Um contista de futebol bissexto

29/07/2018

Por Edônio Alves

O futebol é sabidamente um jogo entranhado na vida brasileira. Queremos dizer com isso que o jogo de bola aos pés, cuja trajetória em nossa história cultural e literária procuramos explicitar nos textos publicados nesse blog, a partir de sua efetivação por meio do concurso mútuo do campo do jornalismo com o da literatura, já se firmou como mote especulativo de abrangência e legitimidade tais que os autores brasileiros de ficção têm facilmente como justificar, com a eficácia própria dos seus trabalhos literários, o investimento direcional que essa produção tem feito no assunto.

 Tal motivo literário é hoje – podemos dizer junto com o que dizem alguns textos aqui já analisados – um meio riquíssimo (dentre outros já canônicos e estabelecidos) através do qual a nossa arte literária vem eficazmente discutindo a condição humana específica do homem brasileiro, considerado na sua vinculação a uma cultura e ambiente próprios.

Assim é que, isolado o homem por trás da bola, como queria conceber Nelson Rodrigues, ou percebido na sua relação visceral com esta, como tentam apanhá-lo na condição de jogador outros tantos autores, a motivação especulativa do futebol tem gradativamente se firmado em nossa literatura como uma demanda geral a que não escapa nenhum olhar atento de escritor verdadeiramente imbuído de propósitos analísticos quanto a nossa realidade social.

Há, portanto, integrados na grande constelação de grandes autores de nossas letras, uns que tem dedicado mais atenção ao tema do futebol e outros menos. Uns até que tomaram o tema como fato motor de suas carreiras literárias e outros que só tangenciam o assunto esporadicamente; aproveitando o vai-e-vem das ondas de imput e output dos recortes emergentes em tais ou quais momentos da nossa vida cultural em ebulição.

Esse segundo caso é precisamente a situação do escritor Lourenço Diaféria quanto à ligação da sua literatura com o tema do futebol, nas letras nacionais.

Nascido em São Paulo, a 28 de agosto de 1933, Diaféria morreu na mesma cidade em 16 de setembro de 2008. Foi contista, cronista e jornalista brasileiro. Sua carreira jornalística começou em 1956 na Folha da Manhã, atual Folha de S. Paulo. Como cronista, o início foi mais tardio, em 1964, quando escreveu seu primeiro texto assinado. Permaneceu no periódico paulista até 1977, quando foi preso pelo regime militar por causa do conteúdo da crônica, Herói. Morto. Nós, considerada ofensiva às Forças Armadas. A crônica comentava o heroísmo do sargento Sílvio Hollenbach, que pulou em um poço de ariranhas no zoológico de Brasília para salvar um menino. A criança se salvou, mas o militar morreu, vencido pela voracidade dos animais. A crônica também citava o duque de Caxias, o patrono do Exército, lembrando o estado de abandono de sua estátua no centro da capital de São Paulo, próximo à estação da Luz. Diaféria só seria considerado inocente em 1979. Durante algumas semanas, a Folha deixou em branco o espaço destinado ao colunista, em repúdio à sua prisão. Depois da Folha, levou suas crônicas para o Jornal da Tarde, o Diário Popular e o Diário do Grande ABC, além de quatro emissoras de rádio e a Rede Globo de Televisão. Católico, escreveu A Caminhada da Luz, livro sobre dom Paulo Evaristo Arns, a quem admirava. Outra “religião” era o futebol: muitas de suas crônicas falavam desse esporte — e de seu time, o Corinthians.

Nas histórias curta, no entanto, o tema do futebol só comparece em dois contos escritos sob encomenda de uma editora de São Paulo, fato que o torna um típico dentre muitos dos escritores bissextos do assunto futebol na literatura brasileira. Vamos conferir sua escrita futebolística, nas análise desses dois contos que empreendemos para este blog, a seguir:

  •  Urgente, em mãos

Lourenço Diaféria

Escrito especialmente para a coleção Toque de Letra, série Lazuli, da Companhia Editora Nacional, organizada por Miguel de Almeida, com a coletânea intitulada, “A vez da bola”, publicada em 2004, este conto se insere no campo daquelas narrativas de ficção que flagra o futebol como uma arena em que seus personagens cumprem um destino trágico, a despeito – e mesmo por isso – de terem sido vazados numa atmosfera de ligeiro heroísmo.

Mutilado do braço esquerdo por causa de um acidente de trem quando voltava para o subúrbio onde morava, Reinaldo, que trabalhava de servente (sic) no jornal onde o narrador escreve, era, entretanto, um excelente jogador de futebol de várzea.

Parece que ancorado na observação do narrador que a certa altura diz, se contrapondo a um ditado popular não aplicável à circunstância em que ambos foram apresentados na vida – narrador e personagem – : “A gente tem que usar a mão que resta na vida”, ao invés de: “Uma mão lava a outra e ambas lavam o rosto” ­- que seria mais plausível para a situação de duas pessoas que vão se precisar mútua e profissionalmente (Reinaldo era uma espécie de officeboy do jornal) -, o personagem compensa nos campos de futebol, com a excelência de sua maestria com a bola, a deficiência física que carrega na vida.

Conduzida com uma ironia simétrica ao destino do personagem, a narrativa pretende leva ao leitor a ideia de que o jogo da vida, também composto de lances inesperados e traiçoeiros, assim como o jogo de futebol, é bem mais difícil de ser jogado. Vide o desfecho que é dado à trama:

 “Consta ter sido uma batida seca, definitiva. Nenhuma mancha de sangue tingiu o asfalto. Atirado ao longe, no chão, junto ao corpo ainda morno, o envelope gordo onde se lia: Urgente, em mãos”.

A radicalidade irônica da expresão “Urgente, em mãos”, diz tudo numa situação em que, sem as duas mãos, ferramentas de resto sempre necessárias ao enfrentamento da vida entre os humanos (ainda mais nesse caso em que o personagem era entregador de documentos), também não lhe valeram os pés, ainda que exímios na condução do jogo da bola.

Se, como dizem, o mundo é uma bola, o personagem deste conto de Lourenço Diaféria sequer teve a chance de trocar as mãos pelos pés, no seu particular enfrentamento do mundo.

****

  • A rã misteriosa

Lourenço Diaféria

Também escrito especialmente para a coleção Toque de Letra, da Companhia Editora Nacional, organizada por Miguel de Almeida, com a coletânea intitulada, “A vez da bola”, publicada em 2004, este conto é bem mais simplório do que “Urgente, em mãos”. Tanto do ponto de vista da situação da trama, mais propensa a ter melhor rendimento estético no gênero crônica, porque se assenta naquelas veredas por onde costumeiramente se captam as coisas do cotidiano, quanto da resolução que é dada a ela, através de um texto fluido em que se quer expor, a partir do mote dos esporte (aqui, de novo o futebol), o lado mais uma vez irônico e também risível dos contrastes da vida.

O personagem central é Petronilho, um senhor aposentado que ainda “bate sua bolinha com amigos”, mas ao invés de envergar, na foto, algum troféu por alguma façanha nos campos de pelada, esse nosso senhor do bizonho, é flagrado, nesse texto quase-crônica, com um anuro nas mãos.

O tempero do texto, que não apresenta novidade alguma em termos de procedimentos estéticos aplicados ao conto, nesse caso só digno desta classificação por causa do desfecho criado com ligeira inventividade, fica por conta do seu tom jocoso e da novidade da situação criada. “Na mão direita, segura uma bola de futebol usada; na mão esquerda o anuro ainda vivo”. Talvez se não tivesse antecipado ao leitor o que significa o vocábulo “anuro”, e, portanto, enfraquecido a sua função diegética para o caso, o texto rendesse mais em termos de efeito de sentido, conforme certamente nos asseguraria o mestre das estórias curtas, Julio Cortàzar.

PARA LER MAIS:

As histórias curtas do autor, acima, estão em: DIAFÉRIA, Lourenço; PIZA, Daniel; ANGELO, Ivan. A vez da bola: crônicas e contos do imaginário esportivo brasileiro. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2004. p. 7-9. (Coleção t

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MACHADO DE ASSIS E O FUTEBOL

25/02/2018

Por Edônio Alves

Até onde sei – e confesso que sei um pouco, uma vez que estudei o tema para uma tese de doutorado -, o grande escritor brasieliro Machado de Assis nunca escreveu tendo como tema, seja de longe ou de perto, o futebol.

Até porque, no ano de sua morte (1908), no fim da primeira década do século 20, o jogo de futebol estava apenas ganhando fôlego no Rio de Janeiro para se espalhar como um rastilho de pólvora incotornável, só na década seguinte, a década de 20, pelo Brasil afora.

Foi a partir dos anos 20 do século 20, portanto, que o jogo de futebol se consolidou no Rio de Janeiro já como um esporte popular e avassalador no gosto do desportista carioca, posteriormente se espalhando pelo Brasil e iniciando uma trajetória de influência na cultura nacioanal a que os escritores tiveram que dar atenção, embora que inicialmente apenas o envolvendo numa polêmica renhida entre os que o defendiam e os que o atacavam enquanto uma novidade estrangeira que, então, forçava instalação na nosssa terra.

Para se ter uma ideia, nos primeiro anos da década de 1910 apenas o jornalista e escritor João do Rio deu atenção, nos seus escritos, ao futebol, tomando-o como ocupação novidadeira da elite carioca que o importara da Europa e o adotara como forma de esporte, lazer e festejo social.

Na ficção, por exemplo, o tema sequer existia por essa época.

Não é de se estranhar, portanto, que um escritor sisudo – embora sarcasticamente irônico com as ditas coisas sérias do mundo, (à maneira de um Voltaire), como era nosso Machado de Asisis -, fosse perder tempo com um tema tão sem importância e banal, estigma que até hoje parece cercar a matéria, a ponto de um dos seus maiores cultores nas nossa letras, o dramaturgo, jornalista e escritor, Nelson Rodrigues, o ter resumido assim ao redimensionar  essa circunstância que ainda hoje cerca o assunto: “Das coisas menos importantes da vida, o futebol é a mais importante”, asseverou certa vez.  

Pois bem!

Não escreveu sobre futebol, o nosso Machado de Assis, mas criou (ou mais apropriadamente, tomou de empréstimo também dos ingleses tal qual fizemos com o esporte bretão) um tipo de narrador que deu uma inflexão geral (sapecou um grande drible) no campo da literatura brasileira, algo que  até hoje causa espanto e certa novidade na maneira de se narrar ou contar histórias com finalidade estética ou artística.

Trata-se do chamado “defundo autor”, aquele que já bateu as botas e partiu dessa para a melhor, podendo, assim, “viver e contar também melhor” as coisas da vida e da morte, já que não lhe resta mais compromisso algum com nada ou com ninguém, contingência que só a “indesejada das gentes” pôde lhe conceder de benefício final e definitivo, espécie de lincença poética radical e libertadora.

Então! Como se costuma afirmar nos meios acadêmicos de literatura – e algumas teorias da narrativa parecem confirmar -, a condição de morto sempre confere a um narrador-protagonista que opere a partir de uma primeira pessoa atuante ou testemunhal, uma espécie de salvo-conduto ou imunidade para que possa intervir como queira na vida dos entes com os quais conviveu e que, por este recurso técnico de verossimilhança, ainda conviverá para todos os efeitos do bem e do mal.

Este, pois, é precisamente o caso em questão do narrador Mindinho, o do conto de futebol que analisaremos nesse pequeno ensaio para o Blog, ou seja: aquele que não só conta, mas até autonomeia a própria história.

Talvez daí, dessa circunstância de olhar para o mundo dos vivos por cima do nariz (afinal, ele já está morto mesmo!), é que esse tipo de personagem-narrador ou narrador-personagem, como queiram, se comporte perante a existência dos que ficaram quando de sua partida desta para a melhor com uma arrogância que diria judicante, nas suas histórias exemplares.

É uma dessas histórias, portanto,  que o leitor vai acompanhar a seguir, a qual deixo como minha homenagem à relação de Machado de Assis com o futebol, algo que sei que não houve, mas que também sei que houve, conforme todos perceberão, na análise do conto em tela.

Desçamos ao texto, pois:

 ***

Mindinho

      Conto de José Cruz Medeiros

Narrativa em que, à maneira de um narrador machadiano, aquele que escreve com a pena da galhofa e da melancolia, nos é contada a curiosa história da vingança de um jogador de futebol já falecido sobre o seu companheiro de clube ainda vivo. E tudo isso por causa de uma “desfeita moral” que o narrador habilmente faz transformar-se numa espécie de traição em que o jogo da bola entra como elemento de conteúdo e significação.  Noutras palavras: o ponto culminante de uma trama onde tudo pode ser resumido no emblemático aforisma: sorte no amor, azar no jogo. Ou vice-versa. Principalmente, vice-versa, como o leitor verá ao ler essa literalmente fantástica estória curta de futebol.

Escrito numa prosa elegante e deliciosamente corrente; fluida até, no seu intuito narrativo, este conto de José Cruz Medeiros, pra início de conversa, inscreve-se entre aqueles dos melhores do gênero, a exemplo de “O jogo encoberto”, de Aécio Consolin, já analisado aqui e que também trata de uma traição entre companheiros de time e de jogo de bola.

Desta vez, com efeito – mas, com efeito mesmo, o artifício literário para tratar do tema é bem mais sofisticado, uma vez que o narrador-protagonista só age na trama a partir da sua condição de morto, coisa que solertemente vai logo avisando ao leitor: “A turma prefere o domingo, que é o dia da vitória. Eu não; comigo é na quarta-feira. É quando me levanto contente, satisfeito da vida. Tudo muito claro, os passarinhos vêm comer as migalhas de pão que eu atiro no quintal… Ou será ilusão? Porque foi, justamente, numa tarde de quarta-feira, belíssima, que eu morri”.

Uma outra de suas característica marcantes, também, é o passar a considerar as coisas humanas a partir dali, da saída do mundo dos vivos, através de um prisma em que se acentuam drasticamente o seu lado risível, melancólico, profundamente cômico no seu paradoxo fundante. Como se a pobre condição humana dos vivos não fosse além de um ajuntamento de fatos aleatórios, circunstâncias imperativas e disposições alógicas, sem finalidade última ou sentido algum. Aquilo que na sentença lapidar do poeta se resumiria assim: “Uma agitação feroz e sem finalidade”, a própria vida.

Então, porque já fixada a sua condição de morto na narrativa, lá vai agora o nosso Mindinho contar episódios do seu enterro, oportunidade que aproveita para ir perfilando para o leitor um amontoado de pareceres seus sobre eventos comezinhos que agora e antes esclarecem um pouco da sua trajetória de vivente e agora de defunto. “Mas eu estava ‘pesado” mesmo, nessa minha dolorosa trajetória: uma das cordas escorregou e o caixão, embicando perigosamente para baixo, foi jogado violentamente contra o raso da cova, e assim fiquei à espera dos vermes. Algumas pessoas assustaram-se, outras acharam graça, e eu, em tudo isso, percebi que meu enterro, que sempre esperei ser cristão e ameno, virou palhaçada pura”.

Note-se aí o tom sarcástico e irônico com que o narrador vai encaminhando as coisas da vida, aparentemente sempre balizadas por algum sistema moral ou ético, para um patamar de relatividade que, lá na frente, no momento crucial da sua narrativa, vai justificar teoricamente a sua atitude de vingança frente ao amigo. Essa travessia é feita por um trecho exemplar em termos de procedimentos formais de textualidade. Um momento em que, depois de ter sido largado definitivamente no cemitério, deixa patente o personagem-narrador, ao nível de um sintagma textual de sugestão, essa sua possibilidade de vingança:

Sentia falta de um companheiro, de uma palavra amiga. Os que ali permaneciam eram estranhos. Os coveiros de enxada às costas, deixavam o serviço, e eu me via só e triste, imerso numa profunda desolação. Queria ver os meus, falar-lhes, mas o certo é que uma força poderosa tolhia-me os movimentos. Luzes estranhas davam conta de que me encontrava no limiar de uma nova existência, sem nada compreender desse mundo fantástico e irreal, feito do impossível e do imponderável”.

Pois esse mundo fantástico e irreal, feito do impossível e do imponderável, tanto pode ser, no caso, o além mundo do personagem; o nosso mundo real mesmo, que todos nós sabemos dotado de toda essa imponderabilidade e fantasia, ou o mundo textual da literatura onde tudo é possível e justificável, desde que as instâncias sejam inscritas sob a plausibilidade da sua coerência narrativa interna. Assim é que o narrador vai esclarecendo melhor as coisas: “Esse isolamento deveria ser motivado por mim mesmo. Certamente. Eu não seria coisa muito boa, vista que uma chusma de diabinhos andava sempre a me cercar”.

Em seguida, a confirmar certa epigonia de retórica machadiana, mas uma louvável epigonia do tipo, o narrador faz surgir na história um personagem esclarecedor da sua nova condição existencial, mas funcionalmente irônico: “Quem tentou me esclarecer um pouco foi um velho de nome Camargo, falecido em 1868. Dizia-se filósofo. Outro dia me encontrou aqui e foi perguntado:

“- Rapaz, que tristeza é essa?

  – (…) Como se chama?

  – (…) Mindinho! – exclamei com ênfase.

  – (…) E o que fazia, antes de vir pra cá?

  – (…) Futebol – respondi com certo desalento. O senhor sabe, sou o Mindinho – insisti.”

A ironia em questão, a se depreender das considerações que seguem, por parte do filósofo de cova e de caixão, o senhor Camargo, decorre do fato do escritor José Cruz Medeiros servir-se justamente dele, um sábio, para firmar, na sua história, a repercussão no âmbito literário, da representação social do futebol como uma ocupação menor, um ofício que por privilegiar os pés e não a cabeça na sua execução, opõe também o trabalho intelectual ao manual, com todas as significações socais depreciativas daí decorrentes.

Não sou contra o futebol”, diz ele. “Nem contra qualquer exercício físico, à exceção do boxe, que é digno do tempo das cavernas. Ou dos circos romanos. Mas o amigo deve convir que o futebol deixa o cérebro assim (com o indicador e o polegar configurou uma bola, pequeníssima…) e o pé deste tamanho! (e abriu os braços para mostrar um pé de metro e meio)”.

Cite-se também aqui a resposta do personagem-narrador, por ser absolutamente necessária ao caso em questão.

“- O senhor fala assim porque naturalmente nunca ouviu falar da célebre dupla Mindinho-Piúca, os ‘backs’ mais famosos do continente, declarei, imprimindo, agora, um tom irônico às minhas palavras. Piúca é o meu companheiro de vitória, o meu grande amigo. Criamos um sistema de defesa que é um assombro. Verdadeiramente. O senhor não se lembra do notável embate com os argentinos, em 1950? Que dia!

Aplanado o terreno situacional, em que o leitor já sabe quem conta a história, a partir de que circunstância, sobre que tipo de atividade humana, e desta, sobre que aspecto vai tratar a narrativa, o narrador, ajudado por seu colega filósofo, descobre que pode pensar e agir de novo como qualquer homem vivo, apesar de morto. A partir daqui, inicia-se o final da sua história. Descobre que dia é hoje na sua vida de defunto, e esse dia é dia de Vasco e Flamengo, o seu time de coração e de ofício profissional. E descobre também que pode voltar a encontrar os seus:

Vi então que podia me locomover à vontade. Comecei a flutuar como um tapete mágico, ao sabor do meu desejo. Como uma criança que principia a andar. Dentro de breves instantes, eis-me a rever as paisagens de minha predileção: Laranjeiras, Cosme Velho, a Barra da Tijuca, de onde guardo as recordações de uma excelente pequena”.

E eis também que de repente Mindinho se vê diante dos seus entes mais queridos, momento-chave de sua história:

E fui entrando, de mansinho. Atravessei a porta como um raio-X, e vi-me na sala. Nada se modificara. Tudo era silêncio. Minha filha de oito anos tinha ido até à casa da vizinha e o menino, de dois, brincava pelo chão com uma bola. E minha mulher? Foi quando lhe ouvi o riso, gostoso e cristalino. A sua voz era a mesma: doce como o melado de Campos. Não, não posso dizer o que presenciei então…”

Em seguida a esta visão perturbadora para os seus olhos de jogador-defunto, ou melhor, de defunto jogador, para melhor entendermos o que se sucede, o nosso Mindinho presenteia seus ouvintes-leitores com uma das mais criativas e inusitadas jogadas já perpetradas no campo de jogo das narrativas de estória curta. Uma vingança espetacular pra cima do seu colega de time e de zaga, a qual só o tema do futebol poderia possibilitar. Pra entender tudo, vá o leitor a esse excelente texto de José Cruz Medeiros que, através das palavras de Mindinho, termina deliciosamente assim:

Você lembra dessa lavagem do Flamengo? A gente não esquece. Todo mundo botou a culpa no Piúca, uma desmoralização completa. Que continue a viver com minha mulher. E dizia-se meu amigo, o miserável! Mas está frito: Lea não dá pelota para quem não for cartaz… E, se der, agora já não tem importância”.

O AUTOR DO CONTO:

José Cruz Medeiros nasceu no dia 19 de setembro do ano de 1909, em Curitiba, Paraná, e morreu em 9 de setembro de 1982. Estreou como contista com o livro, Bicho carpinteiro, em 1959, e a partir daí desenvolveu uma boa carreira de escritor de histórias curtas e ensaísta. Foi membro da União Brasileira de Escritores-UBE e responsável, durante muito tempo, pelo “Boletim Bibliográfico Brasileiro”, revista mensal que prestou importantes serviços ao pensamento da literatura brasileira. Tem publicado ainda, fechando a sua obra, os livros de contos, Pinheiros (1956); Uns contos por aí (1969) e A hora nona (1981). Seu conto, “Cavalo Miranda”, foi incluído na antologia “Contos Brasileiros de Bichos”, publicada em 1970 e organizada por Cyro de Matos e Hélio Pólvora. Já o conto de futebol, Mindinho, que segue, venceu o Concurso de Conto Desportivo do Rio de Janeiro, em 1958, integrando a comissão julgadora Paulo Mendes Campos, Antonio Olinto e Henrique Pongetti. Esta narrativa aí analisada está publicada na coletânea, Contos brasileiros de futebol, organizada em 2005 por Cyro de Matos, sob os auspícios da Editora LGE, de Brasília.


JOGO EM CRISE – FUTEBOL, LITERATURA E POLÍTICA

13/03/2017

Por Edônio Alves

O Brasil enfrenta um momento difícil em sua vida política.

Um momento de impasses, retrocessos e esgarçamento do seu tecido social causados por um revés institucional na sua tenra democracia e no seu imberbe desenvolvimento econômico que o fez sair da condição de país subdesenvolvido para o patamar de país em desenvolvimento, no concerto das nações.

Tudo parecia caminhar bem com a trilha desse caminho percorrido pelo Brasil até que um “golpe parlamentar” por dentro da democracia – que tirou do poder uma presidenta democraticamente eleita pelo voto de mais 54 milhões de seus cidadãos – fez o País mergulhar outra vez em águas turvas, reavivando comportamentos autoritários, policialescos e  colocando a convivência social outra vez no quadro temerário do confronto entre poderes, instituições e relações sociais.

Um quadro até certo ponto parecido com a experiência de uma ditadura clássica embora que, dessa vez, paradoxalmente, a coisa acontecendo por trás de uma máscara que induz estar-se diante de uma nação em que impera o estado democrático de direito.

Uma face nova e perigosa, enfim, se insinuando por trás de um rosto que parecia agradável e familiar.

Justamente por isso, por causa deste contexto incerto em que vivemos atualmente no Brasil, é que resolvi trazer, para o leitor desse nosso BLOG, uma pequena história envolvendo futebol, literatura e convivência social em momentos de crise.

Na história, que analiso para expor suas entrelinhas ao leitor, o cenário de fundo é a ditadura política, implantada no Brasil pelo golpe militar de 1964, quando a nossa sociedade ficou sem respirar, dado o sufocamento de sua estrutura de funcionamento.

Ali, o futebol cumpriu um papel importante ao se tornar – para o bem ou para o mal – uma espécie de válvula de escape da convivência e do diálogo social. Ora amparado; ora condenado pelo governo de plantão na medida em que servia ou não aos propósitos do poder usurpador.

A ideia é nos servirmos aqui da literatura e do futebol, nas suas relações intrínsecas e extrínsecas, para percebermos similaridades e situações de ontem, de outrora e de hoje, na vasta experiência por que tem passado a vida brasileira.

Vamos ao texto.

 ***

 Família, futebol e regatas  –  conto escrito por Ricardo Soares

Árduas discussões à mesa de almoço dos domingos, opondo um genro a um sogro, são o motivo para que o filho de um e neto do outro conte as suas lembranças acerca da Copa do Mundo de 1970, e também de um Brasil governado por uma ditadura militar que se instalara no País apenas seis anos antes da conquista do seu terceiro título mundial de futebol.

Transformado pelo signo linguístico numa figura só, o narrador autodiegético dessa história, aproveita-se da condição privilegiada de membro de uma família de origem portuguesa típica de São Paulo, e, do alto de sua lente de observação de adolescente entre adultos, tece considerações pessoais sobre a relação entre política, futebol e cotidiano, o que acaba por desvendar certos aspectos ainda hoje não tão bem resolvidos da formação social brasileira.

A história é simplória e nada há que destacar em termos de literatura senão a sua oportuna e não disfarçada denúncia de um período da vida brasileira em que a convivência social tornara-se tensa e monocórdica porque movida pelo medo. O seu pano de fundo, pois, é uma conjuntura político-social em que o diálogo entre as pessoas pautava-se mais pelo modo imperativo dos verbos do que pelo tom pluralizante e qualificador dos substantivos quando bem acompanhado dos adjetivos.

Talvez por isso é que o futebol (jogo assentado no diálogo coletivo que produz) entre na narrativa como um tema que se situa ambiguamente entre o interdito e o desejado. Como um veículo apropriado para opor e para juntar simultaneamente os lados díspares de uma realidade forçadamente monodimensional, aspecto que sobressai já no início da história, através da observação atenta do narrador:

“Da ponta da mesa levantando a taça de vinho tinto e contemplando o vasto cozido português meu avô sentenciava:

– Futebol e política não se discute. Muito menos à mesa”, diz, para em seguida completar em arremate de síntese:

“Naquele momento por um prazer quase sádico tudo o que meu velho avô português queria era justamente criar uma acachapante discussão à mesa provocando o genro com quem tinha menos afinidades e maiores diferenças”.

Não as afinidades, mas sobretudo as diferenças (sociais, econômicas, étnicas, de visão de mundo, valores etc) entre as pessoas é que serão postas à mesa, na agenda de reflexões que esta narrativa de ficção pode oferecer retroativamente ao leitor de hoje, já bem mais acostumado a lidar com elas como requisito fundamental para a convivência social no regime democrático, em contrapartida ao leitor de ontem, do tempo em que calar a boca era a atitude mais “recomendável” para sustentar o diálogo social, paradoxalmente baseado no silêncio.

“Eu digo isso e repito, eu digo!!! Não se discute à mesa e muito menos à minha mesa onde se preserva a educação e os bons modos, atributos que o senhor infelizmente não tem”.

Como foi já sugerido, o futebol parece ser o único elo que, nesta conjuntura pesada e amordaçante, tem o poder de ligar os vínculos pessoais (familiares ou não) mesmo que da forma explosiva que o ambiente sugere. Este detalhe não escapa ao narrador que, situado desconfortavelmente entre as figuras discrepantes do avô e do pai, funciona como um pêndulo para o qual converge a situação particular, historicamente colocada, da relação inescapável que o jogo das massas mantinha então com a política no Brasil. É desta posição, portanto, que o narrador acorre para completar:

“(…) Fato é que para o meu avô naquela altura do campeonato ter modos queria dizer torcer para o Santos Futebol Clube. (…) Ter modos naquele momento para o meu avô queria dizer gostar de algumas coisas que os militares vinham fazendo mas também que não se devia esquecer o legado e a herança da vassourinha de Jânio Quadros, apesar da renúncia em 1961”.

Dito isto, a partir daqui as oposições que informavam a realidade daqueles tempos de chumbo ficam inexoravelmente claras, na encenação figurativa dos dois personagens antagônicos: “Meu avô era Jânio e meu pai era Lott. Meu avô era Médici e meu pai era JK. Meu avô era Santos e meu pai era Corinthians. Meu avô era branco e meu pai era negro”.

O Brasil de então (e de resto, o próprio contexto mundial) parecia ser reduzidamente composto de apenas duas partes, dois lados, duas faces que sempre se opunham, porque aqueles eram tempos que não permitiam meio termo: ou se sonhava ou se encarava o pesadelo.

“Quando saíam essas brigas todos em volta da mesa ficavam calados, constrangidos, mortificados. As discussões destroçavam qualquer possibilidade de harmonia dominical e invariavelmente estragavam a sobremesa porque para arrematar meu avô sempre implicava com o jeito que meu pai sugava o café e se aborrecia com o cigarro barato que ele acendia logo em seguida”.

Esse, pois, era o clima com o qual o contista Ricardo Soares pretende, nesse texto ficcional, figurar um momento difícil da nação em que as pedras rolavam enquanto a bola corria. “Estava para começar a Copa do Mundo de 1970 no México. Para ser sincero eu não me lembro se naquela época tinha slow-motion, câmera lenta, replay ou qualquer dessas coisas. Do que lembro bem eram das discussões acaloradas entre meu pai e meu avô”.

Claro que essas discussões inicialmente tinham como mote o âmbito futebolístico, mas o que se quer lembrar aqui, neste conto, através do jogo de futebol – para além do ambiente de euforia criado no país com a perspectiva real da conquista do nosso terceiro título mundial -, é que a realidade de uma ditadura, pelas fissuras e rompimentos que provoca (até a fadiga completa da ambiência de convívio entre as pessoas), tem sempre como corolário duramente palpável o esgarçamento do tecido social. E, neste caso, nem o jogo mais querido dos brasileiros resolveria a parada. Senão, que até alimentava o contexto:

“- Essa Copa de 1970, esse time vai nos dar muitas alegrias – dizia o avô.

“- Eu não tenho tanta certeza assim. E de mais a mais se a gente levar os militares vão se aproveitar disso, vão usar a taça Jules Rimet para esconder todas as safadezas que vêm fazendo – respondia o pai”.

À parte a versão lugar-comum desse tipo de crítica ao aproveitamento político por parte do stablishment de plantão em relação às coisas do esporte, o diálogo acima, cujo teor nessa direção perpassa toda a narrativa assegurando a ela o seu vigor denunciativo, é bem paradigmático da maneira como, àquela época, o conteúdo dialético da natureza do futebol preenchia, no espaço privado das famílias, as lacunas deixadas pela a ausência  da discussão política no espaço público. Espaço público esse que sequer existia ou então era reduzido a sua minimalidade funcional.

“- Seu Gomes, não sabe o que está dizendo… tem muita gente aí sofrendo, apanhando, sendo morta porque não concorda com o governo.

“- Que sendo morta o quê!!! Isso é intriga de comunista. Este país é uma maravilha e está crescendo… veja aí você mesmo. Este país é uma benção. E ainda vamos ganhar esta Copa do Mundo.”

Bom, depois do clima de relativa tensão criado pelo narrador para informar o matiz plúmbeo do conteúdo político daqueles tempos, que, como já foi lembrado, perpassava inteiramente a conjuntura futebolística da realização de uma Copa do Mundo, seu acontecimento máximo, que os dois personagens aproveitavam para passar em revista certas divergências (a questão do general Médici querer escalar o time brasileiro, a substituição de João Saldanha – um comunista declarado – por Zagallo, “um bunda-mole”, na opinião do pai do narrador, etc), chega-se, enfim, a um momento de relativo relaxamento na trama. Afinal, o Brasil foi mesmo Tricampeão do Mundo em 1970. A despeito da oposição de uns e para o delírio de outros.

Do ponto de vista meramente formal, como de resto toda a narrativa, o seu final é cediço, previsível no seu encaminhamento de desfecho, e, portanto, dedutivamente lógico, o que não lhe tira certo tom irônico de arremate.

“Sim, senhoras e senhores. Ganhamos lindamente a Copa de 70 no México. Carlos Alberto fez o quarto gol contra a Itália, todos nós beijamos simbolicamente a taça Jules Rimet e éramos 90 milhões em ação. Um domingo depois da conquista da Copa toda a família foi fazer piquenique e passar o dia às margens da represa Billings, em São Bernardo do Campo. Meu avô – com a ajuda do meu pai e de um tio – tirou um velho barquinho de cima da perua Rural Willys. Entramos no barco e fomos fazer regatas como dizia o meu avô. Na volta trouxemos algumas tilápias. Saborosas mas repletas de espinhas. Como aqueles tempos. Comemos as tilápias fritas melando as mãos e lambendo os beiços. Não pensamos mais em futebol naquele domingo”.

SAIBA QUEM É O AUTOR.

Ricardo Soares nasceu em São Pauo, capital. É escritor, jornalista, roteirista e diretor de TV. Já dirigiu documentários para a TV Cultura, programas para a SESC TV e edita a revista Raiz, sobre cultura brasileira. É também conselheiro editorial e colunista da revista Rolling Stone e um dos criadores do programa Metrópolis da TV Cultura do qual fui o primeiro apresentador. Foi repórter do Caderno B do Jornal do Brasil e tomou parte da equipe fundadora do Caderno 2 do Estadão em 1986. No mesmo jornal foi cronista de 1993 a 1998. Desse ano até 2001 foi cronista do Jornal da Tarde. Dirigiu as redações das revistas TRIP e da extinta HV. De 1998 a 2005 dirigiu, escreveu e apresenteou “Literatura” e “Mundo da Literatura”, programas sobre o universo literário que continuam a ser reprisados pelo SESC TV. É co-autor das peças “Olho da Rua” e “Quatro Estações”. Tem vários livros publicados como Cinevertigem e os infanto-juvenis Valentão, o Brasil é feito por nós?; Dia de submarino e Falta de ar. O conto de futebol, Família, futebol e regatas, consta da coletânea 11 Histórias de futebol, da Editora Nova Alexandria, de São Paulo, que saiu em 2006.


A HISTÓRIA E AS ESTÓRIAS DE FUTEBOL

10/10/2016

Por Edônio Alves

Dessa vez, o leitor internauta costumeiro desse blog vai adentrar, digamos assim, numa história dentro da História, dando seguimento aquela nossa proposta de sempre, nesse espaço, levarmos adiante uma conversa sobre as relações, amiúde fecundas, das coisas do futebol com as coisas da literatura.

O caso aqui em questão é uma narrativa leve – e por isso muito saborosa – de caráter reminiscente que mistura futebol e política internacional para compor um curioso quadro da repercussão dos efeitos desta sobre o micro-mundo daquele.

Trata-se de uma análise que fiz do conto O massagista, do escritor Duílio Gomes, que para desenvolver o tema ficcionalmente, lança mão de um dos personagens mais interessantes do universo do futebol: o massagista, aquele profissional encarregado de prestar os primeiros socorros aos atletas em caso de contusão ou avarias médicas no campo de jogo.

O massagista, seja nos clubes profissionais em que atuem em condições idem ou nos times amadores do futebol de várzea, em que no mais das vezes adquirem uma aura de figura folclórica indispensável à festa da bola, é uma espécie de herói picaresco de quem se espera o toque humano das pequenas ações que vão iluminar silenciosamente as grandes glórias conquistadas nos campos.

É, portanto, a história de Nico, o massagista, que vocês vão saborear e compreender agora, através da pena (ou seria as teclas?) de Duílio Gomes, com uma mãozinha analítica minha, para que a bola role redonda e a palavra corra limpinha.

***

O MASSAGISTA

Duílio Gomes

Para iniciar o jogo – digo, a história -, o narrador apresenta ao leitor o personagem que vai protagonizar o momento chave e mais surpreendente da sua história; a própria razão de ser da sua trama textual em que o recurso ficcional é um bom pretexto para se refletir sobre a história com H maiúsculo. Ou pelo menos se pensar no quanto a grande História é composta de histórias pequenas, estórias curtas, ou, talvez mais adequadamente, estórias contra a História, no dizer de Guimarães Rosa.

“É aí que entra a história de Nico, o massagista. Ele estava no Guarany desde a sua fundação e tinha uns cinqüenta e cinco anos de idade. Era negro, alto, magro, sempre elegante com seu terno de linho branco e seu chapéu de feltro cinza. Todos gostavam de Nico. Ele era sério, mas educado, silencioso, mas solícito e competente. Sentado em seu banquinho de madeira, acompanhava o jogo com atenção. Não mordia as unha e não praguejava como os massagistas dos times adversários. Seu rosto permanecia neutro, sem tiques, durante todo o jogo, o Guarany vencesse ou não. Sua única reação era quando algum jogador do Guarany se contundia e o juiz apitava. Aí ele se levantava, pegava sua sacola de pano e entrava em campo”.

Aqui a descrição do personagem Nico vai ficar suspensa na história para que o narrador explique em tom memorial as circunstâncias que envolvem as peripécias do seu tão atilado massagista. E tudo isso é feito por um viés benjaminiano que desdobra a experiência vivida em experiência narrada; a ação minúscula, individualizada, transformando-se, por força da escrita literária, em ação historicamente compartilhada, enfim, em atitude histórica da mais lídima força ética ou – no caso -, mais precisamente, estética.

“Meu tio vivia contando essa história para a família e os amigos. Do tempo que ele era centroavante do time de futebol na cidadezinha do interior mineiro onde ele morava, Marilândia. Tio Carlinhos tinha 19 anos de idade. Era o tempo da Segunda Guerra Mundial, 1943, e a Europa estava pegando fogo com aqueles gringos malucos se matando, japoneses, alemães nazistas e italianos fascistas de um lado, americanos, russos, ingleses, franceses e até brasileiros do outro”.

Situado o quadro mais geral em que se desenvolve a história (lembrando chaves do torneio da Copa do Mundo com países alinhados para a disputa), e narradas as motivações que sustentarão a verossimilhança da intervenção de Nico na urdidura do seu entrecho –  “um dia começaram a surgir pichações nos muros do campo do Gauarany e nas paredes externas do vestiário – várias suásticas nazistas e frases curtas do tipo Nico, negro sujo e Davi é porco judeu”-, os holofotes do foco narrativo em primeira pessoal, as vezes misturado com uma terceira pessoa que acompanha quadro a quadro as figuras, as circunstâncias e as ações narradas numa focalização onisciente, recaem novamente, os holofotes recaem novamente, enfatize-se – e eis aqui o pouco do investimento formal deste conto – na figura do insuspeito massagista.

“Nico nunca recebeu dinheiro no Guarany, ao contrário do treinador e dos jogadores, que sempre embolsavam o ‘bicho’ depois dos jogos, vencendo ou não. O presidente do Gauarany, Dr. Celso, um advogado e deputado gordo e bonachão, cansou de insistir com Nico para que ele recebesse a sua parte. Nico nunca aceitou. (…) O que Nico gostava mesmo era de fazer seu ofício, ficar vermelho de emoção (e mudo) quando o Guarany vencia, e de chupar suas laranjas. Para isso sempre carregava uma punhal afiadíssimo com cabo de madrepérola que guardava dentro de uma capinha de couro presa no cós da calça”

Frize-se que os acontecimentos das pichações, repetidos e ameaçadores, principalmente para as figuras que não entendiam suas motivações (“Nico e Davi não entendiam o motivo daquelas agressões espalhadas pelos muros do clube. Não tinham inimigos, pelo contrário eram estimados por todos. Quem faria uma barbaridade daquelas?”), foram mandados investigar pelo Dr. Celso à polícia cujo delegado contou-lhe que “pichações daquela natureza estavam surgindo também em toda a cidade, não respeitavam nem a igreja ou cemitério, e que ele tinha aberto inquérito e colocado alguns policiais em pontos estratégicos para prenderem o pichador, ou pichadores”.

E frize-se também que depois de (…) agora o narrador, transfigurado na pessoa do tio Carlinhos, por efeito de uma mímese oportuna e adequadamente complacente com seu motivo e linguagem, começa a preparar para o leitor as justificações do desfecho de sua história:

“Meu tio explicou aos dois que aquilo era coisa de nazista. Essa gente perversa, resumiu para um Nico e um Davi de olhos esbugalhados, acha que somente alemão ou louro nazista é raça pura, superior, o resto é genética de segunda, misturada. Davi chorou e contou que parentes dele estavam sendo perseguidos e presos na Alemanha hitlerista. Nico soltou um palavrão, coisa rara nele”.

Num crescendo que vai aglutinando na mente do leitor os efeitos práticos e locais (dramaticamente próximos da sua realidade) da deletéria e criminosa insanidade nazista, a narrativa vai chegando ao seu ponto máximo ainda que se utilizando de uma temporalidade frouxa que arrefece os ânimos, em termos do tônus narrativo, do que poderia ser um clímax mais impactante dada a igualmente impactante força daqueles acontecimentos de que se nutre a história, no seu sentido mais geral.

Mais uma vez o tempo empregado é o tempo do futebol. Talvez porque, como já tivemos oportunidade de assinalar, um jogo de futebol configura-se ele próprio como uma narrativa particular, uma pequena história em que o passar do tempo tanto para os jogadores quanto para os torcedores (dependendo das expectativas em confronto de cada lado dos times contendores) tem um desdobramento psicológico dramaticamente diferente quando comparado às outras temporalidades vivenciadas pelo homem. Assim, o que em termos de temporalidade cronológica comum pode ser vivenciado e medido como minutos, segundos, pode também (dependendo das diferentes situações de derrota ou vitória iminente de cada lado) ser experimentado existencialmente como séculos, e milênios até.

Foi justamente dessa particularidade temporal do jogo de futebol que se serviu o narrador criado por Duílio Gomes para dar carga dramática ao desfecho tanto da sua história quanto da do massagista Nico.

Advertindo em trecho anterior, num eficaz recurso narrativo de fundo aforístico, que, dependendo do caso, o massagista Nico “carregava o jogador nas costas, dispensando a maca, e o levava para a ‘enfermaria’, na verdade uma cadeira-espreguiçadeira no vestiário” e que ali suas mãos compridas e profissionais “davam um trato caprichado em hematomas mais selvagens”, o narrador adentra literalmente o campo de jogo e prepara o clima de suspense que se espraia da situação homóloga do jogo em disputa para evidenciar, através do também sempre possível e surpreendente jogo da linguagem literária, a figura e as ações do seu personagem Nico, o massagista que também literalmente joga o jogo da história.

O jogo caminhava para a metade do segundo tempo (…), nervoso, mas equilibrado, caminhava para um empate. O juiz apitou. Um jogador do União de Ouro Preto havia marcado falta brava em um dos nossos. Tio Carlinhos levantou-se do banco de reserva pra ver o que estava acontecendo e Nico entrou em campo com sua bolsa, desaparecendo no bolo de jogadores discutindo. Saiu de lá com um jogador nas costas. Era o Alemão. O juiz apitou e o jogo continuou na tarde azul pontilhada de cigarras

A partir de agora deixemos a narrativa falar por si mesma em cinco pequenos segmentos ilustrativos e dialogar com as observações que fizemos acima acerca de sua estrutura, validade estética e grau de inventividade no seu enfrentamento do tema futebol:

Todos voltaram aprestar atenção ao jogo, mas tio Carlinhos continuou acompanhando Nico e Alemão com os olhos estranhando por este estar xingando Nico e puxando sua camisa. Nico parecia muito nervoso com o que ouvia, sua testa estava vincada e ele mordia os lábios. Mas caminhava com passos rápidos, como fazia sempre. Entrou no vestiário como um caçador carregando sua presa e bateu a porta

***

De repente tio Carlinhos ouviu um baque vindo do vestiário, como se alguma coisa houvesse sido projetada contra a parede. Vou lá, pensou, e levantou-se. Quando abriu a porta, ele viu a mais patética cena jamais vista em toda a sua vida. (…) Nas paredes, como testemunhas, os quadros com as fotos dos jogadores do Guarany, um cartaz colorido de Carmen Miranda e um quadro a óleo de Getúlio Vargas”.

Pule-se aqui os detalhes digamos mais quentes desta cena para que o leitor possa saboreá-los na leitura integral do conto de Duílio Gomes e encerremos com o próprio narrador:

“Nico! Gritou tio Carlinhos, não acreditando no que estava vendo. Os dois voltaram o rosto para ele, Alemão com o olhar vidrado e a boca cheia e Nico com a expressão dura de quem havia tomado uma decisão muito séria em sua vida”.

***

Claro que Marilândia inteira ficou sabendo da história (…) e a família do Alemão mudou-se para a Argentina, onde tinha parentes. A guerra acabou, os nazistas perderam e muitos anos se passaram sobre Marilândia. Guerra é igual a jogo, gostava de dizer Nico, já velhinho, mas ainda massagista do Guarany, uns perdem e outros ganham…

No caso das peripécias e ações humanas anônimas transfiguradas pelo caráter simbólico típico da linguagem literária, ganha principalmente o leitor que pode perceber, simultaneamente ao prazeroso ato da leitura de um bom conto – acabo de dizer belo conto mesmo -, a clara verdade desta observação do crítico Alfredo Bosi de que “em face da História, rio sem fim que vai arrastando tudo e todos no seu curso, o contista é um pescador de momentos singulares cheios de significação”. (p. 9).

PARA SABER MAIS:

Duílio Gomes nasceu em Mariana (MG), em 1944, e morreu em 2011, em Belo Horizonte, vítima de um acidente vascular serebral. Era formado em Direito pela UFMG, mas sempre atuou no âmbito do jornalismo cultural. Expoente de uma geração de contistas mineiros surgida na década de 1960, em Belo Horizonte, capitaneada pelo veterano escritor Murilo Rubião – e que trazia em suas fileiras nomes como Luiz Vilela, Jaime Prado Gouvêa, Adão Ventura, Sérgio Tross, Lucienne Samôr e Sérgio Sant’Anna – o escritor Duílio Gomes já publicou, até agora, cinco livros de contos, tendo ainda participado de trinta e três antologias de histórias curtas. Recebeu inúmeros prêmios literários, entre eles seis em âmbito nacional: “Cidade de Belo Horizonte” (duas vezes), “Prêmio Guimarães Rosa / Secretaria Estadual de Cultura de MG”, “Revista Status”, “MinasCaixa” e “Prêmio Fernando Chinaglia”. Seus contos estão traduzidos para oito idiomas. Em 1983, Duílio dirigiu o “Suplemento Literário do Minas Gerais”, ganhando para o semanário o Prêmio UBE (União Brasileira de Escritores, São Paulo) na área Melhor Jornal Literário do País. Em 1985, foi convidado pelo escritor Ricardo Ramos (filho de Graciliano Ramos), para co-organizar, em São Paulo, duas Bienais Nestlé de Literatura (1985/1988), compondo um grupo com os escritores Adonias Filho, Moacyr Scliar, José J. Veiga, Bella Jozeff, e Antônio Holfeldt. O grupo, dirigido por Ricardo Ramos e Iraty Ramos, julgou concursos literários de âmbito nacional e promoveu debates culturais entre estudantes e populares em São Paulo, Goiânia, Alagoas e Curitiba. O conto, O massagista, consta da coletânea Contos brasileiros de futebol, organizada por Cyro de Matos, e publicada pela Editora LGE, de Brasília, em 2005. Já a história curta, Lucrécia, está em: COSTA, Flávio Moreira da (Org). 22 contistas em campo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.


O charme da letra e da bola de sapato alto

17/05/2016

 

Por Edônio Alves

O leitor deste blog – através desta minha inserção como pesquisador que procura discutir as relações sempre instigantes do futebol com a literatura – vai saborear, agora, a análise de uma narrativa bem articulada que se desenvolve em dois planos distintos: um que conta a visita de um amigo a uma amiga numa tarde de domingo, e outro que conta as circunstâncias da morte do irmão desse amigo durante uma partida de futebol, fato que sugere ter alimentado ainda mais os vínculos dessa amizade forte e, ao que parece, visceral.

De escrita segura – de quem entende do traçado (lugar de mulher também é no futebol e na literatura) -, esse é mais um conto que põe em cena a representação literária sobre futebol feita por mãos femininas, o que lhe garante um charme a mais na sua leitura e fruição.

***

Ninguém morre rindo

       Conto de Suzana Montoro

O texto começa (e eis o seu primeiro plano) com um narrador objetivo, onisciente, direto, situando temporal e espacialmente os dois personagens e as ações que os vão juntar nesta tarde de domingo para um almoço de reencontro para matar saudades. A ocasião serve também de pretexto para que se revele num detalhe, a costumeira leitura dos jornais de domingo, outro detalhe crucial para a história: a relação de um dos personagens com o mundo do futebol.

Preferia as páginas de esportes, fartas no domingo. Gostava de futebol, embora seus dias de craque tivessem sido enterrados junto com o irmão, numa tarde de domingo, em que foram chamá-lo no campo para dizer que o Pedro tinha sido atropelado. Nunca mais quis jogar”.

A história avança com a explicitação de mais detalhes (o forte dessa narrativa são os detalhes) que vão montando um quadro sutil e delicado da relação do amigo com sua amiga, como também da sua agora frágil ligação com o mundo. Repleta de sugestão, a fabulação que o narrador tece para criar no leitor um clima de empática inquietação espiritual, é sustentada pela enunciação de ações banais, observações sutis, conclusões vagas, durante o tempo que ele fica na casa da amiga.

Bia foi para a cozinha e ele ficou na sala, o olhar ancorado na janela. Falou sobre o livro que estava lendo, um autor que descobriu sozinho enquanto fazia hora numa livraria. O livro contava a história de um piloto que saiu viajando pelo mundo depois da morte do melhor amigo. Ele também tinha vontade de viajar sem destino por aí, devia ter feito isso depois de ter largado o futebol”.

Para descontrair um pouco, o narrador lembra que o nosso amigo gostava de música e de um certo disco de Charlie Parker: “(…) Depois do almoço, os dois sentaram no chão e continuaram a ouvir música. Bia lembrou do filme sobre a vida de Charlie Parker e comentou a morte dele, no sofá, na casa de uma amiga, assistindo a um programa cômico de televisão”.

(…)

“- Ninguém morre rindo, Bia.” – respondera ele a uma observação furtiva da amiga sobre a morte do músico de jazz americano.

Esse diálogo junto com outro do enredo (“Logo hoje? Isso não é nada bom… – ela disse, olhando para ele com o canto dos olhos”) serve de passagem, na história, para o seu outro plano textual, aquele que serve de gancho para o desfecho do conto que fixa o domingo como um dia nefasto.

Pois nesse domingo, o amigo de Bia tinha ainda um compromisso a cumprir, que era visitar um tio doente num hospital da cidade. Disse à amiga que voltaria a tempo de irem ao cinema e que traria mais vinho. O trecho que segue, expressa a estratégia fabular do narrador para mudar o plano da narrativa e encerrar essa sua história de um domingo tedioso e, por isso, representativo do estado de espírito do ex-jogador de futebol.

Na rua, Luis comeu o bombom que ganhou da tia, atravessou em direção ao bar em frente e pediu um café. A garoa tinha apertado e ele ficou lá, assistindo ao compacto de uma partida de futebol na tevê e depois um programa de variedades”.

A linguagem televisiva é o mote formal do desfecho do conto. Agora há um pulo temporal e, como numa edição de imagens, estamos (nós leitores e o narrador) num domingo qualquer de futebol. “Num dia do jogo contra o Atlético, um clássico com estádio lotado e transmissão ao vivo para todo país, Luis começou a partida no banco, pois se recuperava de uma distensão muscular na coxa esquerda (…)”.

Três segmentos recortados e destacados aqui, deste outro plano do texto, servirão para encerrar o seu sentido maior – embora não o conto literal em si, que continua até um fim em aberto sobre a sempre inquietante relação entre dois afetos fulcrais para o ser humano: o amor e a morte.

“(…) O seu gol, o primeiro do time, foi de placa, mas custou-lhe um estirão no músculo já contundido”.

“(…) Talvez esse momento, quando Luis foi tirado do campo para ser atendido pelo médico, tenha sido o mesmo em que seu irmão Pedro desligou a televisão e resolveu ir ao estádio, pressentindo a virada da partida”.

“(…) Pedro deve ter ouvido só rojões e acelerado a corrida ladeira abaixo em direção ao estádio. Em caso de empate, haveria prorrogação e Pedro prometera a Luis que se isso acontecesse, ele assistiria ao final da partida no banco”.

“Nem Luis jogou na prorrogação e nem Pedro chegou para assistir à derrota do atlético”.

Corta o narrador novamente para a casa de Bia em que se ouve a seguinte fala: “Um brinde por mais um maldito domingo que se acaba, disse, enchendo os copos enquanto Bia se jogava na cama”.

PARA SABER MAIS:

Suzana Montoro nasceu em São Paulo em 1957. É formada em Psicologia em 1979, atuando na área como psicoterapeuta clínica e, paralelo a isso, desenvolve a atividade de escritora. Escreve principalmente literatura infantil e juvenil, segmentos em que já publicou, entre outros, os livros, O menino das chuvas (1995) e Em busca da sombra (1996), além da reunião de contos seus, intitulada, Exilados (2003), esta, sim, uma obra para o segmento de leitores adultos. A narrativa de futebol Ninguém morre rindo, foi publicada na coletânea, Contos brasileiros de futebol, organizada em 2005, por Cyro de Matos, e publicada pela Editora LGE, de Brasília.


Garrincha como jogador e como personagem

12/08/2015

Por Edônio Alves

Um tal de Manoel Francisco dos Santos, brasileiro autêntico, original e marcado pela genialidade no que fazia nada mais era (e sempre será) do que Garrincha, um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Um cara singular até na descendência, pois que era neto de índios Fulniô, que habitavam as regiões das Alagoas em tempos agora remotos. Como se sabe, índio é ingovernável por brancos os quais mesmo tendo invadido seus espaços, tentando tomar suas terras, se expandiram na empreitada “civilizatória”, ousando atentar também sobre suas brincadeiras de vida, na tentativa de roubar suas bolas, que isso Garrincha não permitiu. Em reação, chamou todos de Manés e impôs ao mundo uma maneira lúdica de jogar com os pés e umas bolas de futebol. Fez desse mister sua vida e sua obra, tornando-se um dos brasileiros mais amados pelo seu povo.

Claro que não poderia deixar de se tornar, também, assim, personagem da literatura brasileira, essa arte que junto com o futebol, tece o amálgama mais profundo do jeito de ser e de operar da alma nacional. Literatura e futebol, pois, é o tema dessa nossa coluna no blog, e é com imenso orgulho que trago aos nossos leitores internautas uma análise que fiz de uma conto literário em que Garrincha é ao mesmo tempo mote, vida, morte e saudade. Acompanhem, portanto…

A última pelada de Mané  – conto de Domingos Pellegrini

***

Pois bem! Essa história é uma excelente narrativa ficcional que destaca, em tom rapsódico, a figura de um personagem ao mesmo tempo histórico e mítico do futebol brasileiro: Manoel Francisco dos Santos, Garrincha, o jogador bicampeão do mundo pelo Brasil em 1962 e estrela maior do Botafogo do Rio de Janeiro pelo anos seguidos da década de 1960. Com uma prosa brincalhona (risonha até), mas extremamente segura e adequada aos seus propósitos, que é contar os últimos ditos e feitos de um emblemático herói nacional – aquele a quem o povo consagrou país afora pela sua magnanimidade artística com a bola nos pés -, o inventivo narrador criado por Domingos Pellegrini brinda aqui o leitor com uma estória curta cujo apelo estético é seu próprio personagem central.

Isso fica patente desde o início da história quando esse ídolo do povo brasileiro – misto de herói e anti-herói – é apresentado ao leitor assim meio que humanizado por baixo, a despeito de sua permanência por cima, no panteão honorífico dos gigantes do futebol brasileiro: “Ele já estava no finzinho, inchado de pinga e um olhar assim abobado, não tinha mais aquele olhar moleque do Mané Garrincha, era só mais um mané da vida; quem não conhecesse, podia até pensar que era um pintor de paredes, desses que mamam um litro de mé por lata de tinta, ou podia ser mais uma vagabundo desses que aposentam cedo, criando barriga antes de cabelo branco – mas quem não conhecia Mané, principalmente de bermudas?”.

Como a proposta geral do conto, como já foi dito, é narrar os últimos ditos e feitos desse herói – e como se trata de um personagem cuja face heróica está sempre presente no imaginário afetivo nacional, por isso ser necessário uma constante revivicação desse mito* -, o narrador continua sua história apresentando as circunstâncias de sua inesperada reaparição no espaço público. Esse fato serve de mote para a condução de uma comovente história em que a memória ainda presente (viva na figura atuante do próprio Mané Garrincha, pelo menos do ponto de vista diegético da narrativa) aos poucos vai se transformando, através do vigor crescentemente forte da transfiguração literária, em uma lembrança dolorosa, ironicamente melancólica, confusa mesmo no seu misto de alegria e tristeza constituintes.

“Quando ele apareceu na rua, alguém olhou a cara, viu as pernas e apontou, olha o Mané, e pronto, ele foi andando cercado de gente dando abraço e tapa nas costas, criançada pulando em volta depois de pegar, beliscar ou cutucar as pernas que entortaram tanto gringo e muito fizeram pelo futebol e pela alegria do Brasil, como ia repetindo atrás dele um bebum”.

Depois de circunstanciados o personagem e seu espaço, a narrativa segue acompanhando Mané Garrincha pelas ruas, sutil e sorrateiramente impregnando nele os efeitos deste espaço e, principalmente, os efeitos do tempo, porque uma de suas metas, hábil e repetidamente sugerida ao longo do texto, é lembrar que o tempo passa, inexorável, mesmo para os heróis de forja imortal. Pois é esse paradoxo da trajetória existencial humana que o seu autor que mostrar servindo-se literariamente da figura paradigmática de Garrincha.

“Mané sorria, e piscava, em zigue-zague, empurrado para lá e para cá pela meninada, mães ralhando, homens lhe esfregando mão calosa na nuca, moças beijando e depois soprando para as outras que, nossa, ele parecia dopado! Estava era entupido até a tampa de remédio para o fígado, remédio contra o álcool, remédio para isso, remédio para aquilo, era um tanque de drogas ambulante e naquela horinha solto feito passarinho em Pau Grande, queria mais era tomar umas e rumou para a esquina onde sempre existiu um bar.

(…)

– Ué, cadê o boteco daqui?!

O tempo comeu, Mané, brincou alguém, e ele disse é, o tempo come mesmo, continuou andando empurrado, chacoalhado, apertado, beijado, de vez em quando alguém até lhe beijava a mão, e ele dizia como sempre ih, deixa disso:

– Futebol eu joguei foi com o pé…”

É dessa sua habilidade com os pés, com efeito, que o escritor Domingos Pellegrini constrói o motivo estrutural da sua narrativa, pois é com os pés que seu personagem entra para a história (com “h” maiúsculo ou minúsculo) e dela se retira, como se verá no final. Antes, porém, enquanto essa história do Mané avança em seu andamento de típica rapsódia futebolística, se é permitido o uso do termo aqui, onde não falta ao herói o culto quase religioso, como o de um tal Professor Pó, (“chamado assim só por gostar de velharia, livro velho, tralha velha” etc, que conhecia tudo da vida dele, “Tintim por tintim, Mané, desde cada gol até o teu cocô!”); a admiração quase sagrada (“os meninos olhavam as pernas de Mané, os pés em chinelos, os dedos, quantos dribles teriam dado aqueles pés, quantos passes de trivela com o efeito daqueles dedos, como podiam ter varizes assim pernas bicampeãs do mundo?); o elogio por seus feitos em campo (“o drible de entortar, os cruzamentos na cabeça do centro-avante, os gols decisivos nas copas do mundo, a maior estrela do Botafogo, o maior ponta-direita de todos os tempos, o homem que ganhou a copa depois que os portugueses quebraram o Pelé, o único jogador do mundo que fazia o povo rir enquanto fazia ou armava gol”), por exemplo. Antes, porém, dessa história terminar, se dizia aqui, é preciso salientar as suas qualidades de composição literária voltada ao futebol.

Ressaltemos, a título de exemplo – e não o faremos mais por falta de espaço – a exploração sintática que o narrador faz do uso dos diálogos, o que dá efeito coloquial à frase. Aliás, o coloquialismo é neste conto um recurso matreiro e bastante eficaz do narrador para mimetizar em palavras a figura muito popular de Garrincha; para captar-lhe, por exemplo, a sua ginga e malandragem de jogador formado nas peladas de rua. Exemplos dos dois recursos:

“(…) os capitães gritavam instrução, marca lá, lança aqui, olha o ladrão, todos de repente encantados pelo futebol, olhando tão parados que o fotógrafo podia ter tirado grandes fotos…”;

“Ih, falou Mané, homem fungando no meu gangote, e agachou-se como se fosse amarrar a chuteira, descalço porém, só para pedir a bola com o dedo, indicando onde deviam lançar o passe. Levantou-se já se jogando ligeiro para a frente, o molecão vacilou, mas correu pulando num carrinho quando a bola chegava ao pé de Mané que só tocou a bola e tirou o pé, o molecão se ralou no pó da rua. Mané deu outro toque, ameaçou levantar a bola e chutou rasteiro com o lado do pé, gol, aplausos e risos, era Mané Garrincha”.

Os diálogos intercalados dentro das frases sem que se suspenda as funções precípuas dos termos da oração no uso requerido, figuram perfeitamente, em nível formal, a conversa de rua e transfiguram, no seu registro literário, a sua dimensão lúdica e humana, demasiado humana. Além de servir de pretexto, agora em nível de conteúdo, para a representação competente de dois dos traços característicos do jogo de futebol praticado em terras brasileiras: o ethos da malandragem, usado como recurso legítimo das estratégias de jogo (exemplo acima) e, paralela a isso, a seriedade* (huizinga) com que é encarada a expressão lúdica na condução do nosso futebol (exemplo abaixo):

“O primeiro gol saiu duma jogada bonita, no bar aplaudiram, aí cada moleque passou a jogar como se estivesse de chuteira, sérios como pequenos homens disputando cada lance, os cabelos respingando, dividindo bola, esquecidos de que estavam descalços, às vezes algum gemia de dor”.

Dito isto, vamos ao final da história. E não apenas porque precisamos terminar este resumo de leitura. É porque o final desta história encerra estrutural e teleologicamente o seu fim. Assim mesmo, no duplo sentido da finalidade das coisas. Pois que é aí onde textualmente encontra-se concentrado todo o sentido último desta narrativa: o propriamente literário, revelado pelo correto domínio por parte do seu autor dos elementos de significação, intensidade e tensão*, necessário a boa confecção de uma estória curta, e o significado humano daí resultante, que serve para nos enriquecer de uma maior compreensão da realidade objetiva ou imaginária que neste mundo nos torna homens.

“– Entra aqui, Mané, no ataque!”

Ao fim, o narrador nos conta que Mané Garrincha não resistiu e entrou nessa pelada dos meninos em Pau Grande, sua cidade natal. Conta-nos também de “quando Mané recebeu a terceira bola e um carrinho que pegou os dois pés e o derrubou, o quadril batendo forte com o peso da barriga”. Conta que “o professor viu então que Mané envelheceu de repente, se contorcendo e segurando os pés, as mesmas rugas do riso, virando as rugas da dor”.

E conta ainda que um homem qualquer, presente ali, deu um pescoção no moleque, que tinha diminuído encolhido ali; mas Mané abriu os olhos e disse “não, não, é criança, é criança”.

Conta por fim, fim mesmo, que Mané saiu do jogo…

“Tudo é Deus, disse Mané. Vai para onde, perguntou o professor; e Mané só disse vou, vou, vou indo. Machucou? – perguntou uma mulher, e ele disse é, mas o time venceu, né, e continuou sorrindo e mancando pela rua. O professor foi atrás, insistiu, estava indo para onde? Chega, disse Mané, estou indo, e continuou sorrindo; e só bem depois, quando de repente Mané voltou a aparecer nos noticiários, todos dizendo como ele era bom, era o melhor, só então o professor soube para onde ele estava indo.”

PARA SABER MAIS:

Domingos Pellegrini nasceu Londrina (PR), em 23 de julho de 1949 e é jornalista e escritor. Entre as suas obras destacam-se Terra Vermelha, que conta a história da colonização do Paraná; O Caso da Chácara Chão e O Homem Vermelho, sendo que por estas duas últimas obras – um romance e um livro de contos, pela ordem – o autor foi premiado com o prêmio Jabuti de literatura, oferecido pela Câmara Brasileira do Livro nos anos de 2001 e 1977, respectivamente. Atualmente vive na sua cidade natal, Londrina, onde estudou Letras. Trabalha com jornalismo e publicidade. É autor de contos, poesias, e romances, entre os quais devem ser registrados, além dos títulos já citados: Questão de Honra (1999) e O Mestre e o Herói (2006). O conto de futebol, A última pelada de Mané, está publicado na coletânea 11 Histórias de futebol, reunião de contos integrante da Coleção Prosa Presente, da Editora Nova Alexandria, de São Paulo, que saiu em 2006.

 

 


A palavra e a bola ao revés

30/03/2015

Por Edônio Alves

 

Convido o internauta-leitor desse nosso blog a curtir, mais uma vez, as sutis relações que existem entre a literatura e o futebol, entre a bola e a palavra, entre o jogo e a arte de narrar.

No futebol, por exemplo, há jogadas que não culminaram em gol, mas que ficaram imortalizadas justamente por isso, por expressarem com um poder irônico e paradoxal, a sua falha fatal, a sua ontológica lacuna de irrealização final, a sua incompletude completa.

Exemplo eloquente do que falo é o famoso drible de Pelé no goleiro uruguaio Mazurkiewicz, na Copa do Mundo de 1970, quando ele finge que vai carregar a bola por um lado e a deixa passar por outro, enganando o adversário e a retomando por trás deste, com um arremate para o gol que não se realiza mas que, precisamente por isso, emprestou relevo ainda maior ao conjunto da obra que restou incompleta. É o antigol mais importante que o gol; o ato incompleto mais completo que existe; a falta denunciando o excesso.

Pois bem! Na literatura, há também fenômenos parecidos.

O conto que está analisado abaixo, de autoria do escritor Antonio Carlos Olivieri, é um desses casos.

Na minha interpretação do conto, tento mostrar como um tema em literatura pode ser tratado pelo seu contrário: um antitema, um assunto invertido em sua proposta paradoxal de abordar o oposto do que se propõe.

Que o leitor, então, possa perceber as relações sutis entre a palavra e a bola desde que bem jogadas, é claro. Boa leitura!

 ***

 Ripa na xulipa

 Antonio Carlos Olivieri

Um sujeito que odeia futebol, a expressão veemente dessa aversão e as estratégias pessoais desenvolvidas para sustentar, num país como o Brasil, essa pouco comum ojeriza ao jogo são o tema desta narrativa bem escrita que, por um agradável afeito paradoxal, encerra uma verdadeira declaração de amor ao esporte das multidões. Dessa vez não é a forma que se impõe como elemento de fatura textual para realçar o tema, mas, ao contrário; o inventivo recorte de um aspecto inusual do seu assunto é que se destaca neste conto como o verdadeiro tour de force da matéria fabular.

É o caso aqui da prática literária alimentar a crítica teórica, sobretudo no seu papel didático de explicitar, para o leitor, os elementos técnicos manejados pelo escritor quando da feitura de matéria ficcional em estórias curtas. Num texto crítico cuja função era apresentar um panorama da arte do conto praticada no Brasil até pelo menos meados da década de 1970, o professor Alfredo Bosi assim se expressa ao tratar dos diferentes aspectos levados em conta na sua possível e potencial forma de fabulação: “Da dupla operação de transcender e reapresentar os objetos, que é própria do signo, nasce o tema. O tema já é, assim, uma determinação do assunto e, como tal, poda-o e recorta-o, fazendo com que rebrote em forma nova”.[1]

Pois, enfatize-se, esse é justamente o caso deste conto de Antonio Carlos Olivieri: mais do que a forma ou a sua linguagem, o seu tema singularizante, incomum, retirado do assunto futebol, é que demarca a eficácia estética na sua leitura e apreensão. Não que as estratégias linguísticas utilizadas pelo autor não contribuam para isso, mas, sem querer teorizar, a operação textual que se impõe soberana aqui é a correta inserção do conteúdo na forma e não a da forma no conteúdo, como se verá.

A narrativa é levada a feito numa primeira pessoa por um narrador-protagonista que acorda atordoado e cheio de hematomas num hospital, sem saber o que lhe havia ocorrido e nem por que estava ali. Esse primeiro segmento do texto serve de estratégia para que ele introduza o assunto futebol na sua história depois que um aparelho de televisão é ligado no ambiente em que estava por uma enfermeira que prontamente se ausenta: “Ironicamente, as respostas vieram de um comercial da Fiat na TV, estrelado por Sebastião Lazaroni. Quando terminou, me lembrei de tudo…”, diz.

A seguir, o personagem-narrador dá uma inflexão inesperada no tema (como se fosse um drible no leitor) e apresenta a sua relação com o futebol: “Detesto futebol. Tenho pavor, aversão, raiva, desprezo e a mais veemente ojeriza. Distribuo a culpa desse ódio visceral entre a época e o país onde nasci, entre mim mesmo e meu pai, nessa ordem (para descrédito dos freudianos)”, argumenta ao observar que só quem não nascera ou crescera no Brasil, nas décadas de 60 e 70, é que talvez consiga entender o que ele está falando. Salienta que naquele tempo, muito mais do que uma paixão popular, o futebol era mesmo uma espécie de religião nacional a qual deviam imperiosamente devoção todos os brasileiros do sexo masculino. “Escusado dizer que quem não agisse do modo desejado pelos sacerdotes do fundamentalismo futebolístico era logo diagnosticado de retardamento mental ou pederasta”, assinala.

A explicitação da sua situação de relação com o jogo da bola é arrematada com uma argumentação de caráter digamos técnico porque, segundo ele, a sua incompatibilidade com o futebol não se sustentava numa pretensão qualquer de questionar a legitimidade do culto à bola e ao gramado. “Longe de mim tal heresia! Tratava-se tão-somente de minha incapacidade de transferir aos pés as habilidades das mãos, de modo a conduzir a pelota em qualquer direção, de fazê-la ganhar vida, loquacidade e esperteza, ou simplesmente de passá-la adiante a um companheiro mais hábil”.

A intenção de inflexionar ainda mais o tema é intensificada com a revelação de que, ao contrário, ao invés do pendor pelo futebol, o que o fazia extrair verdadeiros deleites estéticos era o seu gosto por filmes de terror. “É claro que esses pendores góticos se manifestavam para o mais profundo desgosto do meu pai, atleta na juventude, freqüentador habitual de estádios e corintiano roxo. Não foram poucas vezes que eu flagrei atrás das portas, comentando com a minha mãe em surdina:

– Tem alguma coisa errada com esse menino, Lenora…

Como o pai achasse que tinha mesmo, agora o personagem-narrador passa a contar uns detalhes da sua história que caberiam perfeitamente na estrutura de um romance de formação. “Meu velho era um homem de boa vontade e acreditava que existia solução para qualquer problema. Sem hesitar, resolveu assumir o papel de pai-educador. Começou tentando me ensinar a fazer embaixadas.”

Mas a estratégia paterna não logrou efeito, o que forçou uma mudança imediata de método: “Se eu era incapaz de jogá-lo, isso não significava que não poderia assisti-lo e me tornar, pelo menos, um bom torcedor”. Aqui o personagem protagonista da história desfila para o leitor as duras provações a que foi submetido nesta fase de aprendizagem e de ritual de entrada forçada no mundo do futebol. Fala que dos 9 aos 16 anos foi obrigado a acompanhar o pai a tudo que é estádio: Morumbi, Pacaembu, Canindé, Parque Antarctica, etc. E mais: como o pai encarasse a coisa como uma missão pedagógica, ele era obrigado a ver de tudo quanto era partida pelo seu Estado à fora. Portuguesa Santista x Quinze Piracicaba, Ponte Preta x Guarani, Paulista de Jundiaí x Brangantino. “Credo”, exclama sonoramente o narrador.

Entretanto, eis que inventa uma contra-estratégia para enfrentar a situação pelo seu ponto de vista. “Levava no bolso do casaco gibis ou até mesmo livros e – enquanto o meu pai se deixava hipnotizar pelos chutes – eu me dedicava às paixões: Drácula, a Múmia, o Lobisomem… (…) Desse modo, li uma edição de bolso de Edgar Allan Poe, entre um São Paulo x Palmeiras, um Santos x Fluminense, um Corintians x Flamengo. Até que meu pai descobriu o expediente e – desesperado – resolveu me decretar um caso perdido. Se não fosse pela insistência de mamãe, acho que ele teria me deserdado”.

Agora, os dois momentos seguintes da narrativa – aqueles que servem para consolidar na mente do leitor a relação conflitante do personagem com o mundo do futebol, e, com isso, preparar o seu desfecho por meio de um flash back extremamente comum mas ainda muito funcional -, revelam um narrador bastante atento com o rendimento técnico da simetria fundo e forma; ou conteúdo e forma do conteúdo, para dizer melhor o recurso de se adequar, num texto de ficção, a relação do seu motivo com a maneira coerente de narrá-lo.

O recurso é conseguido aqui através do bom manejo do tempo narrativo em que os períodos de realização de copas do mundo servem de pretexto para a explicitação da historicidade das peripécias ativadas pelo personagem que detestava futebol. “A concretização dos meus mais temidos pesadelos acontecia de quatro em quatro anos, com a realização da Copa do Mundo – o que tornava o futebol onipresente. (…) Ainda por cima, a programação da tevê era completamente alterada, girando em exclusiva razão do calendário esportivo”.

O trecho abaixo, um tanto longo, é verdade, será citado aqui por causa da sua importância para o entendimento, por parte do leitor, das razões que levam o personagem-narrador a enfrentar as suas agonias com a perdição de por em prática uma idéia cujas conseqüências o levam finalmente ao hospital onde se encontrava no início da sua história e que, tecnicamente, é também o seu fim. Essa sua trajetória, já se disse, é pontuada pela passagem das copas do mundo, uma por uma, até a do ano de 1990 que liga os fatos narrados ao ocorrido com o nosso narrador.

O clima de histeria coletiva arrastava todo o resto da vida. O Brasil inteiro enlouquecia. (…) Resumidamente, as possibilidades de reação das massas eram as que seguem:

  • Em caso de derrota do Brasil numa semifinal (antes disso era impensável e praticamente impossível), a Copa era rapidamente esquecida, após uma semana de acusações ao técnico, ao treinador, aos cartolas, aos jogadores e ao massagista;
  • Se a derrota viesse na final, havia duas alternativas: a) luto de três dias, seguido de amnésia aguda, e b) breve comemoração por termos sido não vice-campeões, mas campeões morais, seja lá o que isso signifique;
  • Vitória e subseqüente apoteose, como pude lamentavelmente constatar no fatídico ano de 1970.

A história agora caminha para o seu final, não sem antes, porém, contudo, todavia (o exagero retórico é nosso), o personagem-narrador narrar um por um, copa a copa, os fatos que encaminharam a sua perdição:

Copa de 1974.

Ano que começou bem, pois em janeiro arranjou sua primeira namorada, o que deixou um marmanjo de sua classe morrendo de inveja. “Como um cara como eu – que nem jogava futebol – podia marcar esse gol de placa no campo afetivo?”. Foi em 1974 também que arranjou uma justificativa filosófica para a sua aversão ao futebol. Aquele esporte, segundo suas considerações, agora apoiadas nas idéias de Karl Marx, não passava de um meio de alienação das massas, o ópio do povo, como se dizia então, em plena ditadura militar. “Passei a olhar os meus semelhantes com a superioridade moral dos intelectuais de esquerda e me lixei para a copa do mundo”, afirma, com desdém.

“Copa de 1978.

Foi durante esta copa, realizada ainda em meio à ditadura militar, que o nosso personagem fez uma descoberta sensacional. “Mas como não havia meios de me refugiar deles, percebi que podia usufruir de um extasiante prazer íntimo em torcer contra a Seleção Brasileira”.

“Copa de 1982.

Assim as coisas iam quando neste ano o Brasil montou um dos melhores times de sua história e a situação voltou a ficar ruim para o nosso anti-torcedor. A Seleção não decepcionou fazendo uma campanha triunfante. Venceu a Rússia, a Escócia, a Argentina e bastaria empatar com a fraquíssima esquadra italiana para o Brasil chegar às semifinais. Aí, as coisas deram uma reviravolta. “(…) Como diz o povo, o futebol é uma caixinha de surpresas. O artilheiro Paolo Rossi atendeu às minhas preces. Não pude deixar de comemorar seu vitorioso golaço, o terceiro da partida, gritando:

– Forza, Azurra!!!

            Apoplético, meu pai quebrou a bengala na minha cabeça e me botou para fora de casa”.

Copa de 1986.

Esse mundial, apesar de não ter tido importância nenhuma para o nosso personagem central, foi, contudo, a Copa em que aconteceu um fato decisivo para essa sua história.

Foi o mundial em que surgiu para o mundo a figura de um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos e isso não lhe passou incólume: “(…) pela primeira vez na vida um jogador de futebol conquistou a minha afeição e simpatia”, registra para em seguida lembrar feliz, que Diego Maradona, o chamado Pibe de Oro, era também um craque na trapaça e no cinismo. “Depois de um gol com a mão sobre a Inglaterra (de que só o juiz não enxergou a invalidade), Dieguito ainda brindou o público com essa pérola do descaramento:

– El gol fue de cabeza, La mano que se vio… era de Dios!”

Finalmente, chega a Copa de 1990. E, com ela, a execução de seu plano mirabolante para torcer contra o Brasil, que é, no sentido trágico da expressão, o ápice dessa sua história.. “Pela primeira vez na vida, esperei ansiosamente a realização de um novo campeonato mundial de futebol. Quem me conhecia e me via prestar atenção nos jogos do Brasil nas eliminatórias, não conseguia entender o que estava acontecendo. Minhas verdadeiras intenções, para lá de maquiavélicas, não podia revelar sequer para Maria Emília – a mulher com quem eu ia me casar em breve”.

E como esse segredo fosse tamanho, não vamos contá-lo aqui para o leitor, que deve procurar ler o conto na íntegra e conferir a habilidade de um escritor em tornar instigante, novo, um assunto que parece velho. Tudo isso, por causa de uma pequena inflexão no tema, apenas, que redimensiona o assunto; que redimensiona tudo.

ANTONIO CARLOS OLIVIERI

Nasceu no Rio de Janeiro, em 1957, e radicou-se em São Paulo ainda criança. Formado em Letras, foi professor e em seguida dedicou-se ao jornalismo. Atualmente presta serviços editoriais e faz assessoria de imprensa. Lançou seu primeiro livro juvenil em 1987 e, desde então, já publicou, entre outras, as seguintes obras: O renascimento. São Paulo, Ática, 1987. – A pré-história. São Paulo, Ática, 1988. – Uiramirim contra os piratas. São Paulo, Atual, 1989. – Independência dos Estados Unidos. São Paulo, Ática, 1990. – Uiramirim contra os demônios da floresta. São Paulo, Atual, 1992. – Perdidos no tempo. São Paulo, Atual, 1997. – Um bom sujeito. Belo Horizonte, Formato, 1997. – A carta de achamento do Brasil. São Paulo, Callis, 1999. – D. Pedro II, imperador do Brasil. São Paulo, Callis, 1999 e Cronistas do descobrimento. São Paulo, Ática, 1999. Essa sua história curta de futebol, Ripa na xulipa, foi publicada em 11 Histórias de futebol, coletânea de contos integrante da Coleção Prosa Presente, da Editora Nova Alexandria, São Paulo: 2006.

[1] Cf. “Situação e formas do conto brasileiro contemporâneo”. In: BOSI, Alfredo (Org). O conto brasileiro contemporâneo. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 7-22.