Combate Histórico Medieval, um esporte moderno

por Maurício Drumond

O que faz um esporte? Uma pergunta que, a princípio, parece ser tão simples, pode nos levar a instigantes debates e acaloradas discussões. Afinal, o que faz de uma atividade física um esporte, ou o que a impede de ser categorizada enquanto tal, é um elemento arbitrário que não é compartilhado por todos. Vejamos algumas definições disponíveis:

O Conselho Europeu, em sua Carta do Esporte Europeu, de 1992, define esporte como “(…) toda forma de atividade física que, através de participação casual ou organizada, tenha como objetivo expressar ou aperfeiçoar a boa forma física e o bem estar mental, formando relações sociais ou obtendo resultados em competições em todos os níveis” (artigo 2, 1a).

Já as Nações Unidas, através de sua Força Tarefa Interagencial sobre o Esporte para o Desenvolvimento e a Paz, amplia um pouco essa definição, através de seu relatório de 2003, entendendo esporte como “todas as formas de atividade física que contribuem para a boa forma física, o bem-estar mental e a interação social. Estas incluem a brincadeira; a recreação; o esporte organizado, casual e competitivo; e esportes ou jogos indígenas.

Dentro do campo da História do Esporte, a maioria dos estudiosos foge a uma definição mais precisa do que se entende por esporte. Richard Holt, em uma das principais obras sobre a história social do esporte na Inglaterra (Sport and the British), evita uma definição mais precisa sobre o conceito, definindo-o como “uma atividade física agradável, que é geralmente organizada e competitiva, ainda que não necessariamente. Nenhuma linha clara foi traçada entre ‘esporte’ e ‘recreação física’ porque nenhuma é apropriada. Afinal de contas, a maioria das atividades pode ser jogada de diferentes formas e normalmente utilizamos a palavra ‘esporte’ para nos referir tanto ao jogo casual como aos mais altos níveis de desempenho” (p. 9-10).

Já Victor Melo, em seu livro “Esporte e lazer: conceitos: uma introdução histórica”, ancora sua definição de esporte no conceito de campo de Pierre Bourdieu. Por conseguinte, uma atividade física se enquadraria no campo esportivo ao se enquadrar em quatro quesitos: a) organizar-se em instituições representativas (como clubes, federações ou confederações); b) reger-se através de um calendário próprio de competições, encontros ou demais; c) abranger um corpo técnico especializado (técnicos, treinadores físicos, médicos, advogados); e c, no caso, de produtos ditos esportivos, ainda que não necessariamente ligados à prática de esporte.

Todo esse debate introdutório nos serviu para refletir sobre uma prática corporal moderna, de profunda inspiração histórica: o Combate Histórico Medieval. Sim, nesse novo candidato a esporte moderno, pessoas portam armas e vestem armaduras medievais e lutam em combates [moderadamente] controlados.

O Combate Histórico Medieval (ou apenas Combate Medieval) é interessante por diversos motivos. Por um lado, poderíamos olhar para a atividade como um modelo de representação de um imaginário sobre a Idade Média. De acordo com as normas da Federação Internacional de Combate Medieval (International Medieval Combat Federation, ou IMCF), “todas as armas utilizadas nos comb

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ates da IMCF devem ser análogas aos originais históricos. Uma arma utilizada também deve ser do mesmo período e da mesma região da armadura de seu portador” (IMCF Original Rules, 1.2.1). Ou seja, a busca de uma suposta fidedignidade histórica se apresenta como uma das principais características da atividade.

E não para por aí. Além de duelos de espadas e outras armas, há também lutas de grupos, chegando até ao enfrentamento de pequenos exércitos, na modalidade 16 contra 16.

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No entanto, a prática pretende se enquadrar no que se entende contemporaneamente como um “esporte”. Para tanto, é possível ver lutadores de duelos se cumprimentando ao início do combate (ver https://www.youtube.com/watch?v=GSJgPVQJGyk), regras, federações e equipes nacionais.

E aí reside um outro ponto de interesse do Combate Medieval, sua caracterização, ou não, enquanto esporte. Para tanto, seria necessário, em primeiro lugar, buscar uma definição de esporte, como fiz acima. Dessa forma, podemos analisar o Combate Medieval dentro dos parâmetros da teoria de campo de Bourdieu:

a) Organização em instituições representativas 

O Combate Medieval possui diversas instituições representativas espalhadas pelo mundo. Além da já mencionada IMCF, diversas organizações locais e nacionais estão ligadas à prática. A Historical Medieval Battle International Association, organizadora do “Battle of the Nations” (Batalha das Nações), principal campeonato internacional conta com a participação de equipes de 33 países, com variados números de participantes. Já a IMCF conta com 18 países membros.

IMCF

Há também uma série de organizações menores, como a M1, que organiza uma espécie de MMA medieval, no qual os lutadores se enfrentam, com armas e armaduras, em um tipo de octógono, como na imagem abaixo:

M1

 

b) Calendário próprio de competições, encontros ou demais

As organizações de Combate Medieval possuem calendários próprios e competições internacionais periódicas. Em 2017, o campeonato mundial da IMCF será realizado entre 25 e 28 de maio, na Dinamarca. A edição de 2016 ocorreu em Portugal, tendo sua primeira edição sido realizada em 2014, na Espanha. Já a “Battle of the Nations”, realizada de 29 de abril a 01 de maio, em Barcelona.

Os eventos trazem toda a simbologia do esporte moderno, ligadas à imagética e ao simbolismo medievais. Bandeiras, medalhas e troféus fazem parte do evento, além da presença de torcedores e de símbolos diversos representando as nacionalidades envolvidas, como nas imagens abaixo:

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Vencedor Russo não identificado, em foto disponível na página do evento em rede social.

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Torcedores (e competidores?) dos Estados Unidos, carregam seus símbolos nas roupas e nos escudos.

c) Corpo técnico especializado

Além dos fabricantes de armas e armaduras, que teoricamente devem seguir especificações bem definidas de local e período de origem, há também um grupo de treinadores e de outros especialistas. Conforme a popularidade da prática for aumentando, sua eventual profissionalização pode levar a profissionais mais especializados e destacados.

d) Mercado específico ao seu entorno

Ainda que esteja em seus momentos iniciais, já podem ser notados alguns empreendimentos no mercado do Combate Medieval. Na página da “Battle of the Nations”, a empresa “Age of Craft” aparece como parceira, comercializando armas, armaduras e roupas ligadas ao evento. Assim como ela, outros devem existir e tendem a crescer com a maior repercussão da atividade.

E então, se convenceu de que o Combate Histórico Medieval pode ser considerado um esporte em seus primeiros passos? Ou ainda não? Bem, estabeleça seu conceito de esporte e teça seus argumentos. Que tenhamos um bom debate.

 

 

 

 

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