Desporto adaptado em Portugal

29/06/2020

Desporto Adaptado | O Primeiro de Janeiro

Apesar do reconhecido sucesso e relativa atenção dada aos Jogos Paralímpicos a cada quatro anos, o estudo e dos desportos adaptados ainda apresentam muitas lacunas, apesar de uma rica história. Os primeiros relatos sobre o Desporto Adaptado praticado por pessoas com deficiência auditiva, mencionam a introdução da modalidade de beisebol em 1870 (Araújo, 1998). Em 1885, na Escola Estadual de Illinois, Estados Unidos, teve início a prática do futebol americano, e em Berlim, Alemanha, em 1888, surgem os primeiros clubes destinados às pessoas com deficiência auditiva (IPC, 2012; Marques & Gutierrez, 2014).

Em 1924, foi assim possível a criação da Organização Mundial de Desportos para Surdos, com a realização de uma competição internacional, em Paris, nomeada “Jogos Internacionais para Surdos”, onde participaram 148 atletas (147 atletas masculinos e 1 atleta feminina), provenientes de nove países europeus. Originalmente, de 1924 a 1965, os jogos foram chamados de “Jogos Internacionais para Surdos”. Posteriormente, de 1966 a 1999, foram chamados de “Jogos Mundiais para Surdos” e, por vezes, referidos como os “Jogos Mundiais Silenciosos “. A partir de 2000, os jogos passaram a ser conhecidos pela designação atual “Deaflympics” ou Surdolímpicos. Realizam-se de 4 em 4 anos, constituindo o segundo evento multidesportivo mais antigo, e o primeiro evento desportivo internacional para atletas com deficiência auditiva (CPP, 2015).

O grande marco para a evolução do desporto adaptado surge com as Grandes Guerras Mundiais e as suas consequências nos soldados, no número muito elevado de feridos, cujo tratamento e reabilitação se fez através do desporto. O desporto como acelerador de reabilitação, aumentou a possibilidade de interação e motivação para os soldados que regressavam aos seus países com distúrbios motores, visuais e auditivos, e que consequentemente tinham dificuldades no seu restabelecimento social e emocional. Na Europa e nos Estados Unidos, a preocupação com a qualidade de vida e a reabilitação de um grande número de soldados e civis com deficiência, fez com que os seus governos tomassem medidas, e com isso muitos começassem a ter acesso a práticas desportivas e atividades físicas adaptadas como forma de minimizar as adversidades causadas pela guerra.

Em 1948, foram fundados os Jogos Stoke Mandeville e as primeiras competições para atletas com lesões da medula espinhal que ocorreram no Hospital de Stoke Mandeville, onde duas equipas britânicas com 16 participantes em cadeira de rodas competiram em tiro com arco. O primeiro regulamento formalizado dos Jogos de Stoke Mandeville data de 1949, ano em que Guttmann, seu criador, anunciou sua intenção em transformá-los nos Jogos Olímpicos para pessoas com deficiência. A celebração dos primeiros Jogos Paralímpicos coincidiu, no mesmo ano, país e cidade com a realização dos Jogos Olímpicos de Roma, Itália, em 1960. Este evento contou com 400 atletas de 23 países e desde então, os Jogos Paralímpicos têm-se realizado de quatro em quatro anos. Assim, mais de meio século após o relançamento dos Jogos da Era Moderna, estrearam-se os Jogos Paralímpicos, criados pelo neurocirurgião Sir Ludwig Guttmann que procurou sempre a convergência com os Jogos Olímpicos, primeiro fazendo coincidir as competições em 1948 com a 14ª Olimpíada de Londres, em 1952 com a de Helsínquia, e em 1960 com a de Roma. “Guttmann, à semelhança de Coubertin foi um Homem, de Sonho, de um Ideal, veiculado através do Desporto, materializado, num acontecimento universal que são os Jogos e sustentados por uma Organização” (Carvalho, 2004, p. 193).

Desde os anos 70, do século XX, foram criadas várias organizações desportivas a nível internacional para pessoas com deficiência, como por exemplo: 1977 a Internacional Committee of Sport for the Deaf (CISS); 1978 a Associação Internacional de Desporto e Recreação para a Paralisia Cerebral (CP-ISRA – Cerebral Palsy International Sports and Recreation Association); 1981 a Internacional Blind Sports Association (IBSA); 1986 a Internacional Association Sport for Person With Intellectual Handicap (INAS-FID); em 1989, o Comité Paralímpico Internacional (IPC), entidade sem fins lucrativos, com sede na Alemanha (Bona), reconhecido como o responsável máximo do desporto paralímpico mundial; e em 1997, o Comité Paralímpico Europeu (EPC). Haverá ainda a assinalar, que em 1976, surgiu outra vertente do movimento paralímpico, os primeiros Jogos Paraolímpicos de Inverno, realizados na Suécia e, como acontece com os Jogos de Verão, ocorrem de quatro em quatro anos no mesmo lugar que as Olimpíadas de Inverno.

Em Portugal, foi a partir dos anos 1950, com o surgimento de médicos especializados em medicina física e reabilitação, que originou uma nova era na recuperação e treino de incapacidades. Simultaneamente, afirmaram-se profissões como a educação física, a terapia ocupacional e a ortoprotesia (Rodrigues et al., 2013). Ângelo Vieira Araújo foi um dos impulsionadores do desporto adaptado em Portugal. Crente de que estas ideias sobre jogos e desportos não eram vazias de sentido, e incentivado pelas palavras de Guttmann de que isso seria “a tremendous inspiration, not only to them concerned but to all your other patients”, liderou a participação portuguesa nos jogos de Stoke Mandeville no Nacional Spinal Injuris Centre, em Inglaterra, atletas nacionais. Assim, em 1957, Araújo acompanhou uma equipa do sexo masculino enviada pelo Hospital Ortopédico de Acidentes onde era diretor do serviço de Medicina Física e Recuperação na altura, e em 1962 voltou aos jogos com uma nova equipa, desta vez feminina, constituída por três atletas em cadeira de rodas do Hospital Ortopédico de Sant’Ana. Esta equipa competiu nas modalidades de tiro com arco e no lançamento de peso, tendo neste último conseguido o 2.º lugar.

A primeira participação portuguesa nos Jogos Paralímpicos verificou-se na quarta edição dos Jogos, em 1972, em Heidelberg na Alemanha, com a presença de uma equipa de Basquetebol em cadeira de rodas constituída por atletas com lesões vertebro-medulares e amputados do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão. Na época não existia nenhuma estrutura de enquadramento orgânico do desporto para deficientes, muito menos se verificava uma prática desportiva regular que estivesse dotada de um quadro competitivo próprio, e nem o desporto regular oferecia essa possibilidade aos atletas deficientes.

Em 1984, após uma interrupção de duas edições (1976, no Japão e 1980, na Holanda), efeito do pós-25 de Abril, Portugal retomou a participação nos Jogos Paralímpicos de Nova Iorque, nos Estados Unidos, seguindo-se-lhe Seul em 1988, na Coreia do Sul. Estas duas participações foram da responsabilidade da Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral (APPC).

O desporto adaptado tem vindo a crescer a nível nacional, surgindo em 1988, a Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes, como uma Federação Multidesportiva que promove e desenvolve a prática de diversas modalidades desportivas, tendo como associados cinco Associações Nacionais de Desporto por Deficiência: a Associação Nacional de Desporto para Deficientes Visuais (ANDDVIS), a Associação Nacional de Desporto para a Deficiência Intelectual (ANDDI-Portugal), a Liga Portuguesa de Desporto para Surdos (LPDS), a Paralisia Cerebral Associação Nacional de Desporto (PC-AND), e a Associação Nacional de Desporto para a Deficiência Motora (ANDDEMOT). Assim, nas edições de Barcelona 92’ (Espanha), Atlanta 96’ (Estados Unidos da América), Sydney 00’ (Austrália), Atenas 04’ (Grécia) e Pequim 08’ (China), a participação portuguesa passou para a responsabilidade da Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência (FPDD).

Só em 2008, nasceu o Comité Paralímpico de Portugal (CPP), organização tutelada pelo International Paralympic Comitee (IPC) e International Committee for Sport for Deaf (ICSD), tendo por objetivo promover o desporto adaptado de competição e alto rendimento, e representar o Movimento Paralímpico Português dentro e fora do território nacional. Desde os Jogos Paralímpicos de Londres 2012, a equipa portuguesa é tutelada pelo CPP.

A nível nacional, o movimento associativo desportivo encontra-se estruturado através do Comité Olímpico de Portugal, do Comité Paralímpico de Portugal, da Confederação do Desporto de Portugal, das Federações de Modalidade e da Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência. A nível local, com os clubes e as associações/agrupamentos de clubes, e estruturas intermédias nos distritos e/ou regiões.

A falta de uma organização unificada em conjunto com o estigma social levou a uma quase invisibilidade dos meios de comunicação aos atletas e aos jogos paralímpicos. Como resultado, é um desafio constante ter acesso a fontes de pesquisa, sendo necessário uma reflexão a partir da própria construção do objeto de estudo. Se por um lado é uma dificuldade suplementar, é ao mesmo tempo um desafio interessante e uma oportunidade rica para o desenvolvimento de mais estudos.

*Este texto foi escrito em parceria com Luísa Paula Anacleto, estudante de doutorado em Educação Física pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

Referências

Araújo, P. F. (1998). Desporto adaptado no Brasil: origem institucionalização e atualidade. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto, Indesp.

International Paralympic Committee (2012). History of the Paralympic Movement. Disponível em https://www.paralympic.org/sites/default/files/document/120209103536284_2012_02_History%2Bof%2BParalympic%2BMovement.pdf

Marques, R. F. R. & Gutierrez, G. L. (2014). O Esporte Paralímpico no Brasil: profissionalismo, administração e classificação de atletas. São Paulo: Phorte.

Comité Paralímpico de Portugal (2015). Disponível em https://www.paralimpicos.eu/Documentos/Plano%20e%20Relat%C3%B3rios/PAO_2016_Versao_Aprovada_AP%2024%2011%2015.pdf

Carvalho, J. V. (2004). A Missão Paralímpica Atenas 2004. Revista Cultura e Desporto, 9.

Rodrigues, M. A., Pita, J. R. & Pereira, A. L. (2013). O Deficiente e o Desporto: A primeira participação feminina portuguesa nos Jogos Anuais de Stoke Mandeville (1962). Livro de Resumos do Congresso Desporto no Feminino: As Mulheres e o Desporto nos séculos XIX e XX (pp.46-48). Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

 

 


“O primeiro a gente nunca esquece” – Primeiro dérbi de futebol feminino em Lisboa

27/01/2020

O Sport Lisboa e Benfica e o Sporting Clube de Portugal são dois dos mais tradicionais clubes de Portugal, e os maiores rivais de Lisboa. Uma vez que os clubes são multidesportivos, a rivalidade não se limita ao futebol masculino, estando presente em outras modalidades onde os clubes são fortes e se enfrentam, como por exemplo, o futsal, o hóquei patins, o handebol e, mais recentemente, o futebol feminino. Contudo, essa rivalidade e a visibilidade de outros encontros e modalidades não se reflete da mesma forma no futebol feminino.

A rivalidade surge nos anos 30. Grande parte do motivo é fruto das disputas entre Benfica e Sporting na Volta a Portugal, de ciclismo, onde os jornais alimentavam a narrativa da disputa clubística representada por dois dos maiores ciclistas portugueses, José Maria Nicolau, que ganhou a Volta a Portugal em 1931 e 1934 pelo Benfica e Alfredo Trindade, que ganhou a Volta a Portugal em 1933 pelo Sporting.

Associado ao fato de que o futebol masculino tem um papel de completo domínio da agenda midiática desportiva, em Portugal, hoje em dia, um jogo entre Benfica e Sporting recebe uma cobertura massiva em todos os veículos e suportes de comunicação. Nos dias que antecedem os jogos, os mínimos detalhes são analisados e noticiados, assim como depois dos jogos há uma exaustiva análise da repercussão dos resultados. Reconhecendo que a rivalidade é um elemento basilar do desporto, a disputa entre Sporting e Benfica – também conhecido como dérbi éterno – recebe atenção internacional, com uma abordagem que pode transcender as rotinas imediatas dos resultados.

O mesmo não ocorre com o futebol feminino. Primeiramente, porque a rivalidade entre Sporting e Benfica ainda é muito recente. Formada em dezembro de 2017, o Benfica começou a sua trajetória no futebol feminino na temporada 2018/19, na 2ª divisão (Campeonato Nacional de Promoção), conseguindo a subida no primeiro ano e sendo campeãs da Taça de Portugal da mesma temporada. A equipe feminina do Sporting conta com um pouco mais de tradição: fundada em 1991, o clube foi pioneiro ao colocar em funcionamento as primeiras escolas de formação de futebol feminino, mas interrompeu as suas atividades após 4 temporadas, em 1995, voltando ao funcionamento em 2016, e a partir daí foi campeão de todos os torneios nacionais. Assim, o primeiro jogo oficial entre ambas as equipes só aconteceu a 19 de outubro de 2019, no Estádio da Luz, pelo campeonato de 2019/20.

Contudo, antes disso, na temporada anterior, as duas equipes se enfrentaram num jogo amistoso, a 30 de março de 2019. A partida realizada no Estádio do Restelo e denominada Troféu Vicente Lucas, jogador moçambicano do Belenenses e um dos ‘magriços’ da seleção portuguesa de 1966, tinha como objetivo angariar fundos para Moçambique, após a tragédia causada pela passagem do Ciclone Idai, no início do ano.

A realização da partida contou com a colaboração de ambos os clubes, do Belenenses, que cedeu o estádio e o nome do troféu, a Federação de Futebol Portuguesa (FPF), o canal de televisão TVI, que transmitiu a partida, o sindicado de jogadores e a Associação de Futebol de Lisboa. O primeiro dérbi lisboeta da história do futebol feminino era a principal forma de atrair o mundo do futebol, dentro de um universo onde as agendas dos clubes profissionais masculinos já se encontram sobrecarregadas.

O jogo foi um sucesso, tendo batido o recorde de público, em Portugal, para um jogo de futebol feminino, com 15 204 pessoas, no estádio do Restelo. O jornal A Bola deu algum destaque ao jogo em sua capa (no dia do jogo e no dia seguinte), mais do que o dado ao primeiro jogo oficial, em outubro, quando apenas deu destaque no dia seguinte, mais do que o seu concorrente de Lisboa, o jornal Record que não mencionou em sua capa o 1º jogo oficial.

Jogos com mais público:

12.812 espectadores, no Estádio da Luz | Benfica x Sporting (4.ª rodada da Liga BPI)

12.632 espectadores, no Estádio do Jamor | Benfica x Valadares Gaia (final da Taça de Portugal de futebol feminino 2019)

12.213 espectadores, no Estádio do Jamor | Sporting x Sp. Braga (final da Taça de Portugal de futebol feminino 2017)

Embora a rivalidade seja um pilar do esporte e uma importante ferramenta de promoção da mídia desportiva, o dérbi de outubro de 2019, mesmo sendo o primeiro jogo oficial, valendo 3 pontos, foi promovido com ênfase no entendimento entre as partes. A FPF, organizadora do campeonato, através de seu canal de televisão, reuniu as capitães para promover o jogo, com base naquilo que une ambas, mais do que o que as separa.

Entre holofotes e sombra, o futebol feminino vai construindo a sua história. A narrativa em torno do futebol feminino apresenta um discurso alternativo, embora recheado de elementos comerciais. Por um lado, há a tentativa de promover um discurso de igualdade de oportunidades para homens e mulheres na modalidade, junto com um apelo à união e paz nos estádios. Por outro, há o objetivo de fazer crescer a modalidade, profissionalizar as suas estruturas, atrair público e patrocinadores para o espetáculo.

 


Futebol e Estudantes contra o Estado Novo

26/08/2019

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O Documentário “Futebol de Causas” (2009) (https://www.youtube.com/watch?v=by6AqacVw9I), do diretor Ricardo Antunes Martins, mostra um importante panorama sobre a relação entre Política e Esporte, com uma passagem bastante emblemática da história de Portugal. O filme mostra a contribuição decisiva dos jogadores de futebol da Académica de Coimbra nas contestações estudantis e o seu impacto e influência na revolução dos cravos.

À época, Coimbra apresentava condições únicas na realidade do país. Sob o julgo do Estado Novo, num país marcado pela censura e pelo analfabetismo, a voz dos estudantes universitários ecoavam mais alto. Os estudantes beneficiavam-se de terem acesso à informação, ao ensino e à cultura, mas acima de tudo por partilharem experiências que contribuíram para o seu processo de crescimento e formação.

Tendo em vista que os próprios jogadores da Académica , eles também tinham acesso a todo o processo de enriquecimento pessoal e colectivo que a Universidade proporcionava. Como consequência, essa formação contribuiu para um posicionamento social e político ativo por parte dos atletas, culminando no envolvimento nas disputas e reivindicações nos mais diversos episódios da luta estudantil.

A “Crise Acadêmica de Coimbra de 1969” (http://ensina.rtp.pt/artigo/a-crise-academica-de-1969-17-de-abril/ e https://arquivos.rtp.pt/conteudos/40o-aniversario-da-crise-academica/) foi como ficou conhecida a onda de luta estudantil na Universidade de Coimbra durante a primavera e o verão de 1969. Este é um dos marcos da luta contra o regime fascista e que é o apíce de lutas estudantis em contexto internacional (Maio de 1968) e nacional (Crise Académica de 1962 – https://arquivos.rtp.pt/conteudos/crise-academica-de-1962-2/).

Em abril, começou a Crise Acadêmica de 1969, quando o presidente da Direção Geral da Associação Académica foi impedido de falar na inauguração de um prédio na Universidade. As manifestações desenvolveram-se até ao final de julho, com uma greve a exames de dimensão maciça, e com a presença da Académica na final da Taça de Portugal, contra o Benfica. Os jogadores, que também eram estudantes, eram parte ativa da militância e o time era um dos dos principais meios de divulgação e propaganda dos estudantes e dos ideais revolucionários e reivindicativos. Assim, os jogadores aderiram às manifestações fazendo da final da Taça, no Estádio Nacional, um dos maires comícios contra o regime do Estado Novo.

Mais do que um marco na história da Académica de Coimbra, o filme preenche uma lacuna na história do país, como o próprio diretor do filme reconhece eu um texto de sua autoria:

“Inocentemente, quando me propus desenvolver este projecto, estava longe de adivinhar e de imaginar o impacto que iria ter. Admito que parti para o projecto com a sensação que seria um marco simbólico e de espólio importante para a Académica, mas apenas isso. Longe de mim imaginar que estaria a trilhar por campos virgens, muito menos que estava a preencher lacunas históricas no que toca à antecâmara do 25 de Abril. Inicialmente, pretendia fazer apenas uma certa justiça histórica aos jogadores e divulgar as acções, atitudes e carácter destes homens e a forma como se posicionaram, pessoal e politicamente, nas crises académicas e, no fundo, procurar comprovar de certa forma a minha teoria do seu contributo, mais directo ou indirecto, para o abrir de mentalidades do povo português para a realidade social, económica e política do nosso país então pastoreado a chicote por um regime inflexível”. (Fonte: https://www.uc.pt/rualarga/anteriores/27/27_12).

Estendendo-se ao longo de 70 minutos, o filme conta com entrevistas dos principais personagens históricos, sendo ilustrada por imagens de época e de arquivo. Destacam-se as contribuições de alguns dos atores históricos, como Alberto Martins e Celso Cruzeiro, da análise e interpretação de Laborinho Lúcio, ou o testemunho dos jogadores Mário Wilson, José Belo, Mário e Vítor Campos, Mário Torres, Rui Rodrigues, Jorge Humberto e, também, Manuel António, o melhor marcador do Campeonato Nacional em 1969, tendo superando Eusébio.

O seu DVD conta com alguns extras que enriquecem o filme, sobretudo por seu caráter desportivo. Esses complementos podem ser encontrados online: https://vimeo.com/233948411 e https://www.youtube.com/watch?v=okUgEQ6hACY.

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Só há um Belenenses

25/03/2019

O recente caso do Clube de Futebol Os Belenenses tem gerado um interessante debate sobre a propriedade dos clubes, a relação entre o clube e seu caráter social e o lado empresarial e econômico do futebol. Recentemente, iniciei um projeto de pesquisa para avaliar o papel dos elementos culturais e simbólicos do futebol dentro da organização industrial do futebol moderno e o caso do CF Os Belenenses oferece algumas pistas para entender a situação.

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Após uma série de mudanças na legislação portuguesa, a partir de meados dos anos 1990, os clubes de futebol do país foram obrigados a assumir um novo formato jurídico para poder disputar os campeonatos profissionais de futebol. Dentre as duas opções – Sociedade Anônima Desportiva (SAD) e Sociedade Desportiva Unipessoal por Quotas (SDUQ) -, a maior parte dos clubes optou pelas SADs. Como Sociedades Anônimas, cotadas em bolsa, a legislação portuguesa obriga que o clube fundador mantenha no mínimo 10% do capital da SAD, ou seja, é possível que investidores passem a ter o controle do futebol de um clube.

A venda do capital da SAD d’Os Belenenses foi o ponto de partida para uma relação que tem sido conturbada desde o início. Em 2012, em um momento financeiro complicado, a Assembleia Geral do clube decidiu vender a maioria da SAD para um grupo de investimento, Codecity Sports Management. Na altura, fazia parte do acordo a possibilidade de recompra do capital por parte do clube.

Contudo, a relação entre investidor e clube nunca foi positiva. Desde o início, a Codecity rasgou o acordo fechando as portas para a recompra do capital da SAD pelo clube. Dentre as várias queixas do clube em relação ao comportamento da SAD estão: a falta de investimento (a grande maioria dos jogadores que foram contratados vieram a custo zero ou foram emprestados); os custos de manutenção do estádio eram suportados integralmente pelo clube, entidade sem fins lucrativos, sem compensação pela SAD; a não utilização de jogadores que vinham das escolas de formação do clube (pois implicava o pagamento da SAD ao clube que detém o futebol de formação); e o desagrado pelo envolvimento do nome do clube, através do Presidente da SAD, Rui Pedro Soares, em investigações de corrupção.

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Depois que um tribunal de justiça deu ganho de causa à SAD, na questão da recompra das ações, o clube proôs que fosse criado uma equipe de futebol d’Os Belenenses a disputar os escalões amadores do futebol português e que a SAD passasse a pagar um aluguel pelo uso do estádio do Restelo. Porém, a SAD manteve a sua postura de incompatibilidade com a direção do clube e negou o acordo. Houve aí uma cisão entre ambos, o CF Os Belenenses criou uma equipe para jogar a 2ª divisão dos distritais de Lisboa (algo como a sexta divisão) que joga no Estádio do Restelo, enquanto a Belenenses SAD disputa a 1ª divisão do futebol profissional e aluga o Estádio do Jamor.

No âmbito jurídico tem havido disputas entre as partes e destaco aqui a luta pelo nome e uso dos símbolos do clube. Para o clube e grande maioria de seus sócios, só “há um Belenenses, que joga no Restelo” e tentam impedir que a SAD use os símbolos do clube. No passado 8 de março, o clube teve uma vitória jurídica, fazendo com que a equipe da SAD entrasse em campo com um novo emblema no jogo contra o Benfica.

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Novo emblema do Belenenses SAD

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Emblema do CF Os Belenenses

Aparentemente, a maior parte dos torcedores tem dado razão ao clube, fazendo com que a média de público no Restelo, para o campeonato amador, seja bastante superior ao Belenenses SAD, apesar de estarem conseguindo uma de suas melhores temporadas em campo, estando a disputar uma vaga na próxima Liga Europa. Um dos exemplos de que a ligação com o clube supera a relação comercial e profissional do “futebol moderno” foi o jogo entre Belenenses e Estrela – formado após a falência do tradicional Estrela da Amadora – que lotou o estádio reunindo 5 mil pessoas.

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É ainda mais interessante que essa disputa aconteça tão próximo ao centenário do clube, criado em setembro de 1919. A direção do clube organizou uma exposição itinerante para celebrar a data e tem circulado por Lisboa, tendo funcionado como importante ferramenta para criar uma maior ligação com a sua história, com seus sócios e seus torcedores. Do ponto de vista patrimonial, o clube detém o seu estádio e a sua galeria de troféus, além de manter a relação com todas as outras modalidades que são praticadas no clube, enquanto a SAD é dona “apenas” do futebol profissional e toda atenção e dinheiro que cirucula em torno disso. O caso do Clube de Futebol Os Belenses vem mostrando que as ligações humanas, a relação com o local e a história são elementos fundamentais para o futebol, mesmo que seja profissional, moderno e comercial.

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Eusébio – História de uma Lenda

09/04/2018

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Eusébio da Silva Ferreira é uma figura mítica do Futebol Português e esse seu estatuto é refletido no filme “Eusébio – História de uma Lenda”, do diretor Felipe Ascensão, lançado no ano passado. O documentário conta a vida do jogador de forma cronológica, desde a sua origem em Moçambique, a viagem para Portugal e o sucesso alcançado na carreira. O fio condutor da narrativa gira em torno dos depoimentos do próprio personagem, um dos grandes méritos do filme.

Desde o início, Eusébio declara o seu amor por sua terra natal, pela sua terra de acolhimento e pelo Benfica. Seria fácil enquadrar o filme em relação ao seu papel na história do país ou na história do clube, mas o filme se mantém fiel ao propósito de mostrar o lado humano de Eusébio, dando voz ao homem, suas emoções e a forma como ele encarou cada um dos momentos marcantes da sua trajetória. No meio de tantos marcos, que poderiam ser considerados históricos, sobressai o prazer que Eusébio tinha em jogar Futebol.

O sentimento pelo jogo e a admiração pela capacidade de Eusébio fica evidente nos depoimentos dados. Companheiros de Benfica, contemporâneos de seleção, adversários ou jogadores mais novos que só o viram em filmes de arquivo mostram um tremendo respeito pelo que Eusébio apresentou dentro de campo e pelo que ele representou para o futebol do país.

Outro mérito do filme é valorizar o lado estético dos seus feitos futebolísticos. Usando poucas legendas com informações sobre datas, jogos e estatísticas, o filme usa muitas imagens de arquivo nas quais apresenta as proezas de Eusébio. Desse modo, não apenas ilustra com imagens aquilo que vem sendo narrado nos depoimentos dados, como oferece aos espectadores uma visão que prioriza o lado estético do futebol, e não uma abordagem de almanaques.

Por fim, parece-me que noção de lenda é extremamente apropriada. Saindo na esfera cinematográfica, essa imagem é confirmada pela transladação de Eusébio ao Panteão Nacional e pelo respeito de todos por Eusébio. Hoje, pode-se considerar Portugal um país importante no contexto do Futebol, mas mesmo tendo vencido 5 bolas de ouro e batido praticamente todos os recordes da seleção nacional, o estatuto de Eusébio em quase momento algum é questionado em oposição a Cristiano Ronaldo. O talento do madeirense é inegável, da mesma forma que a posição de Eusébio é intocável na história.


Meios de Comunicação e Esporte: Grandes Amigos

23/10/2017

A relação entre as empresas de mídia e o esporte é longa e mutuamente proveitosa. Meios de comunicação oferecem visibilidade aos atores do mundo desportivo, permitindo mais fluxo de bilheterias e melhores contratos de publicidade, enquanto os meios de comunicação aumentam a sua circulação, devido à atratividade do conteúdo esportivo junto às audiências. A imprensa teve um papel fundamental para a independência do esporte e o seu processo de profissionalização. Mas as fronteiras entre ambos universos são fluídas e muito próxima foi a relação de empresas de mídia com o universo desportivo.

Em França, o caso mais relevante de empresas de mídia que passaram a exercer funções que seriam de organizações esportivas é o que envolve o jornal L’Équipe e o Tour de France. A prova ciclística mais famosa do mundo em sua origem foi criada e organizada pelo jornal L’Auto, em 1903. A rivalidade entre os jornais L’Auto e Le Vélo foi além da produção jornalística, chegando a organização de atividades esportivas. Limitadas a provas de dimensões menores, como Paris-Roubaix, Bordeaux-Paris, Paris-Brest, a criação do Tour de France – a primeira prova por etapas no território francês – foi pensada para assegurar um espetáculo esportivo único e aumentar a venda de jornais: desde o verão de 1903, durante o período da competição o L’Auto teve sucesso, triplicando a venda dos jornais e diminuindo os números da concorrência.

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Suspenso durante a segunda guerra mundial, o Tour de France passou a ser desejado pela imprensa de esquerda por conta do seu poder como vetor publicitário. Assim, três jornais (Sports, o semanário Miroir Sprint e diário generalista Ce Soir) criaram conjuntamente, a partir de um modelo semelhante, a « Ronde de France », em 1946. Contudo, em 1947, o Estado atribuiu ao Parisien Libéré e ao L’Équipe a responsabilidade de retomar o Tour de France. As condições da nomeação foram eminentemente políticas: Emilien Amaury, proprietário do Parisien Libéré, era muito próximo ao partido gaulista. Em 1965, ele aumenta o seu património comprando oficialmente o jornal L’Équipe, de modo que o grupo Amaury detém o quotidiano esportivo e o Tour de France.

A retomada da competição em 1947 foi fundamental para estruturação interna e a perenidade do jornal. Ela permitiu que fossem reestabelecidas e reforçadas as ligações com os setores da indústria ciclística e patrocinadores. Os retornos publicitários sobem, tal como as vendas que têm no mês de julho, quando se realiza a prova, o seu maior volume. O modelo económico de organização dos eventos tinha um objetivo claro: aumentar a venda dos jornais. O grupo Amaury também é hoje responsável pelo Rally Dakar.

A competição de clubes mais importante no universo do futebol também foi criada a partir do jornal L’Équipe. O primeiro congresso da UEFA só aconteceu em 2 de Março de 1955 e a maior parte dos membros fundadores estavam preocupados em criar um torneio continental de seleções, deixando espaço para a iniciativa do jornal francês. A competição idealizada pelo L’Équipe não obrigava a que os participantes fossem campeões nacionais, funcionava sim por convites aos clubes que geravam maior interesse junto dos adeptos. Representantes de 16 clubes foram convidados para uma reunião que teve lugar a 2 e 3 de Abril de 1955 e as regras do L’Équipe foram aprovadas por unanimidade. A UEFA reagiu ao contactar a FIFA, e o Comité Executivo desta, numa reunião em Londres a 8 de Maio de 1955, autorizou a realização da nova competição de clubes com a condição de ser organizada pela UEFA e que as federações nacionais dessem o consentimento à participação dos respectivos clubes. O Comité Executivo da UEFA aceitou estas premissas exigidas pela FIFA e concordou em levar a cabo a prova num encontro realizado a 21 de Junho de 1955.

A iniciativa do L’Équipe era primordialmente comercial. Tradicionalmente, o calendário esportivo concentra os seus eventos no final de semana, por isso as edições dos jornais desses dias, com as informações e prognósticos para os jogos apresentam sucesso, assim como a de segunda-feira, pois trás os resultados. Contudo, os jornais esportivos diários sofrem de um mal: a distorção de vendas – hipertrofia no final de semana e segundas, e um vazio no meio da semana. Assim, para combater esse desequilíbrio, em 1955, os responsáveis do jornal L’Équipe pensaram numa competição que preencheria a agenda esportiva no meio da semana, a Taça da Europa, que posteriormente se tornaria a Liga dos Campeões. Dois anos mais tarde, a mesma lógica foi aplicada para a criação da Taça da Europa de Basquete e, em 1967, lançaram a Copa do Mundo de Ski, para compensar a falta de informações esportivas no inverno.

Essas estratégias válidas para os impressos também é colocada em prática por canais de televisão. Ao longo dos anos, algumas empresas criaram competições esportivas, das quais se destacam os Good Will Games, lançados pela CNN, em 1986 e os X Games de verão e inverno, criados pela ESPN (ABC-Disney), em 1995. No Brasil também encontramos exemplos: a Rede Globo criou os Jogos de Verão para alavancar as audiências do domingo de manhã durante o verão, principalmente quando não havia torneios de futebol a serem disputados.

Contudo, hoje em dia, a criação de novas competições se dá mais facilmente em modalidades menos populares ou tradicionais, como os esportes radicais por exemplo. No caso do futebol, existem dois grandes obstáculos: a tutela e aprovação de organizações como a FIFA e a UEFA; e a necessidade de um investimento emocional e simbólico que tem ligação com a tradição e a história das competições que acabam por ser determinantes para a sua popularidade – haja vista o caso da Liga dos Campeões e a dificuldade em criar uma superliga europeia de futebol.

Isso não impediu que os conglomerados de mídia incluíssem organizações esportivas a sua lista de aquisições. Dentre as suas motivações estavam a tentativa de conhecer mais a fundo o espetáculo esportivo, conseguir melhores condições na hora de negociar os crescentes valores dos contratos de direitos de transmissão e tentar alguma forma de sinergia e verticalização da produção dado que o esporte foi se tornando mais próximo dos espetáculos televisivos.

As particularidades da economia do esporte acabaram por se mostrar um grande desafio para esses conglomerados, que aos poucos foram abandonando as suas participações na propriedade de organizações desportivas. Por um lado, a necessidade de conseguir vitórias – e, portanto, as receitas de equipes é revertida na aquisição de talentos – diminui a margem de lucro dessas organizações e, consequentemente, afasta o interesse de conglomerados; e por outro lado, a aquisição dos direitos de transmissão e o poder da televisão sobre a organização dos eventos desportivos já se mostraram suficiente para gerir o espetáculo da maneira que for mais conveniente para as empresas de mídia.

 


Futebol e Migração entre Portugal e França

03/07/2017

 

PT_FR

Pelo alcance global, muito se pode estudar sobre a migração das pessoas e o reflexo disso no Futebol. Aproveitando a minha relação com os dois países, aproveito para refletir um pouco sobre a relação entre Portugal e França. Os portugueses que moram na França e franceses de origem portuguesa são consumidores ávidos de informação desportiva. O dia-a-dia do campeonato português é mais acompanhado que a atualidade política e cultural. Para se ter uma idéia da importância do futebol na cultura lusitana na França, estima-se que existem 1000 clubes portugueses no país, sendo que, atualmente, cerca de 200 possuem uma referência a Portugal nos seus nomes.

Ambos os países partilham uma grande história de migração. A vida dos portugueses no território francês foi muito bem retratada (dada as concepções necessárias para um filme de ficção) e bem-recebida por crítica e público  no filme “A Gaiola Dourada”. O filme conta a história de um casal de emigrantes portugueses em Paris, o seu relacionamento com os filhos e o sonho de voltar ao país de origem em contraste com as realidades atuais. Somado ao contexto de uma nova onda de saída do país, o filme trouxe, novamente, ao debate o tema da emigração e do sentimento de integração nacional.

No caso do esporte, podemos traçar um paralelo com a vitória da seleção portuguesa no Euro 2016 e o título do Mônaco, liderado pelo madeirense Leonardo Jardim. A emigração de jogadores e treinadores formados no país tem sido um dado corrente desde o fim dos anos 90, com a livre circulação de mão-de-obra dentro do Espaço Europeu, mas que vem ganhando especial destaque no futebol graças ao sucesso alcançado por lusitanos, tal como Cristiano Ronaldo e José Mourinho – para ficar com os mais emblemáticos apenas.

Mesmo sabendo que atletas e treinadores de alto rendimento não são os melhores representantes dos trabalhadores “normais”, Leonardo Jardim, treinador do Mônaco, talvez tenha sido quem mais sentiu a experiência de um imigrante português, na França. Mesmo tendo conseguido bons resultados, ele continuava a ser estigmatizado pela forma como falava francês e era alvo de sátiras na televisão. O ápice foi quando, questionado por jornalistas, disse que como português poderia ganhar o prêmio de espátula dourada (em alusão aos muitos trabalhadores nas obras de origem portuguesa), mas não o de melhor treinador.

Se é possível traçar um paralelo entre Leonardo Jardim e o personagem do Pai no filme, os filhos são representativos das novas gerações, que tendo origem portuguesa, já nasceram na França e residiram toda a vida no país. Isso provoca uma identidade híbrida e um sentimento de pertença mais complicado de gerir. Os emigrantes que foram para França nos anos 1960 e 1970 apoiaram mais a seleção portuguesa durante o Euro 2016, enquanto a escolha é mais difícil para as novas gerações, pois há uma divisão entre ser fiel ao país dos seus pais e onde passam férias constantemente ou apoiar o país que os acolheu e onde vivem. Em linhas gerais, o que se nota é que os jovens, que estão mais inseridos na sociedade e na economia, têm uma maior simpatia pela seleção francesa, enquanto aqueles que se encontram numa posição mais marginal, terão uma proximidade maior com sua pátria de origem – por mais mistificada que seja essa relação.

No cenário europeu, há ainda mais um fator que torna a análise mais complexa (ou interessante). O campeonato de seleções, o Euro, acaba servindo como reflexo de uma Europa mais tradicional, nacionalista e, por vezes, xenófoba. Por outro lado, a Liga dos Campeões oferece uma visão da Europa capitalista liberal, que ultrapassa fronteiras nacionais, circulando capital e trabalhadores em nome do sucesso transnacional.


Futebol Feminino em crescimento na França

02/01/2017

O futebol feminino está em ascensão nos últimos anos na Europa. Na França, sede do próximo mundial da modalidade, a popularização do esporte tem sido bastante grande. Embora o sucesso atual esteja ligado a um avanço na luta por mais igualdade entre homens e mulheres, a história do futebol feminino no país não seguiu uma evolução linear.

O futebol feminino aparece na França em 1917, quando, em 30 de Setembro, se disputa a primeira partida entre duas equipes da organização esportiva “Fémina Sport”, existente ainda hoje. Depois de jogar entre si, a equipe de futebol feminino passou a disputar partidas contra equipes escolares e masculinas. Até que em 1918-19 nasceu o campeonato francês.

Femina Sport em 1920 (fonte: muséedusport.com)

Coube à Fédération des Sociétés Féminines Sportives de France (FSFSF), fundada em 18 de Janeiro de 1918, a responsabilidade de organizar torneio e não a FFFA, antigo nome da Federação Francesa de Futebol. A modalidade deixa de fazer parte da FSFSF em 1933, quando o campeonato feminino passa a ser organizado pela Ligue de Paris de Football Féminin. As competições continuam ativas até o início da 2ª Guerra Mundial. No início, o regime de Vichy era favorável ao esporte feminino, mas em 1941, eles proíbem a prática do futebol feminino por julgar nocivo para as mulheres. É preciso esperar até 1970 para que a Federação Francesa de Futebol passe a integrar também as equipes femininas.

A presença das mulheres foi recebida com constante desconfiança. Nos anos 1920 e 1930, as reticências e hostilidades vinham de setores masculinos do esporte, de educadores e de médicos. Muitas foram as acusações que o futebol virilizava as atletas e que colocava em risco a fertilidade das mulheres. Mesmo nos anos 1960 e 1970, muitas dessas ideias se mantinham presentes, de tal modo que os regulamentos eram adaptados para se ajustar a suposta condição mais frágil das mulheres, fazendo com que tempo de jogo fosse reduzido a 60 minutos e disputado em campos com dimensões reduzidas. Até 1989, as atletas deveriam usar uma bola mais leve e menor, usada por categorias de jovens e os contatos mais duros eram proibidos.

Women's Team

Maio de 1925: Seleção francesa de futebol pronta para jogar contra uma equipe inglesa (Foto de MacGregor/Topical Press Agency/Hulton Archive/Getty Images)

No início, o futebol feminino se concentra muito na capital francesa. No seu apogeu, em 1923, eram 18 times de Paris. Aos poucos o esporte foi se difundindo, e foram aparecendo equipes em Reims, Rouen, Lille, Toulouse e Marseille. No renascimento do futebol feminino, na década de 1960, os dois principais pólos eram a Alsácia e a região de Reims, onde o clube masculino era muito popular. Hoje em dia, o esporte já seResultado de imagem para D1 FFF espalha de maneira geral pelo território, embora haja mais resistência nas regiões da Bretanha e da Corsa.

Atualmente, a liga feminina conta com 12 equipes espalhadas pelo país. Do total, 8 equipes estão ligadas a clubes profissionais, com destaque para o Lyon (OL) que venceu os últimos 10 campeonatos e o Paris Saint-Germain, que a semelhança da equipe masculina tem feito grandes investimentos para se posicionar como líder no cenário nacional.

O começo da trajetória de sucesso do futebol francês se inicia nos anos 1990, com a criação dos primeiros pólos de formação especifica, mas a velocidade só aumenta nos anos 2000. Em 2011, o OL vence a Liga dos Campeões antes da Copa do Mundo a ser realizada na Alemanha e contribuiu para que os meios de comunicação dessem bastante atenção à competição. A equipe feminina consegue chegar a capa do jornal L’Equipe por três vezes e, na sequência, continuam a receber atenção da mídia, de modo que os direitos de transmissão televisiva do campeonato feminino são vendidos com sucesso.

A meta é aumentar o número de participantes e alcançar bons resultados dentro de campo. Em Fevereiro de 2016, a Federação comemorou a marca de 100 mil atletas inscritas. Embora ainda esteja longe das 250 mil alemãs associadas à sua federação, é uma grande evolução das menos de 35 mil no ano 2000. No horizonte está um grande evento que pode contribuir ainda mais com essa história de sucesso: o mundial feminino vai se realizar na França, em 2019, quando a federação espera atrair ainda mais interessados, e planeja chegar pelo menos ao pódio.

Logo da Copa do Mundo

 


Futebol numa tarde de domingo: uma breve história do Futebol em Portugal

15/03/2016

Nada mais poético para começar a narrativa da história do futebol em um país do que dizer que o início da modalidade aconteceu numa longínqua tarde de domingo. Apesar de pouco precisa do ponto de vista científico, ela permite colocar um tom lírico, por vezes necessário (quando se fala de Futebol), para histórias que envolvem diversos jogos políticos, sociais e econômicos.

O início da prática do futebol em Portugal envolve diferentes datas e eventos, por vezes não muito precisas. A primeira vez que alguém jogou bola foi, em 1875, na Ilha da Madeira, quando um jovem inglês convidou os seus amigos para uma atividade lúdica, nesse caso um jogo entre amigos e não formalmente organizado, que ainda por cima, teve a sua duração bastante reduzida, dado que a bola acabou sendo destruída. Mais tarde, em 1894, o futebol volta à Madeira, para ser jogado por marinheiros ingleses, apesar de haver outros relatos de partidas sendo jogadas por ingleses. Mas, segundo o relato oficial, a chegada do futebol em Portugal aconteceu numa tarde de domingo, em Outubro de 1888, quando foi organizado o primeiro jogo, mas que seu organizador, Guilherme Pinto Basto, o nomeou apenas como um “ensaio” (que era palavra usada para se referir aos treinos na época), de modo que há quem prefira dizer que o primeiro jogo oficial se realizou no dia 22 de Janeiro de 1889.

Tal como em outros países, a ideia de um “sportsmanship” e um “sportsman” era fundamental para a difusão do esporte. Mas na sociedade portuguesa da época, o tempo livre e os recursos necessários para a prática do esporte estavam limitados a uma elite lisboeta. Num primeiro momento, os jogadores eram pessoas que haviam ido para Inglaterra para estudar ou em missão de negócios ou ingleses que moravam em Portugal.

Em 1890, as famílias Pinto Basto, dos introdutores do futebol, e os Villar, proprietários do Colégio Villar, também conhecido como “Colégio Lisbonense”, se reuniram para criar a primeira associação esportiva exclusivamente dedicada a prática do futebol: o Foot-Ball Club Lisbonense. No entanto, o Ginásio Club Português foi a primeira instituição com uma equipe de futebol. Tendo a ginástica como principal modalidade esportiva, o GCP foi fundado em 1875, e, em 1889, eles criaram uma secção de futebol. Uma terceira associação que jogava futebol de maneira organizada na época era formada por ingleses, o Carcavelos Club.

Na sua origem, o futebol era uma atividade elitista. A presença do Rei D. Carlos em alguns jogos era uma evidência bem forte a esse estatuto social. Mas, diferente de Inglaterra, popularização do esporte não foi resultado de uma disputa de classes: quando o principal campo de futebol teve que ser mudado para Belém, a popularidade do jogo passou a aumentar, mas ao invés de irem contra esse movimento, os membros da elite que jogavam futebol ficaram contentes com essa transformação porque aumentava o números de pessoas para jogar, além de ser frequente a partilha dos transportes públicos entre os jogadores que iam aos jogos.

Durante a última década do século XIX, outras associações esportivas apareceram, mas com vidas muito efémeras. A falta de capacidade nas organizações e as paixões passageiras contribuíram para a explosão e o rápido desaparecimento de muitas associações. Além disso, o ultimato inglês dado à coroa portuguesa não ajudou a popularizar o futebol, afinal ainda era um esporte muito ligado aos ingleses, bem como um ambiente político muito instável, com a crise da monarquia. Todos esses elementos acabam justificando a diminuição da intensidade em relação ao futebol, notado pela diminuição de jogos e de associações.

Mas a crise política que conduziria ao fim da monarquia e levaria a proclamação da República, em 1910, não impediu a popularização do futebol. A modalidade foi ganhando espaço na sociedade na medida em que ela era associada a uma função de modernizar o homem português, que, segundo a opinião da época, havia se tornado preguiçoso após longa influência da educação religiosa. A imprensa foi fundamental nesse processo, pois era através de suas páginas que esse debate avançava, e além disso, o jornal “Tiro e Sport” foi o responsável pela organização da primeira competição no país. Reconhecendo a importância do futebol, a imprensa tinha o papel importante na educação e formação do público, através da divulgação das regras e eventos esportivos – uma ligação que se manteve importante ao longo de todo o século XX.

Depois que se organizou a primeira competição entre clubes, a popularidade do futebol começou a aumentar. Entre 1907 e 1910, o número de jogadores inscritos na federação de Lisboa passou de 96 a 507. Entretanto, esse sucesso se limitava a capital do país, pois o torneio era municipal. A cidade do Porto tentava seguir o mesmo caminho, mas a organização do esporte no resto do país ainda era precária.

No que diz respeito à organização, três cidades – Lisboa, Porto e Portalegre – possuíam federações locais capazes de organizar os jogos e campeonatos. Desde 1906, Lisboa organizava o seu torneio municipal, enquanto Portalegre começou a fazê-lo em 1911, e o Porto em 1913. Em 1914, as três associações municipais se reuniram para criar a UPF (União Portuguesa de Futebol) que mais tarde veio a se tornar a Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Dentre os seus objetivos estavam a filiação à FIFA e organização de um campeonato nacional. Essa missão acabou sendo dificultada por causa da guerra entre 1914 e 1918, mas a UPF organizou, regularmente, encontros entre as equipes do Porto e de Lisboa, tendo que se esperar até 1921 para o primeiro campeonato nacional e 1934 para a organização da primeira liga.

Depois que o domingo passou a ser considerado um dia de folga obrigatória pelo Estado, o futebol aumentou ainda mais a sua popularidade, pois passou a ser mais fácil a participação das classes operárias, seja como atletas ou como público. Em 1914, uma partida entre Benfica e Third Lanarck atraiu 10 mil pessoas. Igualmente, durante a segunda década do século XX, o número de clubes fora da capital se multiplicou, ajudado por um clima positivo para os movimentos associativos depois da proclamação da República.

As rivalidades nacionais também foram um importante elemento de popularização do jogo durante os anos 1920. Por um lado, criou-se a equipe nacional, cujos jogos contra outros países atraiam milhares de pessoas. Por outro lado, como o campeonato nacional não era muito lucrativo, os clubes organizavam amistosos contra clubes estrangeiros, que atraiam mais público, e, consequentemente, mais receitas de bilheteria.

Outro debate relevante na época era sobre a adoção do profissionalismo. No início, o esporte era praticado por uma elite, e o número de jogadores e espectadores eram bastante reduzidos. Na medida em que os jogos começaram a atrair mais pessoas, os clubes começaram a cobrar pelas entradas, e a bilheteria ultrapassou as cotas dos associados como principal fonte de receita. Entretanto, a transformação do futebol em espetáculo não teve, automaticamente, um aumento na remuneração dos jogadores. Oficialmente, o estatuto do futebol em Portugal era amador e os jogadores viam o esporte como uma atividade complementar, tal como uma atividade de lazer que permitia complementar a renda familiar. Em geral, os jogadores eram remunerados por via de subsídios para a alimentação, residência, transporte, ajudas para arranjar empregos e prêmios nas transferências. Um antigo jogador, Fernando Peyroteo, conta que na sua época, nos anos 1940, como os clubes não estavam autorizados, legalmente, a remunerar os seus atletas, cada um dos principais clubes tinha um grupo de mecenas que davam subsídios extras aos principais jogadores.

Oficialmente, o profissionalismo ainda demorou algum tempo para se concretizar. Na imprensa, um dos argumentos a favor da manutenção do amadorismo era o fato de que apenas na Inglaterra a situação era diferente, e a mudança para o profissionalismo poderia ser perigosa, pois ao receber salários para jogar, o espetáculo esportivo estaria em risco por conta das baixas receitas geradas. Sem nenhuma lei que regulasse a relação dos atletas com o clube, esse cenário nebuloso do amadorismo marrom podia continuar. Apenas em 1943, essa polêmica é posta de lado, pois o Estado proclama a primeira lei ligada ao esporte, dizendo que toda atividade esportiva deveria ser amadora. Em 1954, seis entre os principais clubes portugueses apresentaram um relatório, com base no qual pediam uma clarificação sobre o processo de transferência de jogadores e o estatuto dos atletas, mas foi preciso esperar até 1965 para que o profissionalismo fosse implementado oficialmente, a partir da criação de um contrato esportivo a ser estabelecido entre os jogadores e clubes.

Na história do futebol português, é notável a oposição entre Lisboa e o resto do país, mas sobretudo com a cidade do Porto. Tendo sido os pioneiros do futebol, era de se esperar que houvesse uma superioridade dos clubes da capital, mas além disso, como, no início, não havia uma federação nacional, os atletas que representavam o país na seleção eram conhecidos como a equipe de Lisboa. Como clube mais bem-sucedido, o FC Porto passou a ser um representante da região norte do país contra a capital, somando antagonismos políticos e económicos a essa rivalidade esportiva.

Tal como em outros regimes autoritários no mundo, o “Estado Novo” fez uso do futebol para a sua política. Ao lado do Fado e de Fátima, o Futebol compunha os três “F”s populistas do regime de Salazar. Outra importante instrumentalização do futebol era a justificação da manutenção das colônias portuguesas no território africano, uma vez que jogadores nascidos nesses países, como Eusébio e Coluna, estavam integrados aos clubes e a seleção nacional, como exemplo do sucesso colonial português, que já era visto de maneira negativa pela comunidade internacional.

Nos anos 1980, após o fim da colonização, Portugal se virou mais para a Europa, com a entrada na Comunidade Europeia, em 1985. Com a ajuda financeira recebida, o país passou por um processo de modernização para tirar o atraso em relação aos outros países do bloco económico, onde ideias de racionalização, organização e competitividade eram vistos como o caminho para o sucesso político e económico. Ao nível do futebol, a falta de vitórias internacionais, sobretudo da seleção nacional, era explicada pela carência de atributos da modernidade. Conduzido pelo FC Porto e pelo SL Benfica, o futebol português vai se modernizar, primeiro esportivamente e depois a em termos de organização, tendo sido visível a melhoria dos resultados esportivos.

A mercantilização e a influência da globalização sobre a economia influenciaram o futebol português. O aumento da presença do futebol na televisão contribuiu para que o público nos estádios diminuísse, bem como uma concentração de renda em um grupo reduzido de clubes. Paralelemente, a ligação do clube com a comunidade se torna mais fraca, pois os clubes se reorganizam em sociedades anonimas, e papel do acionista ganha importância em relação ao sócio. Além disso, ao nível continental, os clubes portugueses perdem protagonismo para equipes mais ricas, tornando-se exportadores de jogadores para mercados mais desenvolvidos.

Assim, de uma atividade jogada nas tardes de domingo em campos improvisados, rumamos para negócios internacionais. Não mais se misturam torcidas e jogadores nos trens em direção aos campos de jogo, não mais se miram a transformação do homem comum pelo esporte, hoje os clubes portugueses olham como o resto do país para as estrelas da União Europeia, e que também fazem parte da bandeira da competição continental.

Fonte principal: A Paixão do Povo – História do Futebol em Portugal, de João Nuno Coelho e Franciso Pinheiro. Editado pela Edições Afrontamento em 2002.


Amor ao clube ou ao bolso?

09/11/2015

Diz-se que a paixão por um clube faz com que o torcedor mova mundos e fundos. Em geral, o investimento emocional e financeiro que um apaixonado faz não encontra limites na racionalidade pois é explicado pelos sentimentos que o movem e não pelo raciocínio lógico. Embora tenha um grande fundo de verdade e várias comprovações empíricas, com o aumento de uma lógica comercial, essa maneira de se relacionar com o clube pode deixar de ser a forma dominante, abrindo espaço para um relacionamento com base em vantagens múltiplas.

Os programas de sócio-torcedor tentam fidelizar o torcedor para que os clubes possam conseguir mais estabilidade no fluxo de rendimentos provenientes desse setor. É uma ferramenta econômica para tentar minimizar os riscos e os imprevistos com receitas tão variáveis – pois num bom momento, a torcida pode encher os estádios, mas em outros jogos, o público pode ser reduzido. Mas e para o torcedor, quais são as vantagens? Com estádios quase completos e muita procura por ingressos (mesmo sendo caros), a simples garantia de ter lugares a disposição para todos os jogos da temporada já pode ser uma contrapartida suficiente. Embora essa possa ser a realidade nos campeonatos mais atraentes, nos clubes com elencos mais estelares e em cidades que recebem muitos turistas, nem sempre isso vale para todos os clubes.

Em Potugal, os clubes de futebol oferecem mais do que descontos no preço dos ingressos e garantias de lugar no estádio. Em grande parte, devido a um grande desequilíbrio no tamanho das torcidas – há uma dominação quase total entre os três grandes Benfica, Porto e Sporting -, mas também sendo influenciado pela relação com a TV, os estádios em Portugal raramente estão cheios. As visitas dos grandes são as únicas ocasiões em que os estádios dos clubes pequenos se enchem, e mesmo os grandes, em casa, com exceção dos clássicos, raramente, têm o estádio completo.

Por isso, o Benfica – e que depois foi seguido pelos outros clubes – passou a oferecer o “Kit Sócio” que dá acesso uma espécie de cartão de fidelidade para o torcedor. Para obtê-lo, é preciso pagar um valor base (25 euros no caso do Benfica para o Kit Sócio), e depois mensalidades de acordo com o tipo de plano escolhido. Além da oferta de produtos e bilhetes para jogos, o cartão permite o desconto nos ingressos, prioridade em alguns jogos e o que chama mais atenção: descontos com empresas parceiras. No caso do Benfica, destacam-se: 6% de desconto nas contas de luz, descontos no abastecimento de combustível e na compra de passagem áreas da patrocinadora do clube, dentre outros.

Assim, os torcedores recebem uma contrapartida direta pelo investimento feito no clube. Além do tempo e dos sentimentos colocados na sua relação com o clube, a parte financeira pode ser vista como uma escolha racional: ao mesmo tempo que está contribuindo diretamente para os cofres do clube, e assim poderá torcer por uma equipe com mais capacidade de conquistar títulos, o torcedor também tem um retorno mais palpável que apenas a felicidade de possíveis vitórias. Dessa forma, torcer poder ser uma ação tanto emocional, como racional.

Programas de sócio-torcedor que ofereçam um lugar garantido ainda está de acordo com visão do torcedor apaixonado que quer estar presente no estádio, pois esse é o seu lugar. Porém, ao oferecer outras vantagens que não estão ligadas ao clube, estabelece-se uma nova racionalidade em uma relação que antes era suposto ser baseada no sentimento pelo clube. Na medida em que os clubes adotam uma forma de operar mais econômica e mais próxima de empresas, também o torcedor altera a forma de encarar a relação com o clube.