O futebol feminino no Brasil e na América do Sul: um breve olhar

06/02/2018

Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

Em janeiro passado, se deu início mais uma edição da Copa Libertadores da América de futebol masculino. Enquanto a competição masculina atrai mais uma vez os holofotes da modalidade na América do Sul, buscarei neste pequeno texto abordar um pouco da versão feminina da competição organizada pela Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), assim como estabelecer um panorama da modalidade no continente como um todo. Destaco, desde já, que a análise foi aqui realizada de forma superficial, buscando mais questões quantitativas do que qualitativas, de forma que possa suscitar a curiosidade do leitor e, quem sabe, fazer com que estudos mais específicos surjam a partir de então.

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Chapecoense-BRA x Nacional-URU, em jogo válido pela segunda fase da Copa Libertadores da América 2018 (31/01/2018). Fonte: http://www.gazetapress.com/pauta/54797/copa_libertadores_da_america_2018__chapecoense_x_nacional__uru_

Em 1960, a Conmebol começou a organizar, de maneira oficial, competições de clubes no cenário sul-americano, tendo como marco a criação da Copa Libertadores da América de futebol masculino. Atualmente, essa continua sendo a principal competição organizada pela entidade no continente. Além dessa, nos dias atuais também ocorrem a Copa Sul-Americana e a Recopa Sul-Americana. Entre as competições intercontinentais, destacamos a Copa do Mundo de Clubes FIFA (disputada pelo campeão da Copa Libertadores) e a Copa Suruga Bank (confronto realizado entre o campeão da Copa Sul-Americana e o vencedor da Copa da Liga Japonesa).

Além dessas, outras competições organizadas pela entidade já não existem mais, porém também são entendidas como competições oficiais. São essas: Supercopa da Libertadores (1988-1997), Copa Conmebol (1992-1999), Copa Mercosul (1998-2001), Copa Merconorte (1998-2001), Copa Master da Supercopa (1992-1995), Copa Master da Conmebol (1996), Copa Ouro (1993-1996), Copa Ibero-americana (1994) e Copa Interamericana (1968-1998). No âmbito intercontinental, podemos citar a Recopa Intercontinental (1968-1969) e a Copa Intercontinental (1960-2004), tendo essa última antecedido a atual Copa do Mundo de Clubes FIFA. No ano passado, segundo informação divulgada no site da Conmebol, a FIFA sinalizou pelo reconhecimento dessa competição enquanto um título mundial oficial, tendo essa decisão sido tomada a partir de uma solicitação da própria entidade sul-americana.

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Proposta da Conmebol de reconhecimento dos títulos da Copa Intercontinental como mundiais. Fonte: https://twitter.com/agdws/status/923846229922123776/photo/1

Além disso, algumas competições, mesmo não tendo sido organizadas pela Conmebol, foram chanceladas pela entidade. Um exemplo é o Campeonato Sul-Americano de Clubes campeões, organizado em 1948 pela equipe chilena Colo Colo e vencido pelo brasileiro Vasco da Gama. Mesmo durante muito tempo não tendo sido reconhecido oficialmente como competição continental, esse título passou a ter a chancela da Conmebol em 1997, quando a pedido do C. R. Vasco da Gama, a entidade permitiu que a equipe disputasse a Supercopa da Libertadores daquele ano. Como essa competição só era disputada por equipes vencedores da Copa Libertadores (e até então o Vasco nunca havia ganho a competição, fato que alcançaria em 1998), a participação do Vasco como campeão do torneio em 1948 demonstra o reconhecimento da entidade para essa disputa como sendo o primeiro grande campeonato sul-americano de clubes e o percussor da Copa Libertadores, que se iniciaria doze anos depois.

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Equipe do Vasco da Gama campeã do Sul-Americano de Clubes em 1948. Fonte: Centro de Memória C. R. Vasco da Gama

Mesmo com todo esse desenvolvimento e número de competições no masculino, o futebol feminino, entretanto, historicamente sempre se manteve em uma posição de desigualdade. Essa situação é muito explicada pela posição patriarcal e machista da sociedade em que estamos inseridos que, dentre outras esferas, também exerceu seus reflexos no âmbito do futebol. Assim, mesmo com avanços, o futebol feminino sempre esteve muitos passos atrás do masculino. Se compararmos com outras modalidades esportivas, no que diz respeito a posição da prática entre homens e mulheres, veremos que o futebol exacerba ainda mais tal discrepância no contexto sul-americano, muito devido a espetacularização e o mercado alcançados no masculino.

Mesmo com esse cenário, o avanço do futebol feminino no continente, ainda que com passos lentos, tem ocorrido. No senso comum, poucos conhecem e/ou acompanham as competições da modalidade, principalmente se comparado com o futebol masculino. Todavia, no que se refere a formação de um campo, tal cenário teve sensíveis modificações nas últimas décadas.

Se ainda não podemos falar, nem de perto, que o futebol feminino alcançou um posto similar ao do futebol masculino, que é um objeto a parte, pelo menos conseguiu desenvolver competições e estabelecer um status antes não imaginado. No Brasil, por exemplo, o avanço do futebol feminino se deu, com maior força, a partir dos anos 1990, tendo desde então consolidado um selecionado nacional que se destaca ano após ano entre os mais fortes do mundo.

Mesmo sem nunca ter ganho uma Copa do Mundo, o selecionado brasileiro feminino já foi vice-campeão mundial em 2007; medalha de prata nos Jogos Olímpicos de verão em Atenas 2004 e Pequim 2008; além de seis vezes campeão da Copa América. Jogadoras como Cristiane, Formiga e Marta, entre outras, ganharam muito destaque nos últimos anos, tendo essa última sido eleita pela FIFA a melhor jogadora do mundo por cinco vezes seguidas entre 2006 e 2010.

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A brasileira Marta foi eleita por cinco vezes consecutivas a melhor jogadora de futebol do mundo pela FIFA (2006/07/08/09/10) Fonte: http://www.huffpostbrasil.com/2015/12/10/o-passo-a-passo-de-marta-para-superar-pele-como-maior-artilheira_a_21687431/

No continente sul-americano como um todo, o avanço de competições entre seleções femininas de futebol também é notável, tendo o Campeonato Sul-Americano de Futebol Feminino (organizado pela Conmebol e também conhecido como “Copa América feminina”) tido sete edições desde 1991, com seis vitórias do Brasil e uma da Argentina, em 2006, onde as brasileiras foram vice-campeãs. A oitava edição da competição ocorrerá nesse ano de 2018, no Chile.

No âmbito maior, a Copa do Mundo (com sete edições desde 1991) e os Jogos Olímpicos de verão (com seis edições desde Atlanta 1996) continuam sendo, globalmente, as principais competições do futebol feminino. Os melhores resultados de selecionados sul-americanos nessas competições foram também alcançados pela seleção brasileira, que como já explicitado, foi vice-campeã mundial em 2007 e olímpica em 2004 e 2008. Fora do cenário sul-americano, mas ainda na América, é inegável o domínio dos Estados Unidos no futebol feminino, tendo sua seleção já ganho quatro medalhas de ouro olímpicas e três Copas do Mundo, dividindo com seleções como Alemanha, Noruega e Japão, o posto de seleções nacionais mais vitoriosas na história do futebol feminino.

No âmbito dos clubes, o abismo para o futebol masculino ainda continua grande e se faz maior até do que os eventos de seleções (pelo menos no que se diz respeito ao público que acompanha e aos patrocínios). No Brasil, a realização de competições como a Copa do Brasil (de 2007 a 2016) e o Campeonato Brasileiro (a partir de 2013), fizeram com que a formação de equipes femininas no país aumentasse no interior dos clubes. Porém, com a suspensão da Copa do Brasil feminina em 2017 pela CBF, novamente a falta de incentivo se tornou evidente na organização da modalidade no país, dificultando o mantimento e investimento em atletas por parte das equipes

A Copa Libertadores da América de futebol feminina teve seu início em 2009. Desde então, os clubes brasileiros são os recordistas de conquistas, o que evidencia ainda mais a necessidade de se investir nas atletas que representam as equipes do país. Entre os nove campeões, sete são clubes brasileiros: Santos (2009 e 2010), São José (2011, 2013 e 2014), Ferroviária (2015) e Audax, em parceria com o Corinthians (2017). Completam a lista o chileno Colo Colo (campeão em 2012) e o paraguaio Sportivo Limpeño (vencedor em 2016).

É de destaque que, sem os holofotes do futebol masculino, equipes de menor expressão na modalidade entre os homens, alcançaram notáveis resultados com as mulheres. São os casos de São José e Ferroviário, equipes brasileiras de pouca expressão no futebol masculino, mas campeãs da América entre as mulheres (o Audax, apesar de pouca expressão no masculino, foi campeão da América em 2017 no feminino com uma equipe formada em parceria com o Corinthians). Além da parceria entre Audax e Corinthians, que juntaram “grandes e pequenos”, a grande exceção à regra é o Santos, bicampeão da Libertadores entre as mulheres, tendo também ganho três vezes a competição na história entre os homens.

A vitória da Libertadores de 2017 foi exaltada com grande entusiasmo pelas diretorias de Corinthians e Audax. A parceria entre os clubes para formar a equipe vencedora demonstra como o futebol feminino ainda carece de patrocínios e outras formas de investimentos, tendo sido a junção de dois clubes a solução encontrada para unirem forças e alcançarem grandes conquistas. No caso do São José, tricampeão da Libertadores e campeão mundial em 2014, quando clicamos no link “elenco” no site do clube, automaticamente é aberta uma nova página com todos os atletas do futebol masculino, sem nenhuma menção feita em relação as atletas do time feminino, mesmo tendo sido com essas as principais conquistas da história do clube, já que no futebol masculino seus títulos são inexpressivos.

Se são, entre outros motivos, títulos como o da Libertadores que caracterizam um clube como sendo ou não grande, a não elevação das equipes femininas campeãs da América ao mesmo patamar alcançado pelos times masculinos, nos demonstra o quanto ainda é marginal a posição do futebol praticado por mulheres. Todavia, o que poderia ser um motivo de desânimo, tem se tornado uma causa de luta para as meninas que ainda sonham em fazer do futebol uma forma de profissão e levar a vida. Se é a Copa Libertadores da América um campeonato que, como já fica explicito em seu nome, simboliza as lutas pela libertação do continente americano, a presença de uma competição feminina de futebol dentro desse cenário, se faz também mais que necessária e importante para continuarmos avançando com a quebra dos padrões patriarcais estabelecidos e com o fim das desigualdades de gêneros existentes dentro da sociedade.

 

 

 

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O VI Sul-Americano de futebol no âmbito dos Jogos do Centenário de 1922 no Rio de Janeiro: entre os discursos da “nação brasileira” e a diplomacia internacional

13/11/2017

Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

 Em 1922, o Brasil festejava o centenário de sua independência. Essa data foi marcada por uma série de comemorações e exaltações da “nação brasileira”, em eventos diplomáticos com a presença de representantes de diferentes países do mundo.

Entre esses eventos, podemos citar as “Exposições Internacionais”. Pensadas na Europa do século XIX como forma de demonstrar o desenvolvimento industrial e a inserção de alguns países desse continente, essa modalidade de evento foi entendida como ideal para os festejos de comemoração do Brasil em 1922. Tendo em vista a intenção de idealizar o Brasil como uma “nação moderna”, tal como outras do “velho mundo”, foram nesse ano iniciadas as Exposições Internacionais na então capital Rio de Janeiro. O centenário da independência do país, concretizou um cenário propício para tais eventos, tendo tido em solo brasileiro a presença de diplomatas e representantes de diferentes nações.

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Exposição Internacional de 1922 – Av. Rio Branco, Rio de Janeiro/RJ. Fonte:http://historiasemonumentos.blogspot.com.br/2014/11/exposicao-internacional-do-centenario.html

Não devemos esquecer que, além das comemorações do centenário, 1922 ficou marcado por diversos outros acontecimentos relevantes no país. Podemos destacar, apenas como forma de exemplificação, o avanço do movimento tenentista, a Revolta dos 18 do Forte, a Semana de Arte Moderna e a fundação do Partido Comunista. Tendo esses e outros acontecimentos como pano de fundo, os debates que tratavam sobre a temática das ideias de “nação” brasileira, se fortaleceram.

Um grande exemplo desses debates sobre os caminhos a serem seguidos no país foi a criação e fortalecimento, entre 1921 e 1922, da “Reação Republicana”, que foi um movimento contrário ao poder político oligárquico dominante no Brasil naquele momento. Esse, contava com a participação de políticos e parte da elite de estados (Bahia, Distrito Federal, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul) que buscavam quebrar a política dos governadores então estabelecida pelas oligarquias de São Paulo e Minas Gerais (vejam bem, destacamos aqui uma disputa de poder e, não necessariamente, uma busca por mudanças sociais mais amplas por esses outros estados e/ou oligarquias que participavam do movimento).

Para alcançar tal objetivo, os estados que compunham a Reação Republicana lançaram como oposição, nas eleições presidenciais de 1922, a candidatura do então senador fluminense Nilo Peçanha. Peçanha, que já havia presidido o país entre 1909 e 1910, concorreu com o mineiro Artur Bernardes pelo cargo de sucessor de Epitácio Pessoa na presidência. Inserido nas alianças ligadas à Política dos Governadores, Artur Bernardes foi eleito, porém não calou as formas de contestações políticas criadas pela Reação Republicana, tendo como exemplo o já citado movimento tenentista, que seguiu com força no decorrer da década de 1920.

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Charge publicada na revista O Malho, 25/02/1922 Fonte: http://act14-anjovida.blogspot.com.br/2014/08/

Neste breve post, buscaremos compreender um pouco da presença do esporte nesse cenário diplomático de construção da ideia de nação brasileira proposta em 1922, assim como em boa parte da década de 1920. Tendo em vista que a construção e realização dos “Jogos Olímpicos Latino-Americanos de 1922” já foi abordado com maiores detalhes em post anterior (muito bem) escrito por Karina Cancella, buscaremos de forma mais específica entender o papel do VI Sul-Americano de seleções de futebol nesse processo, por se tratar de uma competição ocorrida no âmbito dos Jogos do Centenário e que teve grande relevância e repercussão no período retratado.

O que aqui chamamos de Jogos Olímpicos Latino-Americanos de 1922, foram um conjunto de competições esportivas realizadas no cenário de comemorações do centenário da independência do Brasil, contando com a disputa das seguintes modalidades: natação, polo aquático, basquete, tênis, atletismo, esgrima, tiro, remo, boxe e hipismo. Junto a esses eventos, ocorreu o VI Sul-Americano de Seleções de futebol, organizado pela Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL).

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Parada militar do centenário. Fonte: TORRES, César. Jogos Olímpicos Latino-Americanos – Rio de Janeiro 1922. Manaus: CBAt, 2012, p. 32.

Em 1919, o Brasil sediou os campeonatos sul-americanos das seguintes modalidades: futebol, natação e polo aquático. Para realizar, em 1922, um evento que pudesse conglomerar outras modalidades em âmbito continental, se fez necessário uma série de obras públicas na cidade do Rio de Janeiro. Depois da realização de uma série de debates, assim como atrasos ocorridos que, por pouco, não levaram a realização dos jogos do centenário da capital para São Paulo, chegou-se a uma definição de como seria organizadas as obras para o evento no Rio de Janeiro. Como salienta Maurício Drumond,

[…] coube ao Fluminense Football Club, presidido por Arnaldo Guinle, membro de uma das mais ricas e influentes famílias cariocas, a oportunidade de sediar os jogos, realizando assim grandes obras em seu estádio. Para executar as obras no stadium do Fluminense foi chamado o arquiteto Hypolito Pujol Jr., que também era responsável pelo pavilhão de São Paulo na Exposição do Centenário – um dos maiores especialistas brasileiros em concreto armado, tecnologia moderna a ser utilizada no centro esportivo. Apresentando assim a modernidade a ser vista nos pavilhões da Exposição, o estádio do Fluminense seria então o principal palco dos Jogos do Centenário, abrigando o campeonato sul-americano de futebol, assim como competições de tênis, boxe, polo aquático, esgrima, atletismo e tiro. Outras localidades, como o estádio do Clube de Regatas do Flamengo, a Vila Militar e o Jockey Club, entre outros, também receberam parte das provas (DRUMOND, 2012, p. 21-22).

Na América do Sul, a primeira competição continental de futebol entendida como oficial (ou seja, que possuem a chancela da Conmebol) entre seleções foi realizada em 1916, na Argentina. O Brasil a venceu pela primeira vez em 1919, ano em que também foi o país sede da competição. Em 1922, ocorreu a sexta edição do evento, sendo a segunda em que o Brasil o organizaria.

Para conseguir montar uma equipe que melhor representasse a “nação brasileira”, foi criado o primeiro Campeonato Brasileiro de seleções estaduais, em 1922. Esse campeonato, vencido pelo estado de São Paulo, tinha como principal objetivo conglomerar os “craques” do futebol nacional em vista a formação do selecionado que disputaria o Sul-Americano de seleções (maiores informações sobre a criação do Campeonato Brasileiro de seleções estaduais, ver o post de João Malaia).

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Selecionados de São Paulo (parte superior da imagem) e do Rio Grande do Sul (parte inferior), que se enfrentaram no Campeonato Brasileiro de seleções estaduais de 1922, com vitória paulista por 4×2. Fonte: http://cacellain.com.br/blog/?p=78752

A preparação para o VI Sul-Americano foi marcada por tensões entre as duas maiores federações de futebol do Brasil, do Distrito Federal e de São Paulo. Como se tornou marcante nos primórdios do futebol brasileiro, as disputas entre paulistas e cariocas pelo poder desse esporte se explicitava como algo que sobressaia aos campos dos jogos. A criação do citado Campeonato Brasileiro de futebol teria sido uma forma de tentar conciliar os estados que disputavam o poder do esporte (Distrito Federal e São Paulo), assim como idealizar um selecionado que pudesse ser entendido como mais “nacional”, ou seja, sendo composto por atletas de outras localidades também. Todavia, como infere João Malaia, vários fatores impossibilitaram esse caminho, fazendo com que a seleção continuasse a ser dominada por carioca e paulistas:

Falar em seleção brasileira com a ideia de que dela fizessem parte jogadores que efetivamente representassem o Brasil foi uma tarefa difícil, uma vez que os estatutos da CBD excluíam os analfabetos, que de acordo com o Censo de 1920, eram 65% da população brasileira. Junto a esse dado, vale ressaltar que, a despeito da organização do campeonato de seleções estaduais, a seleção de 1922 contou apenas com jogadores de São Paulo e da cidade do Rio de Janeiro, como era de costume. Da equipe que disputou a final do torneio contra o Paraguai, sete jogadores eram de equipes paulistas e quatro eram de equipes cariocas (MALAIA, 2012, p. 68).

Mesmo com todas as tensões iniciais, o Brasil acabou se tornando campeão do Sul-Americano de futebol em 1922, sendo essa sua segunda conquista na história da competição (a primeira foi em 1919, quando também havia sediado o torneio). Porém, a campanha realizada foi marcada por altos e baixos, tendo o selecionado empatado os três primeiros jogos (1×1 com o Chile; 1×1 Paraguai; e 0x0 Uruguai) e ganho os dois últimos (2×0 Argentina e 3×0 Paraguai, sendo esse último um jogo desempate).

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Premiação do Brasil campeão do Sul-Americano de 1922, no Estádio das Laranjeiras. Fonte: http://www.conmebol.com/pt-br/ano-1922-sul-americano-no-brasil-palco-de-honra-do-estadio-das-laranjeiras-do-clube-fluminense

O percurso até a vitória foi analisado com olhares diversos por parte dos jornais cariocas e de outras localidades do país. Sem obviamente buscarmos criar generalizações em proporções nacionais, tendo em vista que analisamos apenas jornais do Rio de Janeiro, foi possível apurar até o momento com a pesquisa que a linha de alguns importantes periódicos cariocas no período, como O Imparcial e Correio da Manhã, entendia que o futebol e as demais práticas esportivas ofereciam bons caminhos para idealizarem um novo Brasil “moderno” e que se diferenciasse das oligarquias dominantes ainda presentes no poder do país (nesse caso, em relação a parte da imprensa que se colocava contrária ao governo vigente).

Percebemos, pela análise das fontes, uma tentativa da imprensa em interligar a exaltação do Brasil enquanto nação com o os resultados e jogos praticados pelo selecionado nacional. Com isso, qualquer ação que fosse contraria aos “interesses da pátria”, era criticada, tal como aquelas que se demonstravam deselegantes com o evento que o país organizava.

Como exemplo, podemos citar as críticas da imprensa sobre os erros de árbitros estrangeiros ocorridos durante o Sul-Americano de 1922. Um árbitro chileno, por exemplo, que fora chamado de Ladrón de Guevara pelos jornalistas de O Imparcial, desistiu de arbitrar partidas da competição, provavelmente após ser acusado de erros (O Imparcial, Rio de Janeiro, 20 de setembro de 1922).

Todavia, quando os erros teriam ocorrido por um árbitro brasileiro, parte da imprensa relativizou as supostas irregularidades. Na partida entre Paraguai e Uruguai, esses últimos alegaram terem sido prejudicados pela arbitragem do brasileiro Carlos Santos (O Imparcial, Rio de Janeiro, 14 de outubro de 1922), que teria supostamente beneficiado os paraguaios para que assim o Brasil continuasse com chances de ser campeão sul-americano (se os uruguaios vencessem, seriam os campeões). Nas páginas de Correio da Manhã, podemos perceber como o erro foi visto por parte da imprensa:

O Sr. Carlos Santos errou e com seus erros alterou o score da partida. Não queremos entrar em análise das suas intenções, por isso que, não temos o direito de discuti-las. Sempre respeitamos a honestidade dos países estrangeiros, e não há de ser, desta vez, que vamos pôr em dúvida a de um juiz brasileiro.

[…]  os uruguaios que tantas provas de correção tem dado em campo e fora dele, não deviam jamais ter pretendido abandonar o campo, mesmo que tivessem razão (Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1922, p. 5.).

Confirmados os erros acima, o fato é que a delegação uruguaia se sentiu prejudicada a tal ponto que abdicou do direito de continuar disputando o Sul-Americano, atitude essa que foi extremamente criticada por parte da imprensa, como podemos ver na citação anterior, onde questionam o posicionamento do selecionado de optar por sair do campo de jogo, e também ao explicitarem ser essa (o abandono do torneio) uma ação “interpestiva e indelicada […] retirando-se de uma competição entre amigos de uma forma tão violenta” (Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 de outubro de 1922). Percebe-se também com a citação acima, que a análise não se dava na tentativa de negar os erros, mas de entender que não deveria haver dúvidas da idoneidade e honestidade do árbitro brasileiro, sendo esse um olhar diferente em relação ao que se via na imprensa sobre os árbitros estrangeiros que supostamente teriam também cometido erros.

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Equipe base do Brasil campeão sul-americano de 1922. Fonte: https://baudofutebolce.wordpress.com/2011/05/31/1788/

Essas críticas explícitas nos periódicos demonstram como a defesa da nação se fazia como prioritária por parte dos jornais em questão, deixando claro que o evento não só tinha a intenção de festejar o centenário da independência do país, mas também demonstrar no cenário internacional os valores da “nação brasileira”.

A tensão gerada pela saída do Uruguai do torneio teria acalorado as relações entre os países e estimulado o aumento de críticas por parte daqueles que já eram contrários ao futebol e demais práticas esportivas como forma de se pensar a nação diplomaticamente. Malaia reforça que esse ocorrido poderia ter abalado as relações entre os dois países:

Além desse escândalo, alguns parlamentares passaram a condenar as competições internacionais de futebol, pois estas estariam acirrando rivalidades que extrapolavam o campo e estavam dificultando relações com figuras proeminentes dos países sul-americanos. Brasil e Uruguai disputavam uma cadeira permanente na Liga das Nações e devido aos atritos com a seleção uruguaia, alguns parlamentares brasileiros viram a competição e o acirramento das rusgas entre os dois países como um revés na política internacional do país. (MALAIA, 2012, p. 69-70).

Concluímos essa breve reflexão, destacando que o VI Sul-Americano de futebol, em 1922, foi mais uma entre as várias possibilidades de se construir uma representação da nação brasileira perante outros países no sistema-mundo. Assim, com a tentativa de se fazer “moderna” como as nações europeias, inferimos que as construções da nação brasileira, feitas de diferentes maneiras por políticos e veículos de imprensa, tinham como principal característica o distanciamento em relação aos outros países vizinhos da América Latina. Mesmo quando se tinha um discurso de aproximação diplomática, se fazia questão de destacar a diferenciação brasileira em relação aos outros países da região (como, por exemplo, no caso dos árbitros, onde o brasileiro que erra é entendido como honesto, mas os demais não). Esse debate se faz importante por ser tratar de uma discussão até hoje ainda não bem definida, sobre o Brasil se entender ou não como uma nação latino-americana.

REFERÊNCIAS

DRUMOND, Maurício. Os jogos esportivos do centenário: o ponto de vista da política. In: MALAIA, João Manuel; MELO, Victor (orgs.). 1922: celebrações esportivas do centenário. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012, p. 15-36.

GOMES, Eduardo de Souza. A Reação Republicana e a imprensa carioca no VI Sul-Americano de futebol em 1922: uma análise nas páginas de O Imparcial e Correio da Manhã. ÂNCORA – Revista Latino-Americana de Jornalismo, João Pessoa, v. 4, 2017, p. 147-171.

MALAIA, João Manuel. A imprensa e o sul-americano de futebol de 1922: a “defesa das cores nacionais” ou o “campeonato internacional das futilidades”?. Revista Estudos Políticos, Rio de Janeiro, n. 5, 2012, p. 60-76.