JOGO EM CRISE – FUTEBOL, LITERATURA E POLÍTICA

Por Edônio Alves

O Brasil enfrenta um momento difícil em sua vida política.

Um momento de impasses, retrocessos e esgarçamento do seu tecido social causados por um revés institucional na sua tenra democracia e no seu imberbe desenvolvimento econômico que o fez sair da condição de país subdesenvolvido para o patamar de país em desenvolvimento, no concerto das nações.

Tudo parecia caminhar bem com a trilha desse caminho percorrido pelo Brasil até que um “golpe parlamentar” por dentro da democracia – que tirou do poder uma presidenta democraticamente eleita pelo voto de mais 54 milhões de seus cidadãos – fez o País mergulhar outra vez em águas turvas, reavivando comportamentos autoritários, policialescos e  colocando a convivência social outra vez no quadro temerário do confronto entre poderes, instituições e relações sociais.

Um quadro até certo ponto parecido com a experiência de uma ditadura clássica embora que, dessa vez, paradoxalmente, a coisa acontecendo por trás de uma máscara que induz estar-se diante de uma nação em que impera o estado democrático de direito.

Uma face nova e perigosa, enfim, se insinuando por trás de um rosto que parecia agradável e familiar.

Justamente por isso, por causa deste contexto incerto em que vivemos atualmente no Brasil, é que resolvi trazer, para o leitor desse nosso BLOG, uma pequena história envolvendo futebol, literatura e convivência social em momentos de crise.

Na história, que analiso para expor suas entrelinhas ao leitor, o cenário de fundo é a ditadura política, implantada no Brasil pelo golpe militar de 1964, quando a nossa sociedade ficou sem respirar, dado o sufocamento de sua estrutura de funcionamento.

Ali, o futebol cumpriu um papel importante ao se tornar – para o bem ou para o mal – uma espécie de válvula de escape da convivência e do diálogo social. Ora amparado; ora condenado pelo governo de plantão na medida em que servia ou não aos propósitos do poder usurpador.

A ideia é nos servirmos aqui da literatura e do futebol, nas suas relações intrínsecas e extrínsecas, para percebermos similaridades e situações de ontem, de outrora e de hoje, na vasta experiência por que tem passado a vida brasileira.

Vamos ao texto.

 ***

 Família, futebol e regatas  –  conto escrito por Ricardo Soares

Árduas discussões à mesa de almoço dos domingos, opondo um genro a um sogro, são o motivo para que o filho de um e neto do outro conte as suas lembranças acerca da Copa do Mundo de 1970, e também de um Brasil governado por uma ditadura militar que se instalara no País apenas seis anos antes da conquista do seu terceiro título mundial de futebol.

Transformado pelo signo linguístico numa figura só, o narrador autodiegético dessa história, aproveita-se da condição privilegiada de membro de uma família de origem portuguesa típica de São Paulo, e, do alto de sua lente de observação de adolescente entre adultos, tece considerações pessoais sobre a relação entre política, futebol e cotidiano, o que acaba por desvendar certos aspectos ainda hoje não tão bem resolvidos da formação social brasileira.

A história é simplória e nada há que destacar em termos de literatura senão a sua oportuna e não disfarçada denúncia de um período da vida brasileira em que a convivência social tornara-se tensa e monocórdica porque movida pelo medo. O seu pano de fundo, pois, é uma conjuntura político-social em que o diálogo entre as pessoas pautava-se mais pelo modo imperativo dos verbos do que pelo tom pluralizante e qualificador dos substantivos quando bem acompanhado dos adjetivos.

Talvez por isso é que o futebol (jogo assentado no diálogo coletivo que produz) entre na narrativa como um tema que se situa ambiguamente entre o interdito e o desejado. Como um veículo apropriado para opor e para juntar simultaneamente os lados díspares de uma realidade forçadamente monodimensional, aspecto que sobressai já no início da história, através da observação atenta do narrador:

“Da ponta da mesa levantando a taça de vinho tinto e contemplando o vasto cozido português meu avô sentenciava:

– Futebol e política não se discute. Muito menos à mesa”, diz, para em seguida completar em arremate de síntese:

“Naquele momento por um prazer quase sádico tudo o que meu velho avô português queria era justamente criar uma acachapante discussão à mesa provocando o genro com quem tinha menos afinidades e maiores diferenças”.

Não as afinidades, mas sobretudo as diferenças (sociais, econômicas, étnicas, de visão de mundo, valores etc) entre as pessoas é que serão postas à mesa, na agenda de reflexões que esta narrativa de ficção pode oferecer retroativamente ao leitor de hoje, já bem mais acostumado a lidar com elas como requisito fundamental para a convivência social no regime democrático, em contrapartida ao leitor de ontem, do tempo em que calar a boca era a atitude mais “recomendável” para sustentar o diálogo social, paradoxalmente baseado no silêncio.

“Eu digo isso e repito, eu digo!!! Não se discute à mesa e muito menos à minha mesa onde se preserva a educação e os bons modos, atributos que o senhor infelizmente não tem”.

Como foi já sugerido, o futebol parece ser o único elo que, nesta conjuntura pesada e amordaçante, tem o poder de ligar os vínculos pessoais (familiares ou não) mesmo que da forma explosiva que o ambiente sugere. Este detalhe não escapa ao narrador que, situado desconfortavelmente entre as figuras discrepantes do avô e do pai, funciona como um pêndulo para o qual converge a situação particular, historicamente colocada, da relação inescapável que o jogo das massas mantinha então com a política no Brasil. É desta posição, portanto, que o narrador acorre para completar:

“(…) Fato é que para o meu avô naquela altura do campeonato ter modos queria dizer torcer para o Santos Futebol Clube. (…) Ter modos naquele momento para o meu avô queria dizer gostar de algumas coisas que os militares vinham fazendo mas também que não se devia esquecer o legado e a herança da vassourinha de Jânio Quadros, apesar da renúncia em 1961”.

Dito isto, a partir daqui as oposições que informavam a realidade daqueles tempos de chumbo ficam inexoravelmente claras, na encenação figurativa dos dois personagens antagônicos: “Meu avô era Jânio e meu pai era Lott. Meu avô era Médici e meu pai era JK. Meu avô era Santos e meu pai era Corinthians. Meu avô era branco e meu pai era negro”.

O Brasil de então (e de resto, o próprio contexto mundial) parecia ser reduzidamente composto de apenas duas partes, dois lados, duas faces que sempre se opunham, porque aqueles eram tempos que não permitiam meio termo: ou se sonhava ou se encarava o pesadelo.

“Quando saíam essas brigas todos em volta da mesa ficavam calados, constrangidos, mortificados. As discussões destroçavam qualquer possibilidade de harmonia dominical e invariavelmente estragavam a sobremesa porque para arrematar meu avô sempre implicava com o jeito que meu pai sugava o café e se aborrecia com o cigarro barato que ele acendia logo em seguida”.

Esse, pois, era o clima com o qual o contista Ricardo Soares pretende, nesse texto ficcional, figurar um momento difícil da nação em que as pedras rolavam enquanto a bola corria. “Estava para começar a Copa do Mundo de 1970 no México. Para ser sincero eu não me lembro se naquela época tinha slow-motion, câmera lenta, replay ou qualquer dessas coisas. Do que lembro bem eram das discussões acaloradas entre meu pai e meu avô”.

Claro que essas discussões inicialmente tinham como mote o âmbito futebolístico, mas o que se quer lembrar aqui, neste conto, através do jogo de futebol – para além do ambiente de euforia criado no país com a perspectiva real da conquista do nosso terceiro título mundial -, é que a realidade de uma ditadura, pelas fissuras e rompimentos que provoca (até a fadiga completa da ambiência de convívio entre as pessoas), tem sempre como corolário duramente palpável o esgarçamento do tecido social. E, neste caso, nem o jogo mais querido dos brasileiros resolveria a parada. Senão, que até alimentava o contexto:

“- Essa Copa de 1970, esse time vai nos dar muitas alegrias – dizia o avô.

“- Eu não tenho tanta certeza assim. E de mais a mais se a gente levar os militares vão se aproveitar disso, vão usar a taça Jules Rimet para esconder todas as safadezas que vêm fazendo – respondia o pai”.

À parte a versão lugar-comum desse tipo de crítica ao aproveitamento político por parte do stablishment de plantão em relação às coisas do esporte, o diálogo acima, cujo teor nessa direção perpassa toda a narrativa assegurando a ela o seu vigor denunciativo, é bem paradigmático da maneira como, àquela época, o conteúdo dialético da natureza do futebol preenchia, no espaço privado das famílias, as lacunas deixadas pela a ausência  da discussão política no espaço público. Espaço público esse que sequer existia ou então era reduzido a sua minimalidade funcional.

“- Seu Gomes, não sabe o que está dizendo… tem muita gente aí sofrendo, apanhando, sendo morta porque não concorda com o governo.

“- Que sendo morta o quê!!! Isso é intriga de comunista. Este país é uma maravilha e está crescendo… veja aí você mesmo. Este país é uma benção. E ainda vamos ganhar esta Copa do Mundo.”

Bom, depois do clima de relativa tensão criado pelo narrador para informar o matiz plúmbeo do conteúdo político daqueles tempos, que, como já foi lembrado, perpassava inteiramente a conjuntura futebolística da realização de uma Copa do Mundo, seu acontecimento máximo, que os dois personagens aproveitavam para passar em revista certas divergências (a questão do general Médici querer escalar o time brasileiro, a substituição de João Saldanha – um comunista declarado – por Zagallo, “um bunda-mole”, na opinião do pai do narrador, etc), chega-se, enfim, a um momento de relativo relaxamento na trama. Afinal, o Brasil foi mesmo Tricampeão do Mundo em 1970. A despeito da oposição de uns e para o delírio de outros.

Do ponto de vista meramente formal, como de resto toda a narrativa, o seu final é cediço, previsível no seu encaminhamento de desfecho, e, portanto, dedutivamente lógico, o que não lhe tira certo tom irônico de arremate.

“Sim, senhoras e senhores. Ganhamos lindamente a Copa de 70 no México. Carlos Alberto fez o quarto gol contra a Itália, todos nós beijamos simbolicamente a taça Jules Rimet e éramos 90 milhões em ação. Um domingo depois da conquista da Copa toda a família foi fazer piquenique e passar o dia às margens da represa Billings, em São Bernardo do Campo. Meu avô – com a ajuda do meu pai e de um tio – tirou um velho barquinho de cima da perua Rural Willys. Entramos no barco e fomos fazer regatas como dizia o meu avô. Na volta trouxemos algumas tilápias. Saborosas mas repletas de espinhas. Como aqueles tempos. Comemos as tilápias fritas melando as mãos e lambendo os beiços. Não pensamos mais em futebol naquele domingo”.

SAIBA QUEM É O AUTOR.

Ricardo Soares nasceu em São Pauo, capital. É escritor, jornalista, roteirista e diretor de TV. Já dirigiu documentários para a TV Cultura, programas para a SESC TV e edita a revista Raiz, sobre cultura brasileira. É também conselheiro editorial e colunista da revista Rolling Stone e um dos criadores do programa Metrópolis da TV Cultura do qual fui o primeiro apresentador. Foi repórter do Caderno B do Jornal do Brasil e tomou parte da equipe fundadora do Caderno 2 do Estadão em 1986. No mesmo jornal foi cronista de 1993 a 1998. Desse ano até 2001 foi cronista do Jornal da Tarde. Dirigiu as redações das revistas TRIP e da extinta HV. De 1998 a 2005 dirigiu, escreveu e apresenteou “Literatura” e “Mundo da Literatura”, programas sobre o universo literário que continuam a ser reprisados pelo SESC TV. É co-autor das peças “Olho da Rua” e “Quatro Estações”. Tem vários livros publicados como Cinevertigem e os infanto-juvenis Valentão, o Brasil é feito por nós?; Dia de submarino e Falta de ar. O conto de futebol, Família, futebol e regatas, consta da coletânea 11 Histórias de futebol, da Editora Nova Alexandria, de São Paulo, que saiu em 2006.

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