Futebol e narcotráfico III: as influências de Gonzalo Rodríguez Gacha, “El Mexicano”, no futebol do Millonarios

18/08/2020

 Eduardo de Souza Gomes                                                       eduardogomes.historia@gmail.com

Entre 2016 e 2017, publiquei dois textos neste espaço tratando sobre as relações possíveis existentes entre o futebol e o narcotráfico na Colômbia dos anos 1980. Em uma primeira iniciativa, problematizei algumas questões relacionadas a participação (ou não) de Pablo Escobar no futebol em Medellín. Já em uma segunda oportunidade, avancei para destacar algumas das questões que se relacionaram à inserção do cartel de Cali, liderado pelos irmãos Rodríguez Orejuela, no futebol da cidade.

Ambos os textos são iniciativas introdutórias de um projeto maior que aos poucos estou desenvolvendo, buscando assim problematizar historicamente e com maior profundidade as relações existentes entre o futebol e o narcotráfico na Colômbia, notadamente nos anos 1980.

Por ocasião da realização de minha tese de doutorado, defendida em junho deste ano em meio à pandemia e onde desenvolvi uma pesquisa com outra temática relacionada à História do Esporte (um estudo comparativo dos Jogos do Centenário de 1922 no Rio de Janeiro e dos Jogos Bolivarianos de 1938 em Bogotá), as investigações sobre o objeto de estudo proposto aqui hoje tinham sido temporariamente interrompidas. Porém, tal projeto está aos poucos sendo retomado. Depois de passar por Medellín e Cali, abordarei neste texto um pouco das possíveis relações existentes entre o futebol e o narcotráfico na cidade de Bogotá, capital da Colômbia e sede de dois dos principais clubes de futebol do país, o Millonarios e o Independiente Santa Fe.

De forma mais específica, serão problematizadas as influências de José Gonzálo Rodríguez Gacha, conhecido como “El Mexicano”, no âmbito do Millonarios. Como materialização do auge dessa influência, podemos destacar os títulos colombianos vencidos pela equipe do Millonarios em 1987 e 1988, destacado por boa parte da imprensa do país como resultado do grande investimento financeiro clandestino que o clube recebeu por parte do narcotraficante.

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Time do Millonarios que conquistou o bicampeão colombiano seguido em 1988. Foto: RUIZ BONILLA, 2008, p. 219.

Para chegarmos nesse encontro entre o narcotráfico e o clube, é válido destacar um pouco da biografia de El Mexicano, tal como sua inserção no mundo da venda de drogas na Colômbia entre as décadas de 1970 e 80.

Gonzalo Rodríguez Gacha nasceu no departamento colombiano de Cundinamarca, em 1947. Oriundo de uma família humilde de camponeses, desde cedo se envolveu em pequenos casos de crimes e furtos. Ficou caracterizado pela imprensa do país por ser considerado “violento e sanguinário”, tendo sido o provável autor e/ou mandante de vários homicídios. Por ser um apreciador assumido da cultura e vida mexicana, ficou conhecido como El Mexicano.

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Gonzalo Rodríguez Gacha, El Mexicano. Foto: Wikipedia

Gacha iniciou seus negócios no ramo de vendas de esmeraldas. Desde seus primórdios, já se envolveu em transações ilegais, camufladas por distintas formas de lavagem de dinheiro. Logo que seus negócios foram se ampliando, se inseriu também no âmbito do narcotráfico.

Foi um dos braços principais do cartel de Medellín, se estabelecendo como um dos maiores aliados de Pablo Escobar em Bogotá. Inclusive, no âmbito da defesa armamentista do cartel, exerceu papel de grande liderança e destaque no confronto contra inimigos do mercado do narcotráfico, como nos conflitos armados contra o cartel de Cali dos irmãos Rodríguez Orejuela, nos anos 1980.

No fim de sua vida, acabou se vendo em uma encruzilhada, tendo adentrado em quatro frentes de conflito no país: contra o Estado, o cartel de Cali, as FARC e algumas lideranças do mercado de esmeraldas. Acabou morto em 1989, em uma operação do Estado colombiano de enfrentamento ao cartel de Medellín.

Durante sua trajetória, acabou se utilizando de vários espaços para a realização de investimentos e/ou lavagem de dinheiro. Um deles foi o futebol. Gacha acabou se tornando um dos sócios majoritários de um dos maiores clubes do país, o Millonarios de Bogotá. Chegou ao clube em 1982, junto de Edmer Tamayo Marín, que chegou a ser presidente do clube e era muito próximo do famoso narcotraficante. Alberto Galviz Ramírez destaca que

Tamoyo […] morreu em 1986 depois que se vinculará ‘como proprietário de uma carga de 2.000 quilos de cocaína confiscados em setembro de 1982 e outra de 65 quilos confiscada em Barranquilla’. Por sua parte, Rodríguez Gacha, El Mexicano, importante patrão do narcotráfico e líder de “Los Extraditables” (em referência ao grupo de narcotraficantes colombianos que, juntos de Pablo Escobar, lutou contra a extradição para os Estados Unidos nos anos 1980) assumiu o comando do Millonarios em meados dos anos 80 e sua influência foi determinante para o destino do quadro azul. Destacadas figuras chegaram à formação da capital graças à inegável fonte de dinheiro que respaldava El Mexicano, o que permitiu que o Millonarios se coroasse campeão em 1987 e 1988 (GALVIS RAMÍREZ, 2008, p. 97-98, tradução nossa).

Entretanto, no decorrer dos anos 1990 e 2000, a temática do narcotráfico e o quanto essas figuras influenciaram em diversos setores sociais, dentre esses os clubes de futebol, passou a ser cada vez mais problematizada e negada por boa parte da sociedade colombiana. No caso do Millonarios, esse debate se tornou tão grande que, inclusive, surgiram movimentos que buscaram anular os títulos nacionais conquistados pela equipe em 1987 e 1988.

 É válido destacar que tais conquistas foram muito importantes naquele contexto para os torcedores, já que o clube passava por um jejum de nove anos sem conquistas (o último título nacional havia ocorrido em 1978), tal como permaneceu mais vinte e quatro anos sem títulos do Campeonato Colombiano depois do bicampeonato nos anos 1980, encerrando o jejum somente em 2012. Ou seja, em um intervalo de trinta e quatro anos (1978 a 2012), as únicas conquistas do Millonarios, então maior campeão nacional, foram os títulos conquistados no período de influência de Gacha e companhia.

Felipe Gaitán, então presidente do Millonarios em 2012, admitiu na época que poderia “devolver” os títulos de 1987 e 1988, se assim determinasse a justiça em caso de confirmação do envolvimento financeiro do narcotráfico no âmbito do clube durante esse período. A decisão acabou não se materializando, mas dividiu parte da torcida. Fato é que, depois dessa iniciativa, mesmo no cenário recente da atual década e com vários debates acerca da importância de se combater e negar os horrores cometidos outrora pelo narcotráfico, bandeiras estampando o rosto de Gacha foram levantadas em algumas ocasiões por parte dos torcedores do Millonarios nos estádios, como podemos ver abaixo.

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El Mexicano virou até bandeirão em parte da torcida do Millonarios. Foto: https://doentesporfutebol.com.br/2015/09/historia-do-futebol-colombiano-a-era-dos-narcos/

Em 2012 residi alguns meses em Medellín, durante um período de graduação sanduíche que realizei no âmbito da Universidad de Antioquia. Na ocasião, tive como principal objetivo a investigação de fontes para o trabalho que, posteriormente, resultaria em meu primeiro livro lançado em 2014, intitulado El Dorado: efeitos do profissionalismo no futebol colombiano (1948-1951)”. A grande coincidência ficou por parte do título do Millonarios no torneio finalización do Campeonato Colombiano de 2012, considerando que era também el Ballet Azul a principal equipe do período em que pesquisei nos anos El Dorado do futebol colombiano, quando o clube contava em seu elenco com craques do quilate dos argentinos Alfredo Di Stéfano, Adolfo Pedernera e Néstor Rossi.

Pude vivenciar de perto a conquista de um título colombiano da equipe depois de vinte e quatro anos. E além da ansiedade pela conquista, notória em grande parte de seus torcedores no decorrer do percurso, uma questão me chamou a atenção: a possibilidade de anulação das taças de 1987 e 1988, dividiu muito os próprios torcedores do Millonarios. Uma boa parte da hinchada azul se colocou como favorável a essa anulação, para assim se desvincularem dessa “mancha” na história do clube. Por outro lado, também tiveram muitos torcedores que se posicionaram como contrários à anulação, pois entendiam que o Millonarios foi, assim como outros clubes colombianos do período, fruto de uma influência muito mais ampla do narcotráfico no âmbito social, político e econômico daquele contexto, presente em toda a Colômbia.

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Equipe do Millonarios campeão colombiano em 2012. Foto: https://especiales.semana.com/especiales/millonarios-campeon/index.html

É válido destacar, como demonstrado nos textos anteriores aqui já citados (Parte I e Parte II), que de fato a influência do narcotráfico foi muito além da equipe do Millonarios e, de forma mais geral, do futebol colombiano. Esteve presente na maior parte dos setores da sociedade colombiana entre os anos 1970 e 1990, com foco maior na década de 1980.

Porém, clube gigante que é e que já possuía uma grande história anterior a esse período, como nos tempos do El Dorado do futebol colombiano (tema que já abordei em vários outros trabalhos, tendo resultado em dois livros: o já citado “El Dorado” e “A invenção do profissionalismo no futebol”), o Millonarios sobreviveu ao período de influência do narcotráfico e foi muito além do título de 2012. Desde então, a equipe já conquistou o maior título nacional do país em outra oportunidade, no ano de 2017, além de ter ganho a Copa Colombia em 2011, a Superliga da Colombia em 2018 e títulos internacionais, como a Copa Merconorte, em 2001. O narcotráfico deixou marcas, mas o futebol colombiano seguiu e continuará seguindo em frente.

 

Referências Bibliográficas

GOMES, Eduardo de Souza. Futebol e narcotráfico: uma releitura do caso de Pablo Escobar na Colômbia. Blog História(s) do Sport. 2016. Disponível em: <https://historiadoesporte.wordpress.com/2016/08/22/futebol-e-narcotrafico-uma-releitura-do-caso-de-pablo-escobar-na-colombia/>. Acesso em 17 de agosto de 2020.

_______. Futebol e narcotráfico II: uma breve análise da influência do cartel de Cali no futebol do América. Blog História(s) do Sport. 2017. Disponível em: <https://historiadoesporte.wordpress.com/2017/01/23/futebol-e-narcotrafico-ii-uma-breve-analise-da-influencia-do-cartel-de-cali-no-futebol-do-america/>. Acesso em 17 de agosto de 2020.

GONZALO RODRÍGUEZ GACHA, ‘El Mexicano’: esse fantasma que pasó por Millonarios. Gol Carocol TV. 20 de maio de 2013. Disponível em: <https://gol.caracoltv.com/informacion-general/gonzalo-rodriguez-gacha-el-mexicano-ese-fantasma-que-paso-por-millonarios>. Acesso em 14 de agosto de 2020.

PEREIRA, Ivan Alves. História do futebol colombiano: a Era dos Narcos. Doentes por Futebol. 2015. Disponível em: <https://doentesporfutebol.com.br/2015/09/historia-do-futebol-colombiano-a-era-dos-narcos/>. Acesso em 14 de agosto de 2020.

RAMÍREZ, Alberto Galvis. 100 años de fútbol en Colombia. Bogotá: Planeta, 2008.

RUIZ BONILLA, Guillermo. La gran historia del fútbol profesional colombiano: 60 años de logros, hazañas y grandes hombres. Bogotá: Ed. DAYSCRIPT, 2008.

 


Os primórdios do automobilismo fluminense: o caso da Corrida de São Gonçalo

16/03/2020

Por Eduardo Gomes  

eduardogomes.historia@gmail.com

Os últimos dias estão sendo difíceis no Brasil e no mundo, devido as ameaças globais da pandemia gerada pelo Coronavírus (Covid-19). Nesse cenário, peço licença para hoje escrever sobre um acontecimento que marcou os primórdios do campo esportivo fluminense no início do século XX, naquela que foi considerada a primeira corrida automobilística ocorrida no estado do Rio de Janeiro. Se hoje diversos eventos esportivos mundo a fora, estão sendo cancelados devido as ameaças do vírus, em 1909 a corrida aqui retratada foi um marco na região. Historicamente, tal fenômeno ficou conhecido como a “Corrida de São Gonçalo”, por ter ocorrido no munícipio homônimo que fica na região metropolitana da cidade do Rio de Janeiro que, naquela época, se tratava do Distrito Federal do Brasil.

Os automóveis chegaram ao Brasil na transição do século XIX para o XX. Mas quando o automobilismo se consolidou enquanto uma prática esportiva? Quando e onde ocorreu a primeira corrida do país? Quais cidades foram percussoras no desenvolvimento dessa prática esportiva em terras brasileiras?

É normal, ao realizar tais questionamentos, que os nomes das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, apareçam no imaginário relacionado aos primórdios de tal prática. Afinal, foram nessas duas cidades que o uso de automóveis começou a se disseminar com maior força pelo país. A chegada do Peugeot do “pai da aviação” Santos Dumont, que chegou no Porto de Santos em 1891; e do Serpolet de José do Patrocínio, desembarcado no Rio de Janeiro em 1895, explicitam o pioneirismo das duas localidades (MELO; PERES, 2016, p. 102).

No geral, o automobilismo enquanto esporte se desenvolveu com mais força no decorrer do século XX, apesar de já ter uma considerável importância na parte final do século XIX. As competições pioneiras da modalidade foram realizadas na Europa, ainda na década de 1890. E querendo inserir o Brasil nesse cenário de modernidade, essa “moda da velocidade” também chegou em terras tupiniquins.

Em 1908, ocorreu a primeira grande aventura com automóveis no país, com um percurso longo que ia do Rio de Janeiro até São Paulo. O francês Conde Lesdain o percorreu por completo pilotando um Brasier, modelo muito requisitado na época. Depois de 35 dias, conseguiu completar o trajeto. Para os espectadores daquele contexto, esse foi um grande marco para o desenvolvimento de corridas e para o avanço do uso de automóveis no país.

A primeira corrida organizada no Brasil, teve também São Paulo como espaço pioneiro. Trata-se do Circuito de Itapecerica, que ocorreu com a tutela do Automóvel Clube de São Paulo, criado em 1908. Itapecerica da Serra é um município da região metropolitana de São Paulo. Em mais de 70 quilômetros de percurso, seus competidores foram da cidade de São Paulo, de onde partiram do Parque Antártica, até Itapecerica da Serra, para então regressarem ao ponto inicial. Essa organização fez com que esse circuito ganhasse destaque como sendo a primeira grande prova “oficial” do automobilismo na história brasileira.

Na cidade do Rio de Janeiro, desde 1907, já havia sido criado o Automóvel Clube do Brasil, onde se iniciaram debates para, também, realizarem um circuito de corrida similar ao que ocorreu em São Paulo. Inicialmente, a proposta era de realizar o percurso dentro da própria cidade do Rio de Janeiro. Porém, uma série de fatos fizeram com que essa ideia fosse inviabilizada e o percurso da primeira corrida pensada na capital federal, foi transferido para uma cidade vizinha, a “novata” São Gonçalo, que em 22 de setembro de 1890 havia se emancipado de Niterói, então capital da província do Rio de Janeiro.

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A imagem em questão foi publicada no periódico Careta, na edição de 25 de novembro de 1909, representando parte do circuito da “Corrida de São Gonçalo”. Também pode ser encontrada na obra “Primórdios do esporte no Brasil: Rio de Janeiro” (2016, p. 107), escrita por Victor Andrade de Melo e Fabio de Faria Peres.

O interesse dos organizadores era, inicialmente, o de realizar a corrida no Alto da Boa Vista. Porém, tal hipótese foi logo descartada. Após as autoridades municipais, durante o governo do então prefeito Souza Aguiar no Rio de Janeiro, proibirem as corridas na localidade, os idealizadores da prova enxergaram na cidade de São Gonçalo uma fértil opção para realizarem o grande evento (MELO; PERES, 2016, p. 106).

A escolha de São Gonçalo como sede da primeira corrida em terras fluminenses, se deu por distintos motivos. Além da geografia favorável, ainda marcada por características bem mais rurais do que as vizinhas Rio de Janeiro e Niterói, o desenvolvimento industrial ocorrido na virada do século XIX para o XX, fez com que a cidade pudesse ser entendida como um espaço propício para a simbólica corrida, considerando o cenário de modernidade em que buscavam enquadrar tal evento.

A região de Neves, por exemplo, formava com outras adjacentes, como o bairro do Barreto em Niterói, o espaço que ficou conhecido no imaginário social como “Manchester Fluminense”. Notadamente, esse termo foi utilizado para representar a grande estrutura industrial e fabril desenvolvida naquele território, fazendo referência a cidade britânica famosa mundialmente por seu polo industrial. É óbvio que tais discursos possuem um teor ufanista e que, muitas das vezes, exacerbam a própria realidade local (REZNIK, 2002, p. 2).  Todavia, foi esse imaginário construído, a partir do avanço industrial ocorrido em Neves, que fez com que a região fosse cogitada como um espaço propício para a realização da corrida.

Sendo ou não a “Manchester Fluminense”, a relação que a região tinha naquele período com um determinado padrão de modernidade e tecnologia, ligados a questão das industriais, fez com que São Gonçalo pudesse se tornar o centro daquela que ficou conhecida como a “primeira corrida de automóveis em terras fluminenses”. De forma equivocada, alguns periódicos e escritores memorialistas da época, inclusive, diziam ser essa a “primeira corrida de automóveis do Brasil”, ignorando o já aqui citado Circuito de Itapecerica, ocorrido no ano anterior em São Paulo. O fato é que, sendo a primeira ou segunda corrida em âmbito nacional, o circuito gonçalense mexeu com o imaginário e referendou fortes identidades na cidade e regiões adjacentes, em um cenário ainda fértil e propício para a construção de diferentes símbolos locais que, em muitas situações, se tornavam nacionais.

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Imagem publicada no periódico Careta, Ed. 69, p. 13. Rio de Janeiro, 25 de setembro de 1909. Fonte: “Primórdios do esporte no Brasil: Rio de Janeiro” (2016, p. 105), livro escrito por Victor Andrade de Melo e Fabio de Faria Peres.

O percurso da corrida foi ousado. Totalizando 72 km, o trajeto vencido por Gastão de Almeida se iniciou no bairro industrial de Neves, mas percorreu quase toda a cidade, tendo seus competidores passado pelas regiões do Alcântara, Pacheco, Sacramento, Monjolos, Laranjal, entre outras. Percorreram, inclusive, a Estrado do Engenho Novo, passando pela famosa “Fazenda do Engenho Novo”. (1)

 “Mesmo sendo realizada em local distante, a corrida contou com bom público e teve grande repercussão, graças à ampla cobertura da imprensa. (2) Foi uma expressão de como o automóvel vivia um primeiro momento de popularidade na cidade, já assumindo uma função simbólica notável. As competições exponenciavam essa representação, deixando ainda mais claras as noções de desafio, aventura e velocidade” (MELO; PERES, 2016, p. 107).

O imaginário identitário acerca da memória dessa corrida, permanece no município até os dias atuais. Uma constatação do mantimento de tal memória, foi a inauguração de um monumento em 2009, no próprio bairro de Neves, que faz menção ao centenário da referida corrida, tendo sido essa a principal forma de reviver esse evento tão marcante na história da cidade, que ficou conhecida como o “berço do automobilismo fluminense”.

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Monumento que faz referência ao centenário da Corrida de São Gonçalo (1909-2009). Neves, São Gonçalo/RJ Fonte: https://simsaogoncalo.com.br/sao-goncalo/voce-sabia-que-2a-corrida-oficial-de-automoveis-do-brasil-foi-em-sao-goncalo/

PS: A base deste texto foi publicada originalmente em 24/11/2018, nas páginas do projeto “História Fluminense: Patrimônio, Memória e Educação”: http://historiafluminense.org/2018/11/25/a-corrida-de-sao-goncalo-primordios-do-automobilismo-brasileiro-em-terras-fluminenses-1-2/ e https://www.facebook.com/historiafluminense/photos/pb.351048125067306.-2207520000../1017792331726212/?type=3&theater

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NOTAS:

 (1) “O antigo Engenho do Novo Retiro pertenceu a diversos donos até 1830, quando foi adquirido por Belarmino Ricardo de Siqueira – Barão de São Gonçalo.

A Fazenda possui um conjunto arquitetônico em estilo neoclássico. Foi um dos principais trajetos da 2ª corrida automobilística do Brasil em 1909 e também serviu de cenário para as gravações da minissérie “Memorial de Maria Moura”, produzida pela Rede Globo.

Há lendas de que a fazenda foi palco de uma visita da Família Imperial, por volta de 1870, devido à amizade do Barão com o Imperador D. Pedro II.  O conjunto abandonado à própria sorte, não resistiu ao descaso e ruiu no início dos anos 2000.”

Maiores informações, ver: http://saogoncaloturismo.com.br/project/fazenda-engenho-novo/ Acesso em 15 de março de 2020.

(2) É interessante perceber a mobilização social que a corrida provocou, tendo aglomerado grande público, inclusive de mulheres, que nesse contexto ainda não se inseriam nas práticas esportivas como participantes, mas faziam parte dos eventos e das formas de sociabilidade provocadas por esses, na posição de espectadoras.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MELO, Victor Andrade de; PERES, Fabio de Faria. Primórdios do esporte no Brasil: Rio de Janeiro. Manaus: Reggo Edições, 2016.

REZNIK, Luís. Qual o lugar da História Local? In: V Taller Internacinal de Historia Regional y Local. Havana – Cuba, 2002.

 

 

 


O FUTEBOL NOS JOGOS BOLIVARIANOS DE 1938 II: A IMPORTÁNCIA DOS ESTÁDIOS EL CAMPÍN E CIDADE UNIVERSITÁRIA EM BOGOTÁ

14/10/2019

Por Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

No  meu último post aqui publicado em 14 de maio de 2019, abordei a presença do futebol nos Jogos Bolivarianos de 1938, evento poliesportivo ocorrido em Bogotá no âmbito dos festejos do IV centenário da capital colombiana e que contou com a participação de diferentes nações ligadas por questões identitárias com a imagem de Simón Bolívar, que foram Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Venezuela.

Tratei, também, sobre como esse evento foi importante para a consolidação dos primórdios da seleção colombiana de futebol, considerando que foi nesse ano de 1938 que se iniciou a formação de um selecionado entendido como nacional no país, dentro dessa modalidade esportiva.

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Estádio Alfonso López pumarejo, da Cidade Universitária, na inauguração dos Jogos Bolivarianos de 1938. Fonte: Universidad EAFIT (https://www.wikiwand.com/en/1938_Bolivarian_Games)

Ainda nesse último post, destaquei a importância da construção de dois estádios para a efetivação não só da competição de futebol, como de todas as disputas ocorridas na agenda esportiva no âmbito dos Jogos Bolivarianos de 1938. São esses o Estádio Alfonso López Pumarejo (Estádio da Cidade Universitária), localizado na Cidade Universitária da Universidad Nacional de Colômbia – Sede Bogotá; e do Estádio Nemesio Camacho (El Campín), uma das maiores e mais conhecidas sedes esportiva do país até a atualidade.

As motivações para a efetivação da construção daquelas que se tornariam as duas principais praças esportivas da capital, se deu por distintas questões. Dentre os interesses envolvidos e motivações oriundas da construção dos dois estádios, David Quitián destaca que

En esa ocasión, se decía lo siguiente: Frente al deporte, baste dar algunas indicaciones: […] la construcción del estadio de la Universidad Nacional (parte de um complejo proyecto polideportivo) obedeció a la idea inglesa, perfeccionada por la tradición norteamericana, de un campus donde la energía de la juventud se canalizara en la combinación de estúdio y agonismo sublimado por el deporte, que de hecho es la base em todos los campus en esos países […]. Por el contrario nada menos que Jorge Eliécer Gaitán, con su visión populista y como alcalde de Bogotá, decidió la controversia por el rumbo del deporte al insistir, contra la idea del gobierno, en poner un polo popular alternativo al deporte de la capital, con la creación del estadio Nemesio Camacho, más conocido como El Campín. Fue una decisión de encrucijada. (QUITIÁN, 2009, p. 3)

O governo do presidente Alfonso López Pumarejo (1934-1938), marcado por “La Revolución en Marcha”, construiu caminhos que relacionavam o esporte com o desenvolvimento político e econômico do país. Foi em seu âmbito que se consolidaram, também, os projetos de construção dos dois estádios aqui referendados.

Tentando vincular Bogotá aos ideais inerentes à modernidade, que passavam por um determinado aparato acadêmico e científico, buscou-se assim estabelecer um parâmetro diplomático onde a capital do país fosse vista como um modelo em distintos quesitos:  “López creía que Bogotá debía vincularse estrechamente a la vida de la universidad y opinaba que mantener el estadio dentro de esta última era un buen pretexto para lograrlo” (ACOSTA, 2013, p. 56). Não à toa, foi nesse cenário que o governo comprou os prédios e espaços necessários, então pertencentes a José Joaquim Vargas, para a construção da Cidade Universitária da Universidad Nacional em Bogotá, local onde também seria construído o estádio universitário, que posteriormente foi nomeado com o nome do presidente.

Em 1936 se deu início às obras de urbanização em Bogotá que visavam adequar os espaços universitários na cidade, tendo o Instituto Nacional de Educação Física iniciado no ano seguinte. A planta integrava dois estádios: um para o futebol e outro para o atletismo que, com o tempo, acabaram sendo fundidos em um único projeto, até pela questão da viabilidade econômica. Inclusive, um espaço para a construção de um campo de beisebol, esporte que se consolidou com mais força no caribe do país, havia sido pensado a priori. As obras do estádio Alfonso López Pumarejo se iniciaram em setembro de 1937, tendo sido finalizadas e liberado o estádio para as competições em junho de 1938.

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Estádio Alfonso López Pumarejo na atualidade, localizado na Cidade Universitária da Universidad Nacional de Colombia em Bogotá. Fonte: https://www.eltiempo.com/colombia/otras-ciudades/historia-del-estadio-alfonso-lopez-de-la-universidad-nacional-385994

No caso de El Campín, é importante destacar que o projeto para a construção de um “Estádio Nacional”, é anterior ao de consolidação dos Jogos Bolivarianos enquanto evento festivo no país. Já era previsto na Ley 12 de 1934, que tinha como objetivo a reorganização do Ministério de Educação da Colômbia, dialogando com a Ley 80 que versava sobre a institucionalização da Educação Física e dos esportes no país, que se construísse um estádio de grande porte na Colômbia.

No mesmo ano, em 17 de novembro, um comunicado foi enviado ao então prefeito de Bogotá, Junior Pardo Dávila, onde foi solicitado pela CNEF que “a la Junta Pro Centenario de la ciudad que incluya en los proyectos de obras urbanas el de un Estadiúm (sic) o plaza de deportes, con un presupuesto mínimo de $400.000 (cuatrocientos mil pesos)” (ACOSTA, 2013, p. 53).

Em 1935, foi criada uma junta destinada a desenvolver o projeto de construção do estádio. De início e com o aval presidencial, se pensou em construir um Estádio que se vinculasse à Universidad Nacional (que depois, seria o Estádio da Cidade Universitária, já aqui citado). Porém, a proposta de construir um estádio universitário não foi bem aceita por todos. Por exemplo, Jorge Gaitán, membro do Partido Liberal e um dos maiores nomes desse campo político, se opôs à parte desse olhar então definido por López Pumarejo. Entendia que o estádio deveria ir “além do mundo acadêmico”, sendo assim também “destinado ao povo”.

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Estádio El Campín sendo construído na década de 1930. Fonte: http://www.infodeportes.com/futbol/estadio/nemesiocamachoelcampin/historia

Gaitán se esforçou para conseguir 350 mil pesos em agosto de 1936, visando a construção do estádio. A partir do Decreto de número 268, ficou destinada tal verba para a construção do “estádio nacional”, tendo os atrasos em sua obra gerado manifestações nas ruas de Bogotá. O estádio acabou sendo inaugurado, tal como o da Cidade Universitária, no âmbito dos Jogos Bolivarianos de 1938.

Tais jogos foram, então, centrais na celebração organizada para se festejar o aniversário da capital do país. Foi, no caso do desenvolvimento das práticas esportivas, a “cereja do bolo” de um processo que vinha se desenhando já nas décadas anteriores, a partir da reconfiguração da cidade. E com a nova concepção política a partir da entrada do governo liberal, o esporte incorporava as características centrais do “homem moderno”: “fomentaba la higiene, la salud, la educación, el entretenimiento “sano”, la mejor forma de combatir una vida sedentária y el mejoramiento de la “raza” y su beleza”.(ACOSTA, 2013, p. 58).

Já na inauguração dos jogos, o Estádio da Cidade Universitária recebeu um grande público, digno de grandes eventos mundiais, não só no esporte, mas também como em festas cívicas ou diplomáticas. Importante como marco e pontapé inicial dos jogos, o estádio se caracterizou como um dos pontos altos do evento organizado na Colômbia, tendo logo em sua primeira aparição alcançado um público de mais de vinte mil pessoas. Como é destacado no calor do momento pelo periódico bogotano El Siglo,

Mas de 20.000 personas asistieron al Estadio de la Ciudad Universitaria para presenciar la inauguración de los Juegos. […] En forma solemne se inauguraron en la tarde de ayer los Juegos Deportivos Bolivarianos en el espacioso estadio universitario. Más de seiscientos deportistas que intervendrán en las competências bolivarianas, desfilaron frente a la tribuna presidencial – El Doctor Alfonso López declaró solemnemente inaugurados los juegos – La presentación en el estádio de las delegaciones  deportivas – El emocionante acto de suelta de las palomas que salieron em dirección a los países bolivarianos, anunciando la apertura de los juegos – Las ceremonias protocolarias efectuadas – El despliegue de las banderas, a los acordes de los himnos de los países particulares.(El Siglo, 06 de agosto de 1938, p. 9).

As partidas eram sempre muito exaltadas pela imprensa, que também destacava a beleza dos estádios e a importância desses para a efetivação dos jogos. Um exemplo foi a partida de futebol da seleção do Peru, que seria a campeã dessa modalidade, com a Colômbia. Tendo inaugurado o certame para os colombianos, alguns periódicos aproveitaram-se do fato de ser esse um dos jogos mais esperados até então, para exaltar parte da organização e estrutura construída pelo país para o evento, como o próprio estádio El Campín.(El Espectador, 08 de agosto de 1938, p. 3). Como vemos nas páginas de El Espectador:

No menos de 50.000 personas concurreran esta mañana a la inauguración del grande estádio municipal <El Campín>, una de las hermosas realizaciones inauguradas em el centenário. […] Después de que las bandas ejecutaron el himno bolivariano, letra de Alfredo Gómez Jaime, se tocó el himno nacional, en el momento de entrada del presidente con su comitiva. Luégo se inició el desfile de Educación Física y la guardia olímpica […]. Fue digna de admiración la organización del tránsito y la que se desplegó para que el público pudiera entrar y salir com comodidad (El Espectador, 15 de agosto de 1938, p. 3).

Assim, fica notório o quanto o público foi importante para se consolidar os interesses, não só diplomáticos, mas também econômicos dos agentes fomentadores do evento. Se na inauguração do Estádio da Cidade Universitária estiveram presentes um número próximo dos 20.000 espectadores, em El Campín, esse número mais do que dobrou, deixando explícito a formação de um “mercado ao redor” do evento esportivo que se desenvolvia, característica essa importante para a consolidação do campo esportivo colombiano.

Portanto, torna-se possível perceber, com os exemplos aqui explicitados na cidade de Bogotá, que são os estádios El Campín e Cidade Univeristária, o quanto a efetivação de espaços apropriados se fazem importantes para a construção de um público no futebol (e, de forma mais ampla, no esporte), contribuindo assim para a expansão e difusão de tais práticas no âmbito simbólico, cultural e identitário de uma determinada sociedade.

Referências Bibliográficas

ACOSTA, Andrés. Elementos sociohistóricos intervinientes en la construcción de los estadios Alfonso López e El Campín para los primeros Juegos Bolivarianos: Bogotá, 1938. Revista Colombiana de Sociologia, Bogotá, v. 36, n. 01, p. 43-62, jan-jun 2013.

QUITIÁN ROLDÁN, David. Gaitán, el fútbol y la Universidad Nacional. En Asciende, Memorias Cátedra Jorge Eliécer Gaitán. Sociología 50 años. Clase 9. Universidad Nacional, Bogotá, 2009, p. 2-15.

 


O FUTEBOL NOS JOGOS BOLIVARIANOS DE 1938: PRIMÓRDIOS DA SELEÇÃO COLOMBIANA

14/05/2019

Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

A seleção colombiana de futebol masculino tem recebido destaque da mídia internacional nos últimos anos. Com boas campanhas nas últimas duas Copas do Mundo, tal como jogadores de renome mundial (como James Rodríguez e Falcão Garcia), os colombianos vivenciam nessa década um dos melhores momentos enquanto torcedores do selecionado nacional.

 

Antes do cenário atual, a geração mais vitoriosa da seleção colombiana foi a dos anos 1990, com nomes como Valderrama, Higuita, Rincón, Andrés Escobar, Asprilla, Aristizabal, entre outros. Boa parte desses atletas começaram a se destacar ainda na década de 1980 (quando pela primeira vez um clube do país venceu a Libertadores da América, com o Atlético Nacional em 1989), tendo a Colômbia engatado pela primeira vez a disputa de três Copas do Mundo seguidas (1990, 1994 e 1998), além de uma emblemática goleada contra a Argentina em 1993 por 5×0, em pleno Monumental de Nuñez. Esse ciclo foi encerrado com o título da Copa América em 2001, jogando em casa, sendo essa a única conquista do país em competições oficiais de futebol masculino até hoje.

 

Mas, antes do auge vivenciado na atualidade e nos anos 1990, se faz possível perguntar: quando se iniciou o percurso da seleção colombiana de futebol masculino? Nesse post de hoje, abordarei algumas questões relacionadas a essa temática, notadamente acerca da presença do futebol nos Jogos Bolivarianos de 1938, que foi uma das primeiras competições oficiais onde a Colômbia enviou uma equipe de futebol.

Historicamente, o país só veio a formar um selecionado nacional que fosse entendido como “oficial” no início de 1938. Sua primeira partida ocorreu em fevereiro desse mesmo ano, no âmbito dos Jogos Centro-Americanos e do Caribe, um dos eventos que serviram como modelo para a construção dos primeiros Jogos Bolivarianos, inaugurados em agosto na cidade de Bogotá.

No Sul-Americano de seleções (atual Copa América), a Colômbia só viria a fazer sua estreia em 1945, sendo a penúltima das dez seleções atualmente filiadas à Conmebol a iniciarem sua participação na competição continental mais importante da América do Sul (a última, foi a seleção da Venezuela, que estreou no Sul-Americano apenas em 1967, oito anos antes da mudança de nome da competição, que desde então passou a ser conhecida como Copa América).

Esse cenário só explicita o quanto o futebol do país na década de 1930 se encontrava em um contexto ainda incipiente no âmbito internacional, tendo essa situação se modificado paulatinamente apenas após seu processo de profissionalização, iniciado em 1948.

A partir de 1936, além da Conmebol, o país passou a ser filiado também à FIFA. Isso possibilitou a idealização e consequente formação de uma equipe. A estreia do selecionado de futebol colombiano se deu em 10 de fevereiro de 1938, em uma derrota por 3×1 para o México, no âmbito dos já citados Jogos Centro-americanos e do Caribe. Mesmo com a derrota, essa partida marcou o início da trajetória do país no futebol de seleções.

No âmbito dos Jogos Bolivarianos de 1938 em Bogotá, e tendo como fontes alguns periódicos do período, é válido ressaltar que já no final de julho desse mesmo ano, se faz possível encontrar algumas referências à competição de futebol que viria a ocorrer no âmbito desse evento, sendo destacado inclusive o sorteio que formou posteriormente os confrontos do certame:

Com a assistência de todos os capitães das equipes de futebol que participarão dos Jogos Bolivarianos, se celebrará na segunda-feira às três da tarde uma importante reunião, durante a qual se farão os sorteios para a ordem dos eventos em questão.

A essa reunião assistirão, ademais, o árbitro mexicano contratado pelo governo nacional, senhor Esteban Tejada, o presidente da Liga de Fútbol de Cundinamarca e o presidente do Comitê Olímpico Nacional.

Este sorteio tem grande importância, pois dele sairá o programa definitivo dos encontros de futebol com a ordem em que haverão de participar as diversas equipes (El Espectador, 30 de julho de 1938, p. 6, tradução nossa.).

A partida que inaugurou o evento de futebol no âmbito dos jogos, foi um jogo entre Colômbia e Peru. Tendo os dois países passado por um conflito bélico entre 1932-34, por disputas de fronteira, mas que desde a Olimpíada de 1936 em Berlim haviam sinalizado uma reaproximação diplomática, tal jogo inicial se explicitou como emblemático para inaugurar o evento. A grande recepção recebida pela delegação peruana, deu o tom diplomático que a partida se inseriu. Todavia, algumas confusões marcaram a realização do jogo até que o mesmo ocorresse.

Marcado inicialmente para ocorrer em 08 de agosto de 1938, a partida inaugural do torneio de futebol movimentou opiniões na imprensa e na sociedade como um todo. Em El Espectador, foi destacado que “todos os amantes do futebol bogotano estão hoje pendentes do encontro entre Colombia x Peru, que terá lugar […] no campo da Ciudad Unviersitaria, e com o qual se iniciará o torneio desse esporte nos Jogos Bolivarianos.” (El Espectador, 02 de agosto de 1938, p. 5, tradução nossa.).

As apostas para a partida eram que o Peru saísse vencedor. Até mesmo entre os dirigentes colombianos, era apontado o Peru não só como favorito desse jogo, mas de todo o torneio de futebol, por ser a seleção mais antiga e desenvolvida dentre todas as que participariam do evento. Todavia, o que é importante notar, para além dos comentários acerca dos possíveis placares, são os discursos diplomáticos, presentes nas falas de alguns dos dirigentes mais importantes na organização dos Jogos Bolivarianos. O Coronel Leopoldo Piedrahita, organizador dos jogos, e Alfredo Gómez Vanegas, subdiretor de todo o evento, abordaram a partida desta maneira, respectivamente:

Coronel Leopoldo Piedrahita, diretor dos Jogos Bolivarianos:

Vamos ver jogar um bom futebol. Serão adversários nobres, e a satisfação do triunfo se repartirá entre vencedores e vencidos. Como colombiano e como diretor geral dos Jogos Bolivarianos, tenho plena segurança de que nossos compatriotas aclamarão constantemente aos próprios e a nossos galhardos irmãos.

Alfredo Gómez Vanegas, subdiretor dos Jogos Bolivarianos:

Ao menos podem abrir os jogos com um “prato forte” – falando em um jargão futebolístico -, que saberá despertar a afeição pelos jogos. O triunfo se repartirá por igual. O comitê organizador dos jogos espera ver demonstrada a tradicional cultural bogotana, nessa partida da próxima segunda-feira (El Espectador, 02 de agosto de 1938, p. 5, tradução nossa.).

Os olhares para a realização dessa partida, foram muitos. E, também, foram abordados pela imprensa peruana e seus dirigentes. Como exemplo, destaca-se abaixo a fala de Alfredo Hohaguen Díez Canseco, presidente da embaixada peruana nos jogos. Mesmo sendo de conhecimento de todos que a seleção peruana era entendida como superior à colombiana, Díez Canseco não deixou de adotar um tom diplomático em seu discurso e aposta sobre a partida:

Pelas referências que tenho, sei que os colombianos estão em magníficas condições. Os jogadores de meu país não puderam se adaptar, todavia, a altura de Bogotá, porém considero daqui até segunda-feira há tempo suficiente. É natural que os jogadores do Peru sejam superiores aos colombianos, e podem ganhar, porém asseguro que de nenhuma maneira será um triunfo por um score muito alto (El Espectador, 02 de agosto de 1938, p. 5, tradução nossa).

Os interesses mercadológicos na construção do espetáculo dos Jogos Bolivarianos, se fizeram notados quando foi debatida a possibilidade de modificar a data da partida entre Colômbia e Peru. Inicialmente agendada para o dia 08 de julho de 1938, às 10 horas da manhã, “várias empresas bancárias e particulares” (El Espectador, 03 de agosto de 1938, p. 3, tradução nossa) elaboraram uma petição para alterar o jogo para um dia antes, o domingo, sugerindo que fosse realizado ao meio-dia. Assim, se tornaria possível abarcar um número maior de espectadores e, naturalmente, também de consumidores.

Por fim, as forças do mercado prevaleceram, tendo o espetáculo inaugural do futebol nos jogos se iniciado no domingo, 07 de agosto de 1938. O resultado final da partida foi o esperado: vitória do Peru, com placar final de 4×2 (El Espectador, 08 de agosto de 1938, p. 3.). Todavia, como forma de destacar o emocionante confronto, algumas confusões ocorreram na partida e geraram não só a expulsão de atletas em campo como a invasão do mesmo por torcedores, quebrando um pouco do “olhar diplomático” proposto por todos antes do certame:

Quando <El Sapo> Mejía avançava com a bola, até a porteira peruana, Jorge Alcalde o interrompeu e agarrou o colombiano pela blusa, o fazendo rodar. Mejía se levantou e ambos trocaram alguns golpes, que provocaram que grande quantidade de público invadisse o campo, fazendo notórios protestos. O campo foi desocupado e os jogadores expulsos, e quando, todavia, se debatia o incidente, se abriu de novo o jogo. Instantes depois os espectadores lançaram estrondosos gritos (El Espectador, 08 de agosto de 1938, p. 3, tradução nossa)

A primeira vitória colombiana na competição, em uma vitória por 2×0 sobre a seleção da Venezuela em 12 de agosto de 1938, foi muito festejada (El Espectador, 13 de agosto de 1938, p. 1 e 6.) A postura de seu povo, incorporado na pele dos torcedores, tal como os discursos da pátria em seus grandes “palcos”, foram sempre exaltados.

Após a partida inaugural contra o Peru e a vitória contra a Venezuela, curiosamente, os jogos de futebol foram menos noticiados no âmbito da imprensa que cobriu o torneio nos Jogos Bolivarianos. Todavia, a cobertura sobre os palcos em que os jogos ocorriam, que eram os recém-criados estádios Ciudad Universitaria e El Campín, continuavam sendo pautas importantes da imprensa colombiana. Mas esse, é tema para outro post….

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Estádio Nemesio Chamacho, “El Campin”, de Bogotá, inaugurado em 1938 no âmbito dos primeiros Jogos Bolivarianos. http://www.conmebol.com/pt-br/content/ha-75-anos-el-campin-de-bogota-e-local-de-tradicao-da-identidade-colombiana


Pebolim, Totó, Fla-Flu ou Pacau? um breve histórico do campo esportivo no Brasil

11/12/2018

Por Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

Pebolim, Totó, Fla-Flu ou Pacau? As variações culturais existentes em cada região deixam dúvidas acerca do nome correto a ser utilizado quando nos referimos ao “Table Soccer” em terras brasileiras, modalidade de futebol de mesa muito difundida por todo o mundo desde o século XX (não confundir com o futebol de botão, outra modalidade esportiva que também é conhecida no Brasil como futebol de mesa).

Oficialmente, o nome utilizado no Brasil para designar esse esporte é o “pebolim”,[1] o que não impede que em determinadas localidades seus praticantes, profissionais ou não, o chamem de “Totó” (no Rio de Janeiro e parte do Nordeste), Fla-Flu (no Rio Grande do Sul) ou até mesmo Pacau (em Santa Catarina). Além disso, em diferentes países, a nomenclatura também se modifica: Matraquilhos em Portugal; Futbolín na Espanha; Metegol na Argentina; Foosball nos EUA; Baby-foot na França e Tischfussball na Alemanha.

Como forma de facilitar o entendimento, e sem desconsiderar as variações regionais existentes, utilizarei o nome “pebolim” na sequência do texto, por entender ser essa a nomenclatura oficial utilizada pela federação que gere o esporte no país. Entretanto, vale a pena pensarmos:  quando e onde essa prática, tão popular em bares, clubes e escolas de todo o mundo, surgiu e se difundiu?

As origens do pebolim são confusas e indefinidas. Ainda carecendo de maiores pesquisas sérias, muitas são as versões apontadas como referências acerca dos “primórdios do pebolim no mundo”. As versões mais “badaladas” sobre o início da modalidade, são as que apontam a Espanha como palco inicial. Todavia, os alemães também reivindicam o pioneirismo no desenvolvimento desse esporte.

Os espanhóis defendem, segundo André Martins Gonçalves (2017), a hipótese de que o pebolim teria sido inventado no calor do momento da Guerra Civil Espanhola, quando

Alexandre de Fisterra, o responsável, teria criado o jogo para que crianças feridas, impossibilitadas de jogar futebol assim como ele, pudessem praticar uma variação do esporte. Segundo essa versão, o galego teria patenteado a invenção em 1937, mas perdeu os papéis da patente (GONÇALVES, 2017).

Na Alemanha, a hipótese defendida é a de que, já em 1930, o esporte era praticado no país. Divergências de versões a parte, o que se sabe concretamente é que apenas em 2002 foi criada uma federação internacional para gerir a modalidade: a International Table Soccer Federation (ITSF). Desde então, é essa a entidade representativa do pebolim em todo o mundo, sendo a organizadora das Copas do Mundo e demais campeonatos mundiais.

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Partida da Copa do Mundo de Pebolim 2011, realizada em Nantes – França. https://esporte.ig.com.br/maisesportes/eua-e-austria-conquistam-a-copa-do-mundo-de-pebolim/n1237934732922.html

No Brasil, a modalidade chegou nos anos 1950, período marcado pelo nacional-desenvolvimentismo e pelo aumento das trocas culturais no país, notadamente no que se diz respeito a consolidação de um mercado. A chegada de distintas manifestações fez com que esse esporte se popularizasse em bares, clubes e escolas, porém ainda com base nas mesas não profissionais. Mas qual a diferença entre as mesas profissionais e as não profissionais?

As mesas profissionais se diferenciam pelo material do boneco, pela precisão na realização de chutes e passes, tal como na formação dos “jogadores”. Enquanto nas mesas não profissionais, popularmente chamadas no Brasil de “mesas canoas”, a formação dos bonecos de linha é, normalmente, a 3-4-3, na mesa profissional se utiliza a formação 2-5-3, valorizando assim o número de bonecos no meio de campo do jogo. Vários são também os modelos de mesas profissionais, sendo a americana “Tornado” e a alemã “Leonhart” dois dentre os mais conhecidos.

Somente em 2007 que o Brasil passou a ter uma federação que busca difundir o esporte com mesas profissionais, a FEBRAPE – Federação Brasileira de Pebolim, inicialmente conhecida como Associação Brasileira de Pebolim. Com sede em São Vicente, região litorânea do estado de São Paulo, desde sua criação a entidade já conseguiu enviar equipes brasileiras para 6 mundiais e 3 Copas do Mundo, principais competições de pebolim que ocorrem pelo mundo. O presidente da federação desde sua fundação, Clayton Fonseca, destaca que buscou no exterior referências para desenvolver o esporte no país: “Trouxemos tudo o que aprendemos para o Brasil e começamos a organizar torneios oficiais a fim de apontar nossos melhores jogadores para representar lá fora”.[2]

Atualmente um dos principais desafios da FEBRAPE é conglomerar jogadores que estejam interessados a jogar o pebolim. Ainda sendo um esporte com um campo incipiente e poucos financiamentos, muitos entendem que esse é um cenário não muito favorável para adentrarem na modalidade profissionalmente, preferindo apenas os jogos amadores nas “mesas de bar”. Portanto, mais do que organizar torneios nacionais e/ou estaduais, aos quais são utilizados para se desenvolver os rankings e formar a equipe nacional que disputa os campeonatos mundiais, a federação tem se preocupado em organizar um grupo de pessoas que esteja, antes de tudo, interessada em simplesmente jogar pebolim:

O Papel e os objetivos da Febrape são atrair jogadores de todo o Brasil, descobrir novos talentos, unir e preparar jogadores que demonstrem potencial e que queiram levar o esporte a sério para competir na Copa do Mundo e nos Mundiais realizados nos EUA e na Europa. […] Estar cada vez mais visível a todos utilizando os meios possíveis para a atração tanto de jogadores já existentes quanto de novos adeptos.

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Delegações brasileiras que disputaram as Copas do Mundo de 2015 e 2011, respectivamente. http://www.febrape.com.br/home

Portanto, esse desafio de ampliar o número de adeptos da modalidade, tem sido o principal foco dos amantes desse esporte pelo país. A partir de redes sociais (como facebook e, principalmente, grupos de whatsapp), a FEBRAPE estabelece um canal de comunicação com todos os interessados em disputar campeonatos profissionais ou, simplesmente, jogarem o pebolim de forma despretensiosa. Esse movimento tem estimulado a formação de grupos em distintos estados, para além das realidades paulista e capixaba, que são, até o momento, as mais avançadas nacionalmente.

Como por exemplo, podemos citar o caso do Rio de Janeiro. Nos últimos anos, vários campeonatos estão sendo realizados a nível estadual na localidade, contando com a participação de competidores de diferentes municípios. Inicialmente organizados por Marcio Belmonte ainda com a “mesa canoa”, ultimamente os competidores do estado estão se aperfeiçoando e disputando suas competições em mesas profissionais, após o contato inicial de dois de seus maiores nomes locais, Luciano Santos e Misael Silva, com as mesas desenvolvidas pela FEBRAPE em São Paulo. Uma das edições dos torneios cariocas, inclusive, ocorreu no âmbito do evento Arnold Classic Brasil 2014, competição de fisiculturismo organizada em homenagem ao astro global Arnold Schwarzenegger, tendo ele presenciado e chancelado o referido certame.

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Torneio de Pebolim/Totó no âmbito do Arnold Classic Brasil 2014, ocorrido no Rio de Janeiro e que contou com a ilustre presença de Arnold Schwarzenegger. http://totorio.com.br/

A partir do incentivo dos atletas Luciano e Misael, já anteriormente citados, em 2018 foi realizado o 1º Torneio Intermunicipal de Totó do Rio de Janeiro, contando com participantes de variados municípios fluminenses (Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, São João de Meriti, Nova Iguaçu, Nilópolis, Nova Friburgo e Guapimirim) e realizado em duas edições (setembro e novembro de 2018), nas categorias individual iniciante, individual livre e duplas.

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Respectivamente, da esquerda para direita: Torneio organizado na sede da FEBRAPE em outubro/2018 e Torneio Intermunicipal do Rio de Janeiro organizado em novembro/2018 em São João de Meriti. Fotos: Misael Silva

Percebe-se, com o avanço de mesas profissionais pelos estados de São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro e outros, um avanço qualitativo no desenvolvimento desportivo dos atletas que disputam a modalidade pelo Brasil. Esse movimento tem incentivado, também, a busca pela criação de federações estaduais que possam, ligadas à FEBRAPE, melhor difundir e organizar campeonatos que conglomerem novos atletas em cada região do país. Clayton Fonseca destaca que a falta de patrocínio, muitas das vezes impede a federação de

viajar o Brasil e levar o aprendizado e crescimento da prática do pebolim como esporte para todos os cantos, como gostaríamos, e de fazer divulgação em mídia para atrair mais adeptos. […] Até hoje, todos os competidores que tiveram a oportunidade de disputar grandes torneios foram com recursos próprios. Devido a isso, não conseguimos enviar nossos melhores jogadores, apenas os que tinham recursos suficientes para arcar com as despesas por si próprios.

Buscar desenvolver o hábito de se jogar o pebolim, tal como fortalecer as competições profissionais em diferentes estados pelo país, é um dos caminhos centrais para o estabelecimento dessa modalidade em terras tupiniquins, consolidando assim jogadores que possam não só disputar os campeonatos mundiais com regularidade, mas também os Jogos Olímpicos, em uma eventual inclusão futura da modalidade nesse certame, fator que já vem sendo cogitado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).

[1] Ver em www.febrape.com.br

[2] Entrevista concedida para o Blog Jornalismo Esportivo da ECA-USP, publicada em 5 de dezembro de 2017.

Referências

GONÇALVES, André Martins. O Esporte que precisa ser tratado como um. In: Blog Jornalismo Esportivo da ECA-USP. 5 de dezembro de 2017. Acesso em 10/12/2018. http://www.usp.br/cje/esportivo/index.php/2017/12/05/o-esporte-que-precisa-ser-tratado-como-um/.

. Site da ITSF: https://www.tablesoccer.org/

. Site da FEBRAPE: http://www.febrape.com.br

. Site Totó Rio: http://totorio.com.br/

. Entrevista com Clayton Fonseca:

http://www.usp.br/cje/esportivo/index.php/2017/12/05/o-esporte-que-precisa-ser-tratado-como-um/

. Capixabas enchem os olhos com “totó” em olimpíada: “Um orgulho imenso”:

https://www.gazetaonline.com.br/esportes/mais_esportes/2017/11/capixabas-enchem-os-olhos-com-toto-em-olimpiada–um-orgulho-imenso-1014106061.html

. EUA e Áustria conquistam a Copa do Mundo de pebolim:

https://esporte.ig.com.br/maisesportes/eua-e-austria-conquistam-a-copa-do-mundo-de-pebolim/n1237934732922.html


A crise do “país do futebol”: uma pequena reflexão

10/07/2018

Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

No post de hoje, aproveitando o momento Copa do Mundo e a recente eliminação da seleção brasileira, peço licença para escrever uma pequena reflexão acerca de alguns discursos e narrativas consolidadas sobre os caminhos atuais e históricos de nosso futebol. É, de fato, mais uma reflexão, baseada em análise de discursos e olhares pessoais, do que um texto acadêmico em si.

Bom, chegamos nas semifinais da Copa do Mundo 2018 na Rússia e, curiosamente, sem nenhum representante sul-americano ainda “vivo” como postulante ao título. Desde 2006 não tínhamos uma semifinal sem a presença de pelo menos um país sul-americano, ano em que Itália e França venceram, respectivamente, Alemanha e Portugal, tendo ambas as seleções depois disputado a final que valeu o título para os italianos e ficou marcada pela cabeçada de Zinedine Zidane no zagueiro Marco Materazzi.

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Zidane é expulso na final da Copa de 2006 após uma cabeçada em Materazzi. Fonte: http://www.espn.com.br/noticia/612206_10-anos-depois-materazzi-revela-o-que-disse-a-zidane-antes-da-cabecada-na-final-da-copa

Antes de 2006, apenas em 1934, 1966 e 1982 (mesmo com o esquadrão brasileiro de Zico e companhia), não tivemos uma seleção sul-americana entre as quatro melhores do torneio mundial. Nas finais, os sul-americanos estiveram presentes em 12 das 21 edições da Copa do Mundo (já contando 2018), tendo sido campeões em nove dessas oportunidades.

Considerando o número de países filiados à sua entidade principal, a Conmebol, é possível inferir que a participação dos países sul-americanos nas Copas do Mundo é, historicamente, muito notável. São apenas dez nações que disputam as eliminatórias para poderem jogar a fase final da Copa do Mundo, o menor número de participantes dentre todas as federações continentais. As eliminatórias na Europa, América Central/Norte, África, Ásia e até mesmo na Oceania, possuem mais países disputando vagas na fase final da Copa do Mundo do que a América do Sul.

É claro que não podemos deixar de destacar a preponderância de três seleções, de forma mais específica, para esse sucesso sul-americano em Copas: Argentina, Brasil e Uruguai. O pentacampeonato dos brasileiros e o bicampeonato de argentinos e uruguaios, elevaram o futebol sul-americano para um outro nível no cenário internacional, batendo de frente com os europeus pela hegemonia nessa modalidade esportiva. Fora essas três seleções, apenas o Chile ficou uma vez entre os quatro primeiros em uma Copa do Mundo, quando foi terceiro colocado jogando em casa em 1962. Colômbia e Paraguai já formaram fortes equipes, mas nunca passaram das quartas de final. O Peru chegou, também com uma grande equipe, ao quadrangular semifinal da Copa de 1978, onde o vencedor garantiria uma vaga na decisão. Mas acabou eliminado como lanterna da chave enfrentando a Polônia e os vizinhos Brasil e Argentina, tendo essa Copa sido marcada pelo famoso e duvidoso jogo do “6×0”, onde os argentinos venceram os peruanos e garantiram, assim, a vaga na final e o consequente título mundial sobre a Holanda.

De toda forma, mesmo com poucas seleções tendo alcançado historicamente o “estrelato”, o futebol sul-americano sempre ficou marcado por discursos e narrativas que o diferenciavam do futebol europeu. A construção social miscigenada do continente (e de forma mais específica em alguns países, como o Brasil), fruto do processo colonizador de dominação europeia e da escravidão por aqui imposta, fez com que diferentes intelectuais, cronistas e veículos de comunicação, tratassem o futebol sul-americano como distinto do “frio” e “tático” futebol europeu, devido suas possibilidades de “improviso”, “ginga” e “malevolência”. Não foram raras as vezes que, ainda nessa Copa de 2018, se fez possível ouvir diferentes comentaristas falando das possibilidades de improviso e da ginga sul-americana em contraste aos europeus.

Mas será essa narrativa real ou apenas uma construção? De onde vem esse olhar? Qual a relação que possui com nossa identidade? E o que isso influenciou (ou não) na eliminação atual do Brasil em 2018? Para entendermos melhor todo esse debate acerca dos discursos sobre o futebol sul-americano e, mais especificamente o brasileiro, temos que retornar à Copa de 1938, ocorrida na França.

Nesse mundial, o cientista social Gilberto Freyre escreveu um artigo, intitulado “Foot-ball Mulato”, onde explicitou um pouco do olhar que buscava consolidar sobre o futebol brasileiro. Nas palavras do autor (1938), em relação a boa participação brasileira na Copa de 1938:

[…] uma das condições dos nossos triunfos, este ano, me parecia a coragem, que afinal tivemos completa, de mandar a Europa um team fortemente afro-brasileiro. Brancos, alguns, é certo; mas grande número, pretalhões bem brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros. […] O novo estilo de jogar foot-ball me parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de espontaneidade individual em que se exprime o mesmo mulatismo de que Nilo Peçanha foi até hoje a melhor afirmação na arte política. […] Acaba de se definir de maneira inconfundível um estilo brasileiro de foot-ball; e esse estilo é mais uma expressão do nosso mulatismo ágil em assimilar, dominar, amolecer em dança, em curvas ou em músicas técnicas europeias ou norte-americanas mais angulosas para o nosso gosto. […] O mulato brasileiro deseuropeisou o foot-ball dando-lhe curvas. […] O estilo mulato, afro-brasileiro, de foot-ball é uma forma de dança dionisíaca.

É notório nas palavras de Freyre o seu olhar teórico, posteriormente muito debatido e criticado, que se refere a existência de uma “democracia racial” no Brasil. Sem ser nosso objetivo, neste post, analisar as críticas e debates lançados acerca das obras do autor, é, todavia, inegável a importância de suas referências na consolidação de um imaginário acerca da sociedade brasileira, seja entendido como positivo ou não. O encontro das três “raças” (brancos, negros e índios) marcaria a miscigenação do povo brasileiro, contrastando com outros povos, como os europeus. E, como exemplificação da teoria, o futebol se evidenciou como uma das manifestações culturais utilizadas por Gilberto Freyre para explicitar seus pensamentos (tal como o samba, a capoeira, entre outros).

Anos depois, Mario Filho, que hoje dá nome ao Estádio do Maracanã, publicou o livro “O negro no futebol brasileiro”, onde dialogou com esses referenciais teóricos de Freyre. Inclusive, na primeira edição da obra em 1947, o prefácio foi escrito pelo próprio Freyre. A tese de Mario Filho/Gilberto Freyre passava por essa ideia de que o encontro de raças e a presença do negro teriam sido fatores positivos para o futebol brasileiro, pois faria com que se diferenciasse do “frio” e “tático” futebol europeu.

Essa narrativa ganhou sua exacerbação a partir da conquista dos mundiais de 1958, 1962 e 1970, tendo tido como destaques jogadores negros e/ou mulatos, como Pelé, Garrincha, Didi, entre outros. Após o fracasso de 1950 e a culpabilidade pela derrota construída posteriormente e dada a atletas como Barbosa, Bigode e Juvenal, a conquista do tricampeonato em doze anos fez com que a narrativa freyriana, difundida na mídia por Mario Filho e espetacularizada por diferentes cronistas, como seu irmão Nelson Rodrigues, ganhasse força e consolidasse a ideia do Brasil enquanto país do futebol.

Após a Copa de 1970, iniciou-se os primeiros momentos de “crise”, acerca do “tipo brasileiro” de jogar futebol. Com um futebol mais tático e burocrático, o Brasil não venceu os mundiais de 1974 e 1978, mesmo não fazendo campanhas ruins. Porém, o 4º lugar de 1974 e o 3º em 1978 (sem perder um jogo!), não se tornaram mais marcantes que o 5º lugar de 1982. Tudo pelo retorno do “verdadeiro futebol brasileiro”, como destacou a imprensa da época, narrativa consolidada e difundida até os dias atuais. Não podemos negar o quanto a prática ajudou a referendar esse discurso. Com um selecionado recheado de craques e, mesmo com as pressões por “tirar os pontas” do esquema tático da seleção, Telê Santana conseguiu estabelecer um padrão de jogo mais técnico à equipe, semelhante ao que se via de 1970 para trás. O resultado negativo naquela Copa foi um choque, tanto para aqueles que acompanhavam o futebol brasileiro, quanto para a própria identidade da seleção que buscava “jogar novamente o futebol arte”. Seja ou não esse um discurso, tratava-se de algo presente nos debates acerca do selecionado nacional brasileiro, notadamente na grande mídia e no senso comum.

Essa busca pelo futebol arte foi se tornando constante mas, em muitas ocasiões, também distante, devido o processo de mercantilização do futebol que se consolidou com força total a partir da década de 1980. Como falar de uma identidade de jogo brasileiro, se nossos principais jogadores já não atuam mais no país? Foi nesse cenário de transição que o Brasil, ainda com Telê, tropeçou em 1986 e, já sem ele, decepcionou em 1990, com uma seleção armada por Sebastião Lazaroni com três zagueiros e que “desconstruiu o modo brasileiro de jogar futebol”, tal como se falava na imprensa. A questão é: temos de fato uma forma de jogar futebol? É possível manter um modelo “raiz” de se jogar, enquanto outras escolas vão avançando taticamente e tecnicamente? São questões para pensar. O fato é que, em 1994, com um time mais “burocrático” e comandado por um inspirado Romário (que desde 1988 já atuava no “Velho Mundo”), o selecionado voltou a conquistar uma Copa depois de 24 anos, mas não convenceu aqueles que buscavam reencontrar o “futebol arte”.

Todavia, a tentativa por essa busca não se encerrou. Retornou com Ronaldo fenômeno, naquele período ainda denominado Ronaldinho, mas esbarrou na sua estranha convulsão na Copa de 1998. Voltou em 2002, cheio de dúvidas e percalços, e encheu de esperança aqueles que clamavam pela volta do “verdadeiro” futebol brasileiro, a partir da conquista do penta comandado pelos três “Rs” (Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo).

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Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Rivaldo comandaram o Brasil no pentacampeonato em 2002. Fonte: http://www.espn.com.br/noticia/516264_rivaldo-monta-seu-11-ideal-da-champions-com-cinco-brasileiros-messi-e-zidane

2006 seria o ápice. A efetivação do retorno desse “verdadeiro” futebol brasileiro, como afirmavam na mídia. E o cenário prévio destacava isso. Além de ser a então campeã mundial, a seleção brasileira havia conquistado uma Copa América (2004) e uma Copa das Confederações (2005), ambas vencendo a rival Argentina na final. Além disso, consolidou a liderança nas eliminatórias sul-americanas para a Copa de 2006, carimbando o passaporte para o torneio que ocorreu na Alemanha e esbanjando qualidade em campo com o então melhor do mundo Ronaldinho Gaúcho e seus coadjuvantes que, na verdade, dividiam o protagonismo: Ronaldo Fenômeno, Kaká, Adriano “Imperador” e Robinho “pedalada”. Fora a defesa sólida, formada por Cafu, Lúcio, Juan e Roberto Carlos. Um goleiro campeão europeu (Dida) e volantes que marcavam e, também, jogavam (Emerson, Gilberto Silva e, principalmente, Zé Roberto e Juninho Pernambucano). Um timaço que deixou craques, como o meia Alex, de fora do grupo final da Copa. E que, tal como em 1982, caiu antes do esperado, nas quartas de final para a França (novamente ela…) de Zinedine Zidane e Thierry Henry.

A derrota de 2006 marcou, definitivamente, uma transição no contexto atual do futebol brasileiro: a derrocada da seleção em detrimento da preparação e planejamento das grandes equipes europeias. Equipes essas que apostaram em longos trabalhos para colherem frutos. Casos como os de Joaquim Low, desde 2006 na Alemanha; de Didier Deschamps, desde 2012 treinando a França; ou de Vicente del Bosque, que comandou a Espanha de 2008 a 2016.

O planejamento passou a ser o caminho para mesclar, no mundo globalizado do futebol, a tática com a técnica. E o Brasil, nesse processo, ficou para trás. Ficou com Dunga em 2010 e com Felipão em casa no ano de 2014, com o inesperado jogo do 7×1. Curiosamente, desde então, a Copa em que o Brasil chegou mais longe foi exatamente em 2014, quando em casa alcançou as semifinais e saiu derrotada de forma vergonhosa para a Alemanha. Em 2006 e 2010, a equipe não ultrapassou as quartas de final (fato repetido agora em 2018).

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Derrota por 7×1 para a Alemanha foi a maior da história da seleção brasileira em Copas Fonte: https://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2018/06/28/7×1-fez-com-que-colocassemos-a-alemanha-num-pedestal-que-ela-jamais-mereceu/

Mais do que derrotas, não se enxergava mais um caminho de melhoras para a equipe nacional, que cada vez mais perdia força com seus aficionados. Questões mais centrais e problemáticas saltaram aos olhos do povo brasileiro, que viu no futebol, no máximo, uma forma de protestar contra algumas das injustiças sociais que passa diariamente. E quando olhavam para os dirigentes da CBF e de determinados clubes de nosso futebol, envolvidos em diferentes escândalos, o desinteresse aumentava.

Após um 7×1 e duas eliminações seguidas na Copa América, perdendo para Paraguai e Peru, a aposta no nome de Tite pareceu ser aquela que poderia “salvar” a seleção e nos reservar, pelo menos, dias melhores, recuperando o prestígio da equipe canarinho. E, até a Copa, talvez seja notório falar que o resultado foi muito além do esperado, culminando com a liderança isolada nas eliminatórias sul-americanas e a classificação antecipada para a fase final da Copa, após pegar um grupo desacreditado que estava em sexto lugar na disputa.

Seria assim o Tite, de fato, o salvador da pátria? A derrota para a Bélgica na última semana demonstrou, para muitos, que não, passando esses a exigir a saída do técnico do comando da seleção. Para muitos outros, o trabalho demonstrou avanços, sendo o mantimento fundamental para a continuidade do que vem sendo feito, visando saltos maiores no futuro.

De fato, os feitos nas eliminatórias e o resgate, pelo menos no campo simbólico, do valor do selecionado nacional na “Era Tite”, foi inegável. Mas não foi o suficiente para ganhar a Copa. Pelo menos não ainda. Esqueceram de avisar ao Tite que, assim como os estaduais não são parâmetros para a disputa do Brasileirão, as eliminatórias não garantem o sucesso na fase final da Copa. O treinador brasileiro demonstrou que, mesmo buscando se “profissionalizar aos moldes do tático futebol europeu”, não foi capaz de derrotá-los taticamente. Muito pela própria teimosia em não ousar.

O ditado “em time que está ganhando não se mexe” nunca se demonstrou tão equivocado, como no jogo do Brasil contra a Bélgica. Tite, que ganhou tudo no âmbito dos clubes no Brasil, esqueceu que a Copa do Mundo era um torneio curto, diferente de um Brasileirão de 38 rodadas. E que cada adversário deveria ser estudado cautelosamente. Fora algumas convocações extremamente contestáveis, insistir em manter atletas como Gabriel Jesus e Paulinho em campo, após sucessivas atuações irregulares na competição, não só foi um tiro no pé como uma forma de queimar a imagem dos próprios atletas. Com Firmino no banco, Gabriel Jesus poderia ter sido preservado aos 21 anos e não ficar taxado pela imprensa como o “centroavante que não fez gol na Copa”. E Paulinho talvez não precisasse retornar para o futebol chinês (por mais que venha a receber, agora, até mais do que ganhava para ser reserva no Barcelona).

E o que dizer do Neymar? Jogador de talento indiscutível, mas que de longe ainda não é o melhor do mundo, como almeja ser. Nem dentro, nem fora de campo. O lado psicólogo do Tite, quase no estilo “autoajuda” também falhou, pois se uma de suas tarefas mais elogiadas na mídia era a de “recuperar” a vontade dos atletas de jogarem pela seleção nacional após sucessivos fracassos, se esqueceu de moldar, para o melhor atleta tecnicamente falando, um caminho em que esse não tomasse atitudes que fossem reprovadas e buscasse, com trabalho, fazer a diferença que todos sabem que possui a capacidade de fazer. Mas não o fez. Muito pelos mimos e acolhimentos que não condizem mais com as responsabilidades de um atleta global aos 26 anos. Se frases como “o menino Ney” ou “é muito difícil ser o Neymar” fossem substituídas por trabalho sério (tal como Cristiano Ronaldo faz em campo a cada dia que recebe uma crítica), talvez o resultado e a construção de imagem, pelo menos no aspecto individual desse atleta, poderiam ter sido diferentes, o fazendo superar a “síndrome de Peter Pan” e, finalmente, amadurecer enquanto jogador e pessoa. Torcemos que, pelo bem dele e do selecionado nacional, essa experiência da Copa de 2018 tenha servido, minimamente, para fazer uma reflexão.

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Cena comum na Copa de 2018: Neymar no chão reclamando de pancadas. Mesmo caçado, em alguns casos, atitude do atleta foi muito questionada. Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/06/deportes/1530911803_045897.html

Roberto Martínez, técnico da Bélgica que assumiu a seleção em período similar ao Tite no Brasil (em 2016), entendeu que em time que ganha, se precisar, se mexe sim. E foi com um nó tático que conseguiu derrotar o Brasil. Se fosse por resultados, teria tantos motivos como seu colega brasileiro para não mudar seu grupo titular. Afinal, vinha de ótima campanha nas eliminatórias e 100% de aproveitamento até então na Copa. Porém, entendeu que, contra o Brasil, teria que mudar o seu 3-4-3. Reforçou seu meio campo com a entrada de Fellaini, adiantando De Bruyne, um dos craques do time, para fazer um trio de ataque com Lukaku e Hazard. Lukaku que antes atuava centralizado, jogou pela direita e foi fundamental no combate e arrancadas contra a zaga brasileira.

Era um 3-4-3 que, defendendo, virava 7-3, com o retorno dos alas e volantes. E o Brasil de Tite, que não quis mudar, ou mudou muito tarde, não ultrapassou a barreira belga, mesmo nos momentos em que esteve melhor em campo. Um verdadeiro nó tático daquele que ousou mudar por estudar o adversário. E por ser menos teimoso.

Roberto Martínez deu continuidade ao trabalho de Marc Wilmots em 2016, marcando uma continuidade que moldava uma geração de talentos desde 2012. Joaquim Low está no comando da seleção alemã desde 2006. Deschamps desde 2012 na França. Oscar Tabárez treina o Uruguai desde 2006, conseguindo levar a celeste de volta a disputas importantes no futebol, alcançando uma semifinal de Copa em 2010, as quartas nesse ano e um título inesquecível da Copa América em 2011, depois de 16 anos. Até mesmo o trabalho de José Pékerman a frente da Colômbia, onde está desde 2012, deve ser valorizado, pois mesmo sem títulos, levou a equipe de volta aos mundiais depois de 16 anos, disputando duas copas seguidas (fato que não ocorria desde os anos 1990) e alcançando campanhas honrosas tanto em 2018 quanto em 2014 (que foi a melhor da história do selecionado colombiano).

Não sei se nos próximos dias será anunciado o mantimento ou a saída de Tite enquanto técnico da seleção. A continuidade parece ser o caminho mais provável. Pessoalmente, acredito que a seleção teve avanços e que, corrigir os erros, pode ser mais fácil do que recomeçar um trabalho do zero. Mas o primeiro ponto é assumir esses erros e reconhecer que está, ainda, muitos passos atrás de outros treinadores e equipes. E estar pronto para fazer mudanças e ousar. O fato é que, o ideal, independente de ser ou não o Tite aquele que irá comandar a seleção nacional daqui para frente, deve-se dar tempo para a realização do trabalho. E, também, compreendermos que, mais que o técnico, nosso problema maior está nos bastidores sujos da CBF, onde enquanto estivermos sendo controlados por “Teixeiras” e “Marins”, continuaremos em uma crise estrutural que vai muito além da simples escolha do treinador e/ou dos jogadores.

BIBLIOGRAFIA

FREYRE, Gilberto. Foot-ball mulato. In: Diário de Pernambuco, 18 de junho e 1938.

 


O futebol feminino no Brasil e na América do Sul: um breve olhar

06/02/2018

Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

Em janeiro passado, se deu início mais uma edição da Copa Libertadores da América de futebol masculino. Enquanto a competição masculina atrai mais uma vez os holofotes da modalidade na América do Sul, buscarei neste pequeno texto abordar um pouco da versão feminina da competição organizada pela Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), assim como estabelecer um panorama da modalidade no continente como um todo. Destaco, desde já, que a análise foi aqui realizada de forma superficial, buscando mais questões quantitativas do que qualitativas, de forma que possa suscitar a curiosidade do leitor e, quem sabe, fazer com que estudos mais específicos surjam a partir de então.

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Chapecoense-BRA x Nacional-URU, em jogo válido pela segunda fase da Copa Libertadores da América 2018 (31/01/2018). Fonte: http://www.gazetapress.com/pauta/54797/copa_libertadores_da_america_2018__chapecoense_x_nacional__uru_

Em 1960, a Conmebol começou a organizar, de maneira oficial, competições de clubes no cenário sul-americano, tendo como marco a criação da Copa Libertadores da América de futebol masculino. Atualmente, essa continua sendo a principal competição organizada pela entidade no continente. Além dessa, nos dias atuais também ocorrem a Copa Sul-Americana e a Recopa Sul-Americana. Entre as competições intercontinentais, destacamos a Copa do Mundo de Clubes FIFA (disputada pelo campeão da Copa Libertadores) e a Copa Suruga Bank (confronto realizado entre o campeão da Copa Sul-Americana e o vencedor da Copa da Liga Japonesa).

Além dessas, outras competições organizadas pela entidade já não existem mais, porém também são entendidas como competições oficiais. São essas: Supercopa da Libertadores (1988-1997), Copa Conmebol (1992-1999), Copa Mercosul (1998-2001), Copa Merconorte (1998-2001), Copa Master da Supercopa (1992-1995), Copa Master da Conmebol (1996), Copa Ouro (1993-1996), Copa Ibero-americana (1994) e Copa Interamericana (1968-1998). No âmbito intercontinental, podemos citar a Recopa Intercontinental (1968-1969) e a Copa Intercontinental (1960-2004), tendo essa última antecedido a atual Copa do Mundo de Clubes FIFA. No ano passado, segundo informação divulgada no site da Conmebol, a FIFA sinalizou pelo reconhecimento dessa competição enquanto um título mundial oficial, tendo essa decisão sido tomada a partir de uma solicitação da própria entidade sul-americana.

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Proposta da Conmebol de reconhecimento dos títulos da Copa Intercontinental como mundiais. Fonte: https://twitter.com/agdws/status/923846229922123776/photo/1

Além disso, algumas competições, mesmo não tendo sido organizadas pela Conmebol, foram chanceladas pela entidade. Um exemplo é o Campeonato Sul-Americano de Clubes campeões, organizado em 1948 pela equipe chilena Colo Colo e vencido pelo brasileiro Vasco da Gama. Mesmo durante muito tempo não tendo sido reconhecido oficialmente como competição continental, esse título passou a ter a chancela da Conmebol em 1997, quando a pedido do C. R. Vasco da Gama, a entidade permitiu que a equipe disputasse a Supercopa da Libertadores daquele ano. Como essa competição só era disputada por equipes vencedores da Copa Libertadores (e até então o Vasco nunca havia ganho a competição, fato que alcançaria em 1998), a participação do Vasco como campeão do torneio em 1948 demonstra o reconhecimento da entidade para essa disputa como sendo o primeiro grande campeonato sul-americano de clubes e o percussor da Copa Libertadores, que se iniciaria doze anos depois.

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Equipe do Vasco da Gama campeã do Sul-Americano de Clubes em 1948. Fonte: Centro de Memória C. R. Vasco da Gama

Mesmo com todo esse desenvolvimento e número de competições no masculino, o futebol feminino, entretanto, historicamente sempre se manteve em uma posição de desigualdade. Essa situação é muito explicada pela posição patriarcal e machista da sociedade em que estamos inseridos que, dentre outras esferas, também exerceu seus reflexos no âmbito do futebol. Assim, mesmo com avanços, o futebol feminino sempre esteve muitos passos atrás do masculino. Se compararmos com outras modalidades esportivas, no que diz respeito a posição da prática entre homens e mulheres, veremos que o futebol exacerba ainda mais tal discrepância no contexto sul-americano, muito devido a espetacularização e o mercado alcançados no masculino.

Mesmo com esse cenário, o avanço do futebol feminino no continente, ainda que com passos lentos, tem ocorrido. No senso comum, poucos conhecem e/ou acompanham as competições da modalidade, principalmente se comparado com o futebol masculino. Todavia, no que se refere a formação de um campo, tal cenário teve sensíveis modificações nas últimas décadas.

Se ainda não podemos falar, nem de perto, que o futebol feminino alcançou um posto similar ao do futebol masculino, que é um objeto a parte, pelo menos conseguiu desenvolver competições e estabelecer um status antes não imaginado. No Brasil, por exemplo, o avanço do futebol feminino se deu, com maior força, a partir dos anos 1990, tendo desde então consolidado um selecionado nacional que se destaca ano após ano entre os mais fortes do mundo.

Mesmo sem nunca ter ganho uma Copa do Mundo, o selecionado brasileiro feminino já foi vice-campeão mundial em 2007; medalha de prata nos Jogos Olímpicos de verão em Atenas 2004 e Pequim 2008; além de seis vezes campeão da Copa América. Jogadoras como Cristiane, Formiga e Marta, entre outras, ganharam muito destaque nos últimos anos, tendo essa última sido eleita pela FIFA a melhor jogadora do mundo por cinco vezes seguidas entre 2006 e 2010.

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A brasileira Marta foi eleita por cinco vezes consecutivas a melhor jogadora de futebol do mundo pela FIFA (2006/07/08/09/10) Fonte: http://www.huffpostbrasil.com/2015/12/10/o-passo-a-passo-de-marta-para-superar-pele-como-maior-artilheira_a_21687431/

No continente sul-americano como um todo, o avanço de competições entre seleções femininas de futebol também é notável, tendo o Campeonato Sul-Americano de Futebol Feminino (organizado pela Conmebol e também conhecido como “Copa América feminina”) tido sete edições desde 1991, com seis vitórias do Brasil e uma da Argentina, em 2006, onde as brasileiras foram vice-campeãs. A oitava edição da competição ocorrerá nesse ano de 2018, no Chile.

No âmbito maior, a Copa do Mundo (com sete edições desde 1991) e os Jogos Olímpicos de verão (com seis edições desde Atlanta 1996) continuam sendo, globalmente, as principais competições do futebol feminino. Os melhores resultados de selecionados sul-americanos nessas competições foram também alcançados pela seleção brasileira, que como já explicitado, foi vice-campeã mundial em 2007 e olímpica em 2004 e 2008. Fora do cenário sul-americano, mas ainda na América, é inegável o domínio dos Estados Unidos no futebol feminino, tendo sua seleção já ganho quatro medalhas de ouro olímpicas e três Copas do Mundo, dividindo com seleções como Alemanha, Noruega e Japão, o posto de seleções nacionais mais vitoriosas na história do futebol feminino.

No âmbito dos clubes, o abismo para o futebol masculino ainda continua grande e se faz maior até do que os eventos de seleções (pelo menos no que se diz respeito ao público que acompanha e aos patrocínios). No Brasil, a realização de competições como a Copa do Brasil (de 2007 a 2016) e o Campeonato Brasileiro (a partir de 2013), fizeram com que a formação de equipes femininas no país aumentasse no interior dos clubes. Porém, com a suspensão da Copa do Brasil feminina em 2017 pela CBF, novamente a falta de incentivo se tornou evidente na organização da modalidade no país, dificultando o mantimento e investimento em atletas por parte das equipes

A Copa Libertadores da América de futebol feminina teve seu início em 2009. Desde então, os clubes brasileiros são os recordistas de conquistas, o que evidencia ainda mais a necessidade de se investir nas atletas que representam as equipes do país. Entre os nove campeões, sete são clubes brasileiros: Santos (2009 e 2010), São José (2011, 2013 e 2014), Ferroviária (2015) e Audax, em parceria com o Corinthians (2017). Completam a lista o chileno Colo Colo (campeão em 2012) e o paraguaio Sportivo Limpeño (vencedor em 2016).

É de destaque que, sem os holofotes do futebol masculino, equipes de menor expressão na modalidade entre os homens, alcançaram notáveis resultados com as mulheres. São os casos de São José e Ferroviário, equipes brasileiras de pouca expressão no futebol masculino, mas campeãs da América entre as mulheres (o Audax, apesar de pouca expressão no masculino, foi campeão da América em 2017 no feminino com uma equipe formada em parceria com o Corinthians). Além da parceria entre Audax e Corinthians, que juntaram “grandes e pequenos”, a grande exceção à regra é o Santos, bicampeão da Libertadores entre as mulheres, tendo também ganho três vezes a competição na história entre os homens.

A vitória da Libertadores de 2017 foi exaltada com grande entusiasmo pelas diretorias de Corinthians e Audax. A parceria entre os clubes para formar a equipe vencedora demonstra como o futebol feminino ainda carece de patrocínios e outras formas de investimentos, tendo sido a junção de dois clubes a solução encontrada para unirem forças e alcançarem grandes conquistas. No caso do São José, tricampeão da Libertadores e campeão mundial em 2014, quando clicamos no link “elenco” no site do clube, automaticamente é aberta uma nova página com todos os atletas do futebol masculino, sem nenhuma menção feita em relação as atletas do time feminino, mesmo tendo sido com essas as principais conquistas da história do clube, já que no futebol masculino seus títulos são inexpressivos.

Se são, entre outros motivos, títulos como o da Libertadores que caracterizam um clube como sendo ou não grande, a não elevação das equipes femininas campeãs da América ao mesmo patamar alcançado pelos times masculinos, nos demonstra o quanto ainda é marginal a posição do futebol praticado por mulheres. Todavia, o que poderia ser um motivo de desânimo, tem se tornado uma causa de luta para as meninas que ainda sonham em fazer do futebol uma forma de profissão e levar a vida. Se é a Copa Libertadores da América um campeonato que, como já fica explicito em seu nome, simboliza as lutas pela libertação do continente americano, a presença de uma competição feminina de futebol dentro desse cenário, se faz também mais que necessária e importante para continuarmos avançando com a quebra dos padrões patriarcais estabelecidos e com o fim das desigualdades de gêneros existentes dentro da sociedade.

 

 

 


O VI Sul-Americano de futebol no âmbito dos Jogos do Centenário de 1922 no Rio de Janeiro: entre os discursos da “nação brasileira” e a diplomacia internacional

13/11/2017

Eduardo de Souza Gomes

eduardogomes.historia@gmail.com

 Em 1922, o Brasil festejava o centenário de sua independência. Essa data foi marcada por uma série de comemorações e exaltações da “nação brasileira”, em eventos diplomáticos com a presença de representantes de diferentes países do mundo.

Entre esses eventos, podemos citar as “Exposições Internacionais”. Pensadas na Europa do século XIX como forma de demonstrar o desenvolvimento industrial e a inserção de alguns países desse continente, essa modalidade de evento foi entendida como ideal para os festejos de comemoração do Brasil em 1922. Tendo em vista a intenção de idealizar o Brasil como uma “nação moderna”, tal como outras do “velho mundo”, foram nesse ano iniciadas as Exposições Internacionais na então capital Rio de Janeiro. O centenário da independência do país, concretizou um cenário propício para tais eventos, tendo tido em solo brasileiro a presença de diplomatas e representantes de diferentes nações.

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Exposição Internacional de 1922 – Av. Rio Branco, Rio de Janeiro/RJ. Fonte:http://historiasemonumentos.blogspot.com.br/2014/11/exposicao-internacional-do-centenario.html

Não devemos esquecer que, além das comemorações do centenário, 1922 ficou marcado por diversos outros acontecimentos relevantes no país. Podemos destacar, apenas como forma de exemplificação, o avanço do movimento tenentista, a Revolta dos 18 do Forte, a Semana de Arte Moderna e a fundação do Partido Comunista. Tendo esses e outros acontecimentos como pano de fundo, os debates que tratavam sobre a temática das ideias de “nação” brasileira, se fortaleceram.

Um grande exemplo desses debates sobre os caminhos a serem seguidos no país foi a criação e fortalecimento, entre 1921 e 1922, da “Reação Republicana”, que foi um movimento contrário ao poder político oligárquico dominante no Brasil naquele momento. Esse, contava com a participação de políticos e parte da elite de estados (Bahia, Distrito Federal, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul) que buscavam quebrar a política dos governadores então estabelecida pelas oligarquias de São Paulo e Minas Gerais (vejam bem, destacamos aqui uma disputa de poder e, não necessariamente, uma busca por mudanças sociais mais amplas por esses outros estados e/ou oligarquias que participavam do movimento).

Para alcançar tal objetivo, os estados que compunham a Reação Republicana lançaram como oposição, nas eleições presidenciais de 1922, a candidatura do então senador fluminense Nilo Peçanha. Peçanha, que já havia presidido o país entre 1909 e 1910, concorreu com o mineiro Artur Bernardes pelo cargo de sucessor de Epitácio Pessoa na presidência. Inserido nas alianças ligadas à Política dos Governadores, Artur Bernardes foi eleito, porém não calou as formas de contestações políticas criadas pela Reação Republicana, tendo como exemplo o já citado movimento tenentista, que seguiu com força no decorrer da década de 1920.

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Charge publicada na revista O Malho, 25/02/1922 Fonte: http://act14-anjovida.blogspot.com.br/2014/08/

Neste breve post, buscaremos compreender um pouco da presença do esporte nesse cenário diplomático de construção da ideia de nação brasileira proposta em 1922, assim como em boa parte da década de 1920. Tendo em vista que a construção e realização dos “Jogos Olímpicos Latino-Americanos de 1922” já foi abordado com maiores detalhes em post anterior (muito bem) escrito por Karina Cancella, buscaremos de forma mais específica entender o papel do VI Sul-Americano de seleções de futebol nesse processo, por se tratar de uma competição ocorrida no âmbito dos Jogos do Centenário e que teve grande relevância e repercussão no período retratado.

O que aqui chamamos de Jogos Olímpicos Latino-Americanos de 1922, foram um conjunto de competições esportivas realizadas no cenário de comemorações do centenário da independência do Brasil, contando com a disputa das seguintes modalidades: natação, polo aquático, basquete, tênis, atletismo, esgrima, tiro, remo, boxe e hipismo. Junto a esses eventos, ocorreu o VI Sul-Americano de Seleções de futebol, organizado pela Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL).

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Parada militar do centenário. Fonte: TORRES, César. Jogos Olímpicos Latino-Americanos – Rio de Janeiro 1922. Manaus: CBAt, 2012, p. 32.

Em 1919, o Brasil sediou os campeonatos sul-americanos das seguintes modalidades: futebol, natação e polo aquático. Para realizar, em 1922, um evento que pudesse conglomerar outras modalidades em âmbito continental, se fez necessário uma série de obras públicas na cidade do Rio de Janeiro. Depois da realização de uma série de debates, assim como atrasos ocorridos que, por pouco, não levaram a realização dos jogos do centenário da capital para São Paulo, chegou-se a uma definição de como seria organizadas as obras para o evento no Rio de Janeiro. Como salienta Maurício Drumond,

[…] coube ao Fluminense Football Club, presidido por Arnaldo Guinle, membro de uma das mais ricas e influentes famílias cariocas, a oportunidade de sediar os jogos, realizando assim grandes obras em seu estádio. Para executar as obras no stadium do Fluminense foi chamado o arquiteto Hypolito Pujol Jr., que também era responsável pelo pavilhão de São Paulo na Exposição do Centenário – um dos maiores especialistas brasileiros em concreto armado, tecnologia moderna a ser utilizada no centro esportivo. Apresentando assim a modernidade a ser vista nos pavilhões da Exposição, o estádio do Fluminense seria então o principal palco dos Jogos do Centenário, abrigando o campeonato sul-americano de futebol, assim como competições de tênis, boxe, polo aquático, esgrima, atletismo e tiro. Outras localidades, como o estádio do Clube de Regatas do Flamengo, a Vila Militar e o Jockey Club, entre outros, também receberam parte das provas (DRUMOND, 2012, p. 21-22).

Na América do Sul, a primeira competição continental de futebol entendida como oficial (ou seja, que possuem a chancela da Conmebol) entre seleções foi realizada em 1916, na Argentina. O Brasil a venceu pela primeira vez em 1919, ano em que também foi o país sede da competição. Em 1922, ocorreu a sexta edição do evento, sendo a segunda em que o Brasil o organizaria.

Para conseguir montar uma equipe que melhor representasse a “nação brasileira”, foi criado o primeiro Campeonato Brasileiro de seleções estaduais, em 1922. Esse campeonato, vencido pelo estado de São Paulo, tinha como principal objetivo conglomerar os “craques” do futebol nacional em vista a formação do selecionado que disputaria o Sul-Americano de seleções (maiores informações sobre a criação do Campeonato Brasileiro de seleções estaduais, ver o post de João Malaia).

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Selecionados de São Paulo (parte superior da imagem) e do Rio Grande do Sul (parte inferior), que se enfrentaram no Campeonato Brasileiro de seleções estaduais de 1922, com vitória paulista por 4×2. Fonte: http://cacellain.com.br/blog/?p=78752

A preparação para o VI Sul-Americano foi marcada por tensões entre as duas maiores federações de futebol do Brasil, do Distrito Federal e de São Paulo. Como se tornou marcante nos primórdios do futebol brasileiro, as disputas entre paulistas e cariocas pelo poder desse esporte se explicitava como algo que sobressaia aos campos dos jogos. A criação do citado Campeonato Brasileiro de futebol teria sido uma forma de tentar conciliar os estados que disputavam o poder do esporte (Distrito Federal e São Paulo), assim como idealizar um selecionado que pudesse ser entendido como mais “nacional”, ou seja, sendo composto por atletas de outras localidades também. Todavia, como infere João Malaia, vários fatores impossibilitaram esse caminho, fazendo com que a seleção continuasse a ser dominada por carioca e paulistas:

Falar em seleção brasileira com a ideia de que dela fizessem parte jogadores que efetivamente representassem o Brasil foi uma tarefa difícil, uma vez que os estatutos da CBD excluíam os analfabetos, que de acordo com o Censo de 1920, eram 65% da população brasileira. Junto a esse dado, vale ressaltar que, a despeito da organização do campeonato de seleções estaduais, a seleção de 1922 contou apenas com jogadores de São Paulo e da cidade do Rio de Janeiro, como era de costume. Da equipe que disputou a final do torneio contra o Paraguai, sete jogadores eram de equipes paulistas e quatro eram de equipes cariocas (MALAIA, 2012, p. 68).

Mesmo com todas as tensões iniciais, o Brasil acabou se tornando campeão do Sul-Americano de futebol em 1922, sendo essa sua segunda conquista na história da competição (a primeira foi em 1919, quando também havia sediado o torneio). Porém, a campanha realizada foi marcada por altos e baixos, tendo o selecionado empatado os três primeiros jogos (1×1 com o Chile; 1×1 Paraguai; e 0x0 Uruguai) e ganho os dois últimos (2×0 Argentina e 3×0 Paraguai, sendo esse último um jogo desempate).

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Premiação do Brasil campeão do Sul-Americano de 1922, no Estádio das Laranjeiras. Fonte: http://www.conmebol.com/pt-br/ano-1922-sul-americano-no-brasil-palco-de-honra-do-estadio-das-laranjeiras-do-clube-fluminense

O percurso até a vitória foi analisado com olhares diversos por parte dos jornais cariocas e de outras localidades do país. Sem obviamente buscarmos criar generalizações em proporções nacionais, tendo em vista que analisamos apenas jornais do Rio de Janeiro, foi possível apurar até o momento com a pesquisa que a linha de alguns importantes periódicos cariocas no período, como O Imparcial e Correio da Manhã, entendia que o futebol e as demais práticas esportivas ofereciam bons caminhos para idealizarem um novo Brasil “moderno” e que se diferenciasse das oligarquias dominantes ainda presentes no poder do país (nesse caso, em relação a parte da imprensa que se colocava contrária ao governo vigente).

Percebemos, pela análise das fontes, uma tentativa da imprensa em interligar a exaltação do Brasil enquanto nação com o os resultados e jogos praticados pelo selecionado nacional. Com isso, qualquer ação que fosse contraria aos “interesses da pátria”, era criticada, tal como aquelas que se demonstravam deselegantes com o evento que o país organizava.

Como exemplo, podemos citar as críticas da imprensa sobre os erros de árbitros estrangeiros ocorridos durante o Sul-Americano de 1922. Um árbitro chileno, por exemplo, que fora chamado de Ladrón de Guevara pelos jornalistas de O Imparcial, desistiu de arbitrar partidas da competição, provavelmente após ser acusado de erros (O Imparcial, Rio de Janeiro, 20 de setembro de 1922).

Todavia, quando os erros teriam ocorrido por um árbitro brasileiro, parte da imprensa relativizou as supostas irregularidades. Na partida entre Paraguai e Uruguai, esses últimos alegaram terem sido prejudicados pela arbitragem do brasileiro Carlos Santos (O Imparcial, Rio de Janeiro, 14 de outubro de 1922), que teria supostamente beneficiado os paraguaios para que assim o Brasil continuasse com chances de ser campeão sul-americano (se os uruguaios vencessem, seriam os campeões). Nas páginas de Correio da Manhã, podemos perceber como o erro foi visto por parte da imprensa:

O Sr. Carlos Santos errou e com seus erros alterou o score da partida. Não queremos entrar em análise das suas intenções, por isso que, não temos o direito de discuti-las. Sempre respeitamos a honestidade dos países estrangeiros, e não há de ser, desta vez, que vamos pôr em dúvida a de um juiz brasileiro.

[…]  os uruguaios que tantas provas de correção tem dado em campo e fora dele, não deviam jamais ter pretendido abandonar o campo, mesmo que tivessem razão (Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1922, p. 5.).

Confirmados os erros acima, o fato é que a delegação uruguaia se sentiu prejudicada a tal ponto que abdicou do direito de continuar disputando o Sul-Americano, atitude essa que foi extremamente criticada por parte da imprensa, como podemos ver na citação anterior, onde questionam o posicionamento do selecionado de optar por sair do campo de jogo, e também ao explicitarem ser essa (o abandono do torneio) uma ação “interpestiva e indelicada […] retirando-se de uma competição entre amigos de uma forma tão violenta” (Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 de outubro de 1922). Percebe-se também com a citação acima, que a análise não se dava na tentativa de negar os erros, mas de entender que não deveria haver dúvidas da idoneidade e honestidade do árbitro brasileiro, sendo esse um olhar diferente em relação ao que se via na imprensa sobre os árbitros estrangeiros que supostamente teriam também cometido erros.

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Equipe base do Brasil campeão sul-americano de 1922. Fonte: https://baudofutebolce.wordpress.com/2011/05/31/1788/

Essas críticas explícitas nos periódicos demonstram como a defesa da nação se fazia como prioritária por parte dos jornais em questão, deixando claro que o evento não só tinha a intenção de festejar o centenário da independência do país, mas também demonstrar no cenário internacional os valores da “nação brasileira”.

A tensão gerada pela saída do Uruguai do torneio teria acalorado as relações entre os países e estimulado o aumento de críticas por parte daqueles que já eram contrários ao futebol e demais práticas esportivas como forma de se pensar a nação diplomaticamente. Malaia reforça que esse ocorrido poderia ter abalado as relações entre os dois países:

Além desse escândalo, alguns parlamentares passaram a condenar as competições internacionais de futebol, pois estas estariam acirrando rivalidades que extrapolavam o campo e estavam dificultando relações com figuras proeminentes dos países sul-americanos. Brasil e Uruguai disputavam uma cadeira permanente na Liga das Nações e devido aos atritos com a seleção uruguaia, alguns parlamentares brasileiros viram a competição e o acirramento das rusgas entre os dois países como um revés na política internacional do país. (MALAIA, 2012, p. 69-70).

Concluímos essa breve reflexão, destacando que o VI Sul-Americano de futebol, em 1922, foi mais uma entre as várias possibilidades de se construir uma representação da nação brasileira perante outros países no sistema-mundo. Assim, com a tentativa de se fazer “moderna” como as nações europeias, inferimos que as construções da nação brasileira, feitas de diferentes maneiras por políticos e veículos de imprensa, tinham como principal característica o distanciamento em relação aos outros países vizinhos da América Latina. Mesmo quando se tinha um discurso de aproximação diplomática, se fazia questão de destacar a diferenciação brasileira em relação aos outros países da região (como, por exemplo, no caso dos árbitros, onde o brasileiro que erra é entendido como honesto, mas os demais não). Esse debate se faz importante por ser tratar de uma discussão até hoje ainda não bem definida, sobre o Brasil se entender ou não como uma nação latino-americana.

REFERÊNCIAS

DRUMOND, Maurício. Os jogos esportivos do centenário: o ponto de vista da política. In: MALAIA, João Manuel; MELO, Victor (orgs.). 1922: celebrações esportivas do centenário. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012, p. 15-36.

GOMES, Eduardo de Souza. A Reação Republicana e a imprensa carioca no VI Sul-Americano de futebol em 1922: uma análise nas páginas de O Imparcial e Correio da Manhã. ÂNCORA – Revista Latino-Americana de Jornalismo, João Pessoa, v. 4, 2017, p. 147-171.

MALAIA, João Manuel. A imprensa e o sul-americano de futebol de 1922: a “defesa das cores nacionais” ou o “campeonato internacional das futilidades”?. Revista Estudos Políticos, Rio de Janeiro, n. 5, 2012, p. 60-76.