“Nem no Playstation é tão rápido assim” – o 7 a 1 e a cobertura da mídia alemã

11/02/2018

Elcio Loureiro Cornelsen
(cornelsen@letras.ufmg.br )

No dia 27 de março de 2018, a seleção brasileira de futebol voltará a enfrentar a seleção da Alemanha, em jogo amistoso a ser realizado no Estádio Olímpico de Berlim, como parte da preparação para a Copa da Rússia. Passados pouco mais de três anos e meio desde aquele fatídico 08 de julho de 2014, quando a seleção de Felipão foi derrotada pelo vexatório placar de 7 a 1 pelos comandados de Jürgen Löw em pleno Estádio do Mineirão, pelas semifinais da Copa, as duas seleções voltarão a se enfrentar.

Ainda em nossos dias, aquela partida suscita comentários e indagações. Hoje, dado o distanciamento temporal, pergunta-se sobre a memória do Mineiratzen – Mineiraço, em alemão – e qual seria seu significado para alemães e brasileiros. No caso brasileiro, questiona-se se aquela derrota histórica e superlativa representaria um trauma ou uma vergonha para o torcedor brasileiro. As opiniões são controversas, alguns falam em trauma, chegam a comparar a derrota de 2014 com o Marcanaço de 1950; outros consideram que o sentimento predominante seria o de vergonha, uma vez que o trauma pressuporia uma derrota inesperada de uma equipe franca favorita, uma verdadeira “queda” após a construção de uma expectativa de pleno favoritismo.

Todavia, o que efetivamente ocorreu não foi isso: a seleção brasileira de 2014 não entrou em campo como favorita, o desempenho nas partidas anteriores à da semifinal não a credenciava como tal. Seria, pois, um jogo difícil contra uma seleção que demonstrava, acima de tudo, conjunto. O placar elástico, entretanto, em termos simbólicos, deixaria suas marcas. Aqueles que defendem a noção de trauma para aquela maiúscula derrota afirmam que não se consegue esquecê-la, e nem mesmo os detalhes de sua vivência, seja nas arquibancadas do Mineirão, seja diante de aparelhos de TV nos lares ou mesmo de telões nos bares.

Não obstante, parece-nos haver um elemento distintivo entre o Maracanaço e o Mineiraço: o suposto trauma cedeu lugar ao riso, por assim dizer, um riso terapêutico, algo que não ocorreu em 1950. O mito da derrota de 1950, designada por Nelson Rodrigues de “nossa Hiroshima”, bem ao seu estilo hiperbólico, não integrou em seu discurso o riso que podia atenuá-la. Tal narrativa cristalizou-se por repetir, continuamente, um clima de derrota atestado por um Maracanã em silêncio.

Por sua vez, logo após o 7 a 1, piadas circularam na Internet, e outras tantas circularam de boca em boca nos dias que seguiram. Uma delas era assim narrada: “No dia seguinte, o pessoal da limpeza do Estádio do Mineirão, após uma boa faxina nos vestiários, encontrou mais dois gols da Alemanha”.

Nesse sentido, concordamos com Marcelino Rodrigues da Silva que, num lúcido e breve ensaio publicado naquele contexto, estabelece uma distinção quanto ao mito da derrota de 1950 e o que ocorreu em 2014:

Mas a Copa, afinal, é apenas futebol. O tempo do jogo já passou e a vida voltou ao normal. O tsunami humorístico que se seguiu à derrota brasileira teve o condão de lavar nossa alma e nos deixar livres de qualquer trauma, de qualquer peso na consciência ou na memória. Não restou nada parecido com o que foi (ou imaginamos ter sido) a derrota de 1950. […][i]

O olhar humorado e mesmo irônico para aquela histórica partida também se fez presente na cobertura da mídia na Alemanha. À época, pouco noticiou-se sobre isso na imprensa brasileira. O maior exemplo provém do site da Focus, uma das principais revistas alemãs. Um misto de perplexidade e alegria pela vitória do selecionado alemão fica patente numa matéria, intitulada “Für die Ewigkeit: Der Super-Sieg im Minutenprotokoll” (“Para a eternidade: A vitória magnífica assinalada minuto a minuto”),[ii] e publicada simultaneamente à partida na página online da revista Focus, composta por frases minuto a minuto. Já no momento do segundo gol, marcado pelo centroavante Miroslav Klose, o articulista aponta para o impacto causado na seleção brasileira: “Recorde de gols, a Alemanha amplia, o Brasil chocado”.[iii] O terceiro gol também é acompanhado de um comentário similar: “Estão passados, os brasileiros”.[iv] E o quarto tento, assinalado aos 26 minutos do primeiro tempo, faz com que o articulista não mais se contenha e decrete a classificação antecipada de sua seleção: “Gol da Alemanha, 4 a 0, marcado por Toni Kroos! Khedira e Müller contra-atacam a seleção brasileira, numa jogada fulminante. Final! Ah, isso nem parece verdade. O que é que eles estão fazendo? Solto, Kross manda a bola na rede. Aqui, os torcedores em amarelo e azul choram coletivamente”.[v] E o quinto gol marcado aos 29 minutos faz com que o articulista perca o controle e anuncie efusivamente: “Gol da Alemanha, 5 a 0, marcado por Sami Khedira! Façam as coisas aqui sozinhos. Não tem mais sentido. Cinco a zero. Cinco. Uma cópia do quarto gol, só que desta vez Özil e Khedira tabelam soltos. Khedira é quem, desta vez, manda a bola para as redes. Cinco a zero”.[vi]

Diante dessa sequência de gols, o articulista não mais se contém e dispara uma série de frases que espelham com precisão o calor da emoção diante do inusitado. Há uma pausa temporal entre o 29º minuto, quando Khedira assinalou o quinto gol, e o próximo apontamento, feito no 36º minuto, estabelecendo um longo “silêncio” que significa muito: “Pois é, devagar estamos retomando aqui. Quatro gols em seis minutos, o sistema aqui cai de joelhos. Quando Höwedes marcará mais um?”[vii] Por si só, esse momento é hilário: um minuto a minuto que não se sustentou, dada a emoção e perplexidade  com que o articulista teve de lidar, caindo de joelhos. A ironia também se revela na referência a Benedikt Höwedes, lateral da seleção e um dos jogadores tecnicamente menos hábeis. E aos 40 minutos, um lampejo de misericórdia perpassa a narrativa: “Juizinho, vê se encerra o jogo agora. Os brasileiros só nos dão pena. E os torcedores vêm abaixo coletivamente, no estádio e na praia de Copacabana. Mas muitos ainda incentivam sua equipe”.[viii] Até o final do primeiro tempo marca para o articulista o fim do jogo, dada a vitória parcial avassaladora: “Intervalo, e até dá impressão que é o final da partida”.[ix] Ao iniciar seus comentários no intervalo, uma dura crítica aos jogadores brasileiros: “Nem no Playstation é tão rápido assim. Em algum lugar deve haver uma falha na lógica, um erro na placa mãe. Ou então este não é um jogo de semifinal de Copa. Os caras com as camisas do Brasil são imitações, impostores”.[x]

Em 2014,  foi escrito um capítulo triste da história do futebol brasileiro. Os mitos do “jogo bonito”, do “futebol arte”, da “pátria em chuteiras” não mais se sustentam como tal. Em Moscou, um novo capítulo dessa história será escrito. Inegavelmente, um desafio para o técnico Tite e seus comandados: o de recuperar o prestígio da seleção brasileira construído por décadas. Superar a vergonha ou o trauma parece estar no horizonte da Copa da Rússia. Antes, o amistoso de março será não só um desafio, o reencontro das duas seleções, desta vez em terreno germânico, como também um momento de despertar fantasmas da derrota. No caso alemão, o discurso que se cristalizou desde aquele 08 de julho de 2014 foi pautado por um tom heroico com relação ao desempenho da seleção, como também de uma mescla de respeito, ironia e certo humor ao olhar o desempenho limitado da seleção brasileira. Espera-se que esse novo capítulo da história a ser escrito nos próximos meses represente uma retomada de curso na trajetória do futebol pentacampeão.

Notas

[i] SILVA, Marcelino Rodrigues da. O que foi feito do país do futebol? In: SILVA, Marcelino Rodrigues da. Quem desloca tem preferência: ensaios sobre futebol, jornalismo e literatura. Belo Horizonte: Relicário, 2014, p. 285-288, aqui p. 288.

[ii] FÜR DIE EWIGKEIT: Der Super-Sieg im Minutenprotokoll. Focus, 09 jul. 2014. Disponível em: http://www.focus.de/sport/fussball/wm-2014/deutsches-team/wm2014-halbfinale-live-d_id_3976186.html. Acesso em: 11 dez. 2014.

[iii] No original: “Torrekord, Deutschland obenauf, Brasilien geschockt.” Ibidem.

[iv] No original: “Sie sind fertig, die Brasilianer.” Ibidem.

[v] No original: “TOR für Deutschland, 0:4 durch Toni Kroos! Khedira und Müller kontern Brasilien auseinander, dass es nur so qualmt. Finale! Ach, komm, das ist doch nicht wahr. Was machen die den da? Kross schiebt locker ein. Hier heulen kollektiv die Fans in Gelb und Blau.” Ibidem.

[vi] No original: “TOR für Deutschland, 0:5 durch Sami Khedira! Macht doch euer Zeug hier alleine. Hat doch keinen Zweck mehr. Fünf zu null. Fünf. Eine Kopie des vierten Tors, nur diesmal schieben sich Özil und Khedira den Ball locker zu. Khedira ist diesmal derjenige, der ihn über die Linie drückt. Fünfnull.” Ibidem.

[vii] No original: “So, langsam kommen wir hier hinterher. Vier Toren in sechs Minuten, da geht hier das System in die Knie. Wann macht Höwedes noch eins?” Ibidem.

[viii] No original: “Schiri, mach doch einfach Schluss jetzt. Die Brasilianer tun einem nur leid. Und die Fans brechen kollektiv zusammen, im Stadion und an der Copacabana. Viele feuern ihre Mannschaft aber weiterhin unentwegt an.” Ibidem. No original: “Schiri, mach doch einfach Schluss jetzt. Die Brasilianer tun einem nur leid. Und die Fans brechen kollektiv zusammen, im Stadion und an der Copacabana. Viele feuern ihre Mannschaft aber weiterhin unentwegt an.” Ibidem.

[ix] No original: “Halbzeit, und es fühlt sich wie der Schlusspfiff an.” Ibidem.

[x] No original: “Das geht sonst nicht mal auf der Playstation so schnell. Irgendwo muss ein Loch in der Logik sein, ein Fehler in der Matrix. Oder das ist gar kein WM-Halbfinale. Die Typen da in Brasilien-Trickots sind Attrapen, Hochstapler.” Ibidem.

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Clarice Lispector, Zagallo e João Saldanha

07/01/2018

por Victor Andrade de Melo

No ano de 2017, por ocasião dos 40 anos da morte de uma das mais cultuadas escritoras da língua portuguesa, Clarice Lispector, relembrou-se vários aspectos de sua obra, inclusive uma série de entrevistas que conduziu e publicou em alguns jornais e revistas, parcialmente reunidas num livro (“Entrevistas”, organizado por Claire Williams) e recriadas num filme (“De Corpo Inteiro”, dirigido por Nicole Algranti).

Entre as entrevistas, houve duas com importantes personalidades do futebol, Zagallo e João Saldanha, realizadas em pleno ano da Copa do Mundo do México, 1970. A relação de Clarice com o futebol já tem sido discutida. Vale a pena, por exemplo, conhecer o publicado no blog Literatura e arquibancada (http://www.literaturanaarquibancada.com/2011/10/clarice-lispector-e-o-futebol.html) e o escrito pelo amigo Edônio aqui neste blog (https://historiadoesporte.wordpress.com/2010/06/10/clarice-lispector-e-o-futebol/).

Apresentamos aqui na íntegra uma entrevista com Zagallo e um comentário sobre João Saldanha, publicados respectivamente no Jornal do Brasil de 28 de março de 1970 e 7 de novembro de 1970.

Certamente o leitor vai se deleitar com o inusitado e a inteligência de Lispector.

* Entrevista Zagallo

Para ver em melhor resolução:

http://memoria.bn.br/DocReader/030015_09/5220?pesq=lispector+futebol

*Comentário sobre Saldanha

Para ver em melhor resolução:

http://memoria.bn.br/DocReader/030015_09/19925?pesq=lispector+futebol

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Algún día tenía que ser: 30 de junio de 1954

04/12/2017

Gastón Laborido (gaston_laborido1@hotmail.com)

(Ponencia presentada en Jornadas Uruguay y los Mundiales desde el sur, en la Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación (FHCE), UdelaR. Junio 2014.

Introducción

El 30 de junio de 2014, se cumplirán 60 años de un partido que marcó profundamente el historial de la selección uruguaya en competiciones mundialistas: por primera vez dejó de ser invicto en 30 años. El periodista y director del semanario Fútbol Actualidad, Antonio García Pintos, en la edición del 6 de julio de 1954 sostenía:

Estamos tristes, sí; para qué negarlo. Nosotros, con los muchachos, en el vestuario, hemos llorado juntos. Mucho se tendrá que escribir de este Quinto Campeonato Mundial en que, por primera vez, hemos dejado de ser invictos. Muchos han sido los errores cometidos y muchas las culpas a repartir y, entre ellas, un buen lote para la gente de la prensa. Pero eso tendrá que ser escrito en otra hora y en otro lugar. (…)[2].

Creemos que hoy es necesario retomar aquel encuentro deportivo, sobre todo, porque las derrotas también constituyen elementos de resignificación deportiva.  En la década del 50 encontramos dos acontecimientos que marcaron la competencia de la selección uruguaya en el plano internacional, por un lado, la primera derrota de la selección frente a Hungría en 1954. El segundo acontecimiento, ocurrió en 1958, cuando por primera vez en su historia, el fútbol uruguayo quedó eliminado de un torneo mundial.

Uruguay llegó al mundial de Suiza 1954 con una enorme fama tras haber conquistado el certamen cuatro años antes frente a Brasil. Para este mundial, Uruguay aún mantenía muchos jugadores del 50 en su alineación; pero esta competición marcó el ocaso de la generación de Maracaná, sobre todo desgastada por el correr de los años. A pesar de la fama celeste, para la prensa internacional la selección de Hungría era el equipo favorito a consagrarse campeón, sobre todo porque cautivaba por el elevado nivel técnico de sus jugadores y había conseguido resultados exitosos en los años previos al mundial: hacía cuatro años que no perdía, había infligido la primera derrota en Wembley a Inglaterra (6-3) y habían sido vencedores de los Juegos Olímpicos de Helsinki en 1952. Luego del sorteo de las llaves de semifinales, el azar determinó que deberían enfrentarse Uruguay – Hungría por un lado, y por otro, Alemania – Austria.

Con la intención de poner al fútbol como objeto de estudio en la agenda académica, la presente ponencia plantea una mirada histórica sobre el fútbol de Uruguay en el contexto de los mundiales, más específicamente, el de 1954. A tales efectos, el texto se centrará en un análisis de las repercusiones del la primera derrota oficial de Uruguay a través de la prensa montevideana, poniendo énfasis en las expectativas y comentarios luego del resultado. Los periódicos utilizados serán: “El Día”, “El Diario”, “Fútbol Actualidad”, “Justicia”, y “La Tribuna Popular”.

El trabajo está organizado en cinco partes. La primera apunta básicamente a plantear los antecedentes y los caminos recorridos hacia semifinales por las selecciones de Uruguay y Hungría. La segunda parte, recorre diversas notas publicadas en la prensa, en las cuales se planteaban las expectativas previas al encuentro, catalogado como “el match del siglo”. La tercera, pone énfasis en la potencialidad de la selección de Hungría y en aquellos aspectos ideológicos y políticos que creemos relevantes para entender por que la prensa entendía que se trataba de un sensacional encuentro. La cuarta parte, se centra en la mirada que los diarios hacían sobre la selección uruguaya y las expectativas que generaba la selección en los periodistas de cara al partido semifinal. La última parte tiene que ver con la manera en que la prensa comentó el resultado del partido. En este apartado retomamos aquellos motivos que se expusieron para explicar la primera derrota de la selección uruguaya en manos de Hungría en un torneo mundial.

1) De goleadas en goleadas: caminos hacia semifinales.

En el campeonato de Suiza 1954 participaron 16 selecciones, agrupadas en 4 series de 4 equipos cada una. El sistema de disputa tenía una lógica particular, ya que cada selección jugaba sólo dos partidos en la fase de grupos.

La selección uruguaya compartió el grupo III con Austria y debieron enfrentarse a Checoslovaquia y Escocia. Uruguay no necesitó clasificarse al mundial ya que era el campeón defensor, por haber ganado la Copa Mundial de 1950. Los celestes llegaron a Suiza precedidos de una enorme fama. Sus magníficos antecedentes generaban expectativas en los uruguayos: cuatro años antes había sido el impacto en la historia de los campeonatos mundiales al vencer a Brasil y los recuerdos de la final todavía estaban latentes; ostentaba el honor de ser el primer equipo campeón mundial en 1930, bicampeones olímpicos en 1924 y 1928; y nunca antes había perdido en un campeonato del mundo, contaba con un invicto de 21 partidos.

En el mundial de 1954, los celestes dirigidos por Juan López al igual que en 1950, se despacharon con una buena actuación en la fase de grupos. En su primer encuentro, vencieron 2 a 0 a Checoslovaquia (goles de Míguez y Schiaffino). En la segunda fecha, derrotaron a Escocia con un categórico 7 a 0 (goles convertidos por Borges -3-, Míguez -2- y Abbadie -2- ). Los periódicos de la época coinciden en que el equipo se caracterizaba por tener fuerza, habilidad y elevada moral.

En los cuartos de final, continuó el buen éxito de Uruguay y derrotó a Inglaterra por 4 a 2 (goles de Borges, Varela, Schiaffino y Ambrois). Sin embargo, fue una “victoria pírrica”, pues en ese partido se lesionó el capitán Obdulio Varela al festejar su gol. Con este historial llegaba Uruguay a las semifinales.

 En relación al rival que enfrentamos, la prensa internacional consideraba que se trataba de un equipo sensacional, dotado de todas las virtudes y elevado nivel técnico en su juego. Los húngaros eran conocidos como los “magiares mágicos”, nombre que asocia al grupo étnico de Europa del Este que se instaló en la actual Hungría y al estilo de juego que desplegaban. Contaba con la selección más poderosa de su historia y hasta ahora no la han podido superar. Hungría llegó al mundial con los siguientes antecedentes: hacía cuatro años que no perdía un partido oficial (en 32 partidos); había infligido la primera derrota tras vapulear en Wembley a Inglaterra por 6 a 3 y en la revancha disputada en Budapest le volvió a vencer con un marcador humillante de 7-1; y en 1952 se habían consagrado vencedores de los Juegos Olímpicos de Helsinki.

Hungría compartió el grupo II con Turquía y no tuvo rivales que le opusieran resistencia. Debutaron con una victoria arrolladora de 9 a 0 sobre Corea del Sur, y en la segunda fecha se despacharon sobre Alemania Federal con un 8-3 (Alemania había puesto en cancha varios suplentes para preservar a los titulares). Luego del partido contra los alemanes, los húngaros sintieron la baja de su gran capitán, Ferenk Psukas, a raíz de una falta desmedida de un rival.

Hungría pasó de fase tras haber conseguido dos victorias consecutivas, y en los cuartos de final logró imponerse sobre Brasil 4-2. Fue un encuentro plagado de incidentes, con golpes de puño, botellazos y cortes entre los jugadores de ambos planteles en los vestuarios una vez finalizado el partido (encuentro recordado como “la batalla de Berna”).

De esa manera llegaron ambos seleccionados a semifinales. La organización del campeonato establecía, que los cruces en esta instancia se darían a conocer luego de un sorteo, que fue realizado en la ciudad de Berna, el domingo 27 de junio de 1954. Se agrupó en parejas a los equipos de Hungría y Alemania por un lado, y por otro Austria y Uruguay. Depositaron en recipientes separados tarjetas con los nombres de los equipos, la primera en salir fue la de Austria y la segunda Alemania. El resultado del sorteo causó impacto, El Diario señaló:

Esto quería decir que Hungría y el Uruguay, que son los equipos más destacados que continúan en el campeonato deben enfrentarse en semifinales[3].

Conocidos los cruces en semifinales, todo hacía suponer que Uruguay y Hungría sería un sensacional encuentro. El periódico comunista Justicia opinó:

El resultado de dicho sorteo, ha puesto frente a frente a los dos más grandes equipos del Campeonato: Uruguay y Hungría, que disputarán sin lugar a dudas lo que podría llamarse el “partido del Siglo”[4].

2) “El match del siglo”

El cronograma del campeonato, indicaba que el miércoles 30 de junio se debía disputar el primer encuentro de semifinales. Dentro de las expectativas de los uruguayos, existía la firme convicción que sería un gran encuentro deportivo. Durante los días previos, en nuestra prensa se publicaron una serie de notas que especulaban con el nivel del espectáculo de la siguiente forma:

La Tribuna Popular:

Uruguay versus Hungría quiere decir en estos momentos algo más que una final; el choque máximo en el fútbol del Mundo, y tal vez de la historia del balompié en sus últimos años. Los rivales, varios años invictos con campañas espectaculares e incomparables en Europa y otros continentes; los celestes, cuatro veces campeones en el Mundo entero, y con una reciente hazaña frente a los ingleses que todos admiraban hasta que llegó la noticia del partido con Hungría[5].

Este periódico manejaba también la idea de final anticipada: “Uruguay-Hungría es el partido del choque sensacional y, tal como sucedería para el partido Hungría-Brasil, la mayoría opina que Hungría ya está clasificada para la final. ¡Dichosos suizos que habrán podido asistir a tres finales en una sola competición![6].

Mientras tanto, el periódico Justicia señalaba en sus páginas que se jugaría el encuentro más sensacional de los últimos años en una instancia decisiva por la conquista del título mundial. Agregaban que dicho encuentro debió ser la final lógica del torneo:

Llegó el momento ansiado por el pueblo deportivo uruguayo y por la afición del mundo entero. Esta tarde, en épico match semifinal del Certamen Mundial, se cotejarán las selecciones de Uruguay y de Hungría. Ambas han probado ser la expresión cumbre del fútbol mundial: por su técnica, por su temple, por su admirable capacidad combativa. Los celestes y los húngaros han barrido a cuanto adversario les salió al paso. Pero fue en los cuartos de finales cuando dieron fe de todo su potencial técnico y moral[7].

Para El Diario la novedad del partido estaba en los aspectos tácticos y técnicos de los jugadores de ambas selecciones:

el match Uruguay – Hungría viene, después del triunfo de los húngaros en la tarde de ayer, a plantear la cuestión de las tácticas mucho más abiertamente, puesto que los uruguayos, vencedores del equipo de Inglaterra, vienen a estar en igualdad de valor con los húngaros, que han vencido al equipo considerado como uno de los mejores de la América del Sur y del torneo[8].

Tanto para El Diario, como para La Tribuna Popular, el partido también adquiría la dimensión de final anticipada y estaba enmarcado como un duelo entre representantes de América y Europa,

Pero esta vez, puede decirse que la verdadera final se va a jugar en Lausana. Los equipos preeminentes de América y de Europa van a decidir la supremacía del fútbol mundial. El match Uruguay – Hungría será para los latinoamericanos en general, el definitivo, el del prestigio y ya como un solo hombre se aprestan a ir en coalición para animar a los uruguayos. El match del miércoles en Lausana, será, pues, el match de América Latina – Europa[9].

El día previo al partido, un cronista de El Diario que firmaba bajo el seudónimo Don Lee reafirmaba la idea anterior y esperaba con enorme expectativa el inicio del partido:

Mañana se realizará en Lausana el match de todas las épocas en la historia del fútbol mundial al enfrentarse por la semifinal de la Copa de oro, el Uruguay con su título de Campeón del Mundo y Hungría, la sensación futbolística del momento. Aquél asumiendo la representación del continente sudamericano y éste la representación del viejo continente. Estarán así frente a frente los campeones del mundo y los grandes favoritos de la opinión mundial, y que han venido haciendo sensación en los últimos años, antes lo cuales los abanderados del fútbol sudamericano se verán seguramente expuestos a darlo de sí todo a fin de salir con bien de la difícil lucha[10].

3) La mirada sobre el rival.

Ahora bien, cabe preguntarnos cuales eran aquellos motivos que generaban la opinión en la prensa que un enfrentamiento entre Hungría y Uruguay, supondría un gran encuentro. Aquí es importante ver como la prensa construye la imagen de cada equipo. Empecemos por el rival. Al excelente historial de los húngaros que resumimos en el apartado anterior, y a al gran nivel de sus estrellas como Puskas, Czibor, Kocsis, Hidegkuti, Bozsik, Grosics; debemos agregarle aquellos aspectos tácticos y técnicos colectivos del equipo. Veamos que decía la prensa.

Antes de que comenzara el campeonato, Justicia realizó una breve presentación de los equipos que disputarían el mundial. El 2 de junio en una nota titulada “Algunas características del equipo magyar que va al Mundial de Suiza”, planteaban: “Hungría probablemente será el único país que concurrirá al campeonato mundial de fútbol a disputarse en Suiza, con un team ya maduro e incambiado durante varios años”. A los beneficios de poseer un equipo formado por varios años, se señalaba que tanto uruguayos como húngaros tenían confianza en sus fuerzas[11], en tanto: “el excelente equipo “magyar” es de presumir que procurará, como siempre, jugar sus cartas de victoria en el ritmo vertiginoso, preciso, audaz y avasallante de su juego ofensivo, así como en la combatividad de su defensa, bien demostrada ante Brasil (…)”.

Sobre el excelente nivel de juego de los húngaros, La Tribuna Popular opinaba: “el seleccionado magyar reafirmó ser un buen team, que juega con disciplina y no cede un palmo ni en el ataque ni en la defensa[12]. Completamos la idea sobre la capacidad del fútbol húngaro con una nota de El Día:

debe ser lo mejor de Europa. Las evidentes diferencias existen entre su ataque y su defensa. Indiscutiblemente, la gran fuerza de la selección “magyar” radica en aquel. Compuesto de hombres hábiles y de un gran entendimiento, como también con gran preparación física, asume – ese sistema- la gran responsabilidad por las actuaciones del equipo y por los éxitos del mismo (…)[13].

Mientras tanto, El Diario presentó una crónica en la cual se planteaban algunas habilidades tácticas de Hungría y las características del equipo. Se concebía a Hungría como “un equipo que acciona con idéntico afán y velocidad durante los noventa minutos de juego, que lucha con firmeza, que plantea sus jugadas con gran esmero, pero movilizándose permanentemente en forma intensa, haciendo correr la pelota con excepcional rapidez de un hombre a otro[14].

A su vez, desde El Día y Futbol Actualidad, se expusieron algunos argumentos para explicar porque era tan eficaz la técnica de los húngaros. Basaron sus explicaciones en las relaciones entre deporte y política. Recordemos que Hungría estaba bajo influencia del régimen socialista, y la década del 50 a nivel internacional estaba muy marcada por la Guerra Fría. Sobre la excelencia del equipo húngaro, el periódico El Día, en un extenso párrafo cargado con un tinte opositor al régimen socialista señalaba:

Ajustados a procedimientos propios de un país que ha alejado de los aspectos fundamentales de la práctica del deporte por el deporte mismo aprovechándolo especialmente como forma de conseguir resonancia con derivaciones políticas, se ha podido advertir una influencia directa del estado que manda y decide en la voluntad de los individuos, sometiéndoles a una práctica ajena en absoluto a la que se estila en los países democráticos, donde la espontaneidad del deportista es básica para el desarrollo de su actividad. Los húngaros están sometidos por impero de obligaciones que se les crean, a un régimen ceñido, estricto y que trastoca lo esencial del deporte, que es competir, por el impero o sea la exigencia de ganar. Dentro de tal concepto el derecho individual está vedado. Impera, entonces, el sometimiento a la práctica del deporte, que quienes son escogidos la realizan con prescindencia total de toda otra actividad, hasta alcanzar un grado de especialización derivado del adiestramiento continuado y preferente a que son sometidos[15].

En el categórico párrafo anterior, la mirada se centra en argumentar el buen nivel húngaro por la presión política del régimen soviético[16]. En relación a ello, y con una mirada similar, en el semanario Fútbol Actualidad, Antonio García Pintos afirmaba: “los “magyares” juegan por método; sus jugadas son académicas y estudiadas. No cuentan, entre ellos, los valores individuales[17]. Con esta frase está afirmando que la ideología del régimen infiere en el deporte, ya que jugar por método supone un juego planificado (recordemos que la planificación caracteriza al régimen soviético, por ejemplo, los planes quinquenales).

La postura de Antonio García Pintos se reiteró en otra nota, aseveraba que Uruguay debía defender a Sudamérica en el partido semifinal, y cargó de emotividad e ideología al encuentro tras plantear:

(…) La copa Rimet la sacaremos de Europa los uruguayos, únicamente por que somos uruguayos. Porque aquí hay una evidente aspiración, casi adulona podríamos decir: la de que salgan campeones estos defensores de la roja casaca del país de atrás de la cortina de hierro[18].

A pesar de su elevado nivel, Hungría no contaría con la totalidad de su plantel para el encuentro con Uruguay. Su capitán, F. Puskas, como hemos dicho, estaba lesionado. También fueron excluidos los hermanos Toth, remplazados por Budai y Palotas. La selección húngara alistó al siguiente equipo: Grocsics; Buzansky, Lantos; Bozsik, Lorant, Zakarias; Budai, Kocsis, Palotas, Hidegkuti y Czibor.

4) Confianza en la selección uruguaya.

Luego de una lectura analítica de los diarios, notamos en nuestra prensa una postura respetuosa sobre el rival. Estamos en una época en donde se dejaba de lado entrar a un campo de juego sin tener nociones concretas sobre el rival y se iniciaba una etapa en la cual comienza a analizarse al contrincante, sobre todo porque se empieza a tomar en cuenta las dimensiones tácticas y técnicas del deporte[19]. Vencer a un equipo de fútbol, implicaba superarlo en el tanteador, para ello, la planificación de la estrategia a desarrollar es muy importante.

En junio de 1954, existía confianza en el fútbol que podía llegar a desplegar los uruguayos, sobre todo porque se reivindicaba las victorias consagradas en 1924, 1928, 1930 y 1950. Rubén Lapido Vignoli, enviado especial de La Tribuna Popular afirmaba

 “sabemos muy bien que cuando la casaca celeste entra a una cancha, en una contienda mundialista, es para no perder…”.

Había mucha confianza en los delanteros uruguayos y en su defensa de acero, que para muchos, lo hacía el único equipo capaz de realizar la hazaña de derrotar a Hungría. Se calificaba a los jugadores celestes como “ardorosos, testarudos, jamás derrotados ni desalentados…”.

A su vez, existían elementos resignificativos de los títulos mundiales conquistados años antes. En varias notas se reiteraba la siguiente idea: Uruguay en caso de consagrarse campeón del mundial de 1954, sería campeón del mundo por quinta vez. Esto tiene que ver, con que los títulos de 1924 y 1928 en los juegos olímpicos, eran considerados como títulos mundiales.

Una vez conocido el rival, durante los tres días previos al partido, los periodistas comenzaron a analizar al contrincante y surgieron algunas ideas concretas de cómo vencer a Hungría. En primer lugar, sin desconocer el poderío de los “magyares mágicos”, se planteaba que había que trabajar a partir del buen nivel del rival,

(…) pensamos que esa regularidad de acción húngara puede ser lo que sirva a Uruguay para hacer valer su mejor técnica y aptitudes naturales y psicológicas de sus players. Ante todo, sabremos aguantar “el primer envión” del adversario, que para Brasil fue demoledor tanto en las cifras como en los nervios. Y posteriormente, una vez que nuestros cracks hayan adaptado el juego húngaro, deberán surgir las ventajas apenas se produzca el choque de valores personales[20].

En segundo lugar, otra de las claves para superar al adversario estaría en las propias características de la defensa uruguaya:

el grado de potencialidad de nuestra defensa ha resultado eficacísimo hasta el momento, pero no por ello habría que excederse en confianza y consideramos que no estaría de más tomar algunas medidas de carácter táctico antes de que nuestro conjunto baje al campo de “Pontaise” en Lausana[21].

En tercer lugar, el buen juego celeste jugaría su rol decisivo. Oscar Bugallo, de Fútbol Actualidad tituló una nota el día antes al partido de la siguiente manera: “Jueguen bien, celestes, y seremos campeones”. Incluso se planteaba la duda que sucedería si Uruguay lograba superar en la técnica y táctica como producto de su buen juego a los húngaros; ya que hasta el momento nadie los había exigido. Algunos entendían que en comparación, Uruguay tenía mejores individualidades calificadas como “estrellas”, como Andrade, Schiaffino, Borges, Santamaría, Ambrois…. En esta línea, muchos consideraban que Uruguay era el único equipo que era capaz de batir a los húngaros. La idea que manejaba la prensa, era que de los tres adversarios que pudieron tocarle a Hungría para la semifinal, le tocó el más peligroso de todos.

Sin embargo, surgieron algunos inconvenientes a raíz de lesiones de piezas claves para los celestes. Esto imposibilitó a Uruguay presentar en el campo de juego a su mejor escuadra. La dimensión analítica de las técnicas y tácticas cobra importancia y se plantearon en la época diversas opiniones sobre como conformar al equipo para vencer a Hungría. Uruguay no podría contar con Obdulio Varela, lesionado ante Inglaterra. Tampoco podían ser de la partida Oscar M. Míguez ni Julio César Abbadie.

El comentarista Don Lee de “El Diario”, luego de haber visto a los futbolistas húngaros, reconoció que Uruguay tendría un encuentro de enromes dificultades. Para superarlas, y ante la ausencia de Obdulio Varela propuso:

(…) que Juan Alberto Schiaffino juegue de insider o de eje delantero, debería actuar lo suficientemente atrasado como para configurar un elemento más de contención para los intentos de los húngaros. Esto ya figura dentro de las características propias del mencionado jugador, muy sacrificado en ese sentido[22].

El rol de Juan Alberto Schiaffino dentro del campo de juego, podía operar como un arma para lograr el triunfo que para la época era algo maravilloso y factible. Además, se entendía que Schiaffino podía desplegar una doble misión de defensa y ataque. A esta idea, se le agregaba la posibilidad de que estuviesen por delante de Schiaffino cuatro hombres de ataque, pues se depositaba confianza en el buen juego y los pases profundos y bien dirigidos hacia los delanteros. Detrás de los delanteros y de Schiaffino estarían los tres medios y William Martínez.

Se depositaba las esperanzas en Schiaffino. Se esperaba de él, apoyo a la defensa y al ataque. Junto a Schiaffino, podría apoyar el juego Javier Ambrois. De ese modo, los delanteros quedarían abiertos y adelantados esperando con el campo a su frente; para intentar penetrar con velocidad a la defensa húngara.

La profundización de estos aspectos tácticos dentro del campo de juego, según la prensa:

podría muy bien proporcionarle a nuestro equipo las aperturas necesarias, para que con goles se llegue a concretar lo que es hoy aspiración de todos nosotros, y por cierto también de ustedes, la inmediata clasificación para una nueva instancia final, que de por sí sola estaría ya diciendo de que nuestro fútbol, hoy como ayer y como siempre, no ha perdido nada –pese a sus habituales “apagones”- de las ponderables virtudes que por años y años lo hicieran invencible mundialmente[23].

Capítulo aparte merece la situación de Oscar Míguez. El “cotorra” tampoco pudo ser de la partida. Ahora bien, cabe preguntarnos qué sucedió ya que no estaba lesionado y fue excluido del equipo. El Día publicó una nota bajo el título “No parece atinado el presunto remplazo de Oscar M. Míguez”. De todos modos, antes del partido no se dio a conocer muchos datos sobre la exclusión de Míguez, e incluso hoy sigue siendo un enigma. Esto se convertirá en un factor para explicar la derrota de Uruguay y lo veremos en el próximo apartado.

Finalmente Uruguay salió al campo de juego de la siguiente manera: Máspoli; Santamaría y W. Martínez; Rodriguez Andrade, Carballo, Cruz; Souto, Ambrois, Schiaffino, Hohberg y Borges.

5) Hungría 4 – Uruguay 2: las repercusiones en la prensa

Cuando se hicieron las 18 horas de aquella recordada tarde lluviosa del 30 de junio, el árbitro galés Benjamín Griffith dio comienzo al “match del siglo” en el Estadio de “La Pontaise” de Lausana. El marco era espectacular, unas 45.000 personas en el estadio.

Brevemente diremos que el partido estuvo a la altura de las expectativas, todos coinciden en que fue un sensacional encuentro. El primer tiempo finalizó 1 a 0 a favor de los húngaros, con gol de Czibor. Hidegkuti aumentó diferencias a los 3 minutos del complemento. Pero dos goles de Juan Eduardo Hohberg a los 75 y 86 le dieron dramatismo al encuentro. En tiempo complementario, Hungría sacó diferencias gracias al potente juego aéreo de Kocsis y con dos goles (a los 112 y 116) eliminó toda esperanza de los uruguayos de llegar a la final y por primera vez caía vencido en un campeonato mundial tras 21 partidos invictos, pero dejando una muy buena impresión. Veamos las repercusiones del partido en los titulares de los diarios locales:

Derrota con Honor. El once uruguayo en Jornada Adversa, luchó con denudo” (30 de junio, El Diario).

Perdiendo ante un formidable equipo, los celestes salieron aun más engrandecidos” (1 de julio, La Tribuna Popular).

Cayó Uruguay, tras una lucha titánica” (1 de julio, La Tribuna Popular).

Un match histórico e inolvidable” (1 de julio, Justicia).

Los húngaros se fueron con la Victoria y los uruguayos se llevaron la gloria” (1 de julio, El Día).

Indudablemente fue el mejor encuentro del Campeonato” (1 de julio, El Día).

Los celestes vencidos tras memorable demostración” (1 de julio, El Día).

Significado excesivo tiene la cifra 4-2” (1 de julio, El Día).

Fue una derrota que enaltece al perdedor” (1 de julio, El Día).

También ayer los maestros uruguayos dictaron su lección” (1 de julio, El Diario).

El espectáculo tuvo el brillo esperado” (1 de julio, El Diario).

“Match histórico y maravilloso”, se afirma sin dudas” (2 de julio, El Diario).

Algún día tenía que ser y ello ocurrió un 30 de junio” (6 de julio, Fútbol Actualidad).

Así caen los campeones!” (6 de julio, Fútbol Actualidad).

Perdimos… ¡Y fuimos inmensos! Cada vez que toque perder, ¡que sea así!” (6 de julio, Fútbol Actualidad).

 

Luego de la lectura de los titulares anteriores, percibimos que queda una idea contundente acerca de lo implicó la primera derrota de los uruguayos: Uruguay perdió pero fue una derrota honrosa y digna de destacar. Esto idea fue adquiriendo fuerza y es lo que queda de aquel recordado partido. Pues bien, ¿Qué sucedió el 30 de junio que hoy se sigue resignificando aquella derrota?

Algunos recuerden el aspecto estético del encuentro, consideran que el “match” fue todo belleza, y a pesar de la derrota,

los uruguayos han demostrado que saben perder con gran elegancia y faltó muy poco incluso, para que la formación uruguaya, confirmando una vez más que se vuelve un adversario temible cuando “las cosas van en serio”. Saliese vencedora de esta semifinal que los diarios de aquí han calificado de “atómica”.”[24]

Otros plantean que el partido pasó a ser inolvidable por la emoción del mismo, sobre todo producto de la rebeldía uruguaya. Justicia señaló que ningún equipo era capaz de mantener en alto la moral de acero y a pesar de estar perdiendo; incluso logró acorralar al rival en su campo hasta empatar el partido, allí se volvió a confiar la victoria. En consecuencia, planteaban que “los muchachos celestes que supieron caer como caen solamente los campeones, los que realmente son grandes en la noble lid del deporte[25]. Este argumento, se reiteraba también en El Diario, cuando el corresponsal en Berna afirmaba que quizás nunca se había visto un partido tan maravilloso, puesto que los uruguayos lograron remontar el resultado.

Sin dudas, el partido sigue siendo recordado por convertirse en modelo de encuentro cargado de vicisitudes y de caballerosidad de los futbolistas, ya que los hechos violentos eran reiterativos en la época y este encuentro no tuvo nada de eso:

Se hablará durante mucho tiempo de él. Quizá siempre que se quiera poner como ejemplo, como modelo, un partido en el que ha habido de todo: jugadas insuperables, duración del match, corrección de los jugadores, caballerosidad deportiva y amor propio en el que la emulación nunca dejó pasar a la violencia[26].

Ahora bien, durante los días posteriores surgió la necesidad de construir un relato interpretativo sobre la derrota. Para explicar una derrota en fútbol, tenemos tres posibles líneas explicativas: la primera, se basa en la superioridad técnica y táctica del rival, es la más usada y aceptada; la segunda, tiene que ver con la falla de algún aspecto, ya sea por ausencia o una mala jornada de los futbolistas; y la tercera, tiene que ver con factores externos que se transforman en adversos, ya sea por condiciones climáticas, errores arbitrarios, etc.

El semanario Fútbol Actualidad publicó una serie de extensas notas interpretando el resultado del partido. ¿Por qué perdió Uruguay? Para sus periodistas, la derrota se explica por fallas en el plantel: primeramente, ausencia de Oscar Míguez (excluido por los dirigentes) y jugadores lesionados. Segundo, la mala tarde de Roque Gastón Máspoli. Tercero, cansancio del equipo.

En primer lugar, el plantel sufrió bajas sensibles tras el partido contra Inglaterra, fue duro y difícil. Aquella tarde, Uruguay triunfó, pero queda la sensación que fue una “victoria pírrica”, ya que se lesionaron Abbadie y Obdulio Varela. A esa situación, se le agrega la exclusión del “cotorra” Míguez para el partido semifinal.

Esa situación es explicada mediante la injerencia de los dirigentes Tróccoli y Viappiana, que al parecer estaban indignados con el jugador por motivos que no quedan muy claros. Antonio García Pintos señala que el desempeño de Míguez no fue el mejor durante el torneo, pero siempre fue considerado un elemento valioso. Los motivos expuestos por el dirigente Viappiana radicaban en que

… no sólo había jugado mal, sino que además, en la práctica realizada esa mañana, se había comportado grotescamente… sin voluntad. Como si no tuviera ganas de jugar[27].

Para García Pintos, la exclusión de Míguez fue consecuencia de una sanción y no por motivos técnicos:

Lo que sabemos, el enojo contra él, nacía de lo que se entendía su falta de fibra y su comportamiento, desganado, en una práctica sin importancia, realizada 30 horas después de haberse jugado un partido tremendo!!…[28].

Se considera que la falta de Míguez fue un hándicap para el rival, y se pagó caro en el partido porque Hohberg no tenía quien le enviara la pelota.

En relación al desempeño del portero Máspoli, el director de Fútbol Actualidad señaló que el jugador fue responsable de la derrota, ya que estuvo flojo y pudo haber evitado al menos dos goles. De todos modos, se exime a Máspoli las culpas y solamente se lo responsabiliza. Orlando Bugallo, periodista del mismo semanario escribió duramente sobre Máspoli:

le pido perdón a Máspoli por decir esto. A él le estoy agradecido por el glorioso regalo que me hizo en el 50 y por los de tantos internacionales; repito que no es crítica severa, por eso que le debo y porque sé que su deseo en ese encuentro fue el de realizar la mejor performance de su campaña… pero si él hubiera jugado bien ¡hay que ver la confianza que hubiera infundido ello a sus compañeros! nosotros ganamos el campeonato… ¡Sin golero no se puede jugar! ¡Y yo sé que él piensa como yo![29].

El tercer factor empleado, tiene que ver los aspectos físicos del equipo. Se entiende que Uruguay perdió por falta de preparación física. En cambio, Hungría tenía un estado físico increíble y los uruguayos no pudieron hacer frente a ello.

La conjugación de los tres factores, fueron empleados para explicar el resultado, e incluso algunos plantearon que trajo aparejado la limitación del buen juego que se había hecho hasta el momento. A partir de esta instancia, estamos en una etapa de procesualización del acontecimiento, esto supone, que con el correr de los días se fue procesando el resultado y todo lo que ello implicaba.

Finalmente, Antonio García Pintos definió el resultado como un fracaso y planteó que desde allí, surgió la necesidad de revisar todo el fútbol uruguayo:

-para Uruguay es desastre perder, cuando debe ganar; abdicar el título de mejor del mundo, cuando se le puede retener con justicia-, debe llevarnos una revisión total de nuestro fútbol. De arriba abajo. Y, en esta revisión de valores, debemos entrar nosotros, los críticos, que también respiramos en el ambiente viciado de errores, de complacencias y de politiquerías…[30].

Consideraciones finales.

Luego de realizar la recorrida por la prensa local durante los días previos y posteriores a la primera derrota de la selección uruguaya en un campeonato mundial, ¿Qué opinión quedó en los uruguayos?

El mundial de 1954 marca un antes y un después. En primer lugar, porque el partido significó la primera derrota celeste. Pero la derrota se inmortalizó y pasó a ser recordada por su trámite vibrante y cambiante; caracterizado por la belleza y el buen fútbol. Esta idea será la que se retomará desde el 30 de junio de 1954, cada vez que toque perder, se pretende que sea de esa forma; con un equipo dando lo mejor de si dentro del campo de juego, luchando hasta el final, luciendo buen fútbol, demostrando caballerosidad y asumiendo la derrota. Por otro lado, en consecuencia de lo anterior, el partido cumplió las expectativas y realmente fue “el match del siglo”. Uruguay estuvo a punto de vencer al rival estelar del momento que estaba en su mejor época. Después de la revolución húngara de 1956, el equipo “magyar” se disgregó y nunca volvió a tener la misma fuerza.

En segundo lugar, queda la idea del fin de un ciclo exitoso para los uruguayos. Desde que se comenzó a procesar la derrota, muchos periodistas entendieron que era necesario cambiar en varias dimensiones al fútbol uruguayo. Esta idea será retomada una y otra vez en cada uno de los sucesivos fracasos del fútbol uruguayo. Fue tal el impacto de los títulos conquistados por la selección uruguaya en la primera mitad del siglo XX, que no salir campeón pasó a ser fracaso.

Finalmente, en 1954 pesaba y mucho la idea de que se perdió la semifinal porque hubo fallas en la conformación del equipo por la ausencia de futbolistas como Oscar Míguez, Obdulio Varela y Julio Cesar Abbadie y por la mala tarde del arquero Máspoli. La prensa nacional a lo largo de la segunda mitad del siglo XX recurrirá a relatos interpretativos para explicar derrotas deportivas que en general versan en torno a la ausencia de piezas claves en los planteles; o por la mala actuación de alguna figura relevante.

 

Fuentes

  • El Día, Montevideo, junio-julio de 1954.
  • El Diario, Montevideo, junio-julio de 1954.
  • Fútbol Actualidad, Montevideo, junio-julio de 1954.
  • Justicia, Montevideo, junio-julio de 1954.
  • La Tribuna Popular, Montevideo, junio-julio de 1954.

[1] Ponencia presentada en Jornadas Uruguay y los Mundiales desde el sur, en la Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación (FHCE), UdelaR. Junio 2014.

[2] “Así caen los campeones”. “Fútbol Actualidad”, Montevideo, 06 de julio de 1954, p. 12.

[3] “Detalles respecto al sorteo”. “El Diario”, Montevideo, 28 de junio de 1954, p. 8.

[4] “Fueron sorteadas las semifinales”.  “Justicia”, Montevideo, 28 de junio de 1954, p. 3.

[5] “Ante los invencibles, la celeste no puede caer…”. “La Tribuna Popular”, Montevideo, 28 de junio de 1954, p. 1.

[6] “Uruguay, único que puede batir a los húngaros”. “La Tribuna Popular”, Montevideo, 30 de junio de 1954, p. 13.

[7] “Uruguay se juega hoy su carta decisiva”. “Justicia”, Montevideo, 30 de junio de 1954, p. 3.

[8] “El match de Latinoamérica contra Europa se llama al cotejo Uruguay V. Hungría”. “El Diario”, Montevideo, 28 de junio de 1954, p. 8.

[9] Ibídem. P. 8.

[10] “Europa frente a América”. “El Diario”, Montevideo, 29 de junio de 1954, p. 6.

[11] Contrario a esta idea, algunos entendían que la continuidad del mismo plantel solamente era un elemento relevante, dejando de lado los aspectos técnicos. Desde Fútbol Actualidad, Luis Schiappapietra opinaba “en los húngaros no hay secreto ni milagro alguno. Lo que da gran valor a su juego son los 4 años juntos”.

[12] Ante los invencibles, la celeste no puede caer… P. 1.

[13] “Radiografía deportiva de los Magyares. Lo que surge de una comparación con los uruguayos”. “El Día”, Montevideo, 30 de junio de 1954, p. 12.

[14] “Uruguay no deberá ceder ni un palmo ante este enemigo. Disposiciones tácticas necesarias”. “El Diario”, Montevideo, 29 de junio de 1954, p. 6.

[15] “Los celestes saben de duras jornadas”. “El Día”, Montevideo, 30 de junio de 1954, p. 12.

[16] Esta idea también la percibimos en una nota publicada por Antonio García Pintos, quien fuera el enviado especial a Suiza por Futbol Actualidad. El periodista estuvo presente en el encuentro por fase de grupos entre Hungría y Corea del Sur. La delegación uruguaya asistió a mirar el encuentro y García Pintos destaca el siguiente episodio en un apartado de la nota titulado “Ordenes de Moscú”: “Estaba siete a cero. Los del “young boys” –los suizos,- estaban entregados… Pero había pasado como diez minutos y no había más goles. Los húngaros habían errado dos o tres shots… Y de pronto, por los parlantes se oyó una voz, diciendo más o menos: Puf Ahic Auff Ein… Bunter, Bunter…

Y, casi en seguida, Puskas agarró la pelota y como desesperado, corrió veinte metros, dribló a un contrario y tiró violentamente alto, marcando el octavo gol.

Y me dijo William: – Viste… vino la orden de Moscú…”. “Los muchachos mirando a los húngaros”. “Fútbol Actualidad”, Montevideo, 17 de junio de 1954, p. 3.

[17]La Verdadera Historia de la Derrota”. “Fútbol Actualidad”, Montevideo, 6 de julio de 1954, p. 3.

[18]Tenemos que defender a Sudamérica”. “Fútbol Actualidad”, Montevideo, 29 de junio de 1954, p. 6.

[19] Hubo un episodio que se dio a conocer después del partido Hungría y Uruguay. En una entrevista que le realizó A. García Pintos a C. Kabocsai (uno de los técnicos de Hungría), confesó que no se sorprendieron de la lucha impuesta por los uruguayos ya que siguieron atentamente todo lo que hacía Uruguay y que en cada encuentro de los celestes habían tres observadores húngaros. Pero además, un periodista, Georges Imrei, afirmó que también filmaron con repetidas proyecciones las acciones de los jugadores uruguayos, a efectos de analizar sus características. En: “filmaron los movimientos de cada jugador celeste!”. “Fútbol Actualidad”, Montevideo, 6 de julio de 1954, p. 2 y 6.

[20] Ante los invencibles, la celeste no puede caer… P. 1.

[21] “Uruguay no deberá ceder ni un palmo ante este enemigo…., p. 6.

[22] Ibídem. P. 8.

[23] Ibídem. P. 8.

[24]Perdiendo ante un formidable equipo, los celestes salieron aún más engrandecidos”. “La Tribuna Popular”, Montevideo, 1 de julio de 1954, p. 12.

[25]Un match histórico e inolvidable”. “Justicia”, Montevideo, 1 de julio de 1954, p. 5.

[26]”Match histórico y maravilloso” se afirma sin dudas”. “El Diario”, Montevideo, 2 de julio de 1954, p. 7.

[27]La Verdadera Historia de la Derrota”. “Fútbol Actualidad”, Montevideo, 6 de julio de 1954, p. 3.

[28] Ibídem, p. 3.

[29]De haber jugado bien, seríamos campeones”. “Fútbol Actualidad”, Montevideo, 6 de julio de 1954, p. 3.

[30]  La verdadera historia de la derrota… P. 22


Machado de Assis, João do Rio, Olavo Bilac e os novos padrões corporais no Rio de Janeiro da transição dos séculos XIX e XX

17/11/2017

Por Victor Andrade de Melo

Março de 1871 (no tempo da ficção, já que a obra foi escrita nos anos finais do século XIX). Bentinho e Capitu uma vez mais deixam sua casa na Glória para jantar na residência de Escobar e Sancha, na Praia do Flamengo. Em certo momento da noite, na janela a ouvir o barulho do mar em ressaca (como os olhos de Capitu, conforme sugeria o protagonista), perdido em pensamentos, Bentinho percebe o amigo se aproximar:

– O mar amanhã está de desafiar a gente, disse-me a voz de Escobar, ao pé de mim.
– Você entra no mar amanhã?
– Tenho entrado com mares maiores, muito maiores. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter estes pulmões disse ele batendo no peito, e estes braços; apalpa.

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Banhistas na Praia do Flamengo/década de 1910

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Bentinho assume que, a princípio, em Sancha lembrou quando apalpou o braço de Escobar. Todavia, logo uma sensação constrangedora lhe acometeu: “achei-os mais grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; acresce que sabiam nadar”. No retorno à Glória, inebriado pelo forte ruído do oceano, Bentinho se dá conta do incômodo que lhe causava a figura de Escobar, materializado numa fotografia que possuía em casa.

Entre tantas leituras possíveis, podemos ver em Dom Casmurro um embate entre modelos de masculinidade. Machado de Assis, na composição de seu personagem “másculo”, o destaca, entre outras características, pela compleição muscular e pelo hábito de praticar um esporte. O comerciante e empreendedor Escobar enfrenta mares bravios com seus bons pulmões e braços fortes. Morre não por covardia, mas sim por ousadia. Bentinho, ao contrário, toma ciência de sua fraqueza e inveja o amigo: sabe-se débil em muitos sentidos.

Podemos também considerar que se trata de uma dramatização de um embate entre o homem da tradição bacharelesca, que só se dedica às coisas da “mente” e do “espírito”, e o novo burguês, que expressa com seu corpo os comportamentos e posturas que marcam uma personalidade disposta a aceitar desafios. Enfrentar o oceano com seus próprios braços é um sinal definidor do perfil desse homem.

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Remadores na Praia do Flamengo/Década de 1920

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O que bem capta Machado de Assis são as mudanças de perfil e de padrão de exposição corporal na cena fluminense das últimas décadas do século XIX, tão bem definidas por João do Rio alguns anos mais tarde. No início do século XX, ele sugeriu que “Fazer esporte há 20 anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça, quando um dos meninos arranjava um altere. Estava perdido. Rapaz sem um pincenez, sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era um homem estragado”. A contrário disso, na virada de centúrias, segundo seu olhar,

Rapazes discutiam “muque” em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta fina e a perna nervosa e a musculatura herculeana dos braços. Era o delírio do rowing, era a paixão dos esportes. Os dias de regatas tornavam-se acontecimentos urbanos.

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Regata na Enseada de Botafogo/1ª década do século XX

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Não que o esporte fosse uma novidade na cidade. Desde a primeira metade do século XIX, diversas modalidades já vinham se estruturando, em conjunto com outras práticas corporais (ginástica, dança, patinação), expressões da valorização crescente de uma vida pública, materializada, inclusive, pela conformação progressiva de um mercado ao redor dos entretenimentos.

Naquela transição de séculos, contudo, no quadro de um Rio de Janeiro em mudanças, no qual se percebe ainda maior adesão ao ideário e imaginário da modernidade, bem como fortalecimento das relações com parâmetros simbólicos do continente europeu, as atividades físicas deixaram de ser uma exceção, venceram resistências culturais e, incorporando preocupações com a saúde e higiene, tornaram-se valorizadas por um significativo estrato da população, consideradas mesmo como um modelo de um novo padrão de vida que deveria se desejar para que o país pudesse progredir.

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Remadores do Clube Boqueirão do Passeio

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Os homens, como bem observa Luiz Edmundo, “já começam a mostrar corpos rijos e bem desenhados de músculos, muito orgulhosos de suas linhas, exibindo-se em calções, mas dos longos, dos que vão abaixo da linha do joelho” (1957, p. 840). Os remadores se tornam um exemplo.

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Remadores do Vasco da Gama

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O remo era representado como o esporte do “exercício physico”, termo-chave sempre usado pelos que defendiam e propagavam os benefícios dessa prática. Era encarado como o esporte da saúde; do desafio, contra o outro e contra o mar, que educa o músculo e a moral. Seria supostamente uma prática adequada para forjar uma juventude altiva, forte e com “liberdade de espírito” suficiente para conduzir a nação ao progresso necessário.

Olavo Bilac, ardoroso defensor do progresso e da modernização do país, celebrava:

Essa geração, que está se educando no mar, face a face com o perigo, criando a energia muscular e energia moral, já é mais bela, mais forte, mais nobre do que a minha. Os adolescentes de hoje já não são como os de ontem, magros e tristes, macambúzios e histéricos, criados entre o rigor do carrancismo paterno e a brutalidade dos mestres boçais, entre sustos e palmadas, sem exercício físico e sem liberdade de espírito (…) os meninos de hoje já são bravos como homens.

Assim, sempre que se falava dos atletas de remo, procurava-se destacar suas formas físicas, sua vigorosidade, sua “saúde”. O remador campeão brasileiro de 1903 era apresentado física e moralmente como uma figura próxima da perfeição: “Arthur Amendoa, é de estatura mediana, moreno, bela estatura, bela complexão de atleta, bastante musculoso, dotado de muito bom gênio e no trato é cortes; excelente companheiro e amigo leal”. As fotos de remadores exibem para o grande público a nova formação corporal que melhor expressava o que se esperava dos novos tempos.

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Remadores do Clube de Regatas Gragoatá

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Para mais informações

MELO, Victor Andrade de Melo. Cidade sportiva. Rio de Janeiro: Relume Dumará/Faperj, 2001.

MELO, Victor Andrade de Melo. Corpos, bicicletas e automóveis: outros esportes na transição dos séculos XIX e XX. In: PRIORE, Mary del, MELO, Victor Andrade de (org.). História do esporte no Brasil: do Império aos dias atuais. São Paulo: Editora Unesp, 2009. p. 70-106.

MELO, Victor Andrade de Melo. O corpo esportivo nas searas tupiniquins – um panorama histórico. In: PRIORE, Mary del, AMANTINO, Marcia. (orgs.). História do corpo no Brasil. São Paulo: Editora da Unesp, 2011. p. 123-145.

MELO, Victor Andrade de Melo. Novas performances masculinas: o esporte, a ginástica, a educação física (século XIX). In: PRIORE, Mary del, AMANTINO, Marcia (orgs.). História dos homens no Brasil. São Paulo: Editora da Unesp, 2013. p. 119-152.

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Puerto Rico entre huracanes y colonialismo: lecciones del deporte

02/11/2017

Dr. Antonio Sotomayor
Profesor y Bibliotecario en la Universidad de Illinois y autor de The Sovereign Colony: Olympic Sport, National Identity, and International Politics in Puerto Rico
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Han pasado más de cinco semanas desde que el huracán María azotara catastróficamente a la isla de Puerto Rico. La situación crítica y la respuesta inadecuada de las autoridades federales han llamado la atención de la comunidad internacional. Ante la crisis humanitaria en Puerto Rico tras el paso del huracán, han sido muchas las personas que han indicado que los afectados son “americanos.” ¿Son los puertorriqueños americanos o puertorriqueños? Para muchos, esta pregunta sería fácil de contestar: son puertorriqueños. Y la más clara evidencia de ello es su equipo olímpico nacional. Para otros, la respuesta podría comenzar con un “depende,” debido a que Puerto Rico es un territorio no incorporado de los EEUU y que los puertorriqueños han sido ciudadanos de los EEUU desde 1917. Esta aparente ambigüedad en definir a los puertorriqueños como americanos o no es una pieza clave en la respuesta de la administración Trump ante el paso del huracán María por la isla.

Puerto Rico y sus habitantes continúan en una crisis humanitaria, a más de un mes del paso del huracán María, el cual azotó esta isla caribeña el 20 de septiembre con vientos sostenidos de hasta 155 millas por hora y dejando en algunos lugares casi 40 pulgadas de lluvia. El huracán provocó billones de dólares en daños, los cuales se suman a los 74 billones de deuda que ya cargaba el territorio antes de María. Ante esta calamitosa imagen, el llamado a EEUU para que ayude a Puerto Rico ha sido bajo la premisa de que los puertorriqueños son “americanos” y, por ende, deben recibir ayuda completa, inmediata y sin condiciones. Ciertamente, algunos puertorriqueños se sienten tan americanos como cualquiera en los 50 estados de la Unión. Pero, muchos otros no dirían que primero son americanos, sino que son puertorriqueños con ciudadanía estadounidense. En este sentido, y como se ha dicho en otros espacios, la puertorriqueñidad es nacional y la ciudadanía estadounidense es un tecnicismo de acceso conveniente. La diferencia en estos dos puntos es importante y creo que va al centro de la pobre respuesta de la actual administración Trump. O sea, los estadounidenses ven, no erróneamente, a los puertorriqueños como un pueblo diferente de los EEUU, otra nacionalidad, y por ende no los ven como ciudadanos estadounidenses. Como veremos, el deporte provee una buena ventana para observar la intersección entre identidad, los esfuerzos de reconstrucción después de María y la administración de Donald Trump.

Por lo general, los puertorriqueños rechazaron la campaña de americanización de los Estados Unidos durante el principio del siglo XX luego de la invasión de 1898, la cual buscaba substituir la cultura hispana por la anglo-sajona y así acercarlos a una posible admisión como un estado de la Unión. Paralelamente y desde entonces, los puertorriqueños han defendido su hispanidad como pueblo iberoamericano, lo cual ha sido suficiente para crear la idea de que Puerto Rico es oficialmente un país soberano. Que más de la mitad de los estadounidenses ignoren que los puertorriqueños son ciudadanos estadounidenses no debería ser sorpresa. Durante esos años de la negociación al plan de americanización, los puertorriqueños sí adoptaron los deportes (e.g. beisbol, baloncesto, volibol) como una práctica cultural progresista y los añadieron a su repertorio de elementos de identidad puertorriqueña.

Por lo tanto, los deportes, especialmente el Movimiento Olímpico, nos pueden ayudar a entender mejor la complejidad de la identidad puertorriqueña. Los puertorriqueños tienen su propia delegación olímpica desde 1930 como nación caribeña y latinoamericana, pero participan en el ciclo Olímpico ostentando su ciudadanía estadounidense. Los puertorriqueños valoran su delegación olímpica, pues ven en ella la única forma de tener una visible presencia internacional, una voz como nación dentro del concierto de naciones. Al hacer esto con su ciudadanía estadounidense, la cual valoran como medio de acceso fácil a los Estados Unidos y, por ende, como una protección económica y social, perciben que tienen lo mejor de dos mundos: nación y orgullo cultural + estabilidad económica y política. Este orgullo nacional quedó claro cuando Mónica Puig ganó la medalla de oro en tenis durante los Juegos Olímpicos de Rio en 2016 y cuando el equipo de beisbol llegó invicto al juego final del Clásico Mundial de Beisbol (CMB) en marzo de este año.

Si bien para los puertorriqueños los triunfos en las Olimpiadas y el CMB fueron extraordinarios, los mismos ocasionaron confusión de parte de algunos en Estados Unidos, quienes no entendían la relación compleja entre la política y la cultura de los puertorriqueños. Algunos no entendían por qué Puig, recibida en la isla como heroína, ganó una medalla para PR cuando al Puerto Rico ser un territorio de los EEUU la medalla debería ser otorgada a los EEUU. Similarmente, la recepción como héroes del equipo nacional de beisbol luego de su actuación en el CMB fue vista por algunos en EEUU como incomprensible. Estos ignoraron la capacidad del deporte para proyectar a Puerto Rico como nación, el nivel de unidad que los deportes internacionales logran entre los puertorriqueños e ignoraron también que a veces perder una medalla de oro, sino quedarse con la de plata, no es sinónimo de fracaso. Al ganar su medalla de oro, Mónica Puig dijo en entrevista que había unido a una nación. Similarmente, Yadier Molina, en entrevista previa al juego final del CMB, declaró que “Esto es por nuestro país. Te envuelve la emoción cuando juegas por tu país.”

Una voz de defensa y reclamo constante durante la actual crisis ha sido la de la alcaldesa de San Juan Carmen Yulín Cruz Soto. La alcaldesa, perteneciente a la ala soberanista del tradicional Partido Popular Democrático, se ha dado a conocer internacionalmente por retar a la administración federal para que responda adecuadamente a su responsabilidad de proteger a los puertorriqueños de esta crisis humanitaria. Durante su juventud, Carmen Yulín fue capitana del equipo de atletismo en la Escuela Superior de la Universidad de Puerto Rico, donde aún ostenta un record en la carrera de los 400 metros lisos. Cuando Mónica Puig gana la primera medalla de oro para Puerto Rico, Carmen Yulín rápidamente la halagó por ser una “¡Mujer valiante, Boricua en palabra y acción!” Igualmente, ante un tuit del Comité Olímpico Internacional diciendo que Puig había ganado la medalla “para su equipo,” Yulín los corrigió diciendo que lo había hecho “¡por su país!”

Debemos notar que el centro de mando de Yulín en el Coliseo Roberto Clemente (nombrado en honor al héroe deportivo nacional puertorriqueño por excelencia) exhibe en su entrada principal una gigantesca bandera puertorriqueña.

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Esta bandera muestra el color azul cielo asociada con el sector independentista y soberanista. Este color azul cielo también ha sido usado por el Comité Olímpico de Puerto Rico. Disponible en: https://www.telesurtv.net/english/news/Puerto-Rico-Mayor-Says-Trumps-Comments-Were-Insulting-20171004-0017.html

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A su vez, el color contrasta con el azul marino asociado con la bandera de EEUU y con el movimiento anexionista, al cual pertenece el gobernador Ricardo Rosselló. Disponible en: http://www.fortaleza.pr.gov/content/el-pa-s-recibe-sus-embajadores-ol-mpic

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Si bien el deporte internacional envía un mensaje claro de que Puerto Rico es una nación, sus ciudadanos tienen la ciudadanía estadounidense. Y como tales, tienen derecho a recibir ayuda inmediata y completa del gobierno federal ante la crisis. La actitud de reclamo de la alcaldesa Cruz Soto ante la responsabilidad del gobierno federal de proveer esa ayuda fue más que una razón para que el presidente Trump la atacara, llamándole, entre otras cosas, “nasty.” Después de esto y durante la visita de Trump a Puerto Rico el 3 de octubre, los deportes volvieron a servir de ventana especial para ver la relación política entre Puerto Rico y EEUU. Vimos al Presidente Trump lanzando papel toalla, con técnica baloncelista, a un pequeño público de simpatizantes.

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Para los puertorriqueños, el acto fue muy bien interpretado, pues el baloncesto es uno de sus deportes favoritos. Y no nos olvidemos de que la selección nacional puertorriqueña de baloncesto le propinó al llamado Dream Team de EEUU su peor derrota en el baloncesto olímpico. El mismo fue otro episodio significativo de nacionalismo deportivo puertorriqueño. El mensaje del 3 de octubre, enviado en lenguaje deportivo, fue más que revelador de un presidente enajenado de todo tipo de empatía moral. El acto refleja, en perfecta metáfora deportiva, el rol de los EEUU con sus súbditos coloniales: el apoyo federal para los puertorriqueños equivale a que se les arrojen meras migajas. Y estas migajas, tal cual la ciudadanía estadounidense, no equivale a lo que los puertorriqueños necesitan: desarrollo de una economía autosuficiente.

A pesar del fracaso de la economía colonial en Puerto Rico, los Estados Unidos no han asumido una postura razonable ante la crisis fiscal y social en la isla. Por el contrario, bajo la firma del presidente Obama, el Congreso envió en el 2016 una Junta de Control Fiscal que, en vez de proveer un desarrollo realista de la economía, lo que ha hecho es proponer medidas de austeridad extrema. Las acciones, o inacciones, del gobierno estadounidense han provocado nuevas olas de alarma y llamados para reformas de envergadura.

El 3 de octubre, los puertorriqueños no necesitaban papel toalla; necesitaban el anuncio y estrategia de implementación de un plan de asistencia comprensivo y adecuado a la urgencia de una crisis humanitaria.

Creo que el hecho de que los puertorriqueños sean un pueblo netamente iberoamericano es la razón por la cual esta actual administración en los EEUU, la cual se ha decantado por una política de odio, dedica tan pocos recursos e interés en aliviar la crisis. No veo cómo bajo la probada relación entre Trump y las posturas que defienden el nacionalismo blanco, esta administración se volcaría para ayudar sin restricciones a un territorio que es mayoritariamente mulato, que habla español y que hasta se considera una nación Caribeña y Latinoamericana distinta a los Estados Unidos.

Los puertorriqueños no son americanos, son puertorriqueños. Llamarles americanos e igualarlos a cualquier estadounidense en cualquiera de los 50 estados, sería una gran tergiversación y hasta un atentado contra el derecho a una nación a existir. Llamarlos americanos sin estar conscientes de su sentido de pueblo soberano atenta contra un proceso histórico sobresaliente donde los puertorriqueños en vista de un poderoso proceso de americanización optaron por mantener su cultura latinoamericana ante la presión de asimilación de la potencia cultural más poderosa de todos los tiempos.

Los puertorriqueños también son ciudadanos estadounidenses, por imposición desde 1917. Como tal, los puertorriqueños tienen una obligación de registrarse a los 18 años para participar en guerras de EEUU y muchos han servido desde la Primera Guerra Mundial. Esta situación entre identidad y ciudadanía de los puertorriqueños no debe ser complicada de entender, si tomamos en cuenta que la relación entre EEUU y Puerto Rico es una colonial. Y como colonia, los puertorriqueños son vistos como externos a EEUU, y por lo tanto no se “merecen” la misma asistencia y atención que los estados fidedignos. El “olimpismo colonial” de Puerto Rico nos deja ver que existe una nación vigorosa y orgullosa, pero a la misma vez atada por las camisas de fuerzas de la subordinación colonial. Aunque el olimpismo colonial puede ser un fantástico tema de investigación académica, en tiempos de crisis como el que vive Puerto Rico hoy, el juego entre nación y colonialismo puede ser uno, literalmente, de vida o muerte.

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A história do esporte gaúcho: um caso único

23/09/2017

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

A história do esporte do Rio Grande do Sul apresenta uma série de peculiaridades que o tornam caso singular no Brasil. O estado mais austral do país, devido a fatores diferenciados como as suas características geográficas, sua relação e integração com a fronteira nacional, além de uma formação étnica singular, o tornam distinto. É fácil visualizar diferentes percepções e uma relação única entre a tradição e a inovação. No extremo sul do Brasil o novo e o tradicional se fundem, se acomodam e se integram de maneira diferenciada em relação ao resto do país. Foi esta mescla que formou o esporte gaúcho, sempre aliando o moderno ao conservador e o caracterizando de maneira original.

Para exemplificarmos estas questões basta fazermos uma simples análise e uma comparação que pode parecer, inicialmente, um tanto desconexa: e relação entre as touradas e o turfe praticado em Porto Alegre no século XIX com a construção da Arena do Grêmio, inaugurada no final de 2012.

No caso das touradas, a relação dos circos de touros com os gaúchos era especial. Basta dizer que as mesmas companhias tauromachicas que se apresentavam por todo o Brasil e pelos países do Rio da Prata, também excursionavam por Porto Alegre e pelas principais cidades do estado. No entanto, para atrair o público sulista, atrações diferenciadas eram oferecidas. “Touritos” eram ofertados para as crianças brincarem, assim como autênticos “campeiros” disputavam a bravura com os artistas portugueses e espanhóis frente aos touros. Uma postura totalmente diferente do que acontecia, por exemplo, no Rio de Janeiro, capital imperial até 1889, onde as touradas eram vistas como praticas que beiravam a barbárie. No Rio Grande do Sul, nada mais era que um divertimento que trazia o cotidiano campeiro para a cidade e entretinha o povo urbano.

Da mesma forma, o turfe dividia opiniões. Se, por um lado, a prática do esporte inglês em substituição às consideradas “selvagens” carreiras de cancha reta exigia novos modos, técnicas, regras e ambientes que o tornasse cada vez mais próximo ao que era desenvolvido no velho continente, havia, também, muitos representantes que eram partidários, pelo menos em parte, às velhas disputas, obsoletas aos mais progressistas. Os cavalos puro sangue ingleses, representantes da mais refinada raça de acordo com os europeus, ficariam ainda melhores se cruzados com os equinos crioulos, diziam os periódicos porto alegrenses de grande circulação da época. Os jockeys britânicos possuíam eficientes técnicas, mas não se comparavam aos “centauros dos pampas”, como eram chamados os cavaleiros gaúchos. Cavalos mestiços, jockeys de bombacha e categorias diferenciadas fizeram do turfe gaúcho oitocentista outro caso especial. Enquanto em São Paulo e Rio de Janeiro, centros econômicos e políticos do Brasil, o discurso era favorável a cópia da prática britânica, nos hipódromos do Rio Grande do Sul os cavalos crioulos e seus ginetes eram celebrados.

Chegando ao século XXI, temos outro exemplo desta peculiar relação do Rio Grande do Sul com a tradição e a inovação nos esportes. Foi inaugurado no dia 8 de dezembro de 2012 um moderno estádio multiuso chamado de Arena do Grêmio em substituição ao defasado Estádio Olímpico Monumental que servia de casa ao time do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense desde 1954. Mesmo sendo um dos mais avançados e modernos palcos para o futebol do Brasil e seguindo as mais exigentes tendências mundiais, o clube decidiu não instalar cadeiras na parte inferior do setor norte, devido a uma reivindicação de parte da torcida. Esta gostaria de se manter fiel a antiga tradição de torcer em arquibancadas e não em cadeiras. Desta forma, a Arena do Grêmio se mostra como mais um exemplo onde o inovador se mescla com o tradicional no esporte do Rio Grande do Sul. Enquanto que vários modernos estádios são construídos pelo mundo, Porto Alegre o faz de maneira excêntrica, aliando tendências contemporâneas com as rústicas arquibancadas.

De fato, a história do esporte no Rio Grande do Sul é peculiar. Sendo nos circos de touros, nos hipódromos ou nos estádios de futebol, os gaúchos tem uma maneira diferenciada de tratar com as renovações. A modernidade gaúcha tem essas especificidades. Adaptações, negociações, acomodações fazem do esporte do Rio Grande do Sul um caso à parte. Se no Brasil e no mundo os esportes se popularizaram, ganharam no extremo sul do país a marca gaúcha.

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TRAUMAS COLETIVOS E O RACISMO NO ESPORTE

18/09/2017

Por Ricardo Pinto dos Santos

            Em geral, o racismo no esporte é compreendido de forma equivocada. Na verdade, rotineiramente, salvo para as vítimas, as atitudes racistas vivenciadas no campo esportivo são encaradas como brincadeiras ou, como dizem alguns, são coisas do jogo que, quando proferidas, não tornam ninguém um racista.

            De forma objetiva, essa compreensão é bem eficiente para esvaziar o fenômeno e os seus desdobramentos legais e sociais. Nesse contexto, assistimos o crime de racismo se travestir em qualquer coisa bem distante da gravíssima violência que ele, efetivamente, representa. Quase sempre enquadrado como injúria racial, onde a pena é menor e os danos facilmente absorvidos, o crime de racismo no Brasil, especialmente no esporte, se torna quase que um crime impossível.

            Tentando encarar o desafio de expandir a nossa compreensão acerca desse fenômeno e, de algum modo, demonstrar o quanto somos condescendente com o crime de racismo, resolvi aproximar esse tema aos novos estudos denominados: pedagogia do ensino dos traumas coletivos.

            Com ênfase inicial no Holocausto, Francisco Carlos Teixeira da Silva e Karl Schurster, em texto publicado em 2016[1], apresentam essas novas análises e, principalmente, revelam uma demanda urgente em revisitarmos os estudos realizados sobre o tema e, sobretudo, a forma de ensinar esse fenômeno nos diversos níveis escolares. Dessa forma, enquanto ferramenta de ensino, a proposta visa combater a violência e as diversas manifestações de ódio presentes no cotidiano social.

            Ainda que o foco inicial seja o holocausto, os estudos dos traumas coletivos se aplicam perfeitamente ao racismo enquanto fenômeno que atingiu um grupo especifico da sociedade e que, dia a dia, continua sofrendo com os reflexos do seu passado. No caso do racismo, no Brasil, ainda possuímos alguns agravantes que são, em geral, difíceis de serem superados sem uma reestruturação completa na forma de ensinar e no conteúdo ensinado sobre o tema.

            Como sabemos o racismo é um tema pouco estudado no brasil. Quase sempre tratado de forma periférica nas escolas e universidades, assim como ocorre com o holocausto que é visto na periferia do estudos da Segunda Guerra Mundial, o racismo acabou se tornando um fenômeno pouco explicado e, consequentemente, pouco entendido.

            Quando aproximamos esse tema do esporte isso se torna ainda mais grave, visto que, quase sempre, as manifestações esportivas estão imersas naquilo que definimos como sendo o espaço do “não sério” e, principalmente, seguem sendo definida por um perspectiva completamente romantizada.

            Nesse sentido, há sempre a desculpa de que o que se faz em campo/arquibancada, diante de suas especificidades e sendo um lugar de catarse, não devem ser levados tão a sério. Tudo, no final, não passaria de um ação momentânea sem desdobramentos maiores.

            Esse trato peculiar sobre o tema é visto nos desdobramentos dos casos de racismo no esporte. Apenados, quase sempre, de forma branda, os que agridem não compreendem a dor do “outro”, tampouco a gravidade da sua violência. Via de regra, os agressores se escondem sobre a desculpa de que “não são racistas” e que foi apenas um momento quente do jogo.

            Sobre isso, em seu texto, Silva e Schurster trazem uma reflexão importante sobre a experiência alemã que pode nos ajudar a trilhar nossos primeiros passos nessa nova tentativa de aprofundar sobre o racismo. Gitta Sereny (historiadora, austríaca, 1921-2012), citam os autores, revela em seu livro, Trauma Alemão. Experiência e reflexões, que “ foi através de um melhor entendimento sobre o idealismo e a capacidade de uma determinada tirania de perversão dos instintos humanos, que conseguiu chegar a uma definição do ‘trauma alemão’”.  Ou seja, explicam os autores, o “trauma alemão teria sido capaz de causar e deixar profundas feridas com as quais as futuras gerações do processo histórico tiveram e ainda têm , para o bem e para o mal, a obrigação de lidar”.

            A idéia de um passado que não passa é fundamental para a compreensão desse sistema onde se distanciam aqueles que sentem e sofrem com a dor e aqueles que agridem e a negam o dano.  No Brasil, como sabemos, “não reconhecemos” o racismo porque acreditamos que ele ficou no passado. ademais, há um esforço brutal em negar as consequências e, fundamentalmente, as responsabilidades sobre ele.

            E isso é facilmente explicável, vejamos: como quase sempre atrelamos os estudos sobre o racismo ao tema escravidão e pós-escravidão (aqui ate os anos de 1930), dessa forma, conseguimos afastar nesse tempo histórico as nossas relações e conexões com esse fenômeno social. Assim, parece muito bem resolvido uma renúncia em revisitar o tema.

            Talvez por isso, na maior parte dos casos de racismo no Brasil, encerramos o debate com o enquadramento dos fatos como injúria racial. Pela sua natureza jurídica, a injúria são “apenas” palavras proferidas que acabariam se encerrando nelas mesmas. Nesses casos, não se compreende a continuidade da violência estrutural na qual a injúria está inserida. Ou seja, retiramos o racismo que estruturou a injúria e resolvemos a questão para seguirmos em frente.

            Quando vamos debater o racismo no esporte contamos ainda com outro desafio. Cotidianamente, definido a partir de uma perspectiva estéril e romântica, qualquer fenômeno que afete essa estrutura são consideradas desvios do esporte e não parte dele. Assim, como ocorre com a análises apressadas acerca da violência no esporte, que busca rapidamente defini-la como algo externo ao campo esportivo, o racismo também é um desses fenômenos que nada tem haver com o esporte.

             Enfim, já passou da hora de reconhecermos o racismo no esporte como um fenômeno bem mais complexo e grave do que tratamos hoje. Do contrário, de nada vai adiantar times entrando em campo com faixas  dizendo “não ao racismo”, quando, na verdade, eles não sabem nada sobre o tema. igualmente, de nada vai adiantar respostas apressadas aos eventos de racismos no esporte, se elas não vierem substanciadas de uma compreensão mais ampla, realista e corajosa sobre o tema. Em síntese, precisamos falar seriamente sobre o racimo no esporte.

[1] SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. SCHURSTER, Karl. Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 42. N.2. p. 744-772, mai-ago 2016.

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