LITERATURA TEM COR, CHEIRO E SENTIDO: o futebol como matéria

07/03/2022

Por Edônio Alves

Temos contribuído, nesse blog, com análises de obras literárias (aqui, no recorte do gênero conto de ficção) que tematizam o jogo de futebol nos seus mais diferentes aspectos, propósitos e ângulos de abordagem.

A ideia é dar ao internauta-leitor um panorama representativo do quanto a literatura brasileira já tomou esse jogo como tema, em suas diferentes realizações estéticas autorais. Segue aí, dentro desse escopo de visão crítica da questão – ao mesmo tempo historiográfica e analítica- mais uma análise de um conto extraordinário do escritor Lourenço Cazzaré, que toma o futebol como texto e pretexto para discutir o sempre complexo imbróglio sociológico (com o approach racial) da inserção do negro em nossa constituição como povo, como sociedade e como nação. Uma verdadeira jogada de mestre da literatura. Leiamos!

Meia encarnada dura de sangue

      Lourenço Cazarré

Bem escrita, densa até, na sua plasticidade expressiva, o que talvez tenha pesado na sua transformação, pela Rede Globo de Televisão, num dos episódios de teledramaturgia exibidos para todo o País em 2001, esta narrativa traz como tema central a custosa e difícil inserção para esta etnia do elemento negro da nossa formação social no início da profissionalização do futebol no Brasil. E, paralelamente, mostra a bravura e o talento de um dos seus representantes mais singulares no ambiente de geografia humana em que se passa a história: o Rio Grande do Sul de ethos viril e personagens fundadores.

O entrecho da narrativa é simples, mas bem construído para dar conta do seu objetivo. Trata-se do velho recurso da estória dentro da estória em que um narrador serve-se de outro mais experiente – no texto, o seu avô; portanto a experiência aqui está no sentido benjaminiano – de quem se acostumou a ouvir “mitos, lendas, lérias e leréias” (Ivan Ângelo, p. 42) e, através dele, repassá-las adiante de modo que reste como efeito geral o argumento da história com H maiúsculo nas entrelinhas da estória com E minúsculo, mas de significado imenso.

“Pois este meu avô ­- disse o poeta – dava um dedo por um pouco de prosa. Parece que estou a vê-lo, pequeno, não media mais de um metro e meio, sentado em frente à sua casa – ali no Corredor das Tropas, rua que descia da igrejinha velha de Nossa Senhora da Luz -, cuia de chimarrão na mão esquerda, chaleira tisnada na direita, catando entre os passantes apressados do fim de tarde alguém que quisesse jogar fora um pouco de conversa”.

Assim, destarte, é apresentado ao leitor, o narrador da história que ele (ainda o narrador) vai “ouvir” do poeta, que, por sua vez, ouve deste outro (o seu avô) e conta a mais este outro, enfim; o narrador em terceira pessoa que finalmente nos conta tudo.

Tudo que diz respeito a tudo porque esse velho narrador (o avô da história) costumava narrar sobre tudo: “Tinha uma história para cada assunto, muitas pra vários assuntos: creio que o amor e a morte eram seus temas preferidos, e também as catástrofes inexplicáveis desencadeadas por forças desconhecidas, e honra, dignidade, hombridade, lealdade e amizade, os valores que, dizia ele, estavam desaparecendo de nossa cidade, e de resto, do mundo”.

Mas, então…, numa dessas tardes, por volta da década de trinta, diz ainda o narrador, falavam de futebol. E é aí que entra a figura de um certo personagem da história, um tal crioulo, “uma espécie de primeiro profissional da cidade”, que é apresentado ao público leitor com todos seus atributos pessoais e circunstâncias contra e a favor, principalmente contra; mais contra do que a favor, ressalte-se a bem julgar.

“Pois o crioulo jogava pelo Grêmio Esportivo Brasil, o time dos negros e mulatos. (…) Aos dezenove-vinte anos, era o maior driblador e fazedor de golos da época. Nem alto nem baixo, era magro como a peste e leve como a brisa e dançarino como as borboletas. E frio. Jogava de olhos abertos, cabeça erguida. Calculista, ele não só queria fazer o golo, gostava de ver o goleiro esmurrar a grama. Jogava rindo. (…) Ele ria daquele jeito só pra enfurecer os adversários, pra fazê-los perder a cabeça e começarem a querer matá-lo.” 

Entretanto, para tecer os elementos contrastivos da história e realçar a bravura e valor desse personagem no contexto em questão, o narrador literalmente adverte que só era assim dentro do campo, o mulato; implacável. “(…) Fora era outra coisa. Um rapaz gentil, tímido, de fala mansa, silencioso, cerimonioso. Saía do campo de cabeça baixa, como que pedindo desculpas por jogar tanta bola”.

Em seguida é arrematado o seu esboço socioeconômico e cultural com a descrição da sua condição de vida, a profissão que exercia e o que vai ligá-lo aquele contexto pré-profissional do mundo do futebol. Se o homem é ele e a sua circunstância, como nos afiança o filósofo espanhol Ortega Y Gasset*, a passagem, no texto, tem a função de revelar, do ponto de vista da sua eficácia narrativa, o detalhe específico sobre o qual vai recair toda a carga dramática do conto. É-nos é informado, por exemplo, que o tal crioulo trabalhava num matadouro.

“Era tão hábil com a faca quanto com a bola, dizia o meu avô. O negócio dele era a desossa. Desmanchava um boi em questão de minutos. E não deixava um só fiapo de carne nos ossos. Com a mesma precisão com que escapava dos coices do adversário, recuando o corpo apenas os milímetros necessários, ele destrinchava os animais”, afirma o narrador para, contudo, observar peremptório: “Aos domingos, brilhava nos campos”.

A partir de agora, dado o encaminhamento acima antevisto, as atenções da narrativa concentram-se, no seu essencial, nas ações e reações da inserção do personagem principal no universo da magia hipnótica da bola tocada de pé em pé*. (Ivan, p. 39). Por isso é que é explicada, como dupla justificativa para fazer um contraponto do trânsito de tal figura negra para o espaço social dos brancos, a razão puramente intrínseca ao futebol da questão do talento do negro para este esporte. “Depois de perder quatro dos cinco jogos, de enfiada, os dirigentes do Esporte Clube Pelotas começaram a se perguntar se não estariam fazendo uma grande asneira em não aceitar jogadores negros ou mulatos”.

Em nível de representação literária, todavia, um estratagema narrativo é aqui utilizado para dar a conhecer ao leitor o julgamento do tempo sobre essa questão. Assim, o narrador avô, contemporâneo dos fatos narrados, é requisitado ao texto para proferir seu paracer: “E meu avô dizia: está certo que esses negros são uns mandriões, e conheci não mais de sete que gostavam de trabalhar, mas o certo é que nas safadezas, coisas como serenatas e jogos de bola, eles são bons”.

Está aí com todas as letras da estória, o dilema colocado para os negros que há época desejavam tomar parte num esporte controlado pelos brancos, para o qual tinham talento e desenvoltura, mas cuja inserção, numa sociedade profundamente marcada pela divisão racial no trabalho (resquício do escravismo recente), poderia significar uma realização de efeitos duplos e contrários entre si: a possibilidade relativa da ascensão pessoal do indivíduo no plano econômico, mas à custa da adesão a valores não seus, no mundo social de então. O que, em termos muito claros, para criar um trocadilho de efeito, significava a traição aos seus companheiros de raça e de classe social.

Pois é isso que vai sustentar o melhor deste conto de Lourenço Cazarré. Isto é: a dramatização literária da dubiedade dessa situação onde o que deveria ser valorizado no negro (sua aptidão artística para a música e para a atividade lúdica: os jogos de bola, por exemplo) só o é na medida em que isso continua a servir ao branco como fator de distinção e hegemonia de classe (a superioridade também no futebol), e não como vetor de integração da heterogeneidade social em formação. Daí as qualidades dos negros serem tratadas, em termos de sua representação ideológica no âmbito da narrativa, de “safadezas, coisa como serenatas e jogos de bola”.

Todo o efeito de sentido da narrativa, portanto, se concentrará agora nessa situação do personagem. A cooptação e assédio que passa a sofrer para jogar no time dos brancos: “Um dos diretores do Pelotas, da família Almeida Guimarães, um cara que tinha tantos contos de réis quanto milhos numa espiga disse mais: que cederia ao tal crioulo uma casa velha que tinha lá pros lados da Cerquinha. Se aceitasse, podia morar lá de graça, enquanto servisse ao time”.

Não é necessário dizer – embora o narrador diga de forma elegante e comovente – o quanto perturbou o tal crioulo essa proposta. Para encurtar aqui a agonia do personagem, revele-se que, por fim, ele a aceitou, embora seja lembrado o leitor que ele tenha demorado muito pra aceitar. 

(…) Por uma mulher, decidiu-se.

(…) Disse que sim ao terceiro emissário.

(…) Faltava apenas uma semana pro jogo.

Com essas intervenções cirúrgicas, pontuais, o narrador resume a motivação, o tempo de maturação e a circunstância da decisão que vai ensejar o ápice dramático da história do seu personagem que não teve mais paz. E que, talvez justamente por causa disso, entra numa outra e maior agonia. “O jogo seria no domingo”, lembra outra vez, cirurgicamente, o narrador.

E lembra também que o acidente deu-se no final da manhã de sábado, após o expediente. Uma lágrima teria causado o acidente…! Uma lágrima que lhe sujou o olho.  “O mulato estava desossando uma carcaça no chão, como gostava de fazer, sobre a laje ensangüentada. Usava não só as mãos, mas também os pés descalços, pra firmar a ossamenta. Então a faca escapou e ele não sentiu nada além de uma pequena ardência, quase uma cócega, na parte de dentro do pé esquerdo”.

O que se segue são trechos da mais comovente bravura já incorporados ao rol de cenas similares em toda a literatura brasileira e não apenas na que tem como tema especificamente o futebol, o jogo dos pés.

“A faca correra ao longo de todo o seu pé, do dedão ao calcanhar, abrindo um talho fundo, de vinte centímetros de comprimento.”

“No primeiro instante ele até achou que tinha sido pouca coisa. Então o sangue começou a manar, denso, grosso, vermelho”.

Deixe-se o resto dessas páginas para o leitor folhear de tanto que elas trazem de lição de valentia e registre-se que o nosso crioulo foi assim mesmo para o jogo defender o time dos brancos. Situação que não o poupou de duros constrangimentos, perda da sua paz interior, como já se disse, mas que enfrentou com talento e brio de macho porque “meu tio dizia que no seu tempo, sim, aquilo era um esporte pra homens, porque os juízes só maçavam falta se o agredido sangrasse, e só expulsavam o agressor quando o outro ficava estirado sobre o barro, desmaiado”.

Contudo, a violência moral era a que mais o atingia “por causa dos risinhos e das piadas e das ofensas pesadas dos colegas de matadouro, mulatos e negros como ele”. Esse era o desprezo que lhe interessava, que lhe dizia respeito, adverte o narrador para logo lembrar que o jogo seria no domingo.

Pois lá vai o nosso personagem negro defender o Esporte Clube Pelotas, “o time dos almofadinas da Avenida” enfiando “a camiseta azul e amarela que se acostumara, desde menino, a repudiar”. Entrou em campo escondendo aquele profundo talho que varava seu pé de ponta a ponta, a que dera um jeito costurando-o com uma tripa seca de boi e escondendo tudo sobre o meião de jogo.

Sabe-se como é, né? Queria ter uma casa e uma vida como qualquer outro. Assinala o narrador que ele até “sonhou, com misto de orgulho e desvanecimento de proprietário, que passava as trancas nas portas e se deitava ao lado da mulher, e que adormecia, como um homem comum”.

Retomemos a narrativa dentro da narrativa para mostrar a habilidade do escritor Lourenço Cazarré, no campo do texto, acompanhando com similitude a habilidade do seu personagem, no campo do jogo, e concluamos tudo ao louvar, com esse último trecho citado – que, frize-se, não encerra a  história -, mais esse belo tento da literatura brasileira que faz do futebol um bom motivo para por em discussão os problemas e desafios que, na sua busca de identidade e caracterização, tem enfrentado o homem brasileiro ao curso de seu tempo.

“Que mais posso lhe dizer, meu amigo? Perguntava o meu avô nesse ponto da narrativa. Pouca coisa, respondia. Só que o mulato fez uma festa. Marcou três. E olha que os caras bateram nele! Saiu com os olhos escondidos debaixo de inchações e com um talho no supercílio. Apanhou muito dos seus antigos companheiros, mas em momento algum pediu pra sair, como fazem esses frescos hoje em dia. Foi até o apito final esbanjando categoria. Parecia um toureiro se esquivando daqueles animais furiosos. E dava chapéu neles, bola pelo meio das pernas então era mato. E os caras chutavam não a bola, ele, e ele só dava de banda, e a chuteira passava. Três gols, sabe o que é isso?

Foi o último a deixar os vestiários porque não queria que vissem a meia empapada de sangue. Naqueles tempos eles próprios tinham que arranjar quem lavasse o fardamento. Saiu, sem que ninguém, além do engraxate, tivesse descoberto o seu segredo”. 

PARA SABER MAIS:

Lourenço Cazarré, o autor da história acima, nasceu em Pelotas (RS) em 29 de julho de 1953. Desde 1981, ano em que saiu seu primeiro livro, Agosto, sexta-feira, treze, este escritor e jornalista gaúcho já teve mais de duas dezenas de obras publicadas. Grande contista brasileiro, conquistou o Prêmio Açorianos de Literatura, na categoria Contos, em 2002, com Ilhados. Esteve presente por duas vezes na Bienal Nestlé de Literatura, em 1982 e 1984; no Prêmio Jabuti, em 1999 e em mais de uma dezena de outros concursos. Sua novela, O mistério da obra-prima, foi traduzida para o espanhol e editada pela Fondo de Cultura Económica, do México. Entre sua obra infanto-juvenuil destacam-se os livros, Clube dos leitores e histórias tristes, A cidade dos ratos: uma ópera-roque, Quem matou o mestre de matemática? e Nadando contra a morte, que levou o Prêmio Jabuti de 1999. O conto, O homem vestido de negro, foi publicada na coletânea, 11 Histórias de futebol, integrante da Coleção Prosa Presente, da Editora Nova Alexandria, de São Paulo, que saiu em 2006.


REMEMORANDO A MEMÓRIA: o futebol como motivo

08/11/2021

Por Edônio Alves

Já afirmei em outro texto meu, aqui no BLOG, que ao estudar bastante a presença do futebol na literatura brasileira em suas mais diferentes formas, pude comprovar, ao menos analiticamente, uma alvissareira constatação: a clara impressão de que, talvez motivada pela centralidade do tema do futebol na nossa cultura, a literatura brasileira já elaborou um conjunto de operações modelizantes, através da contribuição conjunta, sucessiva e pessoal dos seus mais distintos escritores, com as quais construiu um tipo específico de peça literária: o conto brasileiro de futebol.

Nesse contexto, um dos assuntos mais pautados pelos escritores brasileiros que escreveram sobre futebol no gênero conto está a derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950 em pleno estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. Pelo trauma que o fato causou na memória emocional brasileira, o chamado “maracanazzo” tem mobilizado a inteligência narrativa de vários de nossos escritores tornando-se, assim, um assunto típico do conto futebolístico brasileiro.

Nessa rubrica, se inscreve, por exemplo, esse conto que segue aí analisado, composto pelo escritor Hélio Pólvora, a comprovar uma dimensão – e certa tradição – da literatura brasileira que se debruça sobre nossa memória cultural com suas tragédias, glórias e fracassos, incluindo-se aí, o futebol como tema.

O gol de Gighia

Hélio Pólvora

Esse conto que narra as impressões subjetivas de uma criança respingando na sua memória de adulto sobre um fato datado e especialmente trágico para o inconsciente emocional brasileiro: 16 de junho de 1950, dia da derrota para o Uruguai no Maracanã, na Copa de 50, momento em que, contra todas as evidências de sua superioridade técnica, a Seleção Brasileira deixa escapar a oportunidade objetiva de ganhar o seu primeiro título mundial de futebol. E bem na cara da gente, à frente do nosso nariz, sob o testemunho ocular de mais de duzentos mil brasileiros presentes ao jogo final.

Talvez justamente por isso, por glosar ficcionalmente um fato de repercussão traumática para alma individual do personagem-narrador, mas também coletiva do brasileiro em geral, amante ou simplesmente admirador do futebol, esse texto seja carregado de um certo travo de fundo psicológico que convoca o leitor a experimentar aquele clima de ressaca típico das situações concretas de perda material ou simbólica.

Esse intento de efeito dramático é buscado logo no início da estória quando o narrador explora uma atmosfera onírica em que seu personagem acorda de um sonho colorido e alvissareiro em plena manhã da final da Copa, depois de observar que há tempos não tinha um sonho assim. “Afinal, um sonho feliz. Leve ele se sente, e diáfano, naquele 16 de junho”. A estratégia narrativa segue com a descrição adequadamente poética daquele ainda promissor dia do mês de junho: “Dia bonito, aquele, com sol bem brasileiro: forte, claro, luminoso. Um facho, um farol, um fanal”. Afinal, para continuar a melodia marcadamente rítmica desse trecho do texto, nas palavras do próprio narrador, “o feio e o bonito, a salvação e as trevas dos infernos, o brilho e o opaco dependem muito do grau de delírio de cada um. Assim é, se nos parece, e como parece”.

Como no Brasil o futebol também encerra uma espécie de delírio coletivo, o trecho acima, o leitor já terá percebido, é claro e direto na sua meta de ir criando um clima de transição entre o otimismo das expectativas mais profundas do subjetivismo onírico do personagem que “se não o prendem ao chão, seguramente sobe aos espaços, adentra gramados interestelares para, quem sabe?, trocar passes com o príncipe Danilo”, etc..etc..etc;  e os dados da realidade concreta do jogo, que o narrador faz ir surgindo aos poucos, em meio a múltiplas digressões de caráter intimista sobre o seu personagem; bem como da realidade exterior que o cerca naquele certo dia.

Entretecendo tudo isso, é bom que se note, um fato textual bastante eficaz para dar suporte ao objetivo do escritor Hélio Pólvora, neste conto da bola, de articular as instâncias do imaginário e do real na captação das emoções hauridas do universo do futebol, principalmente num momento tão capital como esse de uma final de Copa do Mundo: a presença fundamental do rádio como veículo-ponte entre a realidade (reduto da razão) e a imaginação (reduto da emoção) do personagem.

“Sem a sintonia do rádio, a sintonia do espírito poderá esvair-se como sangue de veias abertas. (…) Fixa-se no rádio sobre a cristaleira. Concentrados estariam, com os pensamentos voltados para o triunfo acachapante, por goleada, os príncipes negros, mulatos e brancos, que arrastariam no gramado do Maracanã o manto de veludo e arminho de sua magia com a bola nos pés. Brasil, campeão do mundo”.

Observe-se que a representação do rádio nesta narrativa vai além do exigido pela sua representatividade reconhecida dentro da própria história do futebol da qual este veículo faz parte como um elemento estruturador e estruturante. Ele tem aqui uma fundamental importância funcional na própria caracterização do modo de ser do personagem principal, na sua transição existencial de menino para adulto. Veja-se esse exemplo:

“Palavras e músicas transmitidas pelo velho rádio, em sussurros e cicios, davam um sentido, ainda que tênue e vago, ao desespero de dias e noites vazias, de infância que se esvai, mas reluta em entrar na vida adulta porque pressente que se vai enlamear”.

Ou este outro, que liga o mundo subjetivo do personagem, o seu mundo interior de cuja formulação já participou, ao mundo real e presente daquele dia 16 de junho: “Difícil acreditar que mecanismos minúsculos nele embutidos filtrem música, teatro ligeiro, canto e, naquele domingo, a narração de Oduvaldo Cozzi ou, se preferir, a gaita de Ari Barroso. Difícil crer que tão simples e banal aparelho, atacado certos dias por uma cascata de pigarros, tosse convulsiva e estalidos, seja o seu portal para o estádio do Maracanã superlotado”.

O rádio era mesmo esse relatado portal na década de cinqüenta. Por ele é que se enxergava mesmo o mundo real através da sua dimensão imaginária. Por isso é que o personagem-narrador tem nele o instrumento condutor de suas angústias daquele dia. Armado dele é que vai enfrentar a ansiedade dolorosa que aqueles acontecimentos tornam inevitáveis: “(…) Come pouco, a mãe estranha. Ora, quem vai entrar em campo para enfrentar o Uruguai de Obdulio Varela, El gran captán, o Uruguai de Máspoli e Mathias Gonzáles, de Schiaffino, Julio Perez e Gighia, pede refeição leve. Está em jogo a Copa Jules Rimet, o cetro máximo do futebol mundial. A felicidade enganadora das ruas”, diz o narrador, misturando seu personagem ficcional aos personagens reais daquela narrativa futebolística de caráter ainda épico e depois, dramático, que se desenrolaria daí a pouco.

Aqui, o personagem-narrador literalmente entra em campo para “enfrentar o Uruguai” e o resto da narrativa segue por conta do rádio, através do “bordado literário de Oduvaldo Cozzi” que “esgarça-se na chiadeira de panela de pressão”.

Numa atitude narrativa de invenção e perspicácia, o narrador do texto cede a palavra ao narrador do rádio para que seu personagem continue sua estória tecida pelos fios da lembrança. Lembrança dramática e dolorida porque àquela altura do campeonato a partida estava empatada e só o que ouve são os ecos insistentes daquela frase famosa:  “- No passarán!”, proferidos pelos uruguaios, na voz profética de La Pasionaria”.

O jogo de futebol e o da narrativa descem ao seu final em ritmo de uma agonia que a memória sofregamente recupera para o leitor:

“A tarde suspensa estagnada aguarda o berro do desempate. Bigode, Bigode, eu te reconheço. Quem te mandou esquecer os carrinhos de half-back da várzea? Foi o técnicos Flávio Costa? Ficas a ciscar na lateral esquerda, em torno de Gighia, olha que o tempo passa, Gighia é rápido, vai levando, avança pelo flanco direito, abre-se ali um corredor, de repente Gighia finge que vai cruzar para Schiaffino ou Miguez, ou então passar a redonda a Julio Perez, mas resolve chutar, o chute sai rasteiro, aflorando o gramado, entra no canto esquerdo de Barbosa, Uruguai 2 a 1.”

Pronto: a hybris dos gregos se instalou aí nesse fato comum de um jogo de futebol, o gol. Entretanto, devido às circunstâncias em volta, a situação de cúmulo da expectativa dos brasileiros em ganhar a partida, coisa tão óbvia que o destino, relapso, esqueceu de consignar, a coisa se inverte e o que se deu… o que se deu… o que se deu… só a memória mítica do futebol brasileiro sabe.

Pela força da magia da comunicação estética, aqui representada pela boa linguagem literária, esta narrativa de Hélio Pólvora é uma oportuna maneira de se experimentar tudo, outra vez! Ou de se exorcizar tudo outra vez. Talvez!

SOBRE O AUTOR:

Hélio Pólvora de Almeida nasceu numa fazenda de cacau, no município de Itabuna, Bahia, em 2 de outubro de 1928. Passou 32 anos no Rio de Janeiro e reside em Salvador desde 1990. Atuou em vários veículos importantes de comunicação, entre eles, Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Diário de Notícias, Diário Carioca, Correio Braziliense e revista Veja. É contista, crítico literário, cronista e tradutor. Sua estréia literária deu-se em 1958, com Os Galos da Aurora, publicado com o selo da Civilização Brasileira; seguiram-se, a partir daí, cerca de 25 títulos. Conquistou importantes prêmios literários, entre os quais os da Bienal Nestlé de Literatura, anos 1982 e 1986, primeiro lugar, gênero conto, e mais os prêmios da Fundação Castro Maya, para o livro Estranhos e Assustados, e Jornal do Commercio, para Os Galos da Aurora. A história curta, O gol de Gighia, está publicado na coletânea, Contos brasileiros de futebol, organizada em 2005 por Cyro de Matos, sob os auspícios da Editora LGE, de Brasília.


JOSÉ LINS DO REGO, O MODERNISMO E SUA PAIXÃO PELO FUTEBOL

01/02/2021

Por Edônio Alves Nascimento*

Discípulo do sociólogo Gilberto Freyre (em termos ideológicos e estéticos), José Lins do Rego, na condição de um escritor tipicamente modernista (e moderno) tem como característica de sua obra – entre tantos outros traços de sua escrita magnífica e panorâmica – dar continuidade ao trabalho do escritor pernambucano no tratamento exploratório do futebol brasileiro em literatura; algo não muito explorado pela fortuna crítica que se debruçou sobre as facetas múltiplas de sua obra e algo de que vou tratar aqui.

Tem, portanto, esse texto, a pretensão dupla de informar ao leitor (em poucas pinceladas, reconheço; dado as restrições de espaço) sobre a paixão pessoal que esse grande escritor paraibano tinha pelo futebol e como o tema desse esporte se incrustou em sua literatura a ponto de revelar um traço estilístico peculiar da sua escrita vasta e multifacetada.

Considerado por boa parte da crítica literária brasileira como um “estilista” original (algo discutível do ponto de vista da crítica estética), José Lins do Rego tomou contato com o movimento modernista de 1922, através de conversas com Graciliano Ramos, Jorge de Lima e Raquel de Queirós, quando morou em Maceió. A princípio reticente quanto ao Modernismo, por influência do amigo Gilberto Freyre, que pregava um “regionalismo tradicionalista”, o escritor acaba por fim se incorporando ao grupo que consolidaria o chamado Romance do Nordeste, dando uma feição mais social e política à abordagem regional da sua literatura.

Romancista de uma obra ampla e orgânica quanto à interligação temática e propositiva de sua cosmovisão de trabalho, distribuída e conscientemente organizada em cada obra individual, perfazendo no todo um conjunto representativo das questões que elegeu como núcleo de suas preocupações com os problemas brasileiros – o ethos social regionalista em destaque –, o próprio autor destacou como desejaria que a sua obra ficcional fosse dividida. O ciclo da cana-de-açúcar, com Menino de engenho (1932); Doidinho (1933); Bangüê (1934); Fogo morto (1943) e Usina (1936). O ciclo do cangaço, misticismo e seca, com Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953). As obras independentes: a) com ligações nos dois ciclos, O moleque Ricardo (1935), Pureza (1937) e Riacho doce (1939), e, b) desligadas dos ciclos: Água-mãe (1941) e Eurídice (1947).

A este conjunto de natureza romanesca, junte-se esse outro, que segundo o poeta alagoano, Ledo Ivo, “comprovam que o grande romancista brasileiro não possuía apenas uma admirável natureza criadora”, mas também dispunha de “uma natureza ensaística” com a qual é possível aquilatar, pela vasta abrangência de suas intervenções como homem de letras, o interesse do autor pelos problemas da expressão literária, bem como suas preocupações com os destinos do homem e da sociedade: Gordos e magros (1942); Poesia e vida (1945); Homem, seres e coisas (1952); A casa e o homem (1954) e as publicações póstumas, O vulcão e a fonte (1958), e Dias idos e vividos (1981), organizado pelo poeta e crítico Ivan Junqueira. Conjunto este que entremostra menos o homem de reclusão criadora com a qual consagrou definitivamente o seu nome na história da grande ficção brasileira e mais o homem de jornal, na acepção publicista do termo, função através da qual partilhava diretamente com o público leitor as suas ideias e conjecturas sobre as coisas do mundo, através do ensaio e da crônica.

Pois é no gênero crônica, principalmente, que a paixão de José Lins do Rego pelo futebol comparece mais fortemente em sua obra.

Considerando este ponto, por exemplo, temos o testemunho do  historiador social Bernardo Buarque de Hollanda – que se debruçou sobre as crônicas esportivas publicadas por Zé Lins no Jornal dos Sports entre 1945 e 1957 (um total de 1.571 textos) na sua coluna Esporte e Vida –, de que a incorporação do futebol ao projeto de construção de um Brasil moderno a partir da década de 1930, plataforma comum a todos os intelectuais modernistas, também “pode ser identificada de maneira exponencial nos romances, ensaios e, principalmente, nas crônicas esportivas desse escritor em cuja obra – diferentemente do caso dos outros autores do modernismo – o tema do futebol se apresenta de maneira sistemática e cristalina”.[1]

Vejamos, portanto, um pouco da sua indefectível paixão pelo jogo de bola aos pés (anote-se que Zé Lins do Rego foi também um típico torcedor de arquibancada fanático e arrebatado pelo seu Flamengo carioca) comparecendo estilisticamente dentro de sua literatura cronística e de jornal.

O Flamengo, como todos os clubes desta cidade, é um elemento de preparação do espírito nacional. E mais do que qualquer um vive, por todos os recantos do Brasil, nos entusiasmos de seus adeptos que são uma verdadeira legião.

Se há um clube nacional, este será o Flamengo, criação do mais legítimo espírito de brasilidade. Flamengo são brasileiros de toda as cores, de todas as classes, de todas as posições. Flamengo é o Sr. Eurico Gaspar Dutra, é o Sr. Nereu Ramos, é o Sr. Juraci Magalhães, é o meu rapaz do jornal, é o meu apanhador de bolas no tênis, é o Grande Otelo, é o pintor Portinari, é o Brasil de todos os partidos.

E se o Flamengo tiver o seu estádio gigante é porque merece muito mais (REGO, 2002, p. 65).[3]

Destaque-se antes, contudo, que como cronista esportivo, ofício que exerceu por 12 anos, ocupando as páginas de importantes veículos de imprensa do Rio de Janeiro, Zé Lins pôde intervir no debate público sobre um Brasil genuíno para os brasileiros em que o futebol fosse visto como um elemento de sua cultura e onde o povo em geral melhor se via representado.

A esse debate ele acrescentou, por exemplo, a meu ver, três questões que a representação ficcional brasileira sobre o tema viria mais tarde incorporar como um dos seus aspectos mais ricos e constantes: a importância do legado étnico negro para a matização nacional do jogo de futebol, a incorporação da música na forma brasileira de jogá-lo e uma original reelaboração – só possível graças à maneira como o futebol foi institucionalizado no Brasil – da ideia de nação brasileira, criando uma proposição peculiaríssima de nossa formulação identitária. Exemplo:

Os rapazes que venceram em Montevidéu eram um retrato de uma democracia social, onde Paulinho, filho de família importante, se uniu ao negro Leônidas, ao mulato Oscarino, ao branco Martins. Tudo feito à boa moda brasileira, na mais simpática improvisação. Lendo este livro sobre futebol, eu acredito no Brasil, nas qualidades eugênicas dos nossos mestiços, na energia e na inteligência dos homens que a terra brasileira forjou com sangues diversos, dando-lhes uma originalidade que será um dia o espanto do mundo (REGO, 2002, p. 63).[2]

Continuando suas ideias por este caminho, amiúde, Zé Lins do Rego se abastece de argumentos para explicitar, mediada pela lógica da miscigenação e do propugnado convívio democrático entre as três raças da nossa formação social – a sua ideia da necessária simbiose, no plano da nossa construção identitária, entre a identidade nacional e a identidade clubística, por exemplo:

O Flamengo merece muito mais”:

O Flamengo, como todos os clubes desta cidade, é um elemento de preparação do espírito nacional. E mais do que qualquer um vive, por todos os recantos do Brasil, nos entusiasmos de seus adeptos que são uma verdadeira legião.

Se há um clube nacional, este será o Flamengo, criação do mais legítimo espírito de brasilidade. Flamengo são brasileiros de toda as cores, de todas as classes, de todas as posições. Flamengo é o Sr. Eurico Gaspar Dutra, é o Sr. Nereu Ramos, é o Sr. Juraci Magalhães, é o meu rapaz do jornal, é o meu apanhador de bolas no tênis, é o Grande Otelo, é o pintor Portinari, é o Brasil de todos os partidos.

E se o Flamengo tiver o seu estádio gigante é porque merece muito mais (REGO, 2002, p. 65).[i]


[i] Idem; Ibidem.

Observo, para informar e arrematar, que essa operação narrativa de José Lins do Rego tinha um sentido muito claro, que era o de fundir na ideia de pátria, nação, o seu Clube de Regatas do Flamengo, que, para o escritor paraibano, era o clube que detinha todas as potencialidades de irmanar indivíduos os mais diversos, heterogêneos e dispersos, num verdadeiro congraçamento nacional, conferindo-lhes, pelo sentimento comum de pertencimento a ambos (à pátria e à nação), não obstante o afastamento geográfico ao longo de diferentes regiões territoriais do país, um senso de suprema e verdadeira brasilidade.

Tal profissão de fé de Zé Lins, digamos assim, se espraiava ao longo de toda a sua escrita de cronista esportivo por intermédio de recursos retóricos sofisticadíssimos – a nosso ver –, que vão desde a refinada ironia com o que aproveitava para tirar uma “onda” subliminar com os clubes rivais do Flamengo – caso do Vasco da Gama, que é tema de uma crônica sua, “Lá o Vasco é como se fosse o Flamengo”, por ocasião de uma excursão que o time fizera à Europa em 1947, oportunidade entrevista pelo escritor para contrapor, na sua lógica interpretativa sobre a nossa brasilidade futebolística acima referida, as representações da pátria brasileira com o elemento estrangeiro, dentro de uma peculiar escala de valor que apontava o nacional (naquela ocasião, representado pelo Vasco); o mais nacional (o seu Flamengo – ver a crônica, “O Brasil era o Flamengo”) e, ambos, acima do europeu em qualidade e supremacia. Vejam-se os dois textos-exemplos:

Lá o Vasco é como se fosse o Flamengo

Continua o Vasco a honrar com brilho o futebol brasileiro. Em duas partidas ganhas, pela bravura e pela classe de sua equipe, mostrou o tricampeão do Municipal que é, de fato, uma verdadeira seleção de valores. E assim Flávio Costa acrescenta às suas glórias de técnico mais as vitórias que vem obtendo em campos de Portugal. A jornada do Vasco há de terminar como começou. Todos nós, aqui do Brasil, estamos ao lado de nossos aparelhos de rádio para torcer pelos rapazes do Almirante. Lá o Vasco é como se fosse, para mim, o Flamengo (REGO, 2002, p. 82).[4]

         O Brasil era o Flamengo

Chego da Suécia convencido de que o futebol é hoje produto tão valioso quanto o café, para as nossas exportações. Vi o nome do Brasil aclamado em cidades longínquas do norte, vi em Paris aplausos a brasileiros com o mais vivo entusiasmo. Disse-me o meu querido Ouro Preto: “Só Santos Dumont foi tão falado pela imprensa desta terra, sempre distante a tudo que não é europeu, como os rapazes do Flamengo”. Este fato, os milhares de franceses que permaneceram no estádio, mesmo com o término da partida, aplaudindo os nossos rapazes, queriam demonstrar uma quente admiração por essa turma de atletas que tinha feito uma exibição primorosa. E a nossa bandeira tremulava no mastro do estádio, naquela noite esplêndida de primavera. O futebol Brasileiro deu aos mil brasileiros que ali estavam a sensação de que éramos os primeiros do mundo. Para mim, mais ainda, porque ali estava o meu Flamengo de todos os tempos (REGO, 2002, p. 129). [5]

Pois bem! Como disse lá em cima, tem esse texto o propósito de mostrar aos leitores um pouco da paixão pessoal que o escritor paraibano José Lins do Rego tinha pelo futebol e como esse tema compareceu em sua literatura a ponto de revelar um traço estilístico personalíssimo da sua obra: a fina ironia como recurso retórico moderno aplicado aos seu discurso estético sobre o assunto e a pegada também moderna com que inscreveu definitivamente, tanto no seio do mundo literário brasileiro quanto no universo da arquibancada futebolística propriamente dita, a noção de nação para juntar, num mesmo amálgama humano, os apaixonados como ele que torcem por um determinado clube de futebol e que sentem, nesse gesto de arrebatamento ufanístico, todos os influxos da pátria/nação a pulsar-lhes nas veias. Espero que essa pequena amostra tenha cumprido o seu papel.

*Jornalista, poeta e professor do curso de Jornalismo da UFPB.


1 HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 2004.

[2] REGO, José Lins do. Flamengo é puro amor: 111 crônicas escolhidas. Seleção, introdução, atualização ortográfica e notas de Marcos de Castro. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.

[3] Idem; Ibidem.

[4] Idem; Ibidem.

[5] Idem; Ibidem.