Momentos iniciais do turfe em São Paulo

16/06/2019

Por Flávia da Cruz Santos
flacruz.santos@gmail.com

Foi no último quartel do século XIX que o turfe se organizou na capital paulista, ocupando lugar de destaque nas colunas esportivas dos jornais. Durante décadas ele foi mesmo o único esporte a figurar em tal coluna no jornal A Província de São Paulo (que com a República passou a se chamar O Estado de São Paulo).

O turfe, assim como a equitação, era uma prática das elites, a elas ligada e por elas valorizada. As famílias tradicionais paulistanas, além de frequentarem as corridas eram proprietárias dos cavalos corredores. Elas adquiriam cavalos direto da Europa, para correr em São Paulo, e as apostas efetuadas nessas corridas movimentavam altos valores monetários. Assim, além de ser um animal valorizado devido à sua importância na realização de trabalhos cotidianos, o cavalo era um animal valorizado também por estar ligado às práticas de divertimento das elites, apesar de o argumento utilizado ser o de melhoramento da raça cavalar.

Em 22 de outubro de 1876 a capital paulista inaugurou o seu primeiro espaço destinado às corridas de cavalos: o Hipódromo Paulistano[1]. No entanto, há indícios de que antes do hipódromo as corridas de cavalos já aconteciam em espaços improvisados na cidade, mas nos faltam dados. E há indícios também da existência de um outro prado, o Derby Club, que parece ter funcionado a partir do ano de 1891[2].

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As corridas que ocorreram no Hipódromo Paulistano foram organizadas, sobretudo, pelo Jockey Club, fundado em 1875 com o nome Club de Corridas Paulistano. Essa associação abria inscrições para as corridas uma ou duas semanas antes das mesmas acontecerem. Era quando então, os proprietários dos cavalos podiam inscrever seus animais e seus jóqueis. Os sócios do clube recebiam ingressos para assistir às corridas, enquanto os demais interessados deviam compra-los.

Raphael Aguiar Paes de Barros, depois de voltar de uma viagem à Inglaterra, se uniu a mais quatorze membros da seleta elite paulistana para fundar tal clube. Eles eram filhos de senadores, de barões, de ricos fazendeiros de café. Raphael era filho do Barão de Itu e neto do Barão de Iguapé. Um outro fundador do clube de corridas foi Antônio da Silva Prado, que a essa época também se tornara empresário do Teatro São José, e era membro de uma das famílias mais ricas da cidade. Raphael de Barros havia estudado na Inglaterra, e Antônio Prado na França.

Ser membro da elite não significava apenas possuir muito dinheiro e títulos aristocráticos, era preciso também estar afinado com os padrões comportamentais europeus. Daí o envolvimento da elite paulistana na criação de sociedades de caráter cultural. Era uma estratégia de legitimação social, além de ser uma forma de obter lucros monetários.

As provas no hipódromo aconteciam aos domingos, sem, no entanto, uma constância regular ou calendário fixo. Em alguns anos houve corridas distribuídas ao longo de todos os meses, em outros, entretanto, as corridas se concentraram em alguns meses. Em 1891, por exemplo, o calendário de corridas só teve início em maio, mas perdurou até dezembro. Enquanto em 1895, as corridas aconteceram de janeiro a abril, sofreram interrupção em maio, só voltando a ser promovidas em julho.

 O motivo, apresentado pelos jornais, das irregularidades da presença do turfe na cidade, era a falta de animais adequados[1]. Quando o Jockey Club realizava corridas com poucos cavalos inscritos, como fez em 1894, o volume de apostas era menor, em relação às corridas com número maior de animais.

Assim, ao invés de obter lucro, como era comum acontecer em associações dessa natureza, o Jockey Club obteve prejuízos. E sem lucro, cessava a importação de parelhas (como também são chamados os cavalos corredores), o que muito impactava o turfe, já que os cavalos de corrida nacionais não apresentavam a mesma qualidade e desempenho dos importados. Menor qualidade dos animais significava menores apostas.

Numa tentativa de resolver o problema, houve a importação de cavalos por membros da elite paulistana, como foi o caso de Francisco de Queiroz Netto, que realizou importações entre 1894 e 1895. No entanto, tal iniciativa não foi suficiente, pois nos anos seguintes as corridas continuaram a acontecer de modo irregular.

As dificuldades financeiras enfrentadas pelo turfe eram tamanhas, que os membros do Jockey Club pediram auxílio ao poder estadual, que atendendo à solicitação, passou a financiar uma prova de turfe por ano. Era o chamado Grande Prêmio Estado de São Paulo. Não era a primeira vez, no entanto, que os poderes públicos auxiliavam tal associação. Na época do Império, os cofres provinciais também financiaram um prêmio anual.

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Hipódromo Paulistano, s/d. Fonte: < http://www.jockeysp.com.br/historia.asp >

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Apesar de ser uma prática ligada às elites e de possuir status, o turfe foi alvo de críticas por ser um esporte envolvendo apostas. Essas críticas se deram em um momento, 1895, em que a Câmara Municipal proibia os frontões justamente por realizarem apostas, e não agia do mesmo modo com as corridas de cavalo. Os adeptos do jogo da pela, então, reagiram. E como dizem que a melhor defesa é o ataque, eles foram aos jornais atacando não apenas a Câmara por tal atitude, mas também o Jockey Club. Se as elites podiam realizar apostas em suas práticas esportivas, porque as camadas populares não podiam fazer o mesmo?

Para se defender, o Jockey Club e os adeptos das corridas de cavalo sempre diziam que possuíam um objetivo nobre: o de desenvolver a raça cavalar brasileira, o que era chamado por eles de indústria pastoril. Objetivo que, aliás, diziam eles, estava muito de acordo com o momento vivido por São Paulo, de expansão, desenvolvimento e progresso industrial.

Quando em 1900, um deputado finalmente incluiu tal sociedade na lista daquelas que exploravam o jogo na capital paulista, o jornal O Estado de São Paulo saiu em sua defesa[1]. Houve discussão entre os jornais Correio Paulistano e O Estado de São Paulo quanto a essa questão. O Estadão criticava os frontões e apoiava a Câmara na decisão de proibi-los, enquanto o Correio, fazia exatamente o oposto: apoiava os frontões e criticava a proibição da Câmara. Isso era uma mostra dos interesses defendidos por esses jornais.

O ano de 1900 não foi mesmo um bom ano para o turfe paulistano. As corridas foram esparsas, houve uma em janeiro, outra em junho e somente a partir de outubro é que elas tiveram alguma frequência até dezembro. Em 1901 o Jockey Club mais uma vez recorreu aos poderes públicos, dessa vez municipais, que financiaram uma prova, intitulada Grande Prêmio Municipal. Essa prova continuou acontecendo nos anos que seguiram, mas não foi suficiente para devolver ao turfe o sucesso dos primeiros anos.

O turfe paulistano fechou a primeira década do século XX em crise. Suas receitas não eram suficientes sequer para arcar com as despesas do hipódromo e do Jockey Club Paulistano, que a essa altura devia impostos, corridas eram canceladas devido ao pequeno número de cavalos inscritos, e o público já não tinha o mesmo interesse de outrora, comparecendo pouco.

Mas foi entre altos e baixos que o turfe se fixou na capital paulista. Ele surgiu em um momento de grandes transformações não apenas para São Paulo, mas para toda a nação. Atravessou mudanças sociais, culturais, econômicas e políticas. Viveu o momento em que a cidade abandonava definitivamente sua condição de pouca expressividade para se tornar a maior metrópole do país.

Atravessou a transição do Estado imperial escravocrata para a república de trabalho assalariado. Viveu os momentos prósperos do café, e também seus momentos de crise, que fizeram com que alguns de seus adeptos e promotores deixassem a condição de elite para se tornarem membros da classe média. E foi em meio a esse contexto efervescente de mudanças, que o turfe passou a fazer parte da vida de São Paulo, estando até hoje presente no cotidiano da cidade.

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[1] O Estado de S. Paulo, 9 de janeiro de 1895, p. 1.

[1] O Estado de S. Paulo, 28 de junho de 1891, p. 2; O Estado de S. Paulo, 24 de janeiro de 1895, p. 1.

[1] A Província de S. Paulo, 15 de outubro de 1876, p. 4.

[2] O Estado de S. Paulo, 18 de agosto de 1891, p. 2.

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NOTA DE PESAR – GILMAR MASCARENHAS DE JESUS

10/06/2019

Caras e caros amigos

Com muito pesar, recebemos a notícia do falecimento de nosso parceiro, colega, amigo Gilmar Mascarenhas de Jesus.

Gilmar foi nosso parceiro desde a criação de nosso Laboratório, no ano de 2006. Perdemos a conta do número de vezes em que esteve conosco em nossas iniciativas. Figura por nós admirada, nunca deixou de aceitar um convite, sempre iluminando nossas ações.

No meu caso, o conheço desde bem antes. Conhecemo-nos em 1996, quando ambos davam seus primeiros passos nos Estudos do Esporte. Éramos poucos. Nesses mais de 20 anos, fizemos juntos muitas coisas – palestras, eventos, bancas. Por ocasião de sua banca de titular, da qual tive a honra de integrar, lembrávamos de uma proposta de livro em conjunto tantas vezes alinhavada, mas nunca efetivada em função de tantos compromissos. Também celebramos muito, festejamos muito, desfrutamos. O amigo Gilmar aproveitou muito a vida, mesmo tendo em muitos momentos uma trajetória dura, típica de quem vem do subúrbio e tem que romper os muros invisíveis (mas rígidos) dessa cidade.

Gilmar foi um pesquisador notável. Aliava profundidade conceitual e rigorosidade empírica com intenso compromisso político. Não tergiversou, não temeu, não recuou, isso tudo sempre com um caráter amigo, amistoso e bem humorado. Para além disso, foi um pai e avô apaixonado, um amigo querido por todos.

Perdemos um amigo indescritível, um colega de grande valor, um homem com uma história incrível. Fica a obra. Ficará por muito tempo. Fica também a saudade. Mas fica a lembrança dos bons momentos.

Em nome de nosso Laboratório, envio à família nossos pêsames e o desejo e muita luz e força.

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Victor Melo
Sport: Laboratório de História do Esporte e do Lazer
UFRJ


Os primórdios do futebol na Alemanha (1874-1914)

20/05/2019

Elcio Loureiro Cornelsen
(cornelsen@letras.ufmg.br)

No século XIX, a principal modalidade esportiva em termos de popularidade na Liga Alemã (Deutscher Bund) era o Turnen, ou seja, a ginástica conforme fora concebida pelo pedagogo e político Friedrich Ludwig Jahn (1778-1852), mais conhecido como “Turnvater Jahn”, “Jahn, o Pai da Ginástica”. Originalmente, o Movimento pela Ginástica (Turnbewegung) concebido e propagado por Jahn estava associado ao proto-nacionalismo alemão gerado no contexto das Guerras Napoleônicas. Assim idealizada, a ginástica destinar-se-ia à preparação da juventude na luta contra a ocupação napoleônica dos Estados alemães.

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Friedrich Ludwig Jahn – litografia de Georg Engelbach (1852)
Disponível em: https://upclosed.com/people/friedrich-ludwig-jahn/

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Naquela época, cada vez mais, exercícios físicos eram conduzidos em grupos e associações que valorizavam a disciplina e o condicionamento nos moldes do militarismo, bem como noções como harmonia, uniformidade e comunidade, a partir do princípio dos quatro “f”s – frisch, fromm, fröhlich, frei – vigoroso, devotado, alegre, livre. Por um lado, rejeitava-se o desempenho individual e, por outro, considerava-se prejudicial a disputa orientada por desempenho. Era, pois, uma prática de atividades corporais ritualizadas e coreografadas, como uma série de fotografias registrou tal fenômeno esportivo.

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XII. Festa Alemã da Ginástica em Leipzig
13 de julho de 1913
35 exercícios gerais livres – 17.000 ginastas
Disponível em: https://www.laturners.org/turnfest-2017-in-berlin/

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Foi exatamente nesse cenário que o futebol chegou à Alemanha em meados da década de 1870, praticamente apenas quatro anos após o país ter se constituído enquanto Estado Nação, fundado em janeiro de 1871, no contexto da vitória prussiana sobre a França. Em seus primórdios, o esporte bretão surgia como uma alternativa atraente ao Turnen: ao invés de um grupo difuso de praticantes entrava em cena uma equipe formada por 11 jogadores, a qual se lançava em disputa com outra equipe formada igualmente por 11 jogadores. Ao mesmo tempo, toda equipe necessitava de conjunto e de individualidades que se destacassem em relação à equipe adversária. Portanto, ao contrário do Turnen, o futebol incentivava a disputa, o que significava que, para se estabelecer como prática esportiva alternativa, seria necessário que ocorresse uma profunda mudança de visão em relação à cultura de práticas corporais e esportivas.

Aquilo que nos dias atuais nos parece óbvio, de que o futebol seria um esporte de contato físico, foi um aspecto que fascinou os primeiros praticantes em terras germânicas, pois permitia usar o corpo de uma maneira mais livre, descontrolada e intensa do que aquele modo de lidar com o corpo no Turnen. Quando os primeiros professores introduziram a prática do futebol em suas aulas, as primeiras turmas do ensino primário se mostraram encantadas com a novidade. Todavia, as turmas do ensino médio sentiam-se constrangidas ao terem de disputar uma partida trajando calça curta em público. E há vários relatos daquela época noticiam um constrangimento público causado por jogadores, quando estes atravessavam a rua vestidos com calções, indo em direção ao campo – naquela época, ainda não havia campos determinados, vestiários ou sedes clubísticas.

Assim como Charles Miller (1874-1953) figura como sendo o “pai do futebol” no Brasil, a Alemanha também conheceu um pioneiro da difusão do esporte bretão: Konrad Koch (1846-1911), um professor de Inglês que atuava no Colégio Martino-Katharineum, na cidade de Brauschweig, e que, em 1875, publicou em Alemão as primeiras regras do futebol., após ter estado uma temporada na Inglaterra. Inicialmente, a nova prática esportiva encontrou resistência entre pedagogos mais afeitos ao Turnen, pois a consideravam uma “doença inglesa”, a qual deveria ser combatida.

Por sua vez, o futebol parecia ser uma nova manifestação cultural da juventude, que assimilava as tendências que chegavam do Exterior, fato que acabou por levar as agremiações de Turnen a se abrirem e adotarem o futebol. Na virada do século XIX para o XX, o futebol permanecia um domínio masculino que pouco atraia as mulheres, e que era praticado em ambientes que não lhes permitia o acesso.

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Wilhelm Carl Johann Conrad Koch
Disponível em: https://alchetron.com/Konrad-Koch

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Além de difundir as regras para a prática do futebol, Konrad Koch incluiu em sua publicação também regras para o cuidado com a saúde de seus alunos: fracos e doentes só poderiam praticar futebol mediante permissão médica; era terminantemente proibido praticar futebol sem a supervisão do professor; em condições de tempo adversas, só jogariam aqueles que se dispusessem voluntariamente; recomendar-se-ia ao aluno acometido de gripe que usasse blusa de lã em jogos de futebol durante a tarde. A iniciativa pedagógica de Konrad Koch logo se difundiu para outros colégios na Alemanha, em cidades como Göttingen, Hannover e Hamburgo.

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Regras da Agremiação de Futebol do Ensino Médio
Do Colégio Martino-Catharineum (1875),
publicação de Konrad Koch
Disponível em: https://www.braunschweig.de/leben/stadtportraet/geschichte/konradkoch/143010100000149645.html

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Todavia, para além do âmbito dos colégios, o fascínio pelo futebol cresceu rapidamente no Império Alemão. Logo se formaram alguns centros em que o futebol passou a ser praticado, sobretudo aqueles que possuíam laços estreitos com a Inglaterra: Munique, Karlsruhe e Berlim. Em 1890, foi fundada na capital do Reich a Liga Alemã de Jogadores de Futebol (Bund Deutscher Fußballspieler). Entretanto, o desejo de se ter um órgão central que organizasse a prática do futebol no país levou à criação da Liga Alemã de Futebol (DFB – Deutscher Fußballbund) em 28 de janeiro de 1900.

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Primeira representação do futebol em Berlim (1892), ilustração deErnst Limmer:
Disputa entre uma seleção de Berlim e o Dresdner Fooball Club
Disponível em: https://www.berliner-zeitung.de/berlin/stadtgeschichte-wie-der-berliner-fussball-erwachsen-wurde-24482938

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Desde o início, o futebol esteve envolvido com questões políticas. No tempo do Império (1871-1918), as tensões entre a Alemanha e outras nações, sobretudo a Grã-Bretanha, atingiram também o âmbito do futebol. Naquele período, o futebol era interpretado como parte de estratégias de educação física para elevar o potencial de combatividade dos jovens, bem ao estilo do militarismo alemão da época, que via nos esportes coletivos tal potencial. Assim, as equipes surgiam como mimetizações de dois exércitos que se combateriam no campo de jogo (Spielfeld), igualmente como mimetização do campo de batalha (Schlachtfeld), em movimentos de defesa (Verteidigung) e ataque (Angriff). Tais tensões chegaram a atingir também o âmbito lingüístico: puristas da Língua Alemã criticavam o amplo uso do jargão futebolístico em Inglês.

Não é por acaso que, em seus primórdios, o futebol tenha se difundido entre as camadas sociais mais abastadas, que possuíam tais contatos através de universidades, escolas ou ambientes profissionais, contando com estudantes, comerciantes e engenheiros britânicos que queriam manter os laços com a terra natal através da prática esportiva que mais se popularizava à época.

Entretanto, não demorou muito até que o futebol se tornasse, igualmente, popular entre as camadas operárias. Um exemplo patente desse fenômeno no contexto alemão foi a fundação do Fußball-Club Gelsenkirchen-Schalke 04 em 04 de maio de 1904, até hoje, um dos clubes mais populares do país, por jovens operários em Gelsenkirchen, uma das principais cidades do Vale do Ruhr, região de produção de carvão e de indústria pesada, e, portanto, distante de centros comerciais ou mesmo universitários.

Assim, o futebol se tornou uma prática esportiva em franco desenvolvimento na Alemanha, evidenciado pela crescente importação de equipamentos para sua prática, como camisas, bolas e chuteiras. Além disso, equipes inglesas que excursionavam pelo país atraiam a atenção de um bom público, e o jargão do futebol em Inglês começou a se estabelecer em solo alemão como índice de modernidade. Da mesma forma, no início o século XX, equipes alemãs excursionaram pela Inglaterra e por outros países da Europa. O Sport Club Freiburg, por exemplo, viajou para a Itália em 1914 e disputou partidas em Gênova. No ano anterior, a equipe do sul da Alemanha já havia excursionado pela Suíça, apresentando-se nas cidades de Olten e da Basiléia.

A rápida ascensão do futebol como esporte popular na Alemanha deveu-se ao sucesso da organização da DFB, bem como à criação de um campeonato alemão em 1903, à formação de uma seleção nacional que, a partir de 1908, passou a disputar jogos internacionais, e à criação de associações estaduais e regionais. A iniciativa pioneira de Konrad Koch, de meados dos anos 1870, passados quase 150 anos, resultou em inúmeros frutos que tornaram a Alemanha uma das potências do futebol mundial, tetracampeã de 1954, 1974, 1990 e 2014. Nos dias atuais, a Bundesliga – Campeonato Alemão da primeira divisão – é um dos principais campeonatos do planeta.

Referências

BRÜGGEMEIER, Franz-Josef. Anfänge des modernen Fußballs. Informationen zur politischen Bildung. n. 290, p. 7-13, 1º Quartal 2006.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Sentimento e política no futebol alemão: construções da “nação” em 1990 e 2006. História: Questões & Debates. Curitiba, n. 57, p. 73-99, jul./dez. 2012. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/historia/article/download/30573/19765 ; acesso em: 29 abr. 2019.

CORNELSEN, Elcio Loureiro; CURI, Martin; HOLLENSTEINER, Stephan. Kleines Wörterbuch zum deutschen und brasilianischen Fußball. ed. bilíngue português-alemão, Rio de Janeiro: DAAD, 2014.

GÜLDENPFENNIG, Sven. Frisch, fromm (?), Freiheit, Frieden. In: LIENEN, Ewald et al. (org). Oh!Lympia: Sport, Politik, Lust, Frust. Berlin: Elefanten Press, 1983, p. 165-167.

RÜRUP, Reinhard. Organized Sports in Germany. In: RÜRUP, Reinhard (org.). 1936: Die Olympischen Spiele und der Nationalsozialismus. 2. ed. bilíngue alemão e inglês, Berlim: Stiftung Topographie des Terrors, 1996, p. 20-27.

Site do Deutscher Fußballbund (DFB): https://www.dfb.de/historie/dfb-historie/

Site da Enciclopédia Alchetron: https://alchetron.com/Konrad-Koch

Site do Los Angeles Turners: https://www.laturners.org/turnfest-2017-in-berlin/

Site da cidade de Braunschweig: https://www.braunschweig.de/leben/stadtportraet/geschichte/konradkoch/143010100000149645.html

Site do jornal Berliner Zeitung: https://www.berliner-zeitung.de/berlin/stadtgeschichte-wie-der-berliner-fussball-erwachsen-wurde-24482938

Site da Upclosed: https://upclosed.com/people/friedrich-ludwig-jahn/

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Avenida, tu és o culpado!

25/02/2019

Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

A noite era de uma escaldante quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019, naquela cidade que adotei como minha, a maravilhosa e complicada Rio de Janeiro. Acabava de ministrar uma aula onde debatíamos sobre as ideias de modernidade e sua influência no mundo contemporâneo. Exemplos não faltavam: a ciência, o humanismo, a industrialização e o esporte… No entanto, ao deparar-me com o avançado horário, minha preocupação foi a de verificar o placar de uma histórica partida de futebol que estava acontecendo naquele momento: Corinthians Paulista 0, Avenida 2! Mal poderia acreditar! O placar final foi o menos importante. O pequeno Avenida de Santa Cruz do Sul, minha terra natal, se tornara um gigante conhecido nacionalmente. Naquela mesma noite decidira que o meu próximo texto trataria sobre o E.C. Avenida.

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A verdade é que esse jogo vencido pelo bicampeão mundial, detentor de uma das maiores torcidas do país sobre um pequeno clube do interior do Rio Grande do Sul, que disputava a Copa do Brasil pela primeira vez e foi eliminado na segunda rodada, pouca diferença fez na história do esporte do Brasil. Contrariamente, após aquele memorável derby, o meu olhar sobre a história, assim como a minha percepção sobre a minha origem e a minha opção em me tornar um pesquisador do esporte foi totalmente reformatada e rearranjada.

Nas minhas muitas reflexões sobre aquele momento de quarta-feira a noite e o objeto de estudo da minha tese de doutorado e de outras pesquisas que desenvolvi e ainda desenvolvo, não pude deixar de lembrar da minha orientadora do mestrado, a professora Sandra Pesavento. A memorável historiadora tratava a história, também, como o resultado do “sensível”. Ela destacava que o papel do historiador era ter a percepção necessária para reconhecer nas fontes históricas as “sensibilidades” de uma época, de um local, de uma relação social. E aquele momento foi o responsável por aflorar uma série de lembranças da minha infância que, não poucas vezes, me deixaram com os olhos marejados.

Este não é um texto que trata sobre uma análise científica, mas uma simples reflexão sobre como o esporte marca profundamente as relações sociais, a formação e o futuro. Talvez por isso que eu tenha me apaixonado tanto por esse objeto de estudo. O esporte fascina, une, mas também divide, faz chorar em momentos alegres e tristes. Se, nas inúmeras reflexões sobre a história e desenvolvimento do esporte e do campo esportivo fomos levados a relacionar essas práticas com a racionalidade, a ciência e a modernidade, como associá-lo, ao mesmo tempo, ao inconsciente, a emoção, ao “sensível”?

Após o jogo de quarta-feira, percebi que meu gosto pelo esporte não estava ligado aos megaeventos ou aos grandes times (o Grêmio que me perdoe). As lembranças mais fortes e que não pararam de renascer a cada momento, estavam associadas a minha infância em Santa Cruz do Sul e as primeiras experiências com o futebol. Como não lembrar dos primeiros jogos onde eu era levado pelo meu pai jogador, vestido com o uniforme do time, e posava orgulhosamente para a foto do jogo? Como apagar da lembrança todas as histórias contadas, feitos memoráveis, conquistas épicas? Como esquecer aquela caixa de medalhas escondida lá na última e mais alta porta do roupeiro dos meus pais que regularmente me era mostrada envolta em uma magia indescritível como se fossem (ou de fato eram) troféus de batalhas?

No entanto, o primeiro clube que aprendi a admirar foi o Avenida. Desde a mais tenra idade ele esteve envolto no meu imaginário. Ouvia histórias a seu respeito nas rodas de conversa após os jogos onde eu acompanhava meu pai. Também foi o Estádio dos Eucaliptos o palco das primeiras “grandes” disputas que pude presenciar. As arquibancadas de cimento, a tela enferrujada que era o limite entre o campo e a torcida, o tradicional cachorro quente de linguiça, até mesmo aqueles históricos torcedores que tinham o seu lugar cativo, são lembranças emocionadas que tenho daquele tempo.

Tudo isso me fez pensar. Enquanto historiador do esporte, até quando somos cientistas racionais, analistas das fontes históricas? Quando deixamos que as nossas lembranças, carregadas de sentimento, interfiram na crítica do historiador? Infelizmente, eu não tenho respostas. Depois de quarta-feira a história se tornou ainda mais complexa pra mim. Continuarei abordando a metodologia histórica em sala de aula e a necessidade do distanciamento com o objeto, mas sem ter a convicção da real possibilidade que isso aconteça. No entanto, uma certeza eu tenho: Avenida, tu és o culpado!

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UM PIONEIRO CLUBE DO BARRETO (NITERÓI)

27/01/2019

Por Victor Andrade de Melo

Como já informei em outro post, em breve, se tudo der certo, lançarei um livro sobre a vida esportiva de Niterói. Este post é um extrato dessa obra, a parte dedicada a discutir uma pioneira agremiação que foi fundada no Barreto, um dos bairros mais interessantes da Cidade Sorriso.

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Foi em 1881 que surgiram, em Niterói, os primeiros indícios de fundação de uma agremiação dedicada às corridas a pé, uma reunião realizada no Congresso Literário Guarany. Em julho, realizou-se a primeira atividade do Clube Atlético Brasileiro, evento promovido nas terras de Domingos Moutinho – conhecido dirigente da Companhia Carris Urbano –, localizadas no Largo do Barreto, na ocasião situado à beira da Praia dos Coqueiros.

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Anúncio de corridas do Clube Atlético Brasileiro
O Fluminense, 17 jul. 1881, p. 4.

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Na ocasião, o Barreto começava a passar por um processo de transição, deixando de ser somente caracterizado pela existência de propriedades rurais e tornando-se mais urbanizado, alterações que se intensificariam mais ao fim do século, quando foram instaladas diversas iniciativas industriais.

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Em vermelho, o Largo do Barreto (atual Praça Enéias de Castro), local do Clube Atlético Brazileiro. Em azul, a Praia dos Coqueiros. Em laranja, o Cemitério do Maruí. Em lilás, a Ponta D´Areia. Em verde, o Hipódromo Guanabara.

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Uma das principais responsáveis pela dinamização do Clube Atlético Brasileiro foi a família Tutte do Couto. Proprietários de terras no bairro, talvez por sua ascendência britânica, alguns de seus membros tiveram forte envolvimento com o esporte. Frederico (futuramente um dos protagonistas da criação do Hipódromo Guanabara e do Clube Olímpico Guanabarense), Alberto, Henrique e Julieta atuaram como dirigentes, organizadores de eventos e competidores nas provas.

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Vista panorâmica do Barreto
Disponível em: <http://grupoprazerdejogar.blogspot.com/&gt;

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Outras importantes personalidades de Niterói ajudaram na dinamização e participaram ativamente das iniciativas do Clube Atlético Brasileiro, em geral, como usual, gente ligada à burguesia urbana da cidade. Entre os mais conhecidos, podemos citar os March, moradores do Barreto, filhos do médico Guilherme March -– o comerciante W. March, o tipógrafo Jorge March, os futuros médico e professor Adolfo March e o Edmundo March.

A agremiação manteve-se ativa entre os anos de 1881 e 1888, promovendo eventos que contavam com participação de grande público, majoritariamente gente de Niterói, especialmente do Barreto. A possibilidade de apostar, bem como a presença de uma banda de música, normalmente uma sociedade musical local, garantia a animação. As provas, para homens e mulheres, mesclavam corridas de diferentes distâncias e formatos com alguns jogos atléticos, como saltos.

Os competidores eram associados do Clube Atlético, ainda que, a partir de determinado momento, bastasse pagar uma taxa para qualquer interessado poder tomar parte nas contendas. Pelo pioneirismo, citemos os nomes das mulheres que mais usualmente disputaram provas, um envolvimento considerado um sinal de que a cidade progredia e passava a respeitar mais o novo protagonismo feminino: a já citada Julieta Couto; Amanda Peña, filha do comerciante e consul do Uruguai Eric Peña; a filha do maestro Oscar Guanabarino, Julieta Guanabarino.

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Cemitério do Maruí, Capela de São Pedro, 1918
Disponível: < https://www.facebook.com/OlharNictheroy/&gt;

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Os cronistas de Niterói costumeiramente saudaram as iniciativas do Clube Atlético, as considerando como contributos para a “educação física” da população, uma necessidade urbana relacionada às preocupações com a higiene e a saúde, sem as quais, no seu olhar, a capital não progrediria e superaria seu aspecto rural e colonial.

Além disso, seria uma feliz estratégia para combater o pernicioso ócio e ocupar, de forma adequada e produtiva, o tempo livre, como bem sugeriu o cronista Genesdio, o sempre atento Alfredo Azamor:

É com esses exercícios que se prepara uma geração de fortes e animosos cidadãos; é com esses clubes que se arrancam dezenas de jovens da ociosidade e do vício (…). Um abraço fraternal, pois, a esses moços que sabem atrair-se útil e honestamente, fortalecendo o corpo para revigorar o espírito. Parabéns a Niterói, parabéns ao Clube Atlético do Barreto (O Fluminense, 28 jul. 1882, p. 1).

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Anúncio do Clube Atlético Brasileiro
O Fluminense, 19 jun. 1885, p. 4

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Outro importante cronista, Luiz Fernandes, encarava as iniciativas como forma de combater o marasmo em Niterói. Para ele, uma cidade que aspirava consolidar-se como capital não podia ser tão rebelde a divertimentos, já que esses eram uma marca do desenvolvimento civilizacional. A seu ver, o esporte era uma diversão superior que poderia contribuir para forjar novos comportamentos da população niteroiense.

Para esse cronista, a grande contribuição da agremiação teria sido gestar um gosto pelos exercícios físicos, algo que estimulou a criação de dois outros clubes semelhantes. Um deles teve trajetória de curta duração e foi de menor alcance, ainda que não menos elogiado pelos periodistas. Dinamizado pelos alunos do Liceu Popular, o Clube Atlético Juvenil funcionou entre 1886 e 1888, sendo suas provas promovidas no Largo da Memória, atual Praça do Rink. A outra iniciativa causou maior impacto e deixou muitas marcas na memória de Niterói: o Clube Olímpico Guanabarense.

Isso é tema para outro post…ou para quem desejar ler o livro que, oxalá, logo estará disponível!

PS: Informações mais aprofundadas sobre o Clube Atlético Brasileiro em breve estarão disponíveis em um artigo aprovado na revista História da Educação (O espetáculo que educa o corpo: clubes atléticos na cidade de Niterói dos anos 1880).

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Um divertimento útil e agradável

13/01/2019

Por Flávia da Cruz Santos
flacruz.santos@gmail.com

 

Atividades culturais que começavam a compor o novo cenário da capital paulista, mais diverso e dinâmico a partir da segunda metade do século 19, e que cumpriam o papel de serem um agradável passatempo, e ainda possuírem sempre um fim útil, eram os esportes. Os paulistanos tentavam incorporar tais práticas aos seus costumes, tendo os ingleses como referência e como protagonistas nesse processo:

É talvez o povo inglês aquele que melhor tem compreendido o grande princípio do poeta latino – miscere utile dulci.

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Por isso ele compreendeu a necessidade de certos jogos, que fornecendo-lhe agradável passatempo, e dando-lhe azo para as suas singulares apostas, fossem ao mesmo tempo exercícios poderosos que lhe dessem grande agilidade e destreza, robustecendo os músculos, dando-lhes grande força e vigor, e fortalecendo eficazmente a saúde.

A ginástica, a esgrima, a equitação, a natação, o críquete e outros exercícios não somente são objeto de distração, como ainda, recomendados pela higiene, fazem parte integrante da educação esmerada na Inglaterra.

(…)

Paulo também a seu turno começa a compreender as vantagens e belezas de tais divertimentos.

Um Jóquei Clube acaba de organizar-se e dentro em pouco os paulistas poderão gozar de um divertimento útil e agradável.

Agora um grupo de distintos cavalheiros ingleses fundou uma associação tendo por fim introduzir nesta capital o jogo do críquete tão popular em Inglaterra e que na corte tanta aceitação tem encontrado.

(…)

A arena preparada para tal fim deve naqueles dias atrair a concorrência do público que por certo não será indiferente àquele novo divertimento que alguns estimáveis cidadãos ingleses intentam introduzir no nosso país, e cujos resultados podem vir a ser de todo o ponto profícuos à educação física tão descuidada entre nós até o presente.[1]

Os esportes ao mesmo tempo em que eram agradável passatempo, eram também exercícios poderosos que desenvolviam grande agilidade e destreza, robustecendo os músculos, dando-lhes grande força e vigor, e fortalecendo eficazmente a saúde. Cumpriam uma função até então negligenciada pelos paulistanos, a educação física. Função necessária à nova lógica do trabalho assalariado que estava por ser inaugurada, pois ela demandava corpos prontos para o trabalho.

Portanto, já em seu momento inaugural na cidade, os esportes foram identificados como uma estratégia de educação dos corpos, como uma forma de obter os corpos desejados e necessários à nova ordenação social que se construía. A escassez de estudos sobre os momentos iniciais do esporte na capital paulista, no entanto, nos impede de melhor compreendê-lo. Os recortes temporais dos trabalhos que dedicam-se a estudar os esportes tem, geralmente, como marco inicial a virada do século XIX para o XX.

As primeiras presenças do esporte nos jornais paulistanos, são da segunda metade do século 19. O que não quer dizer, que seja somente aí que eles tenham surgido no cenário paulistano. É possível que eles tenham sido vividos antes disso, mas que não tenham ganhado as páginas dos periódicos. Nos jornais, no entanto, os primeiros esportes praticados na capital paulista, a aparecerem foram: o tiro ao alvo, a corrida a pé, as corridas de cavalos, o críquete, a esgrima, a ginástica, a luta, a natação, a patinação, a equitação e as regatas.

Em 1868, são encontradas as primeiras presenças do tiro ao alvo e das regatas. Foi constituído um clube de tiro na capital, e as regatas aconteciam no porto de Santos, para onde se dirigia grande quantidade de paulistanos, transportada pelos horários especiais do trem, criados “afim de conduzir aqueles que desejarem tomar parte neste gênero de recreio.”

A chegada do trem facilitou também o acesso dos paulistanos a um outro esporte, as corridas de cavalo realizadas em hipódromos. Se os amantes de tal divertimento precisavam, em 1874, ir à capital do império para nele tomar parte, fazendo obrigatoriamente parte do trajeto, quando não todo ele, em mulas, em 1876 eles já eram transportados de trem, em uma curta viagem dentro de sua própria província, para o Hipódromo da Mooca, que fora inaugurado em 22 de outubro desse mesmo ano:

Mudaram-se porém os tempos e as corridas da Mooca são o divertimento mais apreciado dos paulistas.

Com ansiedade é esperado pela população o dia marcado para as corridas, e chegado ele, desde cedo, enche-se a estação da Luz de passageiros dirigindo-se à Mooca.

Depois de dar e apanhar alguns murros, com o fim de comprar um bilhete, encaixa-se um pobre homem no vagão, onde vai muito apertado, quando, não tem de ir em pé e ceder o seu lugar, a alguma senhora.

Durante o trajeto, que felizmente é curto, versa a conversação sobre a corrida, os corredores, e as apostas.[2]

As corridas de cavalo eram apresentadas como uma forma de melhorar a raça cavalar: “Se os clubes de corrida fossem simplesmente um passatempo, eu os julgaria próprios para ocupar os ociosos: são porém a força organizada para, pela seleção natural, melhorar o cavalo, esse o primeiro e mais efetivo auxiliar do homem, na luta pela vida.”[3]

No entanto, quem ganharia com o melhoramento dos cavalos eram as elites, que os tinham como valioso patrimônio e utilizavam esse argumento, do melhoramento dos cavalos, para legitimar o investimento de dinheiro público e a realização das apostas, que em atividades outras, como os jogos, eram mal vistas e até mesmo proibidas.

O críquete foi introduzido em São Paulo pelos ingleses, que em 1875 fundaram o São Paulo Críquete Clube: “Agora um grupo de distintos cavalheiros ingleses fundou uma associação tendo por fim introduzir nesta capital o jogo do críquete tão popular em Inglaterra e que na corte tanta aceitação tem encontrado.” A presença na cidade, do meio de transporte mais moderno da época, que ainda não levava diretamente à corte, mas facilitava parte do trajeto, possibilitou nessa ocasião que viessem “da corte 13 membros do Anglo-brazilian Cricket Club, 11 dos quais nela tomarão parte, medindo-se com 11 dos mais destros do clube de S. Paulo.”[4]

Em 1878 surgiram as corridas a pé. Elas eram realizadas no mesmo espetáculo e no mesmo lugar, em que aconteciam as corridas de cavalos e as touradas. As corridas a pé eram o “lindo e novo divertimento”, a “grande novidade”[5]. O mesmo, no entanto, foi dito da patinação, quando de sua chegada à cidade, em 1877, e das atrações que constantemente eram incluídas nos seus espetáculos.

O esporte era não apenas agradável, como os demais divertimentos. Além de provocar alegria e prazer ele era útil, pois educava e conformava os corpos, seja dos homens ou dos cavalos, no caso do turfe. Nesse ponto, o esporte se aproximava do teatro, que também era considerado agradável e útil. O teatro, porém, educava e moldava o caráter, os comportamentos.

[1] Correio Paulistano, 26 de maio de 1875, p. 2.

[2] Correio Paulistano, 16 de maio de 1878, p. 1.

[3] Correio Paulistano, 18 de maio de 1884, p. 2.

[4] Correio Paulistano, 26 de maio de 1875, p. 2.

[5] Correio Paulistano, 15 de novembro de 1878, p. 3.

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O futebol e seus simulacros no reino da ludicidade – Subbuteo

18/12/2018

Elcio Loureiro Cornelsen
(cornelsen@letras.ufmg.br )

Em sua obra clássica Homo Ludens, Johan Huizinga define o lúdico como sendo algo que integra a própria natureza humana. Assim, o ser humano seria, basicamente, caracterizado por três propriedades: a do raciocínio (o Homo Sapiens), a da engenhosidade prática (o Homo Faber), e a da ludicidade (o Homo Ludens).

O jogo em geral, pois, seria a concretização da ludicidade na sociedade. Podemos encontrar, por exemplo, jogos que simulam outros jogos, ou seja, são seus simulacros. Pensemos, por exemplo, no futebol. Como uma das modalidades esportivas mais difundidas no planeta, ao longo do século XX, o futebol inspirou uma série de jogos enquanto simulacros, os quais continham especificidades materiais e regras próprias.

São vários os jogos originados do futebol. Recentemente, Eduardo de Souza Gomes postou no espaço deste Blog o artigo intitulado “Pebolim, Totó, Fla-Flu ou Pacau? um breve histórico do campo esportivo no Brasil”. Encontramos nele inspiração para escrever sobre outro simulacro do futebol – o Subbuteo.

É provável que esse nome não diga muito, mas quando nos reportamos ao seu nome no Brasil, pessoas com mais de 40 anos, certamente, dele se lembrarão: “Pelebol”.

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Pois é, o Subbuteo é uma modalidade de futebol de mesa, que foi muito difundido no Brasil, nos anos 1970 sob o título de “Pelebol”, comerciado pelo fabricante de brinquedos Estrela, com a imagem e o prestígio do “Rei do Futebol”. Trata-se de um jogo inventado na terra da Rainha, mais precisamente em Liverpool, em 1925, por William Lane Keeling. Insatisfeito com outros jogos simulacros de futebol que já havia à época, Keeling decidiu improvisar o seu próprio jogo: recortou papelão no formato de pequenos jogadores de futebol e os fixou a uma base de borracha. Originalmente, a bola era de cortiça e as traves, de arame. Keeling desenhou o campo de jogo em uma toalha de linho.

Primeiramente, Subbuteo foi comercializado com outro nome: “Newfooty”. Todavia, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e a crise econômica dela advinda, a produção foi interrompida, sendo retomada em 1947. A partir de então, os jogadores em miniatura passaram a ser confeccionados de material plástico, assim como as traves, e foram patenteados por Peter Adolph. Ornitólogo de profissão, amante dos pássaros, Peter Adolph rebatizou o “Newfooty” com o nome “Subbuteo” (haja imaginação!), baseando-se no nome científico de um falcão em latim – falco subbuteo –, e fundou a firma Subbuteo Sports Games. Em 1967, o empreendimento foi vendido a Waddingtons, então maior fabricante de brinquedos da Inglaterra. Três décadas depois, em 1995, a Waddingtons foi vendida à empresa de brinquedos norte-americana Hasbro.

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Subbuteo é jogado em um campo de flanela, de 80×120 cm.
Imagem: http://kickerium.de/2017/02/23/subbuteo-wie-fussball-nur-mit-hand/

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Basicamente, o Subbuteo conta com dois jogadores. Em geral, o jogo é composto por duas traves de plástico, um campo de futebol de 80×120 cm, de flanela, em que se defrontarão duas equipes compostas por 11 jogadores em miniatura cada uma: 01 goleiro e 10 jogadores de linha. Enquanto o goleiro, em posição de salto para defesa, tem menos mobilidade e é preso por uma haste, ficando restrito à meta e sendo acionado por trás da trave, os jogadores de linha, com cerca de 2 cm de altura, possuem uma base circular que, além de os manter na posição vertical, dando-lhes sustentação, permite que estes deslizem pelo campo ao serem impulsionados pelo dedo médio ou indicador do jogador ao ser pressionado sobre a flanela. Interessante é que o diâmetro da bola de jogo, também de plástico, possui a medida dos jogadores, ou seja, 2 cm. Esta pode ser simplesmente conduzida ou chutada, dependendo da direção e da força com que o jogador de linha é acionado.

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Miniaturas de jogadores representando a Seleção Brasileira
Imagem: https://www.yesterdaystoys.co.uk/Subbuteo-Heavyweight-Team-Ref-50-Brazil-3_A1LZ23.aspx

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Além disso, jogar Subbuteo requer certa tática e estratégia, pois todos os jogadores de linha são móveis e só podem ser movimentados e posicionados através de acionamento com os dedos durante a execução das jogadas. Esse é um dos aspectos que, se comparado com outras modalidades, fazem com que se considere o Subbuteo um simulacro mais próximo de uma partida de futebol. Embora muito menos praticado no Brasil em nossos dias, o Subbuteo ainda desfruta de popularidade em outras partes do mundo, onde existem ligas e se realizam campeonatos locais em mais de 50 países, bem como competições continentais e até mesmo mundiais.

Como um autêntico simulacro, as regras do Subbuteo correspondem, em sua maioria, às regras do futebol. A seguir, apresentaremos apenas as principais.

– Posse de bola

O jogador que tiver a posse de bola é, momentaneamente, o atacante, e o adversário, o defensor. Apenas o atacante pode tocar a bola ao acionar o jogador de linha com o dedo. Este perde a posse de bola quando erra a bola ao acionar o jogador ou quando a bola toca um jogador da equipe adversária. A bola só pode ser movimentada, no máximo, três vezes com o mesmo jogador de linha, sendo que o terceiro lance deve ser um passe para outro jogador de linha, ou mesmo um chute a gol.

– Movimentação de defesa

A cada toque de bola do atacante o defensor pode movimentar um de seus jogadores de linha, acionando-o com o dedo pressionado ao tecido do campo. A meta do defensor é dificultar a jogada de ataque adversário, à medida que consegue interpor um jogador de defesa entre o jogador atacante e a bola, ou mesmo bloquear um passe para outro jogador. Entretanto, durante a movimentação sem bola, o defensor não pode tocar nem a bola e nem outro jogador de linha, do próprio time ou do time adversário. Se isso ocorrer, o atacante pode exigir que a jogada volte e que os jogadores e a bola assumam a posição anterior ao lance em que o defensor cometeu a irregularidade. Aliás, se o defensor atingir a bola em movimento, haverá um tiro livre em favor do atacante.

– Jogadores fora de ação

Jogadores de linha que saem do campo ou que batem nas bordas de proteção da mesa, tão logo a bola seja colocada em movimento, são posicionados manualmente na parte externa do campo de jogo. Caso o jogador ainda se encontre na mesa, ele será posicionado no ponto mais próximo da linha de fundo; se tiver saído da mesa, será posicionado próximo à linha divisória. Jogadores deitados, tão logo a bola role, são posicionados corretamente onde estiverem. Não é permitido que se jogue com jogadores deitados.

– Chute a gol

Um chute a gol é válido somente quando a bola se encontrar no campo de ataque, além da chamada linha de tiro, linha intermediária entre o meio de campo e a área.

– Tiro de meta

O tiro de meta deve ser executado com o acionamento de um jogador de linha, sendo que a bola deve ser posta em jogo do mesmo lado por onde saíra pela linha de fundo. No tiro de meta, nenhum jogador adversário pode estar dentro da área.

– Arremesso lateral

Um jogador de linha é posicionado manualmente na lateral, exatamente no local por onde a bola saiu, e esta é posta em jogo através do acionamento do jogador com o dedo pressionado ao campo de jogo.

– Falta

Caso o jogador que esteja sendo acionado toque um jogador do time adversário sem tocar primeiro na bola, o lance é considerado faltoso e é marcado um tiro livre indireto. Se o lance ocorrer dentro da área, é marcada a penalidade máxima.

– Penalidade máxima

O goleiro deve permanecer sobre a linha do gol, enquanto os demais jogadores são posicionados fora da área.

– Reposicionamento dos jogadores em campo

Atacante e defensor podem reposicionar seus jogadores manualmente quando ocorrer tiro de meta ou após ser assinalado um gol. Nos demais lances, só será permitida a movimentação de jogadores através do acionamento do jogador com o dedo pressionado ao campo de jogo.

– Impedimento

Um jogador é considerado em posição de impedimento, quando estiver posicionado no campo de ataque e, no momento do passe, estiver mais próximo da linha de fundo do que dois jogadores defensores, incluindo o goleiro. Todavia, caso o jogador em posição de impedimento não receba a bola, a jogada de ataque pode prosseguir normalmente com outro jogador.

– Duração da partida

Uma partida de Subbuteo dura dois tempos de 15 minutos cada.

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Miniaturas de jogadores representando a Seleção Brasileira
Imagem: https://www.yesterdaystoys.co.uk/Subbuteo-Heavyweight-Team-Ref-156-West-Germany_AYY67.aspx

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De acordo com o site alemão Kickerium, o Subbuteo chegou ao país em 1961, ano em que foi fundado por Günter Czarkowski o “TSL Dortmund 61”, clube que ainda existe em nossos dias. Inclusive, o país conta com uma liga, a DSTFB – Deutscher Sport-Tischfußball-Bund (Liga Esportiva Alemã de Futebol de Mesa), filiada a uma organização internacional, a FISTF – Federation International of Sportstable Football. Segundo o site da FISTF, a Alemanha sediou o torneio mundial em 2006, na cidade de Dortmund, que contou com 250 competidores, representantes de 23 países, sendo que a Itália sagrou-se campeã nas categorias individual e por equipes. A edição de 2010 também teve por sede a Alemanha, realizada em Rain am Lech, que também contou com 250 competidores, representantes de 16 países, e cujo vencedor foi a equipe da Espanha. Além disso, entre outras competições, o país já havia sediado também o Campeonato Europeu em 1995, em Wuppertal, e a Copa Europa de Clubes Campões em 2001, na cidade de Kamen.

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Miniaturas de jogadores representando o F. C. Bayern de Munique
Imagem: http://www.customflicks.co.uk/order.htm

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Enquanto em países como a Alemanha, a Itália e a Inglaterra o Subbuteo se mantém popular e é praticado em competições oficiais, no Brasil, infelizmente, o jogo se tornou objeto de colecionador. Não é por acaso que, falar de “Pelebol” é, ao mesmo tempo, um ato nostálgico de recordação de infância nos idos dos anos 1970 e 1980.

Referências

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. 6. ed., São Paulo: Perspectiva, 2010. [filosofia; 4]

Site Botões para sempre: http://botoesparasempre.blogspot.com/2015/10/pelebol-da-estrela-os-incriveis-anos-70.html

Site CustomFlicks: http://www.customflicks.co.uk/

Site Deutscher Tischfussball-Bund: https://dtfb.de/

Site Federation International of Sportstable Football: https://fistf.com/organisation_europe/germany/

Site Kickerium; artigo “Subbuteo: wie Fußball nur mit Hand“: http://kickerium.de/2017/02/23/subbuteo-wie-fussball-nur-mit-hand/

Site Ludopedia: https://www.ludopedia.com.br/jogo/subbuteo

Site YesterdayToys: https://www.yesterdaystoys.co.uk/

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