O Pólo Aquático como objeto de pesquisa

12/12/2016

Por Alvaro Cabo

Fugindo um pouco dos assuntos que constantemente apresento neste blog acadêmico, notoriamente posts sobre partidas de futebol e questões relativas às Copas do Mundo resolvi escrever sobre perspectivas de pesquisa para um esporte coletivo que é disputado em Jogos Olímpicos desde 1900 em Paris, e que além de não ser muito conhecido do grande público também não é devidamente estudado pelos pesquisadores da temática esportiva, sendo talvez a única exceção que tenho conhecimento o professor Sílvio Telles da área de Educação Física da UFRJ.

Meu interesse pelo objeto tem origem no fato de ter praticado o esporte durante minha adolescência, ter debatido dois filmes sobre a modalidade no Laboratório do Sport, e por entender que pode se constituir em mais uma abertura para diversificar os estudos acadêmicos.

Trata-se de uma modalidade que tem pouca popularidade em nosso país, mas que acabou adquirindo certa visibilidade durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro devido à inédita campanha atingindo as quartas de final  vencendo inclusive  na primeira fase a campeã Sérvia, e ao seu caráter globalizado com a presença de muitos jogadores estrangeiros, como o próprio goleiro sérvio na foto abaixo Slobodan Soro além do técnico croata Ratko Rudic.

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Nesse sentido na semana passada apresentei no Fórum de Pesquisa do II Seminário Internacional LEME sobre Jogos Olímpicos, Mídia e Cultura uma breve exposição que sinaliza perspectivas possíveis de pesquisa para um esporte olímpico que tem escassos trabalhos tanto no meio acadêmico quanto entre jornalistas memorialistas afim de contribuir para a diversificação de trabalhos de História do Esporte no país.

Isto posto, pode-se identificar alguns eixos temáticos de pesquisa que apresentarei a seguir:

  1. Origens – O surgimento no país na passagem do século XIX para o XX das primeiras equipes. Disputas no Rio de Janeiro na Baía de Guanabara, São Paulo, Rio Grande do sul.
  2. Participação de equipes brasileiras em Jogos Olímpicos e Pan-americanos -Destaque para a geração de ouro dos anos sessenta que disputou três edições seguidas dos Jogos (1960-1964-1968) além de ter sido campeão pan-americano em São Paulo em 1963 e a recente participação no Rio de Janeiro: Pan 2007 e Olimpíadas 2016.
  3. Gênero. O Pólo Aquático enquanto espaço de masculinidades. É importante destacar a dissertação de Sílvio Telles, “A identidade do jogador de pólo aquático e o mito da masculinidade” (2002). A origem da modalidade feminina e suas peculiaridades pode ser outro tema interessante.
  4. Nacional: países como Hungria, Croácia, Sérvia, Itália e Espanha e outra nações onde o Water Polo é um esporte muito popular e principalmente na Europa oriental podem ter relação com construções identitárias.
  5. Local: rivalidades clubísticas, eixo Rio/SP.
  6. Mitos e atletas: Alguns exemplos.

– Aladar Szabó – um húngaro tornou-se o maior mito do esporte no país , Teria fugido dos conflitos ocorridos na Hungria em 1956 para a Itália após problemas pessoais e um convite do então presidente da C.B.D (Confederação Brasileira de Desportos) e ex-atleta de water polo, João Havelange, teria vindo para ser treinador no Rio de Janeiro. Entretanto, devido a sua capacidade técnica e força física atuou como jogador pelo Fluminense e Botafogo, tornando-se a maior referência do esporte no final dos anos 50 e década de 60, considerado o período áureo do pólo aquático brasileiro, sobretudo pelo título pan-americano conquistado em São Paulo em 1963. Diversas façanhas, algumas talvez mitológicas, são contadas até hoje para os jovens atletas pelos saudosistas das gerações passadas como o fato dele quebrar as balizas com seus potentes chutes, arremessar bolas da piscina do Botafogo Futebol Clube para o Clube de Regatas Guanabara que são separados por uma larga via do Aterro do Flamengo defronte a Baía de Guanabara, além dos relatos das homéricas brigas e sua incrível valentia de Szábor. Silvio Telles escreveu um bom artigo sobre o ex-atleta para o XVI Conbrace “ALADAR SZABO E O POLO AQUÁTICO BRASILEIRO: UMA CONTRIBUIÇÃO PARA A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DO ESPORTE”.

– João Havelange – O ex-presidente da FIFA foi nadador e atleta da modalidade tendo disputado os Jogos de Helsinque em 1952.

– Felipe Perrone – Atleta brasileiro que após ter se naturalizado espanhol e disputado duas edições dos Jogos, teve a permissão da FINA para voltar a participar da seleção brasileira. Foi um dos destaques da seleção brasileira para a Rio 2016.

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         7- O Pólo Aquático e a mídia: Momentos. Jornais, revistas, televisão, sites especializados. A presença da modalidade em eventuais reportagens na mass-media, sobretudo durante a cobertura dos principais megaeventos esportivos, e em sites especializados.

         8 – Cinema e Water Polo: Filmes que tem o esporte como tema ou pano de fundo. Alguns Exemplos:

– Sangue nas águas, película muito interessante que tem a semifinal das Olimpíadas de 1956 disputada entre a Hungria e a União Soviética como referência, jogo que é conhecido como o mais violento das Olimpíadas  Escrevi uma resenha para a Revista Recorde/UFRJ em 2011 https://revistas.ufrj.br/index.php/Recorde/article/viewFile/729/672

–  Fredom´s Fury. Documentário dirigido por Quentin Tarantino que aborda a trajetória de ex-jogadores húngaros que disputaram a semifinal de 1956 e depois se exilaram nos Estados Unidos.

Palombella Rossa – Dirigido pelo cineasta italiano Nani Moretti que foi atleta da modalidade e era militante comunista. Moretti atua também em um dos seus primeiros filmes que traz reflexões filosóficas sobre a decadência do Partido Comunista na Itália em meio a uma partida de Pólo Aquático.

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–  A Onda – Versão alemã mais recente de clássico filme onde um professor de ensino médio na Alemanha coordena uma experiência autoritária com os seus alunos e ao mesmo tempo dirige a equipe de Pólo-Aquático da escola.

         9 – O Pólo Aquático e as Forças Armadas – A modalidade sempre foi muito praticada dentro das Forças Armadas e estava presente nos Jogos Militares desde os seus primórdios.

         10 – O Pólo Aquático e a questão classista. A investigação do perfil sócio-econômico dos praticantes deve levar a uma confirmação empírica da elitização da modalidade com presença marcante de atletas das classes média e alta devido aos locais/clubes em que ele é praticado.

Assim sendo, é possível identificar diversos eixos temáticos para se pesquisar uma modalidade olímpica pouco conhecida no Brasil mas que pode incentivar novos pesquisadores a desbravarem um esporte coletivo que é muito interessante tanto no contexto das reflexões internas possíveis, quanto nas disputas esportivas internacionais.


Carlos Eduardo Novaes – um cronista do cotidiano e o Esporte

18/07/2016

Durante a pesquisa para minha tese sobre a Copa do Mundo de 1978, recentemente defendida no PPGHC/UFRJ, momentos de descontração e alegria surgiam quando me deparava com as brilhantes crônicas de Carlos Eduardo Novaes no Jornal do Brasil durante a realização do torneio

Novaes é escritor, cronista dramaturgo, nasceu no Rio de Janeiro em 1940. Formou-se em Direito na Universidade Federal da Bahia e teve diversos ofícios como agente de transportes rodoviários, dono de firma de dedetização e de uma fábrica de sorvetes, antes de começar sua trajetória nos jornais. Trabalhou primeiro no periódico Última Hora e em 1972 começou sua carreira de destaque no Jornal do Brasil, onde permaneceu por 13 anos. Escreveu diversos livros de contos e romances com um estilo próprio muito bem humorado e crítico dos hábitos cotidianos.

Nutre verdadeira paixão por esportes e suas crônicas sobre o tema no suplemento cultural Caderno B se destacavam no periódico em virtude do humor refinado com uma linguagem simples e muitas vezes sarcástica. Um bom exemplo que apresentei no meu trabalho está na critica debochada que o intelectual fez ao técnico da seleção brasileira Cláudio Coutinho após os segundo empate sem gols com a Espanha na primeira fase do mundial argentino:

“ Realmente, por um longo momento você chegou a me convencer: bem equipado intelectualmente articulado, cheio de ideias novas, revolucionário até, poliglota, você me fez acreditar que poderíamos trazer o caneco mesmo jogando com os toninhos da vida, com um zagueiro improvisado na lateral, com um zagueiro direito improvisado em extrema, com um futebol brasileiro improvisado de europeu. O jogo de hoje me deixou sem pai, nem mãe e sua imagem Coutinho, que já vinha se desmanchando, ruiu de vez quando faltando 8 minutos colocou o Jorge Mendonça (aliás, o Jorge Mendonça ficou tanto tempo esquentando, esquentando, que pensei que você estava esperando que ele pegasse fogo para colocá-lo em campo) Ali, Coutinho – naquela substituição – a minha gota d´água – você mostrou que nessa Copa está como cego em tiroteio. Reconheço Coutinho que você é um excelente teórico, mas como dizem por aí, na prática a teoria é outra. Acho você muito bom, mas para defender o Brasil num programa de pergunta e respostas sobre futebol, ou – melhor ainda – num torneio de oratória” . (JORNAL DO BRASIL, CADERNO B, n. 61, 08 jun. 1978, – p.10).

Outro assunto polêmico deste mundial que foi a derrota peruana para os argentinos por 6 x 0 que eliminou a invicta seleção comandada por Coutinho também foi brilhantemente abordado na crônica “O Peru expiatório (na falta do bode)”. Segue alguns trechos extraídos:

“Bem meus caros, chegamos ao final de mais uma Copa do Mundo. Recolhemos as bandeiras, varremos o papel picado, depositamos as emoções na poupança e nos instalamos britanicamente diante da televisão a espera do jogo decisivo entre a melhor técnica (Holanda) maior garra (Argentina), torcendo provavelmente para os louros holandeses já que nosso sentimento de latinidade foi para as cucuias depois da goleada dos argentinos sobre os peruanos, aqueles canalhas, miseráveis, sem-vergonha que deveriam ser proibidos de cantar seu hino nacional. Ó, como eu odeio os peruanos! Quando terminou a partida quinta-feira saí babando pelas ruas, caçando os peruanos com a mesma disposição que Wisenthal caça os seus nazistas. Quase peguei um avião e fui apedrejar a Embaixada peruana em Brasília. Cortei relações com meu amigo Mario Vargas Llosa: disse-lhe num telegrama desaforado que só vou voltar a falar com ele no dia que o Peru perdesse de 3 a 0 para a Argentina…

Temos que discutir a atuação desastrosa dos peruanos. O Peru não podia ter perdido de 6 a 0. Não podia. Perdeu porque é um time antes de tudo individualista, que só pensa nele, sem nenhuma solidariedade amazônica. A seleção do Peru sabia que do lado de cá havia 115 milhões de brasileiros sim senhor, 115 milhões não eram dois nem três – torcendo por eles como se fossem peruanos desde criancinhas. No entanto, o que fez ela? Absolutamente nada. Cubillas andava pelo campo como se procurasse uma medalhinha perdida, Cueto se escondia atrás da bandeira de córner, Munante podendo marcar, chutou de propósito na trave, aquele lateral-esquerdo só podia ser o motorista da delegação disfarçado de jogador, e o goleiro Quiroga, bem quanto a Quiroga, basta dizer que que é argentino de nascimento, embora no jogo com o Brasil, depois do jogo com Dirceu, eu chegasse a pensar que era brasileiro…

O Brasil mais uma vez foi vítima de um complô internacional. Em 74 me lembro de um coronel da Embratel jurando que perdemos da Holanda porque os holandeses jogaram dopados. Agora foi a vez do Peru: jogou subornado. Sei que jogou. Ouvi um participante da mesa de debates do programa Haroldo de Andrade, da Rádio Globo afirmar que havia seis peruanos na “gaveta”. Afirmava com tal convicção que só podia estar com o recibo do “suborno” nas mãos. Dizem também que os peruanos abriram as pernas ao saberem que se impedissem a classificação da Argentina nós não iríamos mostrar nosso reconhecimento. Íamos achar que nos classificamos por nossos próprios méritos. Jamais faríamos uma coisa dessas. Tínhamos plena consciência do importante papel que o Peru desempenhava e, da mesma forma como o condenamos por ter nos alijados, estávamos dispostos a anunciar pelos quatro cantos que “conseguimos a classificação graças a bravura do time peruano”.

O que dói nisso tudo é que realmente fizemos uma campanha maravilhosa nesta Copa.  (JORNAL DO BRASIL, CADERNO B, n. 78, 25 jul. 1978, p. 2).

Finda a tese com a avidez literária aflorando por contos, romances e também crônicas de diversos autores acabei relendo prazerosamente dois livros do autor publicados enquanto escrevia no JB: “Mengo, uma Odisseia no Oriente” e “A travessia da via crucis”, ambos ilustrados por seu parceiro, o ilustrador Vilmar Rodrigues.

A primeira obra publicada originariamente em forma de folhetim em 10 capítulos segundo o próprio autor “narra a epopeia tupiniquim de Pedro Biguá, João Cuíca, José Garcia e Maria Pavão, 4 geraldinos que se despencam do Brasil com a cara, a coragem e a criatividade para assistir o seu Flamengo conquistar em Tóquio o título histórico de campeão mundial de clubes no dia 13 de dezembro de 1981”. Segue trecho do início da curiosa jornada de um grupo de torcedores populares da equipe rubro-negra:

“ Desta vez o buraco era mais embaixo: Tóquio. João Cuíca e Pedro Biguá tinham todo direito de se sentir como dois bandeirantes. Com entradas e bandeiras, acompanharam o Flamengo à Assunção, La Paz, Cáli, Santiago e Montevidéu. Não seria agora no melhor da festa, que iriam torcer pela televisão – Televisão – dizia Cuíca é para torcedor amador.

Além do mais esse jogo em Tóquio não será uma partidinha qualquer como a que disputamos nos torneios municipais com o Vasco ou o Botafogo. Estará em jogo o título de melhor time do mundo. O Flamengo é o melhor time do mundo!

A frase que Pedro Biguá utilizava por pura retórica ou paixão nas acaloradas discussões de botequim estava agora por se transformar numa verdade tão concreta quanto as arquibancadas do Maracanã.

Desde a vitória contra o Cobreloa, Pedro Biguá não parara de pensar na possibilidade de entrar no boteco, encher os pulmões e gritar: “ é o melhor do mundo!”; E todos os companheiros de cerveja e discussão, vascaínos, tricolores, botafoguenses, teriam que baixar as cabeças e engolir calados. Para não haver dúvidas, Cuíca e Biguá queriam ser testemunhas dessa consagração.  Durante as caronas que apanharam retornando do Uruguai, os dois juraram que iriam ver o Mengo na final. Iriam a outro planeta, se preciso, que dirá a Tóquio que fica apenas do outro lado da terra”.

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O segundo livro é uma coletânea de crônicas cotidianas do ano de 1974 e no âmbito esportivo além de ter textos sobre futebol e a participação brasileira na Copa  da Alemanha é possível destacar o texto “O show da madrugada” sobre a luta entre Cassius Clay ou Muhammad Ali e George Foreman no Zaire. “A luta do século” também foi retratada pelo olhar irônico do autor:

“ O que  as gerações que nos sucederam a partir do ano 2000 vão pensar da gente? No mínimo que passamos o século XX lutando. Pelo menos a lua de quarta-feira foi a terceira “luta do século” dos últimos anos. E provavelmente não será a última pois é quase certo que Foreman pedirá revanche. Caso isso aconteça não seria mais indicado que os promotores deixassem para realizá-la em janeiro do ano 2000? Entrariam com a marca “luta do século” no registro de patentes e promoveriam o combate tranquilamente certos de que todos os outros que lhe seguirem só poderiam ser no máximo uma luta da década, do quinquenio, do triênio, da quinzena ou –quem sabe? A luta hebdômada.

Na verdade, porém, o que me chamou mais atenção foi o horário da luta: três horas da madrugada. Era natural que com esse horário o governo do Zaire cobrasse um alto preço dos promotores já que o seu país passaria um dia sem produzir. Qual foi o zairense que tendo assistido à luta conseguiu depois acordar para trabalhar? Segundo a versão oficial o estranho horário foi estabelecido pra que o resto do mundo – que dorme cedo – pudesse acompanhar o espetáculo pela TV”.

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O bom humor inteligente do intelectual do cotidiano que marcou gerações com suas crônicas e personagens como Cândido Urbano Urubu ou referências paradidáticas como a obra “Capitalismo para principiantes” enveredou-se pelo esporte agregando uma ironia jocosa articulada muitas vezes com veladas críticas engajadas politicamente.

 

Referências:

Novaes, Carlos Eduardo. A Travessia da via crucis.  Rio de Janeiro: Editora Nórdica, 1974.

Novaes, Carlos Eduardo. Mengo uma odisseia no Oriente . Rio de Janeiro: Editora Nórdica, 1982.


“LA PENA MÁXIMA” – Um romance policial no Peru de 1978

21/02/2016

Uma ótima referência literária que encontrei em uma busca intelectual para compreender um pouco do que seria o imaginário coletivo peruano sobre o futebol, visto que a produção acadêmica me parece escassa, foi um romance policial intitulado “La Pena Máxima” escrito por um jovem talento chamado Santiago Roncagliolo que inclusive já recebeu o prêmio Alfaguara de Novela em 2006, com a obra “Abril Rojo”.

Curiosamente a própria divisão dos capítulos de “La Pena Máxima” é feita a partir das partidas disputadas pela seleção peruana na Copa do Mundo de 1978, além da final do torneio entre a Holanda e Argentina.

O autor constrói um enredo em que a história se passa durante o campeonato realizado na Argentina, e a participação da equipe peruana no torneio acaba sendo o pano de fundo de uma série de assassinatos e perseguições que envolvem inclusive agentes da Operação Condor e grupos militantes de esquerda no contexto da ditadura peruana comandada por Francisco Bermudez Moralez.

O personagem principal Félix Chacaltana, um funcionário público, arquivista, burocrata que não gostava de futebol, mas acaba indo inclusive para a Argentina em uma investigação no centro de tortura da ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada) no dia em que os peruanos eram goleados pelos anfitriões, acaba sendo representado como uma exceção em meio à catarse coletiva que provocava a realização do torneio no Peru.

Obviamente que se trata de uma obra de ficção, mas que auxilia na percepção das representações existentes na memória coletiva sobre o torneio no país andino, principalmente no que diz respeito às possíveis mobilizações populares. Um exemplo está no trecho a seguir que se passa na estreia contra os escoceses:

“Él queria librarse de ese paquete cuanto antes. Aquello no era algo que pudiese guardar em su casa hasta otra ocasión.

El problema era qué hacer mientras tanto. Se aburría. Con disimulo, se acercó a una ventana aberta, donde una família de trés niños estaba paralisada frente al televisor. Todos llevaban las casaquillas con la franja roja. Una de ellas ponía en letras negras a su espalda: CUBILLAS. Él se dejó mecer por la voz rítmica del narrador:

– Cubilla, se la passa a Velasquez. Marca férrea contra Velasquéz, que cae al suelo. El árbitro no pita nada y Velasquez se levanta. Sigue Velasquéz, haccia delante. Se la devuelve a Cubillas ya em el limite del área. Peligro, que Cueto se cuela entre dos defensas, recibe la pelota, encara al portero, la cambia ao palo izquierdo yyy…GOL! GOOOOOOOOOOOOOOOL peruano! Cueto número 8 haciendo magia con la perna izquierda y 1-1 em el marcador!

Las casas de Barrios Altos despertaron con un bramido ensurdecedor. Se oyeran muebles golpeando contra el suelo, aplausos, y sobre todo el grito de gol, una sola voz por todas partes, como si tronase em el cielo.

Agitada por el escándalo, la mochila roja se revolvío un poco y dejó escapar unos sollozos. De todos los paquetes del universo, hoy tenía que llevar precisamente ése. Un paquete sin nombre , sin instrucciones previas, sin control”. (RONCAGLIOLO: 2014, pp 12-13)

 

Diversas passagens ficcionais do romance como esta remetem as narrações televisivas e radiofônicas dos gols, a intensas mobilizações populares nos dias das partidas, a idolatria em torno de jogadores como Cubillas, Cueto, Muñante, Chumpitaz etc, além das nebulosas especulações da derrota sofrida diante dos argentinos.

A indignação com a polêmica goleada de seis a zero que classificou os anfitriões é representada na revolta do chefe de arquivo, que diferentemente de Chacaltana era apaixonado por futebol conforme o diálogo abaixo:

“Não diga cojudeces, Felixito –se desprezó el jefe. Hace años que sólo aparezco por aquí porque en la carcelete hay un televisor para ver el fútbol. Pero lo del partido com Argentina …Como te explico? Me há vaciado de esperanza.

El país podía incendiarse a su alrededor, su mujer podía abandonarlo, la tierra podía abrirse pero el director del archivo guiaría sus decisiones vitales por el resultado del fútbol.

– Seis a cero, Felixito.

– Soy consciente, señor.

– Nos han robado el partido.

– Señor, as veces se pierde.

– Esta no és una de las veces – se exaltó el diretor. Por que pusieron a Quiroga en la portería?

– Yo.

– Y porque jugamos con la casaquilla suplente? Sabe lo que significa eso?

– Que la titular estaba en la lavandería?

El director alzó un dedo, como para sentar una leccíon vital:

– Presíon psicológica. Fue para asustar a los jugadores.

– La casquilla suplente?

– Todo, Felixito – ahora, el jefe hablaba como si describise una gran conspiracíon. El portero, la casaquilla… Sabía que Videla y Kissinger bajaron al camerino a saludar los jugadores de Perú? Por que bajaron? Que hacían ahí? Que trato oscuro sellaron esos miserables?

– Claro señor – dijo Chacaltana para aplacar a su interlocutor. Pero su interlocutor por el contrário, iba montando en fúria conforme hablaba.

– Argentinos de mierda! Peruanos de mierda! Nuestros jugadores se han vendido.

– És una acusacíon muy grave señor …

– Sabes lo que te digo, Félix? Que este país no tiene solucíon. Y yo estoy demasiado cansado”.

(RONCAGLIOLO: 2014, pp 343-344)

A Copa de 1978 era apenas o terceiro mundial em que os peruanos participaram da fase final. Além de estarem presentes na primeira edição realizada no Uruguai em 1930, obteve seu melhor desempenho no campeonato de setenta no México, quando dirigido pelo ex-craque Didi, foi eliminado pela seleção brasileira nas quartas-de-final. Classificou-se também para o torneio da Espanha em 1982, última vez que o país conquistou uma vaga nas eliminatórias sul-americanas.

Este período pode ser considerado a melhor fase do futebol peruano no âmbito internacional devido ao bom futebol exibido pelas seleções ,sobretudo, no torneio realizado no México em 1970 e na primeira fase do mundial da Argentina. Os peruanos também conquistaram pela segunda vez a Copa América de 1975, título mais importante da história do futebol do país.

Entretanto a equipe peruana de 1978, mesmo tendo surpreendido na fase inicial quando ficou em primeiro lugar do grupo derrotando escoceses e iranianos e empatando com os vice-campeões mundiais holandeses, acabou desempenhando uma pífia campanha na segunda fase.

Além disso, sofreria perpetuamente na história do futebol mundial uma “pena máxima” por todas as acusações de suborno, entrega de toneladas de trigo, troca de prisioneiros e pressão psicológica dos ditadores que envolvem o polêmico resultado contra os argentinos.

“Pena Máxima” é um instigante romance policial onde os personagens e a trama são complexos e os crimes políticos. O que dizer da suposta culpabilidade da equipe peruana no 6 x0, jogadores e tramas complexas em um crime político também?

“Pena Máxima” é uma bela obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Será?

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A capa do livro “La Pena Máxima” (2014) sob imagem do último gol da partida Argentina 6 x 0 Peru do atacante Luque em Edição Extra de El Gráfico de 23/06/1978. ARQUIVO PESSOAL.


“Papelitos en la cancha” durante o Mundial de 1978 – resistência ou união ?

13/10/2015

Durante o mundial realizado na Argentina em 1978 a questão dos torcedores jogarem papéis no gramado se tornou uma espécie de símbolo popular polêmico durante todo o torneio, pois o conservador narrador da Rádio Rivadávia José Maria Muñoz com o aval da própria Junta militar, teria recomendado que os torcedores argentinos não adotassem essa tradicional comemoração em função da construção de uma imagem positiva e limpa do país no exterior.

Todavia, o humorista Caloi que participa tanto das edições da Revista El Gráfico durante o torneio, quanto da equipe do Clarín lança uma campanha para que o público continue apoiando a seleção respeitando assim o que seria uma característica tradicional da cultura futebolística do país, jogar milhares de pedaços de papéis picotados no momento em que a equipe entra em campo, através do popular personagem Clemente conforme destaca a historiadora Florencia Levín (2013)

“El detonante fue la campaña realizada por el famoso relator de fútbol, José Maria Muñoz, instando ao público a no tirar papel picado en las canchas quando saliera la seleccíon nacional en los partidos del Mundial (costumbre muy arraigada en la tradicíon futbolera local) para no dar al mundo la imagen de país sucio”. Y fue ese consejo el que Caloi recogío para realizar una serie de tiras en las que Clemente, contradiciendo las directivas de los militares y de Muñoz, instaba la gente a tirar “papelitos” em las canchas….

Hasta que punto esa campaña fue interpretada como una manifestacíon de oposicíon al gobierno y hasta dónde como un gesto de fervor patriótico oficial és algo difícil de estabelecer. Lo que sí sabe és que la campaña de Caloi tuve uma gran repercusíon en el público concurrente a los partidos y que el nombre de Clemente fue coreado em los cánticos de la hinchada futbolera e incluso su imagen fue proyectada en los tableros eletrónicos de las canchas. Así, com Clemente y su “campaña de papelitos”, el humor gráfico dejó de ser un elemento especular de los imaginários sociales para penetrar en la realidad misma y participar como elemento de aglutinamiento colectivo”.  ( 2013, PG 135-136)

A adesão popular entre os torcedores argentinos à campanha dos papeizinhos do personagem Clemente parece indiscutível quando observamos as fotos das partidas, as imagens dos jogos realizados pela seleção do país, além do próprio espaço destinado tanto nas tiras diárias do Clarín, nas aparições de El Gráfico e até mesmo em publicidades.

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 CLARÍN – 01/06/1978

O humorista Caloi chega a legitimar a campanha com César Luis Menotti em uma reportagem na qual o personagem entrevista o treinador argentino que é apelidado por Clemente de Massoti:

“CLEMENTE: Decí la verdade. A vos te gustan los papelitos?

MASSOTTI: Claro, viejo. Sin los papelitos que són como un símbolo del entusiasmo del público en un partido, no se podría jugar.

CLEMENTE: Vieste. Murióz no la entiende. La salida de la seleccíon el otro día fue espetacular. Y eso que en los accesos al estádio la cana le sacaba los diários y los papelitos  a la gente”. (El Gráfico:3061, PG.31)

Não é possível afirmar se houve efetivamente repressão por parte das autoridades policiais aos torcedores que levavam jornais para os jogos da Argentina, porém pode-se perceber que a questão dos papeizinhos se tornou em um marco simbólico da participação popular durante o evento junto com as celebrações em espaços públicos segundo os historiadores Novaro e Palermo (2013):

Ya desde la ceremonia inaugural del campeonato quedó claro cual sería la actitud dominante de los espectadores, jugar de argentinos. Algunos, los menos, entiendiéron que esto incluía um respaldo explícito al gobierno: según Clarín ( 2 de junio de 1978) , los comandantes en jefe “fueron recibidos por los espectadores, que aplaudiéron cuando el locutor oficial mencionó sus nombres”. La rebeldia se limito a fraccíon de hinchas que arrojaban papelitos en los estádios al calor de um debate entre los locutores oficiales y Clemente, el personaje de una tira cómica de Clarín. Como se sabe, la seleccíon argentina ganó el campeonato. A medida que el equipo fue acercándo-se a la final, las calles se llenaron de gente. (2013, P. 161)

Até que ponto, em um contexto ambíguo de repressão política e catarse nacional,  a  permanência de uma tradicional forma de saudar a seleção pode ter representado uma efetiva rebeldia a ditadura? Ou seria mais um símbolo de união da comunidade imaginada argentina em torno de 11 jogadores?

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CLARÍN – 02/06/1978

REFERÊNCIAS:

LEVÍN, Florência. Humor político en tempos de repressíon: Clarín 1973-1983. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2013.

NOVARO, Marcos e PALEMO, Vicente. Historia argentina 9: la ditadura militar 1976-1983: del golpe de Estado a la restauracíon democrática. Buenos Aires: Paidós, 2013.


CBF – Da esperança à Macrodelinquência – Uma luz no fim do túnel para vencer o medo da impunidade.

01/06/2015

Quando a Confederação Brasileira de Futebol surgiu em 1979, a esperança de mudanças no esporte mais popular do país trouxe muita simpatia e alegria com uma perspectiva nova que conferia caráter privado a gestão do futebol no Brasil. Até então o esporte estava totalmente vinculado à intervenção estatal desde o Decreto- Lei 3199 de 1941 e a criação do C.N.D (Conselho Nacional de Desportos).

Junto com as brisas da transição política e da Anistia aos exilados no governo do General João Batista Figueiredo, a mudança no modelo de administração do futebol no país era saudada como uma virada democrática que contrastava com as gestões anteriores, especialmente a do Almirante Heleno Nunes representada metaforicamente pela criticada seleção comandada pelo ex-capitão do Exército Cláudio Coutinho.

A equipe “canarinho” na Copa de 1982 dirigida por Telê Santana por exemplo, é idealizada como fruto da liberdade, improvisação e alegria característicos de um novo momento histórico. A nova Confederação era vista como revolucionária, havia tomada a bastilha do Estado Absolutista e entregue para a Liberdade do liberalismo.

Paralelo às transformações políticas, uma grave crise econômica reverbera na própria CBF. O campeonato brasileiro de 1987 não aconteceria se treze dos principais clubes do país se unissem e conseguissem o patrocínio de duas grandes empresas, a Coca-Cola e a Rede Globo de televisão. A polêmica Copa União, independentemente das discussões posteriores resgatou a credibilidade do torneio mais importante do país que durante o período da ditadura militar chegou a ter dezenas de participantes devido a interesses políticos. Ficou famoso o bordão “Onde a Arena vai mal, mais um time no Nacional”.

A magna carta de 1988 estabelece um marco no esporte no país. O artigo 217 regulamenta o desporto nacional e confere caráter privado as Federações, Confederações e Associações. A gestão do desporto passa definitivamente para a iniciativa privada, sendo que eminentes juristas como o egrégio Ministro Luís Roberto Barroso, outrora advogado da C.B.F, defendem a autonomia irrestrita na administração esportiva nacional. O Estado não tem mais que se meter com a seleção e com as competições esportivas, a paixão não será mais manipulada, a mão invisível do caminho do bem regulará o mercado esportivo. O Futebol está salvo dos Vargas, Médicis e Helenos.

Na década de noventa em um “promissor” contexto de mercantilização e espetacularização do desporto, o Maquiavélico Ricardo Teixeira assume o controle da “paixão nacional”. Um título mundial e um vice-campeonato respectivamente nas Copas dos Estados Unidos e França não são suficientes para esconder diversas denúncias de irregularidades e ilegalidades cometidas pela empresa C.B.F até então “sem fins lucrativos”.

As CPI`s da NIKE e do Futebol propostas por Aldo Rebelo e Sílvio Torres no início do século XXI descortinam os subterrâneos podres da C.B.F. Empréstimos no exterior com juros abusivos, compra de ouro e automóveis efetuados de forma ilícita, escândalo na venda de ingressos durante o mundial de 1998, favorecimento a amigos membros do Poder Judiciário e Legislativo são apenas alguns exemplos das graves denúncias diligentemente apuradas que infelizmente não resultaram em punições concretas devido a famigerada “bancada da bola”.

Todavia, a repercussão pública das investigações parlamentares e iniciativas isoladas de jornalistas e operadores do Direito contribuíram para que a C.B.F paulatinamente deixasse de ser vista como uma deusa pura e casta de intocável natureza jurídica de direito privado e passasse a ser duramente criticada e questionada no primeiro decênio deste século.

A própria identificação com a seleção nacional pelos brasileiros parece estar se diluindo. A catarse em torno do escrete “canarinho”, mesmo durante as Copas do Mundo neste século não parece ser tão intensa quanto em torneios passados conforme já estudam alguns acadêmicos.

Possivelmente um dos fatores que explica este fenômeno é a própria falta de credibilidade dos dirigentes esportivos, especialmente os gestores da C.B.F. Depois da abrupta saída de Ricardo Teixeira e a tragicômica derrota para a Alemanha no ano passado, nada parece mudar na entidade que controla o futebol no pais.

Entretanto, fatos recentes como o debate no legislativo em torno de uma Lei de Responsabilidade Fiscal no desporto, a denúncia feita pelo Jornal Estado de São Paulo das cláusulas abusivas dos contratos da entidade e as investigações envolvendo a FIFA  e a C.B.F podem trazer uma oportunidade histórica e uma luz no fim do túnel para a combalida gestão do futebol no país.

Caso seja efetivamente provado o envolvimento da cúpula da entidade no presente escândalo “padrão FIFA” de “macrodelinquência”, que segundo o desembargado Sérgio Cavalieri Filho é uma expressão modernamente utilizada para indicar o crime organizado, envolvendo a prática de ilícitos sofisticados em que a vítima  é a coletividade (os danos difusos), urge a necessidade de um novo modelo de gestão do futebol brasileiro.

Não defendo o retorno à intervenção estatal arbitrária no desporto, mas retomo uma antiga tese minoritária que pesquisei na minha monografia de Direito em 2004: a possibilidade de fiscalização da C.B.F e outras entidades pelo M.P.U (Ministério Público da União) em flagrantes casos de corrupção e de decisões prejudiciais para o futebol brasileiro, independentemente da sua natureza jurídica privada pois a paixão pelo esporte seria um direito difuso do povo brasileiro.

Considerando o desporto como patrimônio cultural brasileiro, como aceitar que um pequeno grupo se utilize de um elemento da cultura nacional para enriquecer absurdamente às custas de contratos ilícitos, lavagem de dinheiro e corrupção.

Espero que 15 anos após as denúncias parlamentares da CPI da Nike e do Futebol, em que o futebol brasileiro está decadente tanto fora quanto dentro dos gramados com um campeonato nacional de péssimo nível técnico, a imagem da seleção pentacampeã arranhada com o humilhante 7×1 da Copa de 2014, a diminuição na identificação com a seleção, e as diversas denúncias de irregularidade na gestão da entidade, uma renovada bancada da bola não consiga impedir mudanças estruturais necessárias.

Tem uma luz no fim do túnel, tanto no âmbito jurídico pelo projeto de Lei de Responsabilidade Fiscal dos dirigentes, quanto penal devido a uma inusitada operação internacional que finalmente a Polícia Federal pretende participar. Mas para vencer o medo da impunidade imposto pelos macrodelinquentes de colarinho branco que migraram da Rua da Alfândega para a emergente Barra da Tijuca é necessário coragem para manter as investigações e atitude nas transformações e punições.


PELÉ DIGA QUE SE SIENTE, ESCRIBIR EN LA CASA DE PAPÁ VIDELA

01/09/2014

O maior jogador de todos os tempos dentro dos gramados também é um dos grandes fenômenos de marketing do século XX. Garoto propaganda de diversas empresas nacionais e multinacionais durante a sua carreira e com grande destaque após sua aposentadoria, Pelé se transformou em um dos ícones publicitários do planeta. Como destaca o pesquisador Euclides Couto em sua recente obra: Da ditadura à ditadura: uma história política do futebol brasileiro (1930-1978)
É importante mencionar que a partir da Copa de 1958, quando suas jogadas extraordinárias foram aplaudidas pelas plateias europeias , Pelé também iniciou sua trajetória de pop star fora dos gramados – consideravelmente ampliado, nos anos seguintes, com a conquista do bicampeonato mundial pelo Santos (1962-1963) – foi estrategicamente canalizado pela indústria de propaganda de massa. Nos anos de 1960, sua figura representa a própria imagem do futebol brasileiro e confundia-se com a representação (estereotipada construída pelos estrangeiros) da identidade nacional brasileira como sinaliza o antropólogo Luiz Henrique de Toledo. (COUTO:156,2014)

O jogador brasileiro também era venerado na Argentina. Se atualmente existe certa animosidade nas gerações mais novas com relação ao ídolo internacional, até os anos oitenta e a explosão de Maradona no cenário futebolístico mundial, Pelé era idolatrado no país vizinho.
Conforme assinalam os sociólogos Ronaldo Helal (Brasil) e Pablo Alabarces (Argentina), a rivalidade entre as duas potências, intensamente vivida nos estádios e cidades-sede do mundial disputado este ano no país, é um fenômeno recente que está diretamente associado não apenas ao surgimento do craque Maradona e seu incrível desempenho no campeonato mundial de 1986, disputado na Argentina. Intermináveis disputas geracionais envolvendo Maradona x Pelé pela internet e novas mídias, o surgimento do diário esportivo Olé na Argentina, bem como uma certa decadência no final dos anos 90 do futebol uruguaio, o grande rival até então de ambos os países, são algumas das hipóteses levantadas para o acirramento da rivalidade futebolística entre as duas nações no final do século passado
No ano de 1978, Dieguito, jovem revelação do Argentino Juniors com 17 anos sofria a decepção de ser cortado pelo técnico César Menotti da seleção que representaria a seu país na Copa da Argentina,ainda no início de uma carreira que seria brilhante.
Enquanto isso Édson Arantes do Nascimento que havia definitivamente se aposentado dos gramados após amistoso festivo entre o Cosmos e o Santos no dia 01 de outubro de 1977 nos Estados Unidos, assume durante o mundial da Argentina o papel de “senhor da memória” como caracteriza os jornalistas o historiador Jacques Le Goff.
Pelé aceita convite do ultraoficialista periódico Clarín para integrar a equipe de cronistas do suplemento especial do jornal. Junto com o próprio técnico da equipe argentina Menotti, o ex-craque Di Stéfano e jornalistas como Heleno Herrera e Juan di Biasi, as crônicas do ex-jogador são praticamente diárias durante o torneio e têm destaque no que diz respeito ao próprio discurso de autoridade conferido por Pelé a cobertura do evento esportivo.

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Se o ex-jogador Romário, atualmente desbravador dos campos políticos, cunhou a célebre frase “Pelé calado é um poeta”, como será que ele foi escrevendo durante o Mundial disputado na Argentina.
Analisando as crônicas, pode-se verificar que Pelé estava bem alinhado com o discurso nacionalista sobre a realização do mundial no país “hermano”. Escreve como um diplomata que representa seu país respeitando a cultura local e legitimando a estrutura de poder vigente. Durante o torneio, suas crônicas emitem opiniões sobre as questões dos gramados e é possível identificar a propagação de estereótipos nacionais a partir dos supostos estilos de jogo, além de um cuidado enorme em não comentar assuntos polêmicos. Na crônica “Menotti produjo el cambio” por exemplo Pelé afirma:
“Tienpos atrás lós argentinos eran famosos tanto por su juego de pases cortos como por el poder físico: que diferencia há operdo en ellos la preparacíon que les brindo mi viejo amigo César Menotti. Ahora el juego argentino tiene algo de europeu. Los jugadores locales manejaron con pericia la pelota, trabajaron duro, corrieron, concretaron los passescon velocidad, patearon el arco cada vez que fue posible y sobre todo, pese su temperamento latino supieran mantener la disciplina para evitar las confrontaciones que un fútbol arduo,como este se juega a este nível”. (Clarín N.11589, Pg. 4 Suplemento Mundial)

A reverência constante aos argentinos, inclusive ao seu “velho amigo” que era técnico da seleção anfitriã e a posição específica que ocupa como ídolo do futebol internacional, transformam Pelé, durante o mundial de 1978, em um aliado simbólico do regime ditatorial comandado pelo general Videla, junto com figuras como João Havelange, Henry Kissinger e o ditador boliviano Hugo Banzer.

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O silêncio nas suas crônicas sobre questões mais políticas é compreensível pela própria trajetória ideológica do Edson e também pela censura existente no país, mas algumas declarações de gratidão e o próprio comportamento do ex-atleta durante o torneio sugerem que sua pobre contribuição literária transcendeu a análise esportiva do evento.
Talvez o caso mais curioso envolvendo Pelé durante o torneio tenha sido a declaração de que daria o nome a filha recém-nascida de Argentina na reportagem “Se fue Pelé, pero vuelve el padre de una nena que llamará Argentina”:
“Lo mejor que haya pasado es que mi hija haya nacido durante la disputa del campeonato mundial. Siempre fui un agradecido por todo ló que brindó la Argentina en mi época de jugador y estoy deslumbrado por las atenciones y el afecto que recibo a cada momento em esta estada. Por eso como homenaje a este país y al excelente mundial que están realizando, mi hija se llamará Argentina” (CLARIN. N:11.593, PG 11)

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Quando retornou de Nova York o cronista Édson teve que dar constrangedoras explicações para informar que a neném se chamaria Jennifer e não Argentina como tinha sido anunciado. Coincidência ou não, o primeiro casamento do “rei do futebol” terminaria neste próprio ano.
Pelas crônicas e reportagens com Pelé durante o mundial pode-se perceber que o brasileiro estabeleceu uma relação muito fraterna com os argentinos, de grande cumplicidade e carinho, justamente em um momento que Papá Videla buscava colher os louros da organização do torneio com a campanha publicitária “La fiesta de todos”. Pelé seguramente aproveitou esta festa e foi convidado para retornar como colunista do Clarín na Copa do mundo da Espanha quatro anos depois.


O dia em que o Brasil vai parar para ver tevê

28/04/2014

Faltando 45 dias para o início do campeonato mundial que será realizado no Brasil, o título do presente post poderia ser uma referência à estreia do Brasil na Copa do Mundo contra a Croácia no próximo dia 12 de junho. Mas trata-se na realidade de curiosa matéria publicada na Revista Placar no dia 14 de maio de 1982, um mês antes  do Mundial realizado na Espanha.

A expectativa e o clima de euforia no país antes do torneio era  contagiante. Sobre a primeira partida contra a U.R.S.S a referida reportagem afirma:

Bilhões de quilovats de energia elétrica adicionais serão gastos ao longo dos 90 minutos que durar a partida, para alimentar os milhões de televisores e rádios que naquele momento estarão sincronizados no jogo. Nessa hora e meia, incontáveis hectolitros de bebidas alcóolicas extras serão consumidas, assim como inumeráveis tranquilizantes (Placar:625, 14)

 

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As exibições da equipe de Telê Santana que chegava a ser chamada de “seleção da abertura”, os ventos democráticos do período de transição política da ditadura militar para a redemocratização, a espetacularização do evento , o crescimento das propagandas e o intenso consumo como as camisas do mascote Naranjito, o jogo de futebol “Escrete” criado por Chico Buarque de Holanda , as chuteiras Pênalty , os filmes da Kodak cujo garoto-propaganda era o próprio Telê e a enorme venda  de televisores de diferente marcas  simbolizavam um ufanismo exacerbado com a empolgação pela eminente participação brasileira no evento. Grande parte da população, inclusive as personalidades políticas estavam ansiosas com o início do torneio.

Com esquemas previamente preparadas ou não, a verdade é que quase ninguém deixará de ver a Copa. E isso inclui até o mais alto mandatário da Nação. O presidente João Figueiredo já avisou ao seu ministério e assessores que nos dias de jogo da seleção ele não despachará  nem receberá ninguém. A nova rotina no Palácio do Planalto começará dia 14 quando o presidente encerrará seu expediente ao fim do último despacho matutino, que normalmente acontece pouco depois do meio-dia. Depois disso, Figueiredo deixará a sede do governo e se retirará para a Granja do Torto, sua residência oficial, de onde só sairá na manhã do dia seguinte…

Outros chefes do Executivo seguirão o exemplo do presidente e se desligarão das questões de Estado para sintonizar a Copa. Na Bahia, o Governador Antônio Carlos Magalhães já mandou instalar um telão no Palácio de Ondina, sede do governo, e avisou que não despachará nas tardes em que a seleção de Telê estive em campo…

E não é preciso ser um torcedor fanático para isso. Até mesmo o austero Golbery de couto e Silva, ex-chefe da Casa Civil e considerado o artífice da abertura política do governo Figueiredo reservará um tempinho para espiar na tevê as jogadas de Zico e sua turma contra a URSS, no dia 14. Ele estará no seu sítio, no município goiano de Luzitânia ao lado da sua mulher Esmeralda, uma torcedora fanática do Fluminense e da seleção brasileira. Mas Golbery, com algum pudor sustenta que olhará para a “televisão” apenas nos lances mais importantes. A maior parte do tempo, diz passará tentando ler um livro. Dificilmente conseguirá. (Placar: 625, 12-14)

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Além das citadas figuras políticas que exerciam papel central na gestão do executivo do estado brasileiro naquela conjuntura histórica, as expectativas de diversas outras personalidades também são relatadas na Revista na seção “Gente”  (625, 16-18) que tem como título: “A Copa do Mundo mobiliza todas as estrelas da constelação brasileira. Além das 22 que lutarão diretamente pelo título nos gramados espanhóis, inúmeros outros permanecerão no Brasil não menos tensos, à espera da vitória. Torcer, manter as superstições e rezar, são algumas das muitas maneiras de participar de uma Copa do Mundo”. Dentre essas “estrelas” gostaria de destacar algumas afirmações polêmicas ou ao menos curiosas:

– Pretendo ver todos os jogos e beber muita cerveja. O PT não terá programação nos dias de jogos da seleção, porque gostamos de futebol. Ao contrário do que se pensa o futebol não aliena. O povo já sabe que título mundial não enche barriga. (Lula – Presidente do PT)

 

– De maneira alguma deixarei de participar deste plebiscito nacional. Este momento de união supera todas as formas de avaliação democrática dos anseios populares. A vitória na Copa será a oportunidade para a redemocratização do país. ( Alceu Amoroso Lima – Escritor e líder católico)

 

– Se índio participasse da Copa, eu até assistiria. Seria muito gozado. Como não participa estou preocupado com o que pode acontecer nas Malvinas. Torço pelo Brasil, mas não saio da minha rotina. Não verei televisão, nem escutarei rádio ( Orlando Villas Boas – Sertanista e indigenista)

 

– Sei que o futebol anestesia o povo, mas meu lado masculino ama o futebol. Vou torcer muito, apesar dos males que a conquista do título possa trazer ao país. Mas, afinal é com a seleção que o país melhora a imagem no exterior.  (Rogéria – Travesti).

 

– A Copa do Mundo é instante de apaziguamento dos espíritos, um momento singular na vida dos povos. Para nós brasileiros, é a hora ecumênica da vida nacional, e a unificação de todos em torno do objetivo de vitória. A Copa unifica, consolida e fortalece o espírito de união nacional. Onde quer que eu esteja vou parar para ver os jogos e torcer pela televisão. (Tancredo Neves – Político)

 

–  Acho que desta vez, ao contrário das duas últimas Copas, o técnico está respeitando a criatividade do jogador brasileiro. Telê restituiu a malícia e a improvisação no nosso futebol. (Jorge Amado – Romancista)

 

– Os dias de jogos são dias de festa, de união entre os brasileiros. O arcebispo de São Paulo tem a mesma história dos homens das ruas, que já participou de rachas e peladas. Por isso já pedia a irmã secretária que ajeite os compromissos para que eu não incomode ninguém nem seja incomodado durante os jogos. O Brasil precisa de nossa torcida e orações. (Dom Paulo Evaristo Arns – Cardeal de São Paulo)

 

– Não verei Copa do Mundo, não verei seleção, não verei futebol. Índio tem coisas mais importantes para resolver. Índio está preocupado com a terra, com fome, com sobrevivência. Copa do Mundo e futebol são maneiras de governo distrair o povo. Juruna vai fazer campanha para deputado. Juruna não faz demagogia. Só não gosta de futebol. (Cacique e candidato a deputado pelo PDT)

 

– Não sei se na hora do jogo, serei eu, o Pantaleão ou o Coalhada que ficará em frente da teve, porque meu ritmo de trabalho é intenso. ( Chico Anísio – Humorista)

 

Apesar da natureza caricata de algumas declarações, elas espelham debates importantes sobrea relação entre o futebol e a Nação naquele momento histórico. A discussão muito presente no período sobre o futebol como ópio do povo ou elemento de integração pode ser percebida entre àqueles que defendem veementemente o esporte como Lula, Tancredo Neves, Alceu de Amoroso Lima e o próprio Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, ou em comentários negativos como o do cacique Juruna ou do travesti Rogéria. A questão do estilo de jogo do futebol brasileiro é levantada por Jorge Amado  e a onipresença da televisão percebida nos comentários de Chico Anísio e Osvaldo Vilas Boas.

E toda esta comoção e ansiedade em virtude da estreia brasileira era para torcer pela equipe composta por: Babão, Favela, Belo, Dorminhoco e Capacete. Tereza, Cabelo de Anjo, Tziu, Monstro, Coxinha, Dentão, Chulapa, Pé Murcho e Pateta entre outros.

Segundo a reportagem do jornalista Marcelo Rezende (Placar: 615, 4-8) diretamente da Toca da Raposa, esses eram os apelidos dos jogadores brasileiros da famosa seleção “canarinho”. Talvez hoje, o discurso “politicamente correto” esbravejaria caracterizando as brincadeiras em bullyng ou até mesmo injúria racial no caso de Tziu.

Porém, conforme o que foi relatado na matéria acima, os atletas da seleção conviviam harmonicamente jogando sinuca, escutando música nos 18 walkman disponibilizados, lendo desde gibis, a clássicos como Pablo Neruda e Carlos Castañeda,  e  assistindo filmes com Bruce Lee, Sônia Braga ou até mesmo, o então polêmico  “Gaiola das Loucas”.

 

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