Futebol e Migração entre Portugal e França

 

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Pelo alcance global, muito se pode estudar sobre a migração das pessoas e o reflexo disso no Futebol. Aproveitando a minha relação com os dois países, aproveito para refletir um pouco sobre a relação entre Portugal e França. Os portugueses que moram na França e franceses de origem portuguesa são consumidores ávidos de informação desportiva. O dia-a-dia do campeonato português é mais acompanhado que a atualidade política e cultural. Para se ter uma idéia da importância do futebol na cultura lusitana na França, estima-se que existem 1000 clubes portugueses no país, sendo que, atualmente, cerca de 200 possuem uma referência a Portugal nos seus nomes.

Ambos os países partilham uma grande história de migração. A vida dos portugueses no território francês foi muito bem retratada (dada as concepções necessárias para um filme de ficção) e bem-recebida por crítica e público  no filme “A Gaiola Dourada”. O filme conta a história de um casal de emigrantes portugueses em Paris, o seu relacionamento com os filhos e o sonho de voltar ao país de origem em contraste com as realidades atuais. Somado ao contexto de uma nova onda de saída do país, o filme trouxe, novamente, ao debate o tema da emigração e do sentimento de integração nacional.

No caso do esporte, podemos traçar um paralelo com a vitória da seleção portuguesa no Euro 2016 e o título do Mônaco, liderado pelo madeirense Leonardo Jardim. A emigração de jogadores e treinadores formados no país tem sido um dado corrente desde o fim dos anos 90, com a livre circulação de mão-de-obra dentro do Espaço Europeu, mas que vem ganhando especial destaque no futebol graças ao sucesso alcançado por lusitanos, tal como Cristiano Ronaldo e José Mourinho – para ficar com os mais emblemáticos apenas.

Mesmo sabendo que atletas e treinadores de alto rendimento não são os melhores representantes dos trabalhadores “normais”, Leonardo Jardim, treinador do Mônaco, talvez tenha sido quem mais sentiu a experiência de um imigrante português, na França. Mesmo tendo conseguido bons resultados, ele continuava a ser estigmatizado pela forma como falava francês e era alvo de sátiras na televisão. O ápice foi quando, questionado por jornalistas, disse que como português poderia ganhar o prêmio de espátula dourada (em alusão aos muitos trabalhadores nas obras de origem portuguesa), mas não o de melhor treinador.

Se é possível traçar um paralelo entre Leonardo Jardim e o personagem do Pai no filme, os filhos são representativos das novas gerações, que tendo origem portuguesa, já nasceram na França e residiram toda a vida no país. Isso provoca uma identidade híbrida e um sentimento de pertença mais complicado de gerir. Os emigrantes que foram para França nos anos 1960 e 1970 apoiaram mais a seleção portuguesa durante o Euro 2016, enquanto a escolha é mais difícil para as novas gerações, pois há uma divisão entre ser fiel ao país dos seus pais e onde passam férias constantemente ou apoiar o país que os acolheu e onde vivem. Em linhas gerais, o que se nota é que os jovens, que estão mais inseridos na sociedade e na economia, têm uma maior simpatia pela seleção francesa, enquanto aqueles que se encontram numa posição mais marginal, terão uma proximidade maior com sua pátria de origem – por mais mistificada que seja essa relação.

No cenário europeu, há ainda mais um fator que torna a análise mais complexa (ou interessante). O campeonato de seleções, o Euro, acaba servindo como reflexo de uma Europa mais tradicional, nacionalista e, por vezes, xenófoba. Por outro lado, a Liga dos Campeões oferece uma visão da Europa capitalista liberal, que ultrapassa fronteiras nacionais, circulando capital e trabalhadores em nome do sucesso transnacional.

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