Borroloola na Copa: Aborígenes, futebol e racismo na Austrália.

Por Jorge Knijnik com Jane Hunter e Les Vozzo

Em 2014, durante a Copa no Brasil, um pequeno grupo de adolescentes australianos teve o privilegio de não apenas viajar ao Brasil e assistir a alguns jogos, mas também de conhecer de perto e treinar com seus ídolos dos Socceroos, a Seleção  Masculina de futebol australiana. Este grupo, composto por quatro garotas e quatro rapazes, todos aborígines provindos da pequena vila de Borroloola no Northern Territory – norte da Austrália –  foi liderado por John Moriarty, um ex-jogador de futebol e líder aborígine que em sua infância foi roubado da sua mãe com quem vivia em Borroloola e criado em uma missão anglicana em South Austrália.

Crianças pequeninas retiradas do convívio familiar e enviadas para lares ou missões religiosas. Esta foi a realidade daquelas que são conhecidas como as Stolen Generations  australianas. As Gerações Roubadas, ou Sequestradas, são composta por milhares de crianças aborígines que tiveram como destino crescerem longe de suas famílias e comunidades durante boa parte do século 20 na Austrália.

Após a “descoberta” da Austrália por James Cook (o Cabral deles) em 1770, a Inglaterra começou a colonizar a terra em 1788. Se os contatos iniciais entre as tribos Aborígines locais (que já viviam no continente há mais de 40.000 anos, formando o que se considera a cultura humana mais antiga do mundo) e os colonizadores (ou invasores) foi amigável, aos poucos  os Aborígines  foram percebendo que aquela relação seria extremamente desfavorável a eles, e se organizaram para resistir. Após anos de resistência local, entre guerras e disputas durante o século 19, obviamente vencidas pelos invasores, vieram as fases seguintes da dominação  : segregação dos Aborígines em reservas muitas vezes bem distantes de suas cidades natais. Nestas reservas, todos os aspectos das vidas dos moradores eram controlados por agentes governamentais: sua liberdade de ir e vir eram bem restritas, assim como a provisão de comida fornecida pelos seus “guardiões”, os quais controlavam inclusive os casamentos e a educação das crianças. Simultaneamente a segregação, iniciou-se uma politica oficial de assimilação dos aborígines aos padrões culturais e religiosos europeus. É no quadro desta politica de assimilação que se encaixa o  sequestro das crianças para serem catequisadas e  educadas conforme as normas da civilização Anglo-saxônica que aqui se estabelecia. No inicio do século 20, com a implementação da politica da ”Austrália Branca – White Australia” este processo de sequestros se estruturou e se institucionalizou – sendo executado pelas autoridades que controlavam as reservas aborígines, suas policias, com apoio de “assistentes sociais” e ajuda de rastreadores locais de crianças, muitos deles também Aborígines.

John Moriarty, o líder da excursão dos adolescentes de Borroloola ao Brasil, foi retirado à força da sua mãe ao final dos anos 1940, quando tinha somente 4 anos de idade. Ele nos contou que foi revê-la apenas aos 15 anos, um pouco ao acaso – ele andava pelas ruas de Alice Springs quando viu uma senhora de aparência tribal ; as pernas dele começaram a tremer assim que ela o encarou bem firme e perguntou como ele se chamava. John, ele respondeu, ao que ela simplesmente disse “eu sou sua mãe”. Depois disso, eles conversaram, ela contou tudo sobre a família em sua cidade natal, e John Moriarty manteve uma ligação muito forte com a comunidade de  Borroloola, onde em 2012 fundou um projeto socioeducativo chamado John Moriarty Football – jmf.org.au .

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Borroloola la no Norte da Australia

Entretanto, assim que removido de sua família, Moriarty foi inicialmente parar nas Blue Mountains, a cerca de uma hora de Sydney, onde viveu na Igreja Anglicana de St. Thomas em um enorme dormitório para todas as crianças aborígines roubadas. Aos 11 anos, foi forçado novamente a se mudar e foi parar no estado de South Australia, em outra missão Anglicana chamada St. Francis, na cidade de Adelaide. Foi ali que sua carreira futebolística se iniciou e deslanchou.

Já no inicio da adolescência, ele e seus colegas que dormiam juntos em um grande dormitório em St. Francis se destacavam em muitos esportes. Atividades fisicas tinham algum significado para eles, enquanto na escola tradicional eles eram dados como ‘caso perdido’; a escola nao fazia esforço algum para inclui-los e a sua cultura. Em uma tarde quando apenas olhavam um grupo de rapazes de cerca de 18 anos do time estadual treinarem, foram convidados para bater uma bola com eles. Inicialmente recusaram-se, mas acabaram aceitando e basicamente destruíram os adversários, com “muitos gols a zero”. Conta a lenda que eles nunca haviam jogado futebol antes mas na verdade jogavam muito, mas descalços com bolinhas de tênis velhas!

Claro que o técnico do time estadual rapidamente convidou-os para integrarem o seu time.  Os rapazes aborígines novamente negaram, eram garotos pobres, da floresta, muito tímidos. O técnico insistiu, e depois de algumas negativas, ofereceu-se para pagar os uniformes, as chuteiras e as meias para Moriarty e seus amigos. Eles toparam, e rapidamente se destacaram no mundo futebolístico. Moriarty foi jogar no principal time italiano da cidade, o Adelaide Juventus. Neste clube, ele começou a fazer gols e virou ídolo. Mais importante, entretanto, foi a aceitação social; pela primeira vez na vida ele foi aceito socialmente por quem ele realmente era, sem racismo ou humilhações. A natureza do futebol na Austrália era outra – o jogo era visto com maus olhos pelas elites Anglofônicas, uma vez que era praticado pelas minorias imigrantes provenientes da Europa entre guerras e após a Segunda Guerra mundial. Futebol era um jogo de estrangeiros que não falavam inglês e que também sofriam discriminação social – ainda vou escrever um post sobre isso muito em breve. No meio dos discriminados socialmente, Moriarty começou a ser aceito, e ganhar recompensas por suas ótimas atuações no campo, suas assistências e seus gols – jantares de graça em bons restaurantes italianos, roupas e ternos feitos sob medidas pelos melhore alfaiates da comunidade… O futebol estava abrindo novas portas para ele.

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Moriarty jovem jogador de sucesso carregado pela torcida

Moriarty e alguns de seus colegas eram regularmente chamados para comporem a seleção estadual de South Austrália, e disputarem campeonatos nacionais contra as outras seleções estaduais. Foi em uma dessas competições, em Melbourne em 1960, que ele foi convocado para a seleção australiana, tornando-se o primeiro jogador aborígine a ser selecionado para o time nacional (infelizmente, naquela época a FIFA suspendeu a Austrália  por dois anos de todas as competições internacionais  , e Moriarty nunca pode jogar pelos Socceroos – o que obviamente não retira seu mérito de ter sido o primeiro Aborígine a ser convocado para o time).

No entanto, estas seguidas competições interestaduais também tiveram outras consequências, desta vez no campo politico. Cada vez que precisavam viajar para fora do Estado, os dirigentes esportivos precisavam requerer anuência das autoridades que comandavam as questões aborígines locais (claro que estas pessoas não eram Aborígines) para que Moriarty e outros jogadores Aborígines pudessem viajar. Ao descobrir isso, Moriarty ficou extremamente insatisfeito e ofendido. A partir dai, começou a participar de diversos encontros e movimentos sobre a causa aborígine, virando um ativista e mais tarde assumindo cargos no governo federal para lutar a favor dos direitos da população aborígine oprimida e discriminada na Austrália.

Através do futebol, Moriarty viajou a Europa e percebeu como em outras comunidades e países ele podia ser aceito; ele testemunhou inclusão social de pessoas de diferentes origens. Mais tarde, quando já formado na universidade e com seu trabalho de ativista consolidado, ele reuniu a família para implementar o trabalho socioeducativo com o futebol em sua comunidade, o projeto da John Moriarty Football em Borroloola, uma cidadezinha com cerca de 1500 habitantes, predominantemente Aborígines, localizada muito ao norte da Austrália – são 12 horas de carro para se chegar a Darwin, a capital do território. As temperaturas no verão por lá são altíssimas e, junto com a umidade da região, fazem as condições de vida bem difíceis.

Mas o projeto se iniciou em 2012, e logo Moriarty e seu filho James tiveram a ideia de trazer um grupo de adolescentes para a Copa do Brasil. A sintonia com o futebol brasileiro sempre foi muito forte para os aborígines australianos. Além de pessoalmente Moriarty admirar o ‘futebol-arte’ brasileiro, o Brasil tem em Garrincha um dos maiores expoentes indígenas do futebol mundial. As historias e as lendas brasileiras, tais como a do protetor das florestas, o Curupira, encontram varias correspondências com as lendas Aborigines da criação do mundo e dos entes protetores da natureza.

Assim, com muito esforço, tendo que batalhar muito pelo dinheiro, cortar alguns jogadores por falta de verba, conseguir passaportes para crianças que mal tinham certidão de nascimento, lá foram eles e elas ao Brasil! A turminha viajou cerca de quatro dias para chegar a Vitoria do Espirito Santo, onde os Socceroos tinham a sua base de treinamento : 12 horas para Darwin, avião para Sydney e depois para Melbourne, de lá para o Chile, Rio de Janeiro e Vitoria. Uma aventura impressionante que com certeza ampliou a visão de mundo desta gurizada que nunca havia saído de sua pequena vila antes. Eles jogaram bola com outros times locais, na praia ;  visitaram e treinaram junto com os Socceroos, sendo o centro das atenções da torcida que assistia aos treinos (foram aplaudidos em pé por 3.000 pessoas!) e da mídia internacional que a tudo acompanhava, afoitamente ; também assistiram os Socceroos jogarem em Cuiabá e passaram alguns dias em uma aldeia indígena no Mato Grosso, onde puderam participar de cerimonias com as tribos locais, pintar o rosto e o corpo em rituais semelhantes aos de sua comunidade e, importante, nadar em rios sem crocodilos! Pois estes infestam as aguas do Northern Territory.

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A turma com Moriarty, Cahill e o Tecnico Australiano, Ange P.

De volta para casa, o amadurecimento e o crescimento dos participantes da excursão eram visíveis. Tal como com Moriarty quando saiu de sua missão  para viajar pela Australia e pelo mundo, os jogadores e as jogadoras de Borroloola viram outras formas de viver, e gostaram. Querem seguir jogando futebol, e se profissionalizar. Ao mesmo tempo, viraram referencia na sua vila para outras crianças menores, que agora querem entrar no projeto da JMF também. Os participantes da excursão pretendem ser monitores para orientar com seus conhecimentos recém-adquiridos as crianças menores – não poderia haver melhor beneficio educativo que este, inspiração e vontade de prosseguir no esporte! Muito tempo e muita luta se passaram entre o racismo sofrido por John Moriarty e a participação da turma de Borroloola na Copa.  Certamente, o futebol fez e continuara fazendo parte destas vidas e desta comunidade – sempre do lado certo, apoiando eles e elas nas suas batalhas por um lugar ao sol e contra qualquer tipo de discriminação.

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SAIBA MAIS

Maynard, J. (2011). The Aboriginal soccer tribe: A history of Aboriginal involvement with the world game. Broome, Western Australia: Magabala Books.

Projeto de pesquisa – https://animoto.com/play/ct1dmcx75G1aPgHMVhHgjg

John Moriarty Football – jmf.org.au

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