Eusébio – História de uma Lenda

09/04/2018

eusebio

Eusébio da Silva Ferreira é uma figura mítica do Futebol Português e esse seu estatuto é refletido no filme “Eusébio – História de uma Lenda”, do diretor Felipe Ascensão, lançado no ano passado. O documentário conta a vida do jogador de forma cronológica, desde a sua origem em Moçambique, a viagem para Portugal e o sucesso alcançado na carreira. O fio condutor da narrativa gira em torno dos depoimentos do próprio personagem, um dos grandes méritos do filme.

Desde o início, Eusébio declara o seu amor por sua terra natal, pela sua terra de acolhimento e pelo Benfica. Seria fácil enquadrar o filme em relação ao seu papel na história do país ou na história do clube, mas o filme se mantém fiel ao propósito de mostrar o lado humano de Eusébio, dando voz ao homem, suas emoções e a forma como ele encarou cada um dos momentos marcantes da sua trajetória. No meio de tantos marcos, que poderiam ser considerados históricos, sobressai o prazer que Eusébio tinha em jogar Futebol.

O sentimento pelo jogo e a admiração pela capacidade de Eusébio fica evidente nos depoimentos dados. Companheiros de Benfica, contemporâneos de seleção, adversários ou jogadores mais novos que só o viram em filmes de arquivo mostram um tremendo respeito pelo que Eusébio apresentou dentro de campo e pelo que ele representou para o futebol do país.

Outro mérito do filme é valorizar o lado estético dos seus feitos futebolísticos. Usando poucas legendas com informações sobre datas, jogos e estatísticas, o filme usa muitas imagens de arquivo nas quais apresenta as proezas de Eusébio. Desse modo, não apenas ilustra com imagens aquilo que vem sendo narrado nos depoimentos dados, como oferece aos espectadores uma visão que prioriza o lado estético do futebol, e não uma abordagem de almanaques.

Por fim, parece-me que noção de lenda é extremamente apropriada. Saindo na esfera cinematográfica, essa imagem é confirmada pela transladação de Eusébio ao Panteão Nacional e pelo respeito de todos por Eusébio. Hoje, pode-se considerar Portugal um país importante no contexto do Futebol, mas mesmo tendo vencido 5 bolas de ouro e batido praticamente todos os recordes da seleção nacional, o estatuto de Eusébio em quase momento algum é questionado em oposição a Cristiano Ronaldo. O talento do madeirense é inegável, da mesma forma que a posição de Eusébio é intocável na história.

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Meios de Comunicação e Esporte: Grandes Amigos

23/10/2017

A relação entre as empresas de mídia e o esporte é longa e mutuamente proveitosa. Meios de comunicação oferecem visibilidade aos atores do mundo desportivo, permitindo mais fluxo de bilheterias e melhores contratos de publicidade, enquanto os meios de comunicação aumentam a sua circulação, devido à atratividade do conteúdo esportivo junto às audiências. A imprensa teve um papel fundamental para a independência do esporte e o seu processo de profissionalização. Mas as fronteiras entre ambos universos são fluídas e muito próxima foi a relação de empresas de mídia com o universo desportivo.

Em França, o caso mais relevante de empresas de mídia que passaram a exercer funções que seriam de organizações esportivas é o que envolve o jornal L’Équipe e o Tour de France. A prova ciclística mais famosa do mundo em sua origem foi criada e organizada pelo jornal L’Auto, em 1903. A rivalidade entre os jornais L’Auto e Le Vélo foi além da produção jornalística, chegando a organização de atividades esportivas. Limitadas a provas de dimensões menores, como Paris-Roubaix, Bordeaux-Paris, Paris-Brest, a criação do Tour de France – a primeira prova por etapas no território francês – foi pensada para assegurar um espetáculo esportivo único e aumentar a venda de jornais: desde o verão de 1903, durante o período da competição o L’Auto teve sucesso, triplicando a venda dos jornais e diminuindo os números da concorrência.

tour

Suspenso durante a segunda guerra mundial, o Tour de France passou a ser desejado pela imprensa de esquerda por conta do seu poder como vetor publicitário. Assim, três jornais (Sports, o semanário Miroir Sprint e diário generalista Ce Soir) criaram conjuntamente, a partir de um modelo semelhante, a « Ronde de France », em 1946. Contudo, em 1947, o Estado atribuiu ao Parisien Libéré e ao L’Équipe a responsabilidade de retomar o Tour de France. As condições da nomeação foram eminentemente políticas: Emilien Amaury, proprietário do Parisien Libéré, era muito próximo ao partido gaulista. Em 1965, ele aumenta o seu património comprando oficialmente o jornal L’Équipe, de modo que o grupo Amaury detém o quotidiano esportivo e o Tour de France.

A retomada da competição em 1947 foi fundamental para estruturação interna e a perenidade do jornal. Ela permitiu que fossem reestabelecidas e reforçadas as ligações com os setores da indústria ciclística e patrocinadores. Os retornos publicitários sobem, tal como as vendas que têm no mês de julho, quando se realiza a prova, o seu maior volume. O modelo económico de organização dos eventos tinha um objetivo claro: aumentar a venda dos jornais. O grupo Amaury também é hoje responsável pelo Rally Dakar.

A competição de clubes mais importante no universo do futebol também foi criada a partir do jornal L’Équipe. O primeiro congresso da UEFA só aconteceu em 2 de Março de 1955 e a maior parte dos membros fundadores estavam preocupados em criar um torneio continental de seleções, deixando espaço para a iniciativa do jornal francês. A competição idealizada pelo L’Équipe não obrigava a que os participantes fossem campeões nacionais, funcionava sim por convites aos clubes que geravam maior interesse junto dos adeptos. Representantes de 16 clubes foram convidados para uma reunião que teve lugar a 2 e 3 de Abril de 1955 e as regras do L’Équipe foram aprovadas por unanimidade. A UEFA reagiu ao contactar a FIFA, e o Comité Executivo desta, numa reunião em Londres a 8 de Maio de 1955, autorizou a realização da nova competição de clubes com a condição de ser organizada pela UEFA e que as federações nacionais dessem o consentimento à participação dos respectivos clubes. O Comité Executivo da UEFA aceitou estas premissas exigidas pela FIFA e concordou em levar a cabo a prova num encontro realizado a 21 de Junho de 1955.

A iniciativa do L’Équipe era primordialmente comercial. Tradicionalmente, o calendário esportivo concentra os seus eventos no final de semana, por isso as edições dos jornais desses dias, com as informações e prognósticos para os jogos apresentam sucesso, assim como a de segunda-feira, pois trás os resultados. Contudo, os jornais esportivos diários sofrem de um mal: a distorção de vendas – hipertrofia no final de semana e segundas, e um vazio no meio da semana. Assim, para combater esse desequilíbrio, em 1955, os responsáveis do jornal L’Équipe pensaram numa competição que preencheria a agenda esportiva no meio da semana, a Taça da Europa, que posteriormente se tornaria a Liga dos Campeões. Dois anos mais tarde, a mesma lógica foi aplicada para a criação da Taça da Europa de Basquete e, em 1967, lançaram a Copa do Mundo de Ski, para compensar a falta de informações esportivas no inverno.

Essas estratégias válidas para os impressos também é colocada em prática por canais de televisão. Ao longo dos anos, algumas empresas criaram competições esportivas, das quais se destacam os Good Will Games, lançados pela CNN, em 1986 e os X Games de verão e inverno, criados pela ESPN (ABC-Disney), em 1995. No Brasil também encontramos exemplos: a Rede Globo criou os Jogos de Verão para alavancar as audiências do domingo de manhã durante o verão, principalmente quando não havia torneios de futebol a serem disputados.

Contudo, hoje em dia, a criação de novas competições se dá mais facilmente em modalidades menos populares ou tradicionais, como os esportes radicais por exemplo. No caso do futebol, existem dois grandes obstáculos: a tutela e aprovação de organizações como a FIFA e a UEFA; e a necessidade de um investimento emocional e simbólico que tem ligação com a tradição e a história das competições que acabam por ser determinantes para a sua popularidade – haja vista o caso da Liga dos Campeões e a dificuldade em criar uma superliga europeia de futebol.

Isso não impediu que os conglomerados de mídia incluíssem organizações esportivas a sua lista de aquisições. Dentre as suas motivações estavam a tentativa de conhecer mais a fundo o espetáculo esportivo, conseguir melhores condições na hora de negociar os crescentes valores dos contratos de direitos de transmissão e tentar alguma forma de sinergia e verticalização da produção dado que o esporte foi se tornando mais próximo dos espetáculos televisivos.

As particularidades da economia do esporte acabaram por se mostrar um grande desafio para esses conglomerados, que aos poucos foram abandonando as suas participações na propriedade de organizações desportivas. Por um lado, a necessidade de conseguir vitórias – e, portanto, as receitas de equipes é revertida na aquisição de talentos – diminui a margem de lucro dessas organizações e, consequentemente, afasta o interesse de conglomerados; e por outro lado, a aquisição dos direitos de transmissão e o poder da televisão sobre a organização dos eventos desportivos já se mostraram suficiente para gerir o espetáculo da maneira que for mais conveniente para as empresas de mídia.

 


Futebol e Migração entre Portugal e França

03/07/2017

 

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Pelo alcance global, muito se pode estudar sobre a migração das pessoas e o reflexo disso no Futebol. Aproveitando a minha relação com os dois países, aproveito para refletir um pouco sobre a relação entre Portugal e França. Os portugueses que moram na França e franceses de origem portuguesa são consumidores ávidos de informação desportiva. O dia-a-dia do campeonato português é mais acompanhado que a atualidade política e cultural. Para se ter uma idéia da importância do futebol na cultura lusitana na França, estima-se que existem 1000 clubes portugueses no país, sendo que, atualmente, cerca de 200 possuem uma referência a Portugal nos seus nomes.

Ambos os países partilham uma grande história de migração. A vida dos portugueses no território francês foi muito bem retratada (dada as concepções necessárias para um filme de ficção) e bem-recebida por crítica e público  no filme “A Gaiola Dourada”. O filme conta a história de um casal de emigrantes portugueses em Paris, o seu relacionamento com os filhos e o sonho de voltar ao país de origem em contraste com as realidades atuais. Somado ao contexto de uma nova onda de saída do país, o filme trouxe, novamente, ao debate o tema da emigração e do sentimento de integração nacional.

No caso do esporte, podemos traçar um paralelo com a vitória da seleção portuguesa no Euro 2016 e o título do Mônaco, liderado pelo madeirense Leonardo Jardim. A emigração de jogadores e treinadores formados no país tem sido um dado corrente desde o fim dos anos 90, com a livre circulação de mão-de-obra dentro do Espaço Europeu, mas que vem ganhando especial destaque no futebol graças ao sucesso alcançado por lusitanos, tal como Cristiano Ronaldo e José Mourinho – para ficar com os mais emblemáticos apenas.

Mesmo sabendo que atletas e treinadores de alto rendimento não são os melhores representantes dos trabalhadores “normais”, Leonardo Jardim, treinador do Mônaco, talvez tenha sido quem mais sentiu a experiência de um imigrante português, na França. Mesmo tendo conseguido bons resultados, ele continuava a ser estigmatizado pela forma como falava francês e era alvo de sátiras na televisão. O ápice foi quando, questionado por jornalistas, disse que como português poderia ganhar o prêmio de espátula dourada (em alusão aos muitos trabalhadores nas obras de origem portuguesa), mas não o de melhor treinador.

Se é possível traçar um paralelo entre Leonardo Jardim e o personagem do Pai no filme, os filhos são representativos das novas gerações, que tendo origem portuguesa, já nasceram na França e residiram toda a vida no país. Isso provoca uma identidade híbrida e um sentimento de pertença mais complicado de gerir. Os emigrantes que foram para França nos anos 1960 e 1970 apoiaram mais a seleção portuguesa durante o Euro 2016, enquanto a escolha é mais difícil para as novas gerações, pois há uma divisão entre ser fiel ao país dos seus pais e onde passam férias constantemente ou apoiar o país que os acolheu e onde vivem. Em linhas gerais, o que se nota é que os jovens, que estão mais inseridos na sociedade e na economia, têm uma maior simpatia pela seleção francesa, enquanto aqueles que se encontram numa posição mais marginal, terão uma proximidade maior com sua pátria de origem – por mais mistificada que seja essa relação.

No cenário europeu, há ainda mais um fator que torna a análise mais complexa (ou interessante). O campeonato de seleções, o Euro, acaba servindo como reflexo de uma Europa mais tradicional, nacionalista e, por vezes, xenófoba. Por outro lado, a Liga dos Campeões oferece uma visão da Europa capitalista liberal, que ultrapassa fronteiras nacionais, circulando capital e trabalhadores em nome do sucesso transnacional.


Futebol Feminino em crescimento na França

02/01/2017

O futebol feminino está em ascensão nos últimos anos na Europa. Na França, sede do próximo mundial da modalidade, a popularização do esporte tem sido bastante grande. Embora o sucesso atual esteja ligado a um avanço na luta por mais igualdade entre homens e mulheres, a história do futebol feminino no país não seguiu uma evolução linear.

O futebol feminino aparece na França em 1917, quando, em 30 de Setembro, se disputa a primeira partida entre duas equipes da organização esportiva “Fémina Sport”, existente ainda hoje. Depois de jogar entre si, a equipe de futebol feminino passou a disputar partidas contra equipes escolares e masculinas. Até que em 1918-19 nasceu o campeonato francês.

Femina Sport em 1920 (fonte: muséedusport.com)

Coube à Fédération des Sociétés Féminines Sportives de France (FSFSF), fundada em 18 de Janeiro de 1918, a responsabilidade de organizar torneio e não a FFFA, antigo nome da Federação Francesa de Futebol. A modalidade deixa de fazer parte da FSFSF em 1933, quando o campeonato feminino passa a ser organizado pela Ligue de Paris de Football Féminin. As competições continuam ativas até o início da 2ª Guerra Mundial. No início, o regime de Vichy era favorável ao esporte feminino, mas em 1941, eles proíbem a prática do futebol feminino por julgar nocivo para as mulheres. É preciso esperar até 1970 para que a Federação Francesa de Futebol passe a integrar também as equipes femininas.

A presença das mulheres foi recebida com constante desconfiança. Nos anos 1920 e 1930, as reticências e hostilidades vinham de setores masculinos do esporte, de educadores e de médicos. Muitas foram as acusações que o futebol virilizava as atletas e que colocava em risco a fertilidade das mulheres. Mesmo nos anos 1960 e 1970, muitas dessas ideias se mantinham presentes, de tal modo que os regulamentos eram adaptados para se ajustar a suposta condição mais frágil das mulheres, fazendo com que tempo de jogo fosse reduzido a 60 minutos e disputado em campos com dimensões reduzidas. Até 1989, as atletas deveriam usar uma bola mais leve e menor, usada por categorias de jovens e os contatos mais duros eram proibidos.

Women's Team

Maio de 1925: Seleção francesa de futebol pronta para jogar contra uma equipe inglesa (Foto de MacGregor/Topical Press Agency/Hulton Archive/Getty Images)

No início, o futebol feminino se concentra muito na capital francesa. No seu apogeu, em 1923, eram 18 times de Paris. Aos poucos o esporte foi se difundindo, e foram aparecendo equipes em Reims, Rouen, Lille, Toulouse e Marseille. No renascimento do futebol feminino, na década de 1960, os dois principais pólos eram a Alsácia e a região de Reims, onde o clube masculino era muito popular. Hoje em dia, o esporte já seResultado de imagem para D1 FFF espalha de maneira geral pelo território, embora haja mais resistência nas regiões da Bretanha e da Corsa.

Atualmente, a liga feminina conta com 12 equipes espalhadas pelo país. Do total, 8 equipes estão ligadas a clubes profissionais, com destaque para o Lyon (OL) que venceu os últimos 10 campeonatos e o Paris Saint-Germain, que a semelhança da equipe masculina tem feito grandes investimentos para se posicionar como líder no cenário nacional.

O começo da trajetória de sucesso do futebol francês se inicia nos anos 1990, com a criação dos primeiros pólos de formação especifica, mas a velocidade só aumenta nos anos 2000. Em 2011, o OL vence a Liga dos Campeões antes da Copa do Mundo a ser realizada na Alemanha e contribuiu para que os meios de comunicação dessem bastante atenção à competição. A equipe feminina consegue chegar a capa do jornal L’Equipe por três vezes e, na sequência, continuam a receber atenção da mídia, de modo que os direitos de transmissão televisiva do campeonato feminino são vendidos com sucesso.

A meta é aumentar o número de participantes e alcançar bons resultados dentro de campo. Em Fevereiro de 2016, a Federação comemorou a marca de 100 mil atletas inscritas. Embora ainda esteja longe das 250 mil alemãs associadas à sua federação, é uma grande evolução das menos de 35 mil no ano 2000. No horizonte está um grande evento que pode contribuir ainda mais com essa história de sucesso: o mundial feminino vai se realizar na França, em 2019, quando a federação espera atrair ainda mais interessados, e planeja chegar pelo menos ao pódio.

Logo da Copa do Mundo

 


Futebol numa tarde de domingo: uma breve história do Futebol em Portugal

15/03/2016

Nada mais poético para começar a narrativa da história do futebol em um país do que dizer que o início da modalidade aconteceu numa longínqua tarde de domingo. Apesar de pouco precisa do ponto de vista científico, ela permite colocar um tom lírico, por vezes necessário (quando se fala de Futebol), para histórias que envolvem diversos jogos políticos, sociais e econômicos.

O início da prática do futebol em Portugal envolve diferentes datas e eventos, por vezes não muito precisas. A primeira vez que alguém jogou bola foi, em 1875, na Ilha da Madeira, quando um jovem inglês convidou os seus amigos para uma atividade lúdica, nesse caso um jogo entre amigos e não formalmente organizado, que ainda por cima, teve a sua duração bastante reduzida, dado que a bola acabou sendo destruída. Mais tarde, em 1894, o futebol volta à Madeira, para ser jogado por marinheiros ingleses, apesar de haver outros relatos de partidas sendo jogadas por ingleses. Mas, segundo o relato oficial, a chegada do futebol em Portugal aconteceu numa tarde de domingo, em Outubro de 1888, quando foi organizado o primeiro jogo, mas que seu organizador, Guilherme Pinto Basto, o nomeou apenas como um “ensaio” (que era palavra usada para se referir aos treinos na época), de modo que há quem prefira dizer que o primeiro jogo oficial se realizou no dia 22 de Janeiro de 1889.

Tal como em outros países, a ideia de um “sportsmanship” e um “sportsman” era fundamental para a difusão do esporte. Mas na sociedade portuguesa da época, o tempo livre e os recursos necessários para a prática do esporte estavam limitados a uma elite lisboeta. Num primeiro momento, os jogadores eram pessoas que haviam ido para Inglaterra para estudar ou em missão de negócios ou ingleses que moravam em Portugal.

Em 1890, as famílias Pinto Basto, dos introdutores do futebol, e os Villar, proprietários do Colégio Villar, também conhecido como “Colégio Lisbonense”, se reuniram para criar a primeira associação esportiva exclusivamente dedicada a prática do futebol: o Foot-Ball Club Lisbonense. No entanto, o Ginásio Club Português foi a primeira instituição com uma equipe de futebol. Tendo a ginástica como principal modalidade esportiva, o GCP foi fundado em 1875, e, em 1889, eles criaram uma secção de futebol. Uma terceira associação que jogava futebol de maneira organizada na época era formada por ingleses, o Carcavelos Club.

Na sua origem, o futebol era uma atividade elitista. A presença do Rei D. Carlos em alguns jogos era uma evidência bem forte a esse estatuto social. Mas, diferente de Inglaterra, popularização do esporte não foi resultado de uma disputa de classes: quando o principal campo de futebol teve que ser mudado para Belém, a popularidade do jogo passou a aumentar, mas ao invés de irem contra esse movimento, os membros da elite que jogavam futebol ficaram contentes com essa transformação porque aumentava o números de pessoas para jogar, além de ser frequente a partilha dos transportes públicos entre os jogadores que iam aos jogos.

Durante a última década do século XIX, outras associações esportivas apareceram, mas com vidas muito efémeras. A falta de capacidade nas organizações e as paixões passageiras contribuíram para a explosão e o rápido desaparecimento de muitas associações. Além disso, o ultimato inglês dado à coroa portuguesa não ajudou a popularizar o futebol, afinal ainda era um esporte muito ligado aos ingleses, bem como um ambiente político muito instável, com a crise da monarquia. Todos esses elementos acabam justificando a diminuição da intensidade em relação ao futebol, notado pela diminuição de jogos e de associações.

Mas a crise política que conduziria ao fim da monarquia e levaria a proclamação da República, em 1910, não impediu a popularização do futebol. A modalidade foi ganhando espaço na sociedade na medida em que ela era associada a uma função de modernizar o homem português, que, segundo a opinião da época, havia se tornado preguiçoso após longa influência da educação religiosa. A imprensa foi fundamental nesse processo, pois era através de suas páginas que esse debate avançava, e além disso, o jornal “Tiro e Sport” foi o responsável pela organização da primeira competição no país. Reconhecendo a importância do futebol, a imprensa tinha o papel importante na educação e formação do público, através da divulgação das regras e eventos esportivos – uma ligação que se manteve importante ao longo de todo o século XX.

Depois que se organizou a primeira competição entre clubes, a popularidade do futebol começou a aumentar. Entre 1907 e 1910, o número de jogadores inscritos na federação de Lisboa passou de 96 a 507. Entretanto, esse sucesso se limitava a capital do país, pois o torneio era municipal. A cidade do Porto tentava seguir o mesmo caminho, mas a organização do esporte no resto do país ainda era precária.

No que diz respeito à organização, três cidades – Lisboa, Porto e Portalegre – possuíam federações locais capazes de organizar os jogos e campeonatos. Desde 1906, Lisboa organizava o seu torneio municipal, enquanto Portalegre começou a fazê-lo em 1911, e o Porto em 1913. Em 1914, as três associações municipais se reuniram para criar a UPF (União Portuguesa de Futebol) que mais tarde veio a se tornar a Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Dentre os seus objetivos estavam a filiação à FIFA e organização de um campeonato nacional. Essa missão acabou sendo dificultada por causa da guerra entre 1914 e 1918, mas a UPF organizou, regularmente, encontros entre as equipes do Porto e de Lisboa, tendo que se esperar até 1921 para o primeiro campeonato nacional e 1934 para a organização da primeira liga.

Depois que o domingo passou a ser considerado um dia de folga obrigatória pelo Estado, o futebol aumentou ainda mais a sua popularidade, pois passou a ser mais fácil a participação das classes operárias, seja como atletas ou como público. Em 1914, uma partida entre Benfica e Third Lanarck atraiu 10 mil pessoas. Igualmente, durante a segunda década do século XX, o número de clubes fora da capital se multiplicou, ajudado por um clima positivo para os movimentos associativos depois da proclamação da República.

As rivalidades nacionais também foram um importante elemento de popularização do jogo durante os anos 1920. Por um lado, criou-se a equipe nacional, cujos jogos contra outros países atraiam milhares de pessoas. Por outro lado, como o campeonato nacional não era muito lucrativo, os clubes organizavam amistosos contra clubes estrangeiros, que atraiam mais público, e, consequentemente, mais receitas de bilheteria.

Outro debate relevante na época era sobre a adoção do profissionalismo. No início, o esporte era praticado por uma elite, e o número de jogadores e espectadores eram bastante reduzidos. Na medida em que os jogos começaram a atrair mais pessoas, os clubes começaram a cobrar pelas entradas, e a bilheteria ultrapassou as cotas dos associados como principal fonte de receita. Entretanto, a transformação do futebol em espetáculo não teve, automaticamente, um aumento na remuneração dos jogadores. Oficialmente, o estatuto do futebol em Portugal era amador e os jogadores viam o esporte como uma atividade complementar, tal como uma atividade de lazer que permitia complementar a renda familiar. Em geral, os jogadores eram remunerados por via de subsídios para a alimentação, residência, transporte, ajudas para arranjar empregos e prêmios nas transferências. Um antigo jogador, Fernando Peyroteo, conta que na sua época, nos anos 1940, como os clubes não estavam autorizados, legalmente, a remunerar os seus atletas, cada um dos principais clubes tinha um grupo de mecenas que davam subsídios extras aos principais jogadores.

Oficialmente, o profissionalismo ainda demorou algum tempo para se concretizar. Na imprensa, um dos argumentos a favor da manutenção do amadorismo era o fato de que apenas na Inglaterra a situação era diferente, e a mudança para o profissionalismo poderia ser perigosa, pois ao receber salários para jogar, o espetáculo esportivo estaria em risco por conta das baixas receitas geradas. Sem nenhuma lei que regulasse a relação dos atletas com o clube, esse cenário nebuloso do amadorismo marrom podia continuar. Apenas em 1943, essa polêmica é posta de lado, pois o Estado proclama a primeira lei ligada ao esporte, dizendo que toda atividade esportiva deveria ser amadora. Em 1954, seis entre os principais clubes portugueses apresentaram um relatório, com base no qual pediam uma clarificação sobre o processo de transferência de jogadores e o estatuto dos atletas, mas foi preciso esperar até 1965 para que o profissionalismo fosse implementado oficialmente, a partir da criação de um contrato esportivo a ser estabelecido entre os jogadores e clubes.

Na história do futebol português, é notável a oposição entre Lisboa e o resto do país, mas sobretudo com a cidade do Porto. Tendo sido os pioneiros do futebol, era de se esperar que houvesse uma superioridade dos clubes da capital, mas além disso, como, no início, não havia uma federação nacional, os atletas que representavam o país na seleção eram conhecidos como a equipe de Lisboa. Como clube mais bem-sucedido, o FC Porto passou a ser um representante da região norte do país contra a capital, somando antagonismos políticos e económicos a essa rivalidade esportiva.

Tal como em outros regimes autoritários no mundo, o “Estado Novo” fez uso do futebol para a sua política. Ao lado do Fado e de Fátima, o Futebol compunha os três “F”s populistas do regime de Salazar. Outra importante instrumentalização do futebol era a justificação da manutenção das colônias portuguesas no território africano, uma vez que jogadores nascidos nesses países, como Eusébio e Coluna, estavam integrados aos clubes e a seleção nacional, como exemplo do sucesso colonial português, que já era visto de maneira negativa pela comunidade internacional.

Nos anos 1980, após o fim da colonização, Portugal se virou mais para a Europa, com a entrada na Comunidade Europeia, em 1985. Com a ajuda financeira recebida, o país passou por um processo de modernização para tirar o atraso em relação aos outros países do bloco económico, onde ideias de racionalização, organização e competitividade eram vistos como o caminho para o sucesso político e económico. Ao nível do futebol, a falta de vitórias internacionais, sobretudo da seleção nacional, era explicada pela carência de atributos da modernidade. Conduzido pelo FC Porto e pelo SL Benfica, o futebol português vai se modernizar, primeiro esportivamente e depois a em termos de organização, tendo sido visível a melhoria dos resultados esportivos.

A mercantilização e a influência da globalização sobre a economia influenciaram o futebol português. O aumento da presença do futebol na televisão contribuiu para que o público nos estádios diminuísse, bem como uma concentração de renda em um grupo reduzido de clubes. Paralelemente, a ligação do clube com a comunidade se torna mais fraca, pois os clubes se reorganizam em sociedades anonimas, e papel do acionista ganha importância em relação ao sócio. Além disso, ao nível continental, os clubes portugueses perdem protagonismo para equipes mais ricas, tornando-se exportadores de jogadores para mercados mais desenvolvidos.

Assim, de uma atividade jogada nas tardes de domingo em campos improvisados, rumamos para negócios internacionais. Não mais se misturam torcidas e jogadores nos trens em direção aos campos de jogo, não mais se miram a transformação do homem comum pelo esporte, hoje os clubes portugueses olham como o resto do país para as estrelas da União Europeia, e que também fazem parte da bandeira da competição continental.

Fonte principal: A Paixão do Povo – História do Futebol em Portugal, de João Nuno Coelho e Franciso Pinheiro. Editado pela Edições Afrontamento em 2002.


Amor ao clube ou ao bolso?

09/11/2015

Diz-se que a paixão por um clube faz com que o torcedor mova mundos e fundos. Em geral, o investimento emocional e financeiro que um apaixonado faz não encontra limites na racionalidade pois é explicado pelos sentimentos que o movem e não pelo raciocínio lógico. Embora tenha um grande fundo de verdade e várias comprovações empíricas, com o aumento de uma lógica comercial, essa maneira de se relacionar com o clube pode deixar de ser a forma dominante, abrindo espaço para um relacionamento com base em vantagens múltiplas.

Os programas de sócio-torcedor tentam fidelizar o torcedor para que os clubes possam conseguir mais estabilidade no fluxo de rendimentos provenientes desse setor. É uma ferramenta econômica para tentar minimizar os riscos e os imprevistos com receitas tão variáveis – pois num bom momento, a torcida pode encher os estádios, mas em outros jogos, o público pode ser reduzido. Mas e para o torcedor, quais são as vantagens? Com estádios quase completos e muita procura por ingressos (mesmo sendo caros), a simples garantia de ter lugares a disposição para todos os jogos da temporada já pode ser uma contrapartida suficiente. Embora essa possa ser a realidade nos campeonatos mais atraentes, nos clubes com elencos mais estelares e em cidades que recebem muitos turistas, nem sempre isso vale para todos os clubes.

Em Potugal, os clubes de futebol oferecem mais do que descontos no preço dos ingressos e garantias de lugar no estádio. Em grande parte, devido a um grande desequilíbrio no tamanho das torcidas – há uma dominação quase total entre os três grandes Benfica, Porto e Sporting -, mas também sendo influenciado pela relação com a TV, os estádios em Portugal raramente estão cheios. As visitas dos grandes são as únicas ocasiões em que os estádios dos clubes pequenos se enchem, e mesmo os grandes, em casa, com exceção dos clássicos, raramente, têm o estádio completo.

Por isso, o Benfica – e que depois foi seguido pelos outros clubes – passou a oferecer o “Kit Sócio” que dá acesso uma espécie de cartão de fidelidade para o torcedor. Para obtê-lo, é preciso pagar um valor base (25 euros no caso do Benfica para o Kit Sócio), e depois mensalidades de acordo com o tipo de plano escolhido. Além da oferta de produtos e bilhetes para jogos, o cartão permite o desconto nos ingressos, prioridade em alguns jogos e o que chama mais atenção: descontos com empresas parceiras. No caso do Benfica, destacam-se: 6% de desconto nas contas de luz, descontos no abastecimento de combustível e na compra de passagem áreas da patrocinadora do clube, dentre outros.

Assim, os torcedores recebem uma contrapartida direta pelo investimento feito no clube. Além do tempo e dos sentimentos colocados na sua relação com o clube, a parte financeira pode ser vista como uma escolha racional: ao mesmo tempo que está contribuindo diretamente para os cofres do clube, e assim poderá torcer por uma equipe com mais capacidade de conquistar títulos, o torcedor também tem um retorno mais palpável que apenas a felicidade de possíveis vitórias. Dessa forma, torcer poder ser uma ação tanto emocional, como racional.

Programas de sócio-torcedor que ofereçam um lugar garantido ainda está de acordo com visão do torcedor apaixonado que quer estar presente no estádio, pois esse é o seu lugar. Porém, ao oferecer outras vantagens que não estão ligadas ao clube, estabelece-se uma nova racionalidade em uma relação que antes era suposto ser baseada no sentimento pelo clube. Na medida em que os clubes adotam uma forma de operar mais econômica e mais próxima de empresas, também o torcedor altera a forma de encarar a relação com o clube.


Serão os clubes de futebol multinacionais?

23/06/2015

Ciclicamente, quando as empresas de consultoria lançam os seus relatórios e respectivos rankings com os clubes mais ricos do mundo, as marcas esportivas mais valiosas e outras listas do gênero, a comparação entre o futebol e o mundo empresarial é recorrente. O apelo internacional de clubes como Real Madri, Manchester United ou Bayern de Munique permitem o questionamento: será que podemos comparar os grandes clubes internacionais com empresas multinacionais?

O primeiro ponto de comparação entre clubes de futebol e multinacionais é a estrutura. Juridicamente, multinacionais são empresas que buscam o lucro, enquanto clubes, tradicionalmente, foram associação sem fins lucrativos. A partir dos anos 1980, quando os contratos da venda dos direitos de transmissão televisiva começaram a se tornar muito valiosos, em muitos países, a realidade dos clubes teve que ser ajustada para que o lucro fosse permitido, mas principalmente para que profissionais fossem contratados e remunerados por isso, pois como associações sem fins lucrativos, com exceção dos jogadores que já eram profissionais, o trabalho era em grande parte não-remunerado. Isso não quer dizer que todos os clubes tenham os mesmos estatutos jurídicos, existem os clubes que são cotados em bolsas como sociedades anônimas, e outros são sociedades esportivas e muitos ainda são clubes sem fins lucrativos.

Outra questão a ser avaliada é o objetivo final de um clube. Segundo especialistas em Economia do Esporte, organizações esportivas de ligas fechadas – modelo das ligas nos EUA – e de ligas abertas – modelo europeu e sul-americano – acabam por ter objetivos diferentes, por conta das diferenças na gestão das suas ligas, sendo as principais delas a possibilidade de rebaixamento e a divisão de receitas, tendo assim as equipes de ligas fechadas o objetivo de lucro – tal como empresas tradicionais – enquanto, os clubes de ligas abertas têm como finalidade maximizar as vitórias. Na busca por vitórias, as equipes buscam recrutar os melhores talentos, que tendencialmente representam o maior salário, assim, num dado momento, as equipes que buscam o lucro terão que avaliar o tamanho do lucro desejado, em relação ao desempenho esportivo. Por outro lado, os clubes que maximizam as vitórias, não se importam com o lucro, ou seja, todas as suas receitas podem ser reinvestidas no clube, buscando um lucro zero, de forma que mais dinheiro possa significar melhores condições e melhores jogadores. O problema se coloca quando a gestão é feita de maneira irresponsável, e as dívidas se acumulam continuamente.

Normalmente, quando se fala em multinacionais, a referência são grandes companhias industriais. No entanto, clubes de futebol estão mais próximos de um setor de serviços, e, portanto, devem ser analisados segundo os seus fatores de produção, que são capitais humanos e não físicos, bem como transações no mercado internacional. Grandes clubes contam com uma mão-de-obra vastamente diversificada, tendo sido notável que equipes do Arsenal, em anos recentes, tenham entrado em campo e no banco de reservas sem nenhum jogador inglês. Além disso, outros parceiros dos clubes são internacionais, sejam clubes que trocam experiências ao nível técnico, empresas que patrocinam a organização e os eventos ou empresas de mídia.

É preciso fazer a ressalva que apesar de todo esse processo de globalização, ainda há fortes elementos nacionalistas no futebol. Apesar de todos os estrangeiros e o seu apelo global, a Premier League continua sendo o “campeonato inglês”, disputada em estádios ingleses, para um público, maioritariamente, nacional. Além disso, o principal evento esportivo do planeta, a Copa do Mundo, coloca frente a frente nações em disputa de um título.

No entanto, essas barreiras espaciais do esporte são quebradas com as possibilidades oferecidas pelos meios de comunicação. A partir do momento em que o espetáculo esportivo é mediatizado, ele pode ser produzido, empacotado e distribuído para todos os cantos do globo. Dessa forma, um clube não está mais limitado a sua própria região, sua audiência se torna global, principalmente, quando atinge fases finais da Champions League. Não é por acaso, que a televisão se tornou a melhor e principal parceira das organizações esportivas.

Os recentes processos de modernização e racionalização das organizações esportivas permitiram a contratação de profissionais mais voltados para o mercado, contribuindo para um aumento das receitas dos clubes esportivos. Embora apresentem ainda um modelo de negócios muito particular, reconhece-se que o crescimento dos clubes que já estão no topo dos seus países passa, em grande medida, por uma expansão internacional refletida na sua mão-de-obra e parceiros, e cuja importância da mídia é fundamental. Por fim, pode-se concluir que embora nem todos os clubes estejam no patamar global, aqueles poucos que lá chegam, apesar de suas particularidades, podem ser relacionados com empresas multinacionais.