Futebol como Diplomacia: a Política de Apaziguamento

31/08/2020

por Maurício Drumond

1938. A Alemanha estava sob o regime nazista desde 1933 e já dava claros sinais de que a guerra estava próxima. No dia 14 de maio de 1938 as seleções de futebol da Inglaterra e da Alemanha se encontraram no Estádio Olímpico de Berlim, em um jogo amistoso que marcou a história. Sob os olhares de 105 mil espectadores, a equipe britânica cumprimentou os oficiais do regime com a saudação nazista e depois derrotou os alemães por 6 a 3. Mas o que teria motivado o encontro de dois países que pouco mais de um ano depois estariam se enfrentando em uma das mais devastadoras guerras da história? E por que teriam os ingleses feito a saudação à romana, um dos maiores símbolos do movimento fascista?

A política do Apaziguamento

Ainda sob o impacto dos efeitos da I Guerra Mundial e de seu alto custo de vidas humanas, Inglaterra e França buscaram evitar o confronto com a Alemanha de Hitler através do que se convencionou chamar de “Política de Apaziguamento”, na qual os países mantinham uma política de boa vontade e condescendência perante às investidas alemães na Europa (como no caso da remilitarização alemã e da anexação da Áustria com a Anschluss) e buscavam se aproximar do governo de Hitler. O auge dessa política se deu com a Conferência de Munique, realizada alguns meses após o jogo, que levou Churchill a proferir a célebre frase: “Vocês puderam escolher entre a desonra e a guerra. Vocês escolheram a desonra e terão a guerra”.

Inicialmente, a política apaziguadora de Neville Chamberlain, contou com grande apoio popular e da mídia britânica. Após a assinatura do tratado de Munique, Chamberlain foi recebido com festa ao sair do avião, em seu retorno para Londres, ao proferir o discurso sobre a “Paz de nosso tempo“, no dia 30 de setembro de 1930 (Peace o four time).

No entanto, poucos meses depois a Alemanha invadiria o resto da Checoslováquia, e menos de um ano depois a II Guerra Mundial teria início com a invasão da Polônia. A política de apaziguamento seria então considerada um grande erro, como descrito no livro “Guilty Men” (Homens Culpados) publicado em 1940, em meio à guerra e aos bombardeios alemães a Londres. Assinado por “Cato” (pseudônimo para três jornalistas ingleses), o livro apontava Chamberlain e outros líderes do governo britânico como responsáveis pela guerra. Eles teriam sido fracos e medrosos, e o apaziguamento uma política imoral e covarde. O clima de guerra e a disputa interna da política britância, especialmente entre Churchill e Lorde Hallifax (então ministro de relações exteriores, que apoiava a paz com o Eixo), contribuíram para o tom do livro.

Após o final da guerra, no primeiro volume de sua obra “Memórias da Segunda Guerra Mundial”, Churchill aponta o apaziguamento como um erro de Chamberlain, ainda que motivado por boas intenções. Apesar de se vender no livro quase que como o único a se opor à política, Churchill tentava apresentar uma visão que se coadunava com o início da Guerra Fria, afirmando que ao invés de se buscar o apaziguamento com o agressor, o Reino Unido deveria ter buscado se aliar a outras potências contra um inimigo em comum. Visão que se manteve por anos como a principal visão sobre o tema na historiografia.

Nos anos 1960, historiadores revisionistas como AJP Taylor buscam novas interpretações e começam a apontar a pequena margem de manobra política na qual Chamberlain estava inserido, e a necessidade de ganhar tempo para preparar as Forças Armadas britânicas para uma eventual guerra. Já a partir dos anos 1990, com o fim da Guerra Fria e a abertura de arquivos soviéticos, novos debates historiográficos voltam a apontar o quinhão de responsabilidade de Chamberlain e sua política de apaziguamento sobre a eclosão da Segunda Guerra. Entre os novos fatores elencados, a visão de que Chamberlain sobrestimou sua capacidade de negociação com Hitler, de modo a manter um aliado forte próximo à fronteira com a União Soviética, demonstra a importância da manutenção de boas relações com a Alemanha nazista. Dessa maneira, fica evidente que o Ministério dos Assuntos Exteriores britânico, o Foreign Office, via a aproximação diplomáticas com o III Reich um elemento central da política externa inglesa. Dentro dessa política, uma melhor relação com a Alemanha era fundamental, e o futebol foi um dos meios nos quais um símbolo de boa vontade entre os dois países poderia ser demonstrado.

Apaziguamento pelo futebol

A aproximação do futebol britânico com a Alemanha nazista teve início com o convite aceito pela equipe do Derby County FC no final da temporada de 1933/34. Os Rams (Carneiros), como também são conhecidos, terminaram a temporada como quarto colocados na primeira divisão do campeonato da Football Association e receberam o convite da Federação Alemã de Futebol (Deutscher Fußall-Bund)para participar de quatro jogos amistosos em maio. Além de uma temporada de sucesso, a equipe contava com alguns jogadores da seleção britânica, até então vista como a principal equipe de futebol do mundo.

A participação dos Rams ia diretamente ao encontro da diplomacia cultural britânica de aproximação com o novo regime implantado por Hitler a partir de 1933. Dave Holford era um ponta esquerda de apenas 19 anos que fez parte da equipe que viajou à Alemanha. Anos mais tarde, o então jovem atleta rememorou:

Em todos os lugares onde íamos, podíamos ver a suástica. Se dizíamos “bom dia”, eles respondiam com “Heil Hitler”. Se você entrasse em uma lanchonete e dissesse “bom dia”, teria um “Heil Hitler” como resposta. Já naquela época, era possível perceber que se tratava de um país que se preparava para a guerra (Fonte).

Os jogos não foram o passeio tranquilo que os jogadores britânicos provavelmente imaginaram, com a tradicional empáfia inglesa de inventores do esporte. Enfrentando equipes de selecionados de jogadores locais, os Rams acumularam três derrotas (5 a 0 em Colônia, 5 a 2 em Frankfurt e 1 a 0 em Dusseldorf) e um empate (1 a 1 em Dortmund). No entanto, os confrontos foram marcados pela primeira vez em que uma equipe britânica realizou a saudação à romana, conhecida também como saudação nazista, já que estavam na Alemanha. A saudação já se tornara rotina no cotidiano alemão e tinha sido tornada obrigatória em eventos esportivos, simbolizando uma saudação ao füher, mesmo ele não estando presente.

George Collin, zagueiro dos Rams que capitaneava a equipe nos confrontos, teria explicado o fato anos depois:

Dissemos ao nosso técnico, George Jobey, que não queríamos fazer o gesto. Ele conversou com os dirigentes, mas eles disseram que o embaixador britânico insistiu que deveríamos fazê-lo. Ele afirmou que o Foreign Office tinha medo de que nossa recusa poderia causar um incidente internacional. Seria uma ofensa a Hitler, em um momento em que as relações internacionais eram tão delicadas.

Então fizemos como pedido. Todos nós, com exceção de nosso goleiro, Jack Kirby. Jack fez questão de não faze a saudação. Quando chegou a hora, ele apenas continuou com o braço para baixo e quase virou de costas para os dignitários. Se alguém notou, não falou nada. (Fonte)

A fotografia da ocasião corrobora o testemunho de Collin. Nela podemos observar o semblante de constrangimento de muitos jogadores do Derby County, com alguns mantendo sua cabeça baixa e os olhos fixados no gramado a seus pés. No canto esquerdo, o goleiro Jack Kirby está de lado, quase se virando de costas à tribuna, com os braços para baixo. A coragem de Kirby parece não ter tido maiores repercussões, e novos encontros futebolísticos ocorreriam voltariam a ocorrer.

Em dezembro do ano seguinte, a seleção alemã visitaria Londres para enfrentar a tão temida seleção inglesa. E o local da partida foi o antigo estádio do Tottenham, White Heart Lane, um clube conhecido por sua ligação com a comunidade judaica inglesa. O jogo gerou alguns protestos de torcedores em formas de cartas e de ameaças de boicotes e manifestações no dia do jogo. Duas horas antes do início da partida, uma passeata anti-nazista foi organizada, distribuindo panfletos e carregando cartazes com dizeres como “O esporte do fascismo é a caça aos judeus”, “Acerte Hitler abaixo da cintura” e “Mantenha o jogo limpo, combata o fascismo”. Ao se aproximarem do estádio, a passeata foi atacada pela polícia, que rasgou panfletos e cartazes, prendeu manifestantes e deu fim ao protesto. Outros manifestantes distribuíram panfletos em outras partes da cidade ou os jogaram das janelas dos ônibus.

Atenção para a bandeira nazista a meio mastro no canto superior direito.

Algumas fontes afirmam também que a bandeira nazista que era exibida no estádio foi momentaneamente retirada por um manifestante, que foi preso em flagrante. Ernie Wooley subiu na cobertura da arquibancada e cortou a corda que mantinha a bandeira a meio mastro (em homenagem à recente morte da princesa Victoria) e foi detido assim que desceu. No dia seguinte, foi liberado. O dia do jogo foi marcado também pela grande afluência de torcedores alemães à Londres, como é relatado na reportagem disponível no canal do British Pathé, no youtube.

Se as fotos do jogo mostram a equipe alemã realizando a saudação à romana, o vídeo da reportagem mostra as cenas do jogo, onde é possível reparar que o gesto foi restrito aos atletas da equipe alemã.

Seleção Alemã saudando a equipe inglesa no início do jogo, em 1935.
Imagem retirada do vídeo da reportagem, mostra o momento da saudação, com a equipe inglesa também em enquadramento.

A seleção inglesa venceu o jogo por 3 a 0, sem maiores contratempos. Como retribuição à visita alemã, a Federação Alemã de Futebol convidou a seleção inglesa para um amistoso em Berlim, no Estádio Olímpico, que havia sido reformado para as Olimpíadas de 1936 e era um dos maiores símbolos da política esportiva do III Reich.

Para o Foreign Office, o jogo era mais uma grande oportunidade para se estreitar as relações entre os países. Apesar do chefe da pasta, Robert Vansittart, ser um opositor do apaziguamento defendido por Neville Chamberlain, este escreveu a Stanley Rous, secretário da Football Association (que seria presidente da FIFA de 1961 a 1974), pedindo que este se certificasse de que a equipe inglesa realizasse um papel de primeira ordem em solo alemão, o que significava bom comportamento e um futebol exemplar.

A equipe alemã já estava treinando há algumas semanas na Floresta Negra e vinha embalada por uma série invicta de 16 jogos desde 1937. A seleção nazista era ainda mais forte após a anexação da Áustria ocorrida dois meses antes e da absorção de quatro jogadores austríacos. No início da década de 1930 a seleção austríaca era considerada uma das mais fortes da Europa e era chamada de Wunderteam e ainda tinha muitos bons jogadores. Matthias Sindelar, craque e líder do time, também foi convidado pelos alemães para se juntar à seleção, mas recusou. No entanto, a federação inglesa exigiu que nenhum jogador austríaco participasse do jogo pela equipe alemã. Como contrapartida, foi organizado uma série de jogos extra contra a equipe do Aston Villa


Era assim compreensível o receio do Foreign Office, que desejava manter uma boa relação com a Alemanha, mas também reviver o prestígio esportivo britânico. Uma vitória era fundamental. Como parte da demonstração de camaradagem por parte dos ingleses, os jogadores britânicos, incluindo o jovem Stanley Matthews, então com apenas 23 anos, foi aconselhada pelo embaixador britânico em Berlim, sir Neville Henderson, a realizar a saudação à romana perante Hitler, como ocorrera com o Derby County alguns anos antes. Henderson teria dado a seguinte explicação aos jogadores: “Quando me encontro com Hitler, faço a saudação nazista porque é a cortesia normal esperada. Ela não demonstra nenhuma simpatia pelo que Hitler ou seu regime possam fazer”.

Tendo em vista as instruções do embaixador e a pressão da federação por um bom comportamento, os jogadores se postaram à frente das tribunas e executaram a saudação nazista durante o hino alemão, perante às autoridades nazistas, ao grande público e a fotógrafos que marcaram o momento que entrou para a história do esporte, ainda que de forma negativa. Hermann Göring (Presidente do Parlamento), Joseph Goebbels (Ministro de Propaganda), Rudolf Hess (vice führer do Partido Nazista) e Joachim von Ribbentrop (embaixador alemão no Reino Unido) assistiram ao jogo.

Os 22 jogadores perfilados fazem a saudação à romana no jogo em Berlim, 1938.

Iniciado o jogo, as amabilidades se encerraram e a equipe inglesa aplicou uma das maiores goleadas já sofridas pela Alemanha. Fechando o placar com um chute que furou a rede do Estádio Olímpico, os Ingleses derrotaram os alemães em casa por 6 a 3 e fizeram o que deles era esperado. Para os alemães, uma derrota para os “pais do futebol” não era algo do que se envergonhar. Muito pelo contrário, o jogo havia sido um grande sucesso em termos de propaganda, em especial devido à realização da saudação à romana pelos visitantes (veja uma reportagem britânica sobre o jogo aqui).

O jogo contra o Aston Villa, também no estádio Olímpico, no dia seguinte, também foi marcado por grande público. No início do jogo, todos os jogadores do Aston Villa fizeram a saudação à romana. O jogo foi marcado por grandes vaias do público, uma vez que o Villa colocava em ação uma nova estratégia para a época, a linha de impedimento. Após a vitória por 3 a 2, os jogadores ingleses saíram de campo sem fazer uma segunda saudação, o que gerou um certo desconforto diplomático, que logo foi contornado. Os jogos seguintes da equipe inglesa na Alemanha foram em Stuttgart e Dusseldorf e ocorreram sem maiores problemas no que diz respeito à saudação por parte dos ingleses. A foto abaixo, de um dos jogos do Aston Villa na Alemanha (talvez o jogo em Berlim, mas não consegui ter certeza na identificação), mostra a equipe saudando as autoridades, ainda que de forma tímida, sendo possível perceber o constrangimento de alguns jogadores.

Ainda que o discurso majoritário por parte de atletas e envolvidos em relação aos encontros tenha mudado nos anos seguintes, acompanhando as mudanças de visão sobre o apaziguamento, é importante entendermos que no momento desses confrontos, a política implementada por Chamberlain era vista como um grande sucesso, especialmente depois da Conferência de Munique. Com o início da guerra e especialmente após o seu fim, antigos simpatizantes do apaziguamento e da Alemanha nazista mudaram seus discursos e criaram uma nova narrativa sobre seu passado. As fontes, no entanto, nos contam outro lado da história. Ainda assim, a relação entre os jogos de futebol e a política de apaziguamento nos proporciona importantes reflexões sobre a importância do futebol como meio de diplomacia e a natureza frágil das relações internacionais nesse período.


O ESPORTE EM TEMPOS DE PANDEMIA: LIÇÕES DA GRIPE ESPANHOLA DE 1918-1919.

30/03/2020

por Maurício Drumond

Vivemos um momento de exceção. Acompanhando a declaração da Organização Mundial de Saúde (OMS) no dia 11 de março de 2020 da pandemia de Covid-19, causada pelo novo cornonavírus (Sars-Cov-2), diversos países e organizações internacionais, dentre elas as esportivas, passaram a adotar medidas enfáticas visando sua contenção e combate.

Em um país onde o Presidente da República afirma, indo contra todas as indicações de organizações e especialistas nacionais e internacionais da saúde, que a pandemia não passaria de uma “gripezinha” ou de um “resfriadinho” para ele, que teria um suposto “histórico de atleta”, faz-se mister analisarmos o impacto da pandemia em atletas e no mundo do esporte.

Na contramão do que afirma o presidente, é grande a lista de atletas profissionais, estes sim com real “históricos de atleta”, que contraíram o Covid-19 e sentiram seus efeitos. No futebol, diversos jogadores já testaram positivo para a doença, como Paulo Dybala e Blaise Matuidi, da Juventus, assim como o ex-jogador Paolo Maldini, agora dirigente do Milan. O Valência, da Espanha, informou que 35% de sua equipe contraiu a doença, preservando o nome dos atletas. Já no basquete, entre outros astros da NBA, o nome de Kevin Durant se destaca. MVP das finais por dois anos seguidos (2017-2018), o atleta encontra-se atualmente em quarentena, se recuperando em sua casa. No vôlei masculino, o jogador Earvin Ngapeth, da seleção francesa, chegou a ser hospitalizado devido ao vírus. Em suas redes sociais, o jogador declarou: “Eu testei positivo para # covid19 há uma semana. A parte mais difícil ficou para trás, passei 3 dias complicados, mas agora acabou, vou sair do hospital em uma semana. Todos vocês, fiquem em casa, isso não acontece apenas com os outros”

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Imagem 1: Pùblicação de Earvin Ngapeth em rede social.

Um dos casos mais impactantes de atletas afetados pela covid-19 até o momento, no entanto, deve ser o do medalhista olímpico de natação sul-africano Cameron van der Burgh. O recordista mundial de 50m nado peito declarou em suas redes sociais: “É, de longe, o pior vírus que já encarei, apesar de ser um indivíduo saudável com pulmões fortes (não fumar/praticar esporte), viver um estilo de vida saudável e ser jovem”.

O impacto nas competições esportivas não foi diferente. Até mesmo os Jogos Olímpicos de Tóquio, originalmente agendados para ocorrer entre julho e agosto de 2020, foram adiados para o mesmo período de 2021. No futebol, os impactos começaram com a realização de jogos sem público, medida que foi rapidamente suplantada pela suspenção de jogos das principais competições nacionais e internacionais do planeta. No Brasil, os campeonatos estaduais e regionais foram suspensos, com o campeonato mineiro sendo o primeiro a parar, no dia 15 de março, e o roraimense o último, no dia 20. Os campeonatos nacionais, como a Copa do Brasil, o Campeonato Brasileiro Sub-17 e a Copa do Brasil Sub-20, no futebol masculino, e os Campeonatos Brasileiros Femininos A1 e A2, foram suspensos. Os Campeonatos Brasileiros Masculinos, ainda não iniciados, também estão suspensos. As principais ligas ao redor do mundo também foram interrompidas. Libertadores da América, Liga dos Campeões da Europa, os campeonatos nacionais europeus, todos suspenderam suas atividades, em uma ação que só teve paralelo na Segunda Guerra Mundial, se olharmos para a Europa. No caso dos países americanos, a ação é inédita.

Em outros esportes, o mesmo pode ser observado. Na Fórmula 1, os Grande Prêmios da Austrália e de Mônaco foram cancelados, enquanto os GPs de Barein, Vietnã, China, Holanda, Espanha e Azerbaijão foram adiados, e novos adiamentos devem ocorrer com o tempo. No basquete, a NBA suspendeu sua temporada indefinidamente no dia 11 de março. O mesmo ocorreu com hóquei sobre o gelo e outras competições.

Partindo da premissa de Heinrich Heine, de que o historiador é o profeta que olha para trás, podemos buscar exemplos na história que iluminem as ações que estão sendo tomadas, a fim de julgar sua relevância. E como em muitas outras áreas ligadas a essa nova pandemia, a comparação mais próxima a ser feita é com o caso da gripe espanhola, ocorrida nos anos de 1918 e 1919.

O impacto da gripe espanhola sobre o futebol já foi muito bem abordado no artigo do professor Elcio Cornelssen, publicado aqui na semana passada. No entanto, pretendo me ater não aos impactos da gripe no futebol, mas a diferentes competições esportivas organizadas no período.

A gripe espanhola teve como elemento central em sua difusão pelo mundo os momentos finais da Primeira Guerra Mundial. Por conta da Guerra, as principais competições esportivas internacionais já estavam suspensas desde 1914, especialmente na Europa. Na América do Sul, o Campeonato Sul-Americano de futebol masculino (que mais tarde seria renomeado como Copa América), foi adiado de 1918 para 1919 devido à pandemia. A competição programada para o Rio de Janeiro seria realizada no mês de maio de 1919, envolvendo apenas as seleções do Brasil, Argentina, Uruguai e Chile. O torneio se tornou célebre por ter sido o primeiro título internacional da seleção brasileira. O jogo final, contra o Uruguai, foi homenageado com a popular música de Pixinguinha, um a zero, celebrando o gol de Arthur Friedenreich.

Para além do futebol e da América do Sul, os Estados Unidos também mantiveram seu calendário esportivo inalterado durante a Grande Guerra. E por lá os esportes também sentiram o impacto da pandemia. Em muitos estados, os campeonatos escolares e universitários foram interrompidos e eventos com aglomerações públicas foram proibidos. No baseball, a final do campeonato nacional, chamada de “World Series”, foi disputada entre o Boston Red Sox e o Chicago Cubs no início de setembro, devido ao esforço de guerra (que só terminaria oficialmente em novembro daquele ano), o que a antecipou ao pior momento da pandemia. Em estados onde ainda se realizavam eventos esportivos, pode-se encontrar registros de jogadores utilizando máscaras durantes os jogos e de confrontos de equipes universitárias realizados com estádios vazios. Um caso curioso foi a proibição temporária, nos jogos de baseball, da chamada “spitball” (bola cuspida, em uma tradução livre), onde o arremessador cuspia na bola para alterar seu peso e sua resistência ao ar, dificultando assim a ação do rebatedor.

baseball foto

Jogadores de baseball utilizando máscaras durante jogo em 1919.

A competição que sentiria mais a ação da Gripe Espanhol, no entanto, foi a disputa do principal troféu de hóquei no gelo, a Stanley Cup. O confronto ocorreria em formato de “play-off”, com até cinco encontros entre as equipes campeãs das principais ligas do esporte na América do Norte. Pela Pacific Coast Hockey Association (PCHA), jogaram os Seattle Metropolitans, e pela National Hockey League (NHL), os Montreal Canadiens.

Seattle Metropolitans

Equipe do Seattle Metropolitans.

Vale lembrar que algumas regras diferiam entre as duas Ligas, assim os jogos 1, 3 e 5 seriam disputados com as regras da PCHA e os jogos 2 e 4 com as regras da NHL. Todos os jogos foram disputados no estádio de Seattle, e os Metropolitans saíram na frente, vencendo o jogo 1 por 7-0. No jogo 2, os Canadiens empataram a série, mas viram o time de Seattle voltar à liderança no jogo 3. O jogo 4, com regras da NHL, foi um épico empate em zero a zero, o que levou a decisão para o jogo 5, e com ela o debate sobre quais regras deveriam ser utilizadas. Ao final do debate, ficou decidido que utilizariam as regras da NHL, uma vez que o jogo era visto como um desempate do jogo 4. Ao final da prorrogação do jogo 5, o time de Montreal empatou a série com duas vitórias e um empate, o que levaria à realização do jogo 6. Esse jogo, no entanto, nunca foi realizado.

A pandemia de Gripe Espanhola atingiu as duas equipes e diversos jogadores foram hospitalizados. Com cinco jogadores da equipe de Montreal hospitalizados, o jogo 6 foi cancelado horas antes de seu início. Afirma-se que os dirigentes do Montreal Canadiens chegou a oferecer o título à equipe do Seattle Metropolitans, mas ao final das contas, foi decidido que nenhuma equipe seria declarada campeã naquele ano.

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Publicação do cancelamento do jogo extra da final. 

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Placa comemorativa na Stanley Cup referente à temporada de 1919

Quatro dias depois, no dia 8 de abril de 1919, Joe Hall, um dos atletas de Montreal hospitalizados, faleceu no hospital em Seattle, decorrente de pneumonia ocasionada pela gripe. Mesmo com seu histórico de atleta, Hall não resistiu à enfermidade. George Kennedy, técnico da equipe, também foi internado e temia-se o pior. Sua esposa veio de trem para acompanha-lo e ele acabou se recuperando.

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Joe Hall

Ainda que a história não se repita, e que as precauções adotadas hoje em dia sejam muito mais eficazes do que as de 1918-1919, podemos tirar uma desse evento uma lição. Só nos resta torcer para que fiquem todos bem.


UM TWEET QUE ABALOU O BASQUETE

28/10/2019

Por Maurício Drumond

 

O estudo de declarações e protestos políticos é tema recorrente na História do esporte. Eu mesmo já escrevi sobre o tema por aqui algumas vezes. Atos como o de Tommie Smith e John Carlos nos Jogos Olímpicos de 1968 são alvos de diversos estudos. No entanto, no último mês o mundo do basquete vivenciou quase que contrário a esse. No que pode ser definida como uma estratégia de contenção a manifestações políticas no esporte, a reação do governo chinês a uma única postagem no Twitter por parte de um dirigente esportivo deixou claro que o regime leva muito a sério suas relações com o esporte e o impacto que os agentes do campo esportivo podem ter sobre o campo político.

 

O QUE OCORREU?

 

No dia 04 de outubro, Daryl Morey, gerente geral do Houston Rockets (dirigente responsável pela contratação de atletas e gerência da comissão técnica), publicou uma imagem em sua conta do Twitter com o texto: “Lute pela Liberdade, Apoie Hong Kong” (Fight for Freedom, Stand With Hong Kong). A mensagem já foi apagada da conta de Morey; o que não significa nada, pois ainda é facilmente encontrada na internet.

Tweet de Daryl Morey

A mensagem declarava apoio aos protestos que ocorrem há meses no território semiautônomo de Hong Kong, em uma disputa ligada à autonomia do território contra a China continental. A tensão entre o movimento em Hong Kong e o governo chinês se iniciou devido a uma medida legislativa que permitiria que suspeitos de crimes pudessem ser extraditados da ilha de Hong Kong para território continental chinês, ficando fora de sua jurisdição semiautônoma. Vale lembrar que Hong Kong é uma região administrativa especial da República Popular da China (assim como Macau), que detém certa autonomia do governo central e a medida are vista como uma brecha para que a oposição política pudesse ser perseguida e extraditada para a China continental. Como resultado, protestos têm ocorrido há diversos meses, com habituais confrontos com a polícia chinesa.

É importante também notar a força da equipe do Houston Rockets na China, especialmente devido ao astro do basquete Yao Ming. O jogador é um dos maiores nomes do esporte chinês e atualmente comanda a Associação Chinesa de Basquete. Yao jogou na NBA, sempre pelos Rockets, entre 2002 e 2011, ano em que se aposentou devido a lesões. Em 2016, foi nomeado ao Hall da Fama do basquete americano, ato que foi certamente influenciado pela crescente aproximação da NBA com o mercado chinês.

Yao Ming

Yao Ming

A REAÇÃO

Foi nesse contexto que a mensagem de um importante dirigente da franquia mais popular da NBA em território chinês foi recebida. A resposta chinesa ao tweet de Morey não tardou, e foi avassaladora. Apenas horas após a mensagem de Morey, Tilman Fertitta, dono do Houston Rockets, publicou na mesma rede social: “Escutem… @dmoey NÃO fala em nome do @HoustonRockets. Nossa presença em Tóquio é somente pela promoção internacional da @NBA e nós NÃO somos uma organização política”.

Tweet de Tilman Fertitta

Não há dúvidas que a NBA busca cada vez mais uma maior inserção no mercado chinês. De acordo com a agência Reuters, o basquete é o esporte mais popular na China atualmente, com supostamente cerca de 300 milhões de participantes. A entidade ganhou cerca de 47 milhões de novos seguidores na Wiebo, a plataforma de rede social chinesa, somente nessa última temporada, e tem mais seguidores lá do que no Facebook ou no Twitter. A NBA tem parceria com diversos canais de televisão e mídia no país, incluindo uma parceria com a televisão estatal CCTV. Em 2008 foi lançada a empresa NBA China, com valor estimado em 4 bilhões de dólares. Recentemente, a NBA e a empresa de mída chinesa Tencent assinaram uma extensão em sua parecria até a temporada de 2024-25, no valor de $1,5 bilhão.

Dessa forma, não é de se espantar que a pressão chinesa tenha se dado principalmente no campo econômico. Em 6 de outubro, dois dias após o tweet,  Associação Chinesa de Basquete anunciou que suspenderia todo relacionamento com os Rockets e o consulado geral chinês em Houston pediu que o time “esclarecesse e corrigisse imediatamente os erros”. O principal canal esportivo da TV chinesa, CCTV, anunciou que suspenderia a transmissão dos jogos dos Rockets na televisão e a empresa de mídia Tencent declarou que interromperia o streaming dos jogos da equipe. Na última temporada, cerca de 500 milhões de pessoas assistiram a jogos dos Rockets na plataforma da Tencent e mais de 600 milhões acompanharam o time pela TV.

A NBA buscou uma resposta rápida já no dia 7, declarando que lamentava que a mensagem de Morey tenha ofendido muitos dos fãs e amigos na China, mas que “Ainda que Daryl tenha deixado claro que seu tweet não representa os Rockets ou a NBA, os valores da Liga incentivam indivíduos a estudar e a compartilhar suas visões sobre assuntos que considerem importantes”.  Daryl Morey também refirmou em sua conta pessoal que seus tweets eram apenas seus e não representavam os Rockets ou a NBA.

No entanto, a resposta não foi o que os chineses esperavam. Ainda mais quando, no dia seguinte, Adam Silver, comissário da NBA, publicou que “A NBA não se colocará em uma posição de regular o que jogadores, empregados e dirigentes esportivos dizem ou não”.  Ele complementou afirmando: “Sei que existem consequências para a liberdade de expressão; teremos que viver com essas consequências. Para aqueles que questionam nossas motivações, isso vai muito além do que o crescimento de nosso negócio” (fonte).

Adam Silver

Adam Silver

Em reposta à mensagem de Adam Silver, Tencent e CCTV anunciaram que interromperiam a transmissão de todos os jogos da pré-temporada da Liga na China, afirmando: “expressamos nossa forte insatisfação e oposição ao declarado apoio de Silver à liberdade de expressão de Morey. Acreditamos que comentários que questionam a soberania nacional e estabilidade social não pertencem à categoria de liberdade de expressão” (Fonte).

No dia seguinte, 9 de outubro, todos os 11 parceiros oficiais da NBA na China suspenderam suas relações com a NBA, removendo todas as referências à entidade de basquete estadunidense de seus websites, campanhas de marketing e patrocínios. Tudo isso menos de uma semana após o tweet inicial de Morey.

Astros da NBA foram a público tentar reaproximar a franquia de basquete do público chinês. Jams Harden, uma das grandes estrelas da NBA e jogador dos Rockets, declarou em entrevista que “amamos a China, amamos jogar lá”. LeBron James foi ainda mais enfático em sua defesa à relação com a China. “Não quero entrar em uma discussão com Daryl Morey”, ele falou, “mas acre

dito que ele não tinha conhecimento sobre a situação em questão e se pronunciou”. LeBron ainda afirmou que “Todos temos liberdade de expressão, mas por vezes existem ramificações para os problemas que podem ocorrer quando você não está pensando nos outros e está pensando apenas em você mesmo” (Fonte).

 

CONCLUSÃO

As disputas continuam e as pontes queimadas ainda não foram reconstruídas. Adam Silver aposta na participação de Yao Ming para realizar essa ligação, mas o astro do basquete ainda não se pronunciou nesse sentido. No entanto, a reação chinesa a um único tweet, rapidamente apagado, de um dirigente esportivo (e não de uma grande estrela) podem nos oferecer elementos para algumas relevantes considerações.

Primeiramente, é possível perceber a força do esporte como um importante veículo de propaganda e mobilização. A ação coordenada dos diversos agentes chineses na reação ao tweet de Morey, inicialmente focada no Houston Rockets, mas posteriormente difundida para toda NBA devido aos comentários de Adam Silver, demonstram uma organização política de contenção a posicionamentos politicamente indesejáveis. Como um tiro de canhão para matar um mosquito, a reação chinesa acabou por chamar mais atenção ao fato, que passaria largamente ignorado em grande parte do mundo. Mas que pode ser vista também como exemplo para a prevenção de manifestações futuras não apenas nos esportes, mas no campo do entretenimento em geral. A reação chinesa é, sem dúvidas, um recado para protestos futuros.

Além disso, também é importante notar o papel desempenhado pela força econômica como meio de pressão política sobre os agentes do campo esportivo. Tanto atletas como dirigentes, clubes e federações, a própria NBA, foram diretamente atingidos pela força da resposta financeira ao incidente. A fala de LeBron descrita acima revela as preocupações de um atleta com vínculos financeiros estabelecidos através de contratos de imagem e de patrocínios com fornecedoras de material esportivo, por exemplo. Clubes e Federações perdem taxas de transmissão, parcerias, patrocínios e ganhos com vendas de material oficial, que podem somar bilhões de dólares. Políticos chineses não se manifestam e a reação se dá, aparentemente, de forma espontânea por parte de empresas e da opinião pública chinesa. Ao buscarem reafirmar a velha máxima de que esporte e política não se misturariam, a resposta chinesa tenta se vestir de uma aparência também apolítica, no sentido de uma política oficial de governo.

Entre pedidos de demissão de Deryl Morey vindos das redes sociais e de pressões contra a capitulação da NBA por parte de políticos de ambos os partidos do governo estadunidense, a história ainda não se encerrou. Assim como os protestos.

 

 


O caso Henrikh Mkhitaryan: a UEFA e a geopolítica europeia

27/05/2019

Por Maurício Drumond

 

A temporada europeia 2018-2019 ficou marcada pela hegemonia do futebol inglês em suas competições internacionais. Suas duas principais competições, a Liga dos Campeões e a Liga Europa, terão em suas finais confrontos exclusivos entre equipes da Premier League. Se, por um lado, a final da Liga dos Campeões da Europa entre Tottenham e Liverpool ganhou contornos dramáticos pela classificação heroica das duas equipes no jogo de volta das semifinais; foi a final da Liga Europa, a menos badalada das duas, que ganhou os noticiários na semana que se passou. Mas o principal motivo dessa atenção não foi o futebol apresentado por Chelsea e Arsenal e o prospecto de uma final europeia com o clássico londrino. Mais uma vez, questões políticas se impuseram sobre o jogo e ditaram as manchetes esportivas, com a notícia de que o meia do Arsenal, Henrikh Mkhitaryan, não disputaria o jogo devido às tensões políticas entre Armênia, sua terra natal, e Azerbaijão, anfitrião da final europeia.

Armenia e Azerbaijao

Localização de Armênia (em verde) e Azerbaijão (em laranja)

O caso Mkhitaryan já agitava a imprensa desde a qualificação da equipe inglesa à final, uma vez que já se repetira em duas outras ocasiões. Na Liga Europa de 2015, quando ainda defendia as cores do Borussia Dortmund, o meia não enfrentou o Gabala, equipe azerbaijana. O jogador também não viajou com a equipe em outubro de 2018 para um jogo no país contra a frágil equipe do Qarabag, ainda na primeira fase da competição. Na ocasião, o Arsenal não teve dificuldades em vencer a equipe local por 3 a 0 e a ausência do atleta não causou tanta repercussão. Gurban Gurbanov, técnico do Qarabag, chegou a afirmar que os ingleses “pouparam” Mkhitaryan da pressão de jogar perante 68 mil torcedores no Estádio Olímpico de Baku, palco da final do dia 29 (Fonte).

Henrik Mkhitaryan

O meia armênio Henrik Mkhitaryan, do Arsenal.

O fato da questão aparecer com mais força para a disputa da final não deveria ser surpresa para ninguém. No entanto, antes de prosseguirmos, devemos olhar para a história recente da relação entre os dois países, sua disputa pela região de Nagorno-Karabakh e a República de Artsaque, de forma a melhor compreender as causas desse impasse.

República de Artsaque ou Nagorno-Karabakh? Disputas e reconhecimento limitado.

As atuais disputas entre Armênia e Azerbaijão se dão principalmente por disputas étnicas e territoriais em torno da região de Nagorno-Karabakh. A região, de maioria étnica armênia, era parte do Império Russo até a dissolução do mesmo após a Revolução Bolchevique de 1917, quando se tornou parte da República Democrático Federativa Transcaucasiana, formada pelas atuais Georgia, Armênia e Azerbaijão. No entanto, após apenas três meses de vida (de fevereiro a maio de 1918) as três nações se separaram e Armênia e Azerbaijão entraram em conflito por diversas regiões, incluindo Nagorno-Karabakh. A região foi logo depois invadida por tropas otomanas em meio à Primeira Guerra Mundial, sendo defendida por grupos armênios. Seguindo o fim da guerra, a região foi colocada sob jurisdição azerbaijana, mas grupos armênios continuaram oferecendo resistência através de guerrilhas localizadas. Tal situação se manteve até o início do domínio soviético sobre a região, em 1920.

Regiaõ de Nagorno-Karabakh

Mapa com destaque para a região de Nagorno-Karabakh

Após a anexação dos dois países pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, as disputas fronteiriças foram encaminhadas pelo então Comissário do Povo para as Nacionalidades da URSS, Josef Stalin. Na ocasião, Nagorno-Karabakh foi incluída como Oblast (região administrativa soviética) autônomo da República Soviética do Azerbaijão, e os conflitos foram controlados pelo governo soviético. O declínio da URSS na década de 1980 e sua eventual dissolução trouxeram a questão nacional da região novamente à tona, com a realização de um plebiscito que aprovou a separação da região. Dessa forma, teve início a chamada Guerra de Nagorno-Karabakh, entre forças militares do Azerbaijão e um autoproclamado governo local, apoiado pela Armênia. O conflito durou até 1994.

Após o cessar fogo, a região manteve seu governo autônomo, inicialmente com a denominada República de Nagorno-Karabakh, renomeada em 2107 como República de Artsaque. Internacionalmente, região é majoritariamente reconhecida como parte do Azerbaijão, mantendo controle de facto sobre seu território. A Armênia, apesar de não reconhecer oficialmente o Artsaque por motivos diplomáticos, mantém próxima relação com suas forças governamentais. Já o Azerbaijão continua sua luta diplomática pela retomada de controle sobre o território, e as negociações são mediadas pelo Grupo de Minsk, da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (CSCE).

Mkhitaryan e a Final de Liga Europa da UEFA

Segundo diversas reportagens, Henrikh Mkhitaryan não participará do jogo em Baku por ser armênio, tendo em vista as tensões entre os dois países. No entanto, “Micki” entrou na lista de pessoas proibidas de entrar no Azerbaijão devido à sua visita à região de Nagorno-Karabakh como parte de uma delegação da seleção armênia em 2010 que distribuiu presentes para moradores da região. Na ocasião, a delegação foi recepcionada pelo president do governo local, Bako Sahakyan, e por Samvel Karapetyan, Ministro da Defesa e Presidente da então nomeada Federação de Futebol do Karabakh, que conferiu a Mkhitaryan uma medalha de “Defensor da Pátria”.

De acordo com uma reportagem armênia, o então jogador do Shakhtar Donetsk afirmou na ocasião que a iniciativa partiu dele mesmo. “Tive essa ideia no verão em que me mudei para Shakhtar. Queríamos ajudar a Armênia e a República de Nagorno-Karabakh, as famílias dos defensores da liberdade, para ser mais exato, porque acredito que eles necessitam de tais iniciativas. (…) Espero ser capaz de ajuda-los no futuro também. Estou planejando visitar orfanatos localizados em Yerevan quando retornar para a Armênia no próximo verão” (Fonte).

Pode-se perceber que a ligação de Mkhitaryan com a causa de Nagorno-Karabakh não é mera especulação azerbaijana. Sua imagem é publicamente ligada à questão, tanto que no jogo de volta contra o Qarabag, em Londres, diversos torcedores exibiram a bandeira de Artsaque nas arquibancadas, e um deles chegou a invadir o gramado exibindo o símbolo nacional, enquanto apontava para “Micki”, que estava no banco de reservas (Fonte).

 

Os representantes do governo do Azerbaijão, por sua vez, afirmam que a participação do jogador armênio na final em Baku não seria um problema. O embaixador do país na Inglaterra, Tahir Taghizadeh, afirmou que o atleta receberia o visto e teria garantias de segurança em sua estadia no país. O diplomata teria afirmado à Sky Sports News, na Inglaterra:

Seu problema é ter visitado uma porção militarmente ocupada do Azerbaijão sema permissão do governo azerbaijano. Isso traz consequências, incluindo entrar na lista negra do governo, mas ele terá segurança garantida. Minha mensagem para Mkhitaryan seria: você é um jogador de futebol. Se você quiser jogar futebol, vá para Baku, você estará seguro lá. Mas se você quiser jogar com essa questão, então será uma outra história” (Fonte).

A mensagem, com certo tom de ameaça, não ajudou a solucionar o caso. De acordo com a comunicação oficial do Arsenal, o jogador, juntamente com sua família, decidiu não viajar com a equipe e ficar de fora da final europeia. Taghizadeh apontou para o ato como uma “ação política”, na qual o atleta teria colocado intenções políticas acima das profissionais (Fonte).

Do outro lado, os jogadores do Arsenal planejavam uma homenagem em solidariedade ao colega durante o aquecimento antecedendo à partida, na qual usariam camisas com o nome do jogador armênio. No entanto, a UEFA interveio junto ao clube e proibiu qualquer manifestação. A entidade afirma ter feito tudo o possível para permitir a ida do jogador à final, mas que a decisão de não comparecer ao evento se deve unicamente ao clube e ao atleta.

 

À guisa de conclusão: UEFA e a geopolítica europeia

Em meio a duas finais inglesas das principais competições europeias de clubes, questões geopolíticas europeias tomam o holofote e se apresentam como um inesperado problema para a UEFA. O sistema de final em jogo único das competições da entidade, sediados em localidades definidas com grande antecedência, apresenta limitações significativas, especialmente quando realizados em regiões conturbadas como o extremo oriente europeu. Em 2017, quando Baku foi escolhida sede da final dessa temporada, seria difícil imaginar um problema como esse. No entanto, o histórico de conflitos na região e os relatos de perseguição a ativistas de direitos humanos no país sede poderiam ser encarados como sinais de que essa não seria a sede mais adequada.

Ao se candidatar à sede da final da Liga Europa, o governo do Azerbaijão buscava promover a imagem do país e se dissociar da imagem de tensão e conflito. O caso Mkhitaryan pode ter posto isso a perder, trazendo ainda mais luz ao conflito pouco conhecido e, quem sabe, atiçando as brasas da diplomacia europeia sobre o caso de Nagorno-Karabakh. Dia 27 teremos o resultado da Liga Europa. Mas o resultado final desse jogo levará mais tempo para ser conhecido.

 


O Futebol na Trégua de Natal de 1914

24/12/2018

Há 104 anos, o primeiro 25 de dezembro da Primeira Guerra Mundial ficou marcado como a Trégua de Natal. O evento é um dos mais rememorados momentos da “Guerra para Acabar com Todas as Guerras”, de forma geral motivado pelo sentimento antibelicista e pelo idealismo romântico de paz e civilidade em um dos mais dramáticos e brutais conflitos da história.

Apesar de ser um dos mais simbólicos momentos da guerra, a Trégua de Natal não foi movimento oficial estabelecido pelos Estados beligerantes e não foi estabelecida em todos os campos de batalha. Estatísticas oficiais declaram que o dia de natal de 1914 contabilizou a morte de quase cem soldados ingleses nas trincheiras da França e de Flandres. Ainda que esse número seja significativamente mais baixo do que em outros períodos da guerra, ele demonstra que batalhas foram travadas em alguns setores e que a trégua não foi uma regra seguida em toda a frente ocidental.

Na maior parte do front, os relatos de tréguas são variados, tanto de ingleses como de alemães. Herbert Smart, atacante do Aston Villa que servia no exército britânico, descreveu assim o evento:

No Dia de Natal, fui [até os alemães] e troquei alguns cigarros por charutos. O alemão que conheci tinha trabalhado como garçom em um bar de Londres e podia falar um pouco de nossa língua. Ele disse que eles não querem lutar. É engraçado que um alemão aperte sua mão como se estivesse tentando esmagar seus dedos, e que alguns dias depois esteja tentando te apagar. Não sei bem o que pensar, mas acho que eles estão preparando um grande esquema. Mas nossos rapazes estão preparados.

Herbert SmartFonte: http://wartimeheritage.com/storyarchive1/story_christmas_truce.htm

Dentre os relatos da trégua, ganharam destaque na imprensa eventuais jogos de futebol realizados entre tropas britânicas e alemães na terra de ninguém (região entre as trincheiras inimigas). Tais relatos capturaram a imaginação popular e são frequentemente retratados em menções jornalísticas e especializadas – como sites de história com fins educacionais – e geralmente reproduzem o evento como jogos organizados entre times das diferentes tropas, quase que um amistoso internacional em meio aos escombros da batalha.

O discurso construído ao redor do esporte, exaltando sua suposta capacidade de unir os indivíduos se estabelece aqui como um de seus mais extremados exemplos. Não é acidente que o caso seja lembrado na homepage do movimento internacional Football for peace, para definir sua visão: “Sabemos que o futebol pode realizar feitos incríveis. Lembra-se do natal de 1914, onde muitos soldados britânicos e alemães baixaram suas armas e se conectaram como companheiros humanos em um jogo de futebol armado na terra de ninguém? (…) Nossa visão é que cada país no mundo use a diplomacia do futebol para criar sociedades mais pacíficas e tolerantes”.

Mas até que ponto essa imagem pode ser confirmada através das fontes disponíveis sobre o evento? Em primeiro lugar, podemos descartar as imagens normalmente exibidas em artigos sobre o evento como fontes iconográficas. Jogos de futebol eram um passatempo popular entre tropas afastadas do front, e em geral essas imagens são fruto de momentos de lazer entre oficiais e outros soldados, como nas imagens abaixo.

Fontes: https://www.worldhistory.biz/photos-and-videos-world-war-i/4398-1.html; https://www.iwm.org.uk/collections/item/object/205234299.

Informações sobre jogos de futebol na Trégua de Natal são em sua maior parte provenientes de cartas enviadas por soldados no front para suas famílias nos dias subsequentes. Muitos desses relatos foram publicados em jornais do período e ganharam grande popularidade. O futebol, já visto em 1914 como um elemento de amizade e congregação, virava um símbolo de esperança na guerra que colocava em campos opostos jovens que estariam tentando se matar nos dias seguintes.

No entanto, devemos ter o cuidado ao tratar esses relatos como representações inequívocas do passado. É difícil determinar a veracidade de todos esses relatos. Estariam eles descrevendo o que vivenciaram durante a trégua, ou apenas reproduzindo os rumores e histórias que ecoavam pelas trincheiras? Um dos maiores exemplos foi o relato publicado no jornal The Times no dia 1 de janeiro de 1915, no qual um soldado anônimo relatou que “o regimento disputou um jogo de futebol contra os alemães, que os derrotaram por 3-2”. O mesmo placar foi mencionado por fontes alemães. O tentente Johannes Niemann, do 133° Regimento de Infantaria da Saxônia, escreveu:

Nosso regimento e os Seaforth Highlanders escoceses estavam fraternizando ao longo do front. Peguei meus binóculos olhei com cuidado sobre o parapeito [da trincheira] e vi a incrível imagem de nossos soldados trocando cigarros, schnapps e chocolates com o inimigo. Depois, um soldado escocês apareceu com uma bola de futebol. Os escoceses marcaram seus gols com seus quepes estranhos e fizemos o mesmo com os nossos. Não era fácil jogar no campo congelado. Grande parte dos passes foram muito errados, mas todos jogaram com grande entusiasmo.

Nós alemães nos divertimos muito quando uma rajada de vento revelou que os escoceses não usavam roupa por baixo de seus kilts. Mas depois de uma hora de jogo, nosso Oficial em Comando enviou uma ordem de que deveríamos parar. O jogo terminou com o placar de três gols contra dois a favor dos Fritz contra os Tommy.

Fonte: http://www.telusplanet.net/public/prescotj/data/other/letterstrenches.html

Apesar de se referirem ao mesmo placar, os relatos são de regiões muito distantes no front, impossibilitando a referência ao mesmo jogo. Nada impede que dois jogos com o mesmo resultado tenham sido disputados nos diversos pontos de confraternização ao longo da frente ocidental, mas isso não pode ser encarado como uma certeza. Em outra carta, de acordo como a BBC, um soldado teria relatado: “mandamos um ciclista encontrar uma bola de futebol. Em seu retorno jogamos uma partida contra eles, ganhando facilmente por 4-1”.

Mais do que jogos organizados, de “nós” contra “eles”, há também relatos de jogos mais espontâneos, com dezenas de soldados chutando a bola, sem gols ou times definidos. Esse é um dos poucos casos mencionados por mais de uma fonte provenientes do mesmo local. Frank Naden, em uma entrevista ao jornal Evening Mail, de Newcastle, no dia 31 de dezembro de 1914, afirmou:

No dia de natal um dos alemães saiu das trincheiras com as mãos para cima. Nossos rapazes imediatamente levantaram as suas e nos encontramos no meio, e pelo resto do dia confraternizamos, trocando comida, cigarros e presentes. (…) Os escoceses tocaram suas gaitas de fole e tivemos uma rara festa, que incluiu futebol, no qual os alemães participaram.

Fonte: http://www.christmastruce.co.uk/christmas-truce-football-match/

Em 1983, em entrevista para um canal de televisão na Inglaterra, Ernie Williams, que fizera parte do mesmo batalhão de Naden (6° Cheshires), reafirmou o relato do companheiro em suas memórias, mas com maiores detalhes. Segundo Williams,

a bola apareceu de algum lugar, não sei de onde, mas veio do lado deles – a bola não veio do nosso lado. Eles fizeram uns gols e um rapaz foi para o gol e então começou um bate-bola generalizado. Acho que havia umas duzentas pessoas jogando. Chutei a bola uma vez. Eu jogava bem na época, com 19 anos. Todos pareciam estar se divertindo. (…) Não tinha juiz nem placar, nenhuma disputa. Era somente uma brincadeira – nada como o futebol que assistimos na televisão.

Fonte: http://www.christmastruce.co.uk/christmas-truce-football-match/

É provável que a maior parte dos encontros futebolísticos da trégua de natal tenha seguido esse modelo. Levando-se em consideração que em diversos pontos a terra de ninguém estava devastada pelos meses de confronto anteriores, com corpos em decomposição, a organização desses confrontos não era algo tão simples. Um simples jogo sem times e sem regras seria algo muito mais prático para o encontro. Além disso, a possível repreensão de oficiais de comando também podem ter frustrado iniciativas mais organizadas. Frank Naden, na entrevista ao Evening Mail, também menciona que “no dia seguinte recebemos uma ordem de que toda comunicação e interação amigável com o inimigo deveria terminar”. E documentos oficiais comprovam que no dia 2 de janeiro de 1915 foi emitida a ordem de que “tréguas informais com o inimigo deveriam terminar e qualquer oficial  ou [oficial não comissionado] que inicie uma seria julgado pela Corte Marcial”.

Há pouca dúvida que jogos de futebol ocorreram nessa imprevisível trégua de natal. No entanto, ainda nos resta questionar a forma com que os jogos ocorreram. Segundo as evidências disponíveis, não é possível afirmar que jogos com placar contado e duas equipes de diferentes nacionalidades se enfrentando tenham de fato sido organizados na terra de ninguém, ainda que alguns relatos possam ser elencados. Devido às condições do momento e à informalidade das tréguas ao longo das trincheiras, jogos desorganizados, sem equipes definidas, com soldados chutando a bola de um lado para o outro, parecem ter sido mais prováveis. No entanto, além da forma que tais disputas adquiriram, é interessante observar  o fato desses confrontos terem se tornado um dos elementos mais simbólicos dessa trégua, ganhando predominância sobre outros símbolos mais próximos ao natal, como a troca de presentes (cigarros e bebidas, principalmente). O futebol, nos mais diversos contextos, é visto como símbolo de confraternização e união. Ainda que nem sempre seja esse o caso.

 

 


Mohamed Salah, a Chechênia e a Diplomacia do Futebol

23/07/2018

Por Maurício Drumond

 

Chegou ao fim mais uma Copa do Mundo. E como sempre, ao final de uma Copa, fica um gostinho de quero mais. Uma sensação de desânimo ao pensar que a próxima só acontecerá daqui a quatro anos. Somando-se a essa tensão há também, para nós que escrevemos sobre futebol, outra questão: praticamente todos os estudiosos do esporte estão publicando suas reflexões sobre a Copa, abordando o objeto a partir de perspectivas diversas e com diferentes graus de profundidade e de qualidade de análise. Assim, tendo um artigo programado nesse blog apenas uma semana após seu encerramento, encontro-me em um dilema: como não escrever algo sobre a Copa do Mundo, mesmo sabendo que um texto sobre o assunto tende a ser mais um sobre o tema, e que dificilmente trará algo ainda não disponível em outros sítios?

Essa situação se complica ainda mais no que se refere à relação entre futebol e política. Se ainda existem aqueles que defendem que futebol e política não se misturam, a fragilidade de seus argumentos ficou ainda mais evidente após essa Copa, que foi marcada por diversas situações que exaltaram essa simbiótica interação. Assim, artigos de jornalistas, acadêmicos, cronistas e outros infestaram a rede apontando os aspectos políticos que a Copa exibia em seus jogos, especialmente sobre os mais evidentes, mas também de alguns mais sutis.

Retomo aqui então um momento realizado antes do início da competição, que demonstra a importância do esporte, e do futebol em especial, como importante fonte de aquisição de capital político. Aproveitando-se da atenção e dos sentimentos gerados por estrelas de futebol ou pela própria Copa do Mundo, agentes do campo político buscam ser vistos e associados a atletas e ao evento em si, como forma de publicidade doméstica e internacional. Nesse sentido, destacam-se as iniciativas de Ramzan Kadyrov em aproximar sua imagem à de Mohamed Salah, astro do futebol internacional.

 

Quem é Ramzan Kadyrov?

Ramzan Kadyrov é o presidente e líder político nacionalista da Chechênia, uma república da Federação Russa de maioria islâmica, com histórico separatista envolvendo guerras por sua independência nos anos 1990. Depois do fim da União Soviética, um grupo de líderes chechenos declarou sua independência e a formação de um governo autônomo. A Rússia reagiu em 1994, enviando tropas para a região e iniciando a primeira Guerra da Chechênia, que durou até 1996, terminando com um cessar fogo e reincorporando a região à Rússia. Nos anos 1999 e 2000 novos conflitos surgiram, com grupos guerrilheiros islâmicos, que continuam em atividade até os dias de hoje, ainda que com menor atividade.

Aliado de Putin e homem forte da região, Kadyrov tem um histórico ligado aos conflitos. Seu pai, Akhmad Kadyrov, era uma importante figura no movimento independentista, mas mudou de lado e passou a apoiar os russos a partir da segunda Guerra da Chechênia. Em 2003 ele se tornou o primeiro presidente da República da Chechênia, uma região da Federação Russa. Sete meses depois, ele foi assassinado por uma bomba nas tribunas de um estádio de futebol, ao assistir um desfile em homenagem à vitória russa na Segunda Guerra Mundial. Ramzan Kadyrov assumiu então o comando da milícia de seu pai, os Kadyrovtsy (os seguidores de Kadyrov) e foi eleito presidente da região em 2007, mantendo-se no cargo até hoje.

Controverso em relação a direitos humanos, ligados a torturas e desaparecimentos de oposicionistas políticos, além de políticas de perseguição e encarceramento a homossexuais e de discriminação de mulheres, sob a égide de um discurso de radicalização religiosa. Ele também tem forte ligação com o mundo do futebol. É presidente honorário do principal clube de futebol da cidade de Grozny, capital da Chechênia. Originalmente chamado de Terek Grozny, o clube foi renomeado como Akhmad Grozny em 2017, em homenagem ao pai de Kadyrov, abandonando a referência ao principal rio da cidade.

 

Kadyrov e Mohamad Salah

Não é mera coincidência, então, que Grozny tenha sido a sede inicial de preparação da seleção egípcia em solo russo, e que Kadyrov tenha se utilizado da presença da principal estrela egípcia, o atacante Mohamed Salah, para se promover. De acordo com a imprensa britânica, o presidente checheno teria aparecido de surpresa no hotel onde a seleção egípcia se hospedava antes de sua estreia na competição. Salah ainda estava no hotel se recuperando da lesão sofria na final da Liga dos Campeões e teria sido surpreendido pela comitiva presidencial, e teria sido levado com Kadyrov para o estádio do Akhmad Grozny, onde o resto da equipe treinava. Lá, foi alvo de fotos e vídeos andando junto a Kadyrov e apertando sua mão.

 

O evento culminou com um jantar oferecido à delegação egípcia antes de sua partida para seu jogo final na Copa, contra a Arábia Saudita, onde Kadyrov entregou para Salah o título de cidadão honorário da Chechênia. “Mohamed Salah é um cidadão honorário da República da Chechênia! É isso mesmo!” Kadyrov publicou na internet. “Dei a Mohamed Salah uma cópia do decreto e um botton no banquete que dei em homenagem à seleção egípcia”.

07 Salah cidadania

A escolha por Salah não foi aleatória. Um dos jogadores de maior destaque na temporada europeia, Salah é o principal jogador de futebol muçulmano da atualidade, e talvez de todos os tempos. O islamismo é uma das bases do poder de da política de Kadyrov, e sua aproximação com o astro do futebol islâmico seria certamente vantajosa, como parte da estratégia de se apresentar como um líder benevolente, contrapondo a imagem difundida pela imprensa ocidental de perpetrador de crimes contra a humanidade.

Salah, por sua parte não se pronunciou oficialmente sobre o caso. De acordo com a imprensa, o jogador foi pego de surpresa e cogitou até mesmo abandonar a delegação egípcia antes do jogo contra a Arábia Saudita. Apesar da federação egípcia alegar que a informação, veiculada pela CNN, não tinha fundamento, algumas evidências demonstram o contrário. Após marcar o gol egípcio contra a Arábia Saudita, em sua despedida da Copa, Salah não comemorou o gol, mas simplesmente andou para o centro do gramado, cumprimentando os colegas de equipe que vinham celebrar com ele o 1 a 0. Antes do jogo contra a Arábia Saudita, o jogador postou em rede social a seguinte mensagem, traduzida pela imprensa britânica como “Todos no Egito estão juntos e não há qualquer desentendimento entre nós. Nos respeitamos e nosso relacionamento é ótimo”.

salah tweet

Outra postagem do atacante, dias depois, trouxe o incidente novamente à tona. No dia 1 de julho, Salah escreveu “Alguns podem achar que acabou, mas não acabou. Precisa haver mudança”. Ainda que alguns acreditem que a postagem, feita após a eliminação da Espanha no torneio, tenha se dirigido a Sergio Ramos, responsável pela lesão que quase tirou o atacante da Copa do Mundo, outros apontam para uma indireta sobre a Federação Egípcia de Futebol. É importante lembrar que Salah e a Federação Egípcia já tinham entrado em disputa meses antes da Copa em relação à utilização de direitos de imagem do atleta sem sua permissão.

Seja como for, Salah foi mais uma peça utilizada pelo presidente chechênio em sua estratégia de associar sua imagem com a de celebridades ligadas ao mundo do esporte. Seu governo autoritário sobre a região e suas raízes ligadas ao radicalismo islâmico são mantidos por meio da opressão e da produção de consenso. E uma das formas de consolidar sua imagem de força e masculinidade é através do esporte, especialmente o futebol e o MMA. Ao longo dos anos, uma longa lista de personalidades ligadas ao esporte e ao mundo da luta visitaram a Chechênia a convite de Kadyrov. Os atores Jean-Claude Van Damme e Hillary Swank participaram de sua festa de aniversário em 2011, recebendo altos cachês. Steven Seagal se encontrou com ele em 2013. O lutador brasileiro Fabrício Werdum foi patrocinado por Kadyrov, que mantém contato com muitos outros lutadores, incluindo Floyd Mayweather.

A ligação de Kadyrov com o mundo do esporte ainda precisa ser melhor investigada, seja através do futebol ou da luta. Em 2017, Kadyrov organizou um jogo de futebol em comemoração ao aniversário de Vladimir Putin. O jogo foi realizado entre uma equipe de celebridades esportivas russas e uma seleção master italiana, que contava com Paolo Rossi e outros ex-jogadores. O time russo contou com a participação de Ronaldinho Gaúcho e do próprio Kadyrov, que empunhava a braçadeira de capitão, no estádio do Akhmad Grozny. A equipe russa venceu o jogo por 6 a 3, com gols de Ronaldinho e do próprio Kadyrov. No Instagram, Kadyrov publicou:

“Eu quero compartilhar a boa notícia de que tive a honra de marcar um gol nesse jogo dedicado à Vladimir Vladimirovich contra a seleção italiana! As arquibancadas estavam cheias. Antes do início da partida, cantamos os hinos nacionais da Itália, Rússia e da República da Chechênia.  O Estádio estava repleto de belas imagens. Durante o jogo, um retrato de 1.800 metros quadrados de Vladimir Putin foi exibido em uma das arquibancadas. Após o apito final, o céu sobre a Arena Akhmad se iluminou com os coloridos fogos de artifício”.

Através do futebol Kadyrov estabelece vínculos com o nacionalismo checheno e com a mãe Rússia. Com o mundo do esporte internacional e com o islamismo. E busca associar sua imagem ao jogo a moldar a percepção internacional a seu respeito. No entanto, ele não inovou em nenhum desses quesitos. A promoção da imagem política através do futebol é tão velha quanto o próprio esporte bretão. Nessa mesma Copa do Mundo, por exemplo, vimos outro caso de destaque nesse sentido, com Kolinda Grabar-Kitarović, presidente da Croácia. Mas isso fica para outro dia.


Muito além de Neymar: o Catar e o investimento no Paris Saint-Germain como forma de projeção internacional

19/02/2018

 

Por Maurício Drumond

Na quarta-feira passada, o mundo do futebol parou para assistir o primeiro duelo entre duas das maiores potências do futebol mundial: Real Madrid x Paris Saint-Germain. Na imprensa, muito se falou (e ainda se fala) da disputa implícita entre Cristiano Ronaldo e Neymar, dois dos maiores postulantes ao prêmio de melhor jogador de futebol do ano da FIFA. A vitória por 3 a 1 do Real Madrid, com dois gols de Cristiano Ronaldo, e a não destacada atuação de Neymar teriam supostamente dado a vantagem ao jogador português nessa disputa. Mas o segundo jogo, agora em Paris, ainda poderia mudar esse quadro.

Esse tem sido o principal destaque dado ao jogo na grande mídia, mas não é o ponto que me interessa nesse artigo. Outra disputa implícita no confronto da semana passada me parece ser mais interessante. A disputa entre dois modelos de representação nacional através de clubes de futebol. De um lado o modelo representado pelo Real Madrid Club de Fútbol, onde o sucesso esportivo de uma equipe é por vezes mobilizado em prol do prestígio nacional. Do outro, um novo modelo de projeção nacional baseada no esporte, capitaneado pelo Catar através do clube Paris Saint-Germain.

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Peça publicitária do jogo das oitavas-de-final da Liga dos Campeões da UEFA, ressaltando a disputa entre Cristiano Ronaldo e Neymar.

O primeiro modelo, que pode ser visto como “tradicional” dentro dos estudos do esporte, é em geral atribuído ao papel desempenhado por uma seleção nacional ao representar seu país, mas em determinados casos pode ser identificado com um clube específico, no caso o Real Madrid, com alto desempenho internacional e forte apelo nacional. Muitos estudos já se dedicaram a esse modelo de projeção nacional através do esporte, sendo por vezes associado ao estudo de identidades nacionais de nacionalidades não soberanas, como no caso de Barcelona e a identidade catalã ou do Athletic Club (de Bilbao) e a identidade basca.

Já o segundo modelo, que pode ser visto como “novo” e, por isso, objeto de ainda poucos estudos, merece maior atenção. No Brasil, a presença do Catar nos esportes foi mais profundamente notada no momento da negociação de Neymar com o Paris Saint-Germain, envolvendo valores até então nunca vistos no futebol. No entanto, a atuação do pequeno país do Oriente Médio vai muito além e se iniciou muito antes do contrato com o craque brasileiro. É mais especificamente sobre essa atuação do Catar no mundo do futebol internacional e sua proposta de reconhecimento e prestígio através do clube francês que esse texto se aventura.

Catar e o Futebol Internacional

O Catar é um país soberano do Oriente Médio, situado na costa oriental da Península Arábica. O país é governado por uma monarquia absoluta hereditária, liderada pela família Al Tahani. Sua população é estimada em cerca de 2,6 milhões de habitantes, dos quais apenas cerca de 12% são de nacionalidade catari (pouco mais de 300 mil). Sua economia, como era de se esperar em um país da região, é altamente dependente da produção de petróleo e gás natural. E o envolvimento do país com o esporte está diretamente ligado à sua intenção em diversificar sua economia, tendo em vista a finitude de seus ainda vastos campos petrolíferos. Mas como veremos adiante, essa ligação vai além disso.

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Mapa da península Arábica. Fonte: Google Maps.

O envolvimento do Catar com o esporte internacional não é recente e nem se limita ao futebol. Antigo protetorado britânico que ganhou sua independência somente em 1971, o país fundou seu Comitê Olímpico em 1979 e enviou atletas para os Jogos Olímpicos pela primeira vez em 1984, em Los Angeles. Em 1988, foi sede da Copa da Ásia de futebol masculino e em 1995 da Copa do Mundo FIFA Sub-20. No entanto, em 2004 o país decide começar a investir de forma mais pesada em esportes. A partir de eventos esporádicos, pode ser visto um aumento expressivo e continuado de realização de grandes eventos esportivos internacionais, culminando na futura realização da Copa do Mundo FIFA de futebol masculino de 2022.

Apesar de sua pequena população de nacionais, o país já conquistou quatro medalhas de bronze nos Jogos Olímpicos de verão, mais do que seu influente e proporcionalmente populoso vizinho, a Arábia Saudita. Dos quatro, apenas as duas medalhas obtidas em Londres 2012 (no tiro e no salto em altura, masculinos) foram conquistadas por nacionais catari. As outras duas foram resultado da política de nacionalização de atletas, que afeta diversos esportes do país, como o próprio futebol. Entre os jogadores mais convocados pelo técnico uruguaio Daniel Carreño para os jogos pela eliminatória da Copa do Mundo de 2018, pode-se encontrar mais de um time formado por estrangeiros naturalizados, como brasileiros Rodrigo Tabata e Luiz Junior (Ceará). A estratégia não é nova, e jogadores mais famosos como Emerson Sheik e Araújo já defenderam a seleção catari, mas a proximidade da Copa de 2022 no país, na qual o Catar já está classificado por ser país sede, intensifica ainda mais o processo. O mesmo ocorreu no handebol, onde o país sediou a Copa do Mundo do esporte em 2015 e montou uma equipe com grandes jogadores naturais de outros países, terminando na segunda colocação do evento.

A política de naturalização de atletas tem alcance limitado, especialmente no futebol, onde a FIFA impôs a regra de que no caso de um atleta já ter jogado pela seleção profissional de um país, não pode atuar por outro, a não ser em casos muito específicos como o de Kosovo (ver post).

Além de buscar o sucesso de suas equipes nacionais, o governo do Catar também busca associar a imagem de seu país com times de sucesso internacional como o Barcelona e o Paris Saint-Germain (PSG). As relações do Catar com esses clubes se deram principalmente através da agência Qatar Sports Investments (QSI), um ramo de investimentos no esporte da Qatar Investment Authority, um fundo soberano do país. Em 2011, a QSI firmou um acordo de patrocínio de camisa com o Barcelona FC, que deu fim à tradição do clube catalão de não utilizar patrocínios comerciais em suas camisas (o clube utilizava o logo da Unicef desde 2006), através da empresa Qatar Foundation, que em 2013 foi substituída pela Qatar Airways, até meados de 2017.

 

Catar e o PSG

Já com o PSG, a ligação foi ainda mais profunda. Em 2011 a QSI comprou o clube e colocou seu CEO, Nasser Ghanim Al-Khelaïfi, como presidente do clube. Al-Khelaïfi é um ex-atleta de tênis, próximo ao xeque Tamim bin Hamad Al-Thani, Emir do Catar. Além de presidente da Federação de Tênis do Catar e diretor da Confederação de Tênis da Ásia, além de ser ex-diretor da rede Al Jazeera. A gestão de Al-Khelaïfi tinha como maior propósito alçar o PSG para a elite do futebol europeu, e para isso foram realizadas diversas contratações de grande peso para a equipe, como as de Neymar (€222 milhões) e Mbappé (€180 milhões), ambas em 2017, entre muitas outras, totalizando mais de 1 bilhão de euros desde 2011. E isso apenas em contratações.

Mas por que o Catar, através da QSI, investiu tanto no futebol, ainda por cima em um clube francês, radicado em Paris? Certamente que não foi apenas para promover o turismo no país. Da mesma forma que o Brasil não gastou R$ 1,4 bilhão no estádio Mané Garrincha, em Brasília, R$ 583 milhões na Arena Pantanal, em Cuiabá, ou R$ 400 milhões na Arena Amazônia, em Manaus, simplesmente para atrair mais turistas para as cidades após a Copa de 2014. Então, quais seriam as possíveis razões que teriam influenciado o Catar a investir tanto no PSG?

Uma das chaves para se compreender o alto investimento catari nos esportes, e mais especificamente no PSG, é a necessidade de diferenciação do país em relação a seus vizinhos do Oriente Médio. O esporte é um dos meios pelos quais o país busca ganhar reconhecimento internacional, seja através da organização de grandes eventos, como a Copa do Mundo de 2022, seja com o patrocínio estampado nas camisas do Barcelona, ou com grandes e chamativas contratações de sua própria equipe na França, o PSG. Ações de branding como essas proporcionam acesso de sua imagem a um mercado mundial de espectadores/consumidores, demonstrando poder econômico, político e cultural.

No caso do Catar, significa ter seu país conhecido não apenas como mais um país boiando no petróleo do Golfo Pérsico, mas como um país cosmopolita, em modernização, mais próximo dos valores culturais ocidentais (ainda que apenas na aparência), elementos profundamente identificados com o esporte. Além do esporte, outros símbolos do Catar que atuam nessa mesma direção são a Qatar Airways, uma das empresas aéreas de maior crescimento nos últimos anos, e a rede Al Jazeera, que desde 2006 passou a ser também transmitida e publicada em inglês, aumentando o seu alcance e dando à rede uma imagem de rede internacional, como uma alternativa à grande mídia ocidental. A rede conta desde 2003 com um canal de esportes, que foi renomeada como beIN Sports em 2012. A transmissão dos principais eventos esportivos, especialmente de futebol, contribuíram muito para essa nova imagem.

James M. Dorsey, chega a afirmar que “o soft power é chave na estratégia de defesa e segurança do Catar”, uma vez que devido à sua diminuta população, o país nunca terá força militar para se defender militarmente, independentemente do equipamento bélico que comprar ou do número de estrangeiros que recrutar para suas Forças Armadas. Ele complementa afirmando que “o esporte é central para uma estratégia de soft power delineada para inserir e popularizar o Catar na Comunidade Internacional, de forma a garantir que o mundo venha em seu auxílio em tempos de necessidade, como no caso da força liderada pelos EUA que expulsaram tropas de ocupação iraquiana do Kuwait em 1990” (link para o artigo de Dorsey).

A projeção internacional gerada por sua participação no futebol seria assim um dos meios utilizados pelo Catar nessa iniciativa de construir soft power. Mas nem tudo são flores. O Catar ainda enfrenta diversas denúncias que vão de encontro à imagem de nação moderna e pacífica que o país procura transmitir, como acusações de financiamento de grupos extremistas islâmicos, de compra de votos para sua escolha como sede da Copa do Mundo de 2022 e de violação de direitos humanos devido a condições extremamente precárias de trabalhadores imigrantes não qualificados – de que trabalhariam em regimes análogos à escravidão. Localmente, o país ainda enfrenta a oposição de vizinhos importantes, uma vez que Arábia Saudita, Egito, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Líbia, Iêmen e Maldivas romperam relações diplomáticas com o governo de Doha e ligações de transporte com o país por um suposto apoio que este estaria dando a grupos extremistas islâmicos. Nesse cenário, o esporte funcionaria como um símbolo de modernidade, estabilidade e paz.

O sucesso do PSG seria assim um dos eixos da política internacional catari de projeção internacional. Neymar seria um importante garoto propaganda, mas a proposta vai além disso. Envolve a criação de uma marca internacional de sucesso. Mas para concluir seu grande objetivo, ainda falta um importante passo para o PSG, a conquista da Liga dos Campeões da UEFA. E para isso o duelo de volta contra o Real Madrid será fundamental. Estaremos acompanhando.

 

Para saber mais:

Dorsey, James. Qatar’s sports-focused public diplomacy backfires. The Turbulent World of Middle East Soccer [online], 03 fev. 2014.

REICHE, Danyel. Investing in sporting success as a domestic and foreign policy tool: the case of Qatar. International Journal of Sport Policy and Politics, 2014.


Kosovo e a Busca por Reconhecimento Internacional: a Vez do Futebol

09/10/2017

por Maurício Drumond

 

Desde sua declaração unilateral de independência da Sérvia, em 17 de fevereiro de 2008, o Kosovo vem travando uma árdua batalha diplomática em busca de reconhecimento internacional. De acordo com o Ministério de Relações Exteriores da República do Kosovo, 111 dos 193 países filiados à ONU reconhecem a independência kosovar, incluindo os Estado Unidos, a maior parte dos países da União Europeia (23 dos 28 Estados) e da OTAN (25 de 29 Estados). Da mesma forma, algumas organizações intergovernamentais financeiras, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD), reconhecem a soberania do país e negociam diretamente com suas instituições governamentais. Além disso, o Tribunal de Justiça Internacional declarou, em julho 2010, que o processo de independência não contrariou o direito internacional.

Tribunal Internacional

No entanto, o reconhecimento internacional do Kosovo ainda enfrenta forte obstáculo de países que se opõem à independência, capitaneados pela Sérvia. Desses, Rússia e China são as maiores pedras nos sapatos kosovares, uma vez que ocupam assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU, e sem sua aprovação o país não poderá ser aceito como membro da Organização. Além desses, a Espanha também se coloca como forte opositora na esfera da União Europeia, estando ela também assombrada pelo fantasma de uma declaração de independência unilateral da Catalunha.

Nesse sentido, o campo esportivo tem sido uma importante arena na luta kosovar. Com o país inicialmente fora das competições internacionais em seu pós independência, atletas como Majlinda Kelmendi, estrela do judô internacional, disputaram torneios sob o estandarte albanês – como nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres –, sendo a Albânia uma nação com fortes laços étnicos e históricos com Kosovo. Gradualmente, a partir de 2012, o país foi sendo aceito em federações esportivas internacionais, e em 2014 foi formalmente aceito como membro do Comitê Olímpico Internacional, o que permitiu que seus atletas participassem dos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016, sob a bandeira de seu país, e levou à conquista da primeira medalha de ouro do Kosovo, na categoria de -52 kg feminino, com Majlinda Kelmendi.

bandeiras

Publicação do 1º Ministro de Kosovo, Isa Mustafa, em rede social.

A inclusão nos ranques do COI não veio sem embates. Vlade Divac, ex-jogador da NBA e atual presidente do Comitê Olímpico da Sérvia, rebateu a entrada afirmando:

Nós fizemos tudo que podíamos, por cinco anos conseguimos bloquear  sua aceitação e proteger a Carta Olímpica. (…) O fato é que essas decisões abrem um precedente, uma vez que desde 1996, quando se mudou a Carta Olímpica (i.e. o estatuto do COI), nenhum país é admitido ao COI antes de ganhar um assento nas Nações Unidas. Não estamos satisfeitos com esta decisão, mas como um esporte, e não uma organização política, como parte do Movimento Olímpico (…).

(Дивац: Урадили смо све што смо могли [Divac: Nós fizemos tudo o que podíamos]. Политика [Política], 12 dez. 2014. Texto traduzido com o auxílio de tradutor eletrônico)

A afirmação de Divac deixa claro: a Sérvia buscou evitar o quanto pode a inclusão do Kosovo nas organizações esportivas internacionais. E sua entrada no COI abriria muitas portas.

No futebol, o reconhecimento do Kosovo pela FIFA ocorreu gradualmente, até sua admissão oficial na entidade em 2016. De acordo com circular da entidade datado de 6 de fevereiro de 2013, clubes ligados a países membros da Fifa poderiam jogar com outros associados à Federação de Kosovo em amistosos, ressaltando que “os jogos devem ser realizados sem a utilização de símbolos nacionais (bandeiras, hinos nacionais, etc.)” e que essa autorização era valida apenas para “jovens, amadores, mulheres e futebol de clubes”, deixando seleções profissionais masculinas de fora. Além disso, jogos no território de Kosovo seriam permitidos apenas com a autorização prévia da Associação de Futebol da Sérvia. Kosovo ganhava espaço, mas ainda não conseguia suplantar a oposição da Sérvia.

doc fifa

O primeiro jogo da seleção masculina principal do Kosovo contra um selecionado associado à Fifa ocorreu em março de 2014, em um empate sem gols contra o Haiti no Estádio Olímpico Adem Jashari, no Kosovo. Outro desafio que se colocou diante do Kosovo nesse momento foi formar sua seleção. Diversos atletas kosovares já jogavam por outras seleções e alguns se dispuseram a vestir o uniforme de seu país, vindo de seleções como Albânia, Finlândia, Noruega e Suíça. Apesar do empate sem gols, a mera realização do jogo foi vista como uma vitória, e ajudou a pavimentar o caminho para conquistas maiores.

Em 2016, Kosovo foi aceito como membro da UEFA e, no 66º Congresso da FIFA, realizado em maio na Cidade do México, Kosovo foi aceito como 210º país associado da Federação, juntamente com Gibraltar (211º).  Nesse mesmo congresso, foi determinado que Kosovo participaria das eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia de 2018, possibilitando um novo patamar de participação e visibilidade no cenário esportivo internacional.

A própria perspectiva de participar de uma competição como a Copa do Mundo em solo russo com uniforme e insígnia kosovar já era em si uma vitória apenas recentemente conquistada. Em 2014, quando Kosovo já era reconhecido como membro pela Federação internacional de Judô (IJF), Majlinda Kelmendi precisou disputar o mundial da modalidade na cidade russa de Cheliabinsk com as iniciais da federação (IJF) em seu quimono. Devido ao não reconhecimento do país pelo governo russo, a bandeira e os símbolos nacionais kosovares não podiam ser exibidos na competição. Aos poucos o esporte vai abrindo espaço para a maior representação nacional do país. Em 2016, a cidade russa de Kazan sediou o campeonato europeu de judô. Depois de longa negociação, os atletas de Kosovo já puderam participar com seus símbolos, e Majlinda Kelmendi conquistou novamente o ouro. No entanto, a possibilidade de fazê-lo em um torneio com a visibilidade internacional de uma Copa do Mundo seria um sonho. Mas para isso, tão distante quanto um sonho, seria a classificação nessas eliminatórias.

soldados russos e bandeira do Kosovo

Soldados russos perante a bandeira do Kosovo no Campeonato Europeu de Judô, em 2016.

As Eliminatórias para a Copa de 2018

O sorteio dos grupos para as eliminatórias da Copa do Mundo de 2018 já havia sido realizado quando da inclusão de Kosovo e Gibraltar nas fileiras da Fifa. A UEFA, entidade que controla as eliminatórias europeias, decidiu encaixar as duas seleções nos dois grupos que contavam com apenas cinco países (os outros possuem seis equipes). Tendo em vista evitar o confronto de Kosovo com Bósnia e Herzegovina, país com larga etnia sérvia que não reconhece Kosovo, e evitar possíveis conflitos, o novo país membro foi alocado no grupo I, juntamente com Croácia, Islândia, Ucrânia, Turquia e Finlândia.

Em termos políticos, o grupo favorecia a afirmação nacional do Kosovo. Dos cinco oponentes, apenas Ucrânia não reconhece sua independência. A Turquia foi um dos primeiros países a reconhecer Kosovo e foi um importante aliado da causa kosovar junto a países de maioria muçulmana. Os conflitos diplomáticos entre Turquia e Rússia também pesaram a favor de Kosovo, uma vez que a Rússia é o principal aliado dos sérvios em sua campanha contra o reconhecimento internacional do Kosovo. A croácia possui uma rixa histórica com a Sérvia, tendo sido o primeiro país a se desligar da antiga Iugoslávia após guerra civil. Já Finlândia e Islândia reconhecem a apoiam a causa kosovar.

O primeiro jogo foi contra a seleção da Finlândia. Novamente, a escalação do selecionado foi um grande problema a ser enfrentado. Jogadores nascidos em Kosovo que já tinham participado de outras seleções ainda não tinham sido liberados pela Fifa para disputar o jogo, e a decisão da Fifa sairia apenas horas antes do primeiro jogo. OS jogadores que desejassem jogar por Kosovo tiveram que fazer um pedido formal ao Comitê de Jogadores da Fifa, que não deixou seus critérios de aprovação muito claros. Sinan Bytyqi, meio campista do Manchester City, já havia sido liberado, mas seis jogadores ainda dependiam de parecer favorável: Samir Ujkani, Alban Meha, Herolind Shala, Milot Rashica, Amir Rrahmani and Valon Berisha. Todos os jogadores acabaram sendo liberados pela Fifa para jogar por Kosovo. Os cinco primeiro já haviam disputados jogos pela Albânia, e Berisha já jogara pela Noruega. O goleiro Samir Ujkani foi o capitão da equipe e Berisha marcou o primeiro gol oficial de Kosovo em uma competição da Fifa, no empate de 1 a 1.

kosovo e CroaciaO segundo jogo das eliminatórias foi contra a Croácia. O jogo foi realizado em clima de festa entre os torcedores, que se reuniram em Shkodër, cidade da Albânia que recebeu o confronto, uma vez que os estádios kosovares não atendem os requisitos da Uefa para a competição. O clima de amizade e união contra um inimigo em comum também deu espaço para cantos da torcida hostilizando sérvios. De acordo com o periódico Balkan Insight, gritos de “Morte aos Sérvios” eram entoados por torcedores de ambas as equipes fora do estádio – ambas as federações foram posteriormente multadas pela Fifa pelo incidente. Dentro de campo, a equipe croata não teve dificuldades e atropelou Kosovo por 6 a 0.

Na terceira rodada, Kosovo iria à Ucrânia jogar contra a seleção treinada por Andriy Shevchenko. Iria, pois devido ao não reconhecimento de Kosovo pela Ucrânia, a Federação Ucraniana decidiu realizar o jogo em Cracóvia, na Polônia. Temendo conflitos, a polícia polonesa permitiu que apenas uma pequena parcela da arquibancada fosse aberta ao público, fazendo com que apenas algumas centenas de torcedores vissem ao vivo a vitória da Ucrânia por 3 a 0. O jogo transcorreu sem maiores problemas, com apenas alguns cantos de “Putin, Putin” entoado pelos kosovares como provocação aos ucranianos.

Nas rodadas seguintes, Kosovo foi à Turquia, recebeu a Islândia e a Turquia (na Albânia), foi à Zagreb jogar com a Croácia, recebeu a Finlândia e a Ucrânia, perdendo todos os confrontos. Na última rodada, realizada hoje (09 de outubro de 2017), Kosovo perdeu por 2 a 0 para a Islândia, em Reykjavík. Terminou as eliminatórias na última posição do Grupo I, com apenas um ponto ganho, em seu empate contra a Finlândia na primeira rodada. Marcou 3 gols e sofreu 24.

Mas a campanha de Kosovo está longe de ser vista como um fracasso. James Ker-Lindsay, especialista em política do Kosovo da London School of Economics, afirmou:

Na falta de reconhecimento por outros Estados, uma das chaves para legitimar o Kosovo é integrá-lo em organizações e eventos esportivos internacionais.

Alguns anos atrás, um diplomata disse que Belgrado iria finalmente aceitar o Kosovo como um Estado independente quando visse o Kosovo jogar futebol na Copa do Mundo – e eu acho que esse é um argumento válido. Ao tomar parte na Copa do Mundo e nas Olimpíadas, o Kosovo está, na verdade, consolidando seu lugar no palco internacional. [1]

Para muitos, as eliminatórias já são consideradas a primeira fase da Copa do Mundo, especialmente aqueles que não possuem um forte histórico de participação no que chamam de “fase final” da competição. Dessa forma, o diplomata acima citado por Ker-Lindsay não está tão longe de quanto pensava. De certa maneira, Kosovo já está participando.

No entanto, ainda como em sua jornada por reconhecimento internacional, ainda há muitas batalhas a serem travadas até a participação kosovar em uma fase final de Copa do Mundo. A Eurocopa pode ser vista como um objetivo mais factível a médio prazo. Das atuais 55 equipes que disputam a classificação, 24 irão disputar a Euro 2020, um sonho mais próximo da realidade, ainda que permaneça apenas um sonho. Ao menos por enquanto.


Combate Histórico Medieval, um esporte moderno

15/05/2017

por Maurício Drumond

O que faz um esporte? Uma pergunta que, a princípio, parece ser tão simples, pode nos levar a instigantes debates e acaloradas discussões. Afinal, o que faz de uma atividade física um esporte, ou o que a impede de ser categorizada enquanto tal, é um elemento arbitrário que não é compartilhado por todos. Vejamos algumas definições disponíveis:

O Conselho Europeu, em sua Carta do Esporte Europeu, de 1992, define esporte como “(…) toda forma de atividade física que, através de participação casual ou organizada, tenha como objetivo expressar ou aperfeiçoar a boa forma física e o bem estar mental, formando relações sociais ou obtendo resultados em competições em todos os níveis” (artigo 2, 1a).

Já as Nações Unidas, através de sua Força Tarefa Interagencial sobre o Esporte para o Desenvolvimento e a Paz, amplia um pouco essa definição, através de seu relatório de 2003, entendendo esporte como “todas as formas de atividade física que contribuem para a boa forma física, o bem-estar mental e a interação social. Estas incluem a brincadeira; a recreação; o esporte organizado, casual e competitivo; e esportes ou jogos indígenas.

Dentro do campo da História do Esporte, a maioria dos estudiosos foge a uma definição mais precisa do que se entende por esporte. Richard Holt, em uma das principais obras sobre a história social do esporte na Inglaterra (Sport and the British), evita uma definição mais precisa sobre o conceito, definindo-o como “uma atividade física agradável, que é geralmente organizada e competitiva, ainda que não necessariamente. Nenhuma linha clara foi traçada entre ‘esporte’ e ‘recreação física’ porque nenhuma é apropriada. Afinal de contas, a maioria das atividades pode ser jogada de diferentes formas e normalmente utilizamos a palavra ‘esporte’ para nos referir tanto ao jogo casual como aos mais altos níveis de desempenho” (p. 9-10).

Já Victor Melo, em seu livro “Esporte e lazer: conceitos: uma introdução histórica”, ancora sua definição de esporte no conceito de campo de Pierre Bourdieu. Por conseguinte, uma atividade física se enquadraria no campo esportivo ao se enquadrar em quatro quesitos: a) organizar-se em instituições representativas (como clubes, federações ou confederações); b) reger-se através de um calendário próprio de competições, encontros ou demais; c) abranger um corpo técnico especializado (técnicos, treinadores físicos, médicos, advogados); e c, no caso, de produtos ditos esportivos, ainda que não necessariamente ligados à prática de esporte.

Todo esse debate introdutório nos serviu para refletir sobre uma prática corporal moderna, de profunda inspiração histórica: o Combate Histórico Medieval. Sim, nesse novo candidato a esporte moderno, pessoas portam armas e vestem armaduras medievais e lutam em combates [moderadamente] controlados.

O Combate Histórico Medieval (ou apenas Combate Medieval) é interessante por diversos motivos. Por um lado, poderíamos olhar para a atividade como um modelo de representação de um imaginário sobre a Idade Média. De acordo com as normas da Federação Internacional de Combate Medieval (International Medieval Combat Federation, ou IMCF), “todas as armas utilizadas nos comb

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ates da IMCF devem ser análogas aos originais históricos. Uma arma utilizada também deve ser do mesmo período e da mesma região da armadura de seu portador” (IMCF Original Rules, 1.2.1). Ou seja, a busca de uma suposta fidedignidade histórica se apresenta como uma das principais características da atividade.

E não para por aí. Além de duelos de espadas e outras armas, há também lutas de grupos, chegando até ao enfrentamento de pequenos exércitos, na modalidade 16 contra 16.

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No entanto, a prática pretende se enquadrar no que se entende contemporaneamente como um “esporte”. Para tanto, é possível ver lutadores de duelos se cumprimentando ao início do combate (ver https://www.youtube.com/watch?v=GSJgPVQJGyk), regras, federações e equipes nacionais.

E aí reside um outro ponto de interesse do Combate Medieval, sua caracterização, ou não, enquanto esporte. Para tanto, seria necessário, em primeiro lugar, buscar uma definição de esporte, como fiz acima. Dessa forma, podemos analisar o Combate Medieval dentro dos parâmetros da teoria de campo de Bourdieu:

a) Organização em instituições representativas 

O Combate Medieval possui diversas instituições representativas espalhadas pelo mundo. Além da já mencionada IMCF, diversas organizações locais e nacionais estão ligadas à prática. A Historical Medieval Battle International Association, organizadora do “Battle of the Nations” (Batalha das Nações), principal campeonato internacional conta com a participação de equipes de 33 países, com variados números de participantes. Já a IMCF conta com 18 países membros.

IMCF

Há também uma série de organizações menores, como a M1, que organiza uma espécie de MMA medieval, no qual os lutadores se enfrentam, com armas e armaduras, em um tipo de octógono, como na imagem abaixo:

M1

 

b) Calendário próprio de competições, encontros ou demais

As organizações de Combate Medieval possuem calendários próprios e competições internacionais periódicas. Em 2017, o campeonato mundial da IMCF será realizado entre 25 e 28 de maio, na Dinamarca. A edição de 2016 ocorreu em Portugal, tendo sua primeira edição sido realizada em 2014, na Espanha. Já a “Battle of the Nations”, realizada de 29 de abril a 01 de maio, em Barcelona.

Os eventos trazem toda a simbologia do esporte moderno, ligadas à imagética e ao simbolismo medievais. Bandeiras, medalhas e troféus fazem parte do evento, além da presença de torcedores e de símbolos diversos representando as nacionalidades envolvidas, como nas imagens abaixo:

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Vencedor Russo não identificado, em foto disponível na página do evento em rede social.

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Torcedores (e competidores?) dos Estados Unidos, carregam seus símbolos nas roupas e nos escudos.

c) Corpo técnico especializado

Além dos fabricantes de armas e armaduras, que teoricamente devem seguir especificações bem definidas de local e período de origem, há também um grupo de treinadores e de outros especialistas. Conforme a popularidade da prática for aumentando, sua eventual profissionalização pode levar a profissionais mais especializados e destacados.

d) Mercado específico ao seu entorno

Ainda que esteja em seus momentos iniciais, já podem ser notados alguns empreendimentos no mercado do Combate Medieval. Na página da “Battle of the Nations”, a empresa “Age of Craft” aparece como parceira, comercializando armas, armaduras e roupas ligadas ao evento. Assim como ela, outros devem existir e tendem a crescer com a maior repercussão da atividade.

E então, se convenceu de que o Combate Histórico Medieval pode ser considerado um esporte em seus primeiros passos? Ou ainda não? Bem, estabeleça seu conceito de esporte e teça seus argumentos. Que tenhamos um bom debate.

 

 

 

 


Silêncios e Olhares: algumas observações sobre o uso da imprensa como fonte na História do Esporte

20/12/2016

No estudo da História do Esporte, a utilização de fontes provenientes da imprensa escrita é algo rotineiro. E não é por menos. A cobertura diária dos eventos esportivos, por si só, já seria de grande valia ao historiador, mas além disso, soma-se ainda o fato de os jornais serem um dos principais meios pelos quais as pessoas viveram o futebol e aos quais os historiadores têm fácil acesso – o rádio e a televisão, apesar de terem alcance mais abrangente, ainda permanecem distantes de historiadores, como misteriosos ideogramas que ainda não conseguimos decifrar sua leitura. No entanto, apesar de seu uso massivo, as fontes de imprensa ainda são, por diversas vezes, utilizadas como reconstruções do passado; como excertos de um mundo acontecido, que foram reproduzidos fidedignamente pelos valorosos e isentos jornalistas do período em questão.

Ainda que tal forma de utilização de fontes de imprensa estejam declinando dentro do campo acadêmico da História do Esporte, ela ainda pode ser encontrada com frequência em trabalhos ditos acadêmicos, e por vezes aparecem em propostas de artigos aos quais preciso dar um parecer. Dessa forma, muitos trabalhos interessantes se fragilizam devido ao uso inadequado de fontes históricas.

Neste post, gostaria de destacar brevemente dois artigos que publiquei há alguns anos e que me foram relembrados por ocaisão de um debate sobre este mesmo tema, ao falar de duas importantes – mas não únicas –  variáveis a serem levadas em consideração ao trabalharmos com fontes jornalísticas: seus silêncios e seus olhares. Por “silêncios“, me refiro a fatos não mencionados, esquecidos ou escondidos das páginas dos jornais, e por “olhares“, entende-se os diferentes pontos de vista e as posições defendidas e/ou advogadas pelos meios de imprensa.

Ao falar em silêncios, me lembrei de um artigo publicado em 2008, na revista digital argentina “Lecturas, Educación Física y Deportes“, uma das mais antigas revistas de acesso livre digital que conheço na América Latina. Nesse breve artigo artigo, intitulado “Imprensa esportiva e propaganda política no peronismo: uma comparação entre ‘El Gráfico’ e ‘Mundo Deportivo’“, fiz uma análise ligeira sobre a forma com que as duas principais publicações esportivas do período do primeiro peronismo, as revistas “El Gráfico” e “Mundo Deportivo” representaram em suas páginas a morte e o funeral de Eva Perón, uma importante figura política peronista. Demonstro então que o semanário peronista “Mundo Deportivo” dedicou um número inteiro a Evita, no qual 45 das 75 páginas são dedicadas à esposa de Perón, destacando sua participação em diversos esportes e seu papel como simbolo da nova nação que defendiam existir. Já a revista rival “El Gráfico”, uma referência do jornalismo esportivo portenho que minguava em número de páginas por pertencer a um grupo de oposição ao governo peronista, destaca apenas 3 páginas de sua edição desta mesma semana, com um curto texto na página 3 e apenas fotografias ocupando a maior parte dessa página e das páginas 4 e 5. No curto texto, se resumiam a dizer:

El sábado 26 de Julio, a las 20.25 horas, a muerto Eva Perón, esposa Del primer magistrado, general Juan Perón, y Jefa Espiritual de la Nación. El deporte siente su prematura desaparición, como la siente el pueblo entero de la Argentina, porque su actividad infatigable llegó también hasta nuestro ambiente. Creación de Eva Perón fueron los Campeonatos Infantiles, y las dos fotos que aquí reproducimos la muestran jerarquizando con su presencia esos torneos.

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El Gráfico, 01 de agosto de 1952, p. 3.

Ou seja, pesquisadores que buscassem apenas um desses dois veículos de informação teriam visões bem distintas de quem lesse apenas o outro, acerca da importância do acontecimento. Torna-se fundamental então compreender a conjuntura política do período em questão, a limitada liberdade de imprensa e os meios possíveis de divergência e oposição. Ao produzirem diferentes discursos, escolhas e esquecimentos são indicativos essenciais para que hisoriadores possam fazer uma leitura menos distanciada do passado que investigam. É evidente que isso serve para toda produção histórica, e não somente para a história do esporte, mas devido à importância e à frequência com que fontes jornalísticas são utilizadas por historiadores do esporte, essa preocuipação se torna uma questão central ao nosso campo de estudo.

O segundo elemento que optei por destacar aqui foram os diferentes olhares produzidos pela imprensa. Nesse caso, faço referência a um artigo que publiquei em 2009, no XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), entitulado “A Política no Jornalismo Esportivo: o Jornal do Brasil e o Jornal dos Sports no Dissidio Esportivo dos Anos 30”, no qual faço uma análise comparada da cobertura de dois dos principais jornais do Rio de Janeiro, o JB e o JS, sobre momentos de tensão na disputa política ocorrida entre 1933 e 1937, que dividiu a esporte carioca – e nacional – em duas correntes, o que na época ficou conhecido como o “dissídio esportivo”. Ao acompanhar as páginas dos jornais, torna-se evidente que cada veículo advogava em nome de uma corrente da disputa.

Como exemplo das posições em que colocavam esses jornais, transcrevo duas passagens envolvendo uma tentativa de pacificação ocorrida em 1934, que ao fim acaba por não funcionar, na qual o grupo que se colocava então como defensor do profissionalismo sairia com vantagem. A primeira, da corrente que defendia a CBD e o amadorismo:

A nota dominante em nossos meios esportivos é a tal “pacificação” que, segundo se afirma, os mentores profissionalistas que para a desgraça do nosso sport, ao que parece, o empolgam no momento, vão impingir aos que se tem batido com sinceridade pela verdadeira causa do sport nacional, concretizada nessa organização magnífica e sem similar no mundo inteiro, que é a Confederação Brasileira de Desportos. (Jornal do Brasil, 05/06/1934, p. 24)

Pode-se observar, por este trecho, que o Jornal do Brasil não escondia de que lado estava e em nome de quem falava. Ao se referir à CBD como uma “organização magnífica e sem similar no mundo inteiro”, não havia dúvida de que o jornal estava contrário ao grupo liderado por Arnaldo Guinle, que, de acordo com o próprio jornal, empolgavam o esporte nacional no momento, mesmo que para a suposta desgraça do mesmo.

Já o Jornal dos Sports, ligado ao grupo que defendia o profissionalismo, afirmava:

A pacificação dos sports, hontem feita atravez do pacto firmado pelos “leaders”
mais proeminentes das duas facções que lutavam sem desfallecimentos, há mais
de um anno, é, antes do mais, uma victória para o próprio sport brasileiro, seu
maior beneficiário (…). (Jornal dos Sports, 07/06/1934, p.1)

Essas e diversas outras passagens demonstram a diferença de olhares que dois veículos da grande imprensa carioca apresentavam em suas páginas. Algum pesquisador, ao ler o JB entre os anos 1933 e 1937, poderia se perguntar o que acontecera com Flamengo,  Fluminense e Vasco (este último até 1934, visto que em 1935 volta a se filiar à CBD e retorna as páginas do jornal), visto que os clubes dissidentes praticamente desapareceram das colunas esportivas do diário. Já a leitura excllusiva do Jornal dos Sports pode levar o pesquisador a enxergar os acontecimentos passados de forma tão parcial quanto o outro lado, vendo apenas a força e as benesses dos clubes ligados à Liga Carioca de Futebol. Olhares e silêncios, novamente presentes e atuantes.

Como dito anteriormente, esses cuidados não devem se restringir à história do esporte ou a períodos distantes no passado. Eles são tão fundamentais para a leitura da imprensa atual quanto são para o estudo histórico do esporte. Ainda que tais cuidados sejam elementares na prática de qualquer bom historiador, por vezes não custa nada relembrar o óbvio, que tanta gente esquece.

======= Leituras sugeridas =======

DE LUCA, Tania Regina. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla B. (org.). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005. p. 111-153.

MELO, Victor Andrade de; DRUMOND, Maurício; FORTES, Rafael; Santos, João. Meios de comunicação. In: ______. Pesquisa histórica e História do Esporte. Rio de Janeiro: 7 Letras / Faperj, 2013, p. 113-127.