Silêncios e Olhares: algumas observações sobre o uso da imprensa como fonte na História do Esporte

20/12/2016

No estudo da História do Esporte, a utilização de fontes provenientes da imprensa escrita é algo rotineiro. E não é por menos. A cobertura diária dos eventos esportivos, por si só, já seria de grande valia ao historiador, mas além disso, soma-se ainda o fato de os jornais serem um dos principais meios pelos quais as pessoas viveram o futebol e aos quais os historiadores têm fácil acesso – o rádio e a televisão, apesar de terem alcance mais abrangente, ainda permanecem distantes de historiadores, como misteriosos ideogramas que ainda não conseguimos decifrar sua leitura. No entanto, apesar de seu uso massivo, as fontes de imprensa ainda são, por diversas vezes, utilizadas como reconstruções do passado; como excertos de um mundo acontecido, que foram reproduzidos fidedignamente pelos valorosos e isentos jornalistas do período em questão.

Ainda que tal forma de utilização de fontes de imprensa estejam declinando dentro do campo acadêmico da História do Esporte, ela ainda pode ser encontrada com frequência em trabalhos ditos acadêmicos, e por vezes aparecem em propostas de artigos aos quais preciso dar um parecer. Dessa forma, muitos trabalhos interessantes se fragilizam devido ao uso inadequado de fontes históricas.

Neste post, gostaria de destacar brevemente dois artigos que publiquei há alguns anos e que me foram relembrados por ocaisão de um debate sobre este mesmo tema, ao falar de duas importantes – mas não únicas –  variáveis a serem levadas em consideração ao trabalharmos com fontes jornalísticas: seus silêncios e seus olhares. Por “silêncios“, me refiro a fatos não mencionados, esquecidos ou escondidos das páginas dos jornais, e por “olhares“, entende-se os diferentes pontos de vista e as posições defendidas e/ou advogadas pelos meios de imprensa.

Ao falar em silêncios, me lembrei de um artigo publicado em 2008, na revista digital argentina “Lecturas, Educación Física y Deportes“, uma das mais antigas revistas de acesso livre digital que conheço na América Latina. Nesse breve artigo artigo, intitulado “Imprensa esportiva e propaganda política no peronismo: uma comparação entre ‘El Gráfico’ e ‘Mundo Deportivo’“, fiz uma análise ligeira sobre a forma com que as duas principais publicações esportivas do período do primeiro peronismo, as revistas “El Gráfico” e “Mundo Deportivo” representaram em suas páginas a morte e o funeral de Eva Perón, uma importante figura política peronista. Demonstro então que o semanário peronista “Mundo Deportivo” dedicou um número inteiro a Evita, no qual 45 das 75 páginas são dedicadas à esposa de Perón, destacando sua participação em diversos esportes e seu papel como simbolo da nova nação que defendiam existir. Já a revista rival “El Gráfico”, uma referência do jornalismo esportivo portenho que minguava em número de páginas por pertencer a um grupo de oposição ao governo peronista, destaca apenas 3 páginas de sua edição desta mesma semana, com um curto texto na página 3 e apenas fotografias ocupando a maior parte dessa página e das páginas 4 e 5. No curto texto, se resumiam a dizer:

El sábado 26 de Julio, a las 20.25 horas, a muerto Eva Perón, esposa Del primer magistrado, general Juan Perón, y Jefa Espiritual de la Nación. El deporte siente su prematura desaparición, como la siente el pueblo entero de la Argentina, porque su actividad infatigable llegó también hasta nuestro ambiente. Creación de Eva Perón fueron los Campeonatos Infantiles, y las dos fotos que aquí reproducimos la muestran jerarquizando con su presencia esos torneos.

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El Gráfico, 01 de agosto de 1952, p. 3.

Ou seja, pesquisadores que buscassem apenas um desses dois veículos de informação teriam visões bem distintas de quem lesse apenas o outro, acerca da importância do acontecimento. Torna-se fundamental então compreender a conjuntura política do período em questão, a limitada liberdade de imprensa e os meios possíveis de divergência e oposição. Ao produzirem diferentes discursos, escolhas e esquecimentos são indicativos essenciais para que hisoriadores possam fazer uma leitura menos distanciada do passado que investigam. É evidente que isso serve para toda produção histórica, e não somente para a história do esporte, mas devido à importância e à frequência com que fontes jornalísticas são utilizadas por historiadores do esporte, essa preocuipação se torna uma questão central ao nosso campo de estudo.

O segundo elemento que optei por destacar aqui foram os diferentes olhares produzidos pela imprensa. Nesse caso, faço referência a um artigo que publiquei em 2009, no XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), entitulado “A Política no Jornalismo Esportivo: o Jornal do Brasil e o Jornal dos Sports no Dissidio Esportivo dos Anos 30”, no qual faço uma análise comparada da cobertura de dois dos principais jornais do Rio de Janeiro, o JB e o JS, sobre momentos de tensão na disputa política ocorrida entre 1933 e 1937, que dividiu a esporte carioca – e nacional – em duas correntes, o que na época ficou conhecido como o “dissídio esportivo”. Ao acompanhar as páginas dos jornais, torna-se evidente que cada veículo advogava em nome de uma corrente da disputa.

Como exemplo das posições em que colocavam esses jornais, transcrevo duas passagens envolvendo uma tentativa de pacificação ocorrida em 1934, que ao fim acaba por não funcionar, na qual o grupo que se colocava então como defensor do profissionalismo sairia com vantagem. A primeira, da corrente que defendia a CBD e o amadorismo:

A nota dominante em nossos meios esportivos é a tal “pacificação” que, segundo se afirma, os mentores profissionalistas que para a desgraça do nosso sport, ao que parece, o empolgam no momento, vão impingir aos que se tem batido com sinceridade pela verdadeira causa do sport nacional, concretizada nessa organização magnífica e sem similar no mundo inteiro, que é a Confederação Brasileira de Desportos. (Jornal do Brasil, 05/06/1934, p. 24)

Pode-se observar, por este trecho, que o Jornal do Brasil não escondia de que lado estava e em nome de quem falava. Ao se referir à CBD como uma “organização magnífica e sem similar no mundo inteiro”, não havia dúvida de que o jornal estava contrário ao grupo liderado por Arnaldo Guinle, que, de acordo com o próprio jornal, empolgavam o esporte nacional no momento, mesmo que para a suposta desgraça do mesmo.

Já o Jornal dos Sports, ligado ao grupo que defendia o profissionalismo, afirmava:

A pacificação dos sports, hontem feita atravez do pacto firmado pelos “leaders”
mais proeminentes das duas facções que lutavam sem desfallecimentos, há mais
de um anno, é, antes do mais, uma victória para o próprio sport brasileiro, seu
maior beneficiário (…). (Jornal dos Sports, 07/06/1934, p.1)

Essas e diversas outras passagens demonstram a diferença de olhares que dois veículos da grande imprensa carioca apresentavam em suas páginas. Algum pesquisador, ao ler o JB entre os anos 1933 e 1937, poderia se perguntar o que acontecera com Flamengo,  Fluminense e Vasco (este último até 1934, visto que em 1935 volta a se filiar à CBD e retorna as páginas do jornal), visto que os clubes dissidentes praticamente desapareceram das colunas esportivas do diário. Já a leitura excllusiva do Jornal dos Sports pode levar o pesquisador a enxergar os acontecimentos passados de forma tão parcial quanto o outro lado, vendo apenas a força e as benesses dos clubes ligados à Liga Carioca de Futebol. Olhares e silêncios, novamente presentes e atuantes.

Como dito anteriormente, esses cuidados não devem se restringir à história do esporte ou a períodos distantes no passado. Eles são tão fundamentais para a leitura da imprensa atual quanto são para o estudo histórico do esporte. Ainda que tais cuidados sejam elementares na prática de qualquer bom historiador, por vezes não custa nada relembrar o óbvio, que tanta gente esquece.

======= Leituras sugeridas =======

DE LUCA, Tania Regina. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla B. (org.). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005. p. 111-153.

MELO, Victor Andrade de; DRUMOND, Maurício; FORTES, Rafael; Santos, João. Meios de comunicação. In: ______. Pesquisa histórica e História do Esporte. Rio de Janeiro: 7 Letras / Faperj, 2013, p. 113-127.

 

 


JOGOS OLÍMPICOS, UM MOMENTO DE PROTESTOS?

26/07/2016

por Maurício Drumond

Manifestações políticas não são novidades em Jogos Olímpicos. A decepção com o suposto legado que o evento propiciaria à cidade e as avassaladoras crises política e econômica são o combustível ideal para alimentar tais protestos. Às vésperas da cerimônia de abertura, as antecipações à possíveis manifestações populares – com euforia ou preocupação, dependendo de seu posicionamento político – começam a entrar em pauta; ainda que dividam espaço com outras questões como a possibilidade de atentados terroristas, problemas organizacionais e doping, entre outros.

Por aqui, as manifestações organizadas durante a Copa das Confederações em 2013 também marcaram o imaginário nacional sobre a participação contestatória popular e os grandes (ou mega) eventos esportivos. E com ela, a forte resposta policial engendrada durante a Copa do Mundo de 2014, com uma série de prisões preventivas que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Anistia Internacional (AI) definiram como “graves violações dos direitos e liberdades democráticas”, de acordo com o jornal El País.

Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), manifestou-se com o velho mantra do Comitê: “Os Jogos Olímpicos não têm relação com a política”, disseram repetidas vezes diferentes presidentes do COI. Mas a história nos ensina uma diferente lição. Desde sua primeira edição, na cidade de Atenas, em 1896, os Jogos foram por diversas vezes alvo de interesses políticos.

As Olimpíadas de Berlim em 1936, realizadas em pleno regime nazista, já demonstravam o forte simbolismo político ligado ao esporte. Hitler não poupara esforços para construir a imagem internacional de uma grande e bem sucedida Alemanha. Pela primeira vez, os Jogos eram aparelhados pelo Estado e a imagem de uma nação era arquitetada e projetada através do ideal olímpico.

 

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Berlim, 1936.

Já as Olimpíadas de Melbourne, em 1956, foram palco do primeiro boicote oficial. Em tempos de Guerra Fria, a Espanha, a Suíça e os Países Baixos se recusaram a participar dos Jogos, em protesto contra a invasão soviética da Hungria após a Revolução Húngara daquele ano. Já os egípcios, libaneses e iraquianos não compareceram ao evento contra a presença francesa na questão do Canal de Suez. Os Jogos de Melbourne também não contaram com a participação da República Popular da China, que demandava a exclusão de Taiwan da competição.

Devido ao apartheid, regime de segregação racial, a África do Sul foi banida de qualquer competição internacional e ficou de fora das Olimpíadas de 1964, em Tóquio. A sanção só foi revogada na década de 90, após o fim do apartheid, nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992. Nos Jogos de 1976, em Montreal, 22 nações africanas se recusaram a participar devido à não exclusão da Nova Zelândia da competição. Esses países pediam a eliminação da delegação neozelandesa pelo fato de que seu time de rúgbi (os “All Black”) havia rompido o isolamento esportivo decretado à África do Sul, que fora banida das competições esportivas internacionais como meio de pressão contra seu sistema segregacionista. Já o Comitê Olímpico Internacional alegava que o rúgbi não era um esporte olímpico, e que por isso o caso fugia de sua alçada. A Nova Zelândia fez valer seu peso político e levou 84 atletas aos Jogos.

As duas Olimpíadas seguintes foram palco dos mais famosos boicotes olímpicos, em 1980 e 1984, nos Jogos de Moscou e Los Angeles, respectivamente. Em Moscou, 62 delegações, lideradas pelos Estados Unidos, se recusaram a participar da competição, a grande maioria em oposição ao regime soviético. Quatro anos depois, em Los Angeles, foi a vez de a União Soviética liderar o bloco comunista de 14 nações a não participarem dos Jogos. O Irã e a Líbia também decidiram boicotar o evento como forma de protesto político, mas não faziam parte do bloco soviético.

Além dos boicotes, podemos também apontar protestos populares em momentos olímpicos. Em 1968, dez dias antes da abertura dos Jogos da Cidade do México, no dia 02 de outubro, a resposta policial a um protesto pacífico resultou no evento conhecido como “Massacre de Tlatelolco”. O número exato de mortes ainda é debatido, com a maioria das fontes indicando entre 200 e 300 fatalidades. Durante os Jogos, uma das imagens mais marcantes em sua história: Tommie Smith e John Carlos dividem um par de luvas e fazem a saudação dos Panteras Negras no pódio dos 200 metros rasos.

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Peter Norman, o australiano que conquistou a medalha de prata na prova e compartilhou o pódio com os estadunidenses, aderiu à manifestação utilizando um broche da organização “Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos”, que propunha o boicote de atletas afro-americanos caso uma lista de reivindicações dos movimentos por direitos civis dos Estados Unidos não fosse atendida. A entidade desistiu do boicote, mas instruiu seus membros a protestarem de sua forma, como fizeram Smith e Carlos. Os atletas dos EUA foram punidos por sua federação e mandados de volta ao seu país, e Norman também sofreu punição, ficando de fora das olimpíadas seguintes, em Munique.

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Os Jogos de 2008, na China, também foram precedidos de diversas manifestações políticas, especialmente relacionadas à ocupação chinesa do Tibete, durante a passagem da tocha por diversas cidades, como Atenas, Istambul, Buenos Aires, Paris, Londres e São Francisco.

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Protestos em São Francisco, 10 mar. 2008. (AP Photo/Ben Margot)

Os Jogos chineses, em si, não tiveram manifestações significativas em solo chinês, o que também se deve ao caráter autoritário de seu governo. Já no Rio de Janeiro, o caráter autoritário do governo também transparece em diversas situações. Resta-nos ver, como serão os nossos Jogos?

 


Gianni Infantino e a FIFA

01/03/2016

Na última sexta-feira, dia 26 de fevereiro, a Fifa elegeu seu mais novo presidente. O nome é Gianni Infantino, um suíço de 45 que atuava como Secretário-Geral da Uefa desde 2009 e foi catapultado à condição de candidato após Michel Platini ter sido afastado da disputa (para quem esteve afastado do assunto, o ex-jogador francês Michel Platini, então presidente da Uefa, foi banido de qualquer atividade ligada ao futebol pelo Comitê de Ética da Fifa pelo período de oito anos, em dezembro do ano passado).

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Gianni Infantino

Com a saída de Platini, Infantino assumiu o papel de principal nome na disputa contra o presidente da Confederação de Futebol da Ásia, xeque Salman Bin Ebrahim Al-Khalifa, que contava com apoio maciço de federações da Ásia e da África. O suíço adotou então uma campanha com apelo às pequenas, mas numerosas, federações ligadas à Fifa (é importante lembrar que cada federação tem direito a um voto, independentemente de sua trajetória no esporte), com promessas de repasses de verbas a federações, aumento de participantes na fase final da Copa do Mundo e maior transparência na entidade. Vamos olhar mais atentamente a cada uma dessas propostas:

  •  a) Repasses de verbas a federações: sob a rubrica de “projetos de desenvolvimento do futebol”, Infantino indicou que repassaria cerca de 50% da receita da Fifa às federações, prevendo um mínimo de 5 milhões por federação e 40 milhões por confederação nos próximos 4 anos (fonte: Forbes). Uma oferta e tanto para as pequenas federações que são essenciais nas eleições da entidade.

 

  • b) Aumento de participantes na fase final da Copa do Mundo: A proposta mais controversa de Infantino talvez seja a mais provável de ser implementada. Trata-se de aumentar o número de países participantes na fase final da Copa do Mundo (vale lembrar que para a Fifa, as eliminatórias já são parte da Copa), de 32 para 40 países. Em sua atuação na Uefa, o Campeonato Europeu de Futebol deste ano (a Euro 2016) já contará com o aumento de equipes participantes, de 16 para 24, medida que foi muito popular junto às federações mais fracas do continente. Tudo indica que o mesmo ocorrerá na Copa do Mundo, com a oferta de mais uma vaga para Ásia (6 vagas), Europa (14), Oceania (1) e América do Sul (5), e mais duas para a América Central e do Norte (5) e para a África (7), com o fim das vagas de repescagem, mantendo-se ainda as vagas do atual campeão e do país sede.

 

  • c) Maior transparência na Fifa: Tentando reerguer a imagem da entidade após os grandes escândalos de corrupção e de desvios envolvendo nomes importantes da Fifa, Gianni Infantino promete trazer transparência ao seu mandato de quatro anos à frente da entidade. Os passos a serem tomados nesse sentido ainda não estão claros e permanecem sendo apenas promessas, mas a Fifa já demonstrou que a iniciativa em recuperar sua reputação é emergencial e que deveria ser abordada por qualquer presidente.

 

Resta-nos acompanhar as ações do sr. Infantino à frente da maior entidade esportiva do planeta para poder julgá-lo melhor, uma vez que previsões do futuro não são a área de atuação da História. No entanto, se os historiadores são, de fato, os “profetas que olham para trás”, como apontou Heinrich Heine, podemos achar facilmente na História um paralelo à eleição de Gianni Infantino a Fifa.

Em 1974, o brasileiro João Havelange foi eleito para o cargo máximo da Fifa em uma forte disputa com o então presidente, sir Stanley Rous. Na época, a Fifa contava com 139 federações afiliadas com direito ao voto, e Havelange visitou e fez forte campanha junto a 84 deles. Além da compra de votos relatada por Andrew Jennings, de difícil comprovação empírica, a promessa do aumento de equipes na fase final da Copa do Mundo foi também uma das principais armas de Havelange ao angariar os votos das federações menores, especialmente junto a federações da África, Ásia e Concacaf. Havelange cumpriu suas promessas, e a Copa do Mundo, que contava com 16 equipes no início do primeiro mandato de Havelange, em 1974, já tinha as atuais 32 seleções em 1998, seu último ano à frente da entidade. O número de países membros também cresceu muito, chegando aos atuais 309, já depois da saída do brasileiro.

Podemos, assim, ver elementos comuns na ascensão de Havelange e Infantino. Espero apenas que o último não mantenha a característica de grande longevidade dos presidentes à frente da entidade. Havelange governou por 24 anos, e Joseph Blatter por 17 anos. O futebol merece uma rotatividade real de seus presidentes.


Entre Herois e Vilões: O Curioso Caso Dunga

20/10/2015

Por Maurício Drumond

“Martín-Barbero comenta que dor e riso estão entre os sentimentos básicos do melodrama (2006, 168). Ambos também são vitais para as narrativas de futebol, principalmente as que tratam da seleção. Sentimentos cuja ênfase aponta para uma visão de mundo polarizada entre alegria e tristeza, vitória e derrota, heróis e vilões. Esses últimos como sabemos são os protagonistas das narrativas da derrota, e não poderia ser diferente, pois as figuras vilânicas têm um ótimo rendimento dramático.”

Leda Maria da CostaA trajetória da queda: as narrativas da derrota e os principais vilões da seleção brasileira em Copas do Mundo (2008, p. 64).

A história da seleção brasileira está recheada de heróis e vilões. Desde Friedenreich, no Sul Americano de 1919, passando por nomes como Leônidas (Copa Rio Branco de 1932 e Copa de 1938), Pelé e Garrincha (Copas de 1958, 62 e 70), até Romário e Ronaldo (Copas de 1994 e 2002), heróis brasileiros se destacaram em um rol de grandes estrelas que brilharam com a camisa amarelinha. Mais do que nomes de destaque na história de seus clubes, brilharam com a camisa de seleção e se destacaram em grandes vitórias, no stricto ou lato sensibus.

No entanto, como aponta Leda Costa em sua tese citada acima (veja a tese aqui), os heróis não são os únicos a serem rememorados nas narrativas da seleção nacional e em suas formações identitárias. Assim como eles, os vilões aparecem com papel de destaque na história de seleção canarinho. Barbosa e Bigode, por anos símbolos maiores da vilanização de jogadores brasileiros, estão tão presentes na história e na autoimagem de nosso futebol quanto destaques como Didi e Zizinho, por exemplo. Nem mesmo o 7-1 de 2014, atribuído em parte ao ex-campeão Felipão e a um suposto “apagão coletivo” dos jogadores, pôde apagar seus nomes do topo da lista de “vilões” do nosso futebol, uma vez que seus “feitos” foram elementos fundamentais para a formação de nossa identidade enquanto país do futebol. O Maracanazzo continua sendo a maior catástrofe de nosso futebol. Dentre a lista de heróis e vilões de nossa seleção, meu objetivo aqui é destacar uma figura ímpar, que oscila entre os dois grupos: Dunga.

Carlos Caetano Bledorn Verri, mais conhecido como Dunga, estreou na seleção brasileira em um jogo contra a Inglaterra, em 1987, jogando pelo Vasco da Gama, mas só iniciou um jogo como titular em 1989, já como jogador da Fiorentina, e fez parte da equipe que levantou o título da Copa América, no Maracanã. Em pouco tempo, Dunga iria simbolizar os problemas associados à seleção nacional eliminada da Copa do Mundo da Itália, no ano seguinte. Dunga era sinal de futebol ruim.

Isso pode ser visto na coluna escrita por Jô Soares em 30 de junho de 1990, poucos dias depois do gol de Cannigia, que eliminou a seleção da Copa. Nela, Jô diz: “Se a coisa continua, daqui a pouco vai ser realizado o sonho maior do Dunga: noventa minutos de futebol sem espetáculo” (p. 11).

Jo Soares. Jornal do Brasil, 30 Jun 1990, p 11.

Jô Soares. Jornal do Brasil, 30 Jun 1990, p 11.

Assim como o técnico Lazaroni, Dunga e seu estilo de jogo eram considerados culpados pela derrota. A expressão “Era Dunga” se tornou um antônimo do mítico “futebol arte” que seria típico do Brasil. No dia após a derrota, o JB estampava em sua capa: “O talento sepultou a era Dunga” e “Dunga, o símbolo da filosofia pregada por Lazaroni, repetiu conhecida frase do ex-presidente Figueiredo, dita ao deixar o governo brasileiro. Pediu para ser esquecido”.

Jornal do Brasil, 25 jun. 1990, p.1.

Jornal do Brasil, 25 jun. 1990, p.1.

Na coluna de Daniella Wagner, Informe JB (25/06/1990, p. 6), a colunista atacava:

Informe JB 25 jun 1990 p.6

Informe JB, 25 jun. 1990.

A “Era Dunga” ia além do futebol, ela representava qualquer coisa de qualidade ruim do período. Na mesma coluna, Daniella Wagner continuava:

Informe JB, 25 jun. 1990.

Informe JB, 25 jun. 1990.

O humor também se utilizava de Dunga. A equipe da Casseta Popular (antes de sua união com o Planeta Diário e sua ida para a Rede Globo), lançou a propaganda do “Café Dunga”, com dizeres como “Se o Café Pelé já era ruim, imagina esse!” e “O café que não tem a menor intimidade com seu paladar”.

Casseta popular, 1990.

Casseta popular, 1990.

Dunga compartilhava o papel de vilão com o técnico Lazaroni, mas era tido como o símbolo do anticlímax do futebol brasileiro, um “futebol de resultado”, que se opunha ao idealizado “futebol arte” que a mídia brasileira representava como seu ideal.

Dunga, no entanto, daria sua primeira volta por cima em 1994. Mesmo criticado, o jogador foi o capitão da seleção brasileira tetracampeã do mundo nos Estados Unidos. A imprensa, mesmo desconfiava, dava sinais de apoio ao jogador. Oldemário Touguinhó, escrevendo no Jornal do Brasil em 13 de junho, dizia: “Sem ser nenhum virtuose, opinião absurda que agora nos querem enfiar goela abaixo, Dunga provou que é necessário à seleção” (p. 2, caderno de esportes). Aos poucos o jogadores conquistava novo espaço. A mesma coluna “Informe JB”, agora assinada por Teodomiro Braga, dessa vez dizia: “Jogador mais criticado da Copa de 90, na Itália, Dunga é hoje uma unanimidade nacional. A Copa dos EUA está consagrando a verdadeira Era Dunga” (JB, 10 jul. 1994, p. 6).

Dunga não foi o herói, propriamente dito da Copa, mas seu nome transitava do elenco de vilões para o de heróis. Ao levantar a taça, Dunga entrava para a seleta lista de capitães brasileiros campeões do mundo. Era nosso Obdulio Varela, visto como um líder dentro e fora de campo. Nem mesmo a derrota para a França, na final de 1998, alterou a imagem do capitão.

DUNGA taça 1994

Saindo por cima, como herói, Dunga voltaria nesse papel como a esperança brasileira após a derrota na Copa de 2006. A equipe era vista como tendo muitas mordomias e dizia-se que faltava uma liderança forte para impor limites às estrelas brasileiras. E o nome era Dunga. Ele agora era a esperança de que a seleção pudesse reencontrar o verdadeiro futebol brasileiro. Desta vez, a culpa era do excesso de liberdade dado a jogadores como Ronaldinho e Adriano. E o Capitão do Tetra aparecia como a solução. Como teria apontado o ex-jogador Carlos Alberto Silva: “faltou alguém como Dunga, chegar no vestiário, no intervalo, e enfiar a mão na cara de todos (…). Tive saudades do Dunga, que saudades do Dunga” (Estado de São Paulo, 02/07/2006, citado em Leda Costa, 2008, p. 147).

No entanto, a esperança se tornou pesadelo. Como tantos outros técnicos derrotados em Copas do mundo, Dunga passou novamente a vilão na Copa de 2010. Eliminado em um jogo marcado pela tensão emocional dos jogadores, especialmente de Felipe Melo, expulso no segundo tempo, o escrete brasileiro seria um reflexo do destempero de seu treinador.  João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, teria dito à Folha de São Paulo: “O desequilíbrio se deu de forma marcante quando ele [Dunga] não conseguiu sair do papel de jogador de futebol para técnico da Seleção Brasileira. Ele manteve as mesmas características de um atleta profissional, o que não pode acontecer” (Folha de São Paulo, 02 jul. 2010). Já dando seu veredito ao final, os autores da reportagem, ao utilizarem as palavras de Cozac, consideram Dunga culpado pelas mesmas características que teriam feito dele o candidato ideal ao cargo de técnico quatro anos antes. Sua postura de capitão.

Desde seus primeiros momentos, Dunga teve contratempos com a imprensa e era criticado abertamente por diversos jornalistas, como pode ser visto na reportagem abaixo:

Fim da 2a era Dunga

Após a demissão do treinador, apontava-se o final da “Segunda Era Dunga”. Mas esse não seria ainda o fim da história. Depois dos acachapantes 7-1 em Belo Horizonte e da saída de Luiz Felipe Scolari, Dunga volta mais uma vez ao rol do s heróis, novamente com a função de levar a seleção a uma Copa do Mundo e, quem sabe, dessa vez, não voltar ao papel de vilão. Mas para isso, teremos que torcer.


FUTEBOL, SELEÇÃO E A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

08/06/2015

por Maurício Drumond

Neste ano de 2015, completam-se 70 anos do final da Segunda Guerra Mundial, conflito que estabeleceu marcas definitivas na organização mundial em meados do século XX. Neste cenário, o Brasil foi o único país da América Latina a participar ativamente do conflito, entrando oficialmente na guerra ao lado dos aliados em 1942 e enviando tropas ao teatro de operações europeu em 1944, através da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e a Força Aérea Brasileira (FAB).

Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a FEB se preparou para tomar parte no combate, em 1944. Entretanto, os meios militares tinham a impressão de que a indiferença tomava conta de grande parte da população brasileira e o embarque dos pracinhas para o teatro de operações da Itália não parecia ter despertado o sentimento cívico do povo. Assim, o então Ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, insatisfeito com uma suposta falta de sentimento cívico brasileiro, teria pedido auxílio ao presidente do Conselho Nacional de Desportos (CND), João Lyra Filho, para tentar despertar os brios da população (de acordo com o próprio Lyra Filho, em seu livro Introdução à psicologia dos desportos, p. 120).

Lyra Filho teria então sugerido a realização de um evento festivo futebolístico para a despedida dos pracinhas. O futebol atuaria assim como um elemento catalisador na nacionalidade brasileira, utilizando seu capital simbólico a fim de despertar na população o sentimento pátrio buscado por Dutra.

O CND promoveria a realização de dois jogos da seleção brasileira contra o rival Uruguai, um na capital do país, em São Januário, e outro em São Paulo, no Pacaembu – os estádios de maior capacidade do país e de estreita ligação simbólica com o Estado Novo de Vargas (ver posts aqui e aqui). Os jogos da seleção brasileira contra o Uruguai eram, sem dúvida, um excelente chamariz, visto que as competições internacionais estavam estagnadas desde a entrada do Brasil na guerra, em agosto de 1942.

Em 14 de maio chega o esperado dia. Milhares de pessoas comparecem ao estádio de São Januário para o jogo entre brasileiros e uruguaios. O primeiro jogo, na capital de República, contou com a presença de importantes nomes do governo na tribuna de honra, como Oswaldo Aranha, Eurico Gaspar Dutra e Joaquim Salgado Filho, ministros do Exterior, da Guerra e da Aeronáutica, respectivamente, além de oficiais do governo uruguaio. O evento foi precedido de muitas formalidades em homenagem ao Corpo Expedicionário Brasileiro, com desfile de 10 mil soldados brasileiros, que depois ocuparam uma das arquibancadas do estádio.

Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 mai. 1944, p. 9.

Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 mai. 1944, p. 9.

Em campo, a atuação brasileira superou as expectativas, enfrentando uma equipe uruguaia definida pelo jornal Correio da Manhã como “sem entendimento”, ainda que formada por jogadores de “grandes possibilidades”. A vitória por 6 a 1, com gols de Isaías (Vasco), Tesourinha (Internacional), Lima (Palmeiras, dois gols), Rui (Fluminense) e Lelé (Vasco), tornou a festa ainda mais especial.

Quatro dias depois, no estádio do Pacaembu, registrava-se a maior renda do estádio até então, com mais de 60.000 espectadores e Cr$ 574.392,00 de renda (valor aproximado de um apartamento do 2º andar do edifício Lincoln, prédio de luxo no “melhor e mais valorizado ponto da avenida Atlântica”, com 4 quartos, garagem, 2 banheiros, 3 varandas e até mesmo um abrigo antiaéreo).

Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 mai. 1944, p. 5.

Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 mai. 1944, p. 5.

A festa, com público recorde, acabou em confusão dentro de campo, com um zagueiro uruguaio sendo retirado de maca desacordado. De acordo com o jornal Correio da Manhã, os principais responsáveis foram os jogadores brasileiros Zezé Procópio e Noronha (ambos do São Paulo), além do juiz Mario Vianna. Em um jogo tenso e violento, “cheio de incidentes diante do beneplácito do juiz”, três jogadores acabaram expulsos: o brasileiro Zezé Procópio e os uruguaios Tejera e Pini. Ao final do violento jogo, o Brasil terminava com dez jogadores em campo, contra sete uruguaios, e vencia por 4 a 0, com três gols de Jair (Vasco) e um gol de Heleno (Botafogo).

Ao fim e ao cabo, mesmo com todos os problemas decorrentes do jogo final, os espetáculos proporcionaram uma maior possibilidade de aproximação da população das cidades ao esforço de guerra da FAB e da FEB que estava prestes a se iniciar oficialmente.


FUTEBOL: O ÓPIO DO POVO?

26/01/2015

por Maurício Drumond

O futebol é o ópio do povo? Se depender do senso comum, parece que sim. Especialmente em anos de Copa do Mundo (que desde 1994 coincidem com anos de eleições presidenciais no Brasil), escutamos e lemos os mais diversos “especialistas” proclamarem o tão batido jargão. O velho esporte bretão seria o novo panem et cirsenses, e tais críticos os novos Juvenais. Em 2014 o caso foi ainda mais extremo, visto que a Copa do Mundo ocorreu no Brasil e as eleições presidenciais se mostraram a mais disputada (ao menos no resultado final) de nossa história.

No entanto, a questão merece um pouco mais de reflexão. Sempre pensei que a ideia do pão e circo era um pouco simplista em demasia: o povo – seja na Roma Antiga ou no Brasil contemporâneo – é vista como um coletivo passivo e monolítico, como mera massa de manobra que oblitera todos seus problemas cotidianos para desfrutar de alguma diversão. No entanto, como historiador, fui buscar alguma evidência que corrobore, ou não, essa visão. Por  mais difícil que seja constatar, de fato, o grau de influência que o futebol exerce sobre a vida das pessoas, algumas indicações podem nos ser úteis para pensar o tema.

Dessa forma, decidi olhar para os anos em que se realizaram Copas do Mundo de futebol masculino e eleições presidenciais no Brasil: 1950, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014. As Copas do mundo foram escolhidas como momentos chave para a análise, visto que são ocasiões singulares onde a esmagadora maioria de torcedores brasileiros se unem na torcida pela mesma equipe, e outros ainda, que não têm o costume de acompanhar o esporte, participam da festa que toma conta das ruas. Já as eleições presidenciais nos fornecem um olhar unificado sobre todo o país, sendo o único pleito eleitoral em que todos os cidadãos aptos votam no mesmo grupo de candidatos. Ocasiões como essas, em que todos anseiam pelo mesmo resultado no futebol (a vitória do Brasil) e participam da escolha do mesmo cargo (a presidência da República), podem nos ajudar a perceber o real impacto do esporte sobre a política nacional.

Para observar isso, elaborei o quadro abaixo, onde destaco os referidos anos, acompanhados dos resultados da seleção brasileira em Copas do Mundo e o resultado das eleições presidenciais, cujas campanhas ocorrem paralelamente à Copa do Mundo. Para facilitar a observação, marco em azul os resultados tidos como “positivos” (a vitória do Brasil na Copa do Mundo / a vitória da situação nas eleições presidenciais) e em vermelho os “negativos” (a derrota do Brasil / a vitória da oposição). É importante notar que, no caso das eleições presidenciais, não me prendo ao fato da vitória ser de um candidato da esquerda ou da direita, ou em minha opinião pessoal sobre que candidato deveria vencer. O mais importante aqui é perceber se a campanha brasileira no certame mundial aparenta ter influenciado a visão dos eleitores sobre a qualidade do atual governo e, por consequência, a campanha do candidato que representa a continuação desse governo.

 

Em um primeiro olhar, a tese do Ópio do povo parece perder força. Não é possível observar diretamente uma relação entre o sucesso no futebol e o sucesso na política, e nem mesmo seu oposto – o fracasso na Copa do Mundo e a derrota nas eleições. Não obstante, um olhar mais específico sobre cada um desses momentos pode nos revelar ainda mais sobre o tema.

 

1950

Não há dúvidas de que a Copa de 50 foi um dos momentos mais significativos no futebol brasileiro. Até o Brasil x Alemanha de 8 de julho de 2014, a final dessa Copa era indubitavelmente a maior tragédia do nosso futebol. O famoso Maracanazzo. Nas eleições presidenciais, a vitória de Vargas ocorreu com grande folga, obtendo 48,7% dos votos, enquanto seus principais adversários somaram 29,6% (Eduardo gomes) e 21,5% (Cristiano Machado). Apesar de se colocar como oposição à Eurico Gaspar Dutra, Getúlio contava com apoio de amplos setores do partido governista, e o próprio Dutra havia sido eleito, 5 anos antes, como sucessor de Getúlio, após o breve governo de Nereu Ramos que sucedeu a deposição de Getúlio ao fim do Estado Novo (para ler um pouco mais sobre as eleições de 1950, sugiro o site do CPDOC/FGV).

O sucesso de Getúlio, no entanto, não pode ser creditado ao infortúnio brasileiro perante o Uruguai. Vargas ainda era uma das principais forças políticas do país, especialmente junto aos grupos populares. Não é muito arriscado afirmar que Getúlio seria eleito com vitória ou derrota da seleção nacional.

1994

Depois de um longo período em que Copas do Mundo e eleições não coincidiram – agravado pelo período de ditadura militar entre 1964-85 e por mandatos presidenciais de cinco anos -, elas voltariam a se encontrar em 1994. Nesse ano, o Brasil conquistava seu quarto título mundial nos Estados Unidos e Fernando Henrique Cardoso se elegia como sucessor de Itamar Franco.

A vitória na Copa do Mundo, em 17 de julho de 1994, ocorreu em um período em que Fernando Henrique está em ascensão, rumo à vitória no primeiro turno, de acordo com pesquisa do Datafolha.

No entanto, não devemos creditar o sucesso eleitoral de FHC à conquista do Tetra, ao menos não substancialmente. Em 94, a maior estrela da campanha de Fernando Henrique era o recém lançado Plano Real, como pode ser percebido nos primeiros minutos desse longo video:

1998

Emenda Constitucional n. 16, aprovada em 1997, instituiu a possibilidade de reeleição para cargos do executivo e reduziu seus respectivos mandatos para 4 anos, fazendo com que as eleições presidenciais sempre coincidam com edições de Copas do Mundo.

Em 1998, o Brasil fez sua segunda final de Copa do Mundo consecutiva, perdendo para França em um dos episódios mais controversos de nossa seleção. A derrota por 3 a 0 para os donos da casa, no entanto, não afetou a popularidade do presidente, que conseguiu se reeleger, estando sempre a frente da oposição em toda a campanha eleitoral. Se olharmos as pesquisas eleitorais do período da Copa do Mundo (junho/julho) e seus momentos posteriores, podemos perceber que FHC mantém um ritmo de crescimento, apesar da derrota brasileira.

 

2002

Em 2002, o Brasil conquistou o pentacampeonato mundial, na primeira Copa do Mundo sediada por dois países (Coreia e Japão). No entanto, nem mesmo a vitória brasileira, marcada pela incrível recuperação de Ronaldo, foi suficiente para evitar a derrota do candidato de Fernando Henrique Cardoso, José Serra. Se olharmos as pesquisas mais um vez, podemos ver que no período da Copa, Serra apresentava-se em queda, perdendo a segunda posição para Ciro Gomes, enquanto Lula, candidato da oposição, mantinha-se em crescimento.

2006 e 2010

Em 2006, a derrota do Brasil para a seleção francesa parece não ter tido influencia maior na campanha de reeleição presidencial de Lula, que se mantém na frente e obtém 48,61% dos votos válidos no primeiro turno, derrotando Geraldo Alkmin no segundo com pouco mais de 60%.

Já em 2010, com nova derrota da seleção, dessa vez para a Holanda, o governo consegue emplacar Dilma como presidenta eleita.

2014

Como dito anteriormente, 2014 foi um ano excepcional. A Copa do Mundo, realizada no Brasil, e o grande acirramento da disputa tornam essa ano único para os dois eventos. Fica aqui a pergunta: podemos associar o acirramento eleitoral com a derrota da seleção? Acredito que não. Para tanto, mais uma vez, a análise de pesquisas eleitorais mostra-se muito útil.

Disponível em http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2014/10/04/intencao_de_voto_presidente.pdf

Disponível em http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2014/10/04/intencao_de_voto_presidente.pdf

As pesquisas de 15 e 16/7/14, realizadas logo após a derrota da seleção brasileira (em 8/7), não mostram grandes mudanças. Sem dúvidas, o fato que mais influenciou as campanhas eleitorais foi o falecimento de Eduardo Campos, em 13 de agosto. Nas pesquisas subsequentes, vemos o acentuado crescimento de Marina Silva , conquistando grande parte dos eleitores indecisos (os percentuais de Dilma e Aécio Neves, nesse momento, não apresentam mudanças significativas). Ou seja, mesmo com uma das maiores derrotas da seleção brasileira, em uma tragédia de proporções épicas, as pesquisas de intenções de votos não mostraram mudanças significativas. Um importante elemento para pensarmos o papel do futebol como “ópio do povo”.

 

E o ópio do povo?

Após tudo isso, podemos chegar a uma conclusão?

Bem, vejo esses elementos empíricos como indicadores de que o futebol não deve ser visto como ópio do povo. E isso não é uma conclusão apenas minha. Muitos estudos acadêmicos mais recentes trabalham também a partir dessa hipótese. A espetacularização da sociedade e sua midiatização são fatores que podem apontar outras chaves para melhor entendermos o papel do futebol – assim como das novelas, dos carnavais, da música etc. – na sociedade. Se realmente há um ópio do povo, temos que procurá-lo não em fenômenos pontuais, mas nas características mais amplas de nossa sociedade capitalista. Mas isso é uma outra história.


OS “CAMPEONATOS INFANTIS EVITA”: O FUTEBOL COMO POLÍTICA ESPORTIVA NA ARGENTINA PERONISTA

08/09/2014

por Maurício Drumond

 

Durante os primeiros mandatos de Juan Domingo Perón na presidência argentina, no período de construção do peronismo como movimento político nacional, o futebol profissional argentino não vivia seus melhores momentos. Pouco após a chegada de Perón aos salões da Casa Rosada, o futebol argentino atravessou uma de suas maiores crises, que deixaria marcas duradouras e atravessaria o decênio do regime peronista quase que por completo: uma greve de jogadores de futebol profissionais.

Uma série de desavenças entre uma espécie de sindicato defensor dos direitos dos jogadores, a Futbolistas Argentinos Agremiados (FAA), e a entidade gestora do futebol argentino, a Associación de Fútbol Argentino (AFA), levou à paralisação do campeonato argentino de 1948, no dia 9 de novembro, sendo este concluído com jogadores amadores em sua reta final. A primeira greve enfrentada por Perón vinha do futebol, o esporte mais popular argentino e foi liderada por um de seus maiores ídolos, Adolfo Pedernera.

Adolfo Pedernera foi um dos maiores atacantes argentinos. Brilhou na equipe do River Plate de 1941 a 1946, liderando um time conhecido como La Máquina. Em 1948, no início da greve, defendia o clube Huracán e era um dos líderes do sindicato dos jogadores profissionais, o Futbolistas Argentinos Agremiados.

Adolfo Pedernera foi um dos maiores atacantes argentinos. Brilhou na equipe do River Plate de 1941 a 1946, liderando um time conhecido como La Máquina. Em 1948, no início da greve, defendia o clube Huracán e era um dos líderes do sindicato dos jogadores profissionais, o FAA.

A greve duraria seis meses, mas seus reflexos permaneceriam ainda por anos, uma vez que abrira a porta de saída dos maiores jogadores argentinos. No mesmo período, a Colômbia aparecia como o “El Dorado” do futebol sul americano (para maiores informações sobre o “El Dorado” colombiano, veja o livro de Eduardo de Souza Gomes), atraindo diversas estrelas de vários países, incluindo craques argentinos como o já citado Pedernera, Di Stéfano, Pipo Rossi, Julio Cozzi e muitos outros. Como resultado, a seleção argentina não disputou nenhuma Copa do Mundo durante o regime de Perón, desistindo de participar das Copas de 1950 e 1954.

Millionarios

Equipe do Millionarios, com Di Stéfano (segundo à esquerda) e Pederrnera (ao centro).

Sem participar de grandes competições internacionais com sua seleção, um dos mais fortes impactos do governo peronista sobre o futebol profissional argentino foi o apoio financeiro aos seus principais clubes. Através da lei 12.932, sancionada por Perón em 1946, que autorizava empréstimos para a construção de estádios, campos e instalações a centros esportivos através da Comissão Nacional Honorária de Fomento ao Esporte, o Estado argentino liberava vultosas somas para seus clubes. O futebol não era a única agraciada, mas se encontrava no topo da lista. De acordo com o periódico peronista Mundo Deportivo, o Racing Club teria recebido 16.700.000 pesos do governo. Outros clubes populares receberam também elevadas quantias, como o Club Atlético Boca Juniores, $10.000.000, o River Plate, $7.000.000, o Vélez Sarsfield, $6.000.000, entre muitos outros. O total da verba de governo destinada aos clubes teria sido, ainda de acordo com os números do semanário peronista, 111.923.000 pesos (Valores obtidos em Mundo Deportivo, 22 abr. 1954, p. 52-54.).

A associação do regime com o futebol pode ser vista também através dos estádios batizados em homenagem ao movimento peronista. Em setembro de 1950, o Racing inaugura seu novo estádio, o “Estádio Juan D. Perón”, construído com as acima mencionadas verbas do governo. Já o Club Atlético Sarmiento – que teria recebido $1.250.000 do governo – inaugurou o “Estádio Eva Perón” em julho de 1951. Outros esportes também foram contemplados com a construção de suas praças, a maioria com nomes ligados ao peronismo, como o velódromo “Presidente Perón”, em Palermo, e o autódromo “17 de outubro”, em Buenos Aires, nomeado em homenagem a marcante data peronista, conhecida até hoje como “dia da lealdade peronista”.

Estádio Presidente Perón.

Estádio Presidente Perón.

 A maior ligação que o regime peronista estabeleceu com o futebol aconteceu, no entanto, através dos Campeonatos Infantis “Doña Maria Eva Duarte de Perón”, que tiveram início em 1948. Em sua primeira edição, participaram apenas crianças da Grande Buenos Aires. O campeonato Evita foi um sucesso tão grande que, em março de 1949 foi disputado um jogo beneficente para o auxílio das crianças italianas vítimas da guerra. Essa partida aconteceu entre duas seleções mirins provenientes dessa competição – a seleção da capital e a da província de Buenos Aires. Esse jogo foi organizado pela Comissão Organizadora do Campeonato Evita, presidida por Ramón Cereijo, nome forte do partido peronista.

Os Campeonatos Evita passaram então a ser disputados anualmente, chamados de Campeonato Argentino de Futebol Infantil ‘Evita’, e contavam com times de crianças de todas as províncias argentinas. Nas primeiras etapas os times jogavam contra outros de suas províncias e, na fase final, os vencedores se enfrentavam na capital federal. Os jogos finais eram disputados em estádios de times profissionais, como os do River Plate, do Boca Juniors ou do San Lorenzo, e contavam com a presença de Perón e Evita, além de outros políticos da alta esfera do governo.

Perón dá o pontapé inicial do torneio.

Perón dá o pontapé inicial do torneio.

Evita hasteando a bandeira argentina em cerimônia do Campeonato Infantil.

Evita hasteando a bandeira argentina em cerimônia do Campeonato Infantil.

Estes campeonatos receberam grande atenção da mídia peronista, especialmente do semanário Mundo Deportivo, uma vez que, além de associarem o regime à pratica esportiva infantil, auxiliavam na criação de um sentimento de identificação e integração nacional, ao promover a disputa direta entre crianças de todas as províncias em um “campeonato argentino”. Tal sentimento pode ser observado em um dos primeiros números do semanário infantil do grupo Haynes, Mundo Infantil, que se referia aos Campeonatos Evita dizendo:

O Campeonato Evita irá realizar o sonho de professores e líderes: ele irá unir a juventude argentina através de um laço que transcenderá divisões locais, e mesmo provinciais, porque a voz do esporte é gritante, poderosa, envigorante e eletrificante. Neste quadro, todos se sentirão como iguais, todos pensarão da mesma maneira.

O mesmo sentimento de unidade nacional foi apontado por Carlos Aloé, em seu editorial em Mundo Deportivo (de 27 out. 1949), ao escrever que “crianças de todas as latitudes da Pátria participaram, cotejando suas forças para estabelecer qual de suas equipes era a melhor”. 

A popularidade das competições foi assombrosa. A primeira edição do campeonato, em 1948, contou com mais de 15 mil participantes, e o número crescia à medida que o campeonato englobava mais províncias e se tornava mais popular. No ano seguinte, a imprensa peronista já alardeava que o número de inscritos ultrapassara os 150 mil. Em 1953, foram instituídos os Jogos Esportivos Juvenis Juan Perón e o número total de participantes oficialmente divulgado dessas competições passou dos 200 mil inscritos. 

É também importante notar que além do sentimento nacional gerado pelas competições, estas carregavam a imagem dos governantes consigo. Tal era a ligação do regime, e em especial de Eva Perón, com o campeonato que, entre as várias equipes envolvidas, diversas possuíam nomes referentes ao peronismo e a seu ideário nacionalista, como “17 de Outubro” e “San Martín”. No Campeonato Evita de 1952, o time campeão, de Santa Fé, era chamado “Evita, Estrela da Manhã”. Antes dos jogos, os participantes cantavam as marchas “Evita Capitana” e “Los Muchachos Peronistas”, além da canção oficial do campeonato, na qual diziam: “A Evita devemos nosso clube, por isso lhe guardamos nossa gratidão. Nós cumprimos os ideais, nós cumprimos a Missão, da Nova Argentina de Evita e Perón”.

Capa de Mundo Deportivo, com a equipe de Santa Fé, "Evita, Estrela da Manhã".

Capa de Mundo Deportivo, com a equipe de Santa Fé, “Evita, Estrela da Manhã”.

 

Mas os Campeonatos Infantis Evita não se resumiam ao futebol. Logo outras modalidades esportivas passaram a ser disputadas nestas competições, como basquete, atletismo e polo aquático. E, em cada um desses, Perón e sua esposa eram presenças garantidas no jogo final, seja dando o pontapé inicial nas partidas de futebol, distribuindo medalhas ou saindo em diversas fotos que seriam publicadas em vários jornais argentinos no dia seguinte. Mas isso fica para outra postagem.

Perón e Evita entregam troféu do campeonato.

Perón e Evita entregam troféu do campeonato.