Uma partida para lá de quente na Argentina

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, leitores(as):

Neste final de novembro e início de dezembro boa parte das atenções da imprensa e do meio futebolístico estavam voltadas para a final da Taça Libertadores da América 2018 entre Boca Juniors e River Plate. Pela primeira vez, no principal torneio de futebol da América do Sul, os maiores rivais da Argentina se encontram na final. Não por acaso a violência foi uma das protagonistas do segundo jogo da final, quando o ônibus do Boca fora atingido por parte da torcida rival a caminho do Monumental de Nunez.

Todavia, quem acha que vamos explorar este episódio da história recente e contemporânea da história do futebol, se enganou.

O clássico a qual nos referimos no título deste breve post é o jogo entre All Boys e Atlanta, no Estádio Islas Malvinas (não por acaso o nome da cancha faz referência a um território que é contestado até hoje pelos argentinos juntos aos ingleses).

Tratava-se de um jogo da Primeira B Metropolitana, equivalente para nós com a Série C ou 3ª Terceira Divisão Brasileira. Numa tarde de 21/11/2018 os dois times se enfrentaram em um estádio com ocupação quase lotada (21.500 pessoas) pela 11ª rodada (jogo adiado anteriormente). O jogo resultou no placar de 3 x 2 para o Atlanta, sendo que o visitante abrira 3 x 0 até os últimos minutos da partida, quando o time da casa conseguira diminuir com 2 gols.

Jogo divertido em um estádio pouco confortável, mas agradável de ser ver. Na imagem 1, podemos observar uma visão parcial da cancha:

Imagem 1: Estádio Islas Malvinas. Autor: André Couto

Como podemos observar, e que ocorre em muitos estádios da Argentina, a torcida organizada localiza-se em uma parte oposta dos demais torcedores do mesmo time. Do lado de cá, ingressos mais caros, muitos idosos e mulheres participavam do jogo. De lá, muitos jovens e homens.

Com o placar adverso, a torcida logo no final do jogo, partia para uma briga generalizada com a polícia local, conforme podemos observar em um jornal popular de Buenos Aires.

Imagem 2: Cobertura do jogo pelo jornal Clarín. Autor: André Couto.

Parte da violência se explica na Argentina pelos problemas sociais e econômicos a que o o país passa há muitas décadas. A economia voltou a apresentar índices bem impopulares com o o atual governo Macri, um liberal eleito sob a égide de sua origem empresarial e futebolista (fora presidente do Boca Juniors, entre 1995 e 2007).

Há poucos dias atrás, inclusive, em outro jogo, porém pela quarta divisão argentina, uma granada fora encontrada no estádio, durante a disputa entre Ituizangó e Deportivo Merlo, conforme podemos reproduzir em matéria do site abaixo:

https://trivela.com.br/a-policia-encontrou-uma-granada-sob-as-arquibancadas-visitantes-antes-de-um-classico-na-argentina/

Outra questão importante é compreender que parte das rivalidades entre os clubes argentinos se explicam pela proximidade e pela rivalidade entre os bairros. Um dos maiores rivais do All Boys (time do bairro de classe média de Buenos Aires chamado Monte Castro) é o Chacaritas Juniors (de bairro próximo), que por sua vez, rivaliza também com o Atlanta (do bairro judeu Villa Crespo). Disputas futebolísticas que avançam pelos territórios urbanos de Buenos Aires (logo abaixo, verificamos o mapa da cidade, dividida por bairros), não apenas pela proximidade entre os bairros mas pela capacidade de ignorar a autoridade policial, o que tem muito a ver com a história de enfrentamento dos movimentos sociais e políticos neste país.

Em apenas 6 dias na cidade, presenciei pelo menos duas grandes manifestações corporativas pelas ruas da capital: uma de enfermeiras e profissionais da saúde, outra de professores, ambas com a perda de direitos trabalhistas, sem falar que no final da semana ocorreria mais uma grande paralisação de aeroviários.

Outro fato importante nos deixa intrigado: a bandeira da Palestina na torcida do All Boys tem a ver com uma identidade com a cultura deste povo ou com a rivalidade do bairro judeu do Atlanta? Para tanto, nos faltam dados confiáveis e empíricos para chegarmos a qualquer conclusão plausível. Todavia, o detalhe é destacado pela imprensa local.

Imagem 3: Mapa de bairros da cidade de Buenos Aires. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bairros_de_Buenos_Aires#/media/File:Mapa-CABA-Barrios-Nombres.svg

Obviamente, o objetivo do post não foi fazer nenhuma análise sobre a violência argentina, mas apenas pensar em algumas questões importantes: 1) a de nunca abrirmos mão de uma conjuntura contemporânea onde o fenômeno esportivo está inserido; 2) a de refletirmos sobre a história da sociedade que pesquisamos (a argentina, por exemplo, que não deixa a memória sobre a ditadura militar se esvair ou se tornar uma possibilidade política como aqui no Brasil, por exemplo); 3) a de entendermos as lógicas urbanas que permeiam não apenas o espraiamento do esporte (como numa cidade que tem uma quantidade gigantesca de estádios de futebol como Buenos Aires) e nas consequentes rivalidades e aproximações que daí podem derivar.

Finalmente, convido a pensarmos mais nos clubes menores dos países latino americanos, e suas respectivas idiossincracias a  fim de entendermos mais das pessoas do que de personagens curiosos, mais da História real do que de uma História mítica.

Imagem 4: Entrada do Estádio Las Malvinas. Autor: André Couto.

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