Borges x Sábato: uma polêmica em torno da identidade nacional durante a Copa da Argentina

 

No presente post apresentarei um interessante debate entre renomados literatos argentinos sobre a efetiva importância do futebol e da realização do mundial para a ideia de nação argentina em 1978. Jorge Luís Borges[i] e Ernesto Sábato[ii], ícones da literatura latino-americana contemporânea, tinham posições divergentes em relação à organização do evento e a importância do futebol para a identidade nacional.

BORGES

A oposição do grande escritor Jorge Luís Borges ao futebol foi mencionada no Jornal do Brasil, na reportagem intitulada “O esporte segundo Borges”, do correspondente internacional do periódico durante o torneio Aluízio Machado:

A “Copa do Mundo é uma calamidade” e a psicanálise é “o lado obsceno da ficção científica são alguns dos conceitos emitidos pelo escritor Jorge Luis Borges, depois de receber o título de Honoris Causa da Universidade de Tucuman, na Argentina. Com isso aumenta ainda mais sua fama de intelectual capaz de dizer coisas que se não agradam a todo mundo, pelo menos trazem a marca inconfundível da originalidade.

Depois de dizer que “a Copa do Mundo felizmente passará”, definiu o futebol como “um esporte muito estúpido”.

– A organização do mundial só servirá par aumentar os preços. Por isso, durante o campeonato pretendo afastar-me de Buenos Aires, rumo a qualquer parte que não se fale em esportes.

Se seus conceitos sobre futebol causaram surpresa, maior efeito tiveram suas declarações sobre o boxe:

– É um lindo esporte. Gostaria de tê-lo praticado em minha juventude, pois está relacionado com a valentia das histórias de malandros e bandidos.

Tem também preferência pela briga de galos:

– São disputadas bem perto, ideais para um míope, (Borges está quase cego), Mas é claro não são um grande negócio, porque atraem pouca gente. Uns 100 espectadores no máximo. (JORNAL DO BRASIL, CADERNO B, 02 jun.1978, p. 3).

Sobre o posicionamento de Borges e sua repercussão na Argentina, Novaro e Palermo afirmaram[iii]:

Quien puso el dedo en la llaga de este entusiasmo argentino fue un Jorge Luis Borges sarcástico (revista Somos, 23 de junio de 1978): “no es posible que un país se sienta representado por los jugadores de fútbol. És como si nos representaran los dentistas. La Argentina tiene dos cosas que ningún país do mundo posee: la milonga y el dulce de leche. Que más identidad pretenden?

Lejos de lamentar que ni la milonga (que compartimos con los uruguayos) ni el dulche de leche (que compartimos con los brasileños) sean una exclusividad argentina no faltó quien recogiera el guante tomando en sério la boutade; desde el mismo médio, Polakovic sustuvo que, a Borges, “se le escapó el valor etnogenético de las emociones colectivas de ser nacional ; … las multidudes que eran um solo ser … La nación argentina entera, como ser viviente y palpitante, estaba presente en el estádio (2013, p. 163).

Apesar da provocação do importante escritor, o discurso que predominava nos periódicos argentinos estudados para a realização da minha tese sobre o mundial argentino alinhava-se com as afirmações do filósofo eslovaco radicado no país Estebán Polakovic, autor de um longo ensaio no Clarín “En el campeonato mundial, la presencia de lo nacional”. O texto trazia uma crítica direta a Jorge Luís Borges e defendia abertamente  Ernesto Sábato, que defendeu a realização do torneio:

No en vano insitia Ernesto Sábato, en sus novelas y sus ensayos, en el hombre concreto, que no és solamente animal, sino un ser espiritual que tiene sus necesidades de amistad, cariño y amor y que quiere sentir que no está solo en la vida. Pues bien, la nacíon és uno de los remédios contra la soledad del hombre. La nacíon dá la sensacíon al hombre del abrigo y protección cuya ausencia se siente al allarse lejos de la pátria aunque séa por vacaciones. Si nó, como explicar la alegria collectiva por el despliegue de las banderas o por la victoria deportiva que provoca las lágrimas y abrazos entre desconocidos? Digán lo que quieran los racionalistas que desprecian las emociones como algo indigno del hombre maduro, ellas forman parte del ser  humano integral  y concreto como la razón con sus razonamientos.

Por esto considero que Borges estava equivocado al condenar el fútbol. Borges es, indudablemente un grande valor cultural argentino, pero no por eso es certo todo lo que disse: se equivoca como cualquier persona humana y se equivocó en la valoracíon de la emocíon de las multitudes. En este caso se le escapo el valor etnogenético de las emociones colectivas del ser nacional argentino. No el fútbol en si (entiendase bien) que és una fuerza etnogenética, sino las vivencias colectivas que provoca: las angustias, las expectativas, las alegrias en las victorias y los silencios en las derrotas. Si Borges pudiera ter visto con sus ojos lo que vieron los ojos e todos los argentinos el 1 de junio al inaugurarse el Mundial, estoy seguro que habria escrito un poema que al testimonar la identificacíon con las multitudes que eran un solo ser en ese momento, hubiera para la posteridad ese acontecimento. No hay duda de que la Nacíon argentina entera, como ser viviente y palpitante, estaba presente en el Estádio Monumental. (CLARÍN, SUPLEMENTO CULTURA Y NACIÓN, n. 11.605, 22 jun. 1978, p. 6).

Partindo do conceito de homem concreto de Ernesto Sábato, que mescla o racional com o emocional, Polakovic utiliza metáforas para definir a Nação como o “remédio para a solidão humana”, o “abrigo” e a “proteção” do cidadão que se envolve em emoções coletivas simbólicas, de pertencimento comunitário, como as provocadas pelos esportes – no caso específico, o futebol com suas vitórias e derrotas, angústias e expectativas. Esse esporte despertaria, segundo o autor, “forças etnogenéticas”, que ensejariam a mobilização popular e o pertencimento nacional que para o filósofo não teriam sido enxergadas por Jorge Luís Borges.

Com a vitória na final contra a Holanda foi possível encontrar um discurso de transcendência da conquista futebolística, que poderia influenciar no futuro da nação e combater possíveis “frustrações históricas” do povo argentino, em declaração de Ernesto Sábato sobre o título:

Sábato dijo: Este mundial reveló que el pueblo argentino está ansiando hacer algo positivo, despues de infinitas frustraciones. Reveló un profundo sentimiento nacional aún en momentos de derrota como pasó con el partido frente a Itália, mostrando que ese sentimento no era sordidamente exitista, sino algo más profundo y noble.

Ojalá este merecido triunfo de nuestro equipo sirva para levantar el ánimo de nuestro pueblo para empresas mas transcendentes, para crear las bases de una Nacíon en sério, para permitirmos levantar un país, donde haya teléfonos que funcionen, hospitales que sirvan, maestros que sean honrosamente pagados y con techo. Ojalá que no nos escandilemos con el triunfo meramente deportivo y creamos que somos una gran nacíon. (CLARÍN, n.11.609, 26 jun. 1978, p.29)

As aspirações do escritor por uma macrotransformação social, a partir da mobilização popular intensa ocorrida em um triunfo esportivo, clamavam por uma nação mais “séria”, que pudesse valorizar a educação, a saúde pública, o sistema de comunicações e que, principalmente, acreditasse nas suas próprias possibilidades.

Predominava naquele momento apesar de vozes dissonantes como a de Jorge Luís Borges uma espécie de consenso tácito em torno da “fiesta de todos” e da importância da realização do evento para a nação argentina. A posição de Ernesto Sábato que nos anos oitenta teve uma importância enorme na luta pelos direitos humanos após o fim da ditadura militar, estava de acordo com o sentimento  coletivo integracionista propagado ao longo da realização do torneio.

Quem estaria mais cego, Borges ao não perceber a importância que o futebol tem como elemento de identificação nacional ou Sábato ao acreditar que a união em torno da seleção de futebol poderia impulsionar a criação de uma grande Nação?

ernesto-sabato

 

[i] Jorge Luís Borges (1899-1986), poeta e escritor, é considerado um dos maiores literatos contemporâneos. Nascido em uma família tradicional onde o pai era professor de inglês e psicólogo, desde muito novo já escrevia poemas e estórias além de dominar plenamente a língua inglesa. Chegou a morar na Suíça e Espanha durante a Primeira Guerra Mundial. Ao retornar a Buenos Aires, passa a colaborar com a criação de diversas revistas literárias. Em 1938 morre o pai do escritor, que começa a trabalhar como bibliotecário para se sustentar. Sofre também um grave acidente devido a um problema de visão que o acompanhará ao longo da sua vida fazendo com que Borges ficasse paulatinamente  cego e tivesse que ditar suas obras. Foi perseguido politicamente durante o governo peronista pelo fato da sua família se opor ao estadista, perdendo assim seu emprego e passando a viver de artigos e conferências. Com a saída de Perón em 1955, passa a ser exaltado civicamente recebendo diversos prêmios nacionais e internacionais e é empossado como diretor da Biblioteca Nacional. Com o retorno de Perón, em 1974, apesar do seu renome internacional, Borges é destituído do seu cargo de diretor. Em 1976 apoia publicamente o golpe militar contra “Isabelita” Perón, fato que teria maculado sua imagem no exterior e possivelmente evitado que ele recebesse o Prêmio Nobel de Literatura.

[ii] Ernesto Sábato (1911-2011) foi um importante escritor argentino, cuja obra literária é composta de três grandes novelas: El Túnel (1948) , Sobre héroes y tumbas (1961) e Abbadón, el exterminador, além de diversos ensaios literários. Formado em física e matemática, chegou a morar em Paris onde iniciou uma carreira como técnico científico mas acabou conhecendo escritores e pintores surrealistas como André Breton que influenciaram sua opção pela literatura. Exerceu o magistério na Universidade de La Plata mas também teve problemas com Perón e foi retirado de sua cátedra. Na década de sessenta acabou sendo reconhecido internacionalmente junto com outros escritores latino-americamos e se transformou em um ícone cívico e formador de opinião dentro da sociedade argentina a partir dos anos setenta. Opositor da ditadura militar na Argentina, apesar de ter apoiado inicialmente o golpe,  após o período do “Processo” que ele teria qualificado como “sombrio”, foi nomeado por Raul Alfonsín como presidente da CONADEP (Comisíon  Nacional sobre la Desaparicíon de Personas),  onde coordenou uma monumental pesquisa sobre os desaparecidos políticos no país. Era uma figura pública de elevado prestígio moral e teria afirmado para o jornal francês Le monde durante o torneio que “boicotear el mundial no sólo hubiera sido boicotear al gobierno sino también al pueblo de la Argentina que de veras no merece”.

[iii] NOVARO, Marcos; PALERMO, Vicente. Historia argentina: la dictadura militar 1976-1983: del golpe de Estado a larestauracíon democrática. Buenos Aires: Ed.Paidós, 2013.

 

 

 

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