UM GRANDE CONTISTA DO FUTEBOL

Por Edônio Alves

Esse meu espaço no blog tem a função de apresentar ao nosso leitor internauta o produto dos meus estudos e reflexões sobre as relações que o futebol mantém com a literatura. Os leitores assíduos daqui (se porventura os houver), já terão percebido que essa intersecção dos dois campos – um da bola e o outro da palavra – se dá por vários níveis de afinidades comuns entre os produtores de arte nas duas esferas de criação estética. O jogador de futebol, com a sua inteligência motora e corporal, com a qual exibe maestria e habilidades encantadoras dentro das quatro linhas do gramado, e o escritor de literatura, que, com o seu material mínimo – a bola-palavra – também se exibe e pontifica no papel, ao criar mundos novos e reveladores da condição humana, numa arte em que também a bola corre, quica, trai, atrai e encanta.

E ninguém mais representativo dessa relação direta do futebol com a literatura do que o escritor gaúcho, Aldyr Garcia Schlee, pelos motivos que segue.  GARCIA SCHLEE, um autêntico contista de futebol, nasceu em Jaguarão, Rio Grande do Sul, em 22 de novembro de 1934. É escritor, jornalista, tradutor, desenhista e professor universitário. As suas especialidades são a criação literária, com ênfase na literatura uruguaia e gaúcha, enfocando sempre as questões da identidade cultural e das relações fronteiriças. Doutor em Ciências Humanas, publicou vários livros de contos e participou de várias antologias de contos e de ensaios. Alguns livros seus foram primeiramente publicados no Uruguai pela editora Banda Oriental. Criou o jornal Gazeta Pelotense; ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, foi fundador da Faculdade de Jornalismo da Universidade Católica de Pelotas–UCPel e professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas-UFPel, por mais de trinta anos. Em 1953, aos 19 anos, desenhando e fazendo caricaturas para jornais de Pelotas, ele venceu 201 candidatos no concurso promovido pelo jornal carioca, Correio da Manhã, para a escolha do novo uniforme da Seleção Brasileira de futebol. Após o concurso, portanto, a então Confederação Brasileira de Deportos-CBD oficializou o uniforme verde e amarelo criado por ele e que é usado até hoje.  Como prêmio, Aldyr ganhou o equivalente a vinte mil reais e um estágio no Correio da Manhã, no Rio de Janeiro, onde pôde conhecer e conviver com figuras expoentes do jornalismo da época como Nélson Rodrigues, Antonio Calado, Millor Fernandes e Samuel Wayner, entre outros. Recebeu duas vezes o prêmio da Bienal Nestlé de Literatura Brasileira e foi três vezes premiado com o Prêmio Açorianos, também de Literatura. Já publicou, entre outros, os seguintes livros de contos: Contos de sempre (1983); Uma terra só (1984); El dia en que el papa fue a Melo (1991); Linha divisória (1998) e Contos de Verdades (2000). O conto analisado abaixo também integra o seu livro de histórias curtas sobre futebol intitulado, Contos de futebol, publicado no Brasil pela Editora Mercado Aberto de Porto Alegre-RS, em 1997.

***

 Encanto de futebol

 De Aldyr Garcia Schlee

“Muitas partidas terá jogado o Mauá. Se, entretanto, não existissem algumas fotografias que pude ver, com o time todo alinhado para o retrato tradicional ou com os jogadores desfilando ordenadamente numa parada qualquer, diante do prédio do Foro da cidade, pensaria que tudo não passou de invenção minha em torno de uma bola guardada na despensa da casa de minha avó e por causa da camisa de goleiro de meu tio. É que, por ser muito pequeno, talvez; ou, talvez, por só pensar em outras equipes e em tantos craques, honestamente não me lembro de nenhum jogo inteiro, de nenhum resultado, de torneios ou de campeonatos do Esporte Clube Mauá”.

Esse trecho do conto Encanto de futebol, de Aldyr Garcia Schlee, integrante da coletânea Contos brasileiros de futebol, organizada por Cyro de Mattos, está aí sobrescrito por uma única razão, apenas: porque nele está bem dita,  resumida e plasmada – nesse breve segmento narrativo – toda a configuração conceitual da concepção da estória contada. Todos os seus elementos estruturais e de estratégia de fatura. Toda a gama de detalhes que posteriormente contribuirão para a formação de sua atmosfera.

Sim, porque este é um típico conto de atmosfera. Não daquelas atmosferas criadas pela força da ficção para envolver o leitor (ou a sua consciência) em estados psicológicos por assim dizer heterodoxos, cambiáveis, mesmo chocantes, irreversíveis, diluidores, enfim, configuradores de situações em que o eu psíquico se debate ante o sem-sentido dos seus próprios sentidos. Ao contrário, a atmosfera aqui é daquele tipo criado pela memória para justamente recuperar um sentido essencial ao equilíbrio ontológico do homem face às vicissitudes que enfrenta na vida com a passagem cruel e avassaladora do tempo.

O conto, assim, encerra a narrativa de um adulto sobre a maior paixão da sua vida, descoberta ainda na infância, e na infância vivida com a sua maior força e intensidade. Não uma paixão qualquer, como adverte o narrador, “mas uma paixão excepcional, obsessiva e doentia, abrangente, permanente (…)” com os ingredientes todos de uma verdadeira paixão amorosa: suores, sabores, choros, dores e desilusões com seus começos, meio e fim, inevitáveis. A saber, a paixão pelo futebol, metonimicamente representado aqui pela descoberta do primeiro amor a um clube, o Esporte Clube Mauá de Jaguarão, Rio Grande do Sul, Brasil.

Através da criação de um clima embaçado em que se misturam componentes da realidade com elementos da imaginação do narrador quando ainda criança, o texto desfila imagens do mundo do futebol captadas e distribuídas ao leitor como epifanias que fundaram e ainda hoje fundam a relação da criança brasileira com o mundo, captaneada que é essa relação, no nosso universo cultural particular, por uma de suas maiores metáforas: a bola. E aqui também não era uma bola qualquer, mas um troféu magnífico. “E foi sempre o único troféu que o Esporte Clube de Mauá jamais teve”.

Todo o entrecho narrativo se desenrola, destarte, nas reminiscências de fatos grandiosos para a imaginação de uma criança, expostos quarenta anos depois da criação:

“O Mauá nasceu quando mandaram buscar o terno de camisetas na casa London Paris, em Montevidéu. (…) Ter ido pela mão do tio buscar as camisetas, ter visto abrirem o pacote, ter permissão para tocar em cada uma, e ­– por fim – esperar pacientemente que a avó prendesse o distintivo, teria sido tudo o que eu poderia desejar, se não houvesse acompanhado todos esses acontecimentos vendo Friedenreich, El Tigre, com a nova camisa, matando um irmão a balaços e sendo, finalmente, morto num acidente, na revolução de 32.

Do desenvolvimento:

“A cancha era a duas quadras dali. Toda a gente vinha para as portas e janelas das casas nos ver passar. Isso dava um misto de orgulho e vergonha que aumentava a tensão daquele momento.  (…) No campo, Domingos não fez sua pose clássica enquanto Walter saltava para soquear a pelota na cabeça de Piola, como na primeira capa colorida do “Esporte Ilustrado”.

E do fim do clube adorado que emprestava sentido pleno a uma infância vivida em desenvolvimento lúdico e poético, como se pode antever no trecho abaixo:

“Nunca pude entender como terminou aquele que foi para mim o mais importante de todos os times. Aquele que me fez perder o sono em intermináveis noites de sábado, que me fez sentir pela primeira vez angústia no almoço e dor no jantar. Aquele em que a mágica da camisa tricolor transformaria todos os jogadores em craques, todas as jogadas em lances excepcionais e todos os maus resultados em renovadas esperanças de melhor sorte”.

Pois bem. Não estão aí todos os componentes de uma verdadeira e intensíssima paixão amorosa? Pois também não falta a esse conto bem concebido de Aldyr Garcia Schlee, que, ao lado de Edilberto Coutinho, tem o futebol talvez como o principal motivo de sua literatura, a outra de suas características fundamentais: o expressar sempre situações do homem em trânsito, fronteiriço, sempre indeciso na sua ontologia formatada por duas culturas diferentes mas radicalmente próximas, circunstâncias talvez advindas da sua condição de brasileiro criado numa cidade encravada entre o Brasil e o Uruguai. E mais ainda: nascido de uma família formada por patrícios das duas nações.

Talvez por isso mesmo é que a forma memorialística desta narrativa venha ser o repositório natural de registros de fatos e emoções que visam, em última instância, o equilíbrio de um ser (aqui transfigurado em um personagem adulto contando a sua condição de criança frente ao mundo mágico e encantado do futebol – Encanto de futebol!) que ora pende para um lado ora para o outro, no palmilhar de um topos cultural formado e formador de um ethos individual articulado por um trânsito de informações díspares e de mão dupla.

“Era uma época em que se estava mais pra lá do que pra cá, quer dizer, em cima do Uruguai, com o rádio recém-começando na sua impotência, com os jornais brasileiros chegando devagar, e uma baita influência do que acontecia em Montevidéu. (…) Antes, muito antes do Flamengo de Adilson, Zizinho, Pirilo, Perácio e Vevé, houve o Nacional ou o Peñarol, o San Lorenzo ou o Boca”, salienta o narrador ao chamar à atenção o fato de a sua condição geográfica importar na formação do seu imaginário primordial.

Imaginário esse que, diga-se de passagem, pesa muito na urdidura do entrecho narrativo criado por Garcia Schlee para comunicar um mundo quase onírico em que álbuns de figurinhas de jogadores de futebol (quem não teve o seu?) são o seu suporte; sua base estrutural e, como efeito de sentido criado pela articulação poética de suas partes literalmente cambiáveis, a sua verdadeira justificação estética. Isto é: a estória sendo formada por quadros-figuras preenchidos pela memória. Do narrador e, por empatia presumível, do leitor-torcedor também.

Dignos de nota ainda a presença ­- nesta forma literária do conto em questão – da forma simples do conto popular, ou das lendas puras que formam o mito e este, por suas características arquetípicas e transtemporais, formam as culturas que se comunicam através do transporte mútuo de seus elementos comuns. Lembre-se a este propósito, o caso de “Friedenreich, El Tigre, matando um irmão a balaços e sendo, finalmente, morto num acidente, na revolução de 32”, trazido no início deste texto.

Esse mesmo mitema é apresentado na crônica de Ivan Ângelo, já analisada por nós, intitulada O homem do Maracanã, onde em andamento dissertativo mais longo, a microestória é retomada pelo jornalista justamente no terceiro item da sua classificação, digamos, sociológica, dos estádios de futebol:

“No estádio catedral, aos domingos, futebol é culto, mitos, lenda. Clube de futebol é como religião: mesmo quem ‘não pratica’ tem uma. Uma religião pré-litúrgica. Como sacerdotes dessa religião primitiva, oral, velhos que nem sequer foram aos antigos estádios-capelas da era pré-Maracanã contam casos ao pé do fogo, histórias que se arredondaram rolando por aí como pedras de rio e chegaram até nós redondinhas, acabadas,  como aquela do centroavante (eles dizem “centerfor”) de chute superpotente e nome supercomplicado pronunciado Frederrache, que tinha um irmão goleiro superfera que jogava em outro time, e contam como esse Frederrache tinha gozado o irmão antes do jogo, dizendo que ia marcar tantos gols, e contam como o irmão goleiro disse que ali não passava nenhum, como o tal Frederrache foi ficando irado no jogo porque o irmão fera pegava todas, até que marcaram um pênalti e ele gritou “é meu, esse é meu”, e contam como ajeitou a bola deliciado olhando o fera e dizendo “agora é que eu quero ver”, contam como o irmão goleiro bateu no peito e gritou sério “daqui não passa”, e contam como o tal Frederrache tomou distância e soltou o maior tiro de sua vida bem no meio do gol, como o irmão goleiro encaixou a bola bala e todo o estádio ouviu aquele tuummm no peito dele, contam como ele se ajoelhou e ficou ali um tempão, aplaudido pelas duas torcidas, antes que percebessem que ele estava morto, e diz a lenda que o irmão nunca mais jogou. Futebol? É lenda. (…).”

É. Como se sabe, quem conto um conto aumenta um ponto, e foi isso que fez Ivan Ângelo ao enriquecer ainda mais esta história curta de Aldyr Garcia Schlee no que ela tem de situação exemplar do que denominamos no primeiro capítulo deste estudo (ver p. 59) de ética do acontecimento ou moral ingênua e sentimento do trágico, que, a partir das teorizações sobre as formas simples do conto feitas por André Joles, dizíamos que o liga diretamente ao fenômeno do futebol, quer por sua ideia de criação espontânea do povo, quer mesmo por seus elementos constitutivos comuns.

Com o propósito de comprovação do que está dito, faça-se uma leitura comparada dos dois textos em apreço e se verá o grau de similaridade na apreensão, por parte dos dois autores, do mesmo fenômeno retido pela memória. O que difere aí é a maneira singular com que cada um expõe ao leitor, em forma linguística, a mesma matéria de fatura, mostrando ambos, na prática do texto, que a relação do futebol com a literatura é mesmo uma questão de gêneros. No primeiro caso, tem-se um conto literário de forma artística e, no segundo, o que se poderia chamar de uma crônica quase-conto, no seu andamento marcadamente dissertativo.

A outra nota fica por conta do tom às vezes ternamente poético que é dado a alguns momentos revividos pela memória adulta do narrador, momentos esses que parecem renascerem íntegros, inteiros, autênticos, puros, pela maneira como a fôrma poética capta a sua vivência num tempo pretérito. Tempo este, por sua vez, recomposto na memória – e entregue ao leitor no tempo presente do texto – através do movimento íntimo e interior com que a imaginação infantil de então recobria a realidade transfigurada por um animismo de efeito lírico. Vejam-se, neste sentido, estes trechos em que o mundo real do futebol se movimenta ao sabor da imaginação do narrador-criança, com efeito sublinhado por grifo nosso:

“Leônidas chegava ao vestiário e tirava os coturnos, desabotoava a farda militar para vestir a camisa amarela. Stabile e Ballesteros balaqueavam em castelhano. Os outros ficavam alinhados ouvindo as instruções. Agora sim! E Gradim, o velhor Gradim, o grande Gradim botava a camisa do nosso quadro. (…)”

***

“As pessoas falavam baixo e pela metade, contando segredo. O vento zunia e o gato brasino estava pesteado e minha irmã tinha piolho na cabeça.”

No primeiro segmento, temos a observar a maneira como a criança vai colorindo com elementos do mundo real a sua fantasia particular; o seu universo fictício em que o mundo do futebol dos álbuns de figurinhas não tem a menor diferença do mundo real deste, em que, por questões óbvias, jogador algum poderia lhe ouvir as instruções. Aqui não; no mundo autêntico, puro, afetivamente íntegro, criado pela criança movida por uma contemplação produtivamente poética, os seus ídolos reais pode perfeitamente receber suas instruções de jogo, num jogo em que realidade e ficção fazem parte da mesma partida. Jogo esse, como já se observou, que é retomado aqui através de uma narração que não lhe falta com elementos da verdadeira linguagem poética. E o intuito é claro: não fazer dissipar-se sem poesia o que poesia era. As úteis assonâncias e aliterações da frase quase-verso: “Agora sim! E Gradim, o velhor Gradim, o grande Gradim botava a camisa do nosso quadro”, são um rico exemplo disso.

E para fechar, este outro segmento do texto que tem a função de figurar a radical intimidade (quase isolamento do mundo mesmo) vivida pela criança nestes momentos quase oníricos em que a sua imaginação comanda o jogo de enfrentamento do real com o imaginado. As observações do mundo lá fora, feitas pelo narrador, são úteis para figurar aquele distanciamento existencial, aquele alheamento circunstancial com que a criança vivencia seu universo imaginado, seu “mundo à parte” que dá sentido pleno a sua existência neste mundo. Tanto que o narrador retoma o trecho, agora ligeiramente modificado pelas naturais “falhas da memória”, para encerrar a narrativa de modo exemplar:

“Mas o último jogo não houve. Naquele domingo o vestiário permaneceu fechado. No Asylo, a corda estava vazia e não se abriu a sede. Todos comeram calados, no almoço. Alguns, depois, foram sestear. Vovó não acendeu a vela ante o oratório. E meu tio saiu para a rua sem palavras.

Nunca perguntei o que havia acontecido.

O vento zunia e o gato brasino estava pesteado e minha irmã tinha piolho. As pessoas falavam baixo, contando segredos”.

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