Um divertimento útil e agradável

13/01/2019

Por Flávia da Cruz Santos
flacruz.santos@gmail.com

 

Atividades culturais que começavam a compor o novo cenário da capital paulista, mais diverso e dinâmico a partir da segunda metade do século 19, e que cumpriam o papel de serem um agradável passatempo, e ainda possuírem sempre um fim útil, eram os esportes. Os paulistanos tentavam incorporar tais práticas aos seus costumes, tendo os ingleses como referência e como protagonistas nesse processo:

É talvez o povo inglês aquele que melhor tem compreendido o grande princípio do poeta latino – miscere utile dulci.

(…)

Por isso ele compreendeu a necessidade de certos jogos, que fornecendo-lhe agradável passatempo, e dando-lhe azo para as suas singulares apostas, fossem ao mesmo tempo exercícios poderosos que lhe dessem grande agilidade e destreza, robustecendo os músculos, dando-lhes grande força e vigor, e fortalecendo eficazmente a saúde.

A ginástica, a esgrima, a equitação, a natação, o críquete e outros exercícios não somente são objeto de distração, como ainda, recomendados pela higiene, fazem parte integrante da educação esmerada na Inglaterra.

(…)

Paulo também a seu turno começa a compreender as vantagens e belezas de tais divertimentos.

Um Jóquei Clube acaba de organizar-se e dentro em pouco os paulistas poderão gozar de um divertimento útil e agradável.

Agora um grupo de distintos cavalheiros ingleses fundou uma associação tendo por fim introduzir nesta capital o jogo do críquete tão popular em Inglaterra e que na corte tanta aceitação tem encontrado.

(…)

A arena preparada para tal fim deve naqueles dias atrair a concorrência do público que por certo não será indiferente àquele novo divertimento que alguns estimáveis cidadãos ingleses intentam introduzir no nosso país, e cujos resultados podem vir a ser de todo o ponto profícuos à educação física tão descuidada entre nós até o presente.[1]

Os esportes ao mesmo tempo em que eram agradável passatempo, eram também exercícios poderosos que desenvolviam grande agilidade e destreza, robustecendo os músculos, dando-lhes grande força e vigor, e fortalecendo eficazmente a saúde. Cumpriam uma função até então negligenciada pelos paulistanos, a educação física. Função necessária à nova lógica do trabalho assalariado que estava por ser inaugurada, pois ela demandava corpos prontos para o trabalho.

Portanto, já em seu momento inaugural na cidade, os esportes foram identificados como uma estratégia de educação dos corpos, como uma forma de obter os corpos desejados e necessários à nova ordenação social que se construía. A escassez de estudos sobre os momentos iniciais do esporte na capital paulista, no entanto, nos impede de melhor compreendê-lo. Os recortes temporais dos trabalhos que dedicam-se a estudar os esportes tem, geralmente, como marco inicial a virada do século XIX para o XX.

As primeiras presenças do esporte nos jornais paulistanos, são da segunda metade do século 19. O que não quer dizer, que seja somente aí que eles tenham surgido no cenário paulistano. É possível que eles tenham sido vividos antes disso, mas que não tenham ganhado as páginas dos periódicos. Nos jornais, no entanto, os primeiros esportes praticados na capital paulista, a aparecerem foram: o tiro ao alvo, a corrida a pé, as corridas de cavalos, o críquete, a esgrima, a ginástica, a luta, a natação, a patinação, a equitação e as regatas.

Em 1868, são encontradas as primeiras presenças do tiro ao alvo e das regatas. Foi constituído um clube de tiro na capital, e as regatas aconteciam no porto de Santos, para onde se dirigia grande quantidade de paulistanos, transportada pelos horários especiais do trem, criados “afim de conduzir aqueles que desejarem tomar parte neste gênero de recreio.”

A chegada do trem facilitou também o acesso dos paulistanos a um outro esporte, as corridas de cavalo realizadas em hipódromos. Se os amantes de tal divertimento precisavam, em 1874, ir à capital do império para nele tomar parte, fazendo obrigatoriamente parte do trajeto, quando não todo ele, em mulas, em 1876 eles já eram transportados de trem, em uma curta viagem dentro de sua própria província, para o Hipódromo da Mooca, que fora inaugurado em 22 de outubro desse mesmo ano:

Mudaram-se porém os tempos e as corridas da Mooca são o divertimento mais apreciado dos paulistas.

Com ansiedade é esperado pela população o dia marcado para as corridas, e chegado ele, desde cedo, enche-se a estação da Luz de passageiros dirigindo-se à Mooca.

Depois de dar e apanhar alguns murros, com o fim de comprar um bilhete, encaixa-se um pobre homem no vagão, onde vai muito apertado, quando, não tem de ir em pé e ceder o seu lugar, a alguma senhora.

Durante o trajeto, que felizmente é curto, versa a conversação sobre a corrida, os corredores, e as apostas.[2]

As corridas de cavalo eram apresentadas como uma forma de melhorar a raça cavalar: “Se os clubes de corrida fossem simplesmente um passatempo, eu os julgaria próprios para ocupar os ociosos: são porém a força organizada para, pela seleção natural, melhorar o cavalo, esse o primeiro e mais efetivo auxiliar do homem, na luta pela vida.”[3]

No entanto, quem ganharia com o melhoramento dos cavalos eram as elites, que os tinham como valioso patrimônio e utilizavam esse argumento, do melhoramento dos cavalos, para legitimar o investimento de dinheiro público e a realização das apostas, que em atividades outras, como os jogos, eram mal vistas e até mesmo proibidas.

O críquete foi introduzido em São Paulo pelos ingleses, que em 1875 fundaram o São Paulo Críquete Clube: “Agora um grupo de distintos cavalheiros ingleses fundou uma associação tendo por fim introduzir nesta capital o jogo do críquete tão popular em Inglaterra e que na corte tanta aceitação tem encontrado.” A presença na cidade, do meio de transporte mais moderno da época, que ainda não levava diretamente à corte, mas facilitava parte do trajeto, possibilitou nessa ocasião que viessem “da corte 13 membros do Anglo-brazilian Cricket Club, 11 dos quais nela tomarão parte, medindo-se com 11 dos mais destros do clube de S. Paulo.”[4]

Em 1878 surgiram as corridas a pé. Elas eram realizadas no mesmo espetáculo e no mesmo lugar, em que aconteciam as corridas de cavalos e as touradas. As corridas a pé eram o “lindo e novo divertimento”, a “grande novidade”[5]. O mesmo, no entanto, foi dito da patinação, quando de sua chegada à cidade, em 1877, e das atrações que constantemente eram incluídas nos seus espetáculos.

O esporte era não apenas agradável, como os demais divertimentos. Além de provocar alegria e prazer ele era útil, pois educava e conformava os corpos, seja dos homens ou dos cavalos, no caso do turfe. Nesse ponto, o esporte se aproximava do teatro, que também era considerado agradável e útil. O teatro, porém, educava e moldava o caráter, os comportamentos.

[1] Correio Paulistano, 26 de maio de 1875, p. 2.

[2] Correio Paulistano, 16 de maio de 1878, p. 1.

[3] Correio Paulistano, 18 de maio de 1884, p. 2.

[4] Correio Paulistano, 26 de maio de 1875, p. 2.

[5] Correio Paulistano, 15 de novembro de 1878, p. 3.

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O futebol e seus simulacros no reino da ludicidade – Subbuteo

18/12/2018

Elcio Loureiro Cornelsen
(cornelsen@letras.ufmg.br )

Em sua obra clássica Homo Ludens, Johan Huizinga define o lúdico como sendo algo que integra a própria natureza humana. Assim, o ser humano seria, basicamente, caracterizado por três propriedades: a do raciocínio (o Homo Sapiens), a da engenhosidade prática (o Homo Faber), e a da ludicidade (o Homo Ludens).

O jogo em geral, pois, seria a concretização da ludicidade na sociedade. Podemos encontrar, por exemplo, jogos que simulam outros jogos, ou seja, são seus simulacros. Pensemos, por exemplo, no futebol. Como uma das modalidades esportivas mais difundidas no planeta, ao longo do século XX, o futebol inspirou uma série de jogos enquanto simulacros, os quais continham especificidades materiais e regras próprias.

São vários os jogos originados do futebol. Recentemente, Eduardo de Souza Gomes postou no espaço deste Blog o artigo intitulado “Pebolim, Totó, Fla-Flu ou Pacau? um breve histórico do campo esportivo no Brasil”. Encontramos nele inspiração para escrever sobre outro simulacro do futebol – o Subbuteo.

É provável que esse nome não diga muito, mas quando nos reportamos ao seu nome no Brasil, pessoas com mais de 40 anos, certamente, dele se lembrarão: “Pelebol”.

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Pois é, o Subbuteo é uma modalidade de futebol de mesa, que foi muito difundido no Brasil, nos anos 1970 sob o título de “Pelebol”, comerciado pelo fabricante de brinquedos Estrela, com a imagem e o prestígio do “Rei do Futebol”. Trata-se de um jogo inventado na terra da Rainha, mais precisamente em Liverpool, em 1925, por William Lane Keeling. Insatisfeito com outros jogos simulacros de futebol que já havia à época, Keeling decidiu improvisar o seu próprio jogo: recortou papelão no formato de pequenos jogadores de futebol e os fixou a uma base de borracha. Originalmente, a bola era de cortiça e as traves, de arame. Keeling desenhou o campo de jogo em uma toalha de linho.

Primeiramente, Subbuteo foi comercializado com outro nome: “Newfooty”. Todavia, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e a crise econômica dela advinda, a produção foi interrompida, sendo retomada em 1947. A partir de então, os jogadores em miniatura passaram a ser confeccionados de material plástico, assim como as traves, e foram patenteados por Peter Adolph. Ornitólogo de profissão, amante dos pássaros, Peter Adolph rebatizou o “Newfooty” com o nome “Subbuteo” (haja imaginação!), baseando-se no nome científico de um falcão em latim – falco subbuteo –, e fundou a firma Subbuteo Sports Games. Em 1967, o empreendimento foi vendido a Waddingtons, então maior fabricante de brinquedos da Inglaterra. Três décadas depois, em 1995, a Waddingtons foi vendida à empresa de brinquedos norte-americana Hasbro.

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Subbuteo é jogado em um campo de flanela, de 80×120 cm.
Imagem: http://kickerium.de/2017/02/23/subbuteo-wie-fussball-nur-mit-hand/

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Basicamente, o Subbuteo conta com dois jogadores. Em geral, o jogo é composto por duas traves de plástico, um campo de futebol de 80×120 cm, de flanela, em que se defrontarão duas equipes compostas por 11 jogadores em miniatura cada uma: 01 goleiro e 10 jogadores de linha. Enquanto o goleiro, em posição de salto para defesa, tem menos mobilidade e é preso por uma haste, ficando restrito à meta e sendo acionado por trás da trave, os jogadores de linha, com cerca de 2 cm de altura, possuem uma base circular que, além de os manter na posição vertical, dando-lhes sustentação, permite que estes deslizem pelo campo ao serem impulsionados pelo dedo médio ou indicador do jogador ao ser pressionado sobre a flanela. Interessante é que o diâmetro da bola de jogo, também de plástico, possui a medida dos jogadores, ou seja, 2 cm. Esta pode ser simplesmente conduzida ou chutada, dependendo da direção e da força com que o jogador de linha é acionado.

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Miniaturas de jogadores representando a Seleção Brasileira
Imagem: https://www.yesterdaystoys.co.uk/Subbuteo-Heavyweight-Team-Ref-50-Brazil-3_A1LZ23.aspx

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Além disso, jogar Subbuteo requer certa tática e estratégia, pois todos os jogadores de linha são móveis e só podem ser movimentados e posicionados através de acionamento com os dedos durante a execução das jogadas. Esse é um dos aspectos que, se comparado com outras modalidades, fazem com que se considere o Subbuteo um simulacro mais próximo de uma partida de futebol. Embora muito menos praticado no Brasil em nossos dias, o Subbuteo ainda desfruta de popularidade em outras partes do mundo, onde existem ligas e se realizam campeonatos locais em mais de 50 países, bem como competições continentais e até mesmo mundiais.

Como um autêntico simulacro, as regras do Subbuteo correspondem, em sua maioria, às regras do futebol. A seguir, apresentaremos apenas as principais.

– Posse de bola

O jogador que tiver a posse de bola é, momentaneamente, o atacante, e o adversário, o defensor. Apenas o atacante pode tocar a bola ao acionar o jogador de linha com o dedo. Este perde a posse de bola quando erra a bola ao acionar o jogador ou quando a bola toca um jogador da equipe adversária. A bola só pode ser movimentada, no máximo, três vezes com o mesmo jogador de linha, sendo que o terceiro lance deve ser um passe para outro jogador de linha, ou mesmo um chute a gol.

– Movimentação de defesa

A cada toque de bola do atacante o defensor pode movimentar um de seus jogadores de linha, acionando-o com o dedo pressionado ao tecido do campo. A meta do defensor é dificultar a jogada de ataque adversário, à medida que consegue interpor um jogador de defesa entre o jogador atacante e a bola, ou mesmo bloquear um passe para outro jogador. Entretanto, durante a movimentação sem bola, o defensor não pode tocar nem a bola e nem outro jogador de linha, do próprio time ou do time adversário. Se isso ocorrer, o atacante pode exigir que a jogada volte e que os jogadores e a bola assumam a posição anterior ao lance em que o defensor cometeu a irregularidade. Aliás, se o defensor atingir a bola em movimento, haverá um tiro livre em favor do atacante.

– Jogadores fora de ação

Jogadores de linha que saem do campo ou que batem nas bordas de proteção da mesa, tão logo a bola seja colocada em movimento, são posicionados manualmente na parte externa do campo de jogo. Caso o jogador ainda se encontre na mesa, ele será posicionado no ponto mais próximo da linha de fundo; se tiver saído da mesa, será posicionado próximo à linha divisória. Jogadores deitados, tão logo a bola role, são posicionados corretamente onde estiverem. Não é permitido que se jogue com jogadores deitados.

– Chute a gol

Um chute a gol é válido somente quando a bola se encontrar no campo de ataque, além da chamada linha de tiro, linha intermediária entre o meio de campo e a área.

– Tiro de meta

O tiro de meta deve ser executado com o acionamento de um jogador de linha, sendo que a bola deve ser posta em jogo do mesmo lado por onde saíra pela linha de fundo. No tiro de meta, nenhum jogador adversário pode estar dentro da área.

– Arremesso lateral

Um jogador de linha é posicionado manualmente na lateral, exatamente no local por onde a bola saiu, e esta é posta em jogo através do acionamento do jogador com o dedo pressionado ao campo de jogo.

– Falta

Caso o jogador que esteja sendo acionado toque um jogador do time adversário sem tocar primeiro na bola, o lance é considerado faltoso e é marcado um tiro livre indireto. Se o lance ocorrer dentro da área, é marcada a penalidade máxima.

– Penalidade máxima

O goleiro deve permanecer sobre a linha do gol, enquanto os demais jogadores são posicionados fora da área.

– Reposicionamento dos jogadores em campo

Atacante e defensor podem reposicionar seus jogadores manualmente quando ocorrer tiro de meta ou após ser assinalado um gol. Nos demais lances, só será permitida a movimentação de jogadores através do acionamento do jogador com o dedo pressionado ao campo de jogo.

– Impedimento

Um jogador é considerado em posição de impedimento, quando estiver posicionado no campo de ataque e, no momento do passe, estiver mais próximo da linha de fundo do que dois jogadores defensores, incluindo o goleiro. Todavia, caso o jogador em posição de impedimento não receba a bola, a jogada de ataque pode prosseguir normalmente com outro jogador.

– Duração da partida

Uma partida de Subbuteo dura dois tempos de 15 minutos cada.

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Miniaturas de jogadores representando a Seleção Brasileira
Imagem: https://www.yesterdaystoys.co.uk/Subbuteo-Heavyweight-Team-Ref-156-West-Germany_AYY67.aspx

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De acordo com o site alemão Kickerium, o Subbuteo chegou ao país em 1961, ano em que foi fundado por Günter Czarkowski o “TSL Dortmund 61”, clube que ainda existe em nossos dias. Inclusive, o país conta com uma liga, a DSTFB – Deutscher Sport-Tischfußball-Bund (Liga Esportiva Alemã de Futebol de Mesa), filiada a uma organização internacional, a FISTF – Federation International of Sportstable Football. Segundo o site da FISTF, a Alemanha sediou o torneio mundial em 2006, na cidade de Dortmund, que contou com 250 competidores, representantes de 23 países, sendo que a Itália sagrou-se campeã nas categorias individual e por equipes. A edição de 2010 também teve por sede a Alemanha, realizada em Rain am Lech, que também contou com 250 competidores, representantes de 16 países, e cujo vencedor foi a equipe da Espanha. Além disso, entre outras competições, o país já havia sediado também o Campeonato Europeu em 1995, em Wuppertal, e a Copa Europa de Clubes Campões em 2001, na cidade de Kamen.

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Miniaturas de jogadores representando o F. C. Bayern de Munique
Imagem: http://www.customflicks.co.uk/order.htm

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Enquanto em países como a Alemanha, a Itália e a Inglaterra o Subbuteo se mantém popular e é praticado em competições oficiais, no Brasil, infelizmente, o jogo se tornou objeto de colecionador. Não é por acaso que, falar de “Pelebol” é, ao mesmo tempo, um ato nostálgico de recordação de infância nos idos dos anos 1970 e 1980.

Referências

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. 6. ed., São Paulo: Perspectiva, 2010. [filosofia; 4]

Site Botões para sempre: http://botoesparasempre.blogspot.com/2015/10/pelebol-da-estrela-os-incriveis-anos-70.html

Site CustomFlicks: http://www.customflicks.co.uk/

Site Deutscher Tischfussball-Bund: https://dtfb.de/

Site Federation International of Sportstable Football: https://fistf.com/organisation_europe/germany/

Site Kickerium; artigo “Subbuteo: wie Fußball nur mit Hand“: http://kickerium.de/2017/02/23/subbuteo-wie-fussball-nur-mit-hand/

Site Ludopedia: https://www.ludopedia.com.br/jogo/subbuteo

Site YesterdayToys: https://www.yesterdaystoys.co.uk/

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Dois Fluminenses em Niterói

02/11/2018

por Victor Andrade de Melo

Todo mundo conhece o Fluminense Futebol Clube, uma das primeiras agremiações do Rio de Janeiro a se dedicar ao velho esporte bretão. A cidade de Niterói, curiosamente, tem dois “Fluminenses” ainda vivos!

Esse post é parte do livro que estou escrevendo sobre o esporte na Cidade Sorriso. Compartilho um pedacinho dessas descobertas.

Vejamos a imagem abaixo.

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Remadores do Sport Club Fluminense, 1923
Disponível em: <https://www.facebook.com/OlharNictheroy/&gt;

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O Sport Club Fluminense foi fundado, em 1916, na Ponta D´Areia, na Avenida Visconde do Rio Branco (Rua da Praia).  Promovia suas regatas na parte do litoral conhecida como Praia Grande (de onde, inclusive, veio o primeiro nome que Niterói teve, em 1819: Vila Real da Praia Grande). Isso é, tratava-se de uma região que ficava à esquerda da atual estação das barcas (olhando do mar para o continente). O clube se encontrava perto do antigo Mercado de Peixe São Pedro, que avançava pelo mar.

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Antigo Mercado de São Pedro
Disponível em: <http://www.mercadodepeixesaopedro.com.br/index.php?page=historia&gt;

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Durante anos, aquela zona ficou conhecida como Praia do Esporte, em função das atividades da agremiação náutica (mas que também se dedicou ao futebol). No mapa abaixo, fica mais claro onde o clube se localizava.

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Em laranja, a região do Sport Club. Em azul, a Praia Grande. Em amarelo, a estação das barcas. Em vermelho, o que hoje é a UFF (construída num aterro; a oficina da Cantareira ainda está lá). Em lilás, a praça em frente ao campus, onde atualmente se encontra o restaurante Tio Coto, A Mineira e a Igreja de São Domingos, que está lá desde o século XIX. Seguindo um pouquinho em direção ao Forte de Gragoatá, marcado em rosa, o Clube de Regatas Gragoatá, criado em 1895.

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Difícil conceber essa paisagem nos dias de hoje em função de tantos aterros, mas os rastros da história são lindos. Vejamos a imagem abaixo, com as mesmas legendas acima.

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O Gragoatá e sua sede são mais conhecidos, mas o que pouca gente lembra é que a sede do Sport Club Fluminense continua de pé. Hoje é o Fluminense Natação e Regatas. Vejamos as imagens abaixo:

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Não confundir esse clube com Fluminense Atlético Clube, também fundado na década de 1910, conhecido como Fluminensinho de Niterói, localizado na Rua Xavier de Brito.

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Fachada do Fluminense Atlético Clube

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Em tempo, os clubes centenários de Niterói que se mantem vivo são:

Grupo de Regatas Gragoatá
Clube de Regatas de Icaraí (está mal das pernas, mas ainda está de pé)
Rio Cricket Associação Atlética (antigo Rio Cricket and Athletic Association)
Rio Yacht Clube (antigo Rio Sailling)
Iate Clube Brasileiro
Fluminense Natação e Regatas (antes Sport Club Fluminense)
Fluminense Atlético Clube (fundo como Rio Branco Futebol Clube)
Fonseca Atlético Clube
Canto do Rio Futebol Clube

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Como se pode ver, foi intensa a vida esportiva da Cidade Sorriso.

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El primer club de fútbol en Uruguay: Albion F.C. (1891)

30/09/2018

por Gastón Laborido (gaston_laborido1@hotmail.com)

Presentación

El pasado 28 de setiembre de 2018 se conmemoraron los 127 años de la fundación del CURCC (Central Uruguay Railway Cricket Club). Es un tema que genera polémica, ya que está en juego una discusión sin sentido entre los parciales de Nacional y de Peñarol: la cuestión del decanato. Estos clubes son los que tienen mayor cantidad de hinchas en todo el territorio uruguayo. La “falsa polémica” que surge cuando se habla de historia del fútbol es: ¿quién es el decano del fútbol uruguayo? ¿Quién nació primero? ¿CURCC y Peñarol son lo mismo?

La Historia siempre es una herramienta fundamental para entender y comprender el presente. Las “falsas polémicas” son “supuestos” creados e imaginados socialmente. Por diferentes razones, se inventan discusiones del pasado para legitimar el presente. En este caso, nos referimos a que lamentablemente los clubes uruguayos están desde hace más de 30 años en un período de estancamiento, carente de conquistas internacionales. Ya las discusiones no giran en torno a logros obtenidos por Nacional y Peñarol a nivel internacional. Apenas queda reducido al espacio local: quien tiene más campeonatos uruguayos, o quien ganó más clásicos. Para legitimar este presente, es que afloran las disquisiciones por ver cuál es el cuadro más viejo y si CURCC y Peñarol son lo mismo.

Con la intención de mirar hacia el pasado para comprender el presente, es que las líneas que siguen se proponen repasar los momentos decisivos y la aparición del primer club de fútbol propiamente dicho en el Uruguay. Antes de 1891 no es que no existiera el fútbol, pero quedaba reducido a instituciones que se habían fundando con el objetivo de practicar otros deportes como el cricket, o en el seno de los colegios ingleses.

En las líneas que siguen, primeramente se analiza el movimiento clubista y la importancia de los clubes en tanto unidad básica de la actividad deportiva. En segundo lugar, se aborda la relevancia de los colegios ingleses en Uruguay como difusores de los deportes modernos. En tercer lugar, se dedica un espacio a una de las primeras zonas deportivas de Montevideo, Punta Carretas. Por último, se señalan los momentos decisivos que dieron origen al primer club de fútbol en Uruguay: el Albion Football Club.

El club: una institución inglesa

El deporte moderno como fenómeno de las actuales sociedades, nació en Inglaterra, cuna de la Revolución Industrial y adquiere una enorme complejidad social y cultural a partir de la segunda mitad del siglo XIX. La revolución industrial estableció la diferencia entre tiempo de trabajo y tiempo de ocio, en cual el deporte pasó a ocupar un lugar significativo.

A su vez, el deporte como institución social propia de las sociedades industriales, tiene una compleja organización, cargado de instituciones, parámetros organizativos, multiplicidad de roles nítidos y sin significación religiosa. Una de las instituciones fundamentales del deporte moderno es el club:

la unidad básica de la actividad deportiva es el club, que abarca desde el modesto club deportivo local, con su sencillez organizativa y su reducido número de miembros, al multimillonario club de deporte espectáculo y profesionalizado, que al igual que las modernas sociedades anónimas, presenta una densa red de intereses de signo muy diverso, y en el que participan numerosas personas, desde los deportistas profesionales hasta los socios y los espectadores en general, pasando por los directivos y técnicos. (García Ferrando, M., 1990, p. 27).

Por otro lado, los clubes deportivos están organizados en federaciones (a nivel provincial, nacional e internacional). Tanto las federaciones como los clubes están condicionados por aspectos socioculturales, que se rigen por reglas y normas que contribuyen a delimitar el funcionamiento del juego deportivo. Como señalan C. Arias y M. Reich,

no habría sido posible la expansión que tuvo el fenómeno deportivo, si no llevara en sus entrañas un código de honor y un compromiso tácito previo, entre los que van a practicar sus diversas modalidades, si no hay un acuerdo anticipado sobre las reglas de juego y su acatamiento entre los eventuales contendientes (2004, p. 6)

El club, entendido como asociación de individuos que se agrupan por tener los mismos intereses, nació en Inglaterra antes del siglo XIX. Los primeros clubes deportivos que surgieron fueron fundados con carácter restrictivo por los aristócratas ingleses: el Royal and Ancient Golf Club en 1754 y el Marylebone Cricket Club en 1787.

La consolidación del deporte moderno es un fenómeno paralelo a la consolidación del imperialismo del siglo XIX. El imperio británico exportó sus prácticas deportivas a los cinco continentes, junto con sus mercancías. De esta manera, se difundió la cultura británica y el fenómeno deportivo, teniendo en algunos territorios mayor receptividad que en otros.

El movimiento clubista iniciado en Inglaterra tuvo en Uruguay un caldo de cultivo como en pocos países del mundo. La práctica de los deportes modernos surgió naturalmente en la colectividad británica. El deporte llegó a Montevideo en el siglo XIX, cuando los ingleses lo introdujeron en el Río de la Plata y en otras partes del mundo, de la mano del ferrocarril, intercambios con la marinería y de la acción de los colegios ingleses. Como señala J. C. Luzuriaga (2009), su difusión en la sociedad uruguaya siguió la misma lógica que en Gran Bretaña y en otros países: pasando de las elites al resto de la población en forma de cascada.

Si bien existió en nuestro país la experiencia del Victoria Cricket Club, entidad creada en 1842, hubo que esperar hasta la década del sesenta del siglo XIX para ver el surgimiento de los primeros clubes deportivos estables. Así, surgió el Montevideo Cricket Club (18/7/1861) en la colectividad inglesa que practicaba cricket, atletismo, natación, wáter polo, ciclismo y luego introdujeron el fútbol y el rugby. El campo de juego fue adquirido en los años 80 del siglo XIX, al que sus propietarios denominaron The English Ground. Estaba ubicado en la Blanqueada, en la avenida 8 de Octubre (donde hoy está ubicado el Hospital Militar), en el camino a la Unión entre las calles Jaime Cibils y Larrañaga, rodeado de quintas y chacras. Aquí fue donde se vieron por primera vez en Uruguay las distintas manifestaciones de esa nueva actividad, desconocida para los criollos. El terreno del campo de juego ocupaba aproximadamente una hectárea rodeada de cercos de pitas y algunas instalaciones, un pequeño refugio que oficiaba de palco, un rancho que era vestuario y una carpa blanca donde se servía el té de las 5 p.m.

La acción de los colegios ingleses

En Inglaterra la práctica del fútbol se inició en los colegios secundarios. La misma lógica se repitió en los colegios ingleses de todo el mundo y obviamente también en Uruguay.

En 1874 se creó en Montevideo The English High School y realizó el mismo tipo de enseñanza que la que desarrollaba en Buenos Aires su homónimo, bajo la dirección de Alexander Watson Hutton. Era basada en formación intelectual y cultura física, promoviendo la práctica de todos los deportes. Watson Hutton fue pionero en el desarrollo deportivo de la Argentina, en particular del fútbol, creando la “Argentina Foo-Ball Association League” en 1891 y definitivamente en 1893.

El English High School de Montevideo estuvo inicialmente a cargo de Henry Castle Ayre; y fundó en su colegio un espacio para el deporte: el Montevideo English High School Junior Cricket and Athletic Club. En 1885 llegó a Montevideo William Leslie Poole, quien era bachiller de Cambridge. Se desempeñó como profesor de inglés hasta 1920. Era un sportsman por excelencia, ya que incursionó en fútbol, remo, criquet y rugby y llevaba a sus alumnos a practicar esos deportes a Punta Carretas.

En 1885 se fundó The British School, que era dirigido por Thomas J. Ashe y también impulsó el deporte de acuerdo a los métodos pedagógicos de su país. Sus alumnos tuvieron activa participación en justas atléticas y en los primeros partidos de fútbol, ante el Albion y el CURCC. Ashe también fue figura de relieve actuando en el Montevideo Cricket Club y en el  Montevideo Rowing.

Punta Carretas: zona deportiva

Los alumnos de los colegios ingleses aprendieron las reglas del juego deportivo en los patios del colegio y en los campos de Punta Carretas. Por 1886 los ingleses jugaban en las canchas de Punta Carretas y pronto los uruguayos los imitaron. En este sentido y desde entonces, “Punta Carretas sería como una zona de avanzada del deporte, que tiene actualmente carácter casi legendario, en el que se confunden las primeras manifestaciones deportivas” (J. Buzzetti y E. Gutiérrez Cortinas, 1965, p. 55).

Los hermanos Juan Antonio y Mateo Magariños Pittaluga recrean de manera pintoresca esa época:

La locura de los ingleses de Punta Carretas se desparramó en forma asombrosa, penetrando como un torrente incontenible, en el alma de nuestros muchachos, inundándola, avasallándola, quebrando costumbres y rompiendo los juegos que hasta ese momento eran los de su preferencia. Dejaron de verse reunidos en las veredas a grupos de botijas jugando al rescate, al uñate y a la payanita, y tampoco vióse con la frecuencia de antes, el juego de las esquinitas y del gallo ciego. La diversión máxima, la distracción favorita, era jugar al “fobal”; imitar a los ingleses zancudos. Cualquier cosa redonda o que se le pareciera era utilizada para darle patadas. En los patios de las casas o de las escuelas, en terrenos grandes o chicos, en la calle y hasta en las azoteas se jugaba. Se hacía una pelota con la media de la hermana rellena de paja, con papeles forrados con la manga del saco del viejo, con vejigas infladas y con varias cosas más. Visto el entusiasmo creciente de los chiquilines por el fútbol, los almaceneros y jugueteros se avisaron y confeccionaron pelotas de cuero de múltiples colores rellenas de aserrín las que se exponían en los escaparates o se colgaban en los marcos de las puertas de los establecimientos junto a las muestras de bacalao, a los salamines y zuecos (…) (1942, p. 47).

De esta manera, Punta Carretas fue asomando a la nueva vida con su Farola, tranvía e Hipódromo y fue escenario de los estudiantes de los colegios ingleses, que se aproximaban para practicar el fútbol.

El primer club de fútbol en Uruguay: Albion Football Club (1891)

La última década del siglo XIX inauguró una etapa de cambio en el deporte nacional: a-surgieron numerosos clubes; b- se registró el desarrollo intensivo del fútbol; c- iniciación del proceso de integración masiva del criollo en el deporte.

Durante ese período, la presencia inglesa en la economía y en la sociedad no dejaba de incrementarse, incluso ante la amenaza de lo que sería en la percepción de los contemporáneos nacionales y extranjeros, la más grave crisis de su historia hasta ese momento, en 1890. Con esa crisis, la deuda uruguaya había quintuplicado su monto real en la década previa y decuplicado el peso de su servicio; el país se abría a las inversiones extranjeras, que se triplicaron, y la participación británica en los ferrocarriles, aguas corrientes, gas, teléfonos e industria de la carne era entonces decisiva. (J. Rilla, 2015, p. 86).

La crisis económica y financiera de 1890 obligó a repensar la viabilidad del país. Así, los distintos gobiernos debieron abordar la reformulación del modelo agroexportador, el fomento de la industria de bienes de consumo y la búsqueda de mecanismos para la contención de los conflictos sociales.

Desde el punto de vista deportivo, el período se caracterizó por la eclosión futbolística. “Esa eclosión del fútbol, terminará con el primer apogeo de cada uno de los deportes, condenándolos a pequeños círculos o a escasa aceptación popular” (J. Buzzetti y E. Gutiérrez Cortinas, 1965, p. 63).

Durante esos diez años de eclosión deportiva, se fundaron numerosos clubes: Albion, Central Uruguay Railway Cricket Club (luego llamado Peñarol), Nacional de Regatas, Nacional de Velocipedismo, Nacional de Fútbol y otros. Los repetidos apelativos de “Nacional” revelaban la intención de dejar establecido el criollismo de las agrupaciones.

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Una figura clave del primer club específicamente de fútbol en Uruguay y que además tuvo un origen netamente uruguayo fue Henry Candid Lichtenberger Levins. Lichtenberger nació en 1873, era alumno del English School y discípulo de Poole. Tenía 18 años cuando en mayo de 1891 invitó a compañeros del Colegio a fundar un club de fútbol, denominado Football Association. La respuesta fue positiva y el 1° de junio de 1891 el club comenzó a funcionar con 23 miembros. La primera Comisión Directiva estuvo presidida por William Mac Lean, con H. A. Woodcock (secretario), H. C. Lichtenberger (tesorero), Andrews Clark (delegado); J. D. Woosey (capitán) y G. P. Swinden (vicecapitán).

El equipo adoptó una casaca blanca con una estrella roja en el pecho como primer distintivo cuando jugasen contra cualquier club o colegio. El primer estatuto daba cuenta que se trataba de un club uruguayo, donde se rechazaba la presencia de jugadores extranjeros, cualquiera fuese su origen. De acuerdo a J. Buzzetti y E. Guiterrez Cortinas, “no se trataba de negar su ascendencia inglesa, era simplemente el orgullo de sentirse orientales que los impulsaba a expresarse como tales deportivamente” (1965, p. 71).

El club jugó su primer partido el 2 de agosto de 1891 en La Blanqueada contra el Montevideo Cricket y perdió 3 a 1. En esa ocasión presentó el siguiente equipo: H. Lichtenberger, C. Swinden, A. C. Lichtenberger, B. Swinden, J. O. Morse, T. J. Smith, J. D. Woosey (capitán), W. Mac Lean, H. A. Woodcock, M. Sardeson, A. F. Lambrchts y como suplentes: E. A. Shaw, W. L. Pepper y E. Decurnex.

El segundo partido lo disputó el 25 de agosto, ante el mismo rival y fue vapuleado 6 a 0 ante un poderoso equipo, que incluyó a Poole, Henry S. Bowles, Negrón, Hamilton, entre otros.  Para ese entonces, el Football Association era visto por la prensa inglesa como “la prometedora selección junior”.

Al poco tiempo, el 21 de setiembre, en asamblea celebrada en la Barraca Inglesa (Juncal n° 5), William Pepper apoyado por Clark, propuso el cambio de nombre ya que el club tenía el del deporte en sí, y  se decidió cambiar el nombre de la institución por el de Albion Foot Ball Club, como homenaje a los creadores de este deporte. También se cambió la blusa por una azul con cuello y mangas blancos, que completó con pantalón blanco y medias negras.

En 1891 se cumplieron 13 partidos amistosos en total. Los equipos que los disputaron fueron: Montevideo Cricket Club, Montevideo Rowing Club, English School, Football Association (Albion) y otros equipos que actuaban con los nombres de sus capitanes, como por ejemplo Mr. Poole XI; Mr. Scoones XI; Mr. Bowles XI, Mr. Dunbar XI; entre otros.

Finalizado el año 1891, el Athletic Sport Comitee, elaboró su agenda de criquet y juegos atléticos. En este contexto, es que surge una nueva institución y tercer centro deportivo de importancia en la Villa Peñarol: el CURCC (Central Uruguay Railway Cricket Club). Entre 1892 y 1895 el fútbol comenzó lentamente a desenvolverse desde las elites.

En marzo de 1895 el propio Lichtenberger propuso modificar los estatutos para aceptar jugadores extranjeros para poder ser más competitivos. Se decidió sustituir la casaca por una azul y roja por mitades verticales, en referencia y homenaje a Gran Bretaña. Los jóvenes del Albion se convirtieron en practicantes y difusores del fútbol entre posibles espectadores y medios de prensa. Publicaban el programa de los partidos y las reglas del deporte. También para difundir esta práctica, escribían crónicas y las llevaban a los periódicos.

Referencias:

  • ARIAS, Carlos y REISCH, Matilde (2004). Movimiento clubista y desarrollo deportivo en el Uruguay. Revista NEXO, marzo 2004, Montevideo.
  • BUZZETTI, José y GUTIÉRREZ CORTINAS, Eduardo (1965). Historia del deporte en el Uruguay (1830-1900). Montevideo: Ed. De los autores.
  • FERRANDO GARCÍA, Manuel (1990). Aspectos sociales del deporte. Madrid: Alianza.
  • GOMENSORO, Arnaldo (2015). Historia del Deporte, la Recreación y la Educación Física en Uruguay. Crónicas y relatos. Montevideo: IUACJ.
  • LUZURIAGA, Juan Carlos (2009). El football del novecientos. Orígenes y desarrollo del fútbol en el Uruguay (1875-1915). Montevideo: Santillana.
  • RILLA, José (2015). Uruguay en el mundo, 1880-1930. En: G. Caetano (Dir. y Coord.), Reforma social y democracia de partidos, 1880/1930 (pp. 85-130). Montevideo: Planeta.
  • MAGARIÑOS PITTALUGA, Juan Antonio y Mateo (1942). Del fútbol heroico. Montevideo: CIFCSA.

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Para além dos Grenais: os primeiros momentos do futebol porto-alegrense

25/09/2018

Cleber Eduardo Karls

cleber_hist@yahoo.com.br

Nos anos finais do século XIX a capital do Rio Grande do Sul ainda não possuía uma associação destinada ao futebol, mas notícias acerca do sucesso deste novo esporte ecoavam nos jornais provincianos. A imprensa noticiava o cotidiano das universidades inglesas e comentava o seu apreço pelas práticas esportivas, dentre elas o futebol, que seria brevemente adotado como uma das mais celebradas atividades de Porto Alegre.

Mas esta prática de origem britânica não estava tão longe do sul do Brasil. Prestigiada foi a promessa de uma visita a Porto Alegre do team de futebol do primeiro clube dedicado a este esporte no Brasil, fundado no ano de 1900: o Sport-Club Rio Grande, da cidade de Rio Grande. Com a festejada novidade, a imprensa noticiava e descrevia a seus leitores o que era o futebol. Conceitos básicos como o número de jogadores, o gol, objetivo máximo do jogo, assim como a necessidade de se usar somente os pés e a cabeça eram expostos aos curiosos porto-alegrenses através dos periódicos.

Outra curiosidade sobre este esporte no início do século XX era a adoção de grande quantidade de termos em inglês, e que nos primeiros tempos do futebol porto-alegrense era regra. Compreensível, visto que é uma atividade que surgiu e se desenvolveu primeiramente na Inglaterra. As partidas se chamavam match, os jogadores foot-ballers, assim como muitas posições tinham o seu nome em língua estrangeira: goal-keeper, back esquerdo, back direito, half esquerdo, half centro, half direito.

A exibição do Sport-Club Rio Grande aconteceu em um campo improvisado no Parque da Redenção (Farroupilha), palco de tantos espetáculos da capital do Rio Grande do Sul. Todos os dirigentes de clubes esportivos da capital foram convidados a fim de presenciarem a novidade. A admiração frente ao novo esporte rendeu, dias após, a fundação dos dois primeiros clubes de futebol de Porto Alegre, realizados no dia quinze de setembro de 1903: o Fuss-Ball Club Porto Alegre e o Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense. O primeiro, fundado por sócios do clube de ciclismo Blitz, de origem reconhecidamente germânica, tendo na sede do referido clube seu primeiro local de jogos. Já o Grêmio empossou sua primeira diretoria no dia sete de outubro de 1903, composta pelo presidente: Carlos L. Bohrer; vice-presidente: Joaquim F. Ribeiro; primeiro secretário: Alberto L. Siebel; segundo secretário: Guilherme Kaelfels; tesoureiro: Pedro Schuck. Estas duas equipes polarizariam por alguns anos as principais disputas de futebol da cidade. Se o campo do Fuss-Ball Club Porto Alegre funcionava junto a Blitz, na Rua Voluntários da Pátria, o Grêmio fazia seus matchs no bairro Moinhos de Vento, na sede da Sociedade de Atiradores.

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Bandeira do Fuss-Ball Club Porto Alegre

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 No início de 1904 fora anunciada a primeira disputa entre os dois times porto-alegrenses, que se realizaria no campo da sociedade Blitz no dia seis de março daquele ano e que daria início ao chamado Wanderpreis, que se consistia em uma competição semestral até 1907, quando passou a ser anual.  Foi um torneio patrocinado pelo banco Brasilianische Bank für Deutschland, popularmente conhecido como “Banco Alemão”. Foram dois jogos na mesma tarde, sendo o Grêmio o vencedor de ambos, pelo mesmo placar de 1 a 0.

Mesmo sendo o Wanderpreis a principal competição porto-alegrense até 1910 quando foi criado o campeonato citadino de Porto Alegre pela Liga Porto-Alegrense de Foot-Ball (LPAF), assim como o Grêmio e o Fuss-Ball as duas destacadas equipes da cidade, muitos outros times começaram a surgir e a tornar o esporte cada vez mais popular. São exemplos de times contemporâneos a estes o Sport Club da Bola, Foot-Ball Redempção, Grêmio Foot-Ball Internacional, Sport Club Cruzeiro do Sul, Foot-Ball Club. Pequenas equipes que faziam parte do cenário esportivo porto-alegrense do início do século XX.

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Grêmio tricampeão do Wanderpreis (1904, 1905, 1906)

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É correto afirmar que o Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense já se destacava frente as demais equipes da cidade em relação ao desempenho. Até mesmo na disputa do clássico da cidade, contra a equipe do Fuss-Ball, a superioridade técnica da equipe do Moinhos de Vento era visível. Ao Grêmio era creditado a prosperidade e o gosto generalizado pelo sport, assim como a introdução do nobre ideal da educação física, que era descrita como “único e principal fator na conquista da atividade humana”. No entanto, foi no final da primeira década do século XX que surgiria o seu eterno rival, o Sport Club Internacional, fundado em 4 de abril de 1909 e que abriria caminho para o surgimento e engrandecimento da maior rivalidade do Rio Grande do Sul e uma das maiores do Brasil, o clássico Grenal.

Importante destacar que a palavra “internacional” era um termo recorrente e já bastante utilizado entre associações esportivas porto-alegrenses daquela época. Acontece que em muitas agremiações eram aceitas somente pessoas de determinadas procedências étnicas. Porto Alegre, no caso, tinha os seus dois principais clubes de futebol ligados à comunidade teuto-brasileira, o que limitava o acesso de muitos foot-ballers ao esporte nestes clubes. Esta seria a proposta, portanto. Este clube nasceria com a missão de atender as mais diversas nacionalidades e descendências, ele seria “internacional”.

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Fundadores do S.C. Internacional. Da esquerda para a direita:Valdemar Fachel, Antenor Lemos, Luiz Madeira Poppe, Helderberto Mendonça, Adroaldo Fachel, Bejamim Vignoles, Rodolfo Vignoles, Horácio Carvalho, Joaquim Carvalho, José Poppe, Henrique Poppe Leão e João Leopoldo Seferin (presidente)

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A fundação do Sport Club Internacional está ligada aos irmãos Poppe: Henrique Poppe Leão, José Eduardo Poppe e Luiz Madeira Poppe. Família de origem italiana que chegou de São Paulo e que fora o principal articulador deste novo clube de futebol. O “inter” teve o seu ato de fundação na casa do seu primeiro presidente, João Leopoldo Seferin, que emprestou o porão da residência do pai para a reunião de fundação do clube, na Rua da Redenção, 141 (atual Avenida João Pessoa, na altura do número 1.025). Para presidente honorário foi escolhido Graciliano Ortiz, militar e homem de influência na cidade. Também devido a este prestígio do Sr. Ortiz, é que o Internacional obteve junto à Intendência o seu primeiro campo: a Ilhota (atual Praça Sport Club Internacional).

A dedicação e a empolgação do internacional era tamanha, talvez até por necessidade de afirmação enquanto clube de futebol, que no mês de junho de 1909 já estava combinado o primeiro de centenas de matchs que aconteceriam entre o S.C. Internacional e o Grêmio F.B.P.A. Os jornais colocavam o desafio como uma consagração brilhante e digna do futebol, num match importante e renhidíssimo. O primeiro Gre-nal da história foi disputado no campo do Grêmio, no bairro Moinhos de Vento no dia 18 de julho de 1909 e anotou a maior goleada de todos os tempos, com 10 tentos a 0 para o Grêmio.

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Programa do primeiro Grenal.

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A crônica jornalística registrou o evento como de proporções de um verdadeiro acontecimento no mundo esportivo da capital. Desde cedo a cidade se movimentou, com seus carros e bondes em direção ao Moinhos de Vento para prestigiar o desafio. O Grêmio era colocado como um poderoso team, composto de jogadores experimentados e que tantos aplausos tem colhido, tanto nos seus jogos quanto nos seus treinos. O Internacional era uma promissora nova equipe de amantes do esporte bretão.

E o que aconteceu foi justamente a supremacia de uma equipe experiente sobre uma novata, em um largo placar de 10 a 0 na primeira disputa de centenas que viriam a acontecer até hoje. No entanto, o clima de cordialidade prevaleceu. Um baile foi promovido para celebrar o acontecimento, com brindes, danças, discursos e agradecimentos de ambos os lados.

A prática do futebol em Porto Alegre com o desenvolvimento do século XX ganhou cada vez mais adeptos e era comum verificar a existência de muitas disputas concomitantes na cidade. Eram matchs internos (jogos envolvendo somente os jogadores do próprio clube), matchs externos (desafios entre clubes) sendo realizados em muitos locais da cidade em um mesmo dia. Enfim, se Porto Alegre já era uma cidade adepta das diversões e dos esportes em geral, se rendeu ao enorme sucesso que galgou o jogo bretão.

O esporte era um sucesso. Este processo de crescimento da prática do futebol, que ocorria não somente em Porto Alegre, mas em grande parte do Brasil, principalmente nas suas grandes cidades, era irreversível. Mesmo ainda em um contexto amador, que no Rio Grande do Sul se profissionalizou somente com o decorrer da década de 1930, seus clubes e praticantes já tinham um status elevado e, de certa forma, reconhecimento nacional que daria origem a um dos mais importantes polos futebolísticos do país e do mundo, com dois clubes campeões mundiais da modalidade.

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Desenvolvimento do Esporte: na trilha do Lazer?

12/08/2018

Por Flávia Cruz (flacruz.santos@gmail.com)

No post anterior, meu primeiro aqui no História(s) do Sport, tentei apresentar, ainda que brevemente, indícios de que a industrialização não foi um elemento tão decisivo assim, para a configuração do esporte na cidade de São Paulo. Terminei compartilhando a seguinte pergunta: não haveria elementos mais importantes do que a industrialização, para o desenvolvimento dos esportes na capital paulista? Alguns indícios empíricos de pesquisa, me levam a suspeitar que sim.

Um desses indícios, está ligado à natureza do esporte no século XIX paulistano. Em pesquisa sobre a história do conceito de divertimento, realizada a partir da proposta da história conceitual do historiador alemão Reinhart Koselleck, uma prática que identifiquei como divertimento foi justamente o esporte. Não é que isso seja, exatamente e completamente, uma novidade. Inúmeros trabalhos de Victor Andrade de Melo[1] sobre o Rio já apontaram a indissociação entre esporte e diversão, quando dos seus primórdios. Sobre a cidade de São Paulo, Edivaldo Gois, em artigo, também já indicou tais imbricamentos, mesmo em momento posterior, já no século XX.

Mas o fato de o esporte ser uma das atividades englobadas pelo polissêmico conceito de divertimento, de ser buscado pelos paulistanos quando desejavam alegria, prazer, regozijo, de estar ao lado de práticas como os bailes, o teatro, a música, as zombarias, as touradas, os jogos, a leitura, compartilhando com elas sentimentos, expectativas e funções pode ser um indicativo de como se deu sua configuração. A novidade então, no Brasil, seria compreender o esporte, sua configuração e desenvolvimento na trilha de outras práticas culturais de divertimento.

Tendo em vista que o esporte foi a última prática cultural a chegar à cidade de São Paulo – das que identifiquei como divertimento até 1889 –, e que quando isso aconteceu outras práticas já gozavam de um desenvolvimento mais avançado, como as touradas, o teatro, a dança, não seria pertinente pensar que o esporte se desenvolveu na esteira dos divertimentos que o antecederam, que ele encontrou condições para a sua configuração graças a essas práticas?

Para dar um exemplo, vejamos o caso das touradas em São Paulo, estudado por Victor Melo e por mim e publicado em artigo. Tal divertimento acontecia na capital paulista desde o século 18, patrocinado pelo Estado. Durante o século 19, as touradas assumem novo formato, se tornam eventos empresariais. O Estado, ao invés de ter gastos com sua organização, como outrora, passou a obter receitas, tendo em vista o pagamento de impostos pelas empresas de tauromaquia para a realização dos espetáculos. Os empresários precisavam contratar profissionais, entre eles os toureiros, precisavam pedir licença à Câmara, adquirir gado, divulgar o evento, vender ingressos.

Esse último elemento, colocava uma nova exigência aos organizadores do espetáculo: agradar ao público. Sem isso, o negócio não prosperava, pois o público não comparecia e ainda reclamava, o que, por vezes, gerava incidentes. A necessidade de agradar ao público, fez com que os empresários lançassem mão, rotineiramente, de “novidades”. Eram mais ou menos o que chamaríamos hoje de estratégias mercadológicas. Se os touros ou toureiros não eram bons, a novidade era uma mulher toureira, ou números cômicos e musicais nos intervalos, a realização de sorteios, bem como a diversificação das técnicas de tourear.

Havia, constantemente, a tentativa de aperfeiçoar o espetáculo, de agradar ao público. Quanto maior a expertise do empresário, maior o sucesso das touradas. Em São Paulo o grande nome desse “gênero de divertimento” foi Francisco Pontes. Com passagem por cidades do Brasil e da Europa, esse empresário sabia adequar o espetáculo às exigências dos novos tempos. Instituiu uma diferenciação nos preços dos ingressos, criando o modelo “sol e sombra”, usava estratégias discursivas nos anúncios dos espetáculos, se ligava à causas de interesse público, sua trupe era competente, ele mesmo possuía muitas habilidades como toureiro. É um bom exemplo de empresário do ramo do entretenimento já no século XIX.

As mulheres eram presença frequente nos espetáculos tauromáquicos, como público. Mas foram também, em algumas ocasiões, toureiras e cavaleiras. Nomes como os de Maria de Aguiar Barbosa, Anna Angelica do Espírito Santo, Julia Rachel, Josephina Baggossi, figuraram nas arenas paulistanas, causando frenesi.

O que tento demonstrar com esse exemplo, é que os divertimentos anteriores ao esporte criaram não apenas uma certa ambiência para o desenvolvimento esportivo, mas condições concretas para que isso se desse. A estrutura organizacional, a exibição do corpo humano, inclusive o feminino, em exercício, a exposição ao perigo, a organização de arenas, as estratégias de mercado, são alguns dos elementos que as touradas desenvolveram ou ajudaram a desenvolver, e que podem ter sido aproveitadas pelo esporte para sua configuração. O teatro, a dança, a música, também podem ter oferecido contribuições ao esporte e à sua estruturação?

As questões bem como o raciocínio aqui apresentados tem algumas implicações. Significa e torna necessário pensar o esporte de modo menos autônomo, como uma prática que se desenvolveu em relação com outras, podendo, inclusive, ter se aproveitado de certas estruturas e elementos, desenvolvidos por essas outras práticas, para avançar.

[1] Alguns exemplos: MELO, Victor Andrade de. Esporte e lazer: conceitos – uma introdução histórica. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2010. MELO, Victor Andrade de. O esporte como forma de lazer no Rio de Janeiro do século XIX e década inicial do XX. In: MARZANO, Andrea; MELO, Victor. (orgs.). Vida divertida: histórias do lazer no Rio de Janeiro (1830-1930). Rio de Janeiro: Apicuri, 2010.


A Sociedade Recreio Marítimo: primeira agremiação náutica do país

03/06/2018

por Victor Andrade de Melo

Em 1851, funda-se a Sociedade Recreio Marítimo, a primeira agremiação náutica do país. No final desse ano, Francisco Leão Cohn, filho de negociante francês, militar de destacada carreira, funcionário da Alfândega, secretário do clube, informou que já se contava com 200 sócios e se começava a preparar a primeira regata. Os interessados em competir deveriam se inscrever com o já citado João Manuel Corte Real. Há um diferencial se compararmos com as corridas de cavalos: se estabelecia que amadores deveriam tripular os escaleres[1].

Os preparativos da regata inaugural passaram a ser acompanhados com expectativa, sendo a data estabelecida a partir da confirmação da presença do Imperador. Além disso, teve-se em conta o perfil dos associados para definir o dia 1 de novembro de 1851. Embora houvesse trânsito e coincidências entre os grupos, percebe-se outra diferença entre os envolvidos com o turfe e com o remo:

A escolha do sábado foi determinada por duas razões: a maior parte dos sócios e amadores que têm de entrar nos diferentes páreos pertence à classe do comércio e muitos deles, por princípios religiosos, aos domingos não podem entrar em trabalhos dessa ordem; assim como em dias úteis perde a sociedade a cooperação dessas pessoas que não podiam ser distraídas das operações comerciais[2].

Há duas questões que merecem nossa atenção. A primeira é o limite imposto pela religião: no futuro isso se dissolverá, o esporte se tornará mesmo um concorrente dos cultos, o profano conquistará muitos espaços do sagrado. Na verdade, já naquele ano de 1851, a medida parecia atender mais aos hábitos religiosos de estrangeiros, notadamente de britânicos.

Deve-se também destacar o envolvimento de gente do comércio com a prática de atividades físicas, que, como vimos, no caso do remo era um elemento pronunciado, ao contrário do turfe. Isso será observado em outras ocasiões, como, por exemplo, com as touradas e a ginástica[3].

Como no caso das corridas de 1850, houve grande preocupação em explicar os detalhes técnicos das provas: o horário (em função da condição do mar e do clima), o percurso (tendo em conta o desempenho dos remadores, mas também o público que desejava assistir às contendas), os páreos, disputados por ingleses, alemães, americanos e brasileiros, a maior parte desses ligados à Armada.

Os jornais, aliás, lembravam que os europeus já organizavam regatas com um fim específico: “Nos outros países refutam-se tais funções como incentivos para a construção naval e para a marinha nacional, e os monarcas lhes prestam sua presença e proteção”[4].

Uma vez mais vemos a mobilização da ideia de utile dulce: tratava-se de um divertimento sim, mas que tinha muitas utilidades para a nação. Uma delas, argumento bem semelhante ao de desenvolvimento da raça de cavalos, seria o aperfeiçoamento da Armada. Seu valor parecia irrefutável: era uma diversão séria.

Isso ajuda a entender que um traço do desenvolvimento esportivo nacional seja a constante presença de militares, os do Exército mais ligados ao turfe, enquanto os da Armada mais ao remo, um quadro que vai se complexificar às vésperas da proclamação da República, quando os civis republicanos relacionavam-se mais ao segundo, preferido daquela Força Armada que se mantivera mais monarquista, na mesma medida em que os civis monarquistas preferiam o primeiro, mais ligados à Força na qual o pensamento republicano floresceu.

No que tange à organização do evento, havia uma notável preocupação: em função das peculiaridades da modalidade, como oferecer condições de confortos aos influentes que comparecessem? A solução encontrada foi: alguns proprietários de casas na praia de Botafogo as ofeeceram para recepção; foram cedidas, para acolher alguns convidados, salas do Hospício Pedro II (hoje campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro); uma parte do público se distribuiu por navios a vapor e embarcações a vela, que também demarcavam a raia. Refrescos, boa comida, músicas e danças eram oferecidos como atrativos à parte[5].

Chegou a haver um debate sobre os moldes do evento, tendo alguns estranhado o horário (manhã) e o local da raia (na altura da praia da Saudade, hoje ocupada pelo Iate Clube do Rio de Janeiro). Segundo os críticos, o calor e a dificuldade de acesso afastariam os interessados, sendo melhor transferir para a parte da tarde e utilizar a faixa que já estava consagrada pelas corridas de cavalos (o trecho que vai do Caminho Velho, atual Senador Dantas, até a São Clemente): “salvo se o divertimento é exclusivo para os sócios, e o público for considerado intruso nele”[6].

O debate antecipa em alguns anos o que se constituirá em outro diferencial do remo em relação ao turfe: o seu caráter supostamente mais popular por ser realizado em um espaço público, em que não era necessário pagar ingressos. Aliás, a regata de 1851 ocorreu no mesmo local onde a modalidade viveria seu momento áureo, no qual, nos anos iniciais do século XX, seria construído, por Pereira Passos, o Pavilhão de Regatas, a primeira tribuna fixa para a modalidade náutica[7].

Atendendo aos pedidos, o horário foi alterado para a tarde. Um conjunto de remadores, todavia, ameaçou não competir, sugerindo que não faria bem fazer exercícios físicos depois de jantar (que na ocasião ocorria ao redor das 14-15 horas). Os jornais criticaram muito tal posição[8]. Um dos sócios, que, assina como Remador, defendeu o ponto de vista dos competidores, mas conclamou:

Pedimos-lhes em nome da associação que compareçam, remem, brinquem, dancem, em uma palavra, que não deem cavaco; e aconselhamos-lhes também que finda as festas providencias tomemos em nossos estatutos para que não possam ser eles alterados à vontade da minoria contra a maioria[9].

A regata inaugural entusiasmou mesmo um setor da cidade. Às vésperas, a matéria de capa da Marmota na Corte (que se apresentava como “jornal de modas e variedades”) é uma expressão dessa expectativa. De início, se elogia um dos dinamizadores do Recreio Marítimo, Angelo Muniz da Silva Ferraz, inspetor da Alfândega e importante político do Império (foi ministro e agraciado com o título de Barão de Uruguaiana), por liderar uma iniciativa que poderia contribuir para solucionar um sério problema da cidade: “A falta de divertimentos públicos e gratuitos”[10]. Ressaltava-se o fato de que, para comparecer aos eventos náuticos, bastaria apenas arcar com as despesas de “transporte e comestível”.

Para o cronista, merecia ainda destaque o fato de que o divertimento era adequado à presença feminina. Lembrava que Ferraz também era dirigente do Recreação Campestre, outra agremiação que acolhia bem as mulheres, inclusive em função do grande número de bailes que promovia.

Sendo uma expressão dos “novos tempos”, para o periodista não surpreendeu que a iniciativa contasse com o apoio do Imperador e da família real, que honrariam: “com suas presenças o divertimento da fogosa mocidade nacional e estrangeira”. Para ele: “Assim o Magnânimo Príncipe se mostra o primeiro a interessar-se pelo seu povo, tanto no que lhe é útil, como no que lhe pode ser agradável. Deus o ajude e lhe conserve os dias para que seja o penhor da paz e da integridade do Império”. A celebração, enfim, era intensa:

Como lindo o Botafogo

Não ficará nesse dia,

Vendo correrem de aposta

Muitos botes à porfia!

De carros e seges a praia hordada,

Bordado de moças o cais ficará.

De imensa faluas aquela enseada

Que vista agradável então formará!

Patuscos folgai

Que tendes ensejos

De pordes em prática

Os vossos desejos!

Voar hade a notícia da Regata

Desde o Amazonas

Até o Prata.

Se a expectativa era grande, o resultado não deixou a desejar. O Correio Mercantil dedicou quatro colunas para comentar o evento. Para o cronista, a cidade já tinha “bailes mascarados”, “óperas italianas”, “corridas de cavalos”,: “só nos faltavam na verdade as regatas, que, para ser francos, devemos dizer, consideramos mais úteis (…)”[11]. O momento era mesmo de otimismo:

Somos hoje na verdade o povo mais feliz do mundo! Tudo anda neste belo Rio de Janeiro às mil maravilhas! Divertimentos e mais divertimentos! As sociedades bailantes multiplicam-se, as de música crescem progressivamente, os soirées e saraus dão-se de continuo, as corridas de cavalos ao Prado Fluminense, a Regata recreio marítimo!! E até o Pão de Açúcar já serve para um tour de promenade; e isto sem falarmos nos nossos dois teatros que com suas portas abertas dão ingresso quase todos os dias aos espectadores destes divertimentos. E que viva o pais que nos viu nascer, que vai todo em folia[12].

A ideia de utile dulce a todo momento veio à tona. Para um jornalista, era urgente desenvolver o espírito marítimo no Brasil, em função de sua imensa costa. Nesse sentido, “nada pode contribuir tanto para esse resultado do que as regatas, que fazem tomar para objeto de divertimento aquilo que em outras ocasiões é considerado pesadíssima tarefa”[13]. Os exemplos da Inglaterra, França e Estados Unidos são mobilizados como comprovações dessa utilidade.

Haveria ainda outra grande potencialidade. Como supostamente nossa “raça” seria “naturalmente fraca e indolente”, o remo seria o estímulo necessário para reverter tal situação: “o exercício de remar é um dos mais violentos, porém ao mesmo tempo é um dos que mais desenvolve a força física”. Para ele, com o apoio do governo, a modalidade traria benefícios inegáveis para a população.

Segundo o empolgado cronista, o novo espírito público propugnado pela Sociedade Recreio Marítimo fazia-se sentir já nas embarcações destinadas aos convidados, que conversavam de forma animada, amistosa e respeitosa, inclusive desfrutando da companhia de “belas e elegantes senhoras”.

O aspecto da enseada também chamou sua atenção: eram embarcações diversas ancoradas e muito público espalhado na areia e nas casas da praia de Botafogo. De uma delas, de propriedade do na época Visconde de Abrantes, D. Pedro II e a família real assistiram às competições[14].

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1ª Regata da Sociedade Recreio Marítimo na Enseada de Botafogo em 1º de Novembro de 1851

Litografia (300 x 480 mm) de A. L. Guimarães, impressa na oficina de Heaton e Rensburg. Acervo da Biblioteca Nacional (FERREZ, Gilberto. A muito leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Castro Maya, 1965).

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Entre as provas, parece ter chamado a atenção um páreo em que se enfrentaram equipes de alemães, ingleses, americanos e brasileiros, sagrando-se vencedora, para entusiasmo do público, a guarnição do escaler Nympha, que competia com a bandeira do Brasil na proa e na proa. O clima de grande festividade se misturava ao de patriotismo, que chegou a seu auge por ocasião da cerimônia de premiação, quando o hino nacional foi executado em homenagem ao Imperador. Não houve, aliás, prêmios em dinheiro, apenas presentes. Deixava-se claro que eram amadores os competidores.

Segundo os cronistas, comentou-se largamente que foi das maiores celebrações já vistas na capital. Estima-se que mais de 10 mil pessoas tenham comparecido ao evento, elogiado pela organização e animação. Os principais diretores do Recreio Marítimo, os já citados Ferraz e Cohn, bem como Leopoldo Augusto da Camara Lima (Barão de São Nicolau, Guarda-Mor da Alfândega) e Joaquim Marques Lisboa (o futuro Almirante Tamandaré), foram exaltados pelo contributo dado à nação. Para um jornalista, o Brasil finalmente “adquiriu o direito a poder marcar uma época de civilização, de confraternidade, de magnificência”[16].

Ainda demoraria alguns anos para o remo definitivamente se consolidar. De toda forma, parece possível afirmar que, naqueles meados de século, o esporte já era apreciado pela população, articulando-se com as mudanças pelas quais passava a sociedade da Corte e com alguns importantes temas da nação. O campo esportivo já tinha, ainda que embrionariamente, seus elementos constituintes delineados.

[1] Diário do Rio de Janeiro, 20/10/1851, p. 2.

[2] Correio Mercantil, 27/10/1851, p. 3.

[3] Para mais informações, ver: MELO, op. cit., 2013b; MELO, op. cit., 2013c; e PERES, MELO, op. cit.

[4] Correio Mercantil, 27/10/1851, p. 3.

[5] O evento, aliás, terminou com um grande baile, oferecido em um barco, que só terminou à meia-noite.

[6] Correio Mercantil, 28/10/1851, p. 1.

[7] MELO, op. cit., 2001.

[8] Correio Mercantil, 31/10/1851, p. 1.

[9] Correio Mercantil, 31/10/1851, p. 3.

[10] Marmota na Corte, 31/10/1851, p. 1.

[11] Correio Mercantil, 3/11/1851, p. 1.

[12] Periódico dos Pobres, 4/11/1851, p. 1.

[13] Correio Mercantil, 3/11/1851, p. 1.

[14] Tratava-se da mesma casa onde seu pai, Pedro I, acompanhara as corridas de cavalos de 1825.

[15] Litografia (300 x 480 mm) de A. L. Guimarães, impressa na oficina de Heaton e Rensburg. Acervo da Biblioteca Nacional (FERREZ, Gilberto. A muito leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Castro Maya, 1965).

[16] Uma descrição mais detalhada e menos apaixonada das regatas pode ser vista em: Diário do Rio de Janeiro, 3/11/1851, p. 1.

* Para mais informações, ver:

MELO, Victor Andrade de. Antes do club: as primeiras experiências esportivas na capital do império (1825-1851). Projeto História, São Paulo, v. 49, p. 1 – 40, 2014.

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