O Circuito da Gávea

2 a 4 de outubro de 1934.

O dia 3 do corrente, aniversário da Revolução, não teve qualquer festividade. Parece até que passou esquecido. Observei-o com amargura. Apenas, nesse dia, tivemos a corrida de automóveis. Foi um espetáculo empolgante: grande multidão, pista difícil, corrida arriscada, alguns acidentes, vários que desistiram da prova em meio.  Por fim, venceu um brasileiro. Como é forte o sentimento nacional! (…) Junto a mim estavam o embaixador argentino e algumas senhoras.  Guardando a atitude de compostura exterior, eu imediatamente sentia-me comovido, com receio até de que me saltassem lágrimas se vencesse um estranho. E eu mesmo me analisava, tomado daquela emoção estranha que procurava reprimir.

Getúlio Vargas. Diário. v.1. Rio de Janeiro: FGV, 1995, p. 331.

As palavras acima, rabiscadas por Vargas em seu diário pessoal após assistir ao Grande Prêmio de Automobilismo do Rio de Janeiro em sua segunda edição, mostram que o futebol não foi o único espetáculo esportivo utilizado pelo governo de Vargas como meio de propaganda nacional. Em 1933 foi criado o “Primeiro Prêmio Cidade do Rio de Janeiro” de Automobilismo, que viria a ficar conhecido como “Circuito da Gávea”, prova que foi realizada anualmente até 1954, com intervalo entre 1942 e 1946, devido à Segunda Guerra Mundial.

O circuito de rua Niemeyer-Gávea, em seu traçado original, percorria cerca de 11 km e contornava o Morro Dois Irmãos, com a largada na rua Marquês de São Vicente. Com dezenas de curvas e diversos tipos de piso – como asfalto, cimento, paralelepípedo e areia – o circuito era considerado altamente perigoso, e por isso recebeu a alcunha de “o trampolim do diabo”.

O trajeto do Circuito da Gávea.

A dificuldade do circuito, que exigia grande perícia dos pilotos, aliados à beleza da paisagem, contribuíam para sua fama. A subida pelo atual Parque da Cidade, com curvas de grande periculosidade, aliadas ao traçado da avenida Niemeyer, faziam desta prova um verdadeiro desafio. No entanto, o próprio circuito da prova destacava as belezas da cidade, que se mostrava assim como um possível destino turístico internacional (vale destacar que um dos principais argumentos utilizados por Lourival Fontes para o financiamento público da prova era justamente seu potencial em impulsionar o turismo). Na imagem abaixo, podemos conferir a beleza proporcionada pela vista do trajeto

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Avenida Niemeyer. Disponível em: http://fotolog.terra.com.br/tororo:127

O comentário de Vargas acima destaca a vitória de Irineu Correa, no ano de 1934. A prova teria assim dado uma amostra do poder de identificação que o esporte proporcionaria. O mesmo piloto, no entanto, seria responsável por um dos fatos mais marcantes da história do circuito um ano depois. Na primeira volta da edição de 1935, Correa morreu ao bater em uma árvore e cair no canal do Leblon. Sua morte chocou o público da então Capital Federal. O vencedor daquele ano foi o ítalo-argentino Ricardo Carú, com um Fiat 519 adaptado.

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Foto de acidente no Circuito da Gávea, possivelmente o que tirou a vida de Irineu Correa. Disponível em http://cariocadorio.wordpress.com/tag/circuito-da-gavea/.

 Outros brasileiros sagraram-se também vencedores das provas do circuito, como Manuel de Teffé (1933 e 1939), Nascimento Junior (1938), Rubem Abrunhosa (1940) e Chico Landi (1941), para nos atermos às provas disputadas até 1945.

Em seus três primeiros anos, o circuito recebeu somente pilotos brasileiros. A partir de 1936, pilotos europeus passam a frequentar as ruas cariocas.Muitos desses também vieram a falecer ao disputar a prova, como os italianos Nino Crespi e Dante de Palombo e o francês Jean Acchar.

O vídeo abaixo, uma reedição de filme de Adhemar Gonzaga da prova de 1937, nos apresenta elementos interessantes a serem pensados sobre a corrida. Em seu início, vemos a bandeira nazista, que substituíra a bandeira da Alemanha, que naquele ano era representada pelo lendário piloto Hans Stuck. O alemão, apesar de favorito, não venceu a prova. O vencedor foi Carlos Pintacuda, que venceria também a edição de 1938.  É interessante também notar que apesar de todo o perigo envolvido na prova, dezenas de pessoas se enfileiram ao lado da pista, em meio à descida sinuosa, para assistir a prova.

O Circuito da Gávea, além de se mostrar uma grande oportunidade de se exaltar o sentimento nacional, como apontou Vargas, era também uma demonstração pública da capacidade do Estado em organizar uma prova internacional de um dos esportes que melhor representava a modernidade, o automobilismo.

A organização do evento, feita pelo Automóvel Club Brasileiro, contava com auxílio do governo brasileiro. O Departamento de Imprensa e Propaganda abriu crédito de 150 contos de réis como auxilio ao Automóvel Club, em 1941, pela realização do Circuito da Gávea de 1940, através do Decreto-Lei 2.950, de 16 jan. 1941 (a corrida havia sido realizada em novembro de 1940). Em 1939, o Ministério da Justiça e Negócios Interiores abriu crédito do mesmo valor. De acordo com a exposição G-2022 do DIP, de 21 out. 1940, assinada por Lourival Fontes, o Circuito da Gávea era uma “tradição esportiva” que deveria persistir mesmo em épocas de crise, como as enfrentadas no Brasil após o início da Segunda Guerra Mundial, agravado ainda mais devido à dificuldade em se importar gasolina.

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