A prática de esporte entre “officiaes graduados” e “as simples praças”: instrumento para “desenvolvimento physico do pessoal” ou prática “em promiscuidade completa”?

09/01/2017

Por Karina Cancella [1]

As instituições militares brasileiras são organizadas em torno de dois conceitos basilares: hierarquia e disciplina. Segundo o Estatuto dos Militares, a “[…] hierarquia militar é a ordenação da autoridade, em níveis diferentes, dentro da estrutura das Forças Armadas” e a disciplina é a “[…] rigorosa observância e o acatamento integral das leis, regulamentos, normas e disposições que fundamentam o organismo militar”,  devendo ser respeitadas em todos os níveis e instâncias da vida dos militares, dentro e fora dos quartéis.[2] Apesar de o Estatuto datar da década de 1980, suas definições sobre hierarquia e disciplina remetem-se a aspectos de organização interna já presentes nos códigos disciplinares que estruturavam as Forças Armadas (FA) brasileiras ainda no século XIX.

Esses aspectos definem os processos de interação pessoal e profissional nas instituições militares e são aplicados em todas as atividades realizadas, caracterizando as estruturas de distinção a partir dos “círculos hierárquicos” organizados, atualmente, em dois níveis principais: oficiais (oficiais generais, oficiais superiores, oficiais intermediários e oficiais subalternos) e praças (englobando nos dias atuais suboficiais/subtenentes, sargentos, cabos, marinheiros e soldados). O convívio social e as atividades profissionais dos militares devem respeitar essa hierarquização, estando os subordinados sempre em obrigação de cumprimento disciplinar para com seus superiores.

A rigorosa observância desses critérios de organização perpassou toda a história das instituições militares brasileiras desde suas formações. Em todas as atividades desenvolvidas, desde suas funções institucionais até as interações sociais corriqueiras, os critérios de hierarquia e disciplina precisavam ser seguidos com a máxima atenção.

As FA brasileiras, em fins do século XIX e início do século XX, acompanharam o processo de introdução das atividades físicas e esportivas na sociedade brasileira. A aproximação dos militares com o esporte iniciou-se ainda em meados do século XIX com a inserção dessas atividades no cotidiano das instituições por meio de mudanças no currículo das escolas de formação. Entre meados do século XIX e as décadas iniciais do século XX, os militares passaram a não somente praticar as ginásticas e os esportes no interior dos quartéis mas também desempenharam importante papel de fomentadores no meio civil por meio da atuação na função de instrutores de ginástica em escolas, na participação como esportistas em competições de diferentes modalidades e também no papel de liderança em entidades reguladoras esportivas (GARRIDO; LAGE, 2005; SILVA; MELO, 2011).

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Professor de esgrima em escola de formação da Marinha do Brasil. (Acervo Histórico do CEFAN).

No ano de 1915, o Exército Brasileiro criou sua primeira forma de regulamentação dos esportes com a fundação da Liga Militar de Football. [3] A criação de uma liga específica de futebol justificava-se por vários de seus membros participarem de equipes dos principais clubes de futebol do Rio de Janeiro. Esses militares promoviam competições amistosas entre os regimentos do Exército onde serviam. (RIBEIRO, 2009).

Em 25 de novembro do mesmo ano de 1915, um grupo de oficiais fundou a Liga de Sports da Marinha (LSM). A entidade teve seu reconhecimento em janeiro de 1916 com as seguintes declarações do Ministro da Marinha Almirante Alexandrino Faria de Alencar:

Sr. Chefe de Estado Maior da Armada, declaro-vos, para fins convenientes, que, approvados os intuitos da Liga de Sports da Marinha, fundada por officiais com o fim de concorrer para o desenvolvimento physico do pessoal da Armada, por meio dos jogos e exercícios, com campeonatos annuaes, resolvi permittir que a citada Liga se corresponda com as autoridades da Marinha, em relação ao que for necessário a seus fins, e que as autoridades lhe facilitem os meios de acção, sem prejuízo para o serviço, fazendo-se os jogos sob direção da referida Liga e seus representantes nos navios, corpos, estabelecimentos, ficando a acção destes últimos sujeita a approvação dos respectivos comandantes. Saúde e fraternidade. Assignado Alexandrino Faria de Alencar.[4]

Como pontuado no documento, o objetivo de autorização de funcionamento da LSM era o “desenvolvimento physico do pessoal da Armada, por meio de jogos e exercícios” e, para tal, as autoridades navais deveriam facilitar seus meios de ação para a organização das atividades esportivas. Nesse documento ainda podemos observar o destaque sobre a necessidade de autorização dos comandantes (oficiais superiores) para que seus subordinados participassem das atividades da Liga e que a instituição deveria se corresponder com as autoridades navais para a comunicação de suas propostas, fato somente possível por se configurar como uma iniciativa de oficiais da Armada (envolvendo também oficiais superiores), já que os processos de comunicação e correspondência também deveriam respeitar a cadeia hierárquica.

As primeiras competições organizadas pela LSM envolviam diferentes modalidades: futebol e os esportes aquáticos remo, vela, polo aquático e natação, tradicionalmente praticados por militares da Marinha do Brasil desde fins do século XIX. Entre os anos de 1915, o ano de fundação da Liga, e 1940, quando foi extinta para a criação do Departamento de Educação Física da Marinha, foram realizadas competições em diferentes modalidades esportivas.

Entre 1915 e 1920, o Exército contou com uma liga esportiva que atuava na organização do futebol, como já mencionado. Somente a partir de 1920 seu quadro de modalidades foi oficialmente ampliado e a nomenclatura da liga alterada para Liga de Sports do Exército (LSE).[5]

As ligas esportivas militares, além da organização de competições, tinham como função regulamentar a prática esportiva estabelecendo os critérios para participação e composição das equipes representantes tanto nas competições internas quanto nas disputas com equipes civis para as quais eram convidadas. Esse processo envolveu a criação de diretorias com responsabilidade de atuar nas diferentes áreas da estrutura das ligas. Tanto no Exército quanto na Marinha, essas diretorias eram compostas apenas por membros do oficialato, deixando de fora do processo de organização esportiva e definição de regras e prioridades todos os demais integrantes das forças (soldados, marinheiros, cabos, sargentos e suboficiais). A esses grupos era permitida somente a participação nas competições desde que devidamente autorizados por seus comandantes.

Ao estabelecerem os regulamentos para os eventos, eram criadas categorias distintas para oficiais, suboficiais e praças, mantendo a estrutura hierárquica como definição da participação esportiva. Com essa organização, evitava-se não somente que oficiais e praças, por exemplo, competissem uns contra os outros mas também que competissem lado a lado nos esportes coletivos.

Nas duas forças, foram emitidas declarações reforçando a necessidade de manter na prática esportiva a distinção entre os círculos hierárquicos. Na Marinha, essa temática foi discutida já em suas primeiras reuniões, ainda no ano de 1915, nas ações de organização de suas primeiras competições. Para as provas de natação, remo e vela, foi determinada a criação de categorias distintas para oficiais, suboficiais e praças. Para as competições de polo aquático e futebol, foi colocada a possibilidade de composição mista das equipes com grupos a favor e contra. Sobre isso, informou-se que:

[…] a intenção da Directoria é estabelecer logo que possa os campeonatos de foot ball e water polo e que, para permitir que todos os navios tomem parte nestes jogos se estabelecer campeonatos separados para officiaes, sub officiaes e praças o que, ao menos ao principio, não e possível, pensa propor que o campeonato de foot ball seja desde já estabelecido para as praças […][6]

A questão da composição mista de equipes foi tema de debate em alguns momentos ao longo da vida da LSM, mas observando os registros de organização e de resultados com a manutenção das provas distintas ao longo da década de 1920, percebe-se a sustentação das ideias de separação baseadas nos círculos hierárquicos.

No caso da Liga de Sports do Exército, a primeira normativa textual sobre a composição mista de equipes foi publicada em Aviso do Ministério da Guerra nº. 23 de 14 de outubro de 1922, assinado pelo então Ministro João Pandiá Calógeras. Esse aviso tratava sobre uma consulta do Comando da 9ª. Companhia de Metralhadoras Pesadas para saber se seria lícita a participação de um oficial junto com praças em uma festa pública náutica de remo. Em resposta, determinou-se:

a) que o regulamento interno dos serviços geraes, sem cogitar propriamente de casos relativos aos jogos sportivos, manda que “o superior deve tratar seu subordinado com estima, consideração e bondade, sem nunca descer a familiaridade”; b) que a observância de circulos, fóra do serviço onde estejam separados os officiaes graduados, e as simples praças, mostra a inconveniencia de qualquer promiscuidade; c) que não devem ser usados entre indivíduos que fazem parte dos circulos differentes os jogos de dependem sobretudo de agilidade e do emprego de força physica, taes como foot-ball, o Box, a luta romana e outros; d) que será de inteira vantagem que os homens, uma vez incorporados ao exercito, se tornem ageis e fortes, pelo cultivo dos jogos sportivos mais aconselhados; entretanto, a pratica delles, em promiscuidade completa, traz sério prejuízo á disciplina, não podendo guardar compostura que devem ter officiaes e praças em quaesquer situações em que se encontrem; e, e) que, em taes condições, não é permittido aos officiaes tomar parte em torneios sportivos, ao lado de praças, a fim de disputarem em commum quaesquer provas. Saude e Fraternidade – Calogeras. [7]

A proibição de participação nas competições com equipes mistas e em confrontos entre superiores e subordinados foi reforçada em Aviso do Ministério da Guerra de 03 de junho de 1930 determinando que:

III — É inconveniente, conforme preceitua o art. 292 do R. I. S. G. a possibilidade de militares de círculos differentes, em torneios sportivos. Essa disposição, aliás, não é nova, pois o actual regulamento interno dos serviços geraes apenas consolidou ordens vigentes reguladas pelos avisos ns 23, de 14 de outubro de 1922 (ministro Calogeras) e nº. 13 de 18 de fevereiro de 1926 (Ministro Setembrino).[8]

Tratadas como “promiscuidade” e “inconvenientes”, as participações de oficiais e praças lado a lado em competições esportivas eram reprimidas no Exército desde os anos iniciais da LSE, estendendo-se até a década de 1930. O mesmo se verifica na LSM a partir da manutenção das competições distintas ao longo de toda a sua trajetória como entidade regulamentadora dos esportes navais.

Mesmo a prática esportiva tendo sido introduzida sob os argumentos de “desenvolvimento físico” nas Forças Armadas brasileiras, a participação nessas atividades mostrava-se inteiramente enquadrada e definida pelos critérios hierárquicos estruturadores das instituições militares, aplicando-se à participação nas competições as mesmas prerrogativas e obrigações presentes nas demais áreas de atuação dos militares brasileiros.

 

Referências:

CANCELLA, K. A prática de esporte entre “officiais graduados” e “as simples praças”: instrumento para “desenvolvimento physico do pessoal” ou prática “em promiscuidade completa”? Revista Brasileira de História Militar, ano III, n. 9, p. 50-62, dez. 2012.

GARRIDO, F.; LAGE, Â. O Esporte na Marinha do Brasil. In: DACOSTA, L. P. Atlas do Esporte do Brasil. Rio de Janeiro: Shape, 2005, p. 131-133.

RIBEIRO, A. Contribuições da Missão Militar Francesa para o desenvolvimento do desporto no Exército Brasileiro: Comemoração aos 100 anos do início da orientação daquela Missão. Revista de Educação Física, p. 9-15, 2009.

SILVA, C.; MELO, V. Fabricando o soldado, forjando o cidadão: o doutor Eduardo Augusto Pereira de Abreu, a Guerra do Paraguai e a educação física no Brasil. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 18, n. 2, p. 337-353, jun. 2011.

[1] Versão adaptada do artigo original publicado na Revista Brasileira de História Militar no ano de 2012. (CANCELLA, 2012). Para maiores informações, ver: http://historiamilitar.com.br/wp-content/uploads/RBHM-III-09.pdf.

[2] BRASIL. Lei nº 6.880, de 09 de dezembro de 1980. Dispõe sobre o Estatuto dos Militares. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6880.htm&gt;. Acesso 12 jun. 2011.

[3] BRASIL. Diário Oficial da União de 29 de junho de 1915, Seção 1, p. 05.

[4] Relatório do Ministério de Negócios da Marinha de 1916. Anexo A, p. 01.

[5] BRASIL. Diário Oficial da União de 06 de agosto de 1920, Seção 1, p. 10.

[6] “2ª. Assembleia de Representantes, de 27 de dezembro de 1915”. Livro Histórico Departamento de Esportes da Marinha – Volume I – Anexo I, p. 04. Comissão de Desportos da Marinha.

[7] Relatório do Ministério da Guerra de 1922, Anexo AB, p. 136-137.

[8] BRASIL. Diário Oficial da União de 07 de junho de 1930, Seção 1, p. 12.


E o Rio de Janeiro já foi quase “olímpico”…

15/08/2016

Por Karina Cancella

Em 1922, o Brasil comemoraria o centenário de sua independência política de Portugal. Para celebrar esse momento, foi planejado um programa de festividades compreendendo uma Exposição Internacional do Centenário da Independência, que contaria com a presença de autoridades nacionais e internacionais e pavilhões monumentais para receber as 14 nações estrangeiras que aceitaram os convites (ARQUIVO NACIONAL, 2016), e Jogos Esportivos Internacionais. Focando nesse segundo evento, foram organizados os “Jogos Olímpicos Latino-Americanos” ou “Jogos Atléticos Sul Americanos” ou “Jogos do Centenário” (as três nomenclaturas foram utilizadas para designar o mesmo evento). As negociações e organizações em torno da realização do evento iniciaram-se com dois anos de antecedência, em 1920, antes mesmo da primeira participação do Brasil em Jogos Olímpicos, que ocorreria na edição daquele ano na Antuérpia.

Em 12 de maio de 1920, foi publicada no jornal carioca “O Imparcial” uma notícia sobre a chegada ao Brasil do enviado extraordinário do Comitê Olímpico Internacional (COI) e Diretor Atlético da Young Men’s Christian Association (YMCA) Sr. Elwood Brown, que foi responsável pela organização dos Jogos Interaliados de 1919 no Pershing Stadium em Paris, e seguia em viagem de divulgação do movimento olímpico pela América do Sul.[1]

Nessa visita, Brown realizou estudos sobre a possibilidade de se estabelecer no continente um comitê organizador dos “Jogos Atléticos Sul Americanos”, composto por um representante de cada país, e com função de realizar jogos continentais a cada dois anos. Esse comitê deveria ter a estrutura baseada na do COI. Propôs-se, então, que o primeiro evento nesse formato fossem os jogos previstos para serem realizados em 1922 no Rio de Janeiro, capital do Brasil naquele momento, como parte das comemorações do centenário da independência do País. A proposta era de que, com esse modelo organizacional, o esporte mundial passasse a ter o calendário estruturado da seguinte forma: campeonatos nacionais anuais, eventos continentais a cada dois anos e Jogos Olímpicos de quatro em quatro anos.[2] Às vésperas da participação do País nos Jogos da Antuérpia, a delegação brasileira recebeu a aprovação olímpica para a realização dos Jogos Latino-Americanos de 1922: “a comissão dos Jogos Olímpicos em reunião desta noite aprovou uma moção reconhecendo os Jogos Latino-americanos de 1922 como parte integrante do movimento olímpico… (Jornal do Brasil, 24 ago. 1920, p. 6)” (NETO-WACKER; WACKER, 2010, p. 153).

O evento, no entanto:

[…] embora obedecendo as condições dos Jogos Olímpicos, não terão absolutamente o caráter oficial de olimpíada. Esses jogos continentais efetuados de dois em dois anos, tomarão o caráter de preparatórios para as olimpíadas internacionais, levadas a efeito de quatro em quatro anos.[3]

A organização dos Jogos Esportivos ficou sob responsabilidade da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e conforme os acordos estabelecidos, a CBD receberia do governo federal um crédito de 300 contos de réis, em duas parcelas, para custear o processo de organização dos jogos. (SARMENTO, 2006). Para a realização das provas das competições previstas, era necessária a preparação de um espaço apropriado, um estádio com padrões internacionais. Sobre essa necessidade, o jornal “O Imparcial” informou, em abril de 1921, que seria concedido um terreno na Praia Vermelha ao Clube de Regatas Flamengo para construção de um espaço esportivo completamente novo para o recebimento das competições do centenário.[4] Dois meses depois, o mesmo periódico noticiou que, além do terreno, seria também concedido um empréstimo de mil contos de réis para as obras.[5]

Ao longo do ano de 1921, a imprensa carioca cobriu todo o processo de preparação do evento, e especificamente o jornal “O Imparcial” publicou diversas notícias sobre os “Jogos Atléticos Sul-Americanos de 1922”, destacando as formas de aquisição de materiais, as discussões sobre a construção dos novos espaços para realização das competições, ações realizadas pelos clubes esportivos em todo o país e seletivas para escolha dos representantes brasileiros no evento.[6]

No entanto, do ponto de vista dos observadores do Comitê Olímpico Internacional, as ações efetivas para a organização do evento estavam demorando mais do que eles esperavam. Por conta desse cenário, o COI enviou um representante ao Brasil para verificar a real viabilidade de realização dos Jogos em 1922. Após analisar a situação em que se encontrava o país, o Sr. Hopkins telegrafou ao COI informando ao Barão Pierre de Coubertin que o Brasil nada havia feito até aquele momento. Após o relato, foi dado um mês de prazo para que as ações de organização fossem efetivamente iniciadas ou o evento poderia ser transferido ou até mesmo cancelado (TORRES, 2012). Os jornais destacavam que:

[…] a incapacidade do Brasil em realizar os jogos se justificava primeiramente pelo fato de que o país atravessava uma grave crise econômica provocada por uma “crise do café, uma inflação em alta e, especialmente, uma crise fiscal” iniciada “na segunda metade de 1920” ainda durante o governo de Epitácio Pessoa, chegando “ao auge em 1922”. Apesar desse cenário econômico, o governo federal já direcionava parte de suas verbas para a Exposição do Centenário de 1922 no Rio de Janeiro. (MORAES, 2009, p. 27).

Além da problemática da crise financeira pela qual o país atravessava, um ponto em específico fez com que as ações não avançassem conforme os planejamentos iniciais. O empréstimo de 300 contos de réis feito pelo Governo Federal à CBD para cobrir as despesas do evento não estavam mais disponíveis no caixa da entidade. No início de 1922, uma nova diretoria assumiu a Confederação e identificou a ausência do valor para dar seguimento aos procedimentos de organização dos Jogos. (MORAES, 2009).

Essas polêmicas e problemas no processo de organização do evento fizeram com que o COI considerasse a retirada do reconhecimento ao evento. Por intervenção de Elwood Brown, que via o fracasso desse projeto como um possível problema nas relações com o COI, o Comitê reconsiderou e decidiu dar mais tempo ao Brasil para que as questões fossem resolvidas. A YMCA no país acompanhou de perto todo o processo de organização e chegou a elaborar um plano de contingência que previa a realização dos Jogos Latino-Americanos em Montevidéu, Uruguai, em 1923, caso o Brasil não conseguisse cumprir os prazos. (TORRES, 2012).

Para a resolução dessa complexa situação, algumas sugestões foram apresentadas para que não se perdesse a oportunidade de realização do evento com chancela do COI. Levantou-se incialmente a possibilidade de transferência do evento para a cidade de São Paulo. Como segunda opção, foi considerado entregar a organização nas mãos do Fluminense Football Club, que assumiria a responsabilidade de gerir as verbas públicas destinadas à organização dos Jogos. Como terceira opção, um empréstimo poderia ser contraído pela CBD junto ao Banco do Brasil para ampliação das arquibancadas da Rua da Guanabara e modificações no campo do Flamengo a fim de receber as provas de atletismo e futebol. Após meses e:

[…] uma longa série de acusações entre CBD e o governo federal, os jornais noticiavam o resultado das conversações que se seguiram durante todo o primeiro trimestre de 1922. O governo abriria um crédito de 1.3000:000$ para serem aplicados nos jogos, transporte e hospedagem dos atletas, sendo essa quantia restituída com as rendas provenientes dos jogos e “[…] o saldo que porventura for apurado, pertencerá a Confederação, a qual também ficará de posse dos materiaes adquiridos para a execução dos festejos sportivos”. O governo se responsabilizaria também pela impressão dos programas e regulamentos, e pela cunhagem das medalhas. Com as verbas, o projeto do Centenário foi posto em prática. (MORAES, 2009, p. 28-29).

Com o novo empréstimo contraído, finalmente a organização do evento seria iniciada. Para evitar novos problemas dessa natureza, os representantes da YMCA no país passaram a dialogar diretamente com o governo da cidade por considerar a nova direção da CBD inexperiente e desorganizada. O então prefeito do Rio de Janeiro, Carlos Sampaio, garantiu o apoio do governo federal e assegurou aos membros da YMCA e do COI que todos os esforços seriam empreendidos para que os Jogos fossem realizados com sucesso e também manter o reconhecimento do COI ao evento. Para isso, foi então designada uma nova comissão organizadora, sob presidência do Coronel do Exército Estellita Werner, e dando ao Fluminense maiores poderes na organização das competições. (TORRES, 2012).

A ideia de construção de um novo estádio foi então abandonada e optou-se pela realização de melhorias no estádio que já havia construído na cidade, o do Fluminense Football Club, que havia recebido os jogos do Campeonato Sul-Americano de Futebol em 1919. (CANCELLA, 2014).

As bases de organização dos Jogos do Centenário foram definidas pela CBD e publicadas na revista “Ilustração Brasileira” em março de 1922.[7] Os critérios para participação nos jogos determinavam que os esportistas deveriam ser “súditos” de países da América Latina e destacava a obrigatoriedade de serem considerados amadores de acordo com os regulamentos internacionais de cada esporte. A condição deveria ser reconhecida pela federação nacional do Brasil e pelas federações de cada país que enviasse concorrentes e os participantes poderiam ser latino-americanos por nascimento ou naturalizados.

O programa foi composto por um amplo quadro de modalidades atléticas e aquáticas, com locais de competição em diferentes regiões da cidade, envolvendo espaços públicos, privados (clubes) e das Forças Armadas. (CANCELLA, 2014).

Os Jogos foram abertos em 13 de setembro de 1922, com uma grande “parada desportiva”, aos moldes da parada militar realizada no dia 07 de setembro.[8] No evento de abertura, esportistas civis e militares desfilaram lado a lado nas delegações dos países participantes: Argentina, Chile, México, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Estados Unidos da América, Grã-Bretanha, Japão, Portugal e Brasil. (TORRES, 2012). Estiveram também presentes nos Jogos três representantes do COI: Sr. Elwood Brown, Sr. Jess Hopkins e o Conde Baillet-Latour, representando o Barão de Coubertin que não pode comparecer.[9]

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Fotografias da parada desportiva do Centenário ocupando página inteira da Revista da Semana. Fonte: Revista da Semana 23 de setembro de 1922, p. 28.

A presença de países de fora da América Latina desfilando na abertura do evento pode causar certa estranheza. No entanto, esse episódio ocorreu porque as Forças Armadas atuaram em conjunto com a CBD no processo de organização do eventos por meio de suas ligas esportivas e com representantes em cargos de gestão na comissão organizadora. Por conta dessa aproximação, foram idealizadas competições especificamente para as delegações militares que estariam presentes nas comemorações para serem realizadas em paralelo aos eventos esportivos principais, sendo elas da América Latina ou não. As provas passaram a ser divulgadas na imprensa como “latino-americanas”, “militares” ou “navais”, mas muitas vezes a divulgação dos resultados se confundia e a distinção entre os eventos se tornava complexa.

Além das competições militares, fazia também parte do programa dos Jogos do Centenário o VI Campeonato Sul-Americano de Futebol, com participação de Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Brasil. A competição enfrentou graves problemas com relação à organização e arbitragem, o que levou o Uruguai a abandonar o campeonato. Ao final, o Brasil sagrou-se campeão, vencendo o Paraguai. (MALAIA, 2011; MORAES, 2009).

O processo de organização dos Jogos de uma maneira geral foi bastante conturbado. A realização das competições também enfrentou alguns problemas sérios, especialmente com relação à organização e arbitragem não somente no futebol mas em diversas modalidades, como remo, atletismo e esgrima. Delegações inteiras e atletas individualmente se recusaram a competir ou se retiraram das competições por conta desses problemas. Como exemplo, todos os resultados das provas de atletismo não obtiveram reconhecimento oficial da Confederação Sul-Americana de Atletismo por conta de problemas na realização das provas e erros de arbitragem. A decisão foi tomada na reunião de 1924 da entidade e os resultados e recordes não foram homologados. (TORRES, 2012). Essa decisão resultou na desfiliação da CBD, que somente retornaria a fazer parte da Confederação sul-americana na década de 30. Os resultados de 1922 somente foram revalidados pela Confederação Sul-Americana de Atletismo no ano de 2012, 90 anos após a realização do evento. (IG ESPORTE, 2012).

Os Jogos do Centenário, de acordo com os relatos recolhidos na imprensa da época, conseguiu uma importante mobilização da população carioca. Além dos eventos esportivos, os pavilhões da Exposição Internacional também apresentavam grande atrativo, com público expressivo durante toda a sua realização. No “Atlas do Esporte no Brasil”, há o seguinte dado sobre o evento:

O número de espectadores dos Jogos, ainda segundo a ACM, chegou a 162.000 pessoas, quantitativo expressivo para a época, pois a assistência representou cerca de 15% da população da cidade, montante jamais atingido posteriormente. Em suma, os Jogos de 1922 no Rio de Janeiro consistiram num megaevento esportivo considerando os meios mobilizados e a participação da população local, embora não tenham sido reconhecidos até recentemente como tal. (SILVA, 2006, p. 17).

Cerca de um ano após a realização dos Jogos de 1922, o Conde de Baillet-Latour, membro do COI, relatou o seguinte:

Os Jogos do Rio, como um todo, não foram perfeitos, mas as críticas das quais têm sido objeto foram muito exageradas… Eles foram um espelho que reflete exatamente a situação dos esportes dos países que participaram, e as causas de sua imperfeição são originárias de defeitos que afligiram as autoridades e atletas em geral na América Latina… (NETO-WACKER; WACKER, 2010, p. 158-159).

A realização desses eventos tinha como um dos objetivos a afirmação de uma imagem internacional do Brasil como país organizado e moderno. No entanto, devido aos grandes problemas envolvendo desvios de verbas, atrasos nas obras, arbitragens parciais e falta de organização esse projeto inicial de projeção de uma imagem internacional positiva não se manifestou como esperado. Já a mobilização da população em torno de um sentimento nacional teve seu relativo sucesso. A grande participação de espectadores na Exposição Nacional e nos Jogos Esportivos é um dado a ser observado nesse sentido.

O Brasil e o Rio de Janeiro, então, receberam um evento “quase” olímpico em 1922. Sem ser considerado um evento olímpico em si pelas exigências do COI, os Jogos do Centenário foram reconhecidos como parte integrante do movimento olímpico e um instrumento importante na divulgação dos ideais do COI na América Latina em um período de expansão da influência do Comitê pelo mundo.

Referências:

ARQUIVO NACIONAL. A Exposição de 1922: Memória e Civilização. Exposições Virtuais do Arquivo Nacional. Disponível em: <http://www.exposicoesvirtuais.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=257&gt;. Acesso em: 05 mai. 2016.

CANCELLA, K. O esporte e as Forças Armadas na Primeira República: das atividades gymnasticas às participações em eventos esportivos internacionais. Rio de Janeiro: BibliEx, 2014.

IG ESPORTE. Confederação revalida Jogos Olímpicos Latino-americanos de 1922. Publicada em 22 set. 2012. Disponível em: <http://esporte.ig.com.br/maisesportes/2012-09-22/confederacao-revalida-jogos-olimpicos-latino-americanos-de-1922.html&gt;. Acesso em: 10 mai. 2016.

MALAIA, J. A Diplomacia do pé: o Brasil e as competições esportivas sul-americanas de 1919 e 1922. Tempo e Argumento, v. 3, n. 2, p. 43-76, jul. – dez. 2011.

MORAES, H. Jogadas Insólitas: Amadorismo e Processo de Profissionalização no Futebol Carioca (1922-1924). 2009. 163 f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Formação de Professores, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009.

NETO-WACKER, M.; WACKER, C. Brazil goes Olympic: Historical Fragments from Brazil and the Olympic Movement until 1936. Kassel: Agon-Sportverlag, 2010.

SARMENTO, C. A regra do jogo: uma história institucional da CBF. Rio de Janeiro: CPDOC, 2006.

SILVA, J. Gestão da Segurança em Megaeventos Esportivos. In: DaCosta, Lamartine (Org.). Atlas do Esporte no Brasil. Rio de Janeiro: CONFEF, 2006, p. 17-20.

TORRES, C. Jogos Olímpicos Latino-Americanos – Rio de Janeiro 1922. Manaus: CBAt, 2012.

[1] O Imparcial, 12 de maio de 1920, p. 8.

[2] O Imparcial, 26 de maio de 1920, p. 7.

[3] O Imparcial, 26 de maio de 1920, p. 7.

[4] O Imparcial, 06 de abril de 1921, p. 12.

[5] O Imparcial, 30 de junho de 1921, p. 8.

[6] O Imparcial 30 de março de 1921, p. 9; O Imparcial 31 de março de 1921, p. 9-11; O Imparcial 06 de abril de 1921, p. 9, 12; O Imparcial 07 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 09 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 12 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 15 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 20 de abril de 1921, p. 8; O Imparcial 22 de abril de 1921, p. 8; O Imparcial 23 de abril de 1921, p. 11; O Imparcial 24 de abril de 1921, p. 10; O Imparcial 26 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 27 de abril de 1921, p. 9; O Imparcial 30 de abril de 1921, p. 7; O Imparcial 01 de maio de 1921, p. 8; O Imparcial 05 de maio de 1921, p. 9; O Imparcial 07 de maio de 1921, p. 11; O Imparcial 14 de maio de 1921, p. 9; O Imparcial 20 de maio de 1921, p. 9; O Imparcial 22 de maio de 1921, p. 11; O Imparcial 02 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 03 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 06 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 11 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 13 de junho de 1921, p. 10; O Imparcial 16 de junho de 1921, p. 10; O Imparcial 17 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 18 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 25 de junho de 1921, p. 9; O Imparcial 30 de junho de 1921, p. 8; O Imparcial 05 de julho de 1921, p. 10; O Imparcial 06 de julho de 1921, p. 9; O Imparcial 08 de julho de 1921, p. 9; O Imparcial 20 de julho de 1921, p. 9; O Imparcial 11 de setembro de 1921, p. 8-9.

[7] Ilustração Brasileira, março de 1922, p. 72-74.

[8] Revista Fon Fon 23 de setembro de 1922; Revista da Semana 23 de setembro de 1922.

[9] O Imparcial, 03 de setembro de 1922, p. 8.


Go Army, Beat Navy: o esporte nas Forças Armadas estadunidenses no contexto da Primeira Grande Guerra

21/03/2016

Por: Karina Cancella (karinacancella@gmail.com)

O esporte é na atualidade um fenômeno presente no cotidiano das mais diversas instituições ao redor do mundo. As Forças Armadas, claro, não ficaram de fora desse contexto. Ao longo do século XIX e especialmente no século XX, as aproximações entre militares e prática esportiva se ampliaram significativamente em diversas regiões do planeta. Entre finais do oitocentos e décadas iniciais do novecentos, países como Inglaterra, Alemanha, França, Estados Unidos da América e Brasil passaram a investir em programas de treinamento do corpo de suas tropas utilizando os esportes e as ginásticas com vistas a não somente desenvolver o aspecto físico de seus contingentes mas também o reforço da moral e da masculinidade (CANCELLA, 2014).

No post de hoje, vamos tratar brevemente sobre como os Estados Unidos da América (EUA) mobilizaram algumas práticas esportivas nos períodos de preparação para participação na Primeira Grande Guerra e durante o desenrolar do conflito.

Nos EUA, assim como no restante do mundo ocidental, a cultura esportiva apresentou maior desenvolvimento no final do século XIX, beneficiada pelas melhorias no transporte, pelo crescimento dos meios de comunicação, particularmente os jornais mais baratos, pela urbanização e industrialização. Em 1898, por exemplo, o esporte já fazia parte do calendário nacional e garantia atenção de diferentes grupos da população para competições de baseball e football (futebol americano). No entanto, a maior aproximação dos militares dessas práticas somente ocorreria na entrada dos Estados Unidos no conflito com a Espanha, conhecido como Guerra Hispano-Americana, pelo controle das colônias espanholas no Golfo do México no ano de 1898. Segundo Wanda Wakefield, após a derrota da Espanha no conflito, os comandantes americanos criaram intencionalmente oportunidades para os soldados e marinheiros praticarem baseball, corrida e experiências com outras competições atléticas. (WAKEFIELD, 1997).

O esporte foi principalmente defendido pelos comandantes como oportunidade de distração saudável para os militares em campanha, sendo sempre enfatizada a necessidade de afastamento de práticas consideradas ilícitas pelos comandos, como ingestão de bebidas alcoólicas, envolvimento com prostituição e jogos de azar. (WAKEFIELD, 1997).

Esse argumento de defesa da prática esportiva entre os militares como elemento de promoção de bons hábitos e boa ordem foi reforçado no processo de preparação dos EUA para o ingresso na Primeira Grande Guerra. Paralelamente a esse movimento pelo esporte, os grupos que defendiam a moralização da sociedade e buscavam a proibição de venda de bebidas alcoólicas e da prostituição ganharam força no processo de organização do United States Army e United States Navy para o embarque para o cenário de operações. Utilizando o argumento de estarem em tempo de guerra emergencial e do significativo aumento dos acampamentos de treinamento militar, esses grupos moralistas intensificaram as pressões para proibir a prostituição, pois seria um risco para a saúde e segurança dos soldados e também por ser um atrativo para jovens mulheres que viviam no entorno dos acampamentos como uma possibilidade de recebimento por favores sexuais. (WAKEFIELD, 1997).

Essas proibições se baseavam na defesa de que as energias dos jovens deveriam ser direcionadas unicamente para o preparo para as batalhas. Nesse contexto, o esporte era uma prática recreativa desejável e moralizante, já que garantia uma distração aos soldados e, ao mesmo tempo, auxiliava no condicionamento físico, nas relações interpessoais e no companheirismo, além de serem instrumentos para reforço da masculinidade. (WAKEFIELD, 1997).

Nos acampamentos de treinamento, algumas entidades civis atuavam para desenvolver atividades entre os soldados. A Young Men’s Christian Association (YMCA), por exemplo, enviou representantes que organizavam aulas sobre a bíblia, grupos de canto, jogos, atuavam como árbitros em lutas de boxe, auxiliavam jovens soldados com pouca instrução a escrever cartas, entre outras distrações vistas como sadias pelos comandos das FA. (WAKEFIELD, 1997).

O estabelecimento dessas práticas nos acampamentos auxiliou, inclusive, no processo de popularização de um dos esportes mais importantes atualmente entre os estadunidenses: o futebol americano. James Mennell (1989) afirma que a introdução do futebol americano como parte do treinamento militar e atividade de horas de lazer para os recrutas que atuaram durante a Primeira Guerra foi um dos fatores responsáveis pela ampliação dos interesses nessas práticas ao longo da década de 1920. Seguindo nessa linha apontada por Mennell, Steven Pope (1997), ainda aponta que:

A campanha de preparação para a Primeira Guerra Mundial reforçou a expansão geográfica do futebol. Envolto em trajes patrióticos, o jogo tornou-se um terreno de formação para a cidadania e prontidão militar. Líderes de preparação trabalharam para transformar o futebol de um mero esporte de espectadores em uma base componente da educação cívica. […] Joseph Lee, presidente do Associação de Recreação e Playgrounds da América […] apontou para o futebol como sendo o mais adequado para a preparação para a guerra, devido ao seu cultivo de lealdade de equipe, o que poderia facilmente ser equiparado à lealdade nacional. […] Discussões em tempo de guerra foram específicas sobre as qualidades físicas desejadas cultivadas pelo futebol, que preparou os homens jovens para a guerra. (POPE, 1997, p. 93-94).[1]

Tanto no Exército como na Marinha dos EUA foram implementadas divisões atléticas com responsabilidade de desenvolver programas esportivos para os militares. No caso do Exército, a modalidade com maior investimento inicialmente foi o boxe, defendido como prática mais útil naquele momento para o serviço militar. Foi inclusive realizada uma busca por um “boxeador habilidoso” para ajudar na instrução nos campos. Não havia uma diretriz da Divisão Atlética do US Army inicialmente para o desenvolvimento da prática do football. Um dos argumentos era o fato de ser muito caro fornecer os equipamentos necessários para a prática a todos os soldados. Normalmente, dependia-se de doações para conseguir os materiais. O programa de treinamento atlético e recreação era ainda bastante recente no US Army e, por essa razão, a Divisão Atlética se empenhou em desenvolver a prática do boxe de forma mais generalizada e deixou os esportes recreativos (como era considerado o futebol americano) como responsabilidade dos diretores de cada campo. Sendo assim, não havia nenhuma diretriz política oficial da Divisão Atlética para se criar um programa de futebol em serviço. O surgimento do programa foi por ação específica dos campos, já que o futebol mostrou-se como uma prática já bem estabelecida, com um corpo de técnicos e funcionários qualificados dispostos a ajudar. Além disso, os soldados e marinheiros apresentavam grande interesse e entusiasmo pelo jogo. Como consequência, começaram a surgir oportunidades de promover jogos com faculdades e outros campos em grandes estádios. Foi com grande rapidez que as equipes dos acampamentos tornaram-se organizadas, equipadas e prontas para jogar uma temporada completa de futebol americano (MENNELL, 1989).

Já no caso da Divisão Atlética da US Navy havia um incentivo maior para o programa de futebol em serviço, especialmente porque o responsável, Walter Camp, tinha uma grande proximidade com esse esporte. Camp foi um dos mais importantes esportistas dessa modalidade em seu tempo e é considerado o principal responsável pela normatização da prática nos moldes que ela é jogada até os dias atuais, tendo participado das primeiras partidas nos EUA ainda no século XIX e atuado nos processos de reformulação e criação das regras para o futebol americano. (WCCF, 2015).

Walter Camp defendia a prática do futebol americano como elemento recreativo e de distração para os marinheiros. No entanto, outro ponto foi também enfatizado por ele na defesa pela difusão da modalidade: a natural rivalidade entre soldados e marinheiros, que poderia ser utilizada para a promoção de jogos de futebol americano atraentes entre as equipes dos campos do Exército e das Estações Navais estabelecidas no processo de preparação para atuar na Primeira Guerra. Em 1917, Camp iniciou a organização dos jogos escrevendo para Raycroft, chefe da Divisão Atlética do US Army, pedindo autorização para que o time do Exército pudesse jogar. Seguiu para a seleção de um estádio com data disponível, sendo escolhido o Yale Bowl. Então, passou para a divulgação e promoção do evento na imprensa. Em carta redigida em meio às organizações com o objetivo de convocar o maior público possível, Walter Camp afirmou que aquele evento seria a primeira real grande competição entre Exército e Marinha envolvendo jogadores de todo o país. A promoção de jogos como esses, não somente entre os militares mas também com as equipes das universidades, foi compreendida como um grande contribuinte para a divulgação da prática. (MENNELL, 1989).

É preciso, no entanto, relativizar a colocação com relação a esse evento de 1917 ser a primeira grande competição entre Exército e Marinha. Estabelecendo um levantamento na base de dados da Library of Congress no catálogo Chronicling America – Historic American Newspapers, que apresenta um acervo de consulta on-line para o período de 1836 a 1922 com sistema de busca por palavra-chave, foram identificadas notícias em periódicos de diferentes regiões dos EUA noticiando jogos entre militares do US Army e da US Navy e competições com equipes de universidades desde o século XIX. As ocorrências se intensificam consideravelmente no século XX, mas desde a década de 1890 a imprensa dedicava espaço para noticiar processos de organização de competições esportivas entre os militares, especialmente aquelas realizadas entre suas escolas de formação.

Para ilustrar, segue abaixo a transcrição traduzida de notícia publicada no jornal “The Sun” em 29 de novembro de 1890 em que se comenta realização da primeira competição esportiva entre militares da Academia de West Point (US Army) e de Annapolis (US Navy).

O jogo de futebol de cadetes

O jogo de futebol mais marcante do ano, em alguns aspectos é o estabelecido para hoje em West Point entre os cadetes da Academia Militar e os cadetes da Academia Naval.

Os espectadores não serão numerosos como as multidões em Eastern Park e em Springfield. Pode não ser tão brilhante em bloqueio e desarme, passes e jogos, mergulhos através da linha ou correndo em torno das extremidades, como nas poderosas lutas de Harvard com Yale e de Yale com Princeton. Na verdade, os jovens de Annapolis, que tiveram uma grande experiência e esperam para fazer um jogo animado com os rapazes de West Point, foram derrotados na última quinta-feira, em uma pontuação de 24 a 4, em seu próprio campo, por Lehigh, que está na segunda posição dos jogadores de futebol da faculdade.

Mas o que torna este jogo memorável é que ele marca a entrada dessas duas escolas do governo no campo de competições atléticas com o outro. Eles se desprendem de velhas ideias e observâncias tradicionais. Com um jogo de futebol realizado e um duo de jogo de volta no próximo ano, não há nenhuma razão para o baseball não seguir com jogos entre as duas academias na próxima primavera e, em seguida, uma competição anual em vários exercícios de atletismo.

Tudo isso faria uma mudança na relação social das Academias de West Point e Annapolis, que até então não tinham muito mais a ver com o outro do que se eles pertencessem a diferentes países. Sob as velhas noções, competições em esportes encontraram pouco favor entre os líderes militares. A mudança começou quando as equipes do Exército participaram das competições de rifle em Creedmoor. Desde que a fixação de tais competições no próprio Exército, com distintivos e medalhas fornecidos pelo Governo, foi apenas um passo; E na medida em que o plano militar foi seguido em ter oficiais e homens competindo em pé de igualdade, as competições de rifle tornaram-se decididamente a instituição mais democrática do exército. Mesmo no tempo presente, recomendações são feitas ocasionalmente para o estabelecimento de competições separadas para oficiais e soldados, mas esta mudança não foi feita. Quanto à Academia Naval, tem por vários anos mantido times de baseball e de futebol que disputavam nines e elevens[2] com universitários vizinhos e escolas.

O jogo de cadetes do exército e da marinha é, portanto, um desenvolvimento tão natural a partir desses costumes modernos que, atualmente, a única surpresa é como não foi estabelecido há muito tempo. Este jogo anual, com as suas exigências severas sobre a força, coragem, rapidez e habilidade, em breve vai atrair grande interesse popular, enquanto os oficiais que trocaram a escola para servir em navios ou fortes vão se interessar por ele como o que estão sentindo os antigos universitários graduados sobre as fortunas do futebol do vermelho, do azul e do laranja e preto. [3], [4]

Como é possível verificar na transcrição da notícia, esse jogo realizado em 1890 é considerado como um grande responsável não somente por introduzir as escolas de formação militar das Forças Armadas dos EUA no panorama de competições esportivas daquele momento mas também por aproximar as relações entre as duas instituições. Nesse sentido, o esporte assumiu um papel importante nas interações políticas entre as forças e também na relação com as universidades e escolas civis.

Até os dias atuais, os confrontos esportivos entre US Army e US Navy são importantes eventos nos Estados Unidos. No perfil oficial do US Army na rede social Facebook, por exemplo, foi publicada em 04 de dezembro de 2013 uma nota de convocação aos seguidores para votar o pôster de divulgação do confronto de futebol americano entre os times “The Army Black Knights of West Point – The U.S. Military Academy” e “United States Naval Academy Midshipmen”, que seria realizado em 14 de dezembro de 2013. Entre os 10 cartazes disponibilizados na página para voto, um fazia referência direta aos jogos realizados entre as forças ao longo do século XX, como se pode ver a seguir:

1480749_10151894051183558_1283661905_nFonte: The U.S. Army – the official U.S. Army Facebook page. Disponível: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10151894051183558&set=a.10151894035343558.1073741841.44053938557&type=1&theater. Acesso 04 dez. 2013.

Ao longo da atuação na Primeira Guerra, as FA dos EUA organizaram entre seus militares inúmeros eventos esportivos em diferentes modalidades como futebol americano, beisebol, atletismo, boxe, além da criação de competições para exercícios militares específicos como lançamento de granada, atividades de ordem unida, manipulação de armas e exercícios de companhia. (WAKEFIELD, 1997).

Além dessas atividades com intuito recreativo, o esporte ainda foi utilizado no front como forma de treinamento de habilidades militares de forma mais “agradável”. Ao treinar o beisebol, os militares eram lembrados que o lançamento das bolas era similar ao processo de lançamento de granadas. Para que os soldados aprendessem a utilizar as máscaras de gás em combate, eram realizados extensos treinamentos com jogos, momentos em que os militares jogavam as partidas utilizando as máscaras sob os argumentos de que se conseguissem utilizar o instrumento no “campo de jogo”, poderiam utilizá-lo sem problemas no “campo de batalha”. Para encorajar os soldados a se sentirem confortáveis com as agressões que enfrentariam na guerra, as regras do boxe foram alteradas com a redução do tempo dos rounds para que não ocorresse a estagnação durante a luta, aumentando a intensidade do combate. (WAKEFIELD, 1997).

O esporte foi elemento presente e constante no cotidiano dos militares estadunidenses ao longo das primeiras décadas do século XX, sendo utilizado sob diferentes objetivos. Com o fim dos conflitos da Primeira Guerra em 1918, as Forças Armadas envolvidas nos eventos iniciaram o processo de desmobilização e retorno para seus países. Como forma de celebração da vitória dos Aliados, Elwood S. Brown, Diretor do Departamento de Atletismo da YMCA, escreveu ao Coronel Bruce Palmer, membro da equipe do General John Pershing (comandante da Força Expedicionária dos Estados Unidos na Primeira Guerra), informando que a entidade poderia organizar em conjunto com as FA competições esportivas entre os aliados como forma de celebração e reforço dos hábitos saudáveis entre os militares. (TERRET, 1999).

Após discussões e acordos, os Jogos Interaliados, o primeiro evento esportivo internacional no pós-guerra,[5] foram realizados em junho de 1919, em Paris, com a participação de 18 nações e 1.500 atletas em 24 diferentes modalidades. A liderança no processo de organização e realização desse evento e a massiva participação dos militares estadunidenses nas competições evidenciam a importância do esporte no contexto das atividades dessas FA ao longo dos anos iniciais do século XX. (TERRET, 1999).

Referências:

CANCELLA, K. O esporte e as Forças Armadas na Primeira República: das atividades gymnasticas às participações em eventos esportivos internacionais. Rio de Janeiro: BibliEx, 2014.

DPTMS – Directorate of Plans, Training, Mobilization and Security. Camp Lewis, 1917-1919. Disponível em: <http://www.lewis-mcchord.army.mil/dptms/museum/camp.htm&gt;. Acesso 05 dez. 2013.

MENNELL, J. The Service Football Program of World War I: Its Impact on the Popularity of the Game. Journal of Sport History, v. 16, n° 3, Winter, 1989, p. 248-260.

POPE, S. Patriotic Games: Sporting Traditions in the American Imagination, 1876–1926. New York: Oxford University Press, 1997.

TERRET, T. Le Comité International Olympique et les “olympiades militaires” de 1919. Olympika The International Journal of Olympic Studies, v. VIII, 1999, p. 69-80.

WAKEFIELD, W. Playing to win: sports and the American Military, 1898-1945. Albany: State University of New York Press, 1997.

[1] Tradução da autora.

[2] Nines e elevens é uma referência aos jogos de baseball (9 jogadores) e football (11 jogadores).

[3] A indicação ao vermelho, azul e laranja e preto é uma referência direta às universidades citadas no texto e as cores de seus brasões: vermelho – Harvard, azul – Yale, laranja e preto – Princeton.

[4] The Sun, 29 de novembro de 1890, p. 6.

[5] Por ocorrência dos conflitos, os Jogos Olímpicos de 1916, previstos para ocorrerem em Berlim, não foram realizados, interrompendo a sequência de edições a cada quatro anos desde os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna, promovidos em 1896.