UM HIPÓDROMO BEM LONGE: MAIS ALGUMAS PALAVRAS SOBRE O CLUBE DE CORRIDAS SANTA CRUZ

02/08/2019

Por Victor Andrade de Melo

O assunto já foi neste blog abordado pelo amigo e irmão Nei. Por o considerar fascinante, e por ter recentemente concluído uma pesquisa sobre o tema, resolvi apresentar algo mais sobre o Clube de Corridas de Santa Cruz.

Abaixo podemos ver um mapa com todos hipódromos do Rio de Janeiro, à exceção do de Santa Cruz. Perceba-se que todos se encontravam muito próximos, na área de São Francisco Xavier, Maracanã, Vila Isabel, Tijuca e São Cristóvão.

.

Planta do Rio de Janeiro, 1900.
<http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart451453/cart451453.jpg&gt;
Em azul, o Jockey Club. Em cinza, a região onde se encontrava o clube de Vila Isabel. Em verde, o Turf Club. Em vermelho, o Derby Club. Em lilás, o Hipódromo Nacional. Em laranja, a região onde se encontrava o Prado Guarani. Em amarelo, a Quinta da Boa Vista.

.

Para que tenhamos uma ideia da distância do Clube de Santa Cruz, olhemos a imagem abaixo. Isso trouxe grandes dificuldades para a sua manutenção, especialmente no que tange ao transporte de público e de animais, problema atenuado, em dias de páreos, com a oferta de trens extras que saíam da Central do Brasil.

.

Para que se tenha uma ideia da distância, em vermelho vemos a área onde se encontravam o Jockey e o Derby e em azul o local do Club de Corridas Santa Cruz
Mapa do Distrito Federal/1911
<http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart177671/cart177671.jpg&gt;

.

O Clube de Santa Cruz começou a funcionar em 1912, contando com uma diretoria formada por importantes personagens do bairro – dirigentes de empresas públicas e privadas ligadas à agropecuária, comerciantes, profissionais liberais.

O primeiro presidente foi o médico Adelino da Silva Pinto, diretor do Matadouro, onde trabalhou por mais de uma década. Como vice-presidente, assumiu o suíço naturalizado Ernesto Durisch, coronel da Guarda Nacional, fundador da Companhia Agrícola e Pastoril Santa Cruz (dedicada ao cultivo do arroz e à criação de gado), proprietário de muitos terras na região, um dos maiores criadores de cavalo do subúrbio, homem de grande poder.

Entre outros dirigentes, como secretário assumiu Victor Villon, sócio da firma Leal & Villon, estabelecida no bairro, dedicada ao comércio de vinagres, xaropes e licores. O diretor do prado era Antonio de Moura Costa, durante anos funcionário da Fazenda Santa Cruz, onde atuou como cobrador e superintendente. O comerciante de carnes Francisco Martins Costa foi eleito diretor de corridas. Como responsável pelo Stud Book atuava Olympio dos Santos Pimentel, veterinário que possuía grande envolvimento com o Tiro de Santa Cruz.

.

O Século, 21 jan. 1915, p. 2

.

Na temporada de 1913, para atrair mais público, a diretoria executou uma série de mudanças, sendo a mais importante a ampliação e reforma da pista e da arquibancada, bem como a construção de uma estrutura para receber os animais que viriam de outras regiões (novas cocheiras e adoção de procedimentos para bem acolher os cavalos), de forma que não precisassem mudar de local de treinamento, chegando e voltando no mesmo dia das provas.

Além disso, as inscrições dos competidores (cavalos e jóqueis eram inscritos pelas coudelarias, empresas de criação) passaram a ser feitas no estabelecimento de J. Garcia Seabra, um dos líderes do turfe fluminense desde o século XIX, dono de uma das mais importantes casas de apostas. Localizada no Centro, tornava mais fácil a participação dos interessados, bem como a divulgação dos eventos. Era usual que por lá os adeptos procurassem informações sobre os páreos.

.

O Imparcial, 21 jan. 1913, p. 7

.

Ainda assim, enfrentou muitos problemas a agremiação, boicote de proprietários e jóqueis, o que resultou no adiamento da inauguração de sua nova fase, ao fim realizada em março de 1913.

.

O Imparcial, 23 mar. 1913, p. 12

.

A imprensa se dividiu ao avaliar a iniciativa. A maior parte, mesmo com algumas críticas, elogiou os esforços do Clube de Santa Cruz. Uma parte, contudo, não apreciou os arranjos apresentados. A capa de O Imparcial do dia 25 de março de 1913 dedicada à inauguração do novo hipódromo é um exemplo desses contrapontos.

.

.

As imagens são contrastantes. Na parte superior, se vê um acidente fatal que houve com uma égua. Uma visão não exatamente positiva. Na inferior, apresenta-se o hipódromo lotado, uma demonstração de sucesso. Essa dubiedade é bem uma expressão da trajetória do prado. De um lado, o bom afluxo de público era um sinal alvissareiro. De outro, não se verificou o glamour que cercava as atividades do Jockey e do Derby.

No decorrer da temporada, o clube de Santa Cruz seguiu enfrentando dificuldades para preparar um programa atrativo, tendo mesmo que adiar algumas corridas em função da ausência de inscrições. De toda forma, a diretoria seguiu aperfeiçoando o hipódromo e criando estratégias para atrair o público que, de fato, foi crescente. Nas corridas de 30 de março, se deu a maior arrecadação até então.

Sentia-se a diretoria estimulada por esses resultados e por um setor da imprensa que apresentava a agremiação como a grande novidade turfística da cidade. Para o cronista de O Imparcial, “vivem nossos turfmen entusiasmados com esse novo prado (…)”[1].

.

Hipódromo do Club de Corridas Santa Cruz.
Disponível em <https://pt-br.facebook.com/AntigoSantaCruz/posts/829177303805283&gt;

.

Nem todos do meio turfístico compartilhavam dessa opinião. Ao final da temporada, o clube não chegou a ser efetivamente aceito no seleto grupo das tradicionais agremiações da modalidade.

No decorrer de 1914 e 1915, foi se ampliando o afastamento da agremiação de Santa Cruz. As represálias e conflitos se tornam explícitas no início de 1915. O Club de Corridas marcou sua atividade inaugural no mesmo dia da entrega da Taça Seabra, uma das ocasiões mais festejadas do turfe fluminense (a mesma que, em 1913, a diretoria fez questão de se fazer representar). O cronista de O Paiz criticou tal postura por representar uma desconsideração com a imprensa, que não poderia se fazer presente por estar envolvida com o festejo[1]. Não deixou de ironizar ao sugerir que o prado de Santa Cruz se celebrizou “pela serie enorme de circunstâncias que obrigaram o público a se esquivar de frequentar o hipódromo”.

.

O Século, 9 jan. 1915, p. 4

.

O que ocorre é que o clube de Santa Cruz, a despeito das críticas, parece ter logrado conseguir popularidade no bairro e redondezas, se constituindo em uma valorizada opção de lazer local. Como sugere um cronista, “só se fala em corridas, o assunto é corridas entre os que vagueiam e fazem pontos nos cafés e botequins, e os que mourejam na luta pela vida; até nos lares, entre as famílias (…)”[1].

O cronista de O Paiz, mesmo com as já citadas antipatias, reconheceu a popularidade da agremiação. Na sessão inaugural de 1915, segundo seu olhar, estiverem presentes cerca de 2.500 pessoas das “mais distintas famílias desta capital e da zona rural”[2].

.

O Século, 18 jan. 1915, p. 2

.

A questão a responder era quanto tempo o Club de Corridas conseguiria superar as limitações estabelecidas para se manter ativo. Uma observação de um cronista pode funcionar como um prognóstico pelo não dito. No seu olhar, “ao pitoresco hipódromo de Santa Cruz nada lhe falta para que em pouco tempo progrida e possa competir com as nossas melhores sociedades”[1], tinha boa pista, era adequado o local do prado, a diretoria era honesta. Sem o dizer explicitamente, todavia, desconfiava que muitas seriam as dificuldades para que essa possibilidade se materializasse.

A despeito dos bons resultados, pareciam insuperáveis as dificuldades de compor um bom programa em função da carência de animais disponíveis. Para um cronista, a agremiação continuava tendo que enfrentar uma velha conhecida, a “má vontade de alguns proprietários”[2]. Outro criticou “as exigências dos proprietários, tratadores, jóqueis e uma infinidade de interessados que nos dias de inscrição” apresentam “indicações, lembrando conveniências, exigindo vantagens”[3].

.

Theatro e Sport, 19 jan. 1918, p. 16

.

Depois de encarar dificuldades em 1916 e 1917, em 1918, a agremiação ainda promoveu quatro provas, mas tinha logrado má fama. Fixara-se sobre o prado a ideia de que “amaxixou-se”, tornou-se uma bagunça.

.

Careta, 23 de março de 1918

.

Ainda foram promovidas alguns corridas somente com animais locais. Essas ocasiões pouca repercussão tiveram na imprensa. Depois de anos tentando manter ativo o Club de Corridas Santa Cruz, a diretoria se deu por vencida. Encerrava-se a trajetória da agremiação turfística suburbana[1].

.

Programa da última corrida do clube
Século, 29 mar. 1918, p. 10

.

Para mais informações:

Um hipódromo suburbano: a experiência do Club de Corridas Santa Cruz (Rio de Janeiro — 1912/1918)

Topoi (Rio J.), Rio de Janeiro, v. 20, n. 40, p. 157-184, jan./abr. 2019

http://www.scielo.br/pdf/topoi/v20n40/2237-101X-topoi-20-40-157.pdf

.

[1] Aparentemente, durante algum tempo no lugar do hipódromo construiu um estádio um pequeno clube de futebol da região, fundado em 1926, o Sportivo Santa Cruz, que chegou a se sagrar vitorioso no campeonato de 1930 da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres. Para mais informações, ver <http://cacellain.com.br/blog/?p=104023&gt;. Acesso em: 16 nov. 2017.

[1] O Paiz, 13 mar. 1914, p. 11.

[2] Theatro e Sport, 26 jan. 1918, p. 17.

[3] Theatro e Sport, 16 fev. 1918, p. 8.

[1] Jornal do Brasil, 9 jan. 1915, p. 3.

[2] O Paiz, 11 jan. 1915, p. 5.

[1] O Paiz, 4 jan. 1915, p. 5.

[1] O Imparcial, 29 mar. 1913, p. 6.

Anúncios

Francisco Pontes, o “Manolete” do Brasil

28/07/2019

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

Em recente visita a um importante centro de prática e estudos sobre as touradas no mundo, a cidade de Córdoba, região da Andaluzia, na Espanha, pude sentir de perto toda a fascinação que os espanhóis possuem pela prática, assim como toda a sua significação histórica e identitária. Os toureiros, assim como os touros, são admirados e elevados a celebridades carregadas de virtudes. Nesse contexto, se destaca um personagem no cenário local, Manuel Laureano Rodríguez Sánchez, mais conhecido como Manolete, nascido em Córdoba em 1917 e falecido em Linares, também na Espanha, em 1947, com apenas 30 anos de idade após um golpe fatal de um touro Miura.

Sua morte comoveu país inteiro, sendo que, na época, o próprio ditador Franco ordenou três dias de “luto nacional”, durante os quais hinos fúnebres eram ouvidos no rádio. Em 2007 foi realizado um filme sobre a sua vida, “Manolete – Sangue e Paixão”. Tanto no Museu Taurino de Córdoba, quanto pelas ruas estreitas da cidade histórica, são inúmeras as referências a este, que pode ser considerado o mais celebrado toureiro de todos os tempos.

.

Busto de Manolete – Museu Taurino de Córdoba

.

No entanto, não foi somente no velho continente que esta admiração pelos astros da tauromaquia pôde ser notada. Guardadas as devidas proporções e o cuidado com as anacronias, o Brasil também teve o seu astro dos redondéis, o português Francisco Pontes, um dos mais notáveis toureiros a atuar no Brasil. Seu destaque se deu em grande parte do território brasileiro onde comandava um circo de touros itinerante. No Rio de Janeiro, se tornara um dos grandes responsáveis pela popularização da tauromaquia no século XIX, por sua notável performance nas arenas, por sua capacidade de organizar espetáculos de qualidade e por seu constante envolvimento com a filantropia. Pontes era considerado o maior artista tauromáquico a visitar o Brasil.

.

Francisco Pontes
O Toureiro, 1877

.

Em Porto Alegre, Pontes tornou-se, também, renomado. Na temporada de 1881, chegou a receber de presente uma valsa, “Primavera”, composta por João Fernandes de Souza Lima, a ele oferecida como prova de simpatia e admiração pelos seus méritos artísticos.

O toureiro sempre procurava retribuir o carinho do público. Por exemplo, nas corridas de 11 de agosto de 1889, tanto os bilhetes de sol como os de sombra foram acompanhados de seu retrato, que poderia ser retirado pela pessoa que os comprar antes de entrar para a corrida. Explicitamente desejava agradecer o público e a imprensa da capital sulina, pela maneira generosa que o acolhera, revelada nos abundantes aplausos prodigalizados à sua companhia e na valiosa proteção que lhe foi dispensada.

.

Arena de touradas, Porto Alegre, 1909 (ver fundo da imagem)
Disponível em: https://lealevalerosa.blogspot.com/2010/05/circo-de-touros-em-porto-alegre.html

.

Ainda que em algumas ocasiões houvesse ressalvas à atuação da companhia de touros, em geral os toureiros, além de Pontes, receberam grande destaque, ressaltando-se sua destreza e coragem. Lourenço Delgado, por exemplo, tornou-se um ídolo por sua capacidade de realizar técnicas muito distintas e arrojadas. Geminiano de Carvalho ganhou fama por ser um “artista ginástico”. Isso tinha relação com o fato de que tinha força para suspender um touro, bem como porque aceitava desafios de luta romana, realizados em plena arena.

Nas corridas de Porto Alegre houve mulheres lidando com os touros. Em 1889, atuaram Petrona Nogueira, Maria Soares e, com muito destaque, a espanhola Maria Dolores, considerada “valente e corajosa heroína”. Ela chegou a enfrentar um touro com “aspas nuas”, além de encarar o quase onipresente Tigre Rochedo, afamado touro.

.

Arena de touradas, Porto Alegre, 1901 (ver fundo da imagem)
Disponível em: https://lealevalerosa.blogspot.com/2010/05/circo-de-touros-em-porto-alegre.html

.

Já na temporada de 1875, se apresentara Julia Rachel, casada com o afamado toureiro Miguel Tranzado, anunciada como a única neste difícil trabalho em toda a América do Sul. Suas proezas eram anunciadas com grande alarde, o mesmo que ocorreu com outra pioneira, que atuara nas corridas de 1881: Zulmira da Conceição.

Como era usual em outras cidades, também em Porto Alegre foram organizadas touradas com fins beneficentes, uma iniciativa que ajudava a aumentar o reconhecimento social para com a prática. No caso das corridas que promoveu Pontes, era também uma forma de expressar sua vinculação a certas causas políticas, como as abolicionistas, por exemplo.

No Rio de Janeiro, o toureiro se envolveu profundamente com a luta contra a escravidão. Na capital gaúcha, uma das ocasiões em que isso se manifestou foi em uma sessão dedicada à Sociedade Floresta Aurora, uma ativa agremiação de negros.

.

.

Em tudo o que pudemos verificar nas touradas do século XIX no Brasil, nenhum outro “artista” tauromaquico logrou tanto sucesso quanto Francisco Pontes. Manolete na Espanha ou Pontes no hemisfério sul, o fato é que este desafio entre o homem e o animal, entre a força e a habilidade, aflorava sentimentos extremos por onde fora praticado. Na capital do império ou na Província de São Pedro, o toureiro conquistou o seu público, sua fama e está marcado na História. Afinal, o Brasil também tem o seu Manolete.

.

Para mais informações:

* Tradição e modernidade: as touradas na Porto Alegre do século XIX
Cleber Eduardo Karls, Victor Andrade Melo
História Unisinos, v. 18, n. 2 (2014)
http://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/view/htu.2014.182.11


OS NEGROS VENCERAM EM SALVADOR

21/07/2019

Por Ricardo Pinto

Depois de tratar do racismo no futebol em Salvador, comum em todo o Brasil, resolvi apresentar a você, amigo leitor, um evento inusitado, porém, espetacular, que torna a capital baiana um objeto de pesquisa obrigatório para os estudos que tenham como tema a relação entre o futebol institucionalizado, a negritude e domínio do  cenário futebolístico.

Em Salvador, mais do que uma curiosidade, temos com o término do ano de 1911 e o inicio da temporada de 1912, um grande momento de ruptura. Na verdade, acreditamos que seja o ponto mais simbólico da história do futebol brasileiro quando tratamos da relação negro e futebol. Foi nesse período que os clubes da elite soteropolitana abandonaram a principal Liga da modalidade e, como consequência, clubes pequenos e médios assumiram de maneira absoluta o futebol “público” na capital baiana[1].

Em nenhuma outra capital, pelo menos não há qualquer pesquisa que aponte para esse cenário, clubes das elites, reconhecidos como os “grandes clubes”, tenham “desistido” do futebol, mesmo que temporariamente, por conta da ação de clubes pequenos e médios ou pela estrutura (precária) em que o futebol se encontrava. Vejamos alguns dados importantes:

Para o Campeonato baiano daquele ano estavam inscritos para a disputa os clubes Victoria, S. Salvador, Santos Dumont, Bahia e Rio Vermelho. Nada incomum até aquele momento. Entretanto, no decorrer do campeonato verificamos que os jogos já não mais despertavam interesse e dedicação dos jogadores dos “grandes” clubes e das suas torcidas. Tal fato, fica explicito em uma matéria do dia 9 de julho de 1912, que traz a seguinte critica:

O encontro dos velhos clubs S. Salvador e Victoria, anteontem, no ground do Rio Vermelho, não teve o interesse que devera despertar um match de campeonato.

Basta dizer que, às 3 horas, quando devia ser dado o kick de 2º teams, ainda não havia, em campo, metade de uma equipe.

E não sabemos como a Liga consente que se esperem jogadores até a hora em que eles queiram entrar no Field, quando as convenções do jogo tal não autorizam.[2]

Outra importante ação, em 1912, foi à iniciativa do Fluminense Foot-Ball Club em fundar na capital uma liga para, com definiu o periódico, os pequenos clubes S. Bento, Bahiano e White Foot-Ball Club. Essa medida, para além de demonstrar uma organização dos chamados pequenos clubes e o esforço na distinção, ela acaba gerando novas possibilidades para o cenário esportivo, no sentido de apresentar uma nova instituição para a filiação de clubes considerados pequenos, acabando com a exclusividade da Liga principal.

Em agosto de 1912, uma matéria deixa claro o cenário do futebol em Salvador. Vejamos:

Amanhã deveria ser jogado, no ground do Rio Vermelho, 0 11 match para o campeonato de 1912.

Não se realizará, porém, devido a ter o Sport Club Bahia, a quem cabia jogar contra o Rio Vermelho, abandonado a Liga Bahiana.

A retirada brusca do Bahia dessa associação vem bem confirmar, infelizmente, o pouco caso que fazem os nossos sportsmen de fatos como os que se deram no Rio Vermelho, num dos domingos últimos, e de que resultou a questão daquele club, um dos concorrentes aos campeonatos deste ano.

O fato, a que não quisemos aludir na ocasião, a fim de não ecoar fora da capital, depondo dos nossos hábitos, foi grave. Por isso, a atitude do Bahia, que se viu forçado a abandonar o campo, mereceu o apoio dos que ligam importância ao cultivo do sport entre nós.[3]

Verificamos mais uma vez o quanto os grandes clubes estavam desanimados com o formato do “novo futebol”. A atitude do Bahia seria apenas mais uma reação diante da aproximação entre clubes que expressavam valores simbólicos e reais de grupos sociais bem distantes do que representava o clube. Assim, acabaria se tornando compreensível a saída de um clube que expressava de forma clara e contundente, a sua aversão aos negros e ao que eles representavam.

Enquanto isso, a iniciativa do Fluminense em criar uma nova Liga foi tomando força com a chegada de mais clubes, como o Phebo, Olympic, Germânia e S. Bento. Para além da ruptura, vemos também nesse ano de 1912 o aparecimento com certa regularidade e destaque de partidas disputadas entre clubes de fora da “grande” Liga. Partidas como as disputadas entre os clubes União e Aurora, Veloz e Lutador e Herval e Democrata começam a aparecer em um cenário jornalístico que até então estava fechado aos pequenos clubes[4].

Em 1912, o Vitória e o São Salvador também deixaram a Liga Principal. Com isso, o cenário muda completamente, visto que o interesse por parte das elites pelo futebol tinha chegado ao seu ponto mais baixo. Afinal, o cenário que estava sendo forjado com a presença de clubes menores estava causando um desconforto irreversível e, acima de tudo, gerando uma evasão dos sócios dos clubes de elites para outro esporte.

Em geral, as elites passaram a buscar esportes em que as camadas populares não tivessem um acesso tão amplo e, principalmente, não causassem tanto desconforto. O que a princípio pode parecer o fim do futebol em Salvador, já que não havia mais interesse por parte da elite, fez gestar um novo futebol bem mais dinâmico e, sobretudo, democrático, haja vista os diversos campeonatos que passaram a ser disputados nas mais diversas localidades.

As elites, também, não abandonaram o futebol por completo, assim como acontecia em Porto Alegre, apenas passaram a jogar entre os iguais e em seus campos particulares dentro de seus clubes. Esse cenário de exclusividade chegou ao seu ápice com a criação, em 1916, do Bahiano de Tênis, clube que representou durante muito tempo o grande modelo para o cenário esportivo das elites soteropolitanas.

Enfim, a participação, cada vez maior, de clubes populares no futebol de Salvador acabou proporcionando uma vitória expressiva das camadas populares no cenário esportivo. Mesmo que temporariamente, já que a partir de 1919[5] as elites começam um movimento para retomar o poder no futebol, foram os populares que mantiveram vivo o futebol, naquele período, em Salvador.

Bibliografia

FERNANDES, Florestan. A integração do Negro na Sociedade de Classes: volume 1 e 2. São Paulo: Globo, 2008.

MAIA, Aroldo. Almanaque Esportivo da Bahia. Salvador: Helenicus. 1944.

SANTOS, Henrique Sena dos. Pugnas Renhidas: futebol, cultura e sociedade em Salvador, 1901–1924. Dissertação de Mestrado. Feira de Santana. UEFS – 2012.

[1] Os considerados “grandes clubes” passaram a praticar o futebol apenas dentro de suas instalações, ou seja, de forma privada, não mais nos campos de rua, que tinham o caráter público como principal marca.

[2] Jornal de Noticiais, Bahia, número 9.687. Terça-feira, 09 de julho de 1912, pág. 2.

[3] Jornal de Noticiais, Bahia, número 9.709. Sábado, 03 de agosto de 1912, pág. 2.

[4] Henrique Sena, em sua dissertação, diz que o Fluminense, em 1907, fundou uma Liga com o propósito de acomodar os clubes modestos, a Liga Nacional Sportiva. Para isso, o autor usou como fonte o trabalho de Aroldo Maia. No entanto, em nossas pesquisas, não foi achado nenhum indicio da criação dessa Liga no ano indicado. Somente em 1911, como descrito acima, é que os jornais tratam da fundação de uma Liga de futebol com esse propósito. Não estamos com isso apontando para uma falha no trabalho do estimado pesquisador, apenas, neste caso, estamos tomando o cuidado em apresentar o que as fontes primárias nos possibilitaram aferir.

[5] Para saber mais sobre o retorno das elites ao futebol em Salvador ver em: Dissertação de Mestrado de Henrique Sena.

.


Momentos iniciais do turfe em São Paulo

16/06/2019

Por Flávia da Cruz Santos
flacruz.santos@gmail.com

Foi no último quartel do século XIX que o turfe se organizou na capital paulista, ocupando lugar de destaque nas colunas esportivas dos jornais. Durante décadas ele foi mesmo o único esporte a figurar em tal coluna no jornal A Província de São Paulo (que com a República passou a se chamar O Estado de São Paulo).

O turfe, assim como a equitação, era uma prática das elites, a elas ligada e por elas valorizada. As famílias tradicionais paulistanas, além de frequentarem as corridas eram proprietárias dos cavalos corredores. Elas adquiriam cavalos direto da Europa, para correr em São Paulo, e as apostas efetuadas nessas corridas movimentavam altos valores monetários. Assim, além de ser um animal valorizado devido à sua importância na realização de trabalhos cotidianos, o cavalo era um animal valorizado também por estar ligado às práticas de divertimento das elites, apesar de o argumento utilizado ser o de melhoramento da raça cavalar.

Em 22 de outubro de 1876 a capital paulista inaugurou o seu primeiro espaço destinado às corridas de cavalos: o Hipódromo Paulistano[1]. No entanto, há indícios de que antes do hipódromo as corridas de cavalos já aconteciam em espaços improvisados na cidade, mas nos faltam dados. E há indícios também da existência de um outro prado, o Derby Club, que parece ter funcionado a partir do ano de 1891[2].

.

.

As corridas que ocorreram no Hipódromo Paulistano foram organizadas, sobretudo, pelo Jockey Club, fundado em 1875 com o nome Club de Corridas Paulistano. Essa associação abria inscrições para as corridas uma ou duas semanas antes das mesmas acontecerem. Era quando então, os proprietários dos cavalos podiam inscrever seus animais e seus jóqueis. Os sócios do clube recebiam ingressos para assistir às corridas, enquanto os demais interessados deviam compra-los.

Raphael Aguiar Paes de Barros, depois de voltar de uma viagem à Inglaterra, se uniu a mais quatorze membros da seleta elite paulistana para fundar tal clube. Eles eram filhos de senadores, de barões, de ricos fazendeiros de café. Raphael era filho do Barão de Itu e neto do Barão de Iguapé. Um outro fundador do clube de corridas foi Antônio da Silva Prado, que a essa época também se tornara empresário do Teatro São José, e era membro de uma das famílias mais ricas da cidade. Raphael de Barros havia estudado na Inglaterra, e Antônio Prado na França.

Ser membro da elite não significava apenas possuir muito dinheiro e títulos aristocráticos, era preciso também estar afinado com os padrões comportamentais europeus. Daí o envolvimento da elite paulistana na criação de sociedades de caráter cultural. Era uma estratégia de legitimação social, além de ser uma forma de obter lucros monetários.

As provas no hipódromo aconteciam aos domingos, sem, no entanto, uma constância regular ou calendário fixo. Em alguns anos houve corridas distribuídas ao longo de todos os meses, em outros, entretanto, as corridas se concentraram em alguns meses. Em 1891, por exemplo, o calendário de corridas só teve início em maio, mas perdurou até dezembro. Enquanto em 1895, as corridas aconteceram de janeiro a abril, sofreram interrupção em maio, só voltando a ser promovidas em julho.

 O motivo, apresentado pelos jornais, das irregularidades da presença do turfe na cidade, era a falta de animais adequados[1]. Quando o Jockey Club realizava corridas com poucos cavalos inscritos, como fez em 1894, o volume de apostas era menor, em relação às corridas com número maior de animais.

Assim, ao invés de obter lucro, como era comum acontecer em associações dessa natureza, o Jockey Club obteve prejuízos. E sem lucro, cessava a importação de parelhas (como também são chamados os cavalos corredores), o que muito impactava o turfe, já que os cavalos de corrida nacionais não apresentavam a mesma qualidade e desempenho dos importados. Menor qualidade dos animais significava menores apostas.

Numa tentativa de resolver o problema, houve a importação de cavalos por membros da elite paulistana, como foi o caso de Francisco de Queiroz Netto, que realizou importações entre 1894 e 1895. No entanto, tal iniciativa não foi suficiente, pois nos anos seguintes as corridas continuaram a acontecer de modo irregular.

As dificuldades financeiras enfrentadas pelo turfe eram tamanhas, que os membros do Jockey Club pediram auxílio ao poder estadual, que atendendo à solicitação, passou a financiar uma prova de turfe por ano. Era o chamado Grande Prêmio Estado de São Paulo. Não era a primeira vez, no entanto, que os poderes públicos auxiliavam tal associação. Na época do Império, os cofres provinciais também financiaram um prêmio anual.

.

Hipódromo Paulistano, s/d. Fonte: < http://www.jockeysp.com.br/historia.asp >

.

Apesar de ser uma prática ligada às elites e de possuir status, o turfe foi alvo de críticas por ser um esporte envolvendo apostas. Essas críticas se deram em um momento, 1895, em que a Câmara Municipal proibia os frontões justamente por realizarem apostas, e não agia do mesmo modo com as corridas de cavalo. Os adeptos do jogo da pela, então, reagiram. E como dizem que a melhor defesa é o ataque, eles foram aos jornais atacando não apenas a Câmara por tal atitude, mas também o Jockey Club. Se as elites podiam realizar apostas em suas práticas esportivas, porque as camadas populares não podiam fazer o mesmo?

Para se defender, o Jockey Club e os adeptos das corridas de cavalo sempre diziam que possuíam um objetivo nobre: o de desenvolver a raça cavalar brasileira, o que era chamado por eles de indústria pastoril. Objetivo que, aliás, diziam eles, estava muito de acordo com o momento vivido por São Paulo, de expansão, desenvolvimento e progresso industrial.

Quando em 1900, um deputado finalmente incluiu tal sociedade na lista daquelas que exploravam o jogo na capital paulista, o jornal O Estado de São Paulo saiu em sua defesa[1]. Houve discussão entre os jornais Correio Paulistano e O Estado de São Paulo quanto a essa questão. O Estadão criticava os frontões e apoiava a Câmara na decisão de proibi-los, enquanto o Correio, fazia exatamente o oposto: apoiava os frontões e criticava a proibição da Câmara. Isso era uma mostra dos interesses defendidos por esses jornais.

O ano de 1900 não foi mesmo um bom ano para o turfe paulistano. As corridas foram esparsas, houve uma em janeiro, outra em junho e somente a partir de outubro é que elas tiveram alguma frequência até dezembro. Em 1901 o Jockey Club mais uma vez recorreu aos poderes públicos, dessa vez municipais, que financiaram uma prova, intitulada Grande Prêmio Municipal. Essa prova continuou acontecendo nos anos que seguiram, mas não foi suficiente para devolver ao turfe o sucesso dos primeiros anos.

O turfe paulistano fechou a primeira década do século XX em crise. Suas receitas não eram suficientes sequer para arcar com as despesas do hipódromo e do Jockey Club Paulistano, que a essa altura devia impostos, corridas eram canceladas devido ao pequeno número de cavalos inscritos, e o público já não tinha o mesmo interesse de outrora, comparecendo pouco.

Mas foi entre altos e baixos que o turfe se fixou na capital paulista. Ele surgiu em um momento de grandes transformações não apenas para São Paulo, mas para toda a nação. Atravessou mudanças sociais, culturais, econômicas e políticas. Viveu o momento em que a cidade abandonava definitivamente sua condição de pouca expressividade para se tornar a maior metrópole do país.

Atravessou a transição do Estado imperial escravocrata para a república de trabalho assalariado. Viveu os momentos prósperos do café, e também seus momentos de crise, que fizeram com que alguns de seus adeptos e promotores deixassem a condição de elite para se tornarem membros da classe média. E foi em meio a esse contexto efervescente de mudanças, que o turfe passou a fazer parte da vida de São Paulo, estando até hoje presente no cotidiano da cidade.

—-xxxxxx

[1] O Estado de S. Paulo, 9 de janeiro de 1895, p. 1.

[1] O Estado de S. Paulo, 28 de junho de 1891, p. 2; O Estado de S. Paulo, 24 de janeiro de 1895, p. 1.

[1] A Província de S. Paulo, 15 de outubro de 1876, p. 4.

[2] O Estado de S. Paulo, 18 de agosto de 1891, p. 2.

.


NOTA DE PESAR – GILMAR MASCARENHAS DE JESUS

10/06/2019

Caras e caros amigos

Com muito pesar, recebemos a notícia do falecimento de nosso parceiro, colega, amigo Gilmar Mascarenhas de Jesus.

Gilmar foi nosso parceiro desde a criação de nosso Laboratório, no ano de 2006. Perdemos a conta do número de vezes em que esteve conosco em nossas iniciativas. Figura por nós admirada, nunca deixou de aceitar um convite, sempre iluminando nossas ações.

No meu caso, o conheço desde bem antes. Conhecemo-nos em 1996, quando ambos davam seus primeiros passos nos Estudos do Esporte. Éramos poucos. Nesses mais de 20 anos, fizemos juntos muitas coisas – palestras, eventos, bancas. Por ocasião de sua banca de titular, da qual tive a honra de integrar, lembrávamos de uma proposta de livro em conjunto tantas vezes alinhavada, mas nunca efetivada em função de tantos compromissos. Também celebramos muito, festejamos muito, desfrutamos. O amigo Gilmar aproveitou muito a vida, mesmo tendo em muitos momentos uma trajetória dura, típica de quem vem do subúrbio e tem que romper os muros invisíveis (mas rígidos) dessa cidade.

Gilmar foi um pesquisador notável. Aliava profundidade conceitual e rigorosidade empírica com intenso compromisso político. Não tergiversou, não temeu, não recuou, isso tudo sempre com um caráter amigo, amistoso e bem humorado. Para além disso, foi um pai e avô apaixonado, um amigo querido por todos.

Perdemos um amigo indescritível, um colega de grande valor, um homem com uma história incrível. Fica a obra. Ficará por muito tempo. Fica também a saudade. Mas fica a lembrança dos bons momentos.

Em nome de nosso Laboratório, envio à família nossos pêsames e o desejo e muita luz e força.

.

Victor Melo
Sport: Laboratório de História do Esporte e do Lazer
UFRJ


Os primórdios do futebol na Alemanha (1874-1914)

20/05/2019

Elcio Loureiro Cornelsen
(cornelsen@letras.ufmg.br)

No século XIX, a principal modalidade esportiva em termos de popularidade na Liga Alemã (Deutscher Bund) era o Turnen, ou seja, a ginástica conforme fora concebida pelo pedagogo e político Friedrich Ludwig Jahn (1778-1852), mais conhecido como “Turnvater Jahn”, “Jahn, o Pai da Ginástica”. Originalmente, o Movimento pela Ginástica (Turnbewegung) concebido e propagado por Jahn estava associado ao proto-nacionalismo alemão gerado no contexto das Guerras Napoleônicas. Assim idealizada, a ginástica destinar-se-ia à preparação da juventude na luta contra a ocupação napoleônica dos Estados alemães.

.

Friedrich Ludwig Jahn – litografia de Georg Engelbach (1852)
Disponível em: https://upclosed.com/people/friedrich-ludwig-jahn/

.

Naquela época, cada vez mais, exercícios físicos eram conduzidos em grupos e associações que valorizavam a disciplina e o condicionamento nos moldes do militarismo, bem como noções como harmonia, uniformidade e comunidade, a partir do princípio dos quatro “f”s – frisch, fromm, fröhlich, frei – vigoroso, devotado, alegre, livre. Por um lado, rejeitava-se o desempenho individual e, por outro, considerava-se prejudicial a disputa orientada por desempenho. Era, pois, uma prática de atividades corporais ritualizadas e coreografadas, como uma série de fotografias registrou tal fenômeno esportivo.

.

XII. Festa Alemã da Ginástica em Leipzig
13 de julho de 1913
35 exercícios gerais livres – 17.000 ginastas
Disponível em: https://www.laturners.org/turnfest-2017-in-berlin/

.

Foi exatamente nesse cenário que o futebol chegou à Alemanha em meados da década de 1870, praticamente apenas quatro anos após o país ter se constituído enquanto Estado Nação, fundado em janeiro de 1871, no contexto da vitória prussiana sobre a França. Em seus primórdios, o esporte bretão surgia como uma alternativa atraente ao Turnen: ao invés de um grupo difuso de praticantes entrava em cena uma equipe formada por 11 jogadores, a qual se lançava em disputa com outra equipe formada igualmente por 11 jogadores. Ao mesmo tempo, toda equipe necessitava de conjunto e de individualidades que se destacassem em relação à equipe adversária. Portanto, ao contrário do Turnen, o futebol incentivava a disputa, o que significava que, para se estabelecer como prática esportiva alternativa, seria necessário que ocorresse uma profunda mudança de visão em relação à cultura de práticas corporais e esportivas.

Aquilo que nos dias atuais nos parece óbvio, de que o futebol seria um esporte de contato físico, foi um aspecto que fascinou os primeiros praticantes em terras germânicas, pois permitia usar o corpo de uma maneira mais livre, descontrolada e intensa do que aquele modo de lidar com o corpo no Turnen. Quando os primeiros professores introduziram a prática do futebol em suas aulas, as primeiras turmas do ensino primário se mostraram encantadas com a novidade. Todavia, as turmas do ensino médio sentiam-se constrangidas ao terem de disputar uma partida trajando calça curta em público. E há vários relatos daquela época noticiam um constrangimento público causado por jogadores, quando estes atravessavam a rua vestidos com calções, indo em direção ao campo – naquela época, ainda não havia campos determinados, vestiários ou sedes clubísticas.

Assim como Charles Miller (1874-1953) figura como sendo o “pai do futebol” no Brasil, a Alemanha também conheceu um pioneiro da difusão do esporte bretão: Konrad Koch (1846-1911), um professor de Inglês que atuava no Colégio Martino-Katharineum, na cidade de Brauschweig, e que, em 1875, publicou em Alemão as primeiras regras do futebol., após ter estado uma temporada na Inglaterra. Inicialmente, a nova prática esportiva encontrou resistência entre pedagogos mais afeitos ao Turnen, pois a consideravam uma “doença inglesa”, a qual deveria ser combatida.

Por sua vez, o futebol parecia ser uma nova manifestação cultural da juventude, que assimilava as tendências que chegavam do Exterior, fato que acabou por levar as agremiações de Turnen a se abrirem e adotarem o futebol. Na virada do século XIX para o XX, o futebol permanecia um domínio masculino que pouco atraia as mulheres, e que era praticado em ambientes que não lhes permitia o acesso.

.

Wilhelm Carl Johann Conrad Koch
Disponível em: https://alchetron.com/Konrad-Koch

.

Além de difundir as regras para a prática do futebol, Konrad Koch incluiu em sua publicação também regras para o cuidado com a saúde de seus alunos: fracos e doentes só poderiam praticar futebol mediante permissão médica; era terminantemente proibido praticar futebol sem a supervisão do professor; em condições de tempo adversas, só jogariam aqueles que se dispusessem voluntariamente; recomendar-se-ia ao aluno acometido de gripe que usasse blusa de lã em jogos de futebol durante a tarde. A iniciativa pedagógica de Konrad Koch logo se difundiu para outros colégios na Alemanha, em cidades como Göttingen, Hannover e Hamburgo.

.

Regras da Agremiação de Futebol do Ensino Médio
Do Colégio Martino-Catharineum (1875),
publicação de Konrad Koch
Disponível em: https://www.braunschweig.de/leben/stadtportraet/geschichte/konradkoch/143010100000149645.html

.

Todavia, para além do âmbito dos colégios, o fascínio pelo futebol cresceu rapidamente no Império Alemão. Logo se formaram alguns centros em que o futebol passou a ser praticado, sobretudo aqueles que possuíam laços estreitos com a Inglaterra: Munique, Karlsruhe e Berlim. Em 1890, foi fundada na capital do Reich a Liga Alemã de Jogadores de Futebol (Bund Deutscher Fußballspieler). Entretanto, o desejo de se ter um órgão central que organizasse a prática do futebol no país levou à criação da Liga Alemã de Futebol (DFB – Deutscher Fußballbund) em 28 de janeiro de 1900.

.

Primeira representação do futebol em Berlim (1892), ilustração deErnst Limmer:
Disputa entre uma seleção de Berlim e o Dresdner Fooball Club
Disponível em: https://www.berliner-zeitung.de/berlin/stadtgeschichte-wie-der-berliner-fussball-erwachsen-wurde-24482938

.

Desde o início, o futebol esteve envolvido com questões políticas. No tempo do Império (1871-1918), as tensões entre a Alemanha e outras nações, sobretudo a Grã-Bretanha, atingiram também o âmbito do futebol. Naquele período, o futebol era interpretado como parte de estratégias de educação física para elevar o potencial de combatividade dos jovens, bem ao estilo do militarismo alemão da época, que via nos esportes coletivos tal potencial. Assim, as equipes surgiam como mimetizações de dois exércitos que se combateriam no campo de jogo (Spielfeld), igualmente como mimetização do campo de batalha (Schlachtfeld), em movimentos de defesa (Verteidigung) e ataque (Angriff). Tais tensões chegaram a atingir também o âmbito lingüístico: puristas da Língua Alemã criticavam o amplo uso do jargão futebolístico em Inglês.

Não é por acaso que, em seus primórdios, o futebol tenha se difundido entre as camadas sociais mais abastadas, que possuíam tais contatos através de universidades, escolas ou ambientes profissionais, contando com estudantes, comerciantes e engenheiros britânicos que queriam manter os laços com a terra natal através da prática esportiva que mais se popularizava à época.

Entretanto, não demorou muito até que o futebol se tornasse, igualmente, popular entre as camadas operárias. Um exemplo patente desse fenômeno no contexto alemão foi a fundação do Fußball-Club Gelsenkirchen-Schalke 04 em 04 de maio de 1904, até hoje, um dos clubes mais populares do país, por jovens operários em Gelsenkirchen, uma das principais cidades do Vale do Ruhr, região de produção de carvão e de indústria pesada, e, portanto, distante de centros comerciais ou mesmo universitários.

Assim, o futebol se tornou uma prática esportiva em franco desenvolvimento na Alemanha, evidenciado pela crescente importação de equipamentos para sua prática, como camisas, bolas e chuteiras. Além disso, equipes inglesas que excursionavam pelo país atraiam a atenção de um bom público, e o jargão do futebol em Inglês começou a se estabelecer em solo alemão como índice de modernidade. Da mesma forma, no início o século XX, equipes alemãs excursionaram pela Inglaterra e por outros países da Europa. O Sport Club Freiburg, por exemplo, viajou para a Itália em 1914 e disputou partidas em Gênova. No ano anterior, a equipe do sul da Alemanha já havia excursionado pela Suíça, apresentando-se nas cidades de Olten e da Basiléia.

A rápida ascensão do futebol como esporte popular na Alemanha deveu-se ao sucesso da organização da DFB, bem como à criação de um campeonato alemão em 1903, à formação de uma seleção nacional que, a partir de 1908, passou a disputar jogos internacionais, e à criação de associações estaduais e regionais. A iniciativa pioneira de Konrad Koch, de meados dos anos 1870, passados quase 150 anos, resultou em inúmeros frutos que tornaram a Alemanha uma das potências do futebol mundial, tetracampeã de 1954, 1974, 1990 e 2014. Nos dias atuais, a Bundesliga – Campeonato Alemão da primeira divisão – é um dos principais campeonatos do planeta.

Referências

BRÜGGEMEIER, Franz-Josef. Anfänge des modernen Fußballs. Informationen zur politischen Bildung. n. 290, p. 7-13, 1º Quartal 2006.

CORNELSEN, Elcio Loureiro. Sentimento e política no futebol alemão: construções da “nação” em 1990 e 2006. História: Questões & Debates. Curitiba, n. 57, p. 73-99, jul./dez. 2012. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/historia/article/download/30573/19765 ; acesso em: 29 abr. 2019.

CORNELSEN, Elcio Loureiro; CURI, Martin; HOLLENSTEINER, Stephan. Kleines Wörterbuch zum deutschen und brasilianischen Fußball. ed. bilíngue português-alemão, Rio de Janeiro: DAAD, 2014.

GÜLDENPFENNIG, Sven. Frisch, fromm (?), Freiheit, Frieden. In: LIENEN, Ewald et al. (org). Oh!Lympia: Sport, Politik, Lust, Frust. Berlin: Elefanten Press, 1983, p. 165-167.

RÜRUP, Reinhard. Organized Sports in Germany. In: RÜRUP, Reinhard (org.). 1936: Die Olympischen Spiele und der Nationalsozialismus. 2. ed. bilíngue alemão e inglês, Berlim: Stiftung Topographie des Terrors, 1996, p. 20-27.

Site do Deutscher Fußballbund (DFB): https://www.dfb.de/historie/dfb-historie/

Site da Enciclopédia Alchetron: https://alchetron.com/Konrad-Koch

Site do Los Angeles Turners: https://www.laturners.org/turnfest-2017-in-berlin/

Site da cidade de Braunschweig: https://www.braunschweig.de/leben/stadtportraet/geschichte/konradkoch/143010100000149645.html

Site do jornal Berliner Zeitung: https://www.berliner-zeitung.de/berlin/stadtgeschichte-wie-der-berliner-fussball-erwachsen-wurde-24482938

Site da Upclosed: https://upclosed.com/people/friedrich-ludwig-jahn/

.


Avenida, tu és o culpado!

25/02/2019

Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

A noite era de uma escaldante quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019, naquela cidade que adotei como minha, a maravilhosa e complicada Rio de Janeiro. Acabava de ministrar uma aula onde debatíamos sobre as ideias de modernidade e sua influência no mundo contemporâneo. Exemplos não faltavam: a ciência, o humanismo, a industrialização e o esporte… No entanto, ao deparar-me com o avançado horário, minha preocupação foi a de verificar o placar de uma histórica partida de futebol que estava acontecendo naquele momento: Corinthians Paulista 0, Avenida 2! Mal poderia acreditar! O placar final foi o menos importante. O pequeno Avenida de Santa Cruz do Sul, minha terra natal, se tornara um gigante conhecido nacionalmente. Naquela mesma noite decidira que o meu próximo texto trataria sobre o E.C. Avenida.

.

.

A verdade é que esse jogo vencido pelo bicampeão mundial, detentor de uma das maiores torcidas do país sobre um pequeno clube do interior do Rio Grande do Sul, que disputava a Copa do Brasil pela primeira vez e foi eliminado na segunda rodada, pouca diferença fez na história do esporte do Brasil. Contrariamente, após aquele memorável derby, o meu olhar sobre a história, assim como a minha percepção sobre a minha origem e a minha opção em me tornar um pesquisador do esporte foi totalmente reformatada e rearranjada.

Nas minhas muitas reflexões sobre aquele momento de quarta-feira a noite e o objeto de estudo da minha tese de doutorado e de outras pesquisas que desenvolvi e ainda desenvolvo, não pude deixar de lembrar da minha orientadora do mestrado, a professora Sandra Pesavento. A memorável historiadora tratava a história, também, como o resultado do “sensível”. Ela destacava que o papel do historiador era ter a percepção necessária para reconhecer nas fontes históricas as “sensibilidades” de uma época, de um local, de uma relação social. E aquele momento foi o responsável por aflorar uma série de lembranças da minha infância que, não poucas vezes, me deixaram com os olhos marejados.

Este não é um texto que trata sobre uma análise científica, mas uma simples reflexão sobre como o esporte marca profundamente as relações sociais, a formação e o futuro. Talvez por isso que eu tenha me apaixonado tanto por esse objeto de estudo. O esporte fascina, une, mas também divide, faz chorar em momentos alegres e tristes. Se, nas inúmeras reflexões sobre a história e desenvolvimento do esporte e do campo esportivo fomos levados a relacionar essas práticas com a racionalidade, a ciência e a modernidade, como associá-lo, ao mesmo tempo, ao inconsciente, a emoção, ao “sensível”?

Após o jogo de quarta-feira, percebi que meu gosto pelo esporte não estava ligado aos megaeventos ou aos grandes times (o Grêmio que me perdoe). As lembranças mais fortes e que não pararam de renascer a cada momento, estavam associadas a minha infância em Santa Cruz do Sul e as primeiras experiências com o futebol. Como não lembrar dos primeiros jogos onde eu era levado pelo meu pai jogador, vestido com o uniforme do time, e posava orgulhosamente para a foto do jogo? Como apagar da lembrança todas as histórias contadas, feitos memoráveis, conquistas épicas? Como esquecer aquela caixa de medalhas escondida lá na última e mais alta porta do roupeiro dos meus pais que regularmente me era mostrada envolta em uma magia indescritível como se fossem (ou de fato eram) troféus de batalhas?

No entanto, o primeiro clube que aprendi a admirar foi o Avenida. Desde a mais tenra idade ele esteve envolto no meu imaginário. Ouvia histórias a seu respeito nas rodas de conversa após os jogos onde eu acompanhava meu pai. Também foi o Estádio dos Eucaliptos o palco das primeiras “grandes” disputas que pude presenciar. As arquibancadas de cimento, a tela enferrujada que era o limite entre o campo e a torcida, o tradicional cachorro quente de linguiça, até mesmo aqueles históricos torcedores que tinham o seu lugar cativo, são lembranças emocionadas que tenho daquele tempo.

Tudo isso me fez pensar. Enquanto historiador do esporte, até quando somos cientistas racionais, analistas das fontes históricas? Quando deixamos que as nossas lembranças, carregadas de sentimento, interfiram na crítica do historiador? Infelizmente, eu não tenho respostas. Depois de quarta-feira a história se tornou ainda mais complexa pra mim. Continuarei abordando a metodologia histórica em sala de aula e a necessidade do distanciamento com o objeto, mas sem ter a convicção da real possibilidade que isso aconteça. No entanto, uma certeza eu tenho: Avenida, tu és o culpado!

.