O remo na terra do chuvisco

05/11/2020

Por Victor Andrade de Melo

* Este post é parte de um livro que estou escrevendo em parceria com Juliana Carneiro

Em Campos dos Goytacazes, cidade do norte do Rio de Janeiro, houve um dos mais vibrantes movimentos do remo nacional. As regatas se tornaram usuais na primeira década do século XX graças a duas agremiações: o Clube Natação e Regatas Campista e o Sport Club Saldanha da Gama.

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Sede do Sport Club Saldanha da Gama.
Disponível em: http://camposfotos.blogspot.com/2010/11/clube-de-ragatas-saldanha-da-gama.html

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As agremiações náuticas rapidamente caíram no gosto popular e passaram a fazer parte dos principais festejos da cidade. As sociedades de remo também participaram ativamente das celebrações políticas mais importantes. Da mesma maneira, seus eventos se tornaram grandes acontecimentos.

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Embarcação do Clube de Natação e Regatas Campista em Festa de São Salvador.
Careta, 16 ago. 1913, p. 21.

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As atividades das agremiações náuticas não se restringiram ao Rio Paraíba do Sul. Os clubes tomaram parte em provas e eventos realizados em outras cidades, notadamente no Rio de Janeiro, em muitas ocasiões obtendo boas colocações.

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Manoel Bastos, do Saldanha da Gama, e Bernardino dos Santos, do Campista, em banquete comemorativo das regatas da Exposição Nacional.
Revista da Semana, 11 out. 1908, p. 16.

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A atuação mais intensa das agremiações, contudo, foi mesmo em Campos, e não se resumiu às regatas. Os clubes promoveram, por exemplo, uma atividade que se tornara usual na cidade: passeios fluviais. Por vezes, nesses eventos, houve páreos.

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Passeio fluvial do Clube Natação e Regatas Campista.
Careta, 31 jan. 1914, p. 20.

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Mesmo promovendo atividades diversas, e tendo um caráter social notável, os páreos de remo e natação eram o centro da vida dos clubes. Vale destacar que havia, inclusive, regatas femininas, um indício da nova presença pública das mulheres e da conexão de Campos com o que se passava em outras cidades.

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Remadoras do Pataíba do Sul.
Legenda: “Elas são lindas, alegre, jovens, campistas e amam o esporte”.
Sport Ilustrado, 17 ago. 1938, p. 26.

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No final da década de 1910, uma novidade enriqueceu o quadro do esporte náutico em Campos: a criação do Sport Club Rio Branco (a partir de 1922, renomeado Clube de Regatas Rio Branco).

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Remadores de Campos.
Sport Ilustrado, 19 nov. 1942, p. 16.

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Cada vez mais, por ocasião dos eventos náuticos/aquáticos, as margens do rio ficavam tomadas de gente – em algumas ocasiões se estimou ao redor de 10 mil pessoas. Além disso, era usual que os adeptos acompanhassem as provas de embarcações ancoradas no rio: vapores, pequenos barcos, até mesmo canoas. Muitos cronistas destacavam a grande presença feminina, a seu ver algo que conferia um brilho especial aos eventos náuticos.

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Remadores de Campos.
O Jornal, 21 jun. 1936, p. 19.

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O Paraíba do Sul, mais do que nunca, tornara-se um local de festas esportivas que mobilizavam a cidade, celebrando-se a adesão de Campos a parâmetros de modernidade.

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Festa náutica no Paraíba
Fon Fon, 18 abr. 1914, p. 39.

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As notícias do sucesso do remo e da natação em Campos chegaram amiúde ao Rio de Janeiro. Muitos foram os clubes da capital que prestigiaram as regatas da cidade. No Paraíba do Sul, disputaram provas remadores e nadadores importantes como Abrahão Saliture e Orlando Amendola. Eram sempre recebidos com grandes homenagens e intensa programação festiva.

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Remadores de Campos.
Diário de Notícias, 29 out. 1936, p. 12.

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O remo foi tão importante para a cidade que se chegou a construir, na segunda metade da década de 1960, um pavilhão de regatas para acolher o público sempre entusiasmado que prestigiava as provas náuticas. Com grande polêmica, foi destruído em 2012. Campos, foi, de fato, um dos poucos municípios brasileiros a ter tal instalação.

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Vale o registro: no Brasil, poucas cidades que não eram capitais tiveram tamanha efervescência no envolvimento com o remo.

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Hamilton: mais de uma década depois

04/10/2020

por Victor Melo

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Escrevemos tantas coisas que não raramente esquecemos de algo que escrevemos. Hoje, lembrei de um breve artigo que publiquei há mais de 10 anos, em 2008.

O repórter da Folha de São Paulo me ligou e, com a rispidez típica (e por vezes admirável) dos jornalistas, lançou o petardo: “Professor, o que pode significar a vitória de Hamilton?”. O notável automobilista, ainda jovem, tinha grande chance de se tornar campeão do circuito da Fórmula 1. Mesmo não sendo meu tema central de estudo, arrisquei algumas opiniões, ressaltando a importância de um negro sagrar-se vitorioso numa modalidade na qual há poucos negros representados.

O repórter, então, lançou um desafio: “Aceitas escrever um breve artigo sobre isso? Tem que se claro, direto, com número limitado de caracteres. Sim, e somente será publicado se Hamilton for campeão”. Demorei um pouco, mas aceitei, afinal, parecia um esforço interessante de reflexão. Frente à minha resposta positiva, retrucou o repórter, que preparava uma grande matéria sobre o piloto: “E agora, professor, para quem vamos torcer: Massa ou Hamilton?”. O brasileiro Felipe tinha grandes chances de também se sagrar campeão.

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Massa e Hamilton Paulo Whitaker/Reuters Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/f1/ultimas-noticias/2016/09/01/

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Não respondi, nos despedimos e, com a cabeça em polvorosa, me pus a tentar rabiscar algo. Eu e o repórter passamos os dias seguintes dialogando. Ele me deu dicas valorosas de como escrever para um jornal. Fui ajustando, tentando aprender. Ele foi paciente. No domingo, dia da corrida, nos falamos pela manhã, fizemos os ajustes finais e ele retomou a pergunta: para quem torcer Massa ou Hamilton?

Em tom solene, consagrei: como brasileiro, por Massa, como seres humanos, por Hamilton. Rimos da tergiversação e fomos aguardar o resultado que todos hoje sabemos – o britânico se tornou campeão, numa corrida emocionante, deixando para sempre seu nome registrado na história (e meu artigo foi publicado, bem como a grande matéria – Folha de São Paulo, Caderno Esporte, 3 nov. 2008, p. 3, disponível aqui http://cev.org.br/biblioteca/vitoria-ajuda-a-superar-preconceitos/).

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Hamilton campeão
Reuters
Disponível em: http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Formula_1/0,,MUL846415-15011,00-NA+ULTIMA+CURVA+HAMILTON+GANHA+O+TITULO+E+FAZ+HISTORIA+NO+QUINTAL+DE+MASSA.html

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Mais de 10 anos depois, Hamilton está prestes a registrar mais do que nunca seu nome na história. Não só por ser um magnífico piloto, um incrível atleta de um dos esportes mais difíceis e arriscados, mas também por se tornar um líder global por suas posturas políticas, por dar visibilidade a questões que extrapolam em muito e são mais importantes do que o esporte: vidas negras importam.

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Liderados por Hamilton, pilotos se ajoelham em protesto contra o racismo antes do GP da Áustria
Disponível em: https://jovempan.com.br/esportes/outros-esportes/pilotos-se-ajoelham-em-protesto-gp-da-austria.html

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Hamilton está prestes a bater o recorde mundial de vitórias e igualar o de campeonatos da Fórmula 1. E tudo isso sem se deixar calar pelos burocratas do esporte. Perceba-se que isso se dá em um momento em que, no Brasil, critica-se a atleta Carol Solberg apenas por ela expressar o seu ponto de vista. Curiosamente, a mesma medida não foi tomada para aqueles que defenderam o que hoje Carol critica. Pior, a atleta sofreu reprimenda de uma comissão de atletas que supostamente deveria a representar e defender. Poucas vezes se viu tamanha pusilanimidade e peleguismo. Mentira. No Brasil de hoje, lamentavelmente isso é cada vez mais comum.

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Incomum essa postura? Ou sinal do adesionismo, conservadorismo e alienação que lamentavelmente marcam largas esferas do campo esportivo, algo perceptível, por exemplo, nas atitudes da diretoria de um clube de futebol que, beirando o “terraplanismo”, não considerou com profundidade os desdobramentos da crise pandêmica que vivemos, tendo que pedir o adiamento de uma rodada por sua equipe estar largamente infectada.

Hamilton, Carol e muitos atletas que não se deixaram calar entraram e entrarão para a história pela porta da frente. Entenderam que não basta ser magnífico nas lides esportivas, há que se ser magnífico na vida, para a sociedade, para a humanidade. Existem muitos atletas. Alguns são excelentes atletas. Alguns ultrapassam isso. Alguns são mesmo quase heróis. Hamilton é desses. Faz muito bem que nos dias de hoje tenhamos um herói negro e insubmisso. Ajuda a deixar mais claro quem são os canalhas da história.

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Sabe de uma coisa: fiz muito bem, em 2008, ao torcer para Hamilton em nome da humanidade. A humanidade é muito mais importante do que um nacionalismo barato como esse que anda em voga nesse triste Brasil dos dias de hoje.

Abaixo, a versão semifinal do artigo publicado, ainda com outro título e sem revisão final.

NEGROS NO PÓDIO.folha.sao.paulo

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Europeus e cariocas nos momentos iniciais do esporte em São Paulo

19/09/2020

Por Flávia da Cruz Santos
flacruz.santos@gmail.com

 

As primeiras experiências esportivas desenvolvidas em São Paulo, não constituíam, ainda, o chamado campo esportivo, mas foram fundamentais para o desenvolvimento deste, anos mais tarde. Tais experiências, no entanto, eram compreendidas explicitamente, desde os seus primórdios, como divertimento. O fim dos esportes era promover alegria e prazer.

Os imigrantes europeus, presentes na cidade desde a sua fundação, tiveram papel central nesse processo de desenvolvimento dos esportes. Eles foram os responsáveis pelas presenças iniciais das duas primeiras práticas esportivas que surgiram em São Paulo, a esgrima e o críquete.

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O Estado de São Paulo, 20 de novembro de 1913

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Os mestres de esgrima, responsáveis pelas pioneiras presenças dessa prática nos jornais paulistanos, eram europeus: alemães, italianos e franceses. Foi com professores europeus que os paulistanos aprenderam a esgrima, e foi por influência inglesa que eles desejaram aprendê-la. A mesma presença determinante dos europeus, pode ser sentida nos momentos iniciais do críquete na cidade. Eles foram praticantes e organizadores da prática, cujas primeiras aparições nos jornais se deram, em língua inglesa, em 1872.

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A Província de São Paulo, 31 de agosto de 1888

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Os europeus, principalmente os ingleses e os franceses, foram decisivos para a chegada e o desenvolvimento dos esportes em São Paulo. Não apenas uma referência ou um modelo a ser seguido, eles foram os fomentadores, aqueles que desenvolveram as pioneiras iniciativas esportivas na capital paulista e que seguiram implementando e fazendo avançar o esporte na cidade.

A tese de que o Rio de Janeiro foi o ponto de onde o esporte se irradiou para o Brasil, se confirma aqui, no caso de São Paulo, apenas parcialmente. As relações comerciais, políticas e culturais entre estas duas cidades vinham de muito tempo, favorecidas pela proximidade geográfica entre elas.

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Correio Paulistano, 27 de maio de 1875

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Era noticiado nos periódicos paulistanos o desenvolvimento esportivo carioca, indicando que o mesmo deveria se dar em São Paulo. O Rio foi uma referência a ser seguida, e também a ser combatida. Combatida não no sentido de ser negada, mas de ser superada. A referência mesmo era a Europa. Com a intenção de se aproximar ao máximo desse continente, é que a corte deveria ser superada. O gosto pelos esportes devia ser maior em São Paulo do que na corte, a performance dos paulistanos também devia ser melhor do que a dos cariocas.

Mas os paulistanos e cariocas foram importantes uns para os outros, no que tange ao desenvolvimento esportivo. Os primeiros adversários dos paulistanos foram os cariocas. As equipes viajavam de uma província para a outra para se enfrentar, o que contribuiu para o desenvolvimento esportivo em ambas as cidades.

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Associação Atlética Vila Isabel: 70 anos de história. Adeus ou até logo?

10/09/2020

por João Azevedo

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“Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos
Do arvoredo e faz a lua
Nascer mais cedo”

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O bairro de Vila Isabel, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, é famoso pela boemia, um ar brejeiro, “sem vela e sem vintém, que nos faz bem”. As calçadas musicais, são uma marca registrada do bairro. Elas foram inauguradas em 1965, nas comemorações do quarto centenário da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A canção citada acima, é de autoria de um dos maiores compositores da música popular brasileira. Em parceria com Vadico, Noel Rosa compôs o Feitiço de Vila em 1934 e a gravação saiu pela Odeon (11.175A) em outubro daquele ano.[i] Esta música, faz parte das dezenove partituras espalhadas, entre a praça Maracanã e a praça Barão de Drummond. Iniciando com a marcha Cidade Maravilhosa, de André Filho e separando nove canções para cada lado, ao longo do Boulevard 28 de setembro.

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Fonte: Acervo pessoal do autor

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Na imagem acima, observamos o portão de entrada da Associação Atlética Vila Isabel (AAVI). Localizada no Boulevard 28 de setembro, 60. Quis o destino que a única música do poeta da Vila, exposta nas calçadas musicais, ficasse no muro daquele grêmio. O Vilinha, como foi chamado por anos carinhosamente a AAVI, foi por mais de setenta anos, um espaço de encontro importante para o bairro, para a zona norte e também para cidade do Rio de Janeiro. Entretanto, neste momento o clube já foi completamente fechado e seu interior desconfigurado, sendo lhe destruído toda a estrutura.

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Este post não pretende esmiuçar com rigor, toda a trajetória da Associação Atlética Vila Isabel. Mas sim, fazer um pequeno resgate de acontecimentos esportivos e sociais que envolveram seus sócios, praticantes de atividades esportivas do grêmio e frequentadores do local. Deixa também uma contribuição para que no futuro se possa estuda-lo com mais atenção em um artigo, resenha e até mesmo trabalho acadêmico. Infelizmente, não é só a AAVI que passa por essa situação e que poderá ser objeto de análise neste sentido, de clubes que fecharam as portas em nossa cidade.

Curiosamente, na contramão da trajetória destes clubes, está a escola de samba do bairro. O Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, fundado em 4 de abril de 1946, também é outra joia do bairro. A branco e azul de Vila Isabel, levanta a moral e a identidade local, a cada ensaio no Boulevard e a cada vez que entra na Avenida da Sapucaí. A escola que sofreu anos e anos sem quadra, hoje não passa mais por esse problema. Na época em que não tinha um endereço fixo, chegou a ensaiar e fazer eventos na sede do AAVI.

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Fonte: Acervo pessoal do autor

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A Vila Isabel, também já teve seu clube de football, no início do século passado. O Villa Izabel F.C., mandava seus jogos em um campo que ficava dentro do que hoje se chama, recanto do trovador. Na altura, o espaço tinha sido recentemente desocupado pelo Zoológico da cidade. E por muitos anos, moradores e transeuntes, chamavam e por vezes ainda chamam a localidade, de antigo Zoo. O Parque Recanto do Trovador fica no fim da rua Visconde de Santa Isabel com a esquina da rua Barão de Bom Retiro.

O clube dos Raios de sol, como era apelidado o Villa Izabel Football Club, devido ao escudo, foi fundado em 2 de maio de 1912 e figurou entre os clubes mais proeminente da cidade, durante o fim da década de 1910 até meados dos anos de 1930. A partir de então, entrou em declínio, até fechar as portas e desaparecer de vez do cenário esportivo carioca.

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Vida Sportiva, Anno IV, n. 169, 20 de novembro de 1920. p. 1.

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Alguns anos mais tarde, em 1950, reuniam-se cerca de duzentos moradores locais de Vila Isabel, na residência de Nelton Xavier, a fim de comemorar os feitos obtidos pelas forças armadas brasileiras na Itália e em seguida fundar uma associação atlética com o nome do bairro. Este encontro se deu, no dia 8 de maio, o “dia da vitória”. Data que ficou marcada pelos aliados em 1945 no fim da segunda guerra. Entre os presentes, naturalmente haviam muitos militares. E depois de realizada uma breve oração em memória aos soldados que foram aos campos de batalha na Europa, foi declarada a fundação da Associação Atlética Vila Isabel, pelo então presidente de honra da mesma, General Zenóbio da Costa. Posto isto, foi implementada a diretoria que contou com: Presidente, Tenente Coronel Jaime Graça, 1º vice-presidente, o anfitrião Nelton Xavier e 2º vice-presidente, Tenente Coronel Drumond Franklin e para o cargo de secretário, Major Tomé da Silva.[ii]

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Emblemas disponíveis em: Camisas do Futebol Carioca / Auriel de Almeida – 1º ed- Rio de Janeiro: Máquina, 2014. e https://aavilaisabel.blogspot.com/

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O emblema da Associação Atlética Vila Isabel, faz efetivamente alusão ao antigo clube de futebol do bairro. Entretanto, não há nenhuma evidência de relação direta entre diretores ou sócios do Villa Izabell F. C., com os novos fundadores da Associação Atlética. A questão aí, parece mesmo de resgate de memória local.

Logo nos primeiros anos vida da Associação Atlética, o grêmio se destacou em inúmeras atividades esportivas e socias, tais como os concursos de Miss. O clube sediou por várias vezes, concursos de beleza, que recebiam candidatas de variados clubes da cidade. Como no caso do desfile das “Dez mais” dos clubes cariocas.[iii]  O “Miss Luzes da Cidade’’ em 1957.[iv] E outros eventos. Todavia, o ápice veio com os títulos de Miss Distrito Federal e posteriormente Miss Brasil, da sócia da AAVI, Vera Ribeiro. Vera, faturou o prêmio local, no ginásio da Maracanãzinho em junho de 1959.[v] Dias depois da vitória de Vera Ribeiro, o presidente da Associação Atlética da Vila, proclamou “A Vila não quer abafar ninguém, só quer mostrar que tem meninas também”.[vi] Assim, parafraseando o poeta Noel Rosa, na canção Palpite Infeliz.

Depois de conquistar o troféu de Miss Brasil, também no palco do Maracanãzinho, a candidata brasileira ganhou passagem para o concurso de Miss Universo em Long Beach, nos Estados Unidos da América. No evento internacional, Vera Ribeiro, terminou com o quinto lugar.[vii] Depois dela, outras sócias, viriam a triunfar nos desfiles de beleza, como o caso de Jane Macambira, Miss Guanabara de 1972 e Senhorita do Rio em 1970. A obra de Noel Rosa, continuaria presente nas frases que associavam as coisas do bairro. Na reportagem da revista Manchete de 1972, que publica a vitória de Jane, lê-se, o Feitiço da Vila, em referência a beleza da moça. [viii]

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Manchete, n.733, 7 de maio de 1966. p. 239

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O Vilinha, também organizou muitos eventos ligados a prática do vôlei, além de obter equipes que disputavam o campeonato citadino. Serviu a Federação Metropolitana de Vôlei e teve reconhecimento local por isso, como aponta o Jornal dos Sports em 27 de fevereiro de 1953. A matéria publica que na quadra da AAVI, será disputado um quadrangular, sob aprovação do diretor técnico da federação, Ary de Oliveira.[ix] Este torneio, ficou conhecido como “Copa FMV” e permaneceu sendo disputado na quadra da Associação da Vila Isabel. Na imagem abaixo, vamos observar uma fotografia da equipe juvenil da Associação Atlética Vila Isabel de 1953, em disputado do campeonato carioca da categoria.

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Jornal dos Sports, Anno XXIII, n.7.251, 19 de abril de 1953. p. 13.

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A quadra do clube “aviano’’ (outra alcunha da AAVI), também deu lugar a muitas atividades sociais, tais como bailes de carnaval, jantares dançantes com apresentações de cantores e cantoras de rádio, famosos à época, como Ângela Maria, nos anos de 1950.[x] Chegou a receber em 1980 em um festival, o Rei do Baião.  Luiz Gonzaga se apresentou no mesmo dia que, Emílio Santiago, Dicró, Nelson Cavaquinho e outros da música popular brasileira.[xi]

No futebol de salão, o clube conquistou o tricampeonato da Federação Metropolitana de Futebol de Salão em 1965 [xii] , revelou alguns jogadores para o futebol de campo, como no caso de Carlos Pedro do América Football Club, que havia sido campeão juvenil de futebol de salão pela AAVI em 1959.[xiii] Além de consagrar outros esportistas da cidade, como nas disputas de halterofilismo, chegando a ser naquele espaço conquistado o recorde brasileiro na posição horizontal, por Miguel Fustagno. O atleta alcançou a marca de 150 quilos na posição, superando a si mesmo com a anterior marca de 110 quilos.

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Manchete Esportiva, n.145, 30 de agosto de 1958, p. 13.

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Nos últimos anos, o clube vinha passando por inúmeras dificuldades financeiras, baixo numero de sócios e pouca adesão aos eventos esportivos e sociais realizados em sua sede. A história da Associação Atlética Vila Isabel, conta um pouco a história da nossa cidade. As novas formas de lazer, implementadas pelos prédios com estrutura de clube, shopping center, brinquedos eletrônicos etc. Demonstra também, sobretudo, o esvaziamento das elites locais, do poder de compra dos moradores de zonas mais afastadas da praia e do centro da cidade. Hoje, associar-se a um clube, é uma prática que poucos podem e se importam em fazer. Assim vão se fechando inúmeros clubes da zona norte carioca e de outras regiões menos abastadas. Fica a memória de quem viveu e a reflexão do que está por vir. Será que voltaremos a sentir a necessidade de associativismo local, ou o divertimento será só privilégio de algumas zonas da cidade?

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[i] Omar Jubran, Noel Pela Primeira Vez, 2000.

[ii] Diario de Noticias, Anno XX, n.8460, 23 de maio de 1950. p. 2.

[iii] O Cruzeiro, Ano XXXIII, n.13, 7 de janeiro de 1961. p. 18.

[iv] Manchete, n. 281, 7 de setembro de 1957. p. 18.

[v] Manchete, n. 375, 27 de junho de 1959. p. 8.

[vi] Manchete, n. 377, 11 de julho de 1959. p. 9.

[vii] Manchete, n. 733, 7 de maio de 1966. p. 241.

[viii] Manchete, n. 1.054, 1 de julho de 1972. p. 5.

[ix] Jornal dos Sports, Ano XXIII, n.7.208, 27 de fevereiro de 1953. p. 8.

[x] Revista do Rádio, n.516. p. 44.

[xi] O Pasquim, Ano XII, n.598, 12 a 18 de dezembro de 1980. p. 28.

[xii] Revista do Esporte, n. 368. p. 19.

[xiii] Revista do Esporte, n.239. p. 18.


A TALE OF TWO ROBBERIES (uma contribuição de Matthew Brown)

26/08/2020

* Este post é uma contribuição especial de Matthew Brown,
Professor in Latin American History, University of Bristol, UK.
Author of From Frontiers to Football: An Alternative History of Latin America since 1800 (2014).

Este artigo foi originalmente publicado em espanhol em El Malpensante, número 219, julho fr2020 https://www.elmalpensante.com/articulo/4385/el_brazalete_de_bogota.

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It is half a century since the captain of the England’s men’s football team, Bobby Moore, was charged with shoplifting an expensive bracelet in Bogotá, Colombia. Questions remain over what happened and why. It is of course absurd to return to the theft of a bracelet in 1970 when Colombia’s under-resourced institutions of peace, justice and reconciliation are attempting to clarify the truth about an armed conflict that left over 220,000 dead, tens of thousands ‘disappeared’ and seven million displaced, and in the midst of a public health crisis that threatens the lives and livelihoods of the most vulnerable sections of society.[1] The history of the Bogotá bracelet continues to resonate because it feeds off international cultural stereotypes both in Colombia and the UK that were only slowly being eroded by transatlantic travel and instantaneous news communications at the time. It also reveals the ways in which historical memory was constructed in an area of close links between media, politics and the institutions of justice.

The facts of the matter appear pretty simple. The England squad landed in Bogotá on 18 May to prepare at altitude on their way to the World Cup in Mexico. That same afternoon a female assistant in a jewellery concession in their hotel lobby accused Moore and Bobby Charlton of stealing a bracelet decorated with emeralds and diamonds. They denied it and turned out their empty pockets. The squad flew on to Ecuador where they played further friendly matches. Moore was discretely arrested and charged when they stopped over back in Bogotá on 25 May.[2] After a three days of media speculation and legal process Moore was released and allowed to travel to Mexico, although the case continued for several years and a cloud was cast over his reputation.

Although I and others have looked over the years, there is no smoking gun or confession in the surviving archives. The emerald store owners we have asked can’t provide definitive proof. It is plausible that Moore took the bracelet, or that he took the blame for the horseplay of a teammate. His biographers have revealed the extent to which he struggled to maintain his impeccable image whilst drinking and socializing, and indicated that he pledged to protect a ‘third man’ and never reveal the secret.[3] Moore died of cancer in 1993. The shop assistant who accused him, Clara Padilla Morales, went to live in the United States, and was never heard of again. Even if this anniversary finally brings her out of hiding to tell her side of the story, we will probably never know ‘the truth’. The ‘Bogotá bracelet’ has passed into the mists of time, dragging the histories of local and international institutions of sport, politics and justice with it.

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Lobby journalism

As we pick through the surviving sources – the statements issued at the time, the memoirs of the players, and the documents that the British Foreign and Commonwealth Office have allowed to emerge over time – we can get an insight into the ways that history and public memory are constructed on the basis of the stories that are told and the details that are withheld.[4] The British players and journalists who accompanied them had very little knowledge or understanding of Colombia, and they travelled in a tense bubble in which their manager, Sir Alf Ramsey, struggled to control the group dynamics. Relations with the press were already strained. On the day that Moore was accused of the robbery, for example, the jetlagged journalists agreed not to write anything about the incident. That gentlemen’s agreement should have kept a lid on it. It was only El Tiempo’s correspondent, a young, ambitious journalist called Germán  Castro Caycedo, who went on to be one of Colombia’s major writers of non-fiction, who wrote a small note on the front page the next day, without naming Moore. This appeared alongside the news that Bobby Charlton had lost his wallet – containing personal papers and some money – presumably to pickpockets during the outing to visit the Millonarios club. Stories of money, theft and confusion sat alongside the staged photographs of footballers in their smart suits and sunglasses.[5]

In many ways it was the Colombian elite who most cherished Bobby Moore’s image of the uncorruptible, archetypal English gentleman who had wiped his hands before receiving the 1966 World Cup trophy from Queen Elizabeth II. For the Colombian football authorities it was a great honour to have Moore in their country, the epitome of fair play as well as a wealthy icon of Swinging London. As Ramsay remarked at the time, Moore couldn’t possibly have stolen the bracelet because he could have bought the whole shop. Photographs of Moore and his team-mates in the hotel lobby filled the front pages as they brought some English glamour to the new modern nation that was being built in Bogota on the ruins of the country’s violent past.

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The modern hotel

The scene of the crime was the Hotel Tequendama, a luxurious hotel complex opposite the National Museum. The Hotel was two decades old, a Modernist structure with architectural input from Le Corbusier, built on the site of the old military school where Colombia’s first games of football had been played in the 1890s. The Hotel is still there today, owned by the armed forces, and emerald shops hawk their jewels to office-workers passing through on their lunch-hours. The high-end tourists and business travellers have long since departed for the more secure and expensive international hotel chains in the north of the city. In 1970 the Tequendama epitomized the new, modern Colombia which the capital’s elites hoped to bring into the modern world. The previous building on the site had been destroyed in the 1948 Bogotazo, the popular uprising that brought the political establishment to its knees and catalysed a decade of intense partisan civil warfare across the country, known today as ‘the Violence’.

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The other robbery of 1970

In 1970 the political elite in Bogotá was struggling to maintain its control of the country at the end of the ‘forgotten peace’, as spiralling social inequality pushed the reformist social democracy to its limits. The reception of the England squad was a way of demonstrating that normality had resumed, just one month after disputed presidential elections held on 19 April. This date marks a ‘defining political event’ in Colombia’s modern history because it is widely believed that the establishment had stolen the election for their candidate Misael Pastrana at the expense of Gustavo Rojas Pinilla, an ex-military dictator who led the polls after discovering democracy and populism. A power blackout during the vote count coincided with a remarkable turnaround in Pastrana’s fortunes, and he was never able to fully establish the legitimacy of his election. The M-19 guerrilla group (literally, the 19 April Movement) subsequently launched a rebellion against the state, carrying out a series of high-profile stunts and terrorist attacks, claiming to stand against a corrupt oligarchy that defrauded ordinary citizens, exemplified by the ‘theft’ of the 1970 election.[6]

An election re-count may appear to have nothing to do with Moore and the emerald bracelet. Some gems glisten from the murky sources, however. Football was both public entertainment and media distraction. Colombian political scientists and historians have demonstrated the close links between the football and political establishments during the 1970s and 1980s. The work of historians such as Ingrid Bolívar and Andrés Dávila has shown the crucial role of football as both public entertainment and media distraction, as well as an avenue for social mobility and identity formation. The lawyer who represented the shop in the case, Pedro Bonnet, later joined the M-19, and worked as a fixer for one of the country’s biggest economic interests. A report in El Tiempo at the time cast aspersions on his character with a snide ‘and some say he is linked to Communism’. The outgoing president Carlos Lleras Restrepo made conciliatory announcements as the military and police forces prevented protest marches and asserted state control against the background of rising inequality and crime.[7]

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Crime wave

Bobby Moore was accused in the middle of a crime wave. The police had identified ‘a sudden rise in criminality’, up 25% in 1970 from the previous year. They lamented the transformation of Bogota from a sleepy town into a crime-ridden metropolis whose infrastructure was unable to cope with ‘the arrival of an uncontrollable horde of ignorant migrants from the countryside’.[8]

Crime related to emeralds was also on the rise. Colombia was the world’s number one producer but the trade largely took place on the margins of the law. The police had little respect for the esmeralderos who brought the stones to market, ‘believing that everyone has their price’ and that ‘the threat of violence is the only way to get business done’. Foreign tourists were well-known to be ‘easy victims for thieves and frausters’. The violence inherent in the contraband emerald trade later segued into the narco-violence of the 1980s.[9]

Bobby Moore therefore stood uncomprehending in a hotel lobby in the midst of a political, social and criminological crisis which he had no way of understanding. The police were on alert in the midst of a crime wave. The booming trade in emeralds was in the hands of migrants from the provinces who the police saw as natural criminals and liars. The election re-count put the legitimacy of elected rulers in doubt. The arrival of sophisticated sportsmen like Moore himself was supposed to help erase the memory of the disputed election and the smooth over social conflict.[10] Instead the Colombian authorities had to invest their all efforts in getting the English footballer out of a complicated mess.

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The football establishment

As news spread of Moore’s arrest, the Colombian football authorities gradually realised that they had a public relations disaster on their hands. Their failure to provide interpreters for their visitors had created the conditions where such a misunderstanding could take place. The incompetence of forgetting to unlock the training ground before the English squad arrived on their first full day triggered discontent that the Colombians were not up to the job of hosting the reigning World Champions. Their interests coincided with those of the British representatives, who sought to avoid the journalists whipping up headlines that would antagonise the legal process had delay Moore’s release.

It is clear that the British authorities wanted Moore released as soon as possible, and mobilized their contacts to achieve this aim. The representatives of the English Football Association travelling with the squad sent messages home in great alarm. The case was discussed at the highest level. When Harold Wilson’s Cabinet met on 28 May, the agenda for the Overseas Affairs section of the meeting was ‘East-West Relations: NATO Ministerial Meeting in Rome on 26-27 May – Arabia: Oil Prospecting – Mr. Bobby Moore – British Council of the European Movement: Grant-in-Aid’.[11]

The defender’s defence was quickly taken up by the lawyer Vicente Laverde Aponte, who had been Minister of Justice between 1960 and 1962 under the reforming Liberal president Alberto Lleras Camargo. Moore was released after questioning on the condition that he went into house arrest in the home of Alfonso Senior Quevedo, the President of the Colombian Football Federation. Keith Morris drove him there in the middle of the night. Senior’s role in protecting Bobby Moore has tended to be overlooked in favour of the footballer’s stoicism and heroism. But Moore’s fate gave Senior an opportunity to demonstrate his capacity as a football administrator who achieved results, building a global dimension to his national achievements. Senior knew football distracted Colombians from politics. As a director of Millonarios it was he who had offered inconceivably large salaries to lure international superstars like Alfredo Di Stefano and Neil Franklin to play in the famous ‘El Dorado’ leagues from 1948. El Dorado had been a direct response to the urban riots and rural unrest which spread through the country in the early 1950s. The last thing Senior and his allies wanted as they turned football into commercialized spectacle and professionalized business (a good two decades later than in other South American countries such as Argentina and Brazil), was for it to be caught up in a mediatized legal expose of their own failures.

By protecting Moore, Senior and the Colombian football authorities aligned themselves with the British embassy and with the networks that were re-establishing control of the state after the disputed election. A re-enactment of the crime was staged that undermined the shop assistant. Photographs showed an imperturbable Moore training with Millonarios and strolling with Senior. There was nothing to see here.[12]

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Truth, history and injustice

Even with the support of the football authorities, a former Minister of Justice and the British Prime Minister, however, legal process had to be followed before Moore could be released. Things got serious when, four days after the alleged robbery, a new witness stepped forward to substantiate Padilla’s accusation. This was Alvaro Suárez, introduced by the shop owner as ‘a street vendor who was passing by’, who was well-known to the esmeralderos, and who revealed that he had seen Moore pocket the bracelet. The police and media dismissed him as an underworld put-up job. El Tiempo published articles with unsubtle titles such as ‘The People’s View: No One Believes that Moore Would Have Taken It’, and official statements of ‘the feelings of admiration and affection that the Colombian people feel towards the English people’.[13] The new witness was effectively marginalized.

Conspiracy theories about who had paid Suarez abounded, including that the Brazilian military dictatorship was orchestrating a strategy to undermine English preparations. Moore was released and travelled to Mexico where he enjoyed a celebrated duel with the Brazilian Pelé. He played until England’s defeat in the quarter-finals which left them murmuring about poisonings, conspiracy theories and ‘latinos’. England would not qualify to participate in another FIFA men’s World Cup finals until 1982.

In contrast to the spiralling descent of the English national football team, Alfonso Senior’s star continued to rise. From his origins as a customs agent in the Caribbean port of Barranquilla descended from family on the Dutch colonial island of Curacao, Senior had big ambitions for Colombian football and won a seat on FIFA’s executive committee. From a position of influence within FIFA from 1974 – the year that the incumbent Englishman Sir Stanley Rous was defeated in FIFA’s presidential election by the Brazilian João Havelange, Senior was well positioned between the shifting European – South American alliances. The Colombian authorities had persuaded representatives of the English FA that they could be trusted to sort out a problem. When voting for the hosting rights to the 1986 World Cup took place just a month after Havelange took power, Colombia was selected unopposed.[14]

Senior would have been just as disappointed as Moore and his teammates that the ‘Bogotá bracelet’ affair periodically resurfaced over the next decades. The British diplomatic team and the Colombian authorities had worked together to free the captain from the legal vortex, but the image of a sporting gentleman entrapped by a criminal underworld was hard to dislodge from popular memory once it had been created. By suppressing the history of what really happened in the hotel lobby they ensured that the episode would join other memories of injustice in Colombia’s past. There were probably many inconvenient truths stuffed into the stories that were told. We may never be able to peel away enough distorting layers to reveal them, or to coax new voices out of the silence. Unless one day someone finds an emerald bracelet in a box alongside the medals when they are clearing out the attic.[15]

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[1] Centro Nacional de Memoria Histórica, ¡Basta Ya! Memorias de guerra y dignidad (Bogotá, 2013).

[2] El Tiempo, 26 May 1970; El Comercio, Quito, 27 May 1970.

[3] To mark the anniversary Keith Morris, the acting British ambassador in Colombia at the time, was interviewed in the Sunday Express, and one of the squad members, Alan Mullery, offered his thoughts to the Mirror. Carl Worswick, who has researched the matter as much as anyone, published an article in the Guardian, and Moore’s biographer Matt Dickinson reflected on it in The Times.

[4] There are twelve separate documents from the FO7 and FO53 relating to the case, including Moore’s witness statement: https://discovery.nationalarchives.gov.uk/results/r/1?_q=bobby%20moore.

[5] El Tiempo, 20 May 1970. The next day’s newspaper reported that Charlton’s wallet had been found ‘on the bus’.

[6] Robert Karl, Forgotten Peace: Reform, Violence and the Making of Contemporary Colombia (Berkeley, 2018).

[7] Andrés Dávila Ladrón de Guevara, ‘Fútbol y política en Colombia: reflexiones politológicas en un año mundialista’, Desbordes, 5, 2014; Ingrid Bolívar, ‘Footballers, ‘Public Figures’, and Cultural Struggles in the 1960s and 1970s’, The International Journal of the History of Sport, 36:13-14 (2019), 1197-1217; Mauricio Archila Neira, ‘El frente nacional: una historia de enemistad social’, Anuario colombiano de Historia Social y de la Cultura, 1997. El Tiempo, 27 May 1970. ‘?Qué será lo que tiene el “negro”?’, Semana, 3 July 1994. I am grateful to Carl Worswick for this reference.

[8] Brigadier General Henry García Bohorquez, Director General, Policía Nacional de Colombia, Estadística de criminalidad 1970, No.13 (Bogotá, 1970), ‘Introducción’, 7, 11, 99, 100. Thanks to Max Hering Torres for sharing this source with me.

[9] Policía, Estadística, 74, 133-4; Pedro Claver Téllez, La guerra verde: treinta años de conflicto entre los esmeralderos (Bogotá, 1993). On the links of an Olympic cyclist to the esmeralderos see Matt Rendell, Olympic Gangster: The Legend of José Beyaert, Cycling Champion, Fortune Hunter and Outlaw (London, 2009).

[10] Policía Nacional de Colombia, Estadística de criminalidad 1970, 74.

[11] The cabinet agenda is at CAB 128/45/24 https://discovery.nationalarchives.gov.uk/details/r/D7664766.

[12] Jorge Mario Neira Niño, 1001 anécdotas de Millonarios (Bogotá, 2012).

[13] El Tiempo, 27, 28 May 1970.

[14] Senior died aged 91 in 2004. He was remembered as ‘the most prestigious and respected administrator in all of Colombia’s sporting history’. Guillermo Tribin Piedrahita, https://web.archive.org/web/20080810023908/http://www.elalmanaque.com/actualidad/gtribin/archivo2004/art27.htm. Germán Zarama de la Espriella, Yo puse a bailar al ballet azul: biografía de Alfonso Senior Quevedo. Bogotá: Ediciones Antropos, 2006.

[15] For a sense of what this might look like, see Antiques Roadshow, BBC, 16 June 2019: https://www.bbc.co.uk/programmes/p07d1tny/player

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El surgimiento del primer club de remo en Montevideo: el Montevideo Rowing Club (1874)

17/07/2020

por Gastón Laborido (gaston_laborido1@hotmail.com)

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Presentación

El siguiente texto forma parte de una secuencia de escrituras que fueron publicadas en este mismo sitio. En otros trabajos se examinó la importancia del club deportivos como una de las instituciones fundamentales del deporte moderno y las primeras experiencias de instituciones deportivas organizadas en el Uruguay, concretamente durante el periodo 1842-1874.

En esta ocasión analizaremos el surgimiento y el desarrollo del primer club de remo en Montevideo durante la década del 70 del siglo XIX. Se trata de una década muy especial para la historia del deporte uruguayo, ya que el periodo 1870-1880 implicó el empuje y auge de las actividades deportivas y un ambiente que tendió a la agitación de fundación de clubes. Alrededor de 1873, había quedado definido el proceso de integración de nuestro movimiento deportivo. Como aseveran J. Buzzetti y E. Gutiérrez Cortinas (1965) “en el periodo 1870-1875, el empuje y auge de las actividades náuticas, que se señalaban como una verdadera necesidad nacional, impulsadas por la importancia que día a día adquiría el Puerto de Montevideo” (p. 40).

Si bien existió en nuestro país la experiencia del Victoria Cricket Club, entidad creada en 1842, hubo que esperar hasta la década del setenta del siglo XIX para ver el surgimiento de los primeros clubes deportivos estables. En el caso uruguayo los colegios británicos fueron importantes instrumentos de implementación y de difusión deportiva. La colectividad inglesa dentro del Montevideo Cricket Club (1861) y del Montevideo Rowing Club (1874) incorporaron los deportes en este orden: cricket en 1861, remo en 1874, rugby en 1875, fútbol en 1878, atletismo en 1878, natación en 1888 y el waterpolo en 1891.

En este trabajo se estudiará el Montevideo Rowing Club, primer club de remo del Uruguay, con gran importancia en el siglo XX aportando deportistas que obtuvieron medallas de bronce y plata en los Juegos Olímpicos de 1932, 1948 y 1952. Con el Montevideo Rowing Club nació un club que tuvo una fundamental gravitación en toda la evolución de nuestro deporte. Llegado el año 1880 encontramos un escenario en el cual habían surgido clubes, sociedades o asociaciones de los diferentes deportes.

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Escudo del Montevideo Rowing Club

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La década del 70 en Uruguay

En la primera mitad del siglo XIX no puede hablarse de una economía articulada y claramente diferenciada de los demás países de la región. De acuerdo a M. I. Moraes (2016) “a partir de 1870 una economía uruguaya en ciernes experimentó un primer ciclo de crecimiento económico moderno jalonado por etapas de apogeo y de crisis que anticipaban lo que habría de ser la dinámica turbulenta y volátil del capitalismo uruguayo” (p. 133).

El gobierno de Lorenzo Batlle (1868-1872) tuvo que enfrentar graves crisis políticas y financieras. En 1865-1866 se desató una crisis en Uruguay que puso en peligro el sistema monetario y financiero, puesto que una crisis de capitales del mercado británico se conjugó con problemas específicos del Banco Mauá que en ese entonces era una suerte de organismo financiador del Estado. El gobierno se vio obligado a decretar de manera temporaria el curso forzoso de la moneda fiduciaria y se abrió el debate en torno a las ventajas y desventajas de la convertibilidad del papel moneda. Ello provocó la protesta del alto comercio (que solo manejaba oro) y la consiguiente quiebra de varios Bancos en 1868. Se abrió una polémica pública entre los “cursisitas” (eran partidarios del papel moneda) y los “oristas” (partidarios del oro como moneda única).

Por otro lado, las crisis políticas estaban vinculadas a la debilidad del poder central, fuerte figura de los caudillos locales y la política de gobierno de Lorenzo Batlle que excluyó al Partido blanco del gobierno. Esto provocó  la “revolución de las Lanzas” (1870-1872), ocasionando grandes daños en el campo. La guerra finalizó con un acuerdo entre los partidos que se basó en que los blancos recibirían jefaturas políticas de cuatro departamentos: Canelones, San José, Florida y Cerro Largo. Esto significó que una parte del país era gobernada por colorados y otra por blancos.

Este periodo es reconocido como el “legalismo principista”, nombre asignado por universitarios intelectuales liberales, quienes responsabilizaron a los partidos políticos y a sus caudillos por el desorden y el atraso del país. Afirmaban que el respeto de los principios legales y constituciones eran garantía de orden y prosperidad.

En 1873 se eligió nuevo presidente, José Ellauri, representante de esos valores principistas. Su periodo duró solamente dos años. Las fuerzas económicas más poderosas del país (estancieros y el alto comercio) aspiraban a una organización política que garantizara la colocación de capital al extranjero, ya que en la segunda mitad del siglo XIX Europa extendió su predominio económico sobre todos los continentes haciendo surgir una economía mundial que la tenía como centro. Ellauri tuvo resistencia, ya que esas fuerzas vivas consideraban que solo el Estado podía crear las condiciones favorables para su desarrollo.

De esta manera, en enero de 1875 se produjo el motín militar que alejó a Ellauri y dio el poder a Pedro Varela. El Ministro de Guerra era el coronel Lorenzo Latorre, quien fue el encargado de vencer la llamada Revolución Tricolor liderada por principistas que estaban exiliados.

Las clases altas urbanas y rurales se hastiaron de las crisis políticas y económicas que conmovieron los primeros años de la década del 70. Su crecimiento era imposible en esas condiciones y fueron a buscar un gobierno militar. El ejército apareció en el escenario político y vino a reemplazar a los caudillos y doctores. En consecuencia los grupos de presión como los estancieros, el alto comercio y el ejército, así como potencias extranjeras –Gran Bretaña-, apoyaron el ascenso del coronel Lorenzo Latorre al poder en 1876 ejerciendo la presidencia como “gobernador provisorio”. Así comenzaba una nueva etapa de la historia del Uruguay denominada Militarismo. Con el Militarismo Uruguay comenzó un proceso de transformaciones y modernización de su economía para insertarse fluidamente en el sistema capitalista mundial. También supuso un Estado eficiente y fuerte.

El Militarismo difiere de los gobiernos anteriores, valiéndose de medios técnicos y modernos para imponer su autoridad en todo el país. En síntesis, la primera etapa del  Militarismo protagonizada por Latorre tuvo logros como: defensa de la propiedad privada de la tierra y del ganado, establecimiento del patrón oro, reanudación del pago de la deuda pública, modernización del Estado, reforma escolar. El país empezó a recorrer el camino de una economía moderna al alto precio del desconocimiento de las normas jurídicas y los derechos civiles.

Frente al desorden financiero estatal, crecieron la producción y la exportación; frente a la arbitrariedad del gobernante, mejoró la administración, avanzó la secularización y se afirmó la conciencia de la nacionalidad uruguaya. El país se encaminaba a convertirse en nación.

Primer club de remeros: el Montevideo Rowing Club (1874)

El proceso económico uruguayo del último cuarto del siglo XIX implicó la fuerte presencia británica en la región. En el Uruguay, la práctica de los deportes modernos surgió naturalmente en la colectividad británica. El deporte llegó a Montevideo en el siglo XIX, cuando los ingleses lo introdujeron en el Río de la Plata y en otras partes del mundo, de la mano del ferrocarril, intercambios con la marinería y de la acción de los colegios ingleses.

Como señala J. C. Luzuriaga (2009), su difusión en la sociedad uruguaya siguió la misma lógica que en Gran Bretaña y en otros países, pasando de las elites al resto de la población en forma de cascada. En este sentido, como indican J. Buzzetti y E. Gutiérrez Cortinas (1965) “en ese clima general, también se extendió el deporte. Y por primera vez se empieza a agitar el ambiente tras la fundación de un club deportivo de regatas, que tomó concreción dentro de la colectividad inglesa” (p. 40).

El 8 de mayo de 1874 surgió una nueva institución deportiva de residentes británicos, un club de remeros: el Montevideo Rowing Club. El contacto portuario y naviero inspiró a un grupo de residentes ingleses a la organización del club. Muchos de sus fundadores estaban ligados directamente a las tareas del puerto: eran dueños de barracas de importación (como Wilson o Elliot); o de muelles particulares (como los de Victoria y Colón); o los industriales relacionados con la reparación de barcos y varaderos (como Federico Humphereys); o simplemente residentes ingleses que ya habían practicado remo en el Támesis (como Fraser o Ludeke). Todos ellos dieron el impulso para fundar un club de remo, ya que los criollos se mostraban indiferentes a deportes como este, aún siendo un país con extensas costas marítimas y fluviales.

La fuerte presencia inglesa en el Río de la Plata supuso la implantación de los deportes modernos. Antes de la fundación del Montevideo Rowing Club, en Argentina el remo comenzó hacia 1857-1858 en la Recoleta. En 1873 apareció el Buenos Aires Rowing Club y tuvo su réplica en Montevideo.

El Montevideo Rowing Club fue fundado en el Hotel Central de Montevideo y según sus actas se reunió la Asamblea Preliminar constitutiva el 8 de mayo de 1874. Sus fundadores fueron 48 y se nombró como presidente de esa asamblea a Samuel Alejandro Lafone Quevedo, quien era hijo del inglés Samuel Fischer Lafone, importante dueño de saladeros de Montevideo. Samuel A. Lafone, al igual que su padre era una figura importante en las esferas económicas y sociales en el Río de la Plata, ligado estrechamente al capital británico. A su vez, Samuel A. Lafone tenía trayectoria en la práctica del remo, en 1870 tripuló el “Lala” que ganó la primera regata trascendente del remo argentino entre el Tigre y el muelle de Buenos Aires.

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Races organized by the Montevideo Rowing Club in Montevideo Bay, c. 1890. The Hotel Nacional, in the background, was one of the greatest schemes of the National Company of Credit and Public Works. Victim of the 1890 crisis, the building was never operational, and the French manager stayed some years in the empty hotel waiting for an inauguration that never happened. Imagen tomada de: https://imperialglobalexeter.files.wordpress.com/2015/10/montevideo-1890s.jpg?w=760&h=557

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El 27 de mayo de 1874 se celebró la primera Asamblea General para elegir a las autoridades. Se eligió ese día como primer Presidente Honorario a José Ellauri, entonces presidente de la república. Ese gesto tiene ciertas particularidades, porque desde 1871 estaban suspendidas las relaciones diplomáticas con Gran Bretaña; Londres era un acreedor muy exigente y Uruguay había interrumpido el pago de intereses a los acreedores británicos.

La primera Comisión Directiva presentaba la siguiente integración: Mayor John Munro, H. B. M. Cónsul (presidente); doctor Luis A. Fleury (vicepresidente); Arthur B. Boutell (capitán); Francis Chevallier-Boutell, E. T. Christian, H. G. Hicks, T. J. Netleship, F. Roberts, P. Whishaw, E. Turner, L. Grassie y A. M. Grant (vocales).

El 7 agosto se inauguró el primer local social que también sirvió de albergue de las embarcaciones. Esa sede fue a los fondos de la Barraca Elliot. De allí a la Barraca Fynn en 1875, en 1884 a la de Jackson. Volviendo en 1884 a la Fynn. En cuanto a la sede deportiva, hubo dificultades para ubicarla, pues conseguir un terreno al lado de la Bahía era difícil por la posible iniciación de las obras del puerto de Montevideo.  La solución fue ubicarla en alguna barraca particular, construida sobre el muelle, lo que daba fácil acceso a las embarcaciones, pero precario a los remeros.

Los primeros botes que se adquirieron eran usados, los cuales pasaron a albergarse en el primer local social con el cual contó el Club. Si bien la historia considera a Fraser como uno de los primeros remeros del Club, y que compitió internacionalmente con remeros argentinos; los primeros triunfos importantes aparecieron con Arthur B. Boutell,  primer capitán del club. Fue un remero destacado, dio al club los primeros triunfos en el año 1875, con su hermano Frank H. Boutell del Doubie Scull con timonel. Siguieron los triunfos internacionales de los hermanos Boutell, en 1875, 1876 (aquí integraron el Four con timonel) y en 1877. En aquella época, solo existían dos clubes de remo en el Río de la Plata. El Montevideo Rowing Club y el Buenos Aires Rowing Club.

El club adoptó los colores azul y negro, que fueron sugeridos por Francis Chevallier-Boutell, inspirado por los del London Rowing Club. Por otro lado, el club tiene la particularidad de crear su periódico, el “Eco del Rowing” que en sus comienzos era de forma manuscrita. Allí aparecían referencias a las campañas deportivas del club.

En suma, con el Montevideo Rowing Club nace un club que tendría una fundamental gravitación en toda la evolución de nuestro deporte.

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Referencias:

  • ARIAS, Carlos y REISCH, Matilde (2004). Movimiento clubista y desarrollo deportivo en el Uruguay. Revista NEXO, marzo 2004, Montevideo.
  • BUZZETTI, José y GUTIÉRREZ CORTINAS, Eduardo (1965). Historia del deporte en el Uruguay (1830-1900). Montevideo: Ed. De los autores.
  • GOMENSORO, Arnaldo (2015). Historia del Deporte, la Recreación y la Educación Física en Uruguay. Crónicas y relatos. Montevideo: IUACJ.
  • LUZURIAGA, Juan Carlos (2009). El football del novecientos. Orígenes y desarrollo del fútbol en el Uruguay (1875-1915). Montevideo: Santillana.
  • MORAES, María Inés (2016). El proceso económico. En: G. Caetano (Dir.) y A. Frega (Coord.), Revolución, Independencia y construcción del Estado (pp. 133-173). Montevideo: Planeta.
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A goumertização das faixas e o esvaziamento das lutas

14/07/2020

por Ricardo Pinto

Não assisto a jogos de futebol desde a Copa no Brasil. Era visível o que se colocava naquele momento. Desvios, exageros, má gestão foram alguns dos pontos que, entre tantos, pautaram a minha escolha. Foi assim e seguirá desse modo até que eu me sinta confortável entregando meu tempo e dinheiro para instituições (CBF e FIFA) que representam todos esses valores deturpados que listei. Afinal, entre o meu amor pelo futebol e os meus limites éticos, fiquei com o segundo.

Mas essa história não para por aí. Desde os meus primeiros anos de pesquisa sobre o racismo no esporte, em especial no futebol, sou crítico aos limites do que insistem em chamar de luta contra o racismo no futebol e os seus apetrechos gourmetizados de pura exibição. Nesse contexto, ontem, tive prova irrefutável desses limites e, também, da alta dose de cinismo que as instituições esportivas, através dos seus discursos, utilizam para seguirem, todos, o mesmo caminho. Vejamos:

Assisti durante uma reportagem jornalística que Fluminense e Botafogo entraram em campo com uma FAIXA pedindo respeito a  história dos seus clubes. Não sabendo do que se tratava, fui pesquisar e descobri que era um posicionamento em que ambos os clubes tomaram contra o retorno do campeonato carioca. Sobre isso, acredito que não haveria outra posição se não essa. Amparados pela ciência, o bom senso e, sobretudo, por uma alta dose de solidariedade, não há sentido jogar futebol em tempos de pandemia em ascensão.

Porém, mais uma vez, a tal FAIXA estava lá, em campo, e exigia, dessa vez, respeito a história do clube. Assim como no combate ao racismo, a faixa passou a representar elemento de luta para os clubes de futebol. Ainda que seja visível os limites de alcance e, sobretudo, da sua efetividade no conflito, ela se tornou um elemento estético, e só isso, nas “lutas” que os clubes assumem.

Em geral, e o que mais me incomoda, é que essa luta se esgota na faixa, como no caso do racismo, ou, em tempos de espetacularização do mundo, ela passa a dizer muito mais sobre o desejamos parecer do que o que realmente somos ou fazemos. Ou seja, pareço um rebelde, mais sigo passos idênticos daqueles que desafio. Afinal, apesar da faixa e todo o discurso anti-carioca, a bola rolou e tudo o que isso representa em tempos tão sombrios estava lá.

Verifiquei, durante a pesquisa, que havia uma nota conjunta dos dois clubes, datada de sábado, em que ambos mantinham a posição contrária a realização da partida. Fui ler. E, como num cardápio de restaurante chique, me perguntei sobre o que efetivamente estava ali, para além de um exercício retórico de autoelogio e esforço em criar uma representação positiva ainda que, ao fim e ao cabo, fossem seguir jogando (obrigados ou não). Enfim, faixas pra cá, notas para lá, mas a partida seria/foi realizada.

A nota, para além dos seus limites históricos e analíticos, aparece como uma manifestação bipolar frente ao fato concreto. Sim, isso mesmo, afinal, os mesmos clubes que escrevem que “Todos os brasileiros sabem que nossa construção como nação passa pelo futebol, que tem uma responsabilidade social enorme por ser forte fator de influência sobre atitudes e comportamentos da população. O futebol, em sua essência, traz o espírito de solidariedade, a empatia e o respeito ao adversário, sem o qual não há jogo possível. Sem o qual não há ludicidade e, a partir daí, a vida perde um pouco de seu sentido.” são os mesmo que foram a campo e realizaram a partida.

Pior, segue a nota: “Honrados em mantermos nossa posição e nossos princípios é que protestamos contra o que se está vendo do atual cenário do futebol do Rio de Janeiro. Uma cena triste cujo pano de fundo é este momento tão difícil da história nacional, quando vidas estão sendo ceifadas não apenas pela pandemia, mas também a golpes de insensatez e de falta de empatia. O que todos estão assistindo em primeiro plano nesse show de horrores é o espetáculo de desmandos e desrespeito com que os clubes e seus torcedores vêm sendo tratados.” Ou seja, mesmo sabedores de tudo isso, os clubes entraram em campo e jogaram a partida de futebol.

A nota segue apresentando pontos em que os clubes mostram a sua luta, injustiças de que foram alvos e, principalmente, o constrangimento de se verem “obrigados” a retomar o campeonato carioca. Apesar de já terem sofrido com tudo o que foi descrito, os clubes realizaram a partida de futebol. No fim, o que fica é que o show não pode parar.

Enfim, ao fim e ao cabo, nada mudou. O alcance efetivo de tudo isso, faixa, nota e todas as duras críticas jogadas ao vento, já era previsível. Na verdade, quando falamos de futebol, salvo o que ocorre dentro das quatro linhas (às vezes, nem isso), me parece que sempre sabemos o final da história. A contar por tudo que já foi produzido sobre o esporte, aprendemos, nós historiadores, que a história é, sempre, uma disputa de discurso constante numa guerra sem fim por um lugar de destaque na história do esporte. Talvez, quem sabe, assim como a carta de 1923, que nos apresentou a luta mais rápida e limitada contra o racismo da história, Botafogo e Fluminense, daqui a um século, recuperem essa carta e bradem que lutaram bravamente contra uma pandemia. Do mesmo modo, torcedores que tanto apoiaram e se orgulharam dessa “tal” luta, mas que, ao final, comemoram o título.

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À procura do Prado Guarany

06/06/2020

Por Victor Andrade de Melo

Este post é um resumo de um artigo que escrevi com o amigo André Chevitarese. Utilizamos como metodologia a “arqueologia da paisagem”. Nosso intuito era descobrir onde se encontrava o Prado Guarany, um hipódromo de características mais populares que houve no Rio de Janeiro do século XIX. A versão completa do artigo está aqui: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742020000100402&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

No Rio de Janeiro, os hipódromos foram as primeiras instalações esportivas. Em 1849, quando foi instituída a primeva agremiação esportiva da cidade, o Club de Corridas, construiu-se o Prado Fluminense, localizado entre os bairros de São Francisco Xavier e Benfica. Posteriormente, foram construídos novos hipódromos, todos nos anos 1880: o Prado Vila Isabel (ocupado pelo Club de Corridas de Vila Isabel e pelo Derby Fluminense), o Prado Itamaraty (do Derby Club), os do Turf Club e do Hipódromo Nacional. Além desses, houve um mais modesto, o Prado Guarany, instalado na Praia Formosa/Vila Guarany, uma pequena região da cidade espremida entre o Santo Cristo e São Cristóvão.

Os mapas da cidade registraram somente a existência de quatro prados. Em vermelho, está marcado o do Jockey Club, onde hoje se encontra o conjunto habitacional Bairro Carioca, antes a Cidade Light, bem próximo do Hospital Central do Exército. Em azul, vê-se o hipódromo do Turf Club; atualmente há no local a Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Em laranja, o prado do Derby Club, exatamente onde está construído o Maracanã. Em verde, o Hipódromo Nacional; hodiernamente, uma parte é ocupada pela Praça Afonso Pena. Em lilás, identifica-se a área onde poderia se encontrar o Prado Guarany. Os periódicos faziam referência à Praia Formosa e Vila Guarany, mas não definiam sua localização exata.

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GREINER, Ulrik. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e dos Subúrbios, 190?

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A Vila Guarany deixou poucos registros na cartografia. Somente encontramos referência ao bairro em dois mapas consultados: um do início dos anos 1900 (figura 12) e outro de 1910 (figura 13), esse último já com o novo porto e o Canal do Mangue construídos. Em vermelho, se vê a identificação da região. Em azul, para fins de localização, se observa o Campo de Santana.

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GREINER, Ulrik. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e dos Subúrbios, 1900.

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MATOS, Francisco Jaguaribe Gomes de. Planta da Cidade do Rio de Janeiro: obedecendo à divisão da cidade em Distritos Municipais, 1910.

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Onde nessa região ficava o Prado Guarany? Para descobrir, cruzamos informações obtidas em periódicos, iconografias (obras de arte e fotografias), mapas e trabalhos de campo – visitas etnográficas realizadas para identificar permanências no espaço. Tendo em conta esses dados, vejamos o mapa a seguir.

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MASCHEK, E. de. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e de Uma Parte dos Subúrbios. [entre 1885 e 1905].

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Vejamos as identificações. Em lilás, trata-se da área onde havia o Matadouro. Em azul escuro, as ruas Mello e Souza e Francisco Eugênio. Em amarelo, os cinco morros das redondezas. Em rosa, o atual Campo de São Cristóvão (na ocasião Praça Pedro I). As linhas verdes demarcam os rios Joana e Maracanã. O círculo laranja é a Estação Praia Formosa. Em azul claro, o Canal do Mangue. A seta laranja marca a direção da Quinta da Boavista. Os círculos verdes marcam a antiga Ponte dos Marinheiros, a passagem férrea e a ligação da Praia Formosa com a Francisco Eugênio.

Assim sendo, em vermelho, temos os quatro possíveis locais do Prado Guarany. Num mapa posterior, vemos a região numa conformação mais próxima da atual. A possível área do hipódromo está marcada em vermelho. Ainda não é possível ser peremptório na definição da sua localização.

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GREINER, Ulrik. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e Subúrbios [190-?]

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Em mapas de 1910, 1913 e da década de 1920, permanece a imprecisão. Vamos apresentar apenas o último, no qual se exibe um cenário bem próximo do atual, em que já está construída a Estação Leopoldina (identificada como Estação Praia Formosa). Os possíveis locais do Prado estão marcados em vermelho.

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Rio de Janeiro: Parte Central da Cidade. [192-]

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Na imagem a seguir, captada a partir do Google View, simulamos o que haveria nos dias atuais nos possíveis locais do antigo hipódromo.

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Aspecto atual dos possíveis locais do antigo Prado Guarany, Google View, 2018

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Com essas imagens e informações em mãos, fizemos uma nova visita etnográfica. A intenção era ver, no terreno, como poderiam nos conceder mais de precisão na busca pela localização do hipódromo. Caminhamos pelos quarteirões da antiga Vila Guarany e áreas possíveis do Prado, fazendo simulações de medidas e composições de espaço.

Com essa visita, foi possível rever o que pensávamos ao acessar somente a cartografia e as informações de periódicos. A imagem a seguir, apresenta de forma mais consolidada o que pensamos ser a localização do Prado Guarany. Trata-se de um modelo especulativo a ser checado em fases futuras do projeto.

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MASCHEK, E. de. Planta da Cidade do Rio de Janeiro e de Uma Parte dos Subúrbios [entre 1885 e 1905].

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As linhas vermelhas demarcam uma possível delimitação do espaço do Prado, tendo em conta as medidas apresentadas nos periódicos e o que conseguimos checar nos trabalhos de campo. Sugerimos em azul as possíveis entradas do hipódromo. Em verde, identificamos possíveis locais das arquibancadas. Em lilás, o possível espaço da pista e do lago central. Perceba-se, então, que o hipódromo teria sido instalado na grande área vazia onde havia o Matadouro. Na imagem a seguir, captada do Google View, vemos o que hoje se encontra na área.

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Como podemos ver, o hipódromo provavelmente se encontrava nas atuais instalações da Estação Barão de Mauá/Leopoldina. Mesmo que tenhamos que considerar que a área sofreu várias obras no decorrer do tempo, a existência de áreas livres nos parece estimulante para dar sequência à investigação.

A arqueologia da paisagem que nos propusemos a realizar, portanto, parece ter logrado êxito, apresentando-nos possíveis locais para a promoção de prospecções arqueológicas cujo intuito será buscar vestígios materiais que nos ajudem a definir com maior precisão o local do Prado, bem como vislumbrar algo dos costumes esportivos daquele tempo.

A preparação das escavações já está em curso, contando também com a participação do arqueólogo Leonardo Amatuzzi. Certamente, os dados advindos dessas prospecções arqueológicas serão tema para outro estudo.

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“A pau e à espora”: rinhas de galo em Porto Alegre na virada dos oitocentos

02/06/2020

Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

Uma das marcas históricas da formação do Rio Grande do Sul, e por sua vez, da sua capital, Porto Alegre, é a relação estreita entre os homens e os animais. Esta intimidade, que foi construída a partir de um cotidiano muito ligado as coisas do campo, onde o sul rio-grandense esteve muito próximo aos animais, tanto no seu trabalho, na criação, no transporte, ou ainda nas constantes guerras que tiveram o sul do Brasil como palco, consolidaram esta união na própria personalidade deste povo.

Independentemente das inúmeras influências culturais que aportaram pela cidade de Porto Alegre no decorrer dos séculos XIX e XX, esta relação próxima aos animais foi uma característica marcante dos brasileiros de grande parte do Rio Grande do Sul. Dado esta peculiaridade, os esportes em que os animais foram parte integrante nas disputas obtiveram uma apreciação muito grande entre os gaúchos. Também é possível afirmar que características particulares no exercício destas modalidades em Porto Alegre se firmaram em relação ao resto do País. Enfim, os esportes se adaptaram às realidades locais e se moldaram “à gaúcha”.

No caso de Porto Alegre, os ajustes entre o rural e o urbano, entre o tradicional e o moderno, ajudam a entender algumas práticas populares na capital sulina. Articuladas com importantes temas do momento, indícios da gestação de uma sociedade do consumo e espetáculo, atividades como as emocionantes touradas gaúchas ou o “civilizado” turfe, nos permitem perceber como os diálogos com as ideias de modernidade foram originais, eivados de peculiaridades, solicitando-nos um olhar atento e disposto a captar a sua complexidade.

No entanto, nem todas as diversões que se apoiavam nos animais como protagonistas assumiam esse status glamoroso. Essa questão, no entanto, não significa que não gozavam de grande predileção entre os porto-alegrenses ou que não estivessem embebidos de sofisticação. É o caso das rinhas de galo e frango, que tiveram uma grande difusão na Porto Alegre do século XIX e início do XX. É latente a indicação de que não existe uma relação direta do tamanho dos animais com a sua apreciação. Bem menores que os touros ou os cavalos, as pelejas promovidas na cidade entre as aves, também atraiam um grande público. Os locais eram diversos e aptos a esta prática, os rinhadeiros.

Acontece que o caráter popular e de certa forma mais acessível aos desportistas que quisessem apostar ou participar enquanto criadores não pode ser subestimado. Esta prática também não pode ser entendida apenas como uma ação amadora ou doméstica. Assim como os cavalos do turfe que tinham a sua refinação racial celebrada pelos criadores, com matrizes importadas da Europa que objetivavam um maior desempenho nos hipódromos, também se buscava o requinte biológico das aves através da importação de reprodutores. A criação era feita em “coudelarias” especializadas nestes animais. O que, aparentemente, pode ser considerado uma prática rural e amadora era tratada com muita seriedade pelos desportistas porto-alegrenses.

Desde a segunda metade do século XIX temos notícias de rinhadeiros funcionando no centro de Porto Alegre com uma proposta já empresarial. É o caso das rinhas de galo promovidas em 1877 por Fulvio Piacenza & Comp. em plena Rua dos Andradas, principal via da cidade. Para fazer parte da diversão era necessário se associar antecipadamente, para então, ter a entrada autorizada no estabelecimento. Dentre as várias “arenas” porto-alegrenses, foram alvo de repetidas crônicas pela imprensa da época o rinhadeiro São João, localizado no Areal da Baroneza, o São Manoel, no bairro Moinhos de Vento, mas, principalmente, um estabelecimento público denominado Sport-Club que estava instalado na Rua General Lima e Silva, atual bairro Cidade Baixa. Era o que recebia os maiores públicos.

As disputas nestes locais eram diversas, com torneiros de galos, frangos, modalidade “a pau”, “à espora”, que faziam a alegria do público que costumava lotar os ringues, principalmente aos domingos. Por vezes, “gordos churrascos” acompanhavam as disputas.

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Jornal do Commércio, 07/12/1907.

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O sucesso desta modalidade esportiva atraía representantes das mais variadas classes sociais, o que, para muitos, era um desconforto esta convivência. Para os incomodados, a expectativa era que os locais se preparassem cada vez mais para receber os sportman que se constrangiam em acotovelar-se com indivíduos de classes “inferiores”. Isso seria possível com os clubes privativos, uma solicitação de parte do público amante das brigas de galo que requeria a estratificação dos aficionados.

Seguindo a mesma tendência dos outros esportes, a estrutura dos rinhadeiros foi se desenvolvendo, proporcionando mais conforto e se tornando mais atrativa àqueles que ali gostariam de se divertir e fazer suas apostas. Exemplos são o novo chalé construído em 1905 na Praça São João, com amplos salões destinados a rinha, assim como em 1909, quando se inaugurou um inédito rinhadeiro cujos sócios eram os amadores e veteranos do antigo Sport-Club. Este se denominou Rinhadeiro Popular, a Rua Três de Novembro, atual Desembargador André da Rocha, no centro da cidade. A nova estrutura, realmente, trouxe um inédito suporte ao entretenimento, com buffet, bancadas, novos tambores, gaiolas para a guarda dos animais enquanto esperam o momento da sua luta e um novo sistema de iluminação elétrica. Um inédito aparato que objetivava atrair cada vez mais os amantes do esporte em um processo de inserção das rinhas em uma crescente indústria do entretenimento.

Acontece que os esportes que envolvem animais e, principalmente, lutas entre eles, estavam seguidamente sofrendo ofensivas contrárias a sua prática, assim como as touradas e as apostas nos cavalos. As justificativas se baseavam em ideias moralizadoras que contrariavam estas ações. Com os rinhadeiros não foi diferente. No entanto, os defensores das rinhas intervinham, argumentando que todas as práticas esportivas tinham um fundo de “ignorância” e “ridículo”. A comparação se dava diretamente aos outros esportes com animais, tão ou mais populares que as rinhas, como as corridas de cavalo e as touradas. As chibatas e pontas de ferro nos cavalos, a morte de um touro com o coração transposto por uma lâmina de espada seriam exemplos de como as rinhas não eram em nada superiores a barbárie e ao que já estava sendo praticado e tido como virtuoso. Por outro lado, diziam seus defensores: nas rinhas estava a melhor sociedade!

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Jogo da pelota: disputas dentro e fora da cancha

18/04/2020

Por Flávia da Cruz Santos

Foi em fevereiro de 1892 que os paulistanos conheceram o esporte da péla ou jogo da pelota, como também era conhecida a prática.  O primeiro frontão da cidade começou a funcionar no domingo, 7 de fevereiro[1]. Era o Frontão Paulista, em torno do qual muitas polêmicas se deram. O jogo da péla mobilizou grande número de expectadores e causou frenesi na cidade de São Paulo. Uma das razões para tal, era o fato de tal prática envolver apostas em dinheiro.

Apresentado aos paulistanos como um esporte higiênico e emocionante, desde sua primeira partida, o jogo da péla movimentou dinheiro na cidade, e por isso mesmo, foi adorado por muitos e odiado por outros. O dinheiro envolvido no jogo fez não só com que o seu público fosse numeroso, como fez também com que os frontões movimentassem o mercado financeiro com suas ações, e fez com que seus praticantes se profissionalizassem.

Os jogadores de pelota eram contratados pelos clubes e recebiam salários. Eram chamados de pelotaris.  Mas havia também os chamados amadores da pelota, que não eram profissionais, mas também jogavam.

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Pelotaris do Frontão Boa Vista. Revista da Semana, 30 de setembro de 1922.

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Desde sua primeira aparição nos jornais, tal jogo figurou nas colunas esportivas. Foi, desde sempre, apresentado como um esporte e como um divertimento, ainda que tal entendimento não fosse pacífico. Os frontões eram anunciados como casas de diversão.

O jogo da pelota na capital paulista foi uma mistura de esporte com espetáculo de massa, com show business. O que é muito comum no cenário esportivo dos dias de hoje, mas que vivia seus momentos iniciais no final do século XIX. Isso não quer dizer que o jogo da péla fosse uma unanimidade. Houve aqueles que o reprovassem, e que até mesmo quisessem a sua proibição. Durante os anos de 1894 e 1895 os jornais Correio Paulistano e O Estado de São Paulo travaram uma discussão em torno de sua prática. O primeiro defendia o jogo, enquanto o segundo não poupava esforços e argumentos contrários a ele. Mais tarde o mesmo se deu entre os jornais Correio Paulistano e Correio de S. Paulo, como demonstram Samuel Neto e Edivaldo Góis e em recente trabalho (2019)[2].

Tentava-se comprovar a ilegalidade do jogo da pelota, com o argumento de que o mesmo era um jogo de azar, um vício. Mas os contra-argumentos não tardavam a ser apresentados. Advogados e até mesmo um visconde argumentavam que o jogo da pelota não dependia unicamente da sorte ou azar, e que por isso não podia ser proibido.

Além disso, inqueriam: porque há tanto incomodo com as apostas nos frontões, e o mesmo não acontece com as apostas no Jóquei Clube e no Velódromo Paulista?[3] Questões como essa permearam os debates até 1898.

A Câmara Municipal e o poder judiciário também participaram desse embate. Enquanto a Câmara mandava fechar os frontões, os juízes concediam a eles o direito de continuar funcionando. As controvérsias em torno da questão eram tamanhas, que um procurador de justiça resolveu levar o caso ao presidente do estado – cargo correspondente ao do atual governador de estado –, em janeiro de 1895.

Em meio a ordenamentos legais que determinavam o fechamento total ou apenas em dias uteis dos frontões, e as revogações desses ordenamentos, o jogo da pelota foi se consolidando na capital paulista. A partir de meados de 1896, esse tipo de questão foi perdendo espaço para os constantes jogos de pelota que, a essa altura, aconteciam no Frontão Paulista e no Clube Atlético da Pelota. Mais tarde, pelos idos dos anos 1930, essas questões reaparecem com alguma força.

Houve pelos menos quatro canchas em São Paulo até 1920: a do Frontão Boa Vista, que foi a mais famosa e que funcionou por mais tempo, a do Clube Atlético da Pelota, a do Frontão Paulista e a do Grêmio da Péla.

O Frontão Boa Vista, inaugurado em 10 de fevereiro de 1898, era uma casa de diversões, como diziam seus próprios anúncios. Possuía a cancha, em volta da qual havia arquibancadas e 43 camarotes. Além da cancha, possuía um bar que durante os intervalos das partidas de pelota ficava repleto de pessoas, como mostra a imagem abaixo. Possuía também um terraço, extensão do bar, de onde se tinha uma boa vista do Vale do Tamanduateí. As janelas da enfermaria e dos vestiários dos pelotaris, davam para a Várzea do Carmo.

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Bar do Frontão Boa Vista, Revista da Semana, 30 de setembro de 1922.

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As brigas entres os espectadores e apostadores da pelota, muito constantes no percurso de tal prática na capital do país, só estiveram mais marcadamente presentes em São Paulo em 1899. O que fez com que a presença da polícia fosse constante nos frontões paulistanos em tal ano.

Houve, no entanto, notícias de brigas esporádicas em outros momentos, como as ocorridas no Frontão Paulista em 11 de abril de 1897, devido à insatisfação do público com os resultados dos jogos[4], e a briga entre dois pelotaris, que foram presos, no Frontão Boa Vista em 13 de dezembro de 1907[5].

Não houve ligas ou federações do jogo da pelota, que organizassem os clubes de pelotaris. Os torneios e campeonatos de pela eram organizados pelos clubes e associações, sem qualquer regularidade.

Uma estratégia que de tempos em tempos foi adotada pelos frontões – e também por outros divertimentos –, para atribuir valor à sua imagem, foi a realização de eventos em benefício de instituições ou causas sociais.  O Frontão Paulista, o Frontão Boa Vista, o Club Atlético da Pelota, e o Clube da Péla destinaram os lucros de alguns de seus eventos à hospitais, orfanatos e sanatórios[6]. Essa prática esteve presente, pelo menos, entre os anos de 1895 e 1905.

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Várzea do Carmo com Frontão Boa Vista ao fundo, Cartão Postal, s/d.

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Em 1920, o Frontão Paulista não mais existia. Foi fechado em 1907 devido a um incêndio[7]. Mas o Frontão Boa Vista continuava a receber grande público, que lotava suas dependências. Em tal ano, temos notícias da realização de 115 espetáculos de péla, todos no Frontão Boa Vista. É como se a cada 3 dias, aproximadamente, um espetáculo fosse realizado!

As mulheres, no entanto, só aparecem como pelotarias na segunda metade da década de 1930. Ainda assim, o governo municipal determinava que só as mulheres que possuíssem 21 anos ou mais de idade, podiam ser artistas da pelota. Pelotarias espanholas foram contratadas pela Empresa Paulista de Esportes da Péla, para abrilhantar os espetáculos do Frontão Boa Vista[8]. As mulheres praticavam a modalidade de jogo da pelota em que se usava raquete.

A presença feminina no frontão, como competidoras, era apresentada como a última novidade no jogo da péla[9]. Tal qual os jogos masculinos, os jogos femininos eram anunciados como emocionantes. Mas outros adjetivos, diferentes daqueles ligados à prática masculina, eram adicionados: elegância, agilidade, graça, emotividade[10].

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Pelotarias no Frontão Boa Vista, Correio Paulistano, 2 de agosto de 1936.

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[1] O Estado de S. Paulo, 7 fev. de 1892, p.1.

[2] NETO, Samuel Ribeiro dos Santos; GÓIS, Edivaldo. Boliches e discurso esportivo: a distinção e as disputas envolvendo os jogos de azar na São Paulo dos anos 1930. Recorde, Rio de Janeiro, v. 12, n. 2, p. 1-15, jul./dez. 2019.

[3] O Estado de S. Paulo, 1 ago. de 1898, p.2; O Estado de S. Paulo, 8 ago. de 1898, p.4.

[4] O Estado de S. Paulo, 12 abr. 1897, p.2.

[5] O Estado de S. Paulo, 13 dez. 1907, p.3.

[6] O Estado de S. Paulo, 5 mar. 1895, p.1; O Estado de S. Paulo, 24 out. de 1897, p. 2; O Estado de S. Paulo, 19 mai. 1898, p.3; O Estado de S. Paulo, 22 out. 1898, p. 2; O Estado de S. Paulo, 26 mar. de 1900, p. 2; O Estado de S. Paulo, 20 jul. de 1901, p. 2; O Estado de S. Paulo, 20 set. 1902, p. 2; O Estado de S. Paulo, 19 out.  1902, p. 3; O Estado de S. Paulo, 24 fev. 1905, p. 3; O Estado de S. Paulo, 2 dez. 1905, p.2.

[7] O Estado de S. Paulo, 17 jan. 1907, p. 2.

[8] Correio Paulistano, 2 ago. 1936, p. 25.

[9] Correio Paulistano, 18 jun. 1936, p. 9.

[10] Correio Paulistano, 19 jun. 1936, p. 6.

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