Um clube de ciclismo no bairro de Realengo

20/03/2021

Por Victor Andrade de Melo

.

Este post é parte de um artigo que escrevi com o camarada Nei Jorge Santos Júnior e acabou de ser publicado na revista Antíteses (v. 13, n. 26, jul./dez. 2020). Quem curtir e desejar acessar o texto completo, pode encontrá-lo aqui: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/antiteses/article/view/40025

—-xxx—

Nos anos 1920, foram criados dois clubes de ciclismo pioneiros no subúrbio, o Ciclo Suburbano Clube (de Madureira) e o Velo Esportivo de Ramos. Na década de 1930, várias sociedades semelhantes foram fundadas nos bairros da região. Segundo Melo e Santos Junior (2020): “Juntamente com o futebol, o esporte do pedal parece ter sido, naquele momento, por suas características, o que mais percorreu a cidade de ponta a ponta, criando uma certa capilaridade e estímulo para a prática” (p. 13).

Para entender a criação do Realengo Pedal, deve-se ter em conta as mudanças que houve no bairro. De um lado, se fortaleceu uma sociedade civil que em definitivo assumiu a liderança das reivindicações locais, semelhante ao que ocorria em outras regiões do subúrbio. De outro lado, não se reduziu a importância das unidades do Exército. Os militares de mais alta patente seguiam integrando a elite local.

.

Vista Aérea de Realengo/ Escola de Aeronáutica Militar, 1939.
Acervo: Museu Aeroespacial.
Disponível em: < http://brasilianafotografica.bn.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/7352&gt;.

.

Nesse cenário, houve uma dinamização da vida social. Deve-se fazer uma referência à abertura, em 1938, do Cine Theatro Realengo, uma grande sala que acolhia mais de 1000 pessoas. Por seu estilo arquitetônico, pelas fitas exibidas, pela movimentação causada ao seu redor, foi mais um dos indicadores da circulação de ideias de modernidade no bairro.

O ciclismo era um esporte que mobilizava noções interessantes à elite local. Desde o século XIX, era encarado como sinal de civilização e progresso, exponenciando símbolos que se forjaram ao redor do uso das bicicletas: velocidade, mobilidade, liberdade.

Melo e Santos Junior (2020) sugerem que, naqueles anos 1930, a bicicleta “ainda era um produto caro, mas já bem mais barato do que fora no século XIX, quando era totalmente importada. Na primeira metade do XX, já era montada no Brasil e a indústria nacional produzia algumas peças” (p. 14). De toda maneira, mesmo que começando a se popularizar, o ciclismo ainda se tratava de uma modalidade majoritariamente praticada por gente de estratos médios ou altos, o que seria também um fator de diferenciação num bairro em que o popular futebol se espraiava.

Um primeiro indício da prática do ciclismo no bairro foi identificado em 1930, o anúncio de uma competição promovida pelo Cycle Carioca Club de Realengo. A notícia dá a crer que era um evento muito bem organizado. Todavia, não conseguimos mais informações sobre ele, bem como sobre a sociedade promotora.

.

Estação de Realengo, 1903.
Revista da Semana, 15 nov. 1903.
Disponível em: <http://www.estacoesferroviarias.com.br/efcb_rj_mangaratiba/fotos/realengo9061.jpg&gt;.

.

Ainda se pode ver sua participação em algumas provas, como uma promovida pelo Velo Esportivo de Ramos, em 1931, mas a agremiação parece mesmo ter sido de curta duração. De toda forma, deixou latente a ideia de que, em Realengo, havia interessados no ciclismo.

Esse interesse ficou claro alguns anos depois, em dezembro de 1937, quando uma sociedade carnavalesca, Caprichosos de Realengo, realizou o “Dia Esportivo de Realengo”. Atraíram muitos interessados as provas organizadas pela Liga Carioca de Ciclismo e Motociclismo por meio de seu diretor Oswaldo Moreira Guimarães, funcionário civil da Escola Militar, “um dos grandes animadores do esporte do pedal nos subúrbios”, promotor de muitas competições importantes do ciclismo carioca.

Um cronista celebrou o evento como uma ocasião para estimular a prática e revelar valores da região, uma “oportunidade para mostrarem a sua fibra”. Em 1938, fundou-se o Realengo Pedal Clube, com sede na Estrada Real de Santa Cruz. Logo estava filiado à Liga Carioca e participando das provas pela entidade promovidas. Em maio, obteve inclusive bons resultados em competição realizada no Campo de São Cristóvão.

.

Dirigível no campo de tiro de Realengo, 1894.
Acervo: Musée de L’Air Le Bourget.
Disponível em: < http://historia-de-realengo.blogspot.com/2009/11/historias-perdidas-no-tempo-pioneiros.html&gt;.

.

No mesmo ano, a agremiação promoveu pela primeira vez o Circuito Ciclístico de Realengo, em homenagem e contando com apoio do comércio da região. Essa foi uma ocorrência comum em muitos bairros do subúrbio, o incentivo do setor a ações que contribuíssem para o desenvolvimento local, para o forjar de uma ideia de que na área também se estruturavam iniciativas que expressavam adesão a ideais de civilização e progresso.

Um dos ciclistas da agremiação, João Athayde, logo se destacou nas competições, tornando-se mais famoso quando se tornou detentor de um dos primeiros recordes aferidos da modalidade no Brasil. Sua ascensão foi meteórica. Meses antes disputara uma prova para iniciantes dos subúrbios, num momento em que o Realengo Pedal começou a se destacar por inscrever grande número de competidores.

.

Equipe do Realengo Pedal Clube.
Esporte Ilustrado, 28 dez. 1938, p. 28.

.

Quem eram esses ciclistas mais usuais? Já citamos o vencedor João Carneiro Athayde, funcionário do Ministério da Agricultura. Abel Lopes Garcia foi um costumeiro competidor, chegando a obter bons resultados em muitas pelejas; nada conseguimos saber sua vinculação laboral, somente que era morador de Realengo. O mesmo pode-se dizer de Acyr Gevarzoni, Alceu de Oliveira Souza, José Ribeiro da Silva (atleta negro que depois se transferiu para o Ciclo Suburbano) e Francisco Gomes Bezerra.

A falta de outras referências que não as esportivas nos dá a noção de que se tratava de “gente comum”, isso é, trabalhadores de estrato médio que se dedicavam ao esporte em seu tempo disponível. A propósito, também não localizamos muitas informações sobre a diretoria da agremiação. O único mais conhecido era José Reny de Araujo, antigo ciclista, dirigente e organizador de provas.

No ano de fundação, o clube participou da principal prova do ciclismo fluminense à ocasião, o Circuito do Rio de Janeiro, já na sua sexta edição. Entre os 13 clubes que tomaram parte na peleja, foi um dos cinco que mais inscreveu atletas, entre os quais o vencedor, o citado João Athayde.

Nessa edição, se explicitou uma disputa que vinha se delineando nos anos anteriores em função do espraiamento do ciclismo pela cidade:

Há um detalhe interessante que o público desconhece e que se torna necessário esclarecer. Existe uma rivalidade esportiva entre os ciclistas da cidade e os suburbanos, e nunca houve uma oportunidade para um confronto de forças como o que agora se oferece.

Percebe-se no discurso a oposição entre a “cidade” e o “subúrbio”, como se esse não fizesse parte do primeiro. Deve-se considerar que o jornal A Noite, promotor da competição, estimulava essa rivalidade para chamar a atenção do público, mas, na verdade, ela vinha mesmo se acentuando em função dos bons resultados obtidos por ciclistas do Ciclo Suburbano (MELO, SANTOS JUNIOR, 2020). Um cronista chegou a comentar que “sabido (…) é que os subúrbios têm sido um verdadeiro celeiro de bons corredores”.

Na ocasião do VI Circuito do Rio de Janeiro, outro ciclista do subúrbio se destacou, um dos que se tornaria dos mais vitoriosos de seu tempo, Lavoura (Antonio Teixeira da Fonseca), da União Ciclística de Campo Grande. Essas conquistas eram muito valorizadas pelas lideranças suburbanas, mobilizadas como indicador dos avanços civilizacionais da região.

Em 1940, ainda estava ativo o Realengo Pedal Clube. Participou de competições, em algumas obtendo bons resultados, e promoveu sua prova anual, parte do calendário ciclístico da Liga. Marcou presença até mesmo na atividade de encerramento da temporada. No ano seguinte, contudo, já não encontramos mais notícias sobre a agremiação.

Não conseguimos saber os motivos para seu fim. Identificamos que alguns ciclistas se transferiram para a União Ciclística de Campo Grande, entre os quais João Athayde, que seguiu obtendo bons resultados. De toda forma, ainda que breve, foi marcante a trajetória do Realengo Pedal Clube, expressão das mudanças e particularidades daquele bairro da zona suburbana.

.

* Referência

MELO, Victor Andrade de; SANTOS JUNIOR, Nei Jorge. Faces da modernidade: a experiência do Ciclo Suburbano Clube (Madureira/Rio de Janeiro – décadas de 1920-1960). Revista Tempo e Argumento, 12(30), e0202, 2020. https://doi.org/10.5965/2175180312302020e0202


Projeto Roteiros Sportivos – Roteiro 2 – Remo

22/01/2021

O projeto “Roteiros Sportivos” objetiva apresentar um pouco da história do Rio de Janeiro por meio de suas experiências de diversão, entre as quais as relacionadas ao esporte. A iniciativa ajuda também a refletir sobre as mudanças urbanas e de comportamento da cidade.

O primeiro roteiro foi dedicado ao Jogo da Bola. Para mais informações: https://historiadoesporte.wordpress.com/2020/12/13/projeto-roteiros-sportivos-roteiro-1-jogo-da-bola/

Esse segundo roteiro é dedicado ao Remo. O mapa identifica, na cidade do Rio de Janeiro da atualidade, locais onde a prática teve sítio nos séculos XIX e XX.

Mais do que um esporte, o remo foi um importante agente na mudança de relação da população do Rio de Janeiro com o mar, estimulando a adoção de novos hábitos sociais, a circulação de novos padrões de masculinidade e a maior participação feminina na vida pública.

No mapa, pode-se ter uma noção das grandes mudanças urbanas do Rio de Janeiro, especialmente no que tange às alterações do litoral. Muitas praias onde se praticava o esporte não mais existem. Outras estão tão degradadas que mal se pode crer que eram espaços bucólicos de celebrações esportivas.

Para acessar o mapa:

https://www.google.com/maps/d/u/2/edit?mid=1VxdXEahzmfaOLopgHgIbRuerD4s0nRhO&usp=sharing

.

Para mais informações:

* MELO, Victor Andrade. Entre a elite e o povo: o sport no Rio de Janeiro do século XIX (1851-1857). Tempo, Niterói, vol. 21, n. 37, p. 208-229, 2015.

https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-77042015000100011&script=sci_abstract&tlng=pt

.

* MELO, Victor Andrade. O sport em transição: Rio de Janeiro, 1851-1866. Movimento, Porto Alegre, v. 21, n. 2, p. 363 – 376, 2015.

https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/49489

.

* MELO, Victor Andrade de. Remo, modernidade e Pereira Passos: primórdios de uma política pública de esporte e lazer. Esporte e Sociedade, Rio de Janeiro, v.1, n. 3, 2006.

http://www.esportesociedade.uff.br/esportesociedade/pdf/es305.pdf

.

* MELO, Victor Andrade de. Camadas populares e o remo no Rio de Janeiro da transição dos séculos XIX/XX. Movimento, Porto Alegre, v. 6, n. 12, p. 63 – 76, 2000.

https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/2501

.

* MELO, Victor Andrade de. O mar e o remo no Rio de Janeiro do século XIX. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 13, n. 23, p. 41 – 60, 1999.

http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2088

.

Ficha Técnica: Marcus Macri e Victor Melo

.


Los primeros momentos del turf en Montevideo: el Hipódromo Nacional de Maroñas (1888)

15/12/2020

Gastón Laborido (gaston_laborido1@hotmail.com)

.

Hipódromo Nacional de Maroñas, Enrique Moneda, 1900. Imagen tomada de: http://bibliotecadigital.bibna.gub.uy:8080/jspui/bitstream/123456789/18588/3/postal_D11070.jpg

.

Montevideo en los últimos años del siglo XIX

¿Cómo pensar un abordaje de la historia del turf en Montevideo? Partimos de los aportes que ha realizado Victor Andrade de Melo, quien cuenta con numerosos trabajos sobre historia del deporte para el caso de Brasil y específicamente en Río de Janeiro. El autor nos sugiere, que es necesario considerar a la historia del deporte como una historia de las prácticas del entretenimiento (Melo, 2015). Melo analiza la conformación del Deporte carioca como una diversión en Rio de Janeiro en el siglo XIX.

Por otro lado, Victor Andrade de Melo también asevera que la práctica deportiva de la población brasileña puede ser muy útil para la comprensión histórica de la estructura socio-cultural de una época (Melo, 2004). Esta segunda línea interpretativa también guiará este trabajo, tratando de comprender el caso montevideano. El espíritu del trabajo es aproximarnos a los sentidos y significados para las clases sociales que tiene el deporte, en este caso, el turf.

Debemos comenzar por las características de la sociedad montevideana en los últimos años del siglo XIX. En 1889 se realizó un censo en Montevideo y en 1900 se hizo uno de todo el país. Para 1889 se estima que Montevideo tenía unas 215.000 personas, mientras que el resto del país 711.000 habitantes.  Por otro lado, se calcula que el 18% de la población total del país eran extranjeros, lo que nos indica que era un número alto. Pero si se mira solamente Montevideo, la presencia extranjera a fines del siglo XIX rondaba los niveles del 40%.

La estructura social era muy estratificada, con forma piramidal de base ancha en donde se ubicaban las llamadas “clases y etnias dominadas”, un sector de capas medias que creció con la inmigración y el ascenso social de los extranjeros y un pequeño sector compuesto por las élites dominantes (Duffau y Pollero, 2016, p. 199). En esa sociedad de tipo rígida, existían algunos casos de movilidad social. Como indican Duffau y Pollero “la posibilidad de ascender económicamente conformó un sector intermedio que incluyó a artesanos, comerciantes de ciudades y pueblos, funcionarios burocráticos, militares con grado, así como personas que se dedicaron al ejercicio de profesiones, caso del derecho o la medicina” (2016, p. 200).

En la parte superior de la pirámide se encontraba la “oligarquía mercantil agraria” (prósperos empresarios y terratenientes –muchos extranjeros-, denominad patriciado local). Esta clase constituyó la clase política dirigente del período colonial y la primera mitad del siglo XIX. En las familias del patriciado era común tener muchos hijos como estrategia de reproducción social y consolidad su posición social.

Luego, entre los sectores económicos ascendentes se encontraban los inmigrantes que se habían dedicado a actividades agropecuarias y comerciales. Este sector a mediados del siglo XIX se incorporó a las elites a través de enlaces matrimoniales que se convirtieron en base del patrimonio y el prestigio.

De acuerdo al historiador Henry Finch (2014), los orígenes de la clase media urbana está en el último cuarto del siglo XIX. Coincide con una época de inserción de Uruguay en un sistema económico global dirigido por Londres y los inmigrantes europeos. El proceso económico uruguayo del último cuarto del siglo XIX implicó la fuerte presencia británica en la región lo que provocó el debilitamiento del patriciado producto de la pérdida de sus intereses en la tierra, el comercio y los saladeros, a manos de los europeos.

La clase dirigente urbana estaba vinculada fundamentalmente al comercio y a las finanzas. En la década de 1880 los inmigrantes de épocas anteriores que pasaron a ocupar posiciones relevantes dentro de la elite económica fueron reforzados por la ola de recién llegados del sur de Europa. El efecto fue el “rápido crecimiento de la capital, crearon un mercado doméstico “masivo” por vez primera, e introdujeron la capacidad empresarial para explotarlo (…). Algunos inmigrantes se enriquecieron a través de la industria, pero la estructura económica de fin de siglo estaba firmemente asentada sobre el comercio y la ganadería” (H. Finch, 2014, p. 54).

La historiadora Alba Mariani (2013) investiga los negocios británicos en el Río de la Plata, analizando diferentes personajes británicos del círculo comercial y financiero. Existen varios casos y personajes que son objeto de estudio en sus investigaciones, pero hay uno que nos interesa debido al vínculo con nuestro tema: Tomas Tomkinson (1804-1879). Su padre arribó al Río de la Plata en 1806 con las invasiones ingleses, integrando los batallones de rifleros reales  Tomas Tomkinson nació en Endon, Reino Unido pero desembarcó en Montevideo en 1828 a los 24 años como representante e intermediario de la casa importadora “Stanley, Black and Co.”, firma que con posterioridad se transformó y giró bajo la razón social “Tomkinson ando Co.”.

Tomas Tomkinson incursionó en la principal industria del país: el saladero. Fue propietario del saladero Casa Blanca en el Cerro con gran actividad anual, se sacrificaban entre 35 a 40 mil cabezas de ganado vacuno al año. También fue parte del directorio del Ferrocarril Central; uno de los fundadores del Banco Comercial (1858) y uno de los fundadores de la ARU en 1871 (Asociación Rural del Uruguay). Además, tenía gran atracción por los caballos, lo que explica porque en 1875 fue el promotor de una Sociedad Hípica e Hipódromo. Comenzaría así el proyecto para el hipódromo de Maroñas.

Los inicios del turf en Montevideo

La fuerte presencia inglesa en el Río de la Plata supuso la implantación de los deportes modernos. En el Uruguay, la práctica de los deportes modernos surgió naturalmente en la colectividad británica. La última década del siglo XIX inauguró una etapa de cambio en el deporte uruguayo: a-surgieron numerosos clubes; b- se registró el desarrollo intensivo del fútbol; c- iniciación del proceso de integración masiva del criollo en el deporte.

.

Plano de Montevideo, 1905. Imagen tomada de: https://www.pinterest.com/pin/527413806337159844/

.

La influencia británica se aprecia en el turf, por ejemplo, en las primeras carreras de caballos en Montevideo. En enero de 1855 se iniciaron las carreras extranjeras llamadas también inglesas en las inmediaciones del saladero de Legrís.

Arnaldo Gomensoro (2015) señala que las carreras “a la inglesa” tenían como escenario los hipódromos. El primero de ellos se construyó en Punta Carretas en 1861, donde hoy se ubica el centro comercial (shopping) de esa zona.

En la década del 70 del siglo XIX, más allá de la Plaza de Toros de la Unión funcionaba otro hipódromo inaugurado en 1867 para “Carreras Nacionales”, ubicado en las proximidades de Maroñas a impulso de la “Sociedad Hípica” presidida por el Gral. Francisco Caraballo. Como indica Aníbal Barrios Pintos (1971), hay registros de que en enero de 1872 corrían caballos de José Pedro Ramírez y del Gral. Caraballo y la prensa daba la cifra de $40.000 apostada a los caballos favoritos.

En 1875 Tomas Tomkinson y un grupo de ingleses estableció un hipódromo en Maroñas con la denominación de “Carreras de los ingleses”, que rápidamente dio animación a la zona. Este hipódromo fue construido en 1874 por la comunidad inglesa. El nombre que recibió el escenario fue “Nuevo Circo Pueblo Ituzaingó”, pero era conocido como el “Circo de Maroñas” en referencia al antiguo propietario de las tierras donde se instaló y donde está emplazado actualmente. Esos terrenos pertenecieron a Juan Maroñas, un importante pulpero de la zona.

El nombre originario del Hipódromo está vinculado al lugar donde nació. Del 19 de octubre de 1874 datan los planos del Pueblo Ituzaingó realizados por Demetrio Isola. En el siglo XX se transformó en uno de los barrios de Montevideo. Originariamente las calles llevaban nombres tales como Victoria, 18 de Julio, Cerrito, Sociedad Hípica. El barrio se trazó en torno a una capilla que había mandado erigir el ciudadano José Pedro Ramírez alrededor de un cuarto de siglo antes, por 1850. Dicha capilla es hoy la iglesia parroquial de Santa Rita y además santuario nacional de dicha santa católica.

Hoy las denominaciones del barrio hacen referencia principalmente a destacados miembros históricos del turf nacional, dado que en el lugar se halla el conocido Hipódromo Nacional de Maroñas, popularmente conocido como “el circo hípico de Ituzaingó”.

La pista original tenía una extensión de 1750 metros y, en sus primeros años, la organización de las carreras corría por parte de comisiones de propietarios y aficionados, hasta que el 14 de agosto de 1877 el gobierno nacional dictó el primer Reglamento de Carreras.

Diez años más tarde, en 1887 José Pedro Ramírez asumió la presidencia de la Comisión de Organización de las Carreras Nacionales y se convirtió en uno de los propietarios del Hipódromo junto a Gonzalo Ramírez y Juan y Alejandro Victorica.

El 15 de noviembre de 1888 se fundó el “Jockey Club” de Montevideo. Este hecho fue fundamental en la historia del Hipódromo de Maroñas, debido a que poco tiempo después el escenario fue adquirido por el Jockey Club de Montevideo, organizando las primeras Carreras Nacionales. El hipódromo fue inaugurado oficialmente el domingo 3 de febrero de 1889 la institución inició sus actividades organizando su primera reunión hípica. La primera carrera contó con una numerosa concurrencia, con la asistencia del entonces presidente de la República, general Máximo Tajes, quien fue uno de los representantes de los poderes públicos, dirigentes y socios del “Jockey Club” y miembros de la sociedad montevideana. El club tuvo como primer Presidente a Pedro Piñeyrúa y como vicepresidente a José Pedro Ramírez; Horacio Areco su tesorero y Carlos Sánez de Zumarán como secretario.

El primer Palco de Socios, hecho de tablones y chapa, había sido traído del paraje denominado Azotea de Lima, en la zona de Piedras Blancas, donde se corrieron las primeras carreras, pero el mismo fue sustituido en 1888 por una tribuna más amplia, realizada por el constructor italiano Ángel Battaglia, siendo el primer palco construido para Maroñas.

.

Hipódromo Nacional de Maroñas. Al fondo: Palco de socios. Año 1895. (Foto: 0564FMHB.CDF.IMO.UY – Autor: Sin datos/IMO). El Palco de socios, fue proyectado y construido, probablemente, por el arquitecto Ángel Battaglia, socio fundador del Jockey Club de Montevideo. Imagen tomada de: https://cdf.montevideo.gub.uy/system/files/imagecache/Foto_destacada_645_430/fotos/564b.jpg

.

El turf en Montevideo surgió entre las elites locales y sectores dominantes, como repasamos al inicio del texto. Cuando se analiza la lista de los socios fundadores “Jockey Club” de Montevideo se aprecia la fuerte presencia de hombres vinculados a la clase dirigente urbana: Enrique Aguiar; Horacio Areco (uno de los vecinos fundadores del Pueblo Ituzaingó y primer tesorero del club); Adolfo Artagaveytia (abogado, propietario del haras “las Acacias”); Alberto Calamet; Juan Carrara (también fundador del Pueblo Ituzaingó); Bernardino Dualde (también fundador del Pueblo Ituzaingó); Francisco Echagoyen (otro fundador del Pueblo Ituzaingó); Mariano Estapé (hombre de negocios español, vinculado a clubes sociales como Club Uruguay y Club Español, fue un destacado “turfman” y fundador del Pueblo Ituzaingó), José María Guerra (destacado “turfman”); Gerónimo Picioli (artista lírico italiano, realizo giras por Europa contratado por famosos empresarios ingleses y miembro fundador del Pueblo Ituzaingó); Pedro Piñeyrúa (primer presidente del Jockey Club -1888 a 1898- y fundador de Pueblo Ituzaingó); José Pedro Ramírez (abogado, nieto del saladerista José Ramírez Pérez, también fundador del Ateneo de Montevideo y docente); Gonzalo Ramírez (nacido en Río Grande del Sur, abogado, diplomático y nieto del saladerista José Ramírez Pérez); Francisco Sainz Rosas (también fundador del Pueblo Ituzaingó); Antonio Serratosa (médico español, también fue uno de los fundadores de la Sociedad de Medicina de Montevideo y del Hospital – sanatorio Español); José Shaw (hombre de negocios argentino); Juan Victorica (hombre de negocios uruguayo, fundador del Pueblo Ituzaingó y siempre vinculado como uno de los “turfman” de su tiempo)

El principal clásico del hipódromo es el Gran Premio José Pedro Ramírez que se disputa desde el 1° de enero de 1889, se corrió en su primera versión con el nombre de Gran Premio Internacional, el cual se mantuvo hasta 1914, adoptando su actual denominación un año más tarde. Actualmente se corre todos los 6 de enero, junto con otros premios de alto nivel (Gran Premio Maroñas, Gran Premio Ciudad de Montevideo y Gran Premio Pedro Piñeyrúa), siendo la jornada más importante de la agenda del Hipódromo. También se corre el Gran Premio Nacional desde 1888, actualmente esta carrera se celebra anualmente la primera o segunda semana de noviembre.

La actividad hípica tuvo un desarrollo rápido en Montevideo a fines del siglo XIX y se convirtió en un espectáculo de entretenimiento. Incluso, tenía mayor popularidad en la prensa escrita que el fútbol. Basta recorrer los periódicos de la época y se aprecia el lugar que se le otorgaba en la opinión pública.

.

Hipódromo de Maroñas en la actualidad. Imagen tomada de: https://www.gustavomirabal.es/wp-content/uploads/2018/12/Hipodromo-de-Maronas.jpg

.

Referencias:

  • BARRIOS PINTOS, Aníbal (1971). Los barrios (II). Montevideo: Nuestra Tierra.
  • BUZZETTI, José y GUTIÉRREZ CORTINAS, Eduardo (1965). Historia del deporte en el Uruguay (1830-1900). Montevideo: Ed. De los autores.
  • DUFFAU, Nicolás y POLLERO, Raquel (2016). Población y sociedad. En: G. Caetano (Dir.) y A. Frega (Coord.), Revolución, Independencia y construcción del Estado (pp. 175-222). Montevideo: Planeta.
  • FINCH, Henry (2014). La economía política del Uruguay contemporáneo 1870-2000. Montevideo: Banda Oriental.
  • GOMENSORO, Arnaldo (2015). Historia del Deporte, la Recreación y la Educación Física en Uruguay. Crónicas y relatos. Montevideo: IUACJ.
  • MARIANI, Alba (2013). Los negocios británicos en el Río de la Plata. Tomás Tomkinson (1825-1875). Páginas. Revista digital de la escuela de historia; n° 9, Rosario (pp. 164-178)
  • MELO, Victor Andrade de (2004). Los primeros tiempos del deporte en la ciudad de Rio de Janeiro. Brasil. En: Cultura, ciencia y deporte; v. 1 (n° 1), Murcia (pp. 7-13).
  • .

Projeto Roteiros Sportivos – Roteiro 1 – Jogo da Bola

13/12/2020
.
O projeto “Roteiros Sportivos” objetiva apresentar um pouco da história do Rio de Janeiro por meio de suas experiências de diversão, entre as quais as relacionadas ao esporte. A iniciativa ajuda também a refletir sobre as mudanças urbanas e de comportamento da cidade.
.
Nestes tempos de pandemia, fique em casa! Sugerimos que faça o circuito virtual. Para quando tudo voltar ao “normal”, deixamos no mapa sugestões de percursos que foram pensados para serem feitos a pé ou com o apoio do VLT. Basta selecionar o trecho no menu à esquerda.
.
Bom passeio!
.
O projeto “Roteiros Sportivos” é uma realização do “Sport”- Laboratório de História do Esporte e do Lazer.
Ficha Técnica: Marcus Macri e Victor Melo
.
——————xxxxxxxxxxxxxxx———–
.
Este mapa procura localizar, na cidade do Rio de Janeiro da atualidade, os antigos estabelecimentos de “Jogo da Bola”, espaços nos quais os cariocas dos séculos XVIII e XIX procuravam diversão. A cidade mudou radicalmente. Muitos logradouros trocaram de nome e mesmo desapareceram. Mas algumas reminiscências do passado persistem, inclusive a Rua do Jogo da Bola, situada no Morro da Conceição, região central.
.
Mas o que era o Jogo da Bola? Nada a ver com o futebol. Práticas com pelotas existem há séculos. No decorrer da história, jogou-se com ou sem implementos (tacos, por exemplo), coletiva ou individualmente, com bolas de diferentes formatos e materiais, adotando-se as mais diversas regras. A modalidade que no Rio de Janeiro chegou, vinda da Península Ibérica, conhecida como jogo da bola de pau, guardava semelhanças com o boliche. Uma pelota de madeira era atirada, por uma pista de terra ou tábua, para derrubar pinos que tinham diferentes pontuações.
.
Os estabelecimentos que ofereciam o Jogo da Bola vendiam bebidas e comidas, bem como promoviam apostas ao redor das partidas. Dada a sua dinâmica, por vezes o clima esquentava, sendo comuns de relatos de brigas, tumultos, conflitos. De toda forma, o povo se divertia!
.
O tema já chamou a atenção de alguns autores. Adolfo Morales de los Rios Filho (2000) sugere que, junto com as brigas de galos, era das mais populares diversões de seu tempo. Para Vieira Fazenda (1921a, p. 152), a prática era a única que competia com a Ópera, com a diferença de que eram “os jogos da bola frequentados pela arraia miúda”. Santos (1825) e Gonçalves (2004) também dedicaram à modalidade algumas linhas.
.
Se você quer saber mais informações, leia esse artigo:
* MELO, Victor Andrade. Mudanças nos padrões de sociabilidade e diversão: o jogo da bola no Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). História, São Paulo, v. 35, e105, p. 1-23, 2016.
http://historiasp.franca.unesp.br/mudancas-nos-padroes-de-sociabilidade-e-diversao-o-jogo-da-bola-no-rio-de-janeiro-seculos-xviii-e-xix
.
Para acessar o mapa:

.ROTEIROS SPORTIVOS – Roteiro 1 – o Jogo da Bola no Rio de Janeiro dos séculos XVIII e XIX – Google My Maps


O remo na terra do chuvisco

05/11/2020

Por Victor Andrade de Melo

* Este post é parte de um livro que estou escrevendo em parceria com Juliana Carneiro

Em Campos dos Goytacazes, cidade do norte do Rio de Janeiro, houve um dos mais vibrantes movimentos do remo nacional. As regatas se tornaram usuais na primeira década do século XX graças a duas agremiações: o Clube Natação e Regatas Campista e o Sport Club Saldanha da Gama.

,

Sede do Sport Club Saldanha da Gama.
Disponível em: http://camposfotos.blogspot.com/2010/11/clube-de-ragatas-saldanha-da-gama.html

.

As agremiações náuticas rapidamente caíram no gosto popular e passaram a fazer parte dos principais festejos da cidade. As sociedades de remo também participaram ativamente das celebrações políticas mais importantes. Da mesma maneira, seus eventos se tornaram grandes acontecimentos.

.

Embarcação do Clube de Natação e Regatas Campista em Festa de São Salvador.
Careta, 16 ago. 1913, p. 21.

.

As atividades das agremiações náuticas não se restringiram ao Rio Paraíba do Sul. Os clubes tomaram parte em provas e eventos realizados em outras cidades, notadamente no Rio de Janeiro, em muitas ocasiões obtendo boas colocações.

.

Manoel Bastos, do Saldanha da Gama, e Bernardino dos Santos, do Campista, em banquete comemorativo das regatas da Exposição Nacional.
Revista da Semana, 11 out. 1908, p. 16.

.

A atuação mais intensa das agremiações, contudo, foi mesmo em Campos, e não se resumiu às regatas. Os clubes promoveram, por exemplo, uma atividade que se tornara usual na cidade: passeios fluviais. Por vezes, nesses eventos, houve páreos.

.

Passeio fluvial do Clube Natação e Regatas Campista.
Careta, 31 jan. 1914, p. 20.

.

Mesmo promovendo atividades diversas, e tendo um caráter social notável, os páreos de remo e natação eram o centro da vida dos clubes. Vale destacar que havia, inclusive, regatas femininas, um indício da nova presença pública das mulheres e da conexão de Campos com o que se passava em outras cidades.

.

Remadoras do Pataíba do Sul.
Legenda: “Elas são lindas, alegre, jovens, campistas e amam o esporte”.
Sport Ilustrado, 17 ago. 1938, p. 26.

.

No final da década de 1910, uma novidade enriqueceu o quadro do esporte náutico em Campos: a criação do Sport Club Rio Branco (a partir de 1922, renomeado Clube de Regatas Rio Branco).

.

Remadores de Campos.
Sport Ilustrado, 19 nov. 1942, p. 16.

.

Cada vez mais, por ocasião dos eventos náuticos/aquáticos, as margens do rio ficavam tomadas de gente – em algumas ocasiões se estimou ao redor de 10 mil pessoas. Além disso, era usual que os adeptos acompanhassem as provas de embarcações ancoradas no rio: vapores, pequenos barcos, até mesmo canoas. Muitos cronistas destacavam a grande presença feminina, a seu ver algo que conferia um brilho especial aos eventos náuticos.

.

Remadores de Campos.
O Jornal, 21 jun. 1936, p. 19.

.

O Paraíba do Sul, mais do que nunca, tornara-se um local de festas esportivas que mobilizavam a cidade, celebrando-se a adesão de Campos a parâmetros de modernidade.

.

Festa náutica no Paraíba
Fon Fon, 18 abr. 1914, p. 39.

.

As notícias do sucesso do remo e da natação em Campos chegaram amiúde ao Rio de Janeiro. Muitos foram os clubes da capital que prestigiaram as regatas da cidade. No Paraíba do Sul, disputaram provas remadores e nadadores importantes como Abrahão Saliture e Orlando Amendola. Eram sempre recebidos com grandes homenagens e intensa programação festiva.

.

Remadores de Campos.
Diário de Notícias, 29 out. 1936, p. 12.

.

O remo foi tão importante para a cidade que se chegou a construir, na segunda metade da década de 1960, um pavilhão de regatas para acolher o público sempre entusiasmado que prestigiava as provas náuticas. Com grande polêmica, foi destruído em 2012. Campos, foi, de fato, um dos poucos municípios brasileiros a ter tal instalação.

.

.

Vale o registro: no Brasil, poucas cidades que não eram capitais tiveram tamanha efervescência no envolvimento com o remo.

.


Hamilton: mais de uma década depois

04/10/2020

por Victor Melo

.

Escrevemos tantas coisas que não raramente esquecemos de algo que escrevemos. Hoje, lembrei de um breve artigo que publiquei há mais de 10 anos, em 2008.

O repórter da Folha de São Paulo me ligou e, com a rispidez típica (e por vezes admirável) dos jornalistas, lançou o petardo: “Professor, o que pode significar a vitória de Hamilton?”. O notável automobilista, ainda jovem, tinha grande chance de se tornar campeão do circuito da Fórmula 1. Mesmo não sendo meu tema central de estudo, arrisquei algumas opiniões, ressaltando a importância de um negro sagrar-se vitorioso numa modalidade na qual há poucos negros representados.

O repórter, então, lançou um desafio: “Aceitas escrever um breve artigo sobre isso? Tem que se claro, direto, com número limitado de caracteres. Sim, e somente será publicado se Hamilton for campeão”. Demorei um pouco, mas aceitei, afinal, parecia um esforço interessante de reflexão. Frente à minha resposta positiva, retrucou o repórter, que preparava uma grande matéria sobre o piloto: “E agora, professor, para quem vamos torcer: Massa ou Hamilton?”. O brasileiro Felipe tinha grandes chances de também se sagrar campeão.

.

Massa e Hamilton Paulo Whitaker/Reuters Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/f1/ultimas-noticias/2016/09/01/

.

Não respondi, nos despedimos e, com a cabeça em polvorosa, me pus a tentar rabiscar algo. Eu e o repórter passamos os dias seguintes dialogando. Ele me deu dicas valorosas de como escrever para um jornal. Fui ajustando, tentando aprender. Ele foi paciente. No domingo, dia da corrida, nos falamos pela manhã, fizemos os ajustes finais e ele retomou a pergunta: para quem torcer Massa ou Hamilton?

Em tom solene, consagrei: como brasileiro, por Massa, como seres humanos, por Hamilton. Rimos da tergiversação e fomos aguardar o resultado que todos hoje sabemos – o britânico se tornou campeão, numa corrida emocionante, deixando para sempre seu nome registrado na história (e meu artigo foi publicado, bem como a grande matéria – Folha de São Paulo, Caderno Esporte, 3 nov. 2008, p. 3, disponível aqui http://cev.org.br/biblioteca/vitoria-ajuda-a-superar-preconceitos/).

.

Hamilton campeão
Reuters
Disponível em: http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Formula_1/0,,MUL846415-15011,00-NA+ULTIMA+CURVA+HAMILTON+GANHA+O+TITULO+E+FAZ+HISTORIA+NO+QUINTAL+DE+MASSA.html

.

Mais de 10 anos depois, Hamilton está prestes a registrar mais do que nunca seu nome na história. Não só por ser um magnífico piloto, um incrível atleta de um dos esportes mais difíceis e arriscados, mas também por se tornar um líder global por suas posturas políticas, por dar visibilidade a questões que extrapolam em muito e são mais importantes do que o esporte: vidas negras importam.

.

Liderados por Hamilton, pilotos se ajoelham em protesto contra o racismo antes do GP da Áustria
Disponível em: https://jovempan.com.br/esportes/outros-esportes/pilotos-se-ajoelham-em-protesto-gp-da-austria.html

.

Hamilton está prestes a bater o recorde mundial de vitórias e igualar o de campeonatos da Fórmula 1. E tudo isso sem se deixar calar pelos burocratas do esporte. Perceba-se que isso se dá em um momento em que, no Brasil, critica-se a atleta Carol Solberg apenas por ela expressar o seu ponto de vista. Curiosamente, a mesma medida não foi tomada para aqueles que defenderam o que hoje Carol critica. Pior, a atleta sofreu reprimenda de uma comissão de atletas que supostamente deveria a representar e defender. Poucas vezes se viu tamanha pusilanimidade e peleguismo. Mentira. No Brasil de hoje, lamentavelmente isso é cada vez mais comum.

.

.

Incomum essa postura? Ou sinal do adesionismo, conservadorismo e alienação que lamentavelmente marcam largas esferas do campo esportivo, algo perceptível, por exemplo, nas atitudes da diretoria de um clube de futebol que, beirando o “terraplanismo”, não considerou com profundidade os desdobramentos da crise pandêmica que vivemos, tendo que pedir o adiamento de uma rodada por sua equipe estar largamente infectada.

Hamilton, Carol e muitos atletas que não se deixaram calar entraram e entrarão para a história pela porta da frente. Entenderam que não basta ser magnífico nas lides esportivas, há que se ser magnífico na vida, para a sociedade, para a humanidade. Existem muitos atletas. Alguns são excelentes atletas. Alguns ultrapassam isso. Alguns são mesmo quase heróis. Hamilton é desses. Faz muito bem que nos dias de hoje tenhamos um herói negro e insubmisso. Ajuda a deixar mais claro quem são os canalhas da história.

.

.

Sabe de uma coisa: fiz muito bem, em 2008, ao torcer para Hamilton em nome da humanidade. A humanidade é muito mais importante do que um nacionalismo barato como esse que anda em voga nesse triste Brasil dos dias de hoje.

Abaixo, a versão semifinal do artigo publicado, ainda com outro título e sem revisão final.

NEGROS NO PÓDIO.folha.sao.paulo

.


Europeus e cariocas nos momentos iniciais do esporte em São Paulo

19/09/2020

Por Flávia da Cruz Santos
flacruz.santos@gmail.com

 

As primeiras experiências esportivas desenvolvidas em São Paulo, não constituíam, ainda, o chamado campo esportivo, mas foram fundamentais para o desenvolvimento deste, anos mais tarde. Tais experiências, no entanto, eram compreendidas explicitamente, desde os seus primórdios, como divertimento. O fim dos esportes era promover alegria e prazer.

Os imigrantes europeus, presentes na cidade desde a sua fundação, tiveram papel central nesse processo de desenvolvimento dos esportes. Eles foram os responsáveis pelas presenças iniciais das duas primeiras práticas esportivas que surgiram em São Paulo, a esgrima e o críquete.

.

O Estado de São Paulo, 20 de novembro de 1913

.

Os mestres de esgrima, responsáveis pelas pioneiras presenças dessa prática nos jornais paulistanos, eram europeus: alemães, italianos e franceses. Foi com professores europeus que os paulistanos aprenderam a esgrima, e foi por influência inglesa que eles desejaram aprendê-la. A mesma presença determinante dos europeus, pode ser sentida nos momentos iniciais do críquete na cidade. Eles foram praticantes e organizadores da prática, cujas primeiras aparições nos jornais se deram, em língua inglesa, em 1872.

.

A Província de São Paulo, 31 de agosto de 1888

.

Os europeus, principalmente os ingleses e os franceses, foram decisivos para a chegada e o desenvolvimento dos esportes em São Paulo. Não apenas uma referência ou um modelo a ser seguido, eles foram os fomentadores, aqueles que desenvolveram as pioneiras iniciativas esportivas na capital paulista e que seguiram implementando e fazendo avançar o esporte na cidade.

A tese de que o Rio de Janeiro foi o ponto de onde o esporte se irradiou para o Brasil, se confirma aqui, no caso de São Paulo, apenas parcialmente. As relações comerciais, políticas e culturais entre estas duas cidades vinham de muito tempo, favorecidas pela proximidade geográfica entre elas.

.

Correio Paulistano, 27 de maio de 1875

.

Era noticiado nos periódicos paulistanos o desenvolvimento esportivo carioca, indicando que o mesmo deveria se dar em São Paulo. O Rio foi uma referência a ser seguida, e também a ser combatida. Combatida não no sentido de ser negada, mas de ser superada. A referência mesmo era a Europa. Com a intenção de se aproximar ao máximo desse continente, é que a corte deveria ser superada. O gosto pelos esportes devia ser maior em São Paulo do que na corte, a performance dos paulistanos também devia ser melhor do que a dos cariocas.

Mas os paulistanos e cariocas foram importantes uns para os outros, no que tange ao desenvolvimento esportivo. Os primeiros adversários dos paulistanos foram os cariocas. As equipes viajavam de uma província para a outra para se enfrentar, o que contribuiu para o desenvolvimento esportivo em ambas as cidades.

.


Associação Atlética Vila Isabel: 70 anos de história. Adeus ou até logo?

10/09/2020

por João Azevedo

.

“Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos
Do arvoredo e faz a lua
Nascer mais cedo”

.

O bairro de Vila Isabel, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, é famoso pela boemia, um ar brejeiro, “sem vela e sem vintém, que nos faz bem”. As calçadas musicais, são uma marca registrada do bairro. Elas foram inauguradas em 1965, nas comemorações do quarto centenário da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A canção citada acima, é de autoria de um dos maiores compositores da música popular brasileira. Em parceria com Vadico, Noel Rosa compôs o Feitiço de Vila em 1934 e a gravação saiu pela Odeon (11.175A) em outubro daquele ano.[i] Esta música, faz parte das dezenove partituras espalhadas, entre a praça Maracanã e a praça Barão de Drummond. Iniciando com a marcha Cidade Maravilhosa, de André Filho e separando nove canções para cada lado, ao longo do Boulevard 28 de setembro.

.

Fonte: Acervo pessoal do autor

.

Na imagem acima, observamos o portão de entrada da Associação Atlética Vila Isabel (AAVI). Localizada no Boulevard 28 de setembro, 60. Quis o destino que a única música do poeta da Vila, exposta nas calçadas musicais, ficasse no muro daquele grêmio. O Vilinha, como foi chamado por anos carinhosamente a AAVI, foi por mais de setenta anos, um espaço de encontro importante para o bairro, para a zona norte e também para cidade do Rio de Janeiro. Entretanto, neste momento o clube já foi completamente fechado e seu interior desconfigurado, sendo lhe destruído toda a estrutura.

.

.

Este post não pretende esmiuçar com rigor, toda a trajetória da Associação Atlética Vila Isabel. Mas sim, fazer um pequeno resgate de acontecimentos esportivos e sociais que envolveram seus sócios, praticantes de atividades esportivas do grêmio e frequentadores do local. Deixa também uma contribuição para que no futuro se possa estuda-lo com mais atenção em um artigo, resenha e até mesmo trabalho acadêmico. Infelizmente, não é só a AAVI que passa por essa situação e que poderá ser objeto de análise neste sentido, de clubes que fecharam as portas em nossa cidade.

Curiosamente, na contramão da trajetória destes clubes, está a escola de samba do bairro. O Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, fundado em 4 de abril de 1946, também é outra joia do bairro. A branco e azul de Vila Isabel, levanta a moral e a identidade local, a cada ensaio no Boulevard e a cada vez que entra na Avenida da Sapucaí. A escola que sofreu anos e anos sem quadra, hoje não passa mais por esse problema. Na época em que não tinha um endereço fixo, chegou a ensaiar e fazer eventos na sede do AAVI.

 .

Fonte: Acervo pessoal do autor

.

A Vila Isabel, também já teve seu clube de football, no início do século passado. O Villa Izabel F.C., mandava seus jogos em um campo que ficava dentro do que hoje se chama, recanto do trovador. Na altura, o espaço tinha sido recentemente desocupado pelo Zoológico da cidade. E por muitos anos, moradores e transeuntes, chamavam e por vezes ainda chamam a localidade, de antigo Zoo. O Parque Recanto do Trovador fica no fim da rua Visconde de Santa Isabel com a esquina da rua Barão de Bom Retiro.

O clube dos Raios de sol, como era apelidado o Villa Izabel Football Club, devido ao escudo, foi fundado em 2 de maio de 1912 e figurou entre os clubes mais proeminente da cidade, durante o fim da década de 1910 até meados dos anos de 1930. A partir de então, entrou em declínio, até fechar as portas e desaparecer de vez do cenário esportivo carioca.

 .

Vida Sportiva, Anno IV, n. 169, 20 de novembro de 1920. p. 1.

 .

Alguns anos mais tarde, em 1950, reuniam-se cerca de duzentos moradores locais de Vila Isabel, na residência de Nelton Xavier, a fim de comemorar os feitos obtidos pelas forças armadas brasileiras na Itália e em seguida fundar uma associação atlética com o nome do bairro. Este encontro se deu, no dia 8 de maio, o “dia da vitória”. Data que ficou marcada pelos aliados em 1945 no fim da segunda guerra. Entre os presentes, naturalmente haviam muitos militares. E depois de realizada uma breve oração em memória aos soldados que foram aos campos de batalha na Europa, foi declarada a fundação da Associação Atlética Vila Isabel, pelo então presidente de honra da mesma, General Zenóbio da Costa. Posto isto, foi implementada a diretoria que contou com: Presidente, Tenente Coronel Jaime Graça, 1º vice-presidente, o anfitrião Nelton Xavier e 2º vice-presidente, Tenente Coronel Drumond Franklin e para o cargo de secretário, Major Tomé da Silva.[ii]

.

Emblemas disponíveis em: Camisas do Futebol Carioca / Auriel de Almeida – 1º ed- Rio de Janeiro: Máquina, 2014. e https://aavilaisabel.blogspot.com/

.

O emblema da Associação Atlética Vila Isabel, faz efetivamente alusão ao antigo clube de futebol do bairro. Entretanto, não há nenhuma evidência de relação direta entre diretores ou sócios do Villa Izabell F. C., com os novos fundadores da Associação Atlética. A questão aí, parece mesmo de resgate de memória local.

Logo nos primeiros anos vida da Associação Atlética, o grêmio se destacou em inúmeras atividades esportivas e socias, tais como os concursos de Miss. O clube sediou por várias vezes, concursos de beleza, que recebiam candidatas de variados clubes da cidade. Como no caso do desfile das “Dez mais” dos clubes cariocas.[iii]  O “Miss Luzes da Cidade’’ em 1957.[iv] E outros eventos. Todavia, o ápice veio com os títulos de Miss Distrito Federal e posteriormente Miss Brasil, da sócia da AAVI, Vera Ribeiro. Vera, faturou o prêmio local, no ginásio da Maracanãzinho em junho de 1959.[v] Dias depois da vitória de Vera Ribeiro, o presidente da Associação Atlética da Vila, proclamou “A Vila não quer abafar ninguém, só quer mostrar que tem meninas também”.[vi] Assim, parafraseando o poeta Noel Rosa, na canção Palpite Infeliz.

Depois de conquistar o troféu de Miss Brasil, também no palco do Maracanãzinho, a candidata brasileira ganhou passagem para o concurso de Miss Universo em Long Beach, nos Estados Unidos da América. No evento internacional, Vera Ribeiro, terminou com o quinto lugar.[vii] Depois dela, outras sócias, viriam a triunfar nos desfiles de beleza, como o caso de Jane Macambira, Miss Guanabara de 1972 e Senhorita do Rio em 1970. A obra de Noel Rosa, continuaria presente nas frases que associavam as coisas do bairro. Na reportagem da revista Manchete de 1972, que publica a vitória de Jane, lê-se, o Feitiço da Vila, em referência a beleza da moça. [viii]

.

Manchete, n.733, 7 de maio de 1966. p. 239

.

O Vilinha, também organizou muitos eventos ligados a prática do vôlei, além de obter equipes que disputavam o campeonato citadino. Serviu a Federação Metropolitana de Vôlei e teve reconhecimento local por isso, como aponta o Jornal dos Sports em 27 de fevereiro de 1953. A matéria publica que na quadra da AAVI, será disputado um quadrangular, sob aprovação do diretor técnico da federação, Ary de Oliveira.[ix] Este torneio, ficou conhecido como “Copa FMV” e permaneceu sendo disputado na quadra da Associação da Vila Isabel. Na imagem abaixo, vamos observar uma fotografia da equipe juvenil da Associação Atlética Vila Isabel de 1953, em disputado do campeonato carioca da categoria.

.

Jornal dos Sports, Anno XXIII, n.7.251, 19 de abril de 1953. p. 13.

.

A quadra do clube “aviano’’ (outra alcunha da AAVI), também deu lugar a muitas atividades sociais, tais como bailes de carnaval, jantares dançantes com apresentações de cantores e cantoras de rádio, famosos à época, como Ângela Maria, nos anos de 1950.[x] Chegou a receber em 1980 em um festival, o Rei do Baião.  Luiz Gonzaga se apresentou no mesmo dia que, Emílio Santiago, Dicró, Nelson Cavaquinho e outros da música popular brasileira.[xi]

No futebol de salão, o clube conquistou o tricampeonato da Federação Metropolitana de Futebol de Salão em 1965 [xii] , revelou alguns jogadores para o futebol de campo, como no caso de Carlos Pedro do América Football Club, que havia sido campeão juvenil de futebol de salão pela AAVI em 1959.[xiii] Além de consagrar outros esportistas da cidade, como nas disputas de halterofilismo, chegando a ser naquele espaço conquistado o recorde brasileiro na posição horizontal, por Miguel Fustagno. O atleta alcançou a marca de 150 quilos na posição, superando a si mesmo com a anterior marca de 110 quilos.

.

Manchete Esportiva, n.145, 30 de agosto de 1958, p. 13.

.

Nos últimos anos, o clube vinha passando por inúmeras dificuldades financeiras, baixo numero de sócios e pouca adesão aos eventos esportivos e sociais realizados em sua sede. A história da Associação Atlética Vila Isabel, conta um pouco a história da nossa cidade. As novas formas de lazer, implementadas pelos prédios com estrutura de clube, shopping center, brinquedos eletrônicos etc. Demonstra também, sobretudo, o esvaziamento das elites locais, do poder de compra dos moradores de zonas mais afastadas da praia e do centro da cidade. Hoje, associar-se a um clube, é uma prática que poucos podem e se importam em fazer. Assim vão se fechando inúmeros clubes da zona norte carioca e de outras regiões menos abastadas. Fica a memória de quem viveu e a reflexão do que está por vir. Será que voltaremos a sentir a necessidade de associativismo local, ou o divertimento será só privilégio de algumas zonas da cidade?

——————————xxxxxxxxxxxxxxxx————————

[i] Omar Jubran, Noel Pela Primeira Vez, 2000.

[ii] Diario de Noticias, Anno XX, n.8460, 23 de maio de 1950. p. 2.

[iii] O Cruzeiro, Ano XXXIII, n.13, 7 de janeiro de 1961. p. 18.

[iv] Manchete, n. 281, 7 de setembro de 1957. p. 18.

[v] Manchete, n. 375, 27 de junho de 1959. p. 8.

[vi] Manchete, n. 377, 11 de julho de 1959. p. 9.

[vii] Manchete, n. 733, 7 de maio de 1966. p. 241.

[viii] Manchete, n. 1.054, 1 de julho de 1972. p. 5.

[ix] Jornal dos Sports, Ano XXIII, n.7.208, 27 de fevereiro de 1953. p. 8.

[x] Revista do Rádio, n.516. p. 44.

[xi] O Pasquim, Ano XII, n.598, 12 a 18 de dezembro de 1980. p. 28.

[xii] Revista do Esporte, n. 368. p. 19.

[xiii] Revista do Esporte, n.239. p. 18.


A TALE OF TWO ROBBERIES (uma contribuição de Matthew Brown)

26/08/2020

* Este post é uma contribuição especial de Matthew Brown,
Professor in Latin American History, University of Bristol, UK.
Author of From Frontiers to Football: An Alternative History of Latin America since 1800 (2014).

Este artigo foi originalmente publicado em espanhol em El Malpensante, número 219, julho fr2020 https://www.elmalpensante.com/articulo/4385/el_brazalete_de_bogota.

.

It is half a century since the captain of the England’s men’s football team, Bobby Moore, was charged with shoplifting an expensive bracelet in Bogotá, Colombia. Questions remain over what happened and why. It is of course absurd to return to the theft of a bracelet in 1970 when Colombia’s under-resourced institutions of peace, justice and reconciliation are attempting to clarify the truth about an armed conflict that left over 220,000 dead, tens of thousands ‘disappeared’ and seven million displaced, and in the midst of a public health crisis that threatens the lives and livelihoods of the most vulnerable sections of society.[1] The history of the Bogotá bracelet continues to resonate because it feeds off international cultural stereotypes both in Colombia and the UK that were only slowly being eroded by transatlantic travel and instantaneous news communications at the time. It also reveals the ways in which historical memory was constructed in an area of close links between media, politics and the institutions of justice.

The facts of the matter appear pretty simple. The England squad landed in Bogotá on 18 May to prepare at altitude on their way to the World Cup in Mexico. That same afternoon a female assistant in a jewellery concession in their hotel lobby accused Moore and Bobby Charlton of stealing a bracelet decorated with emeralds and diamonds. They denied it and turned out their empty pockets. The squad flew on to Ecuador where they played further friendly matches. Moore was discretely arrested and charged when they stopped over back in Bogotá on 25 May.[2] After a three days of media speculation and legal process Moore was released and allowed to travel to Mexico, although the case continued for several years and a cloud was cast over his reputation.

Although I and others have looked over the years, there is no smoking gun or confession in the surviving archives. The emerald store owners we have asked can’t provide definitive proof. It is plausible that Moore took the bracelet, or that he took the blame for the horseplay of a teammate. His biographers have revealed the extent to which he struggled to maintain his impeccable image whilst drinking and socializing, and indicated that he pledged to protect a ‘third man’ and never reveal the secret.[3] Moore died of cancer in 1993. The shop assistant who accused him, Clara Padilla Morales, went to live in the United States, and was never heard of again. Even if this anniversary finally brings her out of hiding to tell her side of the story, we will probably never know ‘the truth’. The ‘Bogotá bracelet’ has passed into the mists of time, dragging the histories of local and international institutions of sport, politics and justice with it.

.

Lobby journalism

As we pick through the surviving sources – the statements issued at the time, the memoirs of the players, and the documents that the British Foreign and Commonwealth Office have allowed to emerge over time – we can get an insight into the ways that history and public memory are constructed on the basis of the stories that are told and the details that are withheld.[4] The British players and journalists who accompanied them had very little knowledge or understanding of Colombia, and they travelled in a tense bubble in which their manager, Sir Alf Ramsey, struggled to control the group dynamics. Relations with the press were already strained. On the day that Moore was accused of the robbery, for example, the jetlagged journalists agreed not to write anything about the incident. That gentlemen’s agreement should have kept a lid on it. It was only El Tiempo’s correspondent, a young, ambitious journalist called Germán  Castro Caycedo, who went on to be one of Colombia’s major writers of non-fiction, who wrote a small note on the front page the next day, without naming Moore. This appeared alongside the news that Bobby Charlton had lost his wallet – containing personal papers and some money – presumably to pickpockets during the outing to visit the Millonarios club. Stories of money, theft and confusion sat alongside the staged photographs of footballers in their smart suits and sunglasses.[5]

In many ways it was the Colombian elite who most cherished Bobby Moore’s image of the uncorruptible, archetypal English gentleman who had wiped his hands before receiving the 1966 World Cup trophy from Queen Elizabeth II. For the Colombian football authorities it was a great honour to have Moore in their country, the epitome of fair play as well as a wealthy icon of Swinging London. As Ramsay remarked at the time, Moore couldn’t possibly have stolen the bracelet because he could have bought the whole shop. Photographs of Moore and his team-mates in the hotel lobby filled the front pages as they brought some English glamour to the new modern nation that was being built in Bogota on the ruins of the country’s violent past.

.

The modern hotel

The scene of the crime was the Hotel Tequendama, a luxurious hotel complex opposite the National Museum. The Hotel was two decades old, a Modernist structure with architectural input from Le Corbusier, built on the site of the old military school where Colombia’s first games of football had been played in the 1890s. The Hotel is still there today, owned by the armed forces, and emerald shops hawk their jewels to office-workers passing through on their lunch-hours. The high-end tourists and business travellers have long since departed for the more secure and expensive international hotel chains in the north of the city. In 1970 the Tequendama epitomized the new, modern Colombia which the capital’s elites hoped to bring into the modern world. The previous building on the site had been destroyed in the 1948 Bogotazo, the popular uprising that brought the political establishment to its knees and catalysed a decade of intense partisan civil warfare across the country, known today as ‘the Violence’.

.

The other robbery of 1970

In 1970 the political elite in Bogotá was struggling to maintain its control of the country at the end of the ‘forgotten peace’, as spiralling social inequality pushed the reformist social democracy to its limits. The reception of the England squad was a way of demonstrating that normality had resumed, just one month after disputed presidential elections held on 19 April. This date marks a ‘defining political event’ in Colombia’s modern history because it is widely believed that the establishment had stolen the election for their candidate Misael Pastrana at the expense of Gustavo Rojas Pinilla, an ex-military dictator who led the polls after discovering democracy and populism. A power blackout during the vote count coincided with a remarkable turnaround in Pastrana’s fortunes, and he was never able to fully establish the legitimacy of his election. The M-19 guerrilla group (literally, the 19 April Movement) subsequently launched a rebellion against the state, carrying out a series of high-profile stunts and terrorist attacks, claiming to stand against a corrupt oligarchy that defrauded ordinary citizens, exemplified by the ‘theft’ of the 1970 election.[6]

An election re-count may appear to have nothing to do with Moore and the emerald bracelet. Some gems glisten from the murky sources, however. Football was both public entertainment and media distraction. Colombian political scientists and historians have demonstrated the close links between the football and political establishments during the 1970s and 1980s. The work of historians such as Ingrid Bolívar and Andrés Dávila has shown the crucial role of football as both public entertainment and media distraction, as well as an avenue for social mobility and identity formation. The lawyer who represented the shop in the case, Pedro Bonnet, later joined the M-19, and worked as a fixer for one of the country’s biggest economic interests. A report in El Tiempo at the time cast aspersions on his character with a snide ‘and some say he is linked to Communism’. The outgoing president Carlos Lleras Restrepo made conciliatory announcements as the military and police forces prevented protest marches and asserted state control against the background of rising inequality and crime.[7]

.

Crime wave

Bobby Moore was accused in the middle of a crime wave. The police had identified ‘a sudden rise in criminality’, up 25% in 1970 from the previous year. They lamented the transformation of Bogota from a sleepy town into a crime-ridden metropolis whose infrastructure was unable to cope with ‘the arrival of an uncontrollable horde of ignorant migrants from the countryside’.[8]

Crime related to emeralds was also on the rise. Colombia was the world’s number one producer but the trade largely took place on the margins of the law. The police had little respect for the esmeralderos who brought the stones to market, ‘believing that everyone has their price’ and that ‘the threat of violence is the only way to get business done’. Foreign tourists were well-known to be ‘easy victims for thieves and frausters’. The violence inherent in the contraband emerald trade later segued into the narco-violence of the 1980s.[9]

Bobby Moore therefore stood uncomprehending in a hotel lobby in the midst of a political, social and criminological crisis which he had no way of understanding. The police were on alert in the midst of a crime wave. The booming trade in emeralds was in the hands of migrants from the provinces who the police saw as natural criminals and liars. The election re-count put the legitimacy of elected rulers in doubt. The arrival of sophisticated sportsmen like Moore himself was supposed to help erase the memory of the disputed election and the smooth over social conflict.[10] Instead the Colombian authorities had to invest their all efforts in getting the English footballer out of a complicated mess.

.

The football establishment

As news spread of Moore’s arrest, the Colombian football authorities gradually realised that they had a public relations disaster on their hands. Their failure to provide interpreters for their visitors had created the conditions where such a misunderstanding could take place. The incompetence of forgetting to unlock the training ground before the English squad arrived on their first full day triggered discontent that the Colombians were not up to the job of hosting the reigning World Champions. Their interests coincided with those of the British representatives, who sought to avoid the journalists whipping up headlines that would antagonise the legal process had delay Moore’s release.

It is clear that the British authorities wanted Moore released as soon as possible, and mobilized their contacts to achieve this aim. The representatives of the English Football Association travelling with the squad sent messages home in great alarm. The case was discussed at the highest level. When Harold Wilson’s Cabinet met on 28 May, the agenda for the Overseas Affairs section of the meeting was ‘East-West Relations: NATO Ministerial Meeting in Rome on 26-27 May – Arabia: Oil Prospecting – Mr. Bobby Moore – British Council of the European Movement: Grant-in-Aid’.[11]

The defender’s defence was quickly taken up by the lawyer Vicente Laverde Aponte, who had been Minister of Justice between 1960 and 1962 under the reforming Liberal president Alberto Lleras Camargo. Moore was released after questioning on the condition that he went into house arrest in the home of Alfonso Senior Quevedo, the President of the Colombian Football Federation. Keith Morris drove him there in the middle of the night. Senior’s role in protecting Bobby Moore has tended to be overlooked in favour of the footballer’s stoicism and heroism. But Moore’s fate gave Senior an opportunity to demonstrate his capacity as a football administrator who achieved results, building a global dimension to his national achievements. Senior knew football distracted Colombians from politics. As a director of Millonarios it was he who had offered inconceivably large salaries to lure international superstars like Alfredo Di Stefano and Neil Franklin to play in the famous ‘El Dorado’ leagues from 1948. El Dorado had been a direct response to the urban riots and rural unrest which spread through the country in the early 1950s. The last thing Senior and his allies wanted as they turned football into commercialized spectacle and professionalized business (a good two decades later than in other South American countries such as Argentina and Brazil), was for it to be caught up in a mediatized legal expose of their own failures.

By protecting Moore, Senior and the Colombian football authorities aligned themselves with the British embassy and with the networks that were re-establishing control of the state after the disputed election. A re-enactment of the crime was staged that undermined the shop assistant. Photographs showed an imperturbable Moore training with Millonarios and strolling with Senior. There was nothing to see here.[12]

.

Truth, history and injustice

Even with the support of the football authorities, a former Minister of Justice and the British Prime Minister, however, legal process had to be followed before Moore could be released. Things got serious when, four days after the alleged robbery, a new witness stepped forward to substantiate Padilla’s accusation. This was Alvaro Suárez, introduced by the shop owner as ‘a street vendor who was passing by’, who was well-known to the esmeralderos, and who revealed that he had seen Moore pocket the bracelet. The police and media dismissed him as an underworld put-up job. El Tiempo published articles with unsubtle titles such as ‘The People’s View: No One Believes that Moore Would Have Taken It’, and official statements of ‘the feelings of admiration and affection that the Colombian people feel towards the English people’.[13] The new witness was effectively marginalized.

Conspiracy theories about who had paid Suarez abounded, including that the Brazilian military dictatorship was orchestrating a strategy to undermine English preparations. Moore was released and travelled to Mexico where he enjoyed a celebrated duel with the Brazilian Pelé. He played until England’s defeat in the quarter-finals which left them murmuring about poisonings, conspiracy theories and ‘latinos’. England would not qualify to participate in another FIFA men’s World Cup finals until 1982.

In contrast to the spiralling descent of the English national football team, Alfonso Senior’s star continued to rise. From his origins as a customs agent in the Caribbean port of Barranquilla descended from family on the Dutch colonial island of Curacao, Senior had big ambitions for Colombian football and won a seat on FIFA’s executive committee. From a position of influence within FIFA from 1974 – the year that the incumbent Englishman Sir Stanley Rous was defeated in FIFA’s presidential election by the Brazilian João Havelange, Senior was well positioned between the shifting European – South American alliances. The Colombian authorities had persuaded representatives of the English FA that they could be trusted to sort out a problem. When voting for the hosting rights to the 1986 World Cup took place just a month after Havelange took power, Colombia was selected unopposed.[14]

Senior would have been just as disappointed as Moore and his teammates that the ‘Bogotá bracelet’ affair periodically resurfaced over the next decades. The British diplomatic team and the Colombian authorities had worked together to free the captain from the legal vortex, but the image of a sporting gentleman entrapped by a criminal underworld was hard to dislodge from popular memory once it had been created. By suppressing the history of what really happened in the hotel lobby they ensured that the episode would join other memories of injustice in Colombia’s past. There were probably many inconvenient truths stuffed into the stories that were told. We may never be able to peel away enough distorting layers to reveal them, or to coax new voices out of the silence. Unless one day someone finds an emerald bracelet in a box alongside the medals when they are clearing out the attic.[15]

————-xxxxxxxxxxxxx————

[1] Centro Nacional de Memoria Histórica, ¡Basta Ya! Memorias de guerra y dignidad (Bogotá, 2013).

[2] El Tiempo, 26 May 1970; El Comercio, Quito, 27 May 1970.

[3] To mark the anniversary Keith Morris, the acting British ambassador in Colombia at the time, was interviewed in the Sunday Express, and one of the squad members, Alan Mullery, offered his thoughts to the Mirror. Carl Worswick, who has researched the matter as much as anyone, published an article in the Guardian, and Moore’s biographer Matt Dickinson reflected on it in The Times.

[4] There are twelve separate documents from the FO7 and FO53 relating to the case, including Moore’s witness statement: https://discovery.nationalarchives.gov.uk/results/r/1?_q=bobby%20moore.

[5] El Tiempo, 20 May 1970. The next day’s newspaper reported that Charlton’s wallet had been found ‘on the bus’.

[6] Robert Karl, Forgotten Peace: Reform, Violence and the Making of Contemporary Colombia (Berkeley, 2018).

[7] Andrés Dávila Ladrón de Guevara, ‘Fútbol y política en Colombia: reflexiones politológicas en un año mundialista’, Desbordes, 5, 2014; Ingrid Bolívar, ‘Footballers, ‘Public Figures’, and Cultural Struggles in the 1960s and 1970s’, The International Journal of the History of Sport, 36:13-14 (2019), 1197-1217; Mauricio Archila Neira, ‘El frente nacional: una historia de enemistad social’, Anuario colombiano de Historia Social y de la Cultura, 1997. El Tiempo, 27 May 1970. ‘?Qué será lo que tiene el “negro”?’, Semana, 3 July 1994. I am grateful to Carl Worswick for this reference.

[8] Brigadier General Henry García Bohorquez, Director General, Policía Nacional de Colombia, Estadística de criminalidad 1970, No.13 (Bogotá, 1970), ‘Introducción’, 7, 11, 99, 100. Thanks to Max Hering Torres for sharing this source with me.

[9] Policía, Estadística, 74, 133-4; Pedro Claver Téllez, La guerra verde: treinta años de conflicto entre los esmeralderos (Bogotá, 1993). On the links of an Olympic cyclist to the esmeralderos see Matt Rendell, Olympic Gangster: The Legend of José Beyaert, Cycling Champion, Fortune Hunter and Outlaw (London, 2009).

[10] Policía Nacional de Colombia, Estadística de criminalidad 1970, 74.

[11] The cabinet agenda is at CAB 128/45/24 https://discovery.nationalarchives.gov.uk/details/r/D7664766.

[12] Jorge Mario Neira Niño, 1001 anécdotas de Millonarios (Bogotá, 2012).

[13] El Tiempo, 27, 28 May 1970.

[14] Senior died aged 91 in 2004. He was remembered as ‘the most prestigious and respected administrator in all of Colombia’s sporting history’. Guillermo Tribin Piedrahita, https://web.archive.org/web/20080810023908/http://www.elalmanaque.com/actualidad/gtribin/archivo2004/art27.htm. Germán Zarama de la Espriella, Yo puse a bailar al ballet azul: biografía de Alfonso Senior Quevedo. Bogotá: Ediciones Antropos, 2006.

[15] For a sense of what this might look like, see Antiques Roadshow, BBC, 16 June 2019: https://www.bbc.co.uk/programmes/p07d1tny/player

.


El surgimiento del primer club de remo en Montevideo: el Montevideo Rowing Club (1874)

17/07/2020

por Gastón Laborido (gaston_laborido1@hotmail.com)

.

.

Presentación

El siguiente texto forma parte de una secuencia de escrituras que fueron publicadas en este mismo sitio. En otros trabajos se examinó la importancia del club deportivos como una de las instituciones fundamentales del deporte moderno y las primeras experiencias de instituciones deportivas organizadas en el Uruguay, concretamente durante el periodo 1842-1874.

En esta ocasión analizaremos el surgimiento y el desarrollo del primer club de remo en Montevideo durante la década del 70 del siglo XIX. Se trata de una década muy especial para la historia del deporte uruguayo, ya que el periodo 1870-1880 implicó el empuje y auge de las actividades deportivas y un ambiente que tendió a la agitación de fundación de clubes. Alrededor de 1873, había quedado definido el proceso de integración de nuestro movimiento deportivo. Como aseveran J. Buzzetti y E. Gutiérrez Cortinas (1965) “en el periodo 1870-1875, el empuje y auge de las actividades náuticas, que se señalaban como una verdadera necesidad nacional, impulsadas por la importancia que día a día adquiría el Puerto de Montevideo” (p. 40).

Si bien existió en nuestro país la experiencia del Victoria Cricket Club, entidad creada en 1842, hubo que esperar hasta la década del setenta del siglo XIX para ver el surgimiento de los primeros clubes deportivos estables. En el caso uruguayo los colegios británicos fueron importantes instrumentos de implementación y de difusión deportiva. La colectividad inglesa dentro del Montevideo Cricket Club (1861) y del Montevideo Rowing Club (1874) incorporaron los deportes en este orden: cricket en 1861, remo en 1874, rugby en 1875, fútbol en 1878, atletismo en 1878, natación en 1888 y el waterpolo en 1891.

En este trabajo se estudiará el Montevideo Rowing Club, primer club de remo del Uruguay, con gran importancia en el siglo XX aportando deportistas que obtuvieron medallas de bronce y plata en los Juegos Olímpicos de 1932, 1948 y 1952. Con el Montevideo Rowing Club nació un club que tuvo una fundamental gravitación en toda la evolución de nuestro deporte. Llegado el año 1880 encontramos un escenario en el cual habían surgido clubes, sociedades o asociaciones de los diferentes deportes.

.

Escudo del Montevideo Rowing Club

.

La década del 70 en Uruguay

En la primera mitad del siglo XIX no puede hablarse de una economía articulada y claramente diferenciada de los demás países de la región. De acuerdo a M. I. Moraes (2016) “a partir de 1870 una economía uruguaya en ciernes experimentó un primer ciclo de crecimiento económico moderno jalonado por etapas de apogeo y de crisis que anticipaban lo que habría de ser la dinámica turbulenta y volátil del capitalismo uruguayo” (p. 133).

El gobierno de Lorenzo Batlle (1868-1872) tuvo que enfrentar graves crisis políticas y financieras. En 1865-1866 se desató una crisis en Uruguay que puso en peligro el sistema monetario y financiero, puesto que una crisis de capitales del mercado británico se conjugó con problemas específicos del Banco Mauá que en ese entonces era una suerte de organismo financiador del Estado. El gobierno se vio obligado a decretar de manera temporaria el curso forzoso de la moneda fiduciaria y se abrió el debate en torno a las ventajas y desventajas de la convertibilidad del papel moneda. Ello provocó la protesta del alto comercio (que solo manejaba oro) y la consiguiente quiebra de varios Bancos en 1868. Se abrió una polémica pública entre los “cursisitas” (eran partidarios del papel moneda) y los “oristas” (partidarios del oro como moneda única).

Por otro lado, las crisis políticas estaban vinculadas a la debilidad del poder central, fuerte figura de los caudillos locales y la política de gobierno de Lorenzo Batlle que excluyó al Partido blanco del gobierno. Esto provocó  la “revolución de las Lanzas” (1870-1872), ocasionando grandes daños en el campo. La guerra finalizó con un acuerdo entre los partidos que se basó en que los blancos recibirían jefaturas políticas de cuatro departamentos: Canelones, San José, Florida y Cerro Largo. Esto significó que una parte del país era gobernada por colorados y otra por blancos.

Este periodo es reconocido como el “legalismo principista”, nombre asignado por universitarios intelectuales liberales, quienes responsabilizaron a los partidos políticos y a sus caudillos por el desorden y el atraso del país. Afirmaban que el respeto de los principios legales y constituciones eran garantía de orden y prosperidad.

En 1873 se eligió nuevo presidente, José Ellauri, representante de esos valores principistas. Su periodo duró solamente dos años. Las fuerzas económicas más poderosas del país (estancieros y el alto comercio) aspiraban a una organización política que garantizara la colocación de capital al extranjero, ya que en la segunda mitad del siglo XIX Europa extendió su predominio económico sobre todos los continentes haciendo surgir una economía mundial que la tenía como centro. Ellauri tuvo resistencia, ya que esas fuerzas vivas consideraban que solo el Estado podía crear las condiciones favorables para su desarrollo.

De esta manera, en enero de 1875 se produjo el motín militar que alejó a Ellauri y dio el poder a Pedro Varela. El Ministro de Guerra era el coronel Lorenzo Latorre, quien fue el encargado de vencer la llamada Revolución Tricolor liderada por principistas que estaban exiliados.

Las clases altas urbanas y rurales se hastiaron de las crisis políticas y económicas que conmovieron los primeros años de la década del 70. Su crecimiento era imposible en esas condiciones y fueron a buscar un gobierno militar. El ejército apareció en el escenario político y vino a reemplazar a los caudillos y doctores. En consecuencia los grupos de presión como los estancieros, el alto comercio y el ejército, así como potencias extranjeras –Gran Bretaña-, apoyaron el ascenso del coronel Lorenzo Latorre al poder en 1876 ejerciendo la presidencia como “gobernador provisorio”. Así comenzaba una nueva etapa de la historia del Uruguay denominada Militarismo. Con el Militarismo Uruguay comenzó un proceso de transformaciones y modernización de su economía para insertarse fluidamente en el sistema capitalista mundial. También supuso un Estado eficiente y fuerte.

El Militarismo difiere de los gobiernos anteriores, valiéndose de medios técnicos y modernos para imponer su autoridad en todo el país. En síntesis, la primera etapa del  Militarismo protagonizada por Latorre tuvo logros como: defensa de la propiedad privada de la tierra y del ganado, establecimiento del patrón oro, reanudación del pago de la deuda pública, modernización del Estado, reforma escolar. El país empezó a recorrer el camino de una economía moderna al alto precio del desconocimiento de las normas jurídicas y los derechos civiles.

Frente al desorden financiero estatal, crecieron la producción y la exportación; frente a la arbitrariedad del gobernante, mejoró la administración, avanzó la secularización y se afirmó la conciencia de la nacionalidad uruguaya. El país se encaminaba a convertirse en nación.

Primer club de remeros: el Montevideo Rowing Club (1874)

El proceso económico uruguayo del último cuarto del siglo XIX implicó la fuerte presencia británica en la región. En el Uruguay, la práctica de los deportes modernos surgió naturalmente en la colectividad británica. El deporte llegó a Montevideo en el siglo XIX, cuando los ingleses lo introdujeron en el Río de la Plata y en otras partes del mundo, de la mano del ferrocarril, intercambios con la marinería y de la acción de los colegios ingleses.

Como señala J. C. Luzuriaga (2009), su difusión en la sociedad uruguaya siguió la misma lógica que en Gran Bretaña y en otros países, pasando de las elites al resto de la población en forma de cascada. En este sentido, como indican J. Buzzetti y E. Gutiérrez Cortinas (1965) “en ese clima general, también se extendió el deporte. Y por primera vez se empieza a agitar el ambiente tras la fundación de un club deportivo de regatas, que tomó concreción dentro de la colectividad inglesa” (p. 40).

El 8 de mayo de 1874 surgió una nueva institución deportiva de residentes británicos, un club de remeros: el Montevideo Rowing Club. El contacto portuario y naviero inspiró a un grupo de residentes ingleses a la organización del club. Muchos de sus fundadores estaban ligados directamente a las tareas del puerto: eran dueños de barracas de importación (como Wilson o Elliot); o de muelles particulares (como los de Victoria y Colón); o los industriales relacionados con la reparación de barcos y varaderos (como Federico Humphereys); o simplemente residentes ingleses que ya habían practicado remo en el Támesis (como Fraser o Ludeke). Todos ellos dieron el impulso para fundar un club de remo, ya que los criollos se mostraban indiferentes a deportes como este, aún siendo un país con extensas costas marítimas y fluviales.

La fuerte presencia inglesa en el Río de la Plata supuso la implantación de los deportes modernos. Antes de la fundación del Montevideo Rowing Club, en Argentina el remo comenzó hacia 1857-1858 en la Recoleta. En 1873 apareció el Buenos Aires Rowing Club y tuvo su réplica en Montevideo.

El Montevideo Rowing Club fue fundado en el Hotel Central de Montevideo y según sus actas se reunió la Asamblea Preliminar constitutiva el 8 de mayo de 1874. Sus fundadores fueron 48 y se nombró como presidente de esa asamblea a Samuel Alejandro Lafone Quevedo, quien era hijo del inglés Samuel Fischer Lafone, importante dueño de saladeros de Montevideo. Samuel A. Lafone, al igual que su padre era una figura importante en las esferas económicas y sociales en el Río de la Plata, ligado estrechamente al capital británico. A su vez, Samuel A. Lafone tenía trayectoria en la práctica del remo, en 1870 tripuló el “Lala” que ganó la primera regata trascendente del remo argentino entre el Tigre y el muelle de Buenos Aires.

.

Races organized by the Montevideo Rowing Club in Montevideo Bay, c. 1890. The Hotel Nacional, in the background, was one of the greatest schemes of the National Company of Credit and Public Works. Victim of the 1890 crisis, the building was never operational, and the French manager stayed some years in the empty hotel waiting for an inauguration that never happened. Imagen tomada de: https://imperialglobalexeter.files.wordpress.com/2015/10/montevideo-1890s.jpg?w=760&h=557

.

El 27 de mayo de 1874 se celebró la primera Asamblea General para elegir a las autoridades. Se eligió ese día como primer Presidente Honorario a José Ellauri, entonces presidente de la república. Ese gesto tiene ciertas particularidades, porque desde 1871 estaban suspendidas las relaciones diplomáticas con Gran Bretaña; Londres era un acreedor muy exigente y Uruguay había interrumpido el pago de intereses a los acreedores británicos.

La primera Comisión Directiva presentaba la siguiente integración: Mayor John Munro, H. B. M. Cónsul (presidente); doctor Luis A. Fleury (vicepresidente); Arthur B. Boutell (capitán); Francis Chevallier-Boutell, E. T. Christian, H. G. Hicks, T. J. Netleship, F. Roberts, P. Whishaw, E. Turner, L. Grassie y A. M. Grant (vocales).

El 7 agosto se inauguró el primer local social que también sirvió de albergue de las embarcaciones. Esa sede fue a los fondos de la Barraca Elliot. De allí a la Barraca Fynn en 1875, en 1884 a la de Jackson. Volviendo en 1884 a la Fynn. En cuanto a la sede deportiva, hubo dificultades para ubicarla, pues conseguir un terreno al lado de la Bahía era difícil por la posible iniciación de las obras del puerto de Montevideo.  La solución fue ubicarla en alguna barraca particular, construida sobre el muelle, lo que daba fácil acceso a las embarcaciones, pero precario a los remeros.

Los primeros botes que se adquirieron eran usados, los cuales pasaron a albergarse en el primer local social con el cual contó el Club. Si bien la historia considera a Fraser como uno de los primeros remeros del Club, y que compitió internacionalmente con remeros argentinos; los primeros triunfos importantes aparecieron con Arthur B. Boutell,  primer capitán del club. Fue un remero destacado, dio al club los primeros triunfos en el año 1875, con su hermano Frank H. Boutell del Doubie Scull con timonel. Siguieron los triunfos internacionales de los hermanos Boutell, en 1875, 1876 (aquí integraron el Four con timonel) y en 1877. En aquella época, solo existían dos clubes de remo en el Río de la Plata. El Montevideo Rowing Club y el Buenos Aires Rowing Club.

El club adoptó los colores azul y negro, que fueron sugeridos por Francis Chevallier-Boutell, inspirado por los del London Rowing Club. Por otro lado, el club tiene la particularidad de crear su periódico, el “Eco del Rowing” que en sus comienzos era de forma manuscrita. Allí aparecían referencias a las campañas deportivas del club.

En suma, con el Montevideo Rowing Club nace un club que tendría una fundamental gravitación en toda la evolución de nuestro deporte.

.

.

Referencias:

  • ARIAS, Carlos y REISCH, Matilde (2004). Movimiento clubista y desarrollo deportivo en el Uruguay. Revista NEXO, marzo 2004, Montevideo.
  • BUZZETTI, José y GUTIÉRREZ CORTINAS, Eduardo (1965). Historia del deporte en el Uruguay (1830-1900). Montevideo: Ed. De los autores.
  • GOMENSORO, Arnaldo (2015). Historia del Deporte, la Recreación y la Educación Física en Uruguay. Crónicas y relatos. Montevideo: IUACJ.
  • LUZURIAGA, Juan Carlos (2009). El football del novecientos. Orígenes y desarrollo del fútbol en el Uruguay (1875-1915). Montevideo: Santillana.
  • MORAES, María Inés (2016). El proceso económico. En: G. Caetano (Dir.) y A. Frega (Coord.), Revolución, Independencia y construcción del Estado (pp. 133-173). Montevideo: Planeta.
  • .