, street art e principalmente skate de rua –, e, em decorrência disso, passei a cogitar a possibilidade de analisar, etnograficamente, um destes universos. Contudo, fiquei com receio de apresentar a proposta ao professor, pois não sabia, até então, da chance de estudar, sob uma perspectiva antropológica, aquilo que me era tão familiar. Um pouco tímido, resolvi compartilhar a intenção de fazer uma etnografia sobre a prática do skate, tendo como foco a sociabilidade entre os praticantes. O professor acolheu a minha proposta e me tranquilizou ao revelar algumas das diversas subáreas da Antropologia – como Antropologia Urbana, Antropologia do Esporte, Antropologia da Juventude – que se dedicam a analisar temas e situações parecidas. Fiquei muito empolgado e, desde então, passei a ler diversos autores ligados sobretudo a Antropologia Urbana brasileira – como José Guilherme Magnani, Eunice Durham, Teresa Caldeira, Heitor Frúgoli Jr., Gilberto Velho, Roberto DaMatta, Alba Zaluar, Janice Caiafa, dentre outros. O trabalho de campo iniciou-se em 2005. Fiz duas viagens para Belo Horizonte, e lá, na capital mineira, comecei a ter contato com skatistas amadores e profissionais a fim de descrever algumas de suas dinâmicas relacionais. No ano seguinte resolvi ampliar o recorte e, para tanto, elaborei um projeto de iniciação científica – sob a orientação do Prof. Dr. João Batista de Almeida Costa, e com financiamento da FAPEMIG – que objetivava analisar as redes de relações entre skatistas através de suas participações em campeonatos de skate. Acompanhei tais eventos em diferentes níveis: local, regional e nacional. Tive a oportunidade, em 2006, de fazer trabalho de campo no Circuito Drop Dead Am, realizado em Curitiba, a principal competição amadora do país. Importantes destaques do skate mundial contemporâneo, como Luan de Oliveira, Milton Martinez, Felipe Gustavo, Filipe Ortiz, Yuri Facchini, Letícia Bufoni etc., eram crianças na época e, mesmo assim, já se destacavam enquanto competidores. A iniciação científica durou dois anos e posteriormente foi transformada num trabalho de conclusão de curso intitulado “Todos juntos e misturados: um estudo sobre a formação das redes de relações entre skatistas em campeonatos de skate”, defendido em 2008. Os resultados da pesquisa foram publicados, anos após, em um capítulo da primeira coletânea acadêmica sobre skate do país, “Skate & Skatistas: questões contemporâneas” (EdUEL, 2012), organizada por Leonardo Brandão e Tony Honorato.

 

2 – Você estudou o skate tanto no mestrado quanto no doutorado. Trata-se de pesquisas complementares ou independentes? Você poderia explicá-las brevemente?

R: São pesquisas complementares. Inspirado pelo trabalho de conclusão da graduação, resolvi escolher um outro recorte para produzir uma nova pesquisa sobre skate. Fui aprovado no mestrado em Antropologia Social da USP, sob a orientação do Prof. Dr. Heitor Frúgoli Jr., especialista em Antropologia da Cidade, com bolsa FAPESP. Entre 2009 e 2011 desenvolvi, então, a dissertação intitulada “De carrinho pela cidade: a prática do street skate em São Paulo”. Meu foco foi a cidade de São Paulo, para onde me mudei a fim de aproveitar certas possibilidades profissionais e acadêmicas. A dissertação analisou como os skatistas relacionam suas práticas citadinas às práticas de cidadania a que estão sujeitos na capital paulista. Por meio da etnografia realizada, demonstrei que devido à valorização das ruas e dos equipamentos que nelas se encontram – os picos –, o fomento institucional a práticas de cidadania permeado por vieses esportivos (tal como tentado por meio de algumas iniciativas promovidas pelo poder público municipal) nem sempre logra êxito, visto que, se para alguns agentes políticos a noção de cidadania se aproxima, de certo modo, de uma civilidade, já para muitos skatistas – sobretudo para os praticantes da modalidade street skate – a condição de cidadão está mais relacionada a uma “sociabilidade alargada” (Agier, 1999) e ao direito de se apropriarem da cidade a partir de suas próprias lógicas. Nesse sentido a investigação evidenciou não só aspectos em torno do exercício de uma prática esportiva (como os múltiplos sentidos de um circuito de campeonatos), mas, sobretudo, as implicações em virtude dos usos e das apropriações dos espaços urbanos por parte dos praticantes. Não obstante apresentei como a cidade pode ser lida e ordenada simbolicamente por meio daquilo que muitos interlocutores chamavam de olhar skatista, e, ao me aproximar das perspectivas de Joseph (1993), concluí que a cidadania, na perspectiva dos interlocutores, pode ser vista como uma questão de urbanidade. Enfim, a construção de pistas e o estímulo ao skate esportivizado parecem não arrefecer os sentidos citadinos da sua prática. A dissertação foi defendida em 2011 e, posteriormente, foi transformada em livro, intitulado “De carrinho pela cidade: a prática do skate em São Paulo”, publicado em 2014 pela Editora Intermeios com financiamento da FAPESP.

Após a finalização do mestrado, resolvi aproveitar as suas lacunas e os seus desdobramentos com vistas a ampliar as análises. Fui aprovado no doutorado, novamente pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP, porém agora sob a orientação do Prof. Dr. José Guilherme Magnani, coordenador do Núcleo de Antropologia Urbana (NAU). A pesquisa contou, durante certo tempo, com financiamento da FAPESP. Mantive o foco na prática do skate de rua a fim de problematizar, por vias etnográficas, o exercício de uma forma de citadinidade (entendida como uma maneira astuciosa, transgressiva e tática de se fazer a cidade). Deste modo procurei evidenciar como a citadinidade é permeada por múltiplas configurações, enquadramentos, agenciamentos e contradições, além do jogo relacional entre estratégias e táticas que ocorre numa São Paulo considerada a partir de uma perspectiva citadina. As investigações trataram o skate de rua não apenas como uma prática multifacetada que transcorre no urbano, mas, igualmente, como sendo uma própria prática do urbano transposta por resistências, transgressões, conflitos e negociações, enfim, por posicionamentos díspares frente às governanças que são feitas dos espaços da cidade. Assim, objetivei analisar como os skatistas embaralham certos ordenamentos urbanos e põem em suspensão “embelezamentos estratégicos” de uma cidade gerenciada como mercadoria e voltada para práticas de cidadania que são englobadas sobretudo por lógicas de consumo. Identifiquei que muitas das estratégias institucionais que engendram certos sentidos do skate conforme suas próprias rubricas (como a criação de frentes parlamentarem em sua defesa, o incentivo ao seu lado esportivizado etc.) nada mais são do que uma regulação dos usos dos espaços urbanos por meio de uma constante tentativa de esportivização da citadinidade. Todavia, em tempos recentes, vêm ocorrendo situações inéditas que revelam que a citadinidade que permeia a prática do skate de rua, embora muito combatida, também tem sido alvo de determinadas pretensões econômicas e político-urbanísticas. Nessas circunstâncias, ao mesmo tempo em que os skatistas se apropriam da cidade, o mercado bem como as governanças urbanas vêm tentando se apropriar de suas experiências urbanas de acordo com variados interesses. Por fim, para além das contradições, foi possível concluir que ao ampliarem as possibilidades de usos da cidade, os skatistas potencializam a produção de uma cidade vivida, sentida e em processo (Agier, 2011), tornando-a mais porosa ao se esquivarem de eventuais pragmatismos e dispositivos gestionários que tentam condicionar a vida urbana.

 

3 – Atualmente você é professor do curso de Ciências Sociais e da Pós-graduação em Desenvolvimento Social na Unimontes/MG. Enquanto docente, a temática do skate aparece em suas aulas? Como? Pode relatar alguma experiência nesse sentido?

R: Sim, certamente. Sempre faço questão de partilhar as experiências em torno das minhas pesquisas sobre skate. Além disso, quando oferto disciplinas focadas em temáticas urbanas (como “Antropologia Urbana” em nível de graduação, e “Direito à cidade: perspectivas interdisciplinares”, na pós-graduação), destino uma das aulas para focar, detidamente, as questões urbanas que permeiam o universo do skate de rua (conflitos em torno dos usos e apropriações dos espaços urbanos, formas de sociabilidade, posicionamento das governanças urbanas, implicações da produção capitalista da cidade, etc.). E, claro, faço as devidas contextualizações teóricas e metodológicas e também produzo pontes com universos de outras práticas citadinas a fim de evidenciar as tantas contradições que se projetam sobre o cotidiano das cidades. A aula onde faço uma abordagem através das minhas pesquisas sobre skate geralmente ocorre ao final da disciplina, sobretudo após o estudo de autores como Michel Agier e Michel de Certeau. A pretensão é mostrar, por vias etnográficas, as implicações sobre o fazer-cidade, e, ainda, o jogo relacional entre estratégia e tática quando se trata das apropriações citadinas dos espaços urbanos – o que envolve astúcias, resistências, transgressões, mas também diálogos e mediações – e dos controles que delas são feitas. Os vídeos produzidos pelo Murilo Romão, skatista profissional e produtor do Flanantes (coletivo focado em retratar os usos criativos da cidade) ajudam, e muito, nas discussões.

 

4 – Por fim, no campo das Ciências Sociais – mais especificamente na Antropologia – há possibilidades temáticas promissoras nos estudos sobre skate. Em quais aspectos a antropologia ainda poderia contribuir com o avanço nos estudos sobre o universo do skate?

R: Ainda há muitas lacunas no universo do skate que precisam ser preenchidas. A maior parte dos estudos na Antropologia diz respeito aos usos e apropriações urbanas a partir da prática do skate de rua. Entretanto, outras questões urgentes carecem de análises aprofundadas. Destaco algumas delas: o universo do skate problematizado a partir dos marcadores sociais das diferenças (gênero, raça, classe, geração etc.); os impactos da institucionalização do skate olímpico na prática cotidiana; as experiências periféricas do skate; crítica a certos rótulos rasos que permeiam o seu universo, como a ideia de “tribo urbana” e de “esporte radical”; a relação com políticas públicas em nível local, regional e nacional; a mobilidade para cidades estrangeiras, sobretudo Barcelona; dentre tantas outras. Também considero importante o surgimento de estudos sobre os impactos da prática do skate em cidades pequenas e médias, além de etnografias realizadas fora dos grandes centros. De todo modo, é importante reconhecer que os estudos se intensificaram nesta década. E tudo indica que o interessa pelo skate como objeto de estudo aumentará ainda mais. Considero que cabe, ainda, uma maior articulação entre os pesquisadores sobre skate a fim de produzir eventos e publicações conjuntas. E, por fim, uma maior articulação com agentes deste universo, sobretudo com os da mídia e federações, para pensar nos rumos do skate nacional considerando não apenas a agenda esportiva, mas também o seu impacto social.

 

Referências indicadas:

AGIER, Michel. L’invention de la ville. Paris: Ed. des Archives Contemporaines, 1999.

_____. Antropologia da cidade: lugares, situações, movimentos. São Paulo: Terceiro Nome, 2011.

BRANDÃO, Leonardo; HONORATO, Tony (Orgs.). Skate & Skatistas: questões contemporâneas. Londrina: Eduel, 2012, pp. 63-86.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. 16. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2009.

JOSEPH, Isaac. “L’espace public comme lieu de l’action”. Annales de la recherche urbaine, v. 57, n. 1, pp. 211-217, 1993.

MACHADO, Giancarlo Marques Carraro. Todos juntos e misturados: um estudo sobre a formação das redes de relações entre skatistas em campeonatos de skate. Monografia (graduação em Ciências Sociais), Universidade Estadual de Montes Claros, Montes Claros – MG, 2008.

_____. De “carrinho” pela cidade: a prática do street skate em São Paulo. Dissertação (mestrado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.

_____. De “carrinho” pela cidade: a prática do skate em São Paulo. São Paulo: Editora Intermeios/FAPESP, 2014.

_____. A cidade dos picos: a prática do skate e os desafios da citadinidade. Tese (doutorado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017.

 

Dados biográficos: Giancarlo Machado é doutor e mestre em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Social da Universidade Estadual de Montes Claros (PPGDS/Unimontes-MG). Professor adjunto vinculado ao departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes-MG). É pesquisador do Núcleo de Antropologia Urbana (NAU/USP) e do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (LUDENS/USP). É autor do livro De carrinho pela cidade: a prática do skate em São Paulo (Ed. Intermeios/FAPESP) e organizador da coletânea Entre Jogos e Copas: reflexões de uma década esportiva (Ed. Intermeios/FAPESP). É coordenador da coleção Entre Jogos no âmbito da Editora Intermeios. Possui experiência na área da Antropologia, com ênfase em Antropologia Urbana, Antropologia da Juventude e Antropologia dos Esportes. É membro da Rede de Estudos e Pesquisas sobre Ações e Experiências Juvenis (REAJ) e associado efetivo da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) desde 2010.

Lattes: http://lattes.cnpq.br/5199223373148812


O skate vai ao cinema

23/02/2020

Por: Leonardo Brandão (brandaoleonardo@uol.com.br)

            Muitos ficaram surpresos com o resultado do Oscar 2020 quando viram o anúncio, no dia 09 de fevereiro, da vitória do curta-metragem documental Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl) – Aprendendo a andar de skate em uma zona de guerra (se você é uma menina) – dirigido pela norte-americana Carol Dysinger e com produção de Elena Andreicheva. Este filme, de 39 minutos, retrata um grupo de garotas integrantes do Skateistan, um projeto social (sem fins lucrativos) fundado em 2007 por dois skatistas australianos, Oliver Percovich e Sharna Nolan, os quais tinham como objetivo introduzir o skate como um elemento de ludicidade para crianças e jovens afegãs de bairros pobres e que tiveram suas vidas marcadas pela violência. Esse documentário foi descrito por Orlando von Einsiedel (vencedor do Oscar em 2017 com Os Capacetes Brancos) como um “bonito retrato de esperança, sonhos e superação de medos”.

Figura 1: Cartaz do filme “Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)”, o qual traz também a informação que o mesmo havia vencido o prêmio de melhor curta-documentário no festival Tribeca no ano de 2019.

Mas não é de hoje, todavia, que existe uma relação muito forte entre cinema e skate. Neste post, iremos categorizar os tipos de filme que o envolvem, diferenciando documentários de filmes feitos por empresas de skate, assim como sua aparição em filmes de grande produção (muitas vezes breve) de seu uso em filmes independentes e realizados com baixo orçamento. Para tanto, elencamos quatro categorias que nos ajudarão a diferenciar esses diversos modos como o skate vem aparecendo nos cinemas e nas telas.

1 – Documentários sobre skate: Além do supracitado Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl), que ganhou a estatueta do Oscar, a prática do skate, e em especial determinados skatistas, vem sendo há tempos retratados em documentários. Um bastante relevante neste quesito é Dogtown and Z-Boys (2001/EUA), dirigido por Stacy Peralta, o qual venceu na categoria melhor diretor no Festival de Sundance em 2001 com esse documentário. O filme retrata a equipe de skatistas Z-Boys, em especial, o modo como eles influenciaram o desenvolvimento dessa atividade durante a década de 1970, e isso tanto no tocante ao estilo corporal (advindo do surfe) quanto na utilização de espaços inusitados para sua prática, como as piscinas vazias (as quais foram posteriormente reproduzidas com rampas de madeira no formato de um grande “U”, dando origem ao skate vertical). Além deles, também podemos citar aqui o reflexivo e trágico Stoked: the rise and fall of Gator (EUA, 2002, dirigido por Helen Stickler) que narra a vida do skatista norte-americano Mark “Gator” Rogowski, um grande expoente do skate vertical durante a década de 1980, mas que, num ato insensato, acabou preso e condenado por 31 anos pelo assassinato da amiga de sua namorada. Numa temática semelhante à de Stoked, o filme documentário Rising Son: The Legend of Skateboarder Christian Hosoi (EUA, 2006, dirigido por Cesario Montaño), buscou reproduzir a complicada trajetória do skatista Christian Hosoi (que junto com Tony Hawk, foi o skatista mais popular da década de 1980). Hosoi, de astro internacional desta prática, chegou a ser preso – por acusação de tráfico de drogas – e ficou durante quatro anos numa prisão federal dos EUA, chamada San Bernardino Central Detention Center.

No Brasil, destacamos o documentário Vidas sobre Rodas (2010), do cineasta paulistano Daniel Baccaro, produzido sob patrocínio de grandes empresas, como Guaraná Antarctica e Banco Bradesco. Exibido em circuitos de cinema alternativos, esse filme baseia-se na trajetória de quatro skatistas (Sandro Dias “Mineirinho”, Lincoln Ueda, Cristiano Mateus e Bob Burnquist) e por meio da biografia desses personagens, também narra aspectos da história do desenvolvimento do skate brasileiro. Na contracapa do DVD deste documentário, encontramos a seguinte descrição: “O filme irá contar a história do skate brasileiro nesses últimos 20 anos, um período marcado pela transição da marginalidade para a chamada fase pop, quando o skate nacional conquista seu espaço na grande mídia e com ele o respeito da sociedade como um todo”.

Figura 2: Cartaz do documentário brasileiro “Vida sobre Rodas” dirigido por Daniel Baccaro e lançado em 2010.

2 – Super produções: Existem muitos filmes de “grande produção” que fizeram uso do skate. Um dos principais exemplos neste sentido é Back to the future (De volta para o futuro), de 1985, do diretor Robert Zemeckis. Na trama, o skate aparece sob os pés do protagonista, interpretado por Michael J. Fox. Na continuação da franquia, com “De volta para o futuro II”, de 1989, a cena com o skate flutuante mexeu com a imaginação de toda uma geração (ver cena retirada do Youtube logo abaixo). Ainda neste mesmo campo de exemplos, podemos citar o longa-metragem Espetacular Homem-Aranha, dirigido por Marc Webb e que estreou no Brasil no ano de 2012. Esse filme retratou a saga do icônico herói dos quadrinhos como sendo ele, antes de tudo, um skatista (nas cenas de skate, o ator Andrew Garfield sedia lugar ao dublê, skatista e também praticante de parkour, Willian Spencer). O Homem-Aranha skatista foi visto por inúmeros espectadores ao redor do mundo e arrecadou uma grande bilheteria.

3 – Filmes independentes: Numa perspectiva menos comercial, existem os filmes de baixo orçamento e feitos por diretores que envolvem a prática do skate com o debate de questões sociais. Um dos mais premiados dessa categoria foi Paranoid Park (2007, EUA, dirigido por Gus Vant Sant), longa que gira em torno de um skatista de 16 anos – interpretado por Gabe Nevins – que acaba matando, acidentalmente, um segurança nas proximidades de uma pista de skate onde pratica. Nesta mesma linha, temos os filmes do diretor Larry Clark. No ano de 1995, Clark dirigiu Kids, filme que se tornou um marco em sua carreira e causou furor ao exibir nos cinemas o cotidiano junkie de um grupo de skatistas de Nova York (alguns dos protagonistas do filme eram, de fato, skatistas bastante atuantes nesta cidade, como Harold Hunter). Embalado por manobras de skate, uso de drogas e recheado de cenas de sexo adolescente, Kids acabou por denunciar a facilidade com que o vírus HIV estava sendo transmitido por uma geração que vivia o presente sem as clássicas perspectivas profissionais de futuro. Outro filme com direção de Larry Clark chama-se “Roqueiros” (Wassup Rockers, EUA, 2005), o qual aborda os problemas causados por um grupo de skatistas – ouvintes de punk rock – de um bairro pobre de Los Angeles que decidem, aleatoriamente, praticar skate numa das áreas mais nobres do condado de Los Angeles, Berverly Hills. Neste filme, além de debater a problemática da apropriação dos espaços urbanos e a repressão policial, Larry Clark também problematiza o contato entre jovens de diferentes classes sociais.

4 – Filmes produzidos por empresas de skate: A emergência desse gênero de filmes, com foco prioritário na execução de manobras de skate, teve início no ano de 1984 com o lançamento de “The Bones Brigade Video Show”, pela empresa Powell Peralta, a qual foi fundada no ano de 1978 por George Powell e Stacy Peralta. Essa marca veio a produzir, nos anos subsequentes, os filmes: Future Primitive (1985), The Search for Animal Chin (1987), Public Domain (1988), Ban This (1989) e Propaganda (1990). Tais filmes, assim como muitos outros que foram produzidos por diferentes companhias de skate, apresentam como objetivo principal exibir a técnica corporal dos skatistas membros de suas equipes, e isso tanto com filmagens realizadas nas ruas quanto em pistas. Por intermédio de tais filmes, nomes (antes desconhecidos) foram divulgados, pequenas marcas tornaram-se famosas e manobras (antes consideradas impossíveis) foram imortalizadas. Nos Estados Unidos, além da já citada Powell Peralta, muitas outras empresas produziram filmes com manobras de skate que se tornaram bastante cultuados. Dentre esses, destaca-se Video Days, produzido pela empresa Blind Skateboards e dirigido por Spike Jonze no ano de 1991. Entre os talentosos skatistas que aparecem neste filme, como Guy Mariano e Marc Gonzales, um deles, chamado Jason Lee, acabou se tornando um comediante festejado em seriados de televisão da NBC, onde fez fama com o engraçado e inusitado My Name is Earl.

Para finalizar esse post, ficamos com a parte do skatista Jason Lee em Video Days, de 1991. Essa parte foi retirada do Youtube e apresenta como trilha sonora as músicas “Real World” da banda Hüsker Dü e a canção “The Knife Song” do Milk.

PARA SABER MAIS

BRANDÃO, Leonardo. Trajetórias do skate no cinema: dos filmes de grande produção ao documentário Dogtown and Z-Boys. In: FORTES, Rafael; MELO, Victor Andrade de. (orgs). Comunicação e Esporte: reflexões a partir do cinema. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014, p. 71 – 86.


“Pintou o verão!”: surfe, skate e juventude na revista Pop (1972-1979)

23/09/2019

Por Leonardo Brandão (brandaoleonardo@uol.com.br)

No Brasil, durante a década de 1970, os esportes praticados à maneira californiana, principalmente o surfe e o skate, encontraram na revista Geração Pop – chamada somente como Pop a partir de sua edição de número 32 – um dos seus principais meios de comunicação. Colorida e publicada com periodicidade mensal pela editora Abril entre novembro de 1972 e agosto de 1979, essa revista chegou a contar com 82 edições em seus quase sete anos de existência e atingir um considerável público leitor para a época, pois, de acordo com a declaração de sua editora, ela “vendia pelo menos 100 mil exemplares mensais” (MIRA, 2000, p. 154).

A Pop não foi uma revista específica sobre esporte, mas sim uma publicação que aliava a divulgação da música Pop (sobretudo o rock) com diversos temas considerados por ela como de interesse juvenil. Focada em rapazes e moças entre 14 e 20 anos, ela utilizava-se de inúmeras gírias existentes na época para elaborar um clima de maior proximidade com seus leitores e, com isso, gerar certa intimidade no momento da leitura.

A revista Pop teve uma influência muito grande em determinados segmentos juvenis; pois por viverem numa época onde não havia Internet e, segundo entrevistas, num “clima de ditadura”, eles acabavam por ter pouco material disponível em termos de informação cultural. Além disso, foi através da Pop que muitos jovens, durante a metade da década de 1970, conheceram algumas das tendências esportivas da juventude norte-americana, como o surfe, o skate, o bodyboard, entre outros (BRANDÃO, 2014).

Segundo a historiadora Denise Bernuzzi de Sant’Anna, embora a revista Pop tivesse na música sua ancoragem central, ela também passou a “atrair milhares de jovens da classe média e aproximá-los do mercado especializado na venda de novos acessórios e roupas para as atividades esportivas em expansão” (2005, p. 8). Na década de 1970, dentre essas “atividades esportivas em expansão”, encontravam-se de forma reticente nas páginas da revista Pop os esportes praticados à maneira californiana, sobretudo o surfe e o skate. De acordo com o pesquisador Luís Fernando Borges, o propósito dessa revista foi justamente o de buscar um contato com o público jovem, e para isso ela veiculava as últimas novidades surgidas no acelerado mundo da cultura juvenil, recheando suas páginas de artistas como “Elton John, Secos & Molhados, os últimos campeonatos de surf e skate” (2003, p. 07).

Podemos observar um bom exemplo neste sentido ao analisarmos a capa da edição de novembro de 1977 da revista Pop, a qual comemorava, em letras garrafais, que “PINTOU O VERÃO!”, estampando um jogo de imagens fotográficas que, composta tal como um mosaico, objetivava tanto traçar um painel do que se encontrava em seu interior  quanto capturar os olhares de quem passasse por uma banca de revistas: garotas de biquíni, jovens surfistas “entubando” uma onda, astros do rock descontraídos e sem camisa, manobras “de arrepiar” de skatistas em grandes tubos de concreto.

Figura 1: Revista Pop, editora Abril, nº 61, 1977.

A revista Pop se valia dos corpos magros e bronzeados como espetáculo aos olhos e desejos dos leitores. Como nos lembrou o historiador Georges Vigarello (2006, p. 171), trata-se de uma época em que já é possível percebermos um maior ritmo dado às expressões e aos movimentos, com sorrisos mais expansivos e corpos mais desnudos, aspectos esses acentuados pelos espaços de férias, praias e divertimentos. Nesta mesma direção, Sant’Anna (2010, p. 190) sugere que essas manifestações reforçavam “a voga da alegria juvenil”, exaltando a “libertação” do corpo.

O pesquisador ou a pesquisadora que se interessa pela história dos esportes praticados à maneira californiana, sobretudo a história do surfe e a do skate, encontrará nessa revista uma série de elementos convidativos à reflexão. Pelo fato de Pop ter sido a primeira publicação impressa no Brasil dedicada exclusivamente à juventude e pela quantidade considerável de edições publicadas durante a década de 1970, ela é, sem dúvida, uma fonte imprescindível para a compreensão dos esportes californianos e da condição juvenil na história recente.

Referências Bibliográficas

BRANDÃO, Leonardo. Para além do esporte: uma história do skate no Brasil. Blumenau: Edifurb, 2014.

BORGES, Luís Fernando Rabello. Mídia impressa brasileira e cultura juvenil: relações temporais entre presente, passado e futuro nas páginas da revista Pop. In: Anais do XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Minas Gerais, 2003, p. 1 – 14.

MIRA, Maria Celeste. O leitor e a banca de revistas: a segmentação da cultura no século XX. São Paulo: Olho d’Água/Fapesp, 2000.

SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Uma história da construção do direito à felicidade no Brasil. In: FREIRE FILHO, João (org.). Ser feliz hoje: reflexões sobre o imperativo da felicidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010, p. 181 – 193.

SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Representações sociais da liberdade e do controle de si. In Revista Histórica, São Paulo, v. 5, 2005, p. 1 – 17.

VIGARELLO, Georges. História da beleza: o corpo e a arte de se embelezar, do Renascimento aos dias de hoje. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.


A invenção do skate vertical

22/04/2019

Por Leonardo Brandão

Como surgiu o skate vertical? Esse que é praticado em rampas no formato de “U”? Uma explicação relevante acerca de seu surgimento pode ser conferida no vídeo-documentário Dogtown and Z-Boys, dirigido por Stacy Peralta e lançado no ano de 2001. Esse filme traz imagens raras sobre o início da prática do skate nos EUA, enfatizando uma equipe de skatistas norte-americana conhecida como Z-Boys, exibindo suas primeiras manobras e espaços percorridos.

A equipe Z-Boys, abreviatura de Zephyr (uma loja montada para surfe e skate), era composta de doze pessoas, surfistas na sua origem, mas que acabaram fazendo do skate sua prática principal. Com exceção de um, Chris Cahill, todos os demais foram localizados pelo produtor do documentário, o norte-americano Stacy Peralta, o qual também fazia parte dessa equipe de skatistas. A única mulher do grupo era a skatista Peggy Oky. Compunham o restante da equipe os skatistas Shogo Kubo, Bob Biniak, Nathan Pratt, Jim Muir, Allen Sarlo, Tony Alva, Paul Constantineau, Jay Adams e Wentzle Ruml.

Stacy Peralta, ex-skatista profissional e atual diretor de documentários, conseguiu reencontrar praticamente todos esses skatistas da década de 1970, os quais tomaram caminhos díspares na vida, e desde o final da referida época não tinham mais se encontrado. Hoje eles são empresários, a maioria casada e alguns ainda praticam o skate regularmente. Através de entrevistas, conversas e depoimentos, Stacy Peralta foi estruturando seu documentário, fazendo da atual memória desses skatistas o fio condutor de sua história.

A explicação sobre o surgimento do skate vertical aparece na parte final deste documentário. Sabemos que, dentre as modalidades existentes atualmente na prática do skate, a de maior popularidade junto ao grande público é o skate vertical. Constantemente exibido pelos canais televisivos, muitas vezes em campeonatos “Ao Vivo”, como os transmitidos pelo programa Esporte Espetacular da Rede Globo, o skate vertical se caracteriza por ser uma modalidade onde o skate é praticado em grandes rampas de madeira ou cimento, com aproximadamente quatro metros de altura e denominadas “half-pipe” (“meio tubo” em português) ou em pistas com rampas no formato de uma bacia “bowl”. Nessas rampas, que podem ser representadas pela letra “U”, os skatistas executam inúmeras manobras, mas as que normalmente mais chamam a atenção são os saltos, chamados de aéreos, onde tanto o skate quanto o corpo do skatista permanecem no ar por alguns segundos até retornarem novamente o contato com a rampa.

De acordo como o vídeo-documentário Dogtown and Z-Boys, o surgimento do skate vertical foi possível após a conjugação de dois fatores: de um lado, houve a apropriação dos movimentos do surfe na prática do skate, e, de outro, ocorreu uma grande seca no Estado da Califórnia em meados de 1970.

Segundo relatam os depoentes desse filme, “a prefeitura não permitia molhar o jardim e nem se podia servir água em restaurante, então, o que aconteceu, foi que todas as piscinas abundantes no sul da Califórnia estavam secando”. Por isso: “a seca da Califórnia atuou como parteira da revolução do skate, enquanto centenas de piscinas de Los Angeles foram deixadas vazias e sem uso”.

O aspecto pitoresco dessa história encontra-se na arquitetura das piscinas californianas, pois elas não se assemelham com as encontradas no Brasil. Aqui as piscinas são quadradas, retangulares, com as paredes retas, as quais formam um ângulo de 90º graus com o solo. Na Califórnia, as piscinas exibidas no filme possuíam um formato oval, redondo. As paredes dessas piscinas continham transições, que lembravam as ondas do mar, com ondulações simétricas e perfeitas. Foi essa “rampa” nas paredes das piscinas californianas, somada à habilidade e à técnica dos skatistas de Dogtown, sobretudo os da equipe Z-Boys, que forneceram às piscinas vazias uma outra utilidade nunca antes pensada: elas viraram as primeiras pistas de skate vertical.

De acordo com o filme, foram esses skatistas que, ao praticarem skate em piscinas vazias revolucionaram essa atividade, apontando para horizontes nunca antes imaginados, e tornando possível, anos depois, a montagem de rampas verticais (half-pipes) que passariam a imitar as paredes inclinadas das piscinas californianas. Segundo os membros da equipe Zephyr, eles foram os primeiros a andarem em piscinas vazias, e nem imaginavam o que era possível fazer. Em seus relatos, eles dizem:

A primeira meta no primeiro dia foi passar acima da lâmpada (que fica na parede inclinada da piscina). Depois começamos com arcos duplos (andar com dois skatistas de uma só vez), chegando ao ladrilho da piscina dos dois lados. A meta era chegar à beirada, bater a roda na beirada.

Tony Alva, considerado um dos mais habilidosos skatistas da equipe, lembra o fato de que só foi possível realizarem tal feito por terem sido, antes de skatistas, surfistas. Pois os mesmos movimentos que faziam com suas pranchas na onda do mar, eram os necessários para subirem com seus skates nas paredes curvas das piscinas. Segundo seu relato: “era completamente fora dos padrões, mental e fisicamente. Mas, por sermos surfistas sabíamos os movimentos necessários, só não sabíamos se eram possíveis”. Ainda de acordo com Alva, o pioneirismo da equipe Z-Boys foi algo marcante na exploração desse novo terreno. Para ele, “definitivamente fomos os primeiros a andar numa piscina”, e finaliza lembrando: “é preciso entender que o que fazíamos nunca havia sido feito, aquilo simplesmente não existia”.

Figura 1: Uso do skate nas ondulações de uma piscina na Califórnia no início da década de 1970. Fonte: Imagem do filme Dogtown and Z-boys.

O que os Z-boys chamavam de andar “com o eixo baixo”, ou seja, com o corpo mais abaixado, tal como faziam nas ondas, forneceu a eles a possibilidade de executarem manobras diferenciadas e em lugares até então inusitados, como nas ondulações das piscinas. Eles, enquanto surfistas, transportaram seus movimentos para o skate. Não se trata de skatistas que se espelharam em surfistas, mas de surfistas que se fizeram skatistas.

Na invenção cultural de utilizar piscinas vazias como lugares possíveis de se praticar skate, houve tanto uma representação quanto uma apropriação. Representação porque a piscina passou a ser vista não como um tanque de água para banhos e mergulhos, mas sim como um lugar de exercícios físicos e acrobáticos para o skate. Mudaram-se, pois, os sentidos, as representações. Deste modo, a invenção do skate vertical se deu por meio de práticas de reutilização, efetivando as representações como apropriações. A piscina foi, mais do que pensada de uma forma diferente do usual, experimentada em sua concretude. Os skatistas não só a significaram de um modo diferente, mas também a utilizaram com outras finalidades.

Para saber mais:

Dogtown and Z-Boys. Ficha Técnica: Título Original: Dogtown and Z-Boys. Gênero: Documentário. Tempo de Duração: 87 minutos. Ano de Lançamento (EUA): 2001. Site Oficial: http://www.dogtownmovie.com. Estúdio: Agi Orsi Productions / Vans Off the Wall. Distribuição: Sony Pictures Classics / Imagem Filmes. Direção: Stacy Peralta. Roteiro: Stacy Peralta e Craig Stecyk. Produção: Agi Orsi. Música: Paul Crowder e Terry Wilson. Fotografia: Peter Pilafian. Desenho de Produção: Craig Stecyk. Edição: Paul Crowder.

Referências

BRANDÃO, Leonardo. Para além do esporte: uma história do skate no Brasil. Blumenau: Edifurb, 2014.

BRANDÃO, Leonardo. Prazeres sobre pranchas: o lúdico e o corpo nos esportes californianos. In: Recorde: Revista de História do Esporte. Vol. 2, n. 2, dezembro de 2009, p. 1 – 29.


Sea Club Overall Skate Show: tecnologia e espetáculo no Projeto SP (1988)

18/11/2018

Por Leonardo Brandão

A prática do skate vertical (realizada em grandes rampas no formato de “U”) passou, durante a segunda metade da década de 1980, por um grande desenvolvimento no país. Um marco desse período foi o “Sea Club Overall Skate Show”, um grande campeonato ocorrido no dia 09 de abril de 1988 na cidade de São Paulo, dentro de uma casa de show chamada “Projeto SP”. Esse evento, que chegou a ser exibido no programa “Esporte Espetacular” da Rede Globo, foi produzido numa parceria entre a empresa Sea Club e uma revista especializada em skate, chamada Overall.

Esse evento foi, segundo o editor dessa revista, algo tão bem organizado que até mesmo o obrigou a mudar o tempo verbal de seus editoriais, os quais sempre projetavam o skate como um esporte do futuro e/ou em crescimento. Agora, segundo ele, o skate já era um esporte do presente, um jovem tornado adulto. No editorial reproduzido abaixo, a presença do termo “atleta” como sinônimo de “skatista” demonstra bem a pretendida transição:

Dessa vez é no presente!

O tempo verbal empregado na construção das frases da maioria dos editoriais da Overall, ao longo desses mais de dois anos de trabalho, foi o futuro. Hoje, a realidade nos permite mudar o tempo dos verbos […]. Esta edição especial da Overall, com 84 páginas, sela definitivamente o início da fase adulta deste esporte no Brasil. O SEA CLUB OVERALL SKATE SHOW foi a prova final. O campeão mundial de skate vertical, e outro que está entre os dez melhores skatistas do mundo, desceram do Olimpo e vieram conferir e aplaudir o estágio de desenvolvimento que o esporte atingiu no Brasil. Não só eles, mas toda a imprensa nacional (mais a revista norte-americana Transworld) voltaram objetivas e máquinas de escrever para o maior evento de skate que o Brasil já teve (Revista Overall, n. 9, 1988, p. 08).

A presença de dois dos maiores ídolos do skate estadunidense, Tony Hawk e Lance Mountain, ambos pela primeira vez no país, ajudou a atrair a presença da grande imprensa e atiçar o júbilo público. Oferecido como espetáculo para as massas, o skate reinventava-se para além de seus nichos, seduzindo uma plateia ávida por movimentos arriscados, pirotecnias do corpo e da ação.

Para além do campeonato em si, é preciso notarmos que essa condução do skate vertical em direção ao esporte e, neste caso, ao espetáculo, ocorreu articulada ao que os sociólogos Norbert Elias e Eric Dunning chamaram de “o aparecimento do profissionalismo no desporto”, isto é, de um grupo de pessoas que, ao se tornarem profissionais em determinadas práticas, acabam por desenvolver “um nível de perfeição que dificilmente poderá ser alcançado por pessoas que se dedicam às atividades desportivas no seu tempo de lazer e apenas por prazer” (1992, p. 99). O fato é que os skatistas profissionais passaram a criar um conjunto de técnicas corporais diferenciadas e muito mais especializadas que os demais skatistas amadores ou somente praticantes de fim de semana; e isso acabou por conferir a esse grupo restrito as condições necessárias para protagonizarem um verdadeiro “espetáculo” para os admiradores dessa atividade.

Outro aspecto que merece destaque foi a comercialização do vídeo deste campeonato, tido como a “fita VHS do mais radical show de skate já visto no Brasil”. A presença do público (nove mil pessoas), dos dois skatistas convidados dos Estados Unidos e dos “24 melhores skatistas verticais do Brasil” eram os ingredientes oferecidos. O show de imagens, sem dúvida, transformava o skate – e, por conseguinte, o corpo desses skatistas – num espetáculo televisivo; uma vez que, como afirmou o sociólogo Pierre Bourdieu, “a constituição progressiva de um campo relativamente autônomo reservado a profissionais é acompanhada de uma despossessão dos leigos, pouco a pouco, reduzidos ao papel de espectadores” (BOURDIEU, 1990, p. 217).

Assim, a exibição das manobras de skate evidenciava um uso dessa atividade que implicava tecnologia e espetáculo – que uma vez adquiridos, poderiam ser vistos repetidas e repetidas vezes através da união do videocassete com a televisão. A transformação das competições em experiências midiáticas passou a refabricar a emoção do espectador, isto é, a criar novas formas e maneiras de vê-las. Diferentemente dos 9 mil espectadores que estavam presentes no Sea Club Overall Skate Show, e que por isso podiam ver a exibição in loco dos skatistas apenas do ângulo que estavam posicionados na plateia, a experiência do vídeo (filmado por diversas câmeras, sob vários ângulos e depois editado) ampliava as possibilidades de quem os comprasse de poder admirar melhor a performance de cada competidor, visualizando as muitas manobras efetuadas nos dois lados das rampas (“U”).

Figura 1: Capa do VHS “Sea Club Overall Skate Show”

Fonte: Revista Overall, n.9, 1988, p. 81.

A grandiosidade deste campeonato chamou à atenção da revista Veja, que publicou uma reportagem sobre ele, destacando o fato dos 24 participantes inscritos competirem com patrocínios; citando, como exemplo, o skatista Reginaldo dos Santos Neto, apelidado de “Pankeka” e patrocinado pela fábrica de skates H-Prol. Segundo a Veja, Pankeka recebia um salário de 50.000 cruzados por mês, além de equipamentos para os treinos e apoio também nas demais competições que participava.

Interessante notarmos que, embora a Veja se valesse desse campeonato para noticiar o skate em sua página dedicada aos “esportes”, a competição em si fora algo pouco abordado pela mesma. A revista não se preocupou em publicar os resultados (o ranking) e nem deu destaque aos melhores competidores. O interesse da reportagem era outro, anunciado claramente na seguinte manchete: “O skate entra na era do profissionalismo” (Revista Veja, 20/04/1988, p. 67).

Esse campeonato incentivou o aparecimento de outros eventos do mesmo porte no universo do skate vertical, todos elaborados para atrair um grande público, com estrutura de organização, cobertura midiática e ampla divulgação. No ano seguinte, por exemplo, um evento da mesma magnitude voltou a ocorrer, mas desta vez na cidade do Rio de Janeiro. Era a Copa Itaú de Skate, patrocinada pelo banco Itaú e realizada numa grande estrutura montada na praia de Ipanema. Era, enfim, a consolidação do profissionalismo no skate, dos grandes campeonatos e da elevação dessa prática realizada em grandes rampas ao patamar de um esporte espetacular.

Para saber mais:

BRANDÃO, Leonardo. A década de 1980 e o desenvolvimento do skate vertical. In: Recorde, Rio de Janeiro, v. 10, n. 2, p. 1 – 28, jul/dez de 2017.

Referências

BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1990.

ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: DIFEL, 1992.