CONIFA: a representação internacional através do futebol, para além da FIFA

20/06/2022

por Maurício Drumond

Neste final de semana foi realizada a primeira edição do primeiro campeonato sulamericano de futebol organizado pela Confederação de Associações de Futebol Independentes (CONIFA), no Chile. Chamada de Copa América 2022, a competição contava inicialmente com a participação de 4 equipes, sendo 3 do Chile. Além das federações Aimara, Mapuche e Maule Sur, a Federação Alternativa de Desporto de Estado de São Paulo (FAD) se inscreveu na competição, mas não viajou ao Chile. Sem a participação de seu 4º representante, o torneio foi modificado para um triangular disputado entre os dias 17 e 19 de junho e teve como vencedora a seleção de Maule Sur. As equipes Mapuche e Aimara ficaram em segundo e terceiro, respectivamente.

Equipe de Maule Sur, campeã da Copa América da ConIFA de 2022.

Mas o que seria a CONIFA? Em um de meus primeiros posts aqui no bolgue (link), escrevi sobre a Nouvelle Fédération-Board (NF-Board), uma confederação criada em 2003 que possuía associações como Tibet, Chechênia, Groenlândia, Ilhas de Páscoa e Mônaco (a seleção do principado, não o clube). Escrito em 2009, o artigo cita a realização das três primeiras edições da Copa do Mundo VIVA, organizada pela entidade. A Copa VIVA teria ainda mais duas edições. Em 2010, em Gozo, na República de Malta, a Copa contou com seis seleções participantes, tendo a Padânia como campeã e a delegação da região do Curdistão em segundo lugar. Já em 2012, em sua última edição, a competição contou com a participação recorde de nove equipes, sendo realizada na região do Curdistão, no Iraque. A equipe anfitriã levou o título, com a seleção da república Turca do Chipre do Norte em segundo lugar.

Cartaz da V Copa do Mundo Viva, no Curdistão

Em 2013 a NF-Board é desarticulada e a ConIFA surge em seu lugar. De acordo com Joel Rockwood (2020), a ConIFA foi criada com base nas experiências da NF-Board, tentando propor uma estrutura mais profissional para a organização. Mas qual seria a proposta dessas confederações? Quais seriam sua “federações-alvo”?

A princípio, destacam-se as federações de regiões ou grupos que buscam reconhecimento internacional por meio do futebol. Como aponta a chamada no site da CONIFA para novos membros, são convidados representantes de equipes que “representem uma nação, minoria, região isolada ou região cultural” (https://www.conifa.org/en/join-now/). São esses os casos como o da Somalilânida, por exemplo, um Estado de facto, com sua própria Constituição, forças armadas, impostos, moeda, placas de automóveis e mais de 3 milhões de habitantes, mas que não é reconhecido internacionalmente por outros países. Nesses casos, o esporte se torna uma importante ferramenta na luta por reconhecimento internacional. Como a própria federação somalilandesa destaca em sua apresentação no site da CONIFA,

A Somália ainda declara que a Somalilândia é uma região autônoma da Somálila. Independente de seu estatuto oficial de reconhecimento, a somalilândia é de facto independente e autogovernada e por isso tem uma excelente razão para ter sua própria seleção nacional. A Associação de Futebol da Somalilândia foi fundada em 2011 e representa a Somalilândia e os somalilandeses de todo o mundo (tradução minha, https://www.conifa.org/en/members/somaliland/).

O mesmo ocorre com os Estados de reconhecimento limitado da Abcásia e da Ossétia do Sul, regiões autônomas que se declaram independentes da Geórgia. Ambos os casos são apoiados pelo governo russo e têm reconhecimento internacional da Rússia, Nicarágua, Venezuela e de alguns outros estados de reconhecimento limitado. Sua semelhança de identificação com a Somalilândia pode ser vista também no texto de apresentação no site da confederação internacional, indicando um possível modelo pré-produzido entregue às confederações no momento da formulação sa página eletrônica. Acompanhado de algumas informações particulares ao caso da associação específica, está o mesmo texto destacado acima:

A Geórgia ainda declara que a [Abcásia/Ossétia do Sul] é uma parte da Geórgia. Independente de seu estatuto oficial de reconhecimento, a [Abcásia/Ossétia do Sul] é de facto independente e autogovernada e por isso tem uma excelente razão para ter sua própria seleção nacional. A Associação de Futebol da Somalilândia foi fundada em 2011 e representa a Somalilândia e os somalilandeses de todo o mundo (tradução minha, https://www.conifa.org/en/members/abkhazia/ e https://www.conifa.org/en/members/south-ossetia/).

O mesmo texto, com leves variações, pode ser encontrado na apresentação de outras associações como Artsaque. Um outro grupode nações representadas são regiões que se entendem como ocupadas, e buscam a representação internaciona como forma de afirmação de sua identidade, que por vezes não tem a possibilidade de vir à tona em outras áreas. As federções do Tibete e do Turquestão Oriental são dois exemplos. Na apresentação do Turquestão Oriental, afirmam que “dois anos antes de invadirem o Tibete, o Estado comunista Chinês anexou a República Oriental do Turquistão, em 1949. Como uma nação ocupada, os turquestaneses orientais possuem uma herança cultural e linguística única, que são significativamente diferentes daquela da dinastia han chinesa” (tradução minha, https://www.conifa.org/en/members/east-turkistan/).

No entanto, não são apenas Estados em busca de reconhecimento internacional que buscam a filiação à CONIFA. Povos minoritários também utilizam a filiação internacional como ferramenta para aumentar sua representatividade no cenário internacional. As federações do Povo Romani, Rohingya, Mapuche, Aimara e das Primeiras Nações da Austrália, por exemplo, demonstram a iniciativa de afirmação de grupos étnicos e culturais minoritários. Como destaca a apresentação da federação Aimara, ao dizer que “a seleção representa o povo Aimara do Chile, Peru, Bolívia e Argentina, com a missão de promover a cultura aimara pelo mundo” (tradução minha, https://www.conifa.org/en/members/aymara/).

Podemos perceber ainda a presença de federações que buscam celebrar/reafirmar identidades culturais regionais. Dentre esses pode-se destacar a federação da Cornuállia, de Yorkshire e da Ilha de Man, no Reino Unido, do condado de Nice e da Occitânia, na França, ou ainda da Sicília e da Padânia, na Itália. Nesses casos, majoritariamente em território europeu, a identidade local não é monilizada de forma a se separar a identidade nacional. A valorização da identidade local é atrelada ao nacional, ainda que por vezes essa valorização esteja também associada a movimentos por maior autonomia regional, como no caso da Padânia, cuja autonomia é uma bandeira do partido de extrema-direita italiano Liga Norte, cujo nome oficial é Lega Nord per l’Indipendenza della Padania.

Outro elemento relevante, que ganha força com muitas dessas associações, é a possibilidade da filiação de entidades não profissionais que busquem uma filiação internacional fora da FIFA, de forma a atrair talentos e filiações de clubes, em geral amadores. A federação do Condado de Nice deixa isso evidente em sua apresentação, ao afirmar que “busca representar sua região cultural e histórica no palco global, e deseja promover talentos locais através de sua Associação de Futebol” (tradução minha, https://www.conifa.org/en/members/county-of-nice/). Como apresentado em sua página inicial, a CONIFA se caracteriza como  “a federação de futebol para todas as associações fora da FIFA” (https://www.conifa.org/en/). Vemos assim um outro grupo de entidades, qe possuem um leve – e por vezes inexistente – pretexto cultural para sua filiação. Na Europa, as federações da Ilha de Elba e das Duas Sicílias parecem se aproximar mais desse caso, ainda que uma investigação mais detalhada deva ser efetuada para podermos afirmar com certeza. Nas Américas, a ANBM (ASOCICACIÓN NACIONAL DE BALOMPIÉ MEXICANO) e Cascadia, na América do Norte, também aparentam seguir esse caminho. No Brasil, a adesão da Federação Alternativa de Desporto do Estado de São Paulo (FAD), também demonstra esse lado da filiação. A FAD é uma associação amadora paulista sem nenhum elemento de valorização cultural ou identitária.

Em 2022, a CONIFA planeja organizar competições regionais na África, América do Sul e o campeonato munidal de futebol feminino. A Copa Africana contou apenas com 3 equipes, tendo a seleção de Biafra se sagrado campeã. Na América do Sul, vimos anteriormente que a seleção de Maule Sur foi a vencedora. Já o campeonato feminino será realizado no início de julho, sediado pela feeração do Tibete. O campeonato europeu masculino, a Euro 2022 CONIFA, seria realizada no início de junho, em Nice, mas foi cancelada e a entidade ainda não declarou se ainda irá promover uma nova competição europeia este ano.

Ainda que pequena e de pouco alcance midiático, a CONIFA busca se estabelecer em um campo onde outras entidades já atuaram. O modelo atual parece ser mais aberto e propenso a um modelo mais comercial. No entanto, ainda que muito aquém do futebol profisional, para muitas dessas entidades é uma das possíveis formas de representação internacional, dentro de um quadro de poucas possibilidades.

Referências
ROCKWOOD, Joel. The politics of ConIFA: Organising and managing international football events for unrecognised countries. Managing Sport and Leisure, 25 (1-2), p. 6-20.


A FIFA e o COI na guerra na Ucrânia: possíveis papéis e notas de repúdio

28/02/2022

por Maurício Drumond

“Se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor

(Desmond Tutu)

Em meio à escalada beligerante da guerra na Ucrânia na última semana, cresce a pressão pelo posicionamento e por ações dos mais variados atores do sistema internacional. É dentro desse contexto que podemos ver as primeiras medidas adotadas pelos dois principais agentes do campo esportivo no planeta, o Comitê Olímpico Internacional (COI) e a Federação Internacional de Futebol (FIFA). O COI tomou a dianteira neste processo ao publicar em 24 de fevereiro, no dia seguinte ao início da invasão russa ao território ucraniano, sua primeira posição condenando a incursão militar. Na nota de repúdio divulgado em seu sítio eletrônico intitulada “O COI condena veementemente a violação da trégua olímpica” (link), a entidade manifesta sua oposição à ação do governo de Vladimir Putin ressaltando a resolução 76/13 aprovada de forma unânime pela Assembleia Geral da ONU no dia 2 de dezembro de 2021. A resolução “Construindo um mundo pacífico e melhor através do esporte e do ideal olímpico” resgata a simbólica ligação dos Jogos Olímpicos Modernos com os jogos da antiguidade, invocando a “tradição grega da ekecheiria (Trégua Olímpica), reivindicando uma trégua durante os Jogos Olímpicos a fim de encorajar um ambiente pacífico e garantir passagem segura (…), mobilizando assim a juventude do mundo para a causa da paz” (link). O documento então declara que os países membros devem se esforçar pela manutenção da paz durante o período que se iniciaria sete dias antes dos Jogos de Inverno de Pequim, iniciados em 7 de fevereiro, e acabaria 7 dias após os Jogos Paralímpicos, agendados para terminar em 13 de março.

Em sua primeira declaração, o COI apenas condena a ação militar russa dentro desse período de Trégua Olímpica. No dia seguinte, 25 de fevereiro, a entidade vai muito pouco além do posicionamento contrário à guerra e faz um pedido para que as federações esportivas internacionais realoquem ou cancelem os eventos esportivos planejados para a Rússia ou Belarus, e que não permitam a exibição da bandeira ou do hino desses países em suas competições (link).

Essas ações vão ao encontro de ações prévias do COI sobre a Rússia, que em 2019 foi condenada pela Agência Mundial Antidoping (WADA) a não ter seus símbolos exibidos em competições internacionais. As ações, de efetividade muito limitada e duvidosa, já vinha sendo posta em prática, o que diminui ainda mais o impacto da nota de repúdio do COI, que clama por sanções que em larga medida já estavam sendo impostas ao país beligerante. A FIFA seguiu postura semelhante ao COI em nota divulgada ontem, dia 27 (link). Nela, a entidade máxima do futebol mundial diz agir “em linha com o Comitê Olímpico Internacional (COI)” e determina as seguintes medidas:

  • Nenhuma competição deverá ser realizada em território russo, e os jogos onde o país tiver mando de campo deverão ser realizados em território neutro, sem público;
  • A associação representando a Rússia deverá participar das competições com o nome “Federação de Futebol da Rússia (RFU)” e não como “Rússia”;
  • A bandeira e o hino da Rússia não poderão ser realizados em jogos de times da Federação Russa.

As medidas da FIFA, tímidas como as medidas do COI esbarram, no entanto, na postura mais rígida de federações associadas como a da sueca, polonesa e tcheca, que declararam que não realizarão os jogos pelas eliminatórias da Copa do Mundo contra a seleção russa. Frente às declarações destas federações, a nota emitida pela FIFA diz apenas que a entidade “tomou nota das posições expressas nas mídias sociais” por essas federações e que “já dialogou com todas essas associações de futebol”. A nota diz ainda que “[a] FIFA permanecerá em contato próximo para buscar soluções adequadas e aceitáveis ​​em conjunto”, sem nenhuma posição mais definida.

Ainda é preciso acompanhar o desenrolar das ações nos próximos dias. As entidades internacionais ainda buscam se ancorar na velha máxima de que “esporte e política não se misturam”, repetida há décadas por dirigentes esportivos e mais recentemente por alguns nomes da grande mídia, a fim de não se envolverem profundamente, ou adotarem apenas medidas cosméticas, como as do momento. No entanto, a pressão de outros agentes esportivos, como as federações nacionais no caso da FIFA, pode levar ao maior envolvimento dessas entidades. Os jogos da repescagem europeia para a Copa do Mundo estão agendados para o final de março. A tabela prevê jogos da Rússia contra as federações que já declararam que não enfrentarão a seleção. Além disso, a capacidade de participação da Ucrânia também deverá ser colocada em questão. Se ações mais duras virão, o tempo ainda dirá. Mas a pressão se faz presente. Um possível endurecimento sobre a Rússia será mais resultado dessa pressão do que uma ação espontânea dos dirigentes das maiores entidades esportivas do planeta. Vamos acompanhar.


O ÁS ALEMÃO NAS PISTAS CARIOCAS: APONTAMENTOS INICIAIS SOBRE AUTOMOBILISMO E COMÉRCIO BILATERAL NOS ANOS 1930.

02/11/2021

Por Maurício Drumond

            As relações entre esporte e propaganda política não são novidade para os leitores desse blogue. As interfaces entre a prática e o espetáculo esportivo e a promoção política de diferentes grupos e regimes já foram exploradas de diversas maneiras e perspectivas nos hiperlinks deste sítio coletivo. O mesmo pode ser dito em relação ao automobilismo. A modalidade já foi alvo de diversas postagens e ganha cada vez maior atenção dos historiadores do esporte no Brasil que buscam olhar para além do futebol.

            Nesse artigo, busco trazer novos ohares, ainda que de forma inicial, para o automobilismo no Brasil. Mais exatamente, procuro entender os interesses econômicos na participação alemã no Circuito da Gávea, nos anos 1930.  Além de seu papel na promoção da imagem de uma nova Alemanha que o regime nazista buscava difundir no mundo, as disputas automobilísticas foram utilizadas como uma estratégia de divulgação de carros e peças da indústria alemã. Através da análise de empresa representante da Auto Union no Brasil e de sua promoção através do piloto Hans Stuck (ou “Von Stuck”, como aparece nos periódicos do período), buscarei fazer os primeiros apontamentos sobre o papel do automobilismo nas relações econômicas bilaterais que se consolidavam entre Brasil e Alemanha nos anos 1930, até o início da Segunda Guerra Mundial.

O Automobilismo e a Economia Alemã no III Reich

            Em setembro de 1934, a revista britânica The Light Car, especializada em automobilismo, publicou em um artigo sobre a Alemanha:

“Desde a chegada de Hitler ao governo alemão, o automobilismo, sob todas as suas formas, foi tremendamente encorajado. Não apenas devido à completa eliminação de taxas sobre a compra de carro novos  e à redução de custos com seguros […], mas também pelo estímulo ativo de todo o movimento esportivo. De fato, o esporte a motor acordou para uma nova vida” (apud Ludvigsen, 2009, p. 72).

                A profunda crise política econômica que engolfara a Alemanha no início dos anos 1930 parecia estar superada. O forte impacto causado pela Grande Depressão, especialmente em uma Alemanha em grande medida dependente de capital estadunidense, se somou à instabilidade política gestada há mais longo prazo no país, contribuindo para a ascensão de Hitler ao cargo de chanceler e, pouco mais tarde, ao estabelecimento do III Reich e do regime ditatorial nazista.

            As relações especiais de Hitler e de seu regime com o automobilismo seria notas sem demora. Dias após sua nomeação como chanceler, no dia 11 de fevereiro de 1933, Hitler discursou na abertura de uma exposição de carros em Berlim, algo inédito para alguém em sua posição. Em seu discurso, o novo chefe de governo apresentou seus planos para a indústria automobilística do país, já indicando o abatimento nos impostos para os compradores de carros, mencionado na revista britânica, e divulgou ações como a construção de Autobahns, o fim da obrigatoriedade de “auto escolas” e a promoção do automobilismo esportivo.

De acordo com König (2004), já havia a ideia da promoção de um carro popular, batizado de Volskwagen – um termo utilizado desde o início do século para se referir a carros a preços populares. No entanto, o modelo a ser adotado ainda não havia sido definido e sua versão final não chegaria ao mercado internacional antes do início da guerra. Sendo assim, ele não será foco deste trabalho, ainda que tenha tido papel fundamental na política da indústria automobilística nazista.

O foco deste artigo se dará sobre a empresa Auto Union, criada a partir da fusão de quatro empresas da indústria automobilística alemã em 1932, como resposta á crise da grande depressão: Audi, DKW, Horch e Wanderer (daí o símbolo com 4 argolas da Audi atualmente). Com a nova postura apresentada por Hitler, a Auto Union buscou um contrato com Ferdinand Porsche e, juntamente com a emprea Dimler-Benz, conseguiram uma subvenção do novo governo para a produção de carros de corrida alemães, no valor de 450 mil Reichsmark. Foi o início das “Flechas de Prata” (“Silberpfeile” ou “Silver Arrows”), os carros alemães que viraram lenda no automobilismo internacional.

Dentre os pilotos envolvidos com a Auto Union, encontrava-se Hans Stuck. Famoso por provas de montanhas, Stuck era um nome reconhecido no automobilismo internacional quando se encontrou com Hitler pela primeira vez, ainda em 1932, antes de sua chegada ao poder. Segundo Ludvigsen (2009, p. 56), Hitler teria prometido um carro de corrida alemão a Stuck, desde que ele não assinasse com nenhuma escuderia de outro país. Não temos como afirmar se isso de fato ocorreu, ou se é parte das lendas que circulam as relações entre o esporte e o III Reich. No entanto, Hans Stuck e a Auto Union foram de fato uma das frentes que buscavam alçar o automobilismo alemão a patamares similares ao do automobilismo italiano guiado por Mussolini, que já estrelava as provas internacionais com seus carros Alfa-Romeo, Bugatti e Maserati.

Acompanhando o aporte financeiro do governo alemão à indústria automobilística, apontado na revista britânica em 1934, o ano também marcou o início de novas relações comerciais da Alemanha com a América Latina, através da adoção de acordos econômicos bilaterais.  O comércio de compensação estabelecido entre Berlim e Rio de Janeiro estabelecia que as importações de produtos brasileiros pela Alemanha não seriam pagas em moeda corrente, mas ficariam depositadas em contas bloqueadas no Reichsbank e seriam utilizadas para pagar compra de mercadorias alemãs que seriam importadas pelo Brasil, em uma moeda chamada marcos Aski (Ausländer-Sonderkonten für Inlandszahlungen, abreviação para o termo “Conta Estrangeira para Pagamentos Domésticos”), ou  marcos de compensação (Azevedo, 2010; McCann, 1995; Oliveira, 2010).

O sistema de compensação permitia que alemães oferecesse preços mais atraentes que os estadunidenses, que haviam se tornado os maiores parceiros econômicos do Brasil os anos 1930, ocupando posto que pertencera ao Reino Unido. Na verdade, como aponta McCann (1995), os preços de produtos de bem de consumo alemães em marcos de compensação eram mais favoráveis do que os em Reichsmarks em até 24%. Se, por um lado, os alemães compravam algodão, lã, borracha e frutas do Brasil, permitindo que o país escoasse seus excedentes de produção, por outro o mercado brasileiro tinha acesso a bens de produção e de consumo da indústria alemã a preços mais em conta. Carvão, cimento, papel para jornal, aço e adubos químicos alemães, por exemplo, inundaram o mercado nacional (Oliveira, 2010).  Dentre os bens de consumo, pode-se citar aparelhos de rádios e peças de automóveis.

É nesse quadro de relações bilaterais entre Alemanha e Brasil, que busco entender em parte a participação da Hans Stuck como piloto da Auto Union em provas automobilísticas no Rio de Janeiro, em especial no Trampolim do Diabo, como ficou conhecido o circuito da gávea (para maiores informações, ver aqui). Qual seria, de fato, o papel desse “Novo Plano” econômico alemão de comércio bilateral e qual teria sido o impacto da política de compensação na importação de automóveis e peças no mercado brasileiro. Ainda mais, como isso teria afetado o automobilismo no Brasil? Essas e outras perguntas, ainda sob investigação, deverão ser respondidas no futuro. Por enquanto, realizei uma busca por anúncios da Auto Union em jornais do Rio de Janeiro, centrando minhas buscas, até o momento, em um jornal de grande circulação, o Correio da Manhã, e em jornais esportivos, e alguns apontamentos iniciais podem ser identificados.

A Auto Union no Brasil: automobilismo e propaganda

A Auto Union Brasil Ltda. Foi a principal empresa do Rio de Janeiro a importar automóveis e peças da Auto Union, vendendo carro como o DKW, que se popularizou no período. Outras empresas, como a Bramensis, também trabalhavam com a importação de Auto Union em São Paulo, mas ficarão de fora desta análise. Apesar de fundada oficialmente apenas em agosto de 1935 (cf. DOU 08/08/1935, p. 26), as propagandas em jornais brasileiros da Auto Union começam já em fevereiro deste ano.

Imagem 01: Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 17 fev. 1935, p. 19
(Correio da Manhã. 17/2/1935, p. 19)

Ainda sem o nome “Auto Union Brasil”, a peça publicitária já era provavelmente o pontapé inicial para o empreendimento que seria inaugurado no meio do ano. Utilizando-se de um recorde internacional de velocidade batido por Hans Stuck na Itália, a propaganda alardeava: “Aguardem o novo programma de fabricação de 1935 da Auto-Union, que constituirá um acontecimento sensacional do automobilismo brasileiro”, seguido de endereço a rua Mexico e do símbolo da Auto Union. Hans Stuck, por sua vez, já era conhecido internacionalmente e já tinha estado no Brasil em 1932 para a disputa de uma prova que era sua especialidade, a “Subida da Montanha”, na estrada Rio-Petrópolis, inaugurada alguns anos antes (Melo, 2009).

O automobilismo era assim o ponto de partida e de chegada do anúncio. O feito de Stuck nas pistas de Florença simbolizavam a capacidade dos veículos da Auto Union, que em breve chegariam ao automobilismo brasileiro – e ao mercado de passeio brasileiro, provavelmente o grande alvo dos anunciantes. Ainda segundo as propagandas no Correio da Manhã, a comercialização de automóveis e peças começou antes mesmo da criação oficial da empresa Auto Union Brasil, visto que em 28 de abril de 1935 já divulgavam a venda a prazo de DKWs e de “grande stock de sobressalentes”, que estariam em exposição na “Rua do Mexico, 158”, na esplanada do Castelo (Correio da Manhã, 28/4/1935, p. 15).

Os anúncios se repetem por algumas vezes na primeira metade do ano. Já ao final de 1935, a Auto Union Brasil anunciava a vitória do DKW na prova do trecho Rio-Teresópolis, ressaltando o tempo de 2h45min e os apenas 8 litros de gasolina gastos (Correio da Manhã, 10/11/1935, p. 23). Ainda que utilizassem as provas automobilísticas como mote para propaganda, a principal característica ressaltada era a economia de combustível, especialmente nos DKWs, o modelo mais acessível dentre os oferecidos pela importadora.

As propagandas da Auto Union Brasil se tornam mais frequentes em 1937, com a participação de Hans Stuck no Circuito da Gávea, quando o corredor conquistaria a segunda posição, ficando atrás do italiano Carlo Pintacuda, que venceria em 37 e 38, pilotando seu Alfa-Romeo. As provas do circuito da Gávea foram inauguradas em 1933, um ano depois de Stuck ter participado da “Subida da Montanha”, mas antes da formação da equipe de corridas da Auto Union.

O Grand Prix do Rio de Janeiro, como também era chamada a prova, foi reconhecida oficialmente pela Association Internationale des Automobile Clubs Reconnus (AIACR), a futura FIA, mas não atraiu grande atenção internacional a princípio. Em 1933, apenas alguns pilotos argentinos e uruguaios se juntaram aos pilotos brasileiros na disputa, e em 1934 o Jornal do Brasil (3/10/1934, p. 23) indicou que dos 44 participantes da prova, 15 eram argentinos e 7 italianos, sendo que os pilotos apontados como italianos eram na verdade brasileiros de descendência italiana que representavam o país. Enviar pilotos, carros e equipes de apoio para o outro lado do oceano ainda era caro e pouco interessante para as escuderias que disputavam o campeonato europeu.

A primeira edição do Circuito da Gávea a atrair pilotos europeus foi a de 1936. Nesse ano, os italianos Carlo Pintacuda e Atilio Marinoni vieram com seus Alfa Romeos, além da francesa Helle Nice. Mas 1937 marcaria o auge da participação internacional no circuito, como pode ser visto na lista de competidores divulgada no Correio da Manhã.

(Correio da Manhã, 6/6/1937, p. 3)

Dentre os participantes, oito se inscreveram com nacionalidade europeia, um alemão (Stuck), quatro italianos, um francês e dois portugueses. No entanto, uma investigação mais minuciosa sobre esses nomes poderia apontar que alguns eram residentes do Brasil, e não atravessaram o atlântico para as disputas esportivas. A profusão de Alfa Romeos também é aparente. Dos 27 carros listados, 12 eram da montadora italiana. Somados os seis Bugatti e um Fiat, foram 19 carros italianos disputando a prova.

A participação de Hans Stuck, no entanto, pode ser vista como uma forma de promoção da Auto Union no país. Três dias depois de ficar em segundo lugar no GP do Rio de Janeiro, Hans Stuck participaria de outo evento, agora em sua especialidade, a corrida de montanha. No dia 9 de junho, o piloto levou sua Flecha de Prata para a estrada Rio-Petrópolis, na tentativa de bater os recordes mundiais de velocidade na categoria. Em duas tentativas registradas pelo Automóvel Clube do Brasil, o piloto tentava o recorde de velocidade no “kilômetro parado” e na “milha parada”. Tais feitos, na corrida e na tentativa de quebra de recordes, foram utilizados como forma de propaganda pela importadora da Auto Union, como mostra a peça publicitária de grande destaque no Correio da Manhã de 13 de junho (p. 12)

(Correio da Manhã, 13/6/1937, p. 12)

No texto, há o destaque para os recordes conseguidos na Rio-Petrópolis e na volta mais rápida no Circuito da gávea, que ainda dependiam de homologação da AIACR. “A Auto Union sente-se jubilosa por ter encontrado no ‘Trampolim do Diabo’ e na Rio-Petrópolis a grande oportunidade de que precisava, para patentear de forma categórica o valor de suas machinas no Brasil.” E completa com a associação da marca a seus carros de passeio: “Audi – DKW – Horch – Wanderer. 4 marcas de fama mundial são produtos da Auto Union.”

Dessa maneira, a participação de Hans Stuck no Circuito da Gávea e sua iniciativa em bater recordes de velocidade em terras brasileiras deve ser vista, também como forma de promoção da empresa, na busca por incentivar ainda mais as importações que provavelmente vinham crescendo devido ao acordo bilateral entre Brasil e Alemanha. A proximidade cada vez maior da guerra, no entanto, afeta a realização de provas internacionais e a importação de peças alemães. Com o início do conflito em setembro de 1939, a Inglaterra impõe o bloqueio naval e os produtos alemães deixam de chegar ao Brasil. Em 10 de setembro de 1939, a pequena peça publicitária da Auto Union no Correio da Manhã (p. 7) já transparece o problema. No lugar do anúncio de veículos, oferecem “concertos, pinturas, reformas”. As importações, assim como as provas automobilísticas internacionais, retornariam apenas após a Guerra.

(Correio da Manhã, 10/9/1939, p. 7)

            A investigação ainda está em estágios iniciais. No entanto, as evidências já dão indícios da relação entre o automobilismo e a expansão da indústria automobilística alemã para mercados internacionais, pelo menos no caso brasileiro. O acordo bilateral firmado em 1934 é seguido pelo estabelecimento da importadora Auto Union Brasil, na capital federal, que inicia seus trabalhos já nos primórdios de 1935. As propagandas veiculadas nos jornais cariocas demonstra a estreita ligação das conquistas esportivas tanto nas pistas europeias como na eventual participação de Hans Stuck no Circuito da Gávea, em 1937. Muito ainda precisa ser investigado, estamos apenas nas primeiras voltas.

Referências:

Azevedo, Monica (2010). Relação Brasil-Alemanha (1937-1945): Evolução e paradoxos. XIV Encontro Regional na Anpuh-Rio: Memória e Patrimônio. Disponível em: http://www.encontro2010.rj.anpuh.org/resources/anais/8/1276651062_ARQUIVO_Artigo_-_Anpuh_2010final.pdf

König, Wolfgang (2004). Adolf Hitler vs. Henry Ford: The Volkswagen, the Role of America as a Model, and the Failure of a Nazi Consumer Society. German Studies Review, Vol. 27, No. 2, p. 249-268.

Ludvigsen, Karl (2009). German Racing Silver: Drivers, Cars and Triumphs of German motor Racing. Surrey: Ian Allan Publishing.

McCann, Frank (1995). The Forgotten Ally. What did you do in the war, Zé Carioca? Estudios Interdisciplinarios de América Latina y el Caribe, Vol. 6, No. 2, p. 35-70.

Melo, Victor Andrade (2009). Antes de Fittipaldi, Piquet e Senna: o automobilismo no Brasil (1908-1954). Motriz, Vol. 15, No. 1, p. 104-115.

Oliveira, Arthur (2010). Os regimes cambiais alemães e os acordos bilaterais entre 1934-1939. Departamento de Economia, pontifícia Universidade católica do Rio de Janeiro.


A Criação do CND: o futebol a serviço do Estado Novo

13/06/2021

Maurício Drumond

No dia 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas fechou o Congresso e instaurou um novo regime conhecido como Estado Novo, fortalecendo seu poder e passando a investir ainda mais em uma política de centralização e união nacional. No campo esportivo, essa postura levaria a uma maior aproximação do governo com o esporte, que já poderia ser observada na ocasião da III Copa do Mundo, realizada na França em 1938.

Ciente da popularidade do esporte e de sua importância como símbolo nacional, o novo regime concede vultosa subvenção à delegação brasileira para se apresentar no evento – Tomás Mazzoni (1941, p. 16) chega a destacar o “interesse do ministro das Relações Exteriores à delegação que esteve na III Taça do Mundo”. Deve-se somar a isso o fato de que a CBD permanecia como responsável pela representação brasileira no certame, e que Luiz Aranha era seu presidente desde 1936 e sua proximidade pessoal com a alta cúpula do governo, sobretudo com o referido ministro das Relações Exteriores no período do evento, Oswaldo Aranha, seu irmão. A imagem do governo é ainda mais intimamente associada ao escrete brasileiro com a declaração de que Alzira Vargas, filha de Getúlio, receberia o simbólico título de madrinha da seleção nacional.

Alzira Vargas, a madrinha da Seleção Nacional de 1938, e os atletas do escrete brasileiro.

Antes do embarque para a França, a seleção foi recebida pelo Presidente da República, que fez questão de cumprimentar os jogadores, um a um. Pela primeira vez, o Brasil contava com sua força máxima em uma Copa do Mundo. A miscigenação racial da equipe brasileira era vista no Brasil como o verdadeiro retrato de nossa democracia racial, o que servia de forma perfeita aos ideais de ufanismo nacional e harmonia social propagandeados pelo Estado Novo. 

Apesar da derrota para a Itália na semifinal, a destacada apresentação dos jogadores brasileiros na Europa eram vistos como prova do sucesso esportivo e da capacidade física nacional. Até mesmo Getúlio Vargas acompanhou a Copa e se surpreendeu com a reação popular frente à derrota para os italianos, escrevendo em seu diário: “A perda do team brasileiro para o italiano causou uma grande decepção e tristeza no espírito público, como se tratasse de uma desgraça nacional” (Vargas, 1995, v.2, p. 140). De volta ao Brasil, a seleção foi recebida nas ruas como “campeã moral” do campeonato, sob a alegação de que sua derrota teria sido fruto de um pênalti ilegal.  “Queira ou não queira a FIFA, somos campeões do mundo”, estampava o Jornal dos Sports, logo após a conquista do terceiro lugar (JORNAL DOS SPORTS, 20 jun. 1938, p. 1).

O sucesso popular da Copa do Mundo foi mais um sinal para o governo da importância de controlar mais de perto o futebol no Brasil. Menos de três anos mais tarde, Getúlio assinaria o decreto-lei que oficializou a intervenção governamental nos esportes e colocou o grupo de Luiz Aranha de volta ao comando do futebol nacional. No dia 16 de abril de 1941 o Diário Oficial da União trazia em suas páginas o decreto-lei que criava o Conselho Nacional de Desportos (CND), no Ministério da Educação e Saúde, que teria como função “orientar, fiscalizar e incentivar a prática dos desportos em todo o país” (BRASIL, 1941). Em outras palavras, o conselho detinha o controle total dos esportes.

O Decreto-Lei n. 3.199 vai além da criação do CND.  Toda a estrutura da organização desportiva brasileira é alterada. De acordo com o decreto, cada esporte, ou grupo de esportes, poderia se organizar em apenas uma confederação em todo território nacional, sendo essa, necessariamente filiada à entidade internacional de seu ramo desportivo. Cada unidade territorial brasileira – Distrito Federal, estados e territórios – teria apenas uma federação filiada a cada uma das seis confederações esportivas reconhecidas pelo decreto-lei: Confederação Brasileira de Desportos; Confederação Brasileira de Basquetebol; Confederação Brasileira de Pugilismo, Confederação Brasileira de Vela e Motor; Confederação Brasileira de Esgrima; e Confederação Brasileira de Xadrez. Uma nova confederação só poderia ser criada através de decreto presidencial.

Um dos principais jornalistas esportivos do país, Tomás Mazzoni, sob o pseudônimo Olímpicus, que utilizava em suas colunas esportivas, escreveu um livro em homenagem à intervenção no esporte, intitulado “O Esporte a Serviço da Pátria”, cujo prólogo é datado “abril-maio de 1941” (MAZZONI, 1941, p. 18). A obra, de grande teor apologético ao regime estadonovista, defende a oficialização do esporte:

Somente, pois, graças à oficialização e com o espírito de 10 de novembro, dentro da doutrina do Estado Novo, aplicando os princípios do regime atual, é que poderíamos tomar rumos novos! O 10 de novembro esportivo deve ser completo! Exterminar as tais “assembleias”, “judiciários”, “pactos”, “inquéritos”, “caciquismos” – é extinguir a política, o personalismo, o clubismo, é dar rumo certo e vida sã ao esporte! (MAZONI, 1941, p. 20).

A intervenção esporte, aludido por Mazzoni como “o 10 de novembro esportivo”, em referência à data de instauração do Estado Novo, seria assim a adequação do esporte ao ideal do regime vigente.  Assim como outros regimes do período, como a Alemanha nazista, Itália fascista, Espanha franquista e França de Vichy, o Brasil se adequava, segundo o jornalista, a um novo período do esporte mundial. Suas referências a “assembleias”, “pactos”, “caciquismos”, e “clubismo” são alusões nada veladas às disputas internas dos dirigentes brasileiros, no que definira algumas páginas depois como uma forma de dirigir o esporte “com a mentalidade do governante brasileiro de vinte anos atrás, (…) por parte dos políticos do velho regime”, em uma explícita referência à Primeira República, que terminara com o movimento militar que colocou Vargas no poder em 1930 (MAZZONI, 1941, p. 27).

A Confederação Brasileira de Desportos se estabeleceu então como a principal confederação desportiva do país, sendo responsável pela organização do futebol, do tênis, do atletismo, do remo, da natação, dos saltos, do polo aquático, do vôlei, do handebol e de qualquer outra modalidade desportiva que não se enquadrasse em nenhuma das outras confederações. As outras confederações tinham competência administrativa sobre as modalidades descritas em sua nomeação. Isso não significa que o futebol receberia o mesmo tratamento que as outras modalidades desportivas, visto que o próprio decreto-lei afirmava que “o futebol constitui o desporto básico e essencial da Confederação Brasileira de Desportos” (BRASIL, 1941, art. 16, §2º).

O CND detinha controle quase total não apenas sobre os esportes, como também sobre as entidades desportivas. Os estatutos das confederações e das federações a elas filiadas tinham que ser aprovados pelo CND, que poderia propor ao Ministro da Educação a criação ou a supressão de qualquer confederação. No tocante às competições internacionais, o Conselho Nacional de Desportos exercia um controle ainda mais rígido. A participação de qualquer clube ou entidade em uma competição internacional deveria ser previamente autorizada pelo CND. Caso o conselho decidisse pela participação de alguma equipe em um campeonato internacional, esta não poderia abster-se da convocação. Assim, os clubes que cedessem jogadores a esses campeonatos não poderiam pleitear qualquer indenização pela perda temporária de seus atletas, a não ser em caso de jogos amistosos.

Buscava-se controlar o esporte nacional, ainda que mantendo na direção do órgão estatal de controle paredros dirigentes conhecidos da elite desportiva brasileira. Mesmo com a intervenção do governo brasileiro sobre o esporte, pouco muda de forma efetiva em sua organização. No entanto, o Estado agora se equipava com a possibilidade de intervir em clubes e federações caso julgasse necessário, como ocorreu com o Corinthians ainda em 1941. A disputa entre o grupo do então presidente Manuel Correcher e da oposição, liderada por Ricardo R. de Moura e Saverio Nigro, levou o governo paulista a apontar Mário Henrique Almeida como interventor no clube, cargo que ocupou por pouco tempo (MAZZONI, 1950, p. 292).

Manuel Correcher (15) e Mário Henrique Almeida (16)

Na visão dos defensores da intervenção, como Tomás Mazzoni (1941, p. 17), os “políticos e arruaceiros terão, pois, suas azas cortadas”, não podendo mais assim “arrumar panelinhas e (…) se defender com prestígio equívoco”. A oficialização colocava em xeque a antiga ordem esportiva, mas ao mesmo tempo garantia a permanência daqueles que se adequassem aos novos tempos. O futebol estaria, assim, a serviço da pátria.

O sentimento nacional seria mobilizado com maior veemência com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, em 1942. Dentro desse quadro de patriotismo exacerbado pelo envolvimento no conflito, o CND decretou que as associações esportivas – clubes ou outras agremiações – só poderiam ser presididas por brasileiros natos ou naturalizados. O conselho abria exceção apenas a estrangeiros radicados no Brasil há mais de vinte anos, que já tivessem exercido o cargo anteriormente, ou a portugueses que tivessem se destacado nos meios esportivos.  O CND já apontava para a importância cívica das associações esportivas no decreto-lei 3.199.  De acordo com o decreto, as entidades esportivas não poderiam gerar lucro para seus financiadores ou para seus dirigentes, visto que essas entidades exerciam uma função de caráter patriótico.

O esporte era então visto como um dos grandes símbolos da nação. Antes mesmo da declaração oficial de guerra contra o eixo, agentes do Departamento de Ordem Social e Política (DOPS) paulista começaram a pressionar a diretoria de clubes que apresentassem membros de nacionalidade estrangeira, especialmente italianos e alemães. A ação baseava-se no Decreto 383, de 18 de abril de 1938, que vedava a estrangeiros a atividade política no Brasil, incluindo a organização, criação e manutenção de “sociedades, fundações, companhias, clubes e quaisquer estabelecimentos de caráter político”, ou mesmo se associarem a tais agrupamentos (BRASIL, 1938). O próprio Decreto-Lei 3.199, que criou o CND, reforçava a ideia em seu artigo 51, atestando que “As diretorias das entidades desportivas serão compostas de brasileiros natos ou naturalizados; os seus conselhos deverão constituir-se de dois terços de brasileiros natos ou naturalizados pelo menos” (BRASIL, 1941).

A pressão sobre os clubes ligados a colônias estrangeiras aumentou com a publicação do decreto-lei 4.166, de 11 de março de 1942, que avultava a possibilidade do confisco de bens e direitos de cidadãos de nacionalidade alemã, japonesa e italiana, fossem pessoas físicas ou jurídicas. O confisco incluiria uma parte de todos os depósitos bancários e patrimoniais superiores a dois contos de réis (BRASIL, 1942). Para os clubes de futebol, pessoas jurídicas sob o jugo do decreto-lei, havia o risco do confisco de sua sede e de seu estádio, além de boa parte de seus depósitos bancários. Dessa maneira, os paredros dos clubes de colônias decidiram mudar o nome de suas agremiações que fizessem referência direta a um dos países do eixo.

Em São Paulo, o Palestra Itália, que em março de 1942 passou a se chamar apenas Palestra de São Paulo, mudou sua denominação para Sociedade Esportiva Palmeiras ainda em setembro do mesmo ano. Já o Germânia, clube que lançara Arthur Friedenreich no futebol, mas que não aderira ao profissionalismo nos anos 1930, mudou seu nome para Pinheiros, após passar por uma intervenção governamental. Em Belo Horizonte, no mesmo ano, o Palestra Itália passou ser conhecido como Esporte Clube Cruzeiro, adotando o nome de um dos maiores símbolos brasileiros. Em Curitiba, o Savóia – nome da família real italiana – mudou de nome para Esporte Clube Brasil, em uma afirmação hiperbólica do nacionalismo de sua diretoria.

Nos anos seguintes, o CND se estabeleceu como a principal entidade de supervisão e controle do esporte, sobrevivendo ao final do Estado Novo. O conselho detinha controle quase total não apenas sobre os esportes, como também sobre as entidades desportivas. Os estatutos das confederações e das federações a elas filiadas tinham que ser aprovados pelo CND, que poderia propor ao Ministro da Educação a criação ou a supressão de qualquer confederação. No tocante às competições internacionais, o Conselho Nacional de Desportos exercia um controle ainda mais rígido. A participação de qualquer clube ou entidade em uma competição internacional deveria ser previamente autorizada pelo CND, que também era responsável pelas delegações que acompanhavam a seleção brasileira de futebol.

Mesmo após o fim do Estado Novo e o restabelecimento da democracia, o Conselho Nacional de Desportos não sofreu grandes alterações. A entidade ainda detinha a prerrogativa de regular os clubes, federações e competições esportivas nacionais, indicava os chefes de delegações que acompanhavam a seleção brasileira em competições no exterior e pairava sobre toda a organização esportiva nacional, ainda que não exercesse todas suas atribuições de forma regular. Foi apenas com a publicação da Lei Zico – Lei n. 8.672, de 6 de julho de 1993 – que o Conselho Nacional de Desportos foi extinto, tendo durado mais de 50 anos.

Referências:

BRASIL. Decreto-lei n. 383, de 18 de abril de 1938. Diário Oficial da União, 19 abr. 1938, p. 7357.

BRASIL. Decreto-Lei n. 3.199, de 14 de abril de 1941.  Diário Oficial da União, 16 abr. 1941, p. 7453.

BRASIL. Decreto-Lei n. 4.166, de 11 de março de 1942. Diário Oficial da União, 12 mar. 1942, p. 3918.

MAZZONI, Tomás. O esporte a serviço da pátria. São Paulo: [s.n.], 1941.

MAZZONI, Tomás.  História do futebol no Brasil: 1894-19550. São Paulo: Edições Leia, 1950.

VARGAS, Getúlio. Diário.  2V.  São Paulo: Siciliano; Rio de Janeiro: FGV, 1995.


Do turismo aos títulos Mundiais: apontamentos sobre Automobilismo e política na Argentina (1904-1955)

25/01/2021

por Maurício Drumond

Em meios a tantas leituras e anotações decorrentes da produção de um artigo acadêmico, por vezes nos deparamos com assuntos e ideias que acabam não se desenvolvendo ao longo do trabalho. Os motivos para isso variam. Por vezes, o recorte do artigo foge um pouco ao material encontrado. Em outros casos, as ideias não se enquadram exatamente ao escopo da análise proposta no artigo. Isso é ainda mais comum ao escrevermos com limite máximo de páginas ou palavras, onde temos menos espaço para olhares tangenciais que contribuem para a compreensão do objeto, mas que não são essenciais e acabam ficando de fora da edição final. 

Muitas vezes, separamos essa informação com a intenção de utilizá-la em um novo artigo, no futuro. No entanto, são raras as oportunidades em que esse novo trabalho acaba por se concretizar. Eventualmente, damos a sorte de ter uma postagem agendada no blogue no momento em que isso ocorre. É por isso que aproveito minha postagem dessa semana para estabelecer alguns apontamentos sobre automobilismo e política na Argentina durante a primeira metade do século XX, fruto de um trabalho de História Comparada em andamento que acabará por não abarcar todos os elementos aqui presentes. 

Origens do automobilismo argentino – as primeiras décadas do século XX

O automobilismo começa a tomar corpo na Argentina a partir de Buenos Aires, ainda no início do século XX. Os registros históricos apontam que os primeiros automóveis com motor de combustão interna, movidos à gasolina, chegaram à capital argentina entre 1896 e 1898. Dalmiro Varela Castex importou da Europa um triciclo De Dion Bouton e foi o primeiro portenho a ter um registro com permissão para conduzir o automóvel.

Não demorou para que a nova máquina se popularizasse entre a elite local. De acordo com a historiadora Melina Piglia (2014), por volta de 1900 já havia mais de cem carros na cidade, e dez anos depois o número já chegava a quase 5.000 veículos. É nesse período que Dalmiro Varela Castex lidera, em novembro de 1904, a criação do Automóvil Club Argentino (ACA), uma instituição voltada para a organização, o incentivo e a fiscalização do automobilismo esportivo no país. Sua primeira corrida oficial foi realizada em dezembro de 1906, no já desaparecido hipódromo de Nuñez, que assim como o hipódromo do Derby Clube no Rio de Janeiro, deu lugar ao maior estádio de seu país. Nessas primeiras corridas, se enfrentavam renomados membros da elite afeita à modernidades e importadores de automóveis, como Juan Cassoulet.

Em 1910, o ACA organizou a primeira edição do Grand Premio de la Argentina, uma prova de resistência e velocidade ligando as cidades de Buenos Aires e Córdoba, passando por Rosário. De acordo com Eduardo Archetti (2001, p. 69), os carros demoraram dez horas para chegar em Rosário, e o primeiro a alcançar Córdoba demorou quatro dias. O último a chegar o fez apenas uma semana após a largada. a ausência de estradas, o desconhecimento do trajeto e inúmeros problemas mecânicos faziam do Grand Premio de la Argentina uma empreitada única para seu tempo. No entanto, já era possível observar elementos que caracterizaram as famosas corridas de Turismo Carretera que marcariam o automobilismo anos depois: “caminhos pobres, público curioso, pilotos cheios de coragem, verdadeiros aventureiros, e acompanhantes mecânicos capazes dos mais insólitos consertos” (ARCHETTI, 2001, p. 70).

Nas décadas de 1910 e 1920, era possível encontrar muitos pilotos de origens mais modestas, em geral mecânicos, e do interior do país. Alguns competiam empregados por empresas importadoras de carros e peças, ou por alguma revendedora local dos grandes fabricantes. No entanto, muitos outros eram pilotos independentes, que coletavam dinheiro para sua participação em suas cidades ou patrocinadores, em busca dos prêmios em dinheiro, cada vez maiores. A popularização do automóvel também impulsionava o esporte a novas fronteiras. Em 1920, a frota do país já alcançava o impressionante número de 1 automóvel para cada 160 habitantes, proporção maior do que na França (que tinha 1 para cada 169). Sete anos mais tarde, a proporção na Argentina vai  para 1 carro para cada 49 pessoas, com aproximadamente 200 mil veículos, o dobro da frota do Brasil, que possuía o triplo da população (FONTE: PIGLIA, 2018). 

O automobilismo argentino cresceu e se diversificou ao longo dessas décadas iniciais, dando origem a diferentes modalidades. Corridas de velocidade, tanto em circuitos fechados, geralmente disputadas em autódromos, como em circuitos abertos, em trechos de estradas, reuníam carros rápidos e especiais para corridas. No entanto, tornaram-se cada vez mais populares as corridas de regularidade, com grandes distâncias percorridas ao longo de dias, ou semanas. Havia ainda modalidades específicas para veículos com mecânica nacional ou importada, com diferentes cilindradas, ou com carros de corrida ou carros de passeio. 

Ao longo dos anos 1930 e 40 ganha popularidade uma modalidade tipicamente argentina. Corridas de resistência, disputadas em várias etapas em estradas não necessariamente fechadas para o trânsito. A partir de 1937, essas corridas seriam disputadas por automóveis de passeio (ou de turismo, como eram chamados) ligeiramente modificados. Essa modalidade ficou conhecida como Turismo Carretera

Turismo Carretera: Automobilismo e Turismo nas décadas de 1930 e 40

As ações do governo tiveram forte impacto no automobilismo argentino durante a chamada Década Infame. Se, por um lado, as ações do governo em manutenção e obras de melhoramento nas estradas criaram condições de ampliação do alcance do esporte, por outro, diversos empecilhos foram criados a fim de controlar os riscos presentes em sua prática. O já tradicional Grand Premio de la Argentina, organizado pelo ACA, não se limitava mais ao trajeto Buenos Aires-Córdoba, sendo realizado em trajetos diferentes a cada ano entre 1933 e 1943. Já as provas de velocidade, apesar de populares, acabaram  sofrendo embargo do governo em 1934, através da Dirección Nacional de Vialidad (DNV,  Administração Nacional de Rodovias), que proíbe a modalidade após recorrentes mortes em corridas locais. 

Com a proibição de provas de velocidade em território nacional, o Grande Prêmio do ACA é convertido no Primeiro Grande Prêmio Internacional, em 1935, unindo Buenos Aires a Santiago, Chile. O trajeto de cerca de 5.000 km era composto por cinco etapas (Buenos Aires-Mendoza; Mendoza-Santiago de Chile; Santiago de Chile-Neuquén; Neuquén-Bahía Blanca; e Bahía Blanca-Buenos Aires), disputadas por pilotos de ambos países,. A prova era travada com limite de velocidade em território argentino, e velocidade em território chileno. No ano seguinte, o trajeto foi expandido para mais de 6.000 kms e marcas como Chevrolet e Plumouth participam. 

Em maio de 1937, utilizando o argumento de que pretendia privilegiar a circulação de veículos de passeio, a DNV proibiu a realização de provas oficiais em rodovias nacionais, com exceção daquelas que “por seu caráter, busquem difundir o conhecimento do país e fomentem o turismo dentro do mesmo, mediante adequada utilização de estradas argentinas” (citado por PIGLIA, 2018). É nesse contexto em que aparece a nova modalidade de Turismo Carretera.

  O Grand Premio Argentino de Turismo Carretera (TC) foi realizado entre os dias 5 e 15 de agosto de 1937. A bandeirada de largada foi dada pelo presidente argentino, general Augustín Justo, e aparece como destaque o nome do jovem piloto Oscar Gálvez, que se tornaria uma das lendas do automobilismo no país, juntamente com Juan Manuel Fangio, que se iniciou no TC do ano seguinte. 

A própria concepção das TC foram forjadas pelo Estado argentino, através da DNV. Uma série de normas estabelecia que poderiam participar apenas carros de passeio (com poucas modificações permitidas), com chassis e motores da mesma marca, capota fechada, e velocidade máxima de 120 km/h. Todos os carros deveriam seguir as orientações gerais de trânsito e deveriam estar dentro das normas para rodar pelas cidades do país. 

O Estado buscava assim assegurar um propósito de integração nacional e de apoio ao turismo proporcionado pelo automobilismo. O esporte serviria como propaganda do turismo interno, estimulando viajantes a percorrer os mesmos trajetos com seus próprios carros, a visitar locais antes desconhecidos e a conhecer e confiar na rede de vias rodoviárias do interior do país. O fato dos automóveis que corriam nessas provas serem veículos de passeio faria com que turistas se sentissem mais confiantes na segurança das estradas. O limite de velocidade relativamente baixo tornava as corridas mais seguras para pilotos e para as pessoas que se aglomeravam ao lado das pistas para assistir. O menor número de acidentes fatais era fundamental para construir a confiança do público nas estradas. 

As provas internacionais levavam essas propostas a patamares ainda maiores. Inicialmente organizadas entre Argentina e Chile, em 1940 o ACA passa a organizar novas empreitadas que se coadunavam com o ideal Pan Americanista que ganhava força com a Segunda Guerra Mundial. A Argentina, país com tradição de neutralidade, reforçava suas relações com seus vizinhos hispanófonos da América. Nessa ocasião, foi organizado o Grande Prêmio Internacional do Norte,  ligando Buenos Aires a Lima, passando por La Paz. Juan Manuel Fangio, correndo com um Chevrolet, foi o vencedor da prova, com tempo total de 109 horas, 36 minutos e 16 segundos. 

O sucesso da prova foi tanto que o ACA planejava ampliá-la, planejando sua extensão à Caracas em 1941 e Nova York em 1942. No entanto, a escalada da guerra e a posterior entrada dos Estados Unidos após o ataque japonês em Pearl Harbor levaram ao cancelamento das provas até 1948. Os custos para os pilotos participantes era muito elevado. As provas duravam muitos dias e exigiam muito de pilotos e seus carros. Uma grande equipe de mecânicos e quantidade de peças era fundamental para resistir a todos os problemas que surgiriam durante a jornada. A dificuldade em conseguir peças, combustível e dinheiro para a participação levou ao cancelamento das principais provas, que foram sendo retomadas gradativamente após o final da guerra. 

Em 1948, já sob o governo de Juan Perón, a prova Buenos Aires-Caracas é realizada. Entre os 141 participantes, contavam-se 8 peruanos, 5 chilenos, 5 bolivianos, 3 venezuelanos, 1 uruguaio e 119 argentinos (ARCHETTI, 2001, p. 80). O trajeto, com 9,580 km, foi percorrido em 20 dias, com 5 dias de descanso. No entanto, o TC já começava a perder espaço para outra modalidade do automobilismo, as corridas de velocidade. Com a chegada de Perón ao governo, novos ideais passaram a reger o ideal do automobilismo como esporte e seu potencial serviço à nação. 

Um Novo Automobilismo na Nova Argentina de Perón.

O governo de Juan Domingo Perón estabelece uma nova relação entre Estado e os diversos campos esportivos na Argentina. Com aporte financeiro do Estado, o Automóvil Club Argentino adquire carros de corrida para formar uma equipe para disputar provas na Europa. Correndo com uma Maserati, Fangio venceu quatro provas na Europa em 1949. No ano seguinte, Fangio e José Froilán González estrearam na Fórmula 1 Internacional. A popularidade e habilidade dos pilotos argentinos era agora posta na vitrine internacional, em disputas com os melhores pilotos do mundo. A Nova Argentina de Perón exibia seus frutos, demonstrando a capacidade do povo argentino quando propriamente guiado, diria a propaganda do governo. 

E o resultado não poderia ter sido muito melhor. Fangio foi campeão mundial de Fórmula 1 em 1951, 1954 e 1955, durante o período peronista, e ainda em 1956 e 1957, já depois da queda do Presidente argentino. Já González foi vice-campeão em 1954 e ficou marcado por ter conseguido a primeira vitória da Ferrari em uma corrida de Fórmula 1, em 1951. A equipe argentina era acompanhada por jornalistas que transmitiriam as vitórias nacionais para a América. 

Em 1950, ao receber os pilotos que voltavam de sua temporada na Europa, Perón teria perguntado se os visitantes precisavam de alguma ajuda de seu governo. Fangio teria tomado a palavra ao afirmar: “Precisamos de um autódromo, general” (LUPO, 2004, p. 308). Sendo verdadeira ou não essa versão dos acontecimentos, o fato é que em janeiro de 1951, a cidade de Buenos Aires anunciou o início da construção do novo autódromo municipal, que ficaria pronto 15 meses depois. O autódromo, com diversos circuitos e capacidade para mais de 100 mil pessoas, seria um dos maiores símbolos dessa nova relação entre o automobilismo e o Estado argentino. 

Imagens do Grande Premio de Buenos Aires de 1953. Vale notar a presença de Perón nas imagens do evento.

Nomeado inicialmente como Autódromo 17 de Outubro, em homenagem a uma importante data do Peronismo, o dia da Lealdade, o circuito marcou o ingresso da Argentina no calendário oficial do circo da Formula 1, como a primeira prova do ano a partir de 1953. 

Considerações Finais

O Turismo Carretera Marcou uma importante fase no automobilismo argentino. Em um período em que as ambições políticas de projeção internacional do governo argentino tinham como maior ênfase sua relação de supremacia com seus vizinhos de língua espanhola (ou seja, excetuando-se o Brasil), a modalidade serviu tanto para o incentivo de uma política interna de unidade territorial e de difusão do turismo doméstico, como um mecanismo de afirmação da superioridade do país em uma área profundamente ligada à tecnologia e à modernidade como o automobilismo. 

A realização das provas internacionais fortaleceram esses laços, com provas de múltiplos trajetos unindo diversos países da América do Sul. Argentina, Chile, Peru, Bolívia e até Colômbia receberam os pilotos de Turismo Carretera, e mais países ainda tiveram pilotos participantes das provas, em geral dominadas por argentinos. 

Com o final da Segunda Guerra Mundial e a ascensão de Juan Perón, uma nova visão política sobre a Argentina e o esporte passa a vigorar no país. O final da primeira metade do século XX vê assim uma profunda mudança no automobilismo do país.O Turismo Carretera perde espaço para as provas de velocidade em circuitos fechados. Com financiamento do governo peronista, uma equipe argentina passa a disputar o principal campeonato do mundo e se destaca com as vitórias daquele que foi considerado por muito tempo o melhor piloto da história: Juan Manuel Fangio. Para completar, o novo governo argentino constrói um novo circuito para a cidade de Buenos Aires, que passa a abrigar provas internacionais de Fórmula 1. De referência regional, a Argentina se torna um símbolo mundial para o esporte. 

Referências:

Archetti, Eduardo P. (2001). El potrero, La Pista y el Ring: las Patrias del Deporte Argenitno [The Paddock, The Racetrack and the Ring: the Homelands of Argentine Sport]. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica.

Lupo, Victor (2004). Historia política del deporte argentino (1610-2002) [Political History of Argentine Sport (1610-2002)]. Buenos Aires: Corregidor.

Piglia, Melina (2014). Autos, rutas y turismo. El Automóvil Club Argentino y el Estado [Cars, Routes and Tourism. The Automobile Club of Argentina and the state]. Buenos Aires: Siglo XXI Editores.


Futebol como Diplomacia: a Política de Apaziguamento

31/08/2020

por Maurício Drumond

1938. A Alemanha estava sob o regime nazista desde 1933 e já dava claros sinais de que a guerra estava próxima. No dia 14 de maio de 1938 as seleções de futebol da Inglaterra e da Alemanha se encontraram no Estádio Olímpico de Berlim, em um jogo amistoso que marcou a história. Sob os olhares de 105 mil espectadores, a equipe britânica cumprimentou os oficiais do regime com a saudação nazista e depois derrotou os alemães por 6 a 3. Mas o que teria motivado o encontro de dois países que pouco mais de um ano depois estariam se enfrentando em uma das mais devastadoras guerras da história? E por que teriam os ingleses feito a saudação à romana, um dos maiores símbolos do movimento fascista?

A política do Apaziguamento

Ainda sob o impacto dos efeitos da I Guerra Mundial e de seu alto custo de vidas humanas, Inglaterra e França buscaram evitar o confronto com a Alemanha de Hitler através do que se convencionou chamar de “Política de Apaziguamento”, na qual os países mantinham uma política de boa vontade e condescendência perante às investidas alemães na Europa (como no caso da remilitarização alemã e da anexação da Áustria com a Anschluss) e buscavam se aproximar do governo de Hitler. O auge dessa política se deu com a Conferência de Munique, realizada alguns meses após o jogo, que levou Churchill a proferir a célebre frase: “Vocês puderam escolher entre a desonra e a guerra. Vocês escolheram a desonra e terão a guerra”.

Inicialmente, a política apaziguadora de Neville Chamberlain, contou com grande apoio popular e da mídia britânica. Após a assinatura do tratado de Munique, Chamberlain foi recebido com festa ao sair do avião, em seu retorno para Londres, ao proferir o discurso sobre a “Paz de nosso tempo“, no dia 30 de setembro de 1930 (Peace o four time).

No entanto, poucos meses depois a Alemanha invadiria o resto da Checoslováquia, e menos de um ano depois a II Guerra Mundial teria início com a invasão da Polônia. A política de apaziguamento seria então considerada um grande erro, como descrito no livro “Guilty Men” (Homens Culpados) publicado em 1940, em meio à guerra e aos bombardeios alemães a Londres. Assinado por “Cato” (pseudônimo para três jornalistas ingleses), o livro apontava Chamberlain e outros líderes do governo britânico como responsáveis pela guerra. Eles teriam sido fracos e medrosos, e o apaziguamento uma política imoral e covarde. O clima de guerra e a disputa interna da política britância, especialmente entre Churchill e Lorde Hallifax (então ministro de relações exteriores, que apoiava a paz com o Eixo), contribuíram para o tom do livro.

Após o final da guerra, no primeiro volume de sua obra “Memórias da Segunda Guerra Mundial”, Churchill aponta o apaziguamento como um erro de Chamberlain, ainda que motivado por boas intenções. Apesar de se vender no livro quase que como o único a se opor à política, Churchill tentava apresentar uma visão que se coadunava com o início da Guerra Fria, afirmando que ao invés de se buscar o apaziguamento com o agressor, o Reino Unido deveria ter buscado se aliar a outras potências contra um inimigo em comum. Visão que se manteve por anos como a principal visão sobre o tema na historiografia.

Nos anos 1960, historiadores revisionistas como AJP Taylor buscam novas interpretações e começam a apontar a pequena margem de manobra política na qual Chamberlain estava inserido, e a necessidade de ganhar tempo para preparar as Forças Armadas britânicas para uma eventual guerra. Já a partir dos anos 1990, com o fim da Guerra Fria e a abertura de arquivos soviéticos, novos debates historiográficos voltam a apontar o quinhão de responsabilidade de Chamberlain e sua política de apaziguamento sobre a eclosão da Segunda Guerra. Entre os novos fatores elencados, a visão de que Chamberlain sobrestimou sua capacidade de negociação com Hitler, de modo a manter um aliado forte próximo à fronteira com a União Soviética, demonstra a importância da manutenção de boas relações com a Alemanha nazista. Dessa maneira, fica evidente que o Ministério dos Assuntos Exteriores britânico, o Foreign Office, via a aproximação diplomáticas com o III Reich um elemento central da política externa inglesa. Dentro dessa política, uma melhor relação com a Alemanha era fundamental, e o futebol foi um dos meios nos quais um símbolo de boa vontade entre os dois países poderia ser demonstrado.

Apaziguamento pelo futebol

A aproximação do futebol britânico com a Alemanha nazista teve início com o convite aceito pela equipe do Derby County FC no final da temporada de 1933/34. Os Rams (Carneiros), como também são conhecidos, terminaram a temporada como quarto colocados na primeira divisão do campeonato da Football Association e receberam o convite da Federação Alemã de Futebol (Deutscher Fußall-Bund)para participar de quatro jogos amistosos em maio. Além de uma temporada de sucesso, a equipe contava com alguns jogadores da seleção britânica, até então vista como a principal equipe de futebol do mundo.

A participação dos Rams ia diretamente ao encontro da diplomacia cultural britânica de aproximação com o novo regime implantado por Hitler a partir de 1933. Dave Holford era um ponta esquerda de apenas 19 anos que fez parte da equipe que viajou à Alemanha. Anos mais tarde, o então jovem atleta rememorou:

Em todos os lugares onde íamos, podíamos ver a suástica. Se dizíamos “bom dia”, eles respondiam com “Heil Hitler”. Se você entrasse em uma lanchonete e dissesse “bom dia”, teria um “Heil Hitler” como resposta. Já naquela época, era possível perceber que se tratava de um país que se preparava para a guerra (Fonte).

Os jogos não foram o passeio tranquilo que os jogadores britânicos provavelmente imaginaram, com a tradicional empáfia inglesa de inventores do esporte. Enfrentando equipes de selecionados de jogadores locais, os Rams acumularam três derrotas (5 a 0 em Colônia, 5 a 2 em Frankfurt e 1 a 0 em Dusseldorf) e um empate (1 a 1 em Dortmund). No entanto, os confrontos foram marcados pela primeira vez em que uma equipe britânica realizou a saudação à romana, conhecida também como saudação nazista, já que estavam na Alemanha. A saudação já se tornara rotina no cotidiano alemão e tinha sido tornada obrigatória em eventos esportivos, simbolizando uma saudação ao füher, mesmo ele não estando presente.

George Collin, zagueiro dos Rams que capitaneava a equipe nos confrontos, teria explicado o fato anos depois:

Dissemos ao nosso técnico, George Jobey, que não queríamos fazer o gesto. Ele conversou com os dirigentes, mas eles disseram que o embaixador britânico insistiu que deveríamos fazê-lo. Ele afirmou que o Foreign Office tinha medo de que nossa recusa poderia causar um incidente internacional. Seria uma ofensa a Hitler, em um momento em que as relações internacionais eram tão delicadas.

Então fizemos como pedido. Todos nós, com exceção de nosso goleiro, Jack Kirby. Jack fez questão de não faze a saudação. Quando chegou a hora, ele apenas continuou com o braço para baixo e quase virou de costas para os dignitários. Se alguém notou, não falou nada. (Fonte)

A fotografia da ocasião corrobora o testemunho de Collin. Nela podemos observar o semblante de constrangimento de muitos jogadores do Derby County, com alguns mantendo sua cabeça baixa e os olhos fixados no gramado a seus pés. No canto esquerdo, o goleiro Jack Kirby está de lado, quase se virando de costas à tribuna, com os braços para baixo. A coragem de Kirby parece não ter tido maiores repercussões, e novos encontros futebolísticos ocorreriam voltariam a ocorrer.

Em dezembro do ano seguinte, a seleção alemã visitaria Londres para enfrentar a tão temida seleção inglesa. E o local da partida foi o antigo estádio do Tottenham, White Heart Lane, um clube conhecido por sua ligação com a comunidade judaica inglesa. O jogo gerou alguns protestos de torcedores em formas de cartas e de ameaças de boicotes e manifestações no dia do jogo. Duas horas antes do início da partida, uma passeata anti-nazista foi organizada, distribuindo panfletos e carregando cartazes com dizeres como “O esporte do fascismo é a caça aos judeus”, “Acerte Hitler abaixo da cintura” e “Mantenha o jogo limpo, combata o fascismo”. Ao se aproximarem do estádio, a passeata foi atacada pela polícia, que rasgou panfletos e cartazes, prendeu manifestantes e deu fim ao protesto. Outros manifestantes distribuíram panfletos em outras partes da cidade ou os jogaram das janelas dos ônibus.

Atenção para a bandeira nazista a meio mastro no canto superior direito.

Algumas fontes afirmam também que a bandeira nazista que era exibida no estádio foi momentaneamente retirada por um manifestante, que foi preso em flagrante. Ernie Wooley subiu na cobertura da arquibancada e cortou a corda que mantinha a bandeira a meio mastro (em homenagem à recente morte da princesa Victoria) e foi detido assim que desceu. No dia seguinte, foi liberado. O dia do jogo foi marcado também pela grande afluência de torcedores alemães à Londres, como é relatado na reportagem disponível no canal do British Pathé, no youtube.

Se as fotos do jogo mostram a equipe alemã realizando a saudação à romana, o vídeo da reportagem mostra as cenas do jogo, onde é possível reparar que o gesto foi restrito aos atletas da equipe alemã.

Seleção Alemã saudando a equipe inglesa no início do jogo, em 1935.
Imagem retirada do vídeo da reportagem, mostra o momento da saudação, com a equipe inglesa também em enquadramento.

A seleção inglesa venceu o jogo por 3 a 0, sem maiores contratempos. Como retribuição à visita alemã, a Federação Alemã de Futebol convidou a seleção inglesa para um amistoso em Berlim, no Estádio Olímpico, que havia sido reformado para as Olimpíadas de 1936 e era um dos maiores símbolos da política esportiva do III Reich.

Para o Foreign Office, o jogo era mais uma grande oportunidade para se estreitar as relações entre os países. Apesar do chefe da pasta, Robert Vansittart, ser um opositor do apaziguamento defendido por Neville Chamberlain, este escreveu a Stanley Rous, secretário da Football Association (que seria presidente da FIFA de 1961 a 1974), pedindo que este se certificasse de que a equipe inglesa realizasse um papel de primeira ordem em solo alemão, o que significava bom comportamento e um futebol exemplar.

A equipe alemã já estava treinando há algumas semanas na Floresta Negra e vinha embalada por uma série invicta de 16 jogos desde 1937. A seleção nazista era ainda mais forte após a anexação da Áustria ocorrida dois meses antes e da absorção de quatro jogadores austríacos. No início da década de 1930 a seleção austríaca era considerada uma das mais fortes da Europa e era chamada de Wunderteam e ainda tinha muitos bons jogadores. Matthias Sindelar, craque e líder do time, também foi convidado pelos alemães para se juntar à seleção, mas recusou. No entanto, a federação inglesa exigiu que nenhum jogador austríaco participasse do jogo pela equipe alemã. Como contrapartida, foi organizado uma série de jogos extra contra a equipe do Aston Villa


Era assim compreensível o receio do Foreign Office, que desejava manter uma boa relação com a Alemanha, mas também reviver o prestígio esportivo britânico. Uma vitória era fundamental. Como parte da demonstração de camaradagem por parte dos ingleses, os jogadores britânicos, incluindo o jovem Stanley Matthews, então com apenas 23 anos, foi aconselhada pelo embaixador britânico em Berlim, sir Neville Henderson, a realizar a saudação à romana perante Hitler, como ocorrera com o Derby County alguns anos antes. Henderson teria dado a seguinte explicação aos jogadores: “Quando me encontro com Hitler, faço a saudação nazista porque é a cortesia normal esperada. Ela não demonstra nenhuma simpatia pelo que Hitler ou seu regime possam fazer”.

Tendo em vista as instruções do embaixador e a pressão da federação por um bom comportamento, os jogadores se postaram à frente das tribunas e executaram a saudação nazista durante o hino alemão, perante às autoridades nazistas, ao grande público e a fotógrafos que marcaram o momento que entrou para a história do esporte, ainda que de forma negativa. Hermann Göring (Presidente do Parlamento), Joseph Goebbels (Ministro de Propaganda), Rudolf Hess (vice führer do Partido Nazista) e Joachim von Ribbentrop (embaixador alemão no Reino Unido) assistiram ao jogo.

Os 22 jogadores perfilados fazem a saudação à romana no jogo em Berlim, 1938.

Iniciado o jogo, as amabilidades se encerraram e a equipe inglesa aplicou uma das maiores goleadas já sofridas pela Alemanha. Fechando o placar com um chute que furou a rede do Estádio Olímpico, os Ingleses derrotaram os alemães em casa por 6 a 3 e fizeram o que deles era esperado. Para os alemães, uma derrota para os “pais do futebol” não era algo do que se envergonhar. Muito pelo contrário, o jogo havia sido um grande sucesso em termos de propaganda, em especial devido à realização da saudação à romana pelos visitantes (veja uma reportagem britânica sobre o jogo aqui).

O jogo contra o Aston Villa, também no estádio Olímpico, no dia seguinte, também foi marcado por grande público. No início do jogo, todos os jogadores do Aston Villa fizeram a saudação à romana. O jogo foi marcado por grandes vaias do público, uma vez que o Villa colocava em ação uma nova estratégia para a época, a linha de impedimento. Após a vitória por 3 a 2, os jogadores ingleses saíram de campo sem fazer uma segunda saudação, o que gerou um certo desconforto diplomático, que logo foi contornado. Os jogos seguintes da equipe inglesa na Alemanha foram em Stuttgart e Dusseldorf e ocorreram sem maiores problemas no que diz respeito à saudação por parte dos ingleses. A foto abaixo, de um dos jogos do Aston Villa na Alemanha (talvez o jogo em Berlim, mas não consegui ter certeza na identificação), mostra a equipe saudando as autoridades, ainda que de forma tímida, sendo possível perceber o constrangimento de alguns jogadores.

Ainda que o discurso majoritário por parte de atletas e envolvidos em relação aos encontros tenha mudado nos anos seguintes, acompanhando as mudanças de visão sobre o apaziguamento, é importante entendermos que no momento desses confrontos, a política implementada por Chamberlain era vista como um grande sucesso, especialmente depois da Conferência de Munique. Com o início da guerra e especialmente após o seu fim, antigos simpatizantes do apaziguamento e da Alemanha nazista mudaram seus discursos e criaram uma nova narrativa sobre seu passado. As fontes, no entanto, nos contam outro lado da história. Ainda assim, a relação entre os jogos de futebol e a política de apaziguamento nos proporciona importantes reflexões sobre a importância do futebol como meio de diplomacia e a natureza frágil das relações internacionais nesse período.


O ESPORTE EM TEMPOS DE PANDEMIA: LIÇÕES DA GRIPE ESPANHOLA DE 1918-1919.

30/03/2020

por Maurício Drumond

Vivemos um momento de exceção. Acompanhando a declaração da Organização Mundial de Saúde (OMS) no dia 11 de março de 2020 da pandemia de Covid-19, causada pelo novo cornonavírus (Sars-Cov-2), diversos países e organizações internacionais, dentre elas as esportivas, passaram a adotar medidas enfáticas visando sua contenção e combate.

Em um país onde o Presidente da República afirma, indo contra todas as indicações de organizações e especialistas nacionais e internacionais da saúde, que a pandemia não passaria de uma “gripezinha” ou de um “resfriadinho” para ele, que teria um suposto “histórico de atleta”, faz-se mister analisarmos o impacto da pandemia em atletas e no mundo do esporte.

Na contramão do que afirma o presidente, é grande a lista de atletas profissionais, estes sim com real “históricos de atleta”, que contraíram o Covid-19 e sentiram seus efeitos. No futebol, diversos jogadores já testaram positivo para a doença, como Paulo Dybala e Blaise Matuidi, da Juventus, assim como o ex-jogador Paolo Maldini, agora dirigente do Milan. O Valência, da Espanha, informou que 35% de sua equipe contraiu a doença, preservando o nome dos atletas. Já no basquete, entre outros astros da NBA, o nome de Kevin Durant se destaca. MVP das finais por dois anos seguidos (2017-2018), o atleta encontra-se atualmente em quarentena, se recuperando em sua casa. No vôlei masculino, o jogador Earvin Ngapeth, da seleção francesa, chegou a ser hospitalizado devido ao vírus. Em suas redes sociais, o jogador declarou: “Eu testei positivo para # covid19 há uma semana. A parte mais difícil ficou para trás, passei 3 dias complicados, mas agora acabou, vou sair do hospital em uma semana. Todos vocês, fiquem em casa, isso não acontece apenas com os outros”

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Imagem 1: Pùblicação de Earvin Ngapeth em rede social.

Um dos casos mais impactantes de atletas afetados pela covid-19 até o momento, no entanto, deve ser o do medalhista olímpico de natação sul-africano Cameron van der Burgh. O recordista mundial de 50m nado peito declarou em suas redes sociais: “É, de longe, o pior vírus que já encarei, apesar de ser um indivíduo saudável com pulmões fortes (não fumar/praticar esporte), viver um estilo de vida saudável e ser jovem”.

O impacto nas competições esportivas não foi diferente. Até mesmo os Jogos Olímpicos de Tóquio, originalmente agendados para ocorrer entre julho e agosto de 2020, foram adiados para o mesmo período de 2021. No futebol, os impactos começaram com a realização de jogos sem público, medida que foi rapidamente suplantada pela suspenção de jogos das principais competições nacionais e internacionais do planeta. No Brasil, os campeonatos estaduais e regionais foram suspensos, com o campeonato mineiro sendo o primeiro a parar, no dia 15 de março, e o roraimense o último, no dia 20. Os campeonatos nacionais, como a Copa do Brasil, o Campeonato Brasileiro Sub-17 e a Copa do Brasil Sub-20, no futebol masculino, e os Campeonatos Brasileiros Femininos A1 e A2, foram suspensos. Os Campeonatos Brasileiros Masculinos, ainda não iniciados, também estão suspensos. As principais ligas ao redor do mundo também foram interrompidas. Libertadores da América, Liga dos Campeões da Europa, os campeonatos nacionais europeus, todos suspenderam suas atividades, em uma ação que só teve paralelo na Segunda Guerra Mundial, se olharmos para a Europa. No caso dos países americanos, a ação é inédita.

Em outros esportes, o mesmo pode ser observado. Na Fórmula 1, os Grande Prêmios da Austrália e de Mônaco foram cancelados, enquanto os GPs de Barein, Vietnã, China, Holanda, Espanha e Azerbaijão foram adiados, e novos adiamentos devem ocorrer com o tempo. No basquete, a NBA suspendeu sua temporada indefinidamente no dia 11 de março. O mesmo ocorreu com hóquei sobre o gelo e outras competições.

Partindo da premissa de Heinrich Heine, de que o historiador é o profeta que olha para trás, podemos buscar exemplos na história que iluminem as ações que estão sendo tomadas, a fim de julgar sua relevância. E como em muitas outras áreas ligadas a essa nova pandemia, a comparação mais próxima a ser feita é com o caso da gripe espanhola, ocorrida nos anos de 1918 e 1919.

O impacto da gripe espanhola sobre o futebol já foi muito bem abordado no artigo do professor Elcio Cornelssen, publicado aqui na semana passada. No entanto, pretendo me ater não aos impactos da gripe no futebol, mas a diferentes competições esportivas organizadas no período.

A gripe espanhola teve como elemento central em sua difusão pelo mundo os momentos finais da Primeira Guerra Mundial. Por conta da Guerra, as principais competições esportivas internacionais já estavam suspensas desde 1914, especialmente na Europa. Na América do Sul, o Campeonato Sul-Americano de futebol masculino (que mais tarde seria renomeado como Copa América), foi adiado de 1918 para 1919 devido à pandemia. A competição programada para o Rio de Janeiro seria realizada no mês de maio de 1919, envolvendo apenas as seleções do Brasil, Argentina, Uruguai e Chile. O torneio se tornou célebre por ter sido o primeiro título internacional da seleção brasileira. O jogo final, contra o Uruguai, foi homenageado com a popular música de Pixinguinha, um a zero, celebrando o gol de Arthur Friedenreich.

Para além do futebol e da América do Sul, os Estados Unidos também mantiveram seu calendário esportivo inalterado durante a Grande Guerra. E por lá os esportes também sentiram o impacto da pandemia. Em muitos estados, os campeonatos escolares e universitários foram interrompidos e eventos com aglomerações públicas foram proibidos. No baseball, a final do campeonato nacional, chamada de “World Series”, foi disputada entre o Boston Red Sox e o Chicago Cubs no início de setembro, devido ao esforço de guerra (que só terminaria oficialmente em novembro daquele ano), o que a antecipou ao pior momento da pandemia. Em estados onde ainda se realizavam eventos esportivos, pode-se encontrar registros de jogadores utilizando máscaras durantes os jogos e de confrontos de equipes universitárias realizados com estádios vazios. Um caso curioso foi a proibição temporária, nos jogos de baseball, da chamada “spitball” (bola cuspida, em uma tradução livre), onde o arremessador cuspia na bola para alterar seu peso e sua resistência ao ar, dificultando assim a ação do rebatedor.

baseball foto

Jogadores de baseball utilizando máscaras durante jogo em 1919.

A competição que sentiria mais a ação da Gripe Espanhol, no entanto, foi a disputa do principal troféu de hóquei no gelo, a Stanley Cup. O confronto ocorreria em formato de “play-off”, com até cinco encontros entre as equipes campeãs das principais ligas do esporte na América do Norte. Pela Pacific Coast Hockey Association (PCHA), jogaram os Seattle Metropolitans, e pela National Hockey League (NHL), os Montreal Canadiens.

Seattle Metropolitans

Equipe do Seattle Metropolitans.

Vale lembrar que algumas regras diferiam entre as duas Ligas, assim os jogos 1, 3 e 5 seriam disputados com as regras da PCHA e os jogos 2 e 4 com as regras da NHL. Todos os jogos foram disputados no estádio de Seattle, e os Metropolitans saíram na frente, vencendo o jogo 1 por 7-0. No jogo 2, os Canadiens empataram a série, mas viram o time de Seattle voltar à liderança no jogo 3. O jogo 4, com regras da NHL, foi um épico empate em zero a zero, o que levou a decisão para o jogo 5, e com ela o debate sobre quais regras deveriam ser utilizadas. Ao final do debate, ficou decidido que utilizariam as regras da NHL, uma vez que o jogo era visto como um desempate do jogo 4. Ao final da prorrogação do jogo 5, o time de Montreal empatou a série com duas vitórias e um empate, o que levaria à realização do jogo 6. Esse jogo, no entanto, nunca foi realizado.

A pandemia de Gripe Espanhola atingiu as duas equipes e diversos jogadores foram hospitalizados. Com cinco jogadores da equipe de Montreal hospitalizados, o jogo 6 foi cancelado horas antes de seu início. Afirma-se que os dirigentes do Montreal Canadiens chegou a oferecer o título à equipe do Seattle Metropolitans, mas ao final das contas, foi decidido que nenhuma equipe seria declarada campeã naquele ano.

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Publicação do cancelamento do jogo extra da final. 

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Placa comemorativa na Stanley Cup referente à temporada de 1919

Quatro dias depois, no dia 8 de abril de 1919, Joe Hall, um dos atletas de Montreal hospitalizados, faleceu no hospital em Seattle, decorrente de pneumonia ocasionada pela gripe. Mesmo com seu histórico de atleta, Hall não resistiu à enfermidade. George Kennedy, técnico da equipe, também foi internado e temia-se o pior. Sua esposa veio de trem para acompanha-lo e ele acabou se recuperando.

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Joe Hall

Ainda que a história não se repita, e que as precauções adotadas hoje em dia sejam muito mais eficazes do que as de 1918-1919, podemos tirar uma desse evento uma lição. Só nos resta torcer para que fiquem todos bem.


UM TWEET QUE ABALOU O BASQUETE

28/10/2019

Por Maurício Drumond

 

O estudo de declarações e protestos políticos é tema recorrente na História do esporte. Eu mesmo já escrevi sobre o tema por aqui algumas vezes. Atos como o de Tommie Smith e John Carlos nos Jogos Olímpicos de 1968 são alvos de diversos estudos. No entanto, no último mês o mundo do basquete vivenciou quase que contrário a esse. No que pode ser definida como uma estratégia de contenção a manifestações políticas no esporte, a reação do governo chinês a uma única postagem no Twitter por parte de um dirigente esportivo deixou claro que o regime leva muito a sério suas relações com o esporte e o impacto que os agentes do campo esportivo podem ter sobre o campo político.

 

O QUE OCORREU?

 

No dia 04 de outubro, Daryl Morey, gerente geral do Houston Rockets (dirigente responsável pela contratação de atletas e gerência da comissão técnica), publicou uma imagem em sua conta do Twitter com o texto: “Lute pela Liberdade, Apoie Hong Kong” (Fight for Freedom, Stand With Hong Kong). A mensagem já foi apagada da conta de Morey; o que não significa nada, pois ainda é facilmente encontrada na internet.

Tweet de Daryl Morey

A mensagem declarava apoio aos protestos que ocorrem há meses no território semiautônomo de Hong Kong, em uma disputa ligada à autonomia do território contra a China continental. A tensão entre o movimento em Hong Kong e o governo chinês se iniciou devido a uma medida legislativa que permitiria que suspeitos de crimes pudessem ser extraditados da ilha de Hong Kong para território continental chinês, ficando fora de sua jurisdição semiautônoma. Vale lembrar que Hong Kong é uma região administrativa especial da República Popular da China (assim como Macau), que detém certa autonomia do governo central e a medida are vista como uma brecha para que a oposição política pudesse ser perseguida e extraditada para a China continental. Como resultado, protestos têm ocorrido há diversos meses, com habituais confrontos com a polícia chinesa.

É importante também notar a força da equipe do Houston Rockets na China, especialmente devido ao astro do basquete Yao Ming. O jogador é um dos maiores nomes do esporte chinês e atualmente comanda a Associação Chinesa de Basquete. Yao jogou na NBA, sempre pelos Rockets, entre 2002 e 2011, ano em que se aposentou devido a lesões. Em 2016, foi nomeado ao Hall da Fama do basquete americano, ato que foi certamente influenciado pela crescente aproximação da NBA com o mercado chinês.

Yao Ming

Yao Ming

A REAÇÃO

Foi nesse contexto que a mensagem de um importante dirigente da franquia mais popular da NBA em território chinês foi recebida. A resposta chinesa ao tweet de Morey não tardou, e foi avassaladora. Apenas horas após a mensagem de Morey, Tilman Fertitta, dono do Houston Rockets, publicou na mesma rede social: “Escutem… @dmoey NÃO fala em nome do @HoustonRockets. Nossa presença em Tóquio é somente pela promoção internacional da @NBA e nós NÃO somos uma organização política”.

Tweet de Tilman Fertitta

Não há dúvidas que a NBA busca cada vez mais uma maior inserção no mercado chinês. De acordo com a agência Reuters, o basquete é o esporte mais popular na China atualmente, com supostamente cerca de 300 milhões de participantes. A entidade ganhou cerca de 47 milhões de novos seguidores na Wiebo, a plataforma de rede social chinesa, somente nessa última temporada, e tem mais seguidores lá do que no Facebook ou no Twitter. A NBA tem parceria com diversos canais de televisão e mídia no país, incluindo uma parceria com a televisão estatal CCTV. Em 2008 foi lançada a empresa NBA China, com valor estimado em 4 bilhões de dólares. Recentemente, a NBA e a empresa de mída chinesa Tencent assinaram uma extensão em sua parecria até a temporada de 2024-25, no valor de $1,5 bilhão.

Dessa forma, não é de se espantar que a pressão chinesa tenha se dado principalmente no campo econômico. Em 6 de outubro, dois dias após o tweet,  Associação Chinesa de Basquete anunciou que suspenderia todo relacionamento com os Rockets e o consulado geral chinês em Houston pediu que o time “esclarecesse e corrigisse imediatamente os erros”. O principal canal esportivo da TV chinesa, CCTV, anunciou que suspenderia a transmissão dos jogos dos Rockets na televisão e a empresa de mídia Tencent declarou que interromperia o streaming dos jogos da equipe. Na última temporada, cerca de 500 milhões de pessoas assistiram a jogos dos Rockets na plataforma da Tencent e mais de 600 milhões acompanharam o time pela TV.

A NBA buscou uma resposta rápida já no dia 7, declarando que lamentava que a mensagem de Morey tenha ofendido muitos dos fãs e amigos na China, mas que “Ainda que Daryl tenha deixado claro que seu tweet não representa os Rockets ou a NBA, os valores da Liga incentivam indivíduos a estudar e a compartilhar suas visões sobre assuntos que considerem importantes”.  Daryl Morey também refirmou em sua conta pessoal que seus tweets eram apenas seus e não representavam os Rockets ou a NBA.

No entanto, a resposta não foi o que os chineses esperavam. Ainda mais quando, no dia seguinte, Adam Silver, comissário da NBA, publicou que “A NBA não se colocará em uma posição de regular o que jogadores, empregados e dirigentes esportivos dizem ou não”.  Ele complementou afirmando: “Sei que existem consequências para a liberdade de expressão; teremos que viver com essas consequências. Para aqueles que questionam nossas motivações, isso vai muito além do que o crescimento de nosso negócio” (fonte).

Adam Silver

Adam Silver

Em reposta à mensagem de Adam Silver, Tencent e CCTV anunciaram que interromperiam a transmissão de todos os jogos da pré-temporada da Liga na China, afirmando: “expressamos nossa forte insatisfação e oposição ao declarado apoio de Silver à liberdade de expressão de Morey. Acreditamos que comentários que questionam a soberania nacional e estabilidade social não pertencem à categoria de liberdade de expressão” (Fonte).

No dia seguinte, 9 de outubro, todos os 11 parceiros oficiais da NBA na China suspenderam suas relações com a NBA, removendo todas as referências à entidade de basquete estadunidense de seus websites, campanhas de marketing e patrocínios. Tudo isso menos de uma semana após o tweet inicial de Morey.

Astros da NBA foram a público tentar reaproximar a franquia de basquete do público chinês. Jams Harden, uma das grandes estrelas da NBA e jogador dos Rockets, declarou em entrevista que “amamos a China, amamos jogar lá”. LeBron James foi ainda mais enfático em sua defesa à relação com a China. “Não quero entrar em uma discussão com Daryl Morey”, ele falou, “mas acre

dito que ele não tinha conhecimento sobre a situação em questão e se pronunciou”. LeBron ainda afirmou que “Todos temos liberdade de expressão, mas por vezes existem ramificações para os problemas que podem ocorrer quando você não está pensando nos outros e está pensando apenas em você mesmo” (Fonte).

 

CONCLUSÃO

As disputas continuam e as pontes queimadas ainda não foram reconstruídas. Adam Silver aposta na participação de Yao Ming para realizar essa ligação, mas o astro do basquete ainda não se pronunciou nesse sentido. No entanto, a reação chinesa a um único tweet, rapidamente apagado, de um dirigente esportivo (e não de uma grande estrela) podem nos oferecer elementos para algumas relevantes considerações.

Primeiramente, é possível perceber a força do esporte como um importante veículo de propaganda e mobilização. A ação coordenada dos diversos agentes chineses na reação ao tweet de Morey, inicialmente focada no Houston Rockets, mas posteriormente difundida para toda NBA devido aos comentários de Adam Silver, demonstram uma organização política de contenção a posicionamentos politicamente indesejáveis. Como um tiro de canhão para matar um mosquito, a reação chinesa acabou por chamar mais atenção ao fato, que passaria largamente ignorado em grande parte do mundo. Mas que pode ser vista também como exemplo para a prevenção de manifestações futuras não apenas nos esportes, mas no campo do entretenimento em geral. A reação chinesa é, sem dúvidas, um recado para protestos futuros.

Além disso, também é importante notar o papel desempenhado pela força econômica como meio de pressão política sobre os agentes do campo esportivo. Tanto atletas como dirigentes, clubes e federações, a própria NBA, foram diretamente atingidos pela força da resposta financeira ao incidente. A fala de LeBron descrita acima revela as preocupações de um atleta com vínculos financeiros estabelecidos através de contratos de imagem e de patrocínios com fornecedoras de material esportivo, por exemplo. Clubes e Federações perdem taxas de transmissão, parcerias, patrocínios e ganhos com vendas de material oficial, que podem somar bilhões de dólares. Políticos chineses não se manifestam e a reação se dá, aparentemente, de forma espontânea por parte de empresas e da opinião pública chinesa. Ao buscarem reafirmar a velha máxima de que esporte e política não se misturariam, a resposta chinesa tenta se vestir de uma aparência também apolítica, no sentido de uma política oficial de governo.

Entre pedidos de demissão de Deryl Morey vindos das redes sociais e de pressões contra a capitulação da NBA por parte de políticos de ambos os partidos do governo estadunidense, a história ainda não se encerrou. Assim como os protestos.

 

 


O caso Henrikh Mkhitaryan: a UEFA e a geopolítica europeia

27/05/2019

Por Maurício Drumond

 

A temporada europeia 2018-2019 ficou marcada pela hegemonia do futebol inglês em suas competições internacionais. Suas duas principais competições, a Liga dos Campeões e a Liga Europa, terão em suas finais confrontos exclusivos entre equipes da Premier League. Se, por um lado, a final da Liga dos Campeões da Europa entre Tottenham e Liverpool ganhou contornos dramáticos pela classificação heroica das duas equipes no jogo de volta das semifinais; foi a final da Liga Europa, a menos badalada das duas, que ganhou os noticiários na semana que se passou. Mas o principal motivo dessa atenção não foi o futebol apresentado por Chelsea e Arsenal e o prospecto de uma final europeia com o clássico londrino. Mais uma vez, questões políticas se impuseram sobre o jogo e ditaram as manchetes esportivas, com a notícia de que o meia do Arsenal, Henrikh Mkhitaryan, não disputaria o jogo devido às tensões políticas entre Armênia, sua terra natal, e Azerbaijão, anfitrião da final europeia.

Armenia e Azerbaijao

Localização de Armênia (em verde) e Azerbaijão (em laranja)

O caso Mkhitaryan já agitava a imprensa desde a qualificação da equipe inglesa à final, uma vez que já se repetira em duas outras ocasiões. Na Liga Europa de 2015, quando ainda defendia as cores do Borussia Dortmund, o meia não enfrentou o Gabala, equipe azerbaijana. O jogador também não viajou com a equipe em outubro de 2018 para um jogo no país contra a frágil equipe do Qarabag, ainda na primeira fase da competição. Na ocasião, o Arsenal não teve dificuldades em vencer a equipe local por 3 a 0 e a ausência do atleta não causou tanta repercussão. Gurban Gurbanov, técnico do Qarabag, chegou a afirmar que os ingleses “pouparam” Mkhitaryan da pressão de jogar perante 68 mil torcedores no Estádio Olímpico de Baku, palco da final do dia 29 (Fonte).

Henrik Mkhitaryan

O meia armênio Henrik Mkhitaryan, do Arsenal.

O fato da questão aparecer com mais força para a disputa da final não deveria ser surpresa para ninguém. No entanto, antes de prosseguirmos, devemos olhar para a história recente da relação entre os dois países, sua disputa pela região de Nagorno-Karabakh e a República de Artsaque, de forma a melhor compreender as causas desse impasse.

República de Artsaque ou Nagorno-Karabakh? Disputas e reconhecimento limitado.

As atuais disputas entre Armênia e Azerbaijão se dão principalmente por disputas étnicas e territoriais em torno da região de Nagorno-Karabakh. A região, de maioria étnica armênia, era parte do Império Russo até a dissolução do mesmo após a Revolução Bolchevique de 1917, quando se tornou parte da República Democrático Federativa Transcaucasiana, formada pelas atuais Georgia, Armênia e Azerbaijão. No entanto, após apenas três meses de vida (de fevereiro a maio de 1918) as três nações se separaram e Armênia e Azerbaijão entraram em conflito por diversas regiões, incluindo Nagorno-Karabakh. A região foi logo depois invadida por tropas otomanas em meio à Primeira Guerra Mundial, sendo defendida por grupos armênios. Seguindo o fim da guerra, a região foi colocada sob jurisdição azerbaijana, mas grupos armênios continuaram oferecendo resistência através de guerrilhas localizadas. Tal situação se manteve até o início do domínio soviético sobre a região, em 1920.

Regiaõ de Nagorno-Karabakh

Mapa com destaque para a região de Nagorno-Karabakh

Após a anexação dos dois países pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, as disputas fronteiriças foram encaminhadas pelo então Comissário do Povo para as Nacionalidades da URSS, Josef Stalin. Na ocasião, Nagorno-Karabakh foi incluída como Oblast (região administrativa soviética) autônomo da República Soviética do Azerbaijão, e os conflitos foram controlados pelo governo soviético. O declínio da URSS na década de 1980 e sua eventual dissolução trouxeram a questão nacional da região novamente à tona, com a realização de um plebiscito que aprovou a separação da região. Dessa forma, teve início a chamada Guerra de Nagorno-Karabakh, entre forças militares do Azerbaijão e um autoproclamado governo local, apoiado pela Armênia. O conflito durou até 1994.

Após o cessar fogo, a região manteve seu governo autônomo, inicialmente com a denominada República de Nagorno-Karabakh, renomeada em 2107 como República de Artsaque. Internacionalmente, região é majoritariamente reconhecida como parte do Azerbaijão, mantendo controle de facto sobre seu território. A Armênia, apesar de não reconhecer oficialmente o Artsaque por motivos diplomáticos, mantém próxima relação com suas forças governamentais. Já o Azerbaijão continua sua luta diplomática pela retomada de controle sobre o território, e as negociações são mediadas pelo Grupo de Minsk, da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (CSCE).

Mkhitaryan e a Final de Liga Europa da UEFA

Segundo diversas reportagens, Henrikh Mkhitaryan não participará do jogo em Baku por ser armênio, tendo em vista as tensões entre os dois países. No entanto, “Micki” entrou na lista de pessoas proibidas de entrar no Azerbaijão devido à sua visita à região de Nagorno-Karabakh como parte de uma delegação da seleção armênia em 2010 que distribuiu presentes para moradores da região. Na ocasião, a delegação foi recepcionada pelo president do governo local, Bako Sahakyan, e por Samvel Karapetyan, Ministro da Defesa e Presidente da então nomeada Federação de Futebol do Karabakh, que conferiu a Mkhitaryan uma medalha de “Defensor da Pátria”.

De acordo com uma reportagem armênia, o então jogador do Shakhtar Donetsk afirmou na ocasião que a iniciativa partiu dele mesmo. “Tive essa ideia no verão em que me mudei para Shakhtar. Queríamos ajudar a Armênia e a República de Nagorno-Karabakh, as famílias dos defensores da liberdade, para ser mais exato, porque acredito que eles necessitam de tais iniciativas. (…) Espero ser capaz de ajuda-los no futuro também. Estou planejando visitar orfanatos localizados em Yerevan quando retornar para a Armênia no próximo verão” (Fonte).

Pode-se perceber que a ligação de Mkhitaryan com a causa de Nagorno-Karabakh não é mera especulação azerbaijana. Sua imagem é publicamente ligada à questão, tanto que no jogo de volta contra o Qarabag, em Londres, diversos torcedores exibiram a bandeira de Artsaque nas arquibancadas, e um deles chegou a invadir o gramado exibindo o símbolo nacional, enquanto apontava para “Micki”, que estava no banco de reservas (Fonte).

 

Os representantes do governo do Azerbaijão, por sua vez, afirmam que a participação do jogador armênio na final em Baku não seria um problema. O embaixador do país na Inglaterra, Tahir Taghizadeh, afirmou que o atleta receberia o visto e teria garantias de segurança em sua estadia no país. O diplomata teria afirmado à Sky Sports News, na Inglaterra:

Seu problema é ter visitado uma porção militarmente ocupada do Azerbaijão sema permissão do governo azerbaijano. Isso traz consequências, incluindo entrar na lista negra do governo, mas ele terá segurança garantida. Minha mensagem para Mkhitaryan seria: você é um jogador de futebol. Se você quiser jogar futebol, vá para Baku, você estará seguro lá. Mas se você quiser jogar com essa questão, então será uma outra história” (Fonte).

A mensagem, com certo tom de ameaça, não ajudou a solucionar o caso. De acordo com a comunicação oficial do Arsenal, o jogador, juntamente com sua família, decidiu não viajar com a equipe e ficar de fora da final europeia. Taghizadeh apontou para o ato como uma “ação política”, na qual o atleta teria colocado intenções políticas acima das profissionais (Fonte).

Do outro lado, os jogadores do Arsenal planejavam uma homenagem em solidariedade ao colega durante o aquecimento antecedendo à partida, na qual usariam camisas com o nome do jogador armênio. No entanto, a UEFA interveio junto ao clube e proibiu qualquer manifestação. A entidade afirma ter feito tudo o possível para permitir a ida do jogador à final, mas que a decisão de não comparecer ao evento se deve unicamente ao clube e ao atleta.

 

À guisa de conclusão: UEFA e a geopolítica europeia

Em meio a duas finais inglesas das principais competições europeias de clubes, questões geopolíticas europeias tomam o holofote e se apresentam como um inesperado problema para a UEFA. O sistema de final em jogo único das competições da entidade, sediados em localidades definidas com grande antecedência, apresenta limitações significativas, especialmente quando realizados em regiões conturbadas como o extremo oriente europeu. Em 2017, quando Baku foi escolhida sede da final dessa temporada, seria difícil imaginar um problema como esse. No entanto, o histórico de conflitos na região e os relatos de perseguição a ativistas de direitos humanos no país sede poderiam ser encarados como sinais de que essa não seria a sede mais adequada.

Ao se candidatar à sede da final da Liga Europa, o governo do Azerbaijão buscava promover a imagem do país e se dissociar da imagem de tensão e conflito. O caso Mkhitaryan pode ter posto isso a perder, trazendo ainda mais luz ao conflito pouco conhecido e, quem sabe, atiçando as brasas da diplomacia europeia sobre o caso de Nagorno-Karabakh. Dia 27 teremos o resultado da Liga Europa. Mas o resultado final desse jogo levará mais tempo para ser conhecido.

 


O Futebol na Trégua de Natal de 1914

24/12/2018

Há 104 anos, o primeiro 25 de dezembro da Primeira Guerra Mundial ficou marcado como a Trégua de Natal. O evento é um dos mais rememorados momentos da “Guerra para Acabar com Todas as Guerras”, de forma geral motivado pelo sentimento antibelicista e pelo idealismo romântico de paz e civilidade em um dos mais dramáticos e brutais conflitos da história.

Apesar de ser um dos mais simbólicos momentos da guerra, a Trégua de Natal não foi movimento oficial estabelecido pelos Estados beligerantes e não foi estabelecida em todos os campos de batalha. Estatísticas oficiais declaram que o dia de natal de 1914 contabilizou a morte de quase cem soldados ingleses nas trincheiras da França e de Flandres. Ainda que esse número seja significativamente mais baixo do que em outros períodos da guerra, ele demonstra que batalhas foram travadas em alguns setores e que a trégua não foi uma regra seguida em toda a frente ocidental.

Na maior parte do front, os relatos de tréguas são variados, tanto de ingleses como de alemães. Herbert Smart, atacante do Aston Villa que servia no exército britânico, descreveu assim o evento:

No Dia de Natal, fui [até os alemães] e troquei alguns cigarros por charutos. O alemão que conheci tinha trabalhado como garçom em um bar de Londres e podia falar um pouco de nossa língua. Ele disse que eles não querem lutar. É engraçado que um alemão aperte sua mão como se estivesse tentando esmagar seus dedos, e que alguns dias depois esteja tentando te apagar. Não sei bem o que pensar, mas acho que eles estão preparando um grande esquema. Mas nossos rapazes estão preparados.

Herbert SmartFonte: http://wartimeheritage.com/storyarchive1/story_christmas_truce.htm

Dentre os relatos da trégua, ganharam destaque na imprensa eventuais jogos de futebol realizados entre tropas britânicas e alemães na terra de ninguém (região entre as trincheiras inimigas). Tais relatos capturaram a imaginação popular e são frequentemente retratados em menções jornalísticas e especializadas – como sites de história com fins educacionais – e geralmente reproduzem o evento como jogos organizados entre times das diferentes tropas, quase que um amistoso internacional em meio aos escombros da batalha.

O discurso construído ao redor do esporte, exaltando sua suposta capacidade de unir os indivíduos se estabelece aqui como um de seus mais extremados exemplos. Não é acidente que o caso seja lembrado na homepage do movimento internacional Football for peace, para definir sua visão: “Sabemos que o futebol pode realizar feitos incríveis. Lembra-se do natal de 1914, onde muitos soldados britânicos e alemães baixaram suas armas e se conectaram como companheiros humanos em um jogo de futebol armado na terra de ninguém? (…) Nossa visão é que cada país no mundo use a diplomacia do futebol para criar sociedades mais pacíficas e tolerantes”.

Mas até que ponto essa imagem pode ser confirmada através das fontes disponíveis sobre o evento? Em primeiro lugar, podemos descartar as imagens normalmente exibidas em artigos sobre o evento como fontes iconográficas. Jogos de futebol eram um passatempo popular entre tropas afastadas do front, e em geral essas imagens são fruto de momentos de lazer entre oficiais e outros soldados, como nas imagens abaixo.

Fontes: https://www.worldhistory.biz/photos-and-videos-world-war-i/4398-1.html; https://www.iwm.org.uk/collections/item/object/205234299.

Informações sobre jogos de futebol na Trégua de Natal são em sua maior parte provenientes de cartas enviadas por soldados no front para suas famílias nos dias subsequentes. Muitos desses relatos foram publicados em jornais do período e ganharam grande popularidade. O futebol, já visto em 1914 como um elemento de amizade e congregação, virava um símbolo de esperança na guerra que colocava em campos opostos jovens que estariam tentando se matar nos dias seguintes.

No entanto, devemos ter o cuidado ao tratar esses relatos como representações inequívocas do passado. É difícil determinar a veracidade de todos esses relatos. Estariam eles descrevendo o que vivenciaram durante a trégua, ou apenas reproduzindo os rumores e histórias que ecoavam pelas trincheiras? Um dos maiores exemplos foi o relato publicado no jornal The Times no dia 1 de janeiro de 1915, no qual um soldado anônimo relatou que “o regimento disputou um jogo de futebol contra os alemães, que os derrotaram por 3-2”. O mesmo placar foi mencionado por fontes alemães. O tentente Johannes Niemann, do 133° Regimento de Infantaria da Saxônia, escreveu:

Nosso regimento e os Seaforth Highlanders escoceses estavam fraternizando ao longo do front. Peguei meus binóculos olhei com cuidado sobre o parapeito [da trincheira] e vi a incrível imagem de nossos soldados trocando cigarros, schnapps e chocolates com o inimigo. Depois, um soldado escocês apareceu com uma bola de futebol. Os escoceses marcaram seus gols com seus quepes estranhos e fizemos o mesmo com os nossos. Não era fácil jogar no campo congelado. Grande parte dos passes foram muito errados, mas todos jogaram com grande entusiasmo.

Nós alemães nos divertimos muito quando uma rajada de vento revelou que os escoceses não usavam roupa por baixo de seus kilts. Mas depois de uma hora de jogo, nosso Oficial em Comando enviou uma ordem de que deveríamos parar. O jogo terminou com o placar de três gols contra dois a favor dos Fritz contra os Tommy.

Fonte: http://www.telusplanet.net/public/prescotj/data/other/letterstrenches.html

Apesar de se referirem ao mesmo placar, os relatos são de regiões muito distantes no front, impossibilitando a referência ao mesmo jogo. Nada impede que dois jogos com o mesmo resultado tenham sido disputados nos diversos pontos de confraternização ao longo da frente ocidental, mas isso não pode ser encarado como uma certeza. Em outra carta, de acordo como a BBC, um soldado teria relatado: “mandamos um ciclista encontrar uma bola de futebol. Em seu retorno jogamos uma partida contra eles, ganhando facilmente por 4-1”.

Mais do que jogos organizados, de “nós” contra “eles”, há também relatos de jogos mais espontâneos, com dezenas de soldados chutando a bola, sem gols ou times definidos. Esse é um dos poucos casos mencionados por mais de uma fonte provenientes do mesmo local. Frank Naden, em uma entrevista ao jornal Evening Mail, de Newcastle, no dia 31 de dezembro de 1914, afirmou:

No dia de natal um dos alemães saiu das trincheiras com as mãos para cima. Nossos rapazes imediatamente levantaram as suas e nos encontramos no meio, e pelo resto do dia confraternizamos, trocando comida, cigarros e presentes. (…) Os escoceses tocaram suas gaitas de fole e tivemos uma rara festa, que incluiu futebol, no qual os alemães participaram.

Fonte: http://www.christmastruce.co.uk/christmas-truce-football-match/

Em 1983, em entrevista para um canal de televisão na Inglaterra, Ernie Williams, que fizera parte do mesmo batalhão de Naden (6° Cheshires), reafirmou o relato do companheiro em suas memórias, mas com maiores detalhes. Segundo Williams,

a bola apareceu de algum lugar, não sei de onde, mas veio do lado deles – a bola não veio do nosso lado. Eles fizeram uns gols e um rapaz foi para o gol e então começou um bate-bola generalizado. Acho que havia umas duzentas pessoas jogando. Chutei a bola uma vez. Eu jogava bem na época, com 19 anos. Todos pareciam estar se divertindo. (…) Não tinha juiz nem placar, nenhuma disputa. Era somente uma brincadeira – nada como o futebol que assistimos na televisão.

Fonte: http://www.christmastruce.co.uk/christmas-truce-football-match/

É provável que a maior parte dos encontros futebolísticos da trégua de natal tenha seguido esse modelo. Levando-se em consideração que em diversos pontos a terra de ninguém estava devastada pelos meses de confronto anteriores, com corpos em decomposição, a organização desses confrontos não era algo tão simples. Um simples jogo sem times e sem regras seria algo muito mais prático para o encontro. Além disso, a possível repreensão de oficiais de comando também podem ter frustrado iniciativas mais organizadas. Frank Naden, na entrevista ao Evening Mail, também menciona que “no dia seguinte recebemos uma ordem de que toda comunicação e interação amigável com o inimigo deveria terminar”. E documentos oficiais comprovam que no dia 2 de janeiro de 1915 foi emitida a ordem de que “tréguas informais com o inimigo deveriam terminar e qualquer oficial  ou [oficial não comissionado] que inicie uma seria julgado pela Corte Marcial”.

Há pouca dúvida que jogos de futebol ocorreram nessa imprevisível trégua de natal. No entanto, ainda nos resta questionar a forma com que os jogos ocorreram. Segundo as evidências disponíveis, não é possível afirmar que jogos com placar contado e duas equipes de diferentes nacionalidades se enfrentando tenham de fato sido organizados na terra de ninguém, ainda que alguns relatos possam ser elencados. Devido às condições do momento e à informalidade das tréguas ao longo das trincheiras, jogos desorganizados, sem equipes definidas, com soldados chutando a bola de um lado para o outro, parecem ter sido mais prováveis. No entanto, além da forma que tais disputas adquiriram, é interessante observar  o fato desses confrontos terem se tornado um dos elementos mais simbólicos dessa trégua, ganhando predominância sobre outros símbolos mais próximos ao natal, como a troca de presentes (cigarros e bebidas, principalmente). O futebol, nos mais diversos contextos, é visto como símbolo de confraternização e união. Ainda que nem sempre seja esse o caso.