Muito além de Neymar: o Catar e o investimento no Paris Saint-Germain como forma de projeção internacional

19/02/2018

 

Por Maurício Drumond

Na quarta-feira passada, o mundo do futebol parou para assistir o primeiro duelo entre duas das maiores potências do futebol mundial: Real Madrid x Paris Saint-Germain. Na imprensa, muito se falou (e ainda se fala) da disputa implícita entre Cristiano Ronaldo e Neymar, dois dos maiores postulantes ao prêmio de melhor jogador de futebol do ano da FIFA. A vitória por 3 a 1 do Real Madrid, com dois gols de Cristiano Ronaldo, e a não destacada atuação de Neymar teriam supostamente dado a vantagem ao jogador português nessa disputa. Mas o segundo jogo, agora em Paris, ainda poderia mudar esse quadro.

Esse tem sido o principal destaque dado ao jogo na grande mídia, mas não é o ponto que me interessa nesse artigo. Outra disputa implícita no confronto da semana passada me parece ser mais interessante. A disputa entre dois modelos de representação nacional através de clubes de futebol. De um lado o modelo representado pelo Real Madrid Club de Fútbol, onde o sucesso esportivo de uma equipe é por vezes mobilizado em prol do prestígio nacional. Do outro, um novo modelo de projeção nacional baseada no esporte, capitaneado pelo Catar através do clube Paris Saint-Germain.

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Peça publicitária do jogo das oitavas-de-final da Liga dos Campeões da UEFA, ressaltando a disputa entre Cristiano Ronaldo e Neymar.

O primeiro modelo, que pode ser visto como “tradicional” dentro dos estudos do esporte, é em geral atribuído ao papel desempenhado por uma seleção nacional ao representar seu país, mas em determinados casos pode ser identificado com um clube específico, no caso o Real Madrid, com alto desempenho internacional e forte apelo nacional. Muitos estudos já se dedicaram a esse modelo de projeção nacional através do esporte, sendo por vezes associado ao estudo de identidades nacionais de nacionalidades não soberanas, como no caso de Barcelona e a identidade catalã ou do Athletic Club (de Bilbao) e a identidade basca.

Já o segundo modelo, que pode ser visto como “novo” e, por isso, objeto de ainda poucos estudos, merece maior atenção. No Brasil, a presença do Catar nos esportes foi mais profundamente notada no momento da negociação de Neymar com o Paris Saint-Germain, envolvendo valores até então nunca vistos no futebol. No entanto, a atuação do pequeno país do Oriente Médio vai muito além e se iniciou muito antes do contrato com o craque brasileiro. É mais especificamente sobre essa atuação do Catar no mundo do futebol internacional e sua proposta de reconhecimento e prestígio através do clube francês que esse texto se aventura.

Catar e o Futebol Internacional

O Catar é um país soberano do Oriente Médio, situado na costa oriental da Península Arábica. O país é governado por uma monarquia absoluta hereditária, liderada pela família Al Tahani. Sua população é estimada em cerca de 2,6 milhões de habitantes, dos quais apenas cerca de 12% são de nacionalidade catari (pouco mais de 300 mil). Sua economia, como era de se esperar em um país da região, é altamente dependente da produção de petróleo e gás natural. E o envolvimento do país com o esporte está diretamente ligado à sua intenção em diversificar sua economia, tendo em vista a finitude de seus ainda vastos campos petrolíferos. Mas como veremos adiante, essa ligação vai além disso.

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Mapa da península Arábica. Fonte: Google Maps.

O envolvimento do Catar com o esporte internacional não é recente e nem se limita ao futebol. Antigo protetorado britânico que ganhou sua independência somente em 1971, o país fundou seu Comitê Olímpico em 1979 e enviou atletas para os Jogos Olímpicos pela primeira vez em 1984, em Los Angeles. Em 1988, foi sede da Copa da Ásia de futebol masculino e em 1995 da Copa do Mundo FIFA Sub-20. No entanto, em 2004 o país decide começar a investir de forma mais pesada em esportes. A partir de eventos esporádicos, pode ser visto um aumento expressivo e continuado de realização de grandes eventos esportivos internacionais, culminando na futura realização da Copa do Mundo FIFA de futebol masculino de 2022.

Apesar de sua pequena população de nacionais, o país já conquistou quatro medalhas de bronze nos Jogos Olímpicos de verão, mais do que seu influente e proporcionalmente populoso vizinho, a Arábia Saudita. Dos quatro, apenas as duas medalhas obtidas em Londres 2012 (no tiro e no salto em altura, masculinos) foram conquistadas por nacionais catari. As outras duas foram resultado da política de nacionalização de atletas, que afeta diversos esportes do país, como o próprio futebol. Entre os jogadores mais convocados pelo técnico uruguaio Daniel Carreño para os jogos pela eliminatória da Copa do Mundo de 2018, pode-se encontrar mais de um time formado por estrangeiros naturalizados, como brasileiros Rodrigo Tabata e Luiz Junior (Ceará). A estratégia não é nova, e jogadores mais famosos como Emerson Sheik e Araújo já defenderam a seleção catari, mas a proximidade da Copa de 2022 no país, na qual o Catar já está classificado por ser país sede, intensifica ainda mais o processo. O mesmo ocorreu no handebol, onde o país sediou a Copa do Mundo do esporte em 2015 e montou uma equipe com grandes jogadores naturais de outros países, terminando na segunda colocação do evento.

A política de naturalização de atletas tem alcance limitado, especialmente no futebol, onde a FIFA impôs a regra de que no caso de um atleta já ter jogado pela seleção profissional de um país, não pode atuar por outro, a não ser em casos muito específicos como o de Kosovo (ver post).

Além de buscar o sucesso de suas equipes nacionais, o governo do Catar também busca associar a imagem de seu país com times de sucesso internacional como o Barcelona e o Paris Saint-Germain (PSG). As relações do Catar com esses clubes se deram principalmente através da agência Qatar Sports Investments (QSI), um ramo de investimentos no esporte da Qatar Investment Authority, um fundo soberano do país. Em 2011, a QSI firmou um acordo de patrocínio de camisa com o Barcelona FC, que deu fim à tradição do clube catalão de não utilizar patrocínios comerciais em suas camisas (o clube utilizava o logo da Unicef desde 2006), através da empresa Qatar Foundation, que em 2013 foi substituída pela Qatar Airways, até meados de 2017.

 

Catar e o PSG

Já com o PSG, a ligação foi ainda mais profunda. Em 2011 a QSI comprou o clube e colocou seu CEO, Nasser Ghanim Al-Khelaïfi, como presidente do clube. Al-Khelaïfi é um ex-atleta de tênis, próximo ao xeque Tamim bin Hamad Al-Thani, Emir do Catar. Além de presidente da Federação de Tênis do Catar e diretor da Confederação de Tênis da Ásia, além de ser ex-diretor da rede Al Jazeera. A gestão de Al-Khelaïfi tinha como maior propósito alçar o PSG para a elite do futebol europeu, e para isso foram realizadas diversas contratações de grande peso para a equipe, como as de Neymar (€222 milhões) e Mbappé (€180 milhões), ambas em 2017, entre muitas outras, totalizando mais de 1 bilhão de euros desde 2011. E isso apenas em contratações.

Mas por que o Catar, através da QSI, investiu tanto no futebol, ainda por cima em um clube francês, radicado em Paris? Certamente que não foi apenas para promover o turismo no país. Da mesma forma que o Brasil não gastou R$ 1,4 bilhão no estádio Mané Garrincha, em Brasília, R$ 583 milhões na Arena Pantanal, em Cuiabá, ou R$ 400 milhões na Arena Amazônia, em Manaus, simplesmente para atrair mais turistas para as cidades após a Copa de 2014. Então, quais seriam as possíveis razões que teriam influenciado o Catar a investir tanto no PSG?

Uma das chaves para se compreender o alto investimento catari nos esportes, e mais especificamente no PSG, é a necessidade de diferenciação do país em relação a seus vizinhos do Oriente Médio. O esporte é um dos meios pelos quais o país busca ganhar reconhecimento internacional, seja através da organização de grandes eventos, como a Copa do Mundo de 2022, seja com o patrocínio estampado nas camisas do Barcelona, ou com grandes e chamativas contratações de sua própria equipe na França, o PSG. Ações de branding como essas proporcionam acesso de sua imagem a um mercado mundial de espectadores/consumidores, demonstrando poder econômico, político e cultural.

No caso do Catar, significa ter seu país conhecido não apenas como mais um país boiando no petróleo do Golfo Pérsico, mas como um país cosmopolita, em modernização, mais próximo dos valores culturais ocidentais (ainda que apenas na aparência), elementos profundamente identificados com o esporte. Além do esporte, outros símbolos do Catar que atuam nessa mesma direção são a Qatar Airways, uma das empresas aéreas de maior crescimento nos últimos anos, e a rede Al Jazeera, que desde 2006 passou a ser também transmitida e publicada em inglês, aumentando o seu alcance e dando à rede uma imagem de rede internacional, como uma alternativa à grande mídia ocidental. A rede conta desde 2003 com um canal de esportes, que foi renomeada como beIN Sports em 2012. A transmissão dos principais eventos esportivos, especialmente de futebol, contribuíram muito para essa nova imagem.

James M. Dorsey, chega a afirmar que “o soft power é chave na estratégia de defesa e segurança do Catar”, uma vez que devido à sua diminuta população, o país nunca terá força militar para se defender militarmente, independentemente do equipamento bélico que comprar ou do número de estrangeiros que recrutar para suas Forças Armadas. Ele complementa afirmando que “o esporte é central para uma estratégia de soft power delineada para inserir e popularizar o Catar na Comunidade Internacional, de forma a garantir que o mundo venha em seu auxílio em tempos de necessidade, como no caso da força liderada pelos EUA que expulsaram tropas de ocupação iraquiana do Kuwait em 1990” (link para o artigo de Dorsey).

A projeção internacional gerada por sua participação no futebol seria assim um dos meios utilizados pelo Catar nessa iniciativa de construir soft power. Mas nem tudo são flores. O Catar ainda enfrenta diversas denúncias que vão de encontro à imagem de nação moderna e pacífica que o país procura transmitir, como acusações de financiamento de grupos extremistas islâmicos, de compra de votos para sua escolha como sede da Copa do Mundo de 2022 e de violação de direitos humanos devido a condições extremamente precárias de trabalhadores imigrantes não qualificados – de que trabalhariam em regimes análogos à escravidão. Localmente, o país ainda enfrenta a oposição de vizinhos importantes, uma vez que Arábia Saudita, Egito, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Líbia, Iêmen e Maldivas romperam relações diplomáticas com o governo de Doha e ligações de transporte com o país por um suposto apoio que este estaria dando a grupos extremistas islâmicos. Nesse cenário, o esporte funcionaria como um símbolo de modernidade, estabilidade e paz.

O sucesso do PSG seria assim um dos eixos da política internacional catari de projeção internacional. Neymar seria um importante garoto propaganda, mas a proposta vai além disso. Envolve a criação de uma marca internacional de sucesso. Mas para concluir seu grande objetivo, ainda falta um importante passo para o PSG, a conquista da Liga dos Campeões da UEFA. E para isso o duelo de volta contra o Real Madrid será fundamental. Estaremos acompanhando.

 

Para saber mais:

Dorsey, James. Qatar’s sports-focused public diplomacy backfires. The Turbulent World of Middle East Soccer [online], 03 fev. 2014.

REICHE, Danyel. Investing in sporting success as a domestic and foreign policy tool: the case of Qatar. International Journal of Sport Policy and Politics, 2014.

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Kosovo e a Busca por Reconhecimento Internacional: a Vez do Futebol

09/10/2017

por Maurício Drumond

 

Desde sua declaração unilateral de independência da Sérvia, em 17 de fevereiro de 2008, o Kosovo vem travando uma árdua batalha diplomática em busca de reconhecimento internacional. De acordo com o Ministério de Relações Exteriores da República do Kosovo, 111 dos 193 países filiados à ONU reconhecem a independência kosovar, incluindo os Estado Unidos, a maior parte dos países da União Europeia (23 dos 28 Estados) e da OTAN (25 de 29 Estados). Da mesma forma, algumas organizações intergovernamentais financeiras, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD), reconhecem a soberania do país e negociam diretamente com suas instituições governamentais. Além disso, o Tribunal de Justiça Internacional declarou, em julho 2010, que o processo de independência não contrariou o direito internacional.

Tribunal Internacional

No entanto, o reconhecimento internacional do Kosovo ainda enfrenta forte obstáculo de países que se opõem à independência, capitaneados pela Sérvia. Desses, Rússia e China são as maiores pedras nos sapatos kosovares, uma vez que ocupam assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU, e sem sua aprovação o país não poderá ser aceito como membro da Organização. Além desses, a Espanha também se coloca como forte opositora na esfera da União Europeia, estando ela também assombrada pelo fantasma de uma declaração de independência unilateral da Catalunha.

Nesse sentido, o campo esportivo tem sido uma importante arena na luta kosovar. Com o país inicialmente fora das competições internacionais em seu pós independência, atletas como Majlinda Kelmendi, estrela do judô internacional, disputaram torneios sob o estandarte albanês – como nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres –, sendo a Albânia uma nação com fortes laços étnicos e históricos com Kosovo. Gradualmente, a partir de 2012, o país foi sendo aceito em federações esportivas internacionais, e em 2014 foi formalmente aceito como membro do Comitê Olímpico Internacional, o que permitiu que seus atletas participassem dos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016, sob a bandeira de seu país, e levou à conquista da primeira medalha de ouro do Kosovo, na categoria de -52 kg feminino, com Majlinda Kelmendi.

bandeiras

Publicação do 1º Ministro de Kosovo, Isa Mustafa, em rede social.

A inclusão nos ranques do COI não veio sem embates. Vlade Divac, ex-jogador da NBA e atual presidente do Comitê Olímpico da Sérvia, rebateu a entrada afirmando:

Nós fizemos tudo que podíamos, por cinco anos conseguimos bloquear  sua aceitação e proteger a Carta Olímpica. (…) O fato é que essas decisões abrem um precedente, uma vez que desde 1996, quando se mudou a Carta Olímpica (i.e. o estatuto do COI), nenhum país é admitido ao COI antes de ganhar um assento nas Nações Unidas. Não estamos satisfeitos com esta decisão, mas como um esporte, e não uma organização política, como parte do Movimento Olímpico (…).

(Дивац: Урадили смо све што смо могли [Divac: Nós fizemos tudo o que podíamos]. Политика [Política], 12 dez. 2014. Texto traduzido com o auxílio de tradutor eletrônico)

A afirmação de Divac deixa claro: a Sérvia buscou evitar o quanto pode a inclusão do Kosovo nas organizações esportivas internacionais. E sua entrada no COI abriria muitas portas.

No futebol, o reconhecimento do Kosovo pela FIFA ocorreu gradualmente, até sua admissão oficial na entidade em 2016. De acordo com circular da entidade datado de 6 de fevereiro de 2013, clubes ligados a países membros da Fifa poderiam jogar com outros associados à Federação de Kosovo em amistosos, ressaltando que “os jogos devem ser realizados sem a utilização de símbolos nacionais (bandeiras, hinos nacionais, etc.)” e que essa autorização era valida apenas para “jovens, amadores, mulheres e futebol de clubes”, deixando seleções profissionais masculinas de fora. Além disso, jogos no território de Kosovo seriam permitidos apenas com a autorização prévia da Associação de Futebol da Sérvia. Kosovo ganhava espaço, mas ainda não conseguia suplantar a oposição da Sérvia.

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O primeiro jogo da seleção masculina principal do Kosovo contra um selecionado associado à Fifa ocorreu em março de 2014, em um empate sem gols contra o Haiti no Estádio Olímpico Adem Jashari, no Kosovo. Outro desafio que se colocou diante do Kosovo nesse momento foi formar sua seleção. Diversos atletas kosovares já jogavam por outras seleções e alguns se dispuseram a vestir o uniforme de seu país, vindo de seleções como Albânia, Finlândia, Noruega e Suíça. Apesar do empate sem gols, a mera realização do jogo foi vista como uma vitória, e ajudou a pavimentar o caminho para conquistas maiores.

Em 2016, Kosovo foi aceito como membro da UEFA e, no 66º Congresso da FIFA, realizado em maio na Cidade do México, Kosovo foi aceito como 210º país associado da Federação, juntamente com Gibraltar (211º).  Nesse mesmo congresso, foi determinado que Kosovo participaria das eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia de 2018, possibilitando um novo patamar de participação e visibilidade no cenário esportivo internacional.

A própria perspectiva de participar de uma competição como a Copa do Mundo em solo russo com uniforme e insígnia kosovar já era em si uma vitória apenas recentemente conquistada. Em 2014, quando Kosovo já era reconhecido como membro pela Federação internacional de Judô (IJF), Majlinda Kelmendi precisou disputar o mundial da modalidade na cidade russa de Cheliabinsk com as iniciais da federação (IJF) em seu quimono. Devido ao não reconhecimento do país pelo governo russo, a bandeira e os símbolos nacionais kosovares não podiam ser exibidos na competição. Aos poucos o esporte vai abrindo espaço para a maior representação nacional do país. Em 2016, a cidade russa de Kazan sediou o campeonato europeu de judô. Depois de longa negociação, os atletas de Kosovo já puderam participar com seus símbolos, e Majlinda Kelmendi conquistou novamente o ouro. No entanto, a possibilidade de fazê-lo em um torneio com a visibilidade internacional de uma Copa do Mundo seria um sonho. Mas para isso, tão distante quanto um sonho, seria a classificação nessas eliminatórias.

soldados russos e bandeira do Kosovo

Soldados russos perante a bandeira do Kosovo no Campeonato Europeu de Judô, em 2016.

As Eliminatórias para a Copa de 2018

O sorteio dos grupos para as eliminatórias da Copa do Mundo de 2018 já havia sido realizado quando da inclusão de Kosovo e Gibraltar nas fileiras da Fifa. A UEFA, entidade que controla as eliminatórias europeias, decidiu encaixar as duas seleções nos dois grupos que contavam com apenas cinco países (os outros possuem seis equipes). Tendo em vista evitar o confronto de Kosovo com Bósnia e Herzegovina, país com larga etnia sérvia que não reconhece Kosovo, e evitar possíveis conflitos, o novo país membro foi alocado no grupo I, juntamente com Croácia, Islândia, Ucrânia, Turquia e Finlândia.

Em termos políticos, o grupo favorecia a afirmação nacional do Kosovo. Dos cinco oponentes, apenas Ucrânia não reconhece sua independência. A Turquia foi um dos primeiros países a reconhecer Kosovo e foi um importante aliado da causa kosovar junto a países de maioria muçulmana. Os conflitos diplomáticos entre Turquia e Rússia também pesaram a favor de Kosovo, uma vez que a Rússia é o principal aliado dos sérvios em sua campanha contra o reconhecimento internacional do Kosovo. A croácia possui uma rixa histórica com a Sérvia, tendo sido o primeiro país a se desligar da antiga Iugoslávia após guerra civil. Já Finlândia e Islândia reconhecem a apoiam a causa kosovar.

O primeiro jogo foi contra a seleção da Finlândia. Novamente, a escalação do selecionado foi um grande problema a ser enfrentado. Jogadores nascidos em Kosovo que já tinham participado de outras seleções ainda não tinham sido liberados pela Fifa para disputar o jogo, e a decisão da Fifa sairia apenas horas antes do primeiro jogo. OS jogadores que desejassem jogar por Kosovo tiveram que fazer um pedido formal ao Comitê de Jogadores da Fifa, que não deixou seus critérios de aprovação muito claros. Sinan Bytyqi, meio campista do Manchester City, já havia sido liberado, mas seis jogadores ainda dependiam de parecer favorável: Samir Ujkani, Alban Meha, Herolind Shala, Milot Rashica, Amir Rrahmani and Valon Berisha. Todos os jogadores acabaram sendo liberados pela Fifa para jogar por Kosovo. Os cinco primeiro já haviam disputados jogos pela Albânia, e Berisha já jogara pela Noruega. O goleiro Samir Ujkani foi o capitão da equipe e Berisha marcou o primeiro gol oficial de Kosovo em uma competição da Fifa, no empate de 1 a 1.

kosovo e CroaciaO segundo jogo das eliminatórias foi contra a Croácia. O jogo foi realizado em clima de festa entre os torcedores, que se reuniram em Shkodër, cidade da Albânia que recebeu o confronto, uma vez que os estádios kosovares não atendem os requisitos da Uefa para a competição. O clima de amizade e união contra um inimigo em comum também deu espaço para cantos da torcida hostilizando sérvios. De acordo com o periódico Balkan Insight, gritos de “Morte aos Sérvios” eram entoados por torcedores de ambas as equipes fora do estádio – ambas as federações foram posteriormente multadas pela Fifa pelo incidente. Dentro de campo, a equipe croata não teve dificuldades e atropelou Kosovo por 6 a 0.

Na terceira rodada, Kosovo iria à Ucrânia jogar contra a seleção treinada por Andriy Shevchenko. Iria, pois devido ao não reconhecimento de Kosovo pela Ucrânia, a Federação Ucraniana decidiu realizar o jogo em Cracóvia, na Polônia. Temendo conflitos, a polícia polonesa permitiu que apenas uma pequena parcela da arquibancada fosse aberta ao público, fazendo com que apenas algumas centenas de torcedores vissem ao vivo a vitória da Ucrânia por 3 a 0. O jogo transcorreu sem maiores problemas, com apenas alguns cantos de “Putin, Putin” entoado pelos kosovares como provocação aos ucranianos.

Nas rodadas seguintes, Kosovo foi à Turquia, recebeu a Islândia e a Turquia (na Albânia), foi à Zagreb jogar com a Croácia, recebeu a Finlândia e a Ucrânia, perdendo todos os confrontos. Na última rodada, realizada hoje (09 de outubro de 2017), Kosovo perdeu por 2 a 0 para a Islândia, em Reykjavík. Terminou as eliminatórias na última posição do Grupo I, com apenas um ponto ganho, em seu empate contra a Finlândia na primeira rodada. Marcou 3 gols e sofreu 24.

Mas a campanha de Kosovo está longe de ser vista como um fracasso. James Ker-Lindsay, especialista em política do Kosovo da London School of Economics, afirmou:

Na falta de reconhecimento por outros Estados, uma das chaves para legitimar o Kosovo é integrá-lo em organizações e eventos esportivos internacionais.

Alguns anos atrás, um diplomata disse que Belgrado iria finalmente aceitar o Kosovo como um Estado independente quando visse o Kosovo jogar futebol na Copa do Mundo – e eu acho que esse é um argumento válido. Ao tomar parte na Copa do Mundo e nas Olimpíadas, o Kosovo está, na verdade, consolidando seu lugar no palco internacional. [1]

Para muitos, as eliminatórias já são consideradas a primeira fase da Copa do Mundo, especialmente aqueles que não possuem um forte histórico de participação no que chamam de “fase final” da competição. Dessa forma, o diplomata acima citado por Ker-Lindsay não está tão longe de quanto pensava. De certa maneira, Kosovo já está participando.

No entanto, ainda como em sua jornada por reconhecimento internacional, ainda há muitas batalhas a serem travadas até a participação kosovar em uma fase final de Copa do Mundo. A Eurocopa pode ser vista como um objetivo mais factível a médio prazo. Das atuais 55 equipes que disputam a classificação, 24 irão disputar a Euro 2020, um sonho mais próximo da realidade, ainda que permaneça apenas um sonho. Ao menos por enquanto.


Combate Histórico Medieval, um esporte moderno

15/05/2017

por Maurício Drumond

O que faz um esporte? Uma pergunta que, a princípio, parece ser tão simples, pode nos levar a instigantes debates e acaloradas discussões. Afinal, o que faz de uma atividade física um esporte, ou o que a impede de ser categorizada enquanto tal, é um elemento arbitrário que não é compartilhado por todos. Vejamos algumas definições disponíveis:

O Conselho Europeu, em sua Carta do Esporte Europeu, de 1992, define esporte como “(…) toda forma de atividade física que, através de participação casual ou organizada, tenha como objetivo expressar ou aperfeiçoar a boa forma física e o bem estar mental, formando relações sociais ou obtendo resultados em competições em todos os níveis” (artigo 2, 1a).

Já as Nações Unidas, através de sua Força Tarefa Interagencial sobre o Esporte para o Desenvolvimento e a Paz, amplia um pouco essa definição, através de seu relatório de 2003, entendendo esporte como “todas as formas de atividade física que contribuem para a boa forma física, o bem-estar mental e a interação social. Estas incluem a brincadeira; a recreação; o esporte organizado, casual e competitivo; e esportes ou jogos indígenas.

Dentro do campo da História do Esporte, a maioria dos estudiosos foge a uma definição mais precisa do que se entende por esporte. Richard Holt, em uma das principais obras sobre a história social do esporte na Inglaterra (Sport and the British), evita uma definição mais precisa sobre o conceito, definindo-o como “uma atividade física agradável, que é geralmente organizada e competitiva, ainda que não necessariamente. Nenhuma linha clara foi traçada entre ‘esporte’ e ‘recreação física’ porque nenhuma é apropriada. Afinal de contas, a maioria das atividades pode ser jogada de diferentes formas e normalmente utilizamos a palavra ‘esporte’ para nos referir tanto ao jogo casual como aos mais altos níveis de desempenho” (p. 9-10).

Já Victor Melo, em seu livro “Esporte e lazer: conceitos: uma introdução histórica”, ancora sua definição de esporte no conceito de campo de Pierre Bourdieu. Por conseguinte, uma atividade física se enquadraria no campo esportivo ao se enquadrar em quatro quesitos: a) organizar-se em instituições representativas (como clubes, federações ou confederações); b) reger-se através de um calendário próprio de competições, encontros ou demais; c) abranger um corpo técnico especializado (técnicos, treinadores físicos, médicos, advogados); e c, no caso, de produtos ditos esportivos, ainda que não necessariamente ligados à prática de esporte.

Todo esse debate introdutório nos serviu para refletir sobre uma prática corporal moderna, de profunda inspiração histórica: o Combate Histórico Medieval. Sim, nesse novo candidato a esporte moderno, pessoas portam armas e vestem armaduras medievais e lutam em combates [moderadamente] controlados.

O Combate Histórico Medieval (ou apenas Combate Medieval) é interessante por diversos motivos. Por um lado, poderíamos olhar para a atividade como um modelo de representação de um imaginário sobre a Idade Média. De acordo com as normas da Federação Internacional de Combate Medieval (International Medieval Combat Federation, ou IMCF), “todas as armas utilizadas nos comb

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ates da IMCF devem ser análogas aos originais históricos. Uma arma utilizada também deve ser do mesmo período e da mesma região da armadura de seu portador” (IMCF Original Rules, 1.2.1). Ou seja, a busca de uma suposta fidedignidade histórica se apresenta como uma das principais características da atividade.

E não para por aí. Além de duelos de espadas e outras armas, há também lutas de grupos, chegando até ao enfrentamento de pequenos exércitos, na modalidade 16 contra 16.

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No entanto, a prática pretende se enquadrar no que se entende contemporaneamente como um “esporte”. Para tanto, é possível ver lutadores de duelos se cumprimentando ao início do combate (ver https://www.youtube.com/watch?v=GSJgPVQJGyk), regras, federações e equipes nacionais.

E aí reside um outro ponto de interesse do Combate Medieval, sua caracterização, ou não, enquanto esporte. Para tanto, seria necessário, em primeiro lugar, buscar uma definição de esporte, como fiz acima. Dessa forma, podemos analisar o Combate Medieval dentro dos parâmetros da teoria de campo de Bourdieu:

a) Organização em instituições representativas 

O Combate Medieval possui diversas instituições representativas espalhadas pelo mundo. Além da já mencionada IMCF, diversas organizações locais e nacionais estão ligadas à prática. A Historical Medieval Battle International Association, organizadora do “Battle of the Nations” (Batalha das Nações), principal campeonato internacional conta com a participação de equipes de 33 países, com variados números de participantes. Já a IMCF conta com 18 países membros.

IMCF

Há também uma série de organizações menores, como a M1, que organiza uma espécie de MMA medieval, no qual os lutadores se enfrentam, com armas e armaduras, em um tipo de octógono, como na imagem abaixo:

M1

 

b) Calendário próprio de competições, encontros ou demais

As organizações de Combate Medieval possuem calendários próprios e competições internacionais periódicas. Em 2017, o campeonato mundial da IMCF será realizado entre 25 e 28 de maio, na Dinamarca. A edição de 2016 ocorreu em Portugal, tendo sua primeira edição sido realizada em 2014, na Espanha. Já a “Battle of the Nations”, realizada de 29 de abril a 01 de maio, em Barcelona.

Os eventos trazem toda a simbologia do esporte moderno, ligadas à imagética e ao simbolismo medievais. Bandeiras, medalhas e troféus fazem parte do evento, além da presença de torcedores e de símbolos diversos representando as nacionalidades envolvidas, como nas imagens abaixo:

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Vencedor Russo não identificado, em foto disponível na página do evento em rede social.

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Torcedores (e competidores?) dos Estados Unidos, carregam seus símbolos nas roupas e nos escudos.

c) Corpo técnico especializado

Além dos fabricantes de armas e armaduras, que teoricamente devem seguir especificações bem definidas de local e período de origem, há também um grupo de treinadores e de outros especialistas. Conforme a popularidade da prática for aumentando, sua eventual profissionalização pode levar a profissionais mais especializados e destacados.

d) Mercado específico ao seu entorno

Ainda que esteja em seus momentos iniciais, já podem ser notados alguns empreendimentos no mercado do Combate Medieval. Na página da “Battle of the Nations”, a empresa “Age of Craft” aparece como parceira, comercializando armas, armaduras e roupas ligadas ao evento. Assim como ela, outros devem existir e tendem a crescer com a maior repercussão da atividade.

E então, se convenceu de que o Combate Histórico Medieval pode ser considerado um esporte em seus primeiros passos? Ou ainda não? Bem, estabeleça seu conceito de esporte e teça seus argumentos. Que tenhamos um bom debate.

 

 

 

 


Silêncios e Olhares: algumas observações sobre o uso da imprensa como fonte na História do Esporte

20/12/2016

No estudo da História do Esporte, a utilização de fontes provenientes da imprensa escrita é algo rotineiro. E não é por menos. A cobertura diária dos eventos esportivos, por si só, já seria de grande valia ao historiador, mas além disso, soma-se ainda o fato de os jornais serem um dos principais meios pelos quais as pessoas viveram o futebol e aos quais os historiadores têm fácil acesso – o rádio e a televisão, apesar de terem alcance mais abrangente, ainda permanecem distantes de historiadores, como misteriosos ideogramas que ainda não conseguimos decifrar sua leitura. No entanto, apesar de seu uso massivo, as fontes de imprensa ainda são, por diversas vezes, utilizadas como reconstruções do passado; como excertos de um mundo acontecido, que foram reproduzidos fidedignamente pelos valorosos e isentos jornalistas do período em questão.

Ainda que tal forma de utilização de fontes de imprensa estejam declinando dentro do campo acadêmico da História do Esporte, ela ainda pode ser encontrada com frequência em trabalhos ditos acadêmicos, e por vezes aparecem em propostas de artigos aos quais preciso dar um parecer. Dessa forma, muitos trabalhos interessantes se fragilizam devido ao uso inadequado de fontes históricas.

Neste post, gostaria de destacar brevemente dois artigos que publiquei há alguns anos e que me foram relembrados por ocaisão de um debate sobre este mesmo tema, ao falar de duas importantes – mas não únicas –  variáveis a serem levadas em consideração ao trabalharmos com fontes jornalísticas: seus silêncios e seus olhares. Por “silêncios“, me refiro a fatos não mencionados, esquecidos ou escondidos das páginas dos jornais, e por “olhares“, entende-se os diferentes pontos de vista e as posições defendidas e/ou advogadas pelos meios de imprensa.

Ao falar em silêncios, me lembrei de um artigo publicado em 2008, na revista digital argentina “Lecturas, Educación Física y Deportes“, uma das mais antigas revistas de acesso livre digital que conheço na América Latina. Nesse breve artigo artigo, intitulado “Imprensa esportiva e propaganda política no peronismo: uma comparação entre ‘El Gráfico’ e ‘Mundo Deportivo’“, fiz uma análise ligeira sobre a forma com que as duas principais publicações esportivas do período do primeiro peronismo, as revistas “El Gráfico” e “Mundo Deportivo” representaram em suas páginas a morte e o funeral de Eva Perón, uma importante figura política peronista. Demonstro então que o semanário peronista “Mundo Deportivo” dedicou um número inteiro a Evita, no qual 45 das 75 páginas são dedicadas à esposa de Perón, destacando sua participação em diversos esportes e seu papel como simbolo da nova nação que defendiam existir. Já a revista rival “El Gráfico”, uma referência do jornalismo esportivo portenho que minguava em número de páginas por pertencer a um grupo de oposição ao governo peronista, destaca apenas 3 páginas de sua edição desta mesma semana, com um curto texto na página 3 e apenas fotografias ocupando a maior parte dessa página e das páginas 4 e 5. No curto texto, se resumiam a dizer:

El sábado 26 de Julio, a las 20.25 horas, a muerto Eva Perón, esposa Del primer magistrado, general Juan Perón, y Jefa Espiritual de la Nación. El deporte siente su prematura desaparición, como la siente el pueblo entero de la Argentina, porque su actividad infatigable llegó también hasta nuestro ambiente. Creación de Eva Perón fueron los Campeonatos Infantiles, y las dos fotos que aquí reproducimos la muestran jerarquizando con su presencia esos torneos.

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El Gráfico, 01 de agosto de 1952, p. 3.

Ou seja, pesquisadores que buscassem apenas um desses dois veículos de informação teriam visões bem distintas de quem lesse apenas o outro, acerca da importância do acontecimento. Torna-se fundamental então compreender a conjuntura política do período em questão, a limitada liberdade de imprensa e os meios possíveis de divergência e oposição. Ao produzirem diferentes discursos, escolhas e esquecimentos são indicativos essenciais para que hisoriadores possam fazer uma leitura menos distanciada do passado que investigam. É evidente que isso serve para toda produção histórica, e não somente para a história do esporte, mas devido à importância e à frequência com que fontes jornalísticas são utilizadas por historiadores do esporte, essa preocuipação se torna uma questão central ao nosso campo de estudo.

O segundo elemento que optei por destacar aqui foram os diferentes olhares produzidos pela imprensa. Nesse caso, faço referência a um artigo que publiquei em 2009, no XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), entitulado “A Política no Jornalismo Esportivo: o Jornal do Brasil e o Jornal dos Sports no Dissidio Esportivo dos Anos 30”, no qual faço uma análise comparada da cobertura de dois dos principais jornais do Rio de Janeiro, o JB e o JS, sobre momentos de tensão na disputa política ocorrida entre 1933 e 1937, que dividiu a esporte carioca – e nacional – em duas correntes, o que na época ficou conhecido como o “dissídio esportivo”. Ao acompanhar as páginas dos jornais, torna-se evidente que cada veículo advogava em nome de uma corrente da disputa.

Como exemplo das posições em que colocavam esses jornais, transcrevo duas passagens envolvendo uma tentativa de pacificação ocorrida em 1934, que ao fim acaba por não funcionar, na qual o grupo que se colocava então como defensor do profissionalismo sairia com vantagem. A primeira, da corrente que defendia a CBD e o amadorismo:

A nota dominante em nossos meios esportivos é a tal “pacificação” que, segundo se afirma, os mentores profissionalistas que para a desgraça do nosso sport, ao que parece, o empolgam no momento, vão impingir aos que se tem batido com sinceridade pela verdadeira causa do sport nacional, concretizada nessa organização magnífica e sem similar no mundo inteiro, que é a Confederação Brasileira de Desportos. (Jornal do Brasil, 05/06/1934, p. 24)

Pode-se observar, por este trecho, que o Jornal do Brasil não escondia de que lado estava e em nome de quem falava. Ao se referir à CBD como uma “organização magnífica e sem similar no mundo inteiro”, não havia dúvida de que o jornal estava contrário ao grupo liderado por Arnaldo Guinle, que, de acordo com o próprio jornal, empolgavam o esporte nacional no momento, mesmo que para a suposta desgraça do mesmo.

Já o Jornal dos Sports, ligado ao grupo que defendia o profissionalismo, afirmava:

A pacificação dos sports, hontem feita atravez do pacto firmado pelos “leaders”
mais proeminentes das duas facções que lutavam sem desfallecimentos, há mais
de um anno, é, antes do mais, uma victória para o próprio sport brasileiro, seu
maior beneficiário (…). (Jornal dos Sports, 07/06/1934, p.1)

Essas e diversas outras passagens demonstram a diferença de olhares que dois veículos da grande imprensa carioca apresentavam em suas páginas. Algum pesquisador, ao ler o JB entre os anos 1933 e 1937, poderia se perguntar o que acontecera com Flamengo,  Fluminense e Vasco (este último até 1934, visto que em 1935 volta a se filiar à CBD e retorna as páginas do jornal), visto que os clubes dissidentes praticamente desapareceram das colunas esportivas do diário. Já a leitura excllusiva do Jornal dos Sports pode levar o pesquisador a enxergar os acontecimentos passados de forma tão parcial quanto o outro lado, vendo apenas a força e as benesses dos clubes ligados à Liga Carioca de Futebol. Olhares e silêncios, novamente presentes e atuantes.

Como dito anteriormente, esses cuidados não devem se restringir à história do esporte ou a períodos distantes no passado. Eles são tão fundamentais para a leitura da imprensa atual quanto são para o estudo histórico do esporte. Ainda que tais cuidados sejam elementares na prática de qualquer bom historiador, por vezes não custa nada relembrar o óbvio, que tanta gente esquece.

======= Leituras sugeridas =======

DE LUCA, Tania Regina. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla B. (org.). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005. p. 111-153.

MELO, Victor Andrade de; DRUMOND, Maurício; FORTES, Rafael; Santos, João. Meios de comunicação. In: ______. Pesquisa histórica e História do Esporte. Rio de Janeiro: 7 Letras / Faperj, 2013, p. 113-127.

 

 


JOGOS OLÍMPICOS, UM MOMENTO DE PROTESTOS?

26/07/2016

por Maurício Drumond

Manifestações políticas não são novidades em Jogos Olímpicos. A decepção com o suposto legado que o evento propiciaria à cidade e as avassaladoras crises política e econômica são o combustível ideal para alimentar tais protestos. Às vésperas da cerimônia de abertura, as antecipações à possíveis manifestações populares – com euforia ou preocupação, dependendo de seu posicionamento político – começam a entrar em pauta; ainda que dividam espaço com outras questões como a possibilidade de atentados terroristas, problemas organizacionais e doping, entre outros.

Por aqui, as manifestações organizadas durante a Copa das Confederações em 2013 também marcaram o imaginário nacional sobre a participação contestatória popular e os grandes (ou mega) eventos esportivos. E com ela, a forte resposta policial engendrada durante a Copa do Mundo de 2014, com uma série de prisões preventivas que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Anistia Internacional (AI) definiram como “graves violações dos direitos e liberdades democráticas”, de acordo com o jornal El País.

Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), manifestou-se com o velho mantra do Comitê: “Os Jogos Olímpicos não têm relação com a política”, disseram repetidas vezes diferentes presidentes do COI. Mas a história nos ensina uma diferente lição. Desde sua primeira edição, na cidade de Atenas, em 1896, os Jogos foram por diversas vezes alvo de interesses políticos.

As Olimpíadas de Berlim em 1936, realizadas em pleno regime nazista, já demonstravam o forte simbolismo político ligado ao esporte. Hitler não poupara esforços para construir a imagem internacional de uma grande e bem sucedida Alemanha. Pela primeira vez, os Jogos eram aparelhados pelo Estado e a imagem de uma nação era arquitetada e projetada através do ideal olímpico.

 

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Berlim, 1936.

Já as Olimpíadas de Melbourne, em 1956, foram palco do primeiro boicote oficial. Em tempos de Guerra Fria, a Espanha, a Suíça e os Países Baixos se recusaram a participar dos Jogos, em protesto contra a invasão soviética da Hungria após a Revolução Húngara daquele ano. Já os egípcios, libaneses e iraquianos não compareceram ao evento contra a presença francesa na questão do Canal de Suez. Os Jogos de Melbourne também não contaram com a participação da República Popular da China, que demandava a exclusão de Taiwan da competição.

Devido ao apartheid, regime de segregação racial, a África do Sul foi banida de qualquer competição internacional e ficou de fora das Olimpíadas de 1964, em Tóquio. A sanção só foi revogada na década de 90, após o fim do apartheid, nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992. Nos Jogos de 1976, em Montreal, 22 nações africanas se recusaram a participar devido à não exclusão da Nova Zelândia da competição. Esses países pediam a eliminação da delegação neozelandesa pelo fato de que seu time de rúgbi (os “All Black”) havia rompido o isolamento esportivo decretado à África do Sul, que fora banida das competições esportivas internacionais como meio de pressão contra seu sistema segregacionista. Já o Comitê Olímpico Internacional alegava que o rúgbi não era um esporte olímpico, e que por isso o caso fugia de sua alçada. A Nova Zelândia fez valer seu peso político e levou 84 atletas aos Jogos.

As duas Olimpíadas seguintes foram palco dos mais famosos boicotes olímpicos, em 1980 e 1984, nos Jogos de Moscou e Los Angeles, respectivamente. Em Moscou, 62 delegações, lideradas pelos Estados Unidos, se recusaram a participar da competição, a grande maioria em oposição ao regime soviético. Quatro anos depois, em Los Angeles, foi a vez de a União Soviética liderar o bloco comunista de 14 nações a não participarem dos Jogos. O Irã e a Líbia também decidiram boicotar o evento como forma de protesto político, mas não faziam parte do bloco soviético.

Além dos boicotes, podemos também apontar protestos populares em momentos olímpicos. Em 1968, dez dias antes da abertura dos Jogos da Cidade do México, no dia 02 de outubro, a resposta policial a um protesto pacífico resultou no evento conhecido como “Massacre de Tlatelolco”. O número exato de mortes ainda é debatido, com a maioria das fontes indicando entre 200 e 300 fatalidades. Durante os Jogos, uma das imagens mais marcantes em sua história: Tommie Smith e John Carlos dividem um par de luvas e fazem a saudação dos Panteras Negras no pódio dos 200 metros rasos.

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Peter Norman, o australiano que conquistou a medalha de prata na prova e compartilhou o pódio com os estadunidenses, aderiu à manifestação utilizando um broche da organização “Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos”, que propunha o boicote de atletas afro-americanos caso uma lista de reivindicações dos movimentos por direitos civis dos Estados Unidos não fosse atendida. A entidade desistiu do boicote, mas instruiu seus membros a protestarem de sua forma, como fizeram Smith e Carlos. Os atletas dos EUA foram punidos por sua federação e mandados de volta ao seu país, e Norman também sofreu punição, ficando de fora das olimpíadas seguintes, em Munique.

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Os Jogos de 2008, na China, também foram precedidos de diversas manifestações políticas, especialmente relacionadas à ocupação chinesa do Tibete, durante a passagem da tocha por diversas cidades, como Atenas, Istambul, Buenos Aires, Paris, Londres e São Francisco.

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Protestos em São Francisco, 10 mar. 2008. (AP Photo/Ben Margot)

Os Jogos chineses, em si, não tiveram manifestações significativas em solo chinês, o que também se deve ao caráter autoritário de seu governo. Já no Rio de Janeiro, o caráter autoritário do governo também transparece em diversas situações. Resta-nos ver, como serão os nossos Jogos?

 


Gianni Infantino e a FIFA

01/03/2016

Na última sexta-feira, dia 26 de fevereiro, a Fifa elegeu seu mais novo presidente. O nome é Gianni Infantino, um suíço de 45 que atuava como Secretário-Geral da Uefa desde 2009 e foi catapultado à condição de candidato após Michel Platini ter sido afastado da disputa (para quem esteve afastado do assunto, o ex-jogador francês Michel Platini, então presidente da Uefa, foi banido de qualquer atividade ligada ao futebol pelo Comitê de Ética da Fifa pelo período de oito anos, em dezembro do ano passado).

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Gianni Infantino

Com a saída de Platini, Infantino assumiu o papel de principal nome na disputa contra o presidente da Confederação de Futebol da Ásia, xeque Salman Bin Ebrahim Al-Khalifa, que contava com apoio maciço de federações da Ásia e da África. O suíço adotou então uma campanha com apelo às pequenas, mas numerosas, federações ligadas à Fifa (é importante lembrar que cada federação tem direito a um voto, independentemente de sua trajetória no esporte), com promessas de repasses de verbas a federações, aumento de participantes na fase final da Copa do Mundo e maior transparência na entidade. Vamos olhar mais atentamente a cada uma dessas propostas:

  •  a) Repasses de verbas a federações: sob a rubrica de “projetos de desenvolvimento do futebol”, Infantino indicou que repassaria cerca de 50% da receita da Fifa às federações, prevendo um mínimo de 5 milhões por federação e 40 milhões por confederação nos próximos 4 anos (fonte: Forbes). Uma oferta e tanto para as pequenas federações que são essenciais nas eleições da entidade.

 

  • b) Aumento de participantes na fase final da Copa do Mundo: A proposta mais controversa de Infantino talvez seja a mais provável de ser implementada. Trata-se de aumentar o número de países participantes na fase final da Copa do Mundo (vale lembrar que para a Fifa, as eliminatórias já são parte da Copa), de 32 para 40 países. Em sua atuação na Uefa, o Campeonato Europeu de Futebol deste ano (a Euro 2016) já contará com o aumento de equipes participantes, de 16 para 24, medida que foi muito popular junto às federações mais fracas do continente. Tudo indica que o mesmo ocorrerá na Copa do Mundo, com a oferta de mais uma vaga para Ásia (6 vagas), Europa (14), Oceania (1) e América do Sul (5), e mais duas para a América Central e do Norte (5) e para a África (7), com o fim das vagas de repescagem, mantendo-se ainda as vagas do atual campeão e do país sede.

 

  • c) Maior transparência na Fifa: Tentando reerguer a imagem da entidade após os grandes escândalos de corrupção e de desvios envolvendo nomes importantes da Fifa, Gianni Infantino promete trazer transparência ao seu mandato de quatro anos à frente da entidade. Os passos a serem tomados nesse sentido ainda não estão claros e permanecem sendo apenas promessas, mas a Fifa já demonstrou que a iniciativa em recuperar sua reputação é emergencial e que deveria ser abordada por qualquer presidente.

 

Resta-nos acompanhar as ações do sr. Infantino à frente da maior entidade esportiva do planeta para poder julgá-lo melhor, uma vez que previsões do futuro não são a área de atuação da História. No entanto, se os historiadores são, de fato, os “profetas que olham para trás”, como apontou Heinrich Heine, podemos achar facilmente na História um paralelo à eleição de Gianni Infantino a Fifa.

Em 1974, o brasileiro João Havelange foi eleito para o cargo máximo da Fifa em uma forte disputa com o então presidente, sir Stanley Rous. Na época, a Fifa contava com 139 federações afiliadas com direito ao voto, e Havelange visitou e fez forte campanha junto a 84 deles. Além da compra de votos relatada por Andrew Jennings, de difícil comprovação empírica, a promessa do aumento de equipes na fase final da Copa do Mundo foi também uma das principais armas de Havelange ao angariar os votos das federações menores, especialmente junto a federações da África, Ásia e Concacaf. Havelange cumpriu suas promessas, e a Copa do Mundo, que contava com 16 equipes no início do primeiro mandato de Havelange, em 1974, já tinha as atuais 32 seleções em 1998, seu último ano à frente da entidade. O número de países membros também cresceu muito, chegando aos atuais 309, já depois da saída do brasileiro.

Podemos, assim, ver elementos comuns na ascensão de Havelange e Infantino. Espero apenas que o último não mantenha a característica de grande longevidade dos presidentes à frente da entidade. Havelange governou por 24 anos, e Joseph Blatter por 17 anos. O futebol merece uma rotatividade real de seus presidentes.


Entre Herois e Vilões: O Curioso Caso Dunga

20/10/2015

Por Maurício Drumond

“Martín-Barbero comenta que dor e riso estão entre os sentimentos básicos do melodrama (2006, 168). Ambos também são vitais para as narrativas de futebol, principalmente as que tratam da seleção. Sentimentos cuja ênfase aponta para uma visão de mundo polarizada entre alegria e tristeza, vitória e derrota, heróis e vilões. Esses últimos como sabemos são os protagonistas das narrativas da derrota, e não poderia ser diferente, pois as figuras vilânicas têm um ótimo rendimento dramático.”

Leda Maria da CostaA trajetória da queda: as narrativas da derrota e os principais vilões da seleção brasileira em Copas do Mundo (2008, p. 64).

A história da seleção brasileira está recheada de heróis e vilões. Desde Friedenreich, no Sul Americano de 1919, passando por nomes como Leônidas (Copa Rio Branco de 1932 e Copa de 1938), Pelé e Garrincha (Copas de 1958, 62 e 70), até Romário e Ronaldo (Copas de 1994 e 2002), heróis brasileiros se destacaram em um rol de grandes estrelas que brilharam com a camisa amarelinha. Mais do que nomes de destaque na história de seus clubes, brilharam com a camisa de seleção e se destacaram em grandes vitórias, no stricto ou lato sensibus.

No entanto, como aponta Leda Costa em sua tese citada acima (veja a tese aqui), os heróis não são os únicos a serem rememorados nas narrativas da seleção nacional e em suas formações identitárias. Assim como eles, os vilões aparecem com papel de destaque na história de seleção canarinho. Barbosa e Bigode, por anos símbolos maiores da vilanização de jogadores brasileiros, estão tão presentes na história e na autoimagem de nosso futebol quanto destaques como Didi e Zizinho, por exemplo. Nem mesmo o 7-1 de 2014, atribuído em parte ao ex-campeão Felipão e a um suposto “apagão coletivo” dos jogadores, pôde apagar seus nomes do topo da lista de “vilões” do nosso futebol, uma vez que seus “feitos” foram elementos fundamentais para a formação de nossa identidade enquanto país do futebol. O Maracanazzo continua sendo a maior catástrofe de nosso futebol. Dentre a lista de heróis e vilões de nossa seleção, meu objetivo aqui é destacar uma figura ímpar, que oscila entre os dois grupos: Dunga.

Carlos Caetano Bledorn Verri, mais conhecido como Dunga, estreou na seleção brasileira em um jogo contra a Inglaterra, em 1987, jogando pelo Vasco da Gama, mas só iniciou um jogo como titular em 1989, já como jogador da Fiorentina, e fez parte da equipe que levantou o título da Copa América, no Maracanã. Em pouco tempo, Dunga iria simbolizar os problemas associados à seleção nacional eliminada da Copa do Mundo da Itália, no ano seguinte. Dunga era sinal de futebol ruim.

Isso pode ser visto na coluna escrita por Jô Soares em 30 de junho de 1990, poucos dias depois do gol de Cannigia, que eliminou a seleção da Copa. Nela, Jô diz: “Se a coisa continua, daqui a pouco vai ser realizado o sonho maior do Dunga: noventa minutos de futebol sem espetáculo” (p. 11).

Jo Soares. Jornal do Brasil, 30 Jun 1990, p 11.

Jô Soares. Jornal do Brasil, 30 Jun 1990, p 11.

Assim como o técnico Lazaroni, Dunga e seu estilo de jogo eram considerados culpados pela derrota. A expressão “Era Dunga” se tornou um antônimo do mítico “futebol arte” que seria típico do Brasil. No dia após a derrota, o JB estampava em sua capa: “O talento sepultou a era Dunga” e “Dunga, o símbolo da filosofia pregada por Lazaroni, repetiu conhecida frase do ex-presidente Figueiredo, dita ao deixar o governo brasileiro. Pediu para ser esquecido”.

Jornal do Brasil, 25 jun. 1990, p.1.

Jornal do Brasil, 25 jun. 1990, p.1.

Na coluna de Daniella Wagner, Informe JB (25/06/1990, p. 6), a colunista atacava:

Informe JB 25 jun 1990 p.6

Informe JB, 25 jun. 1990.

A “Era Dunga” ia além do futebol, ela representava qualquer coisa de qualidade ruim do período. Na mesma coluna, Daniella Wagner continuava:

Informe JB, 25 jun. 1990.

Informe JB, 25 jun. 1990.

O humor também se utilizava de Dunga. A equipe da Casseta Popular (antes de sua união com o Planeta Diário e sua ida para a Rede Globo), lançou a propaganda do “Café Dunga”, com dizeres como “Se o Café Pelé já era ruim, imagina esse!” e “O café que não tem a menor intimidade com seu paladar”.

Casseta popular, 1990.

Casseta popular, 1990.

Dunga compartilhava o papel de vilão com o técnico Lazaroni, mas era tido como o símbolo do anticlímax do futebol brasileiro, um “futebol de resultado”, que se opunha ao idealizado “futebol arte” que a mídia brasileira representava como seu ideal.

Dunga, no entanto, daria sua primeira volta por cima em 1994. Mesmo criticado, o jogador foi o capitão da seleção brasileira tetracampeã do mundo nos Estados Unidos. A imprensa, mesmo desconfiava, dava sinais de apoio ao jogador. Oldemário Touguinhó, escrevendo no Jornal do Brasil em 13 de junho, dizia: “Sem ser nenhum virtuose, opinião absurda que agora nos querem enfiar goela abaixo, Dunga provou que é necessário à seleção” (p. 2, caderno de esportes). Aos poucos o jogadores conquistava novo espaço. A mesma coluna “Informe JB”, agora assinada por Teodomiro Braga, dessa vez dizia: “Jogador mais criticado da Copa de 90, na Itália, Dunga é hoje uma unanimidade nacional. A Copa dos EUA está consagrando a verdadeira Era Dunga” (JB, 10 jul. 1994, p. 6).

Dunga não foi o herói, propriamente dito da Copa, mas seu nome transitava do elenco de vilões para o de heróis. Ao levantar a taça, Dunga entrava para a seleta lista de capitães brasileiros campeões do mundo. Era nosso Obdulio Varela, visto como um líder dentro e fora de campo. Nem mesmo a derrota para a França, na final de 1998, alterou a imagem do capitão.

DUNGA taça 1994

Saindo por cima, como herói, Dunga voltaria nesse papel como a esperança brasileira após a derrota na Copa de 2006. A equipe era vista como tendo muitas mordomias e dizia-se que faltava uma liderança forte para impor limites às estrelas brasileiras. E o nome era Dunga. Ele agora era a esperança de que a seleção pudesse reencontrar o verdadeiro futebol brasileiro. Desta vez, a culpa era do excesso de liberdade dado a jogadores como Ronaldinho e Adriano. E o Capitão do Tetra aparecia como a solução. Como teria apontado o ex-jogador Carlos Alberto Silva: “faltou alguém como Dunga, chegar no vestiário, no intervalo, e enfiar a mão na cara de todos (…). Tive saudades do Dunga, que saudades do Dunga” (Estado de São Paulo, 02/07/2006, citado em Leda Costa, 2008, p. 147).

No entanto, a esperança se tornou pesadelo. Como tantos outros técnicos derrotados em Copas do mundo, Dunga passou novamente a vilão na Copa de 2010. Eliminado em um jogo marcado pela tensão emocional dos jogadores, especialmente de Felipe Melo, expulso no segundo tempo, o escrete brasileiro seria um reflexo do destempero de seu treinador.  João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, teria dito à Folha de São Paulo: “O desequilíbrio se deu de forma marcante quando ele [Dunga] não conseguiu sair do papel de jogador de futebol para técnico da Seleção Brasileira. Ele manteve as mesmas características de um atleta profissional, o que não pode acontecer” (Folha de São Paulo, 02 jul. 2010). Já dando seu veredito ao final, os autores da reportagem, ao utilizarem as palavras de Cozac, consideram Dunga culpado pelas mesmas características que teriam feito dele o candidato ideal ao cargo de técnico quatro anos antes. Sua postura de capitão.

Desde seus primeiros momentos, Dunga teve contratempos com a imprensa e era criticado abertamente por diversos jornalistas, como pode ser visto na reportagem abaixo:

Fim da 2a era Dunga

Após a demissão do treinador, apontava-se o final da “Segunda Era Dunga”. Mas esse não seria ainda o fim da história. Depois dos acachapantes 7-1 em Belo Horizonte e da saída de Luiz Felipe Scolari, Dunga volta mais uma vez ao rol do s heróis, novamente com a função de levar a seleção a uma Copa do Mundo e, quem sabe, dessa vez, não voltar ao papel de vilão. Mas para isso, teremos que torcer.