Cápsula do Tempo

André Alexandre Guimarães Couto

Quase todo um mundo conhece uma cápsula do tempo. Recipiente de diversos formatos, tem o objetivo intencional ou não de deixar para a posteridade ou para quem quiser , informações relevantes da sociedade e dos grupos humanos de determinado período da História.

Quem, inclusive, quiser visualizar a abertura de uma no Rio de Janeiro em 2022, na frente do Museu Nacional (UFRJ), localizado na Quinta da Boa Vista, no bairro de São Cristóvão, está prevista a abertura de uma que foi enterrada em 1972.

Cápsula do tempo enterrada nos jardins do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, em São Cristovão (Foto: Káthia Mello/G1)

Fonte: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/rio-450-anos/noticia/2015/03/g1-revela-tesouros-escondidos-do-rio-nos-450-anos-da-cidade.html&gt;.

Para William Jarvis (2002), a cápsula intencional oferece para os pesquisadores pouca informação útil, pois não conta a história das pessoas da época, ou mesmo de quem produziu a própria cápsula, sem falar na deteriorização dos objetos enterrados.

Muito comum nesta cápsula é o uso de jornais da época e para tanto, o plástico ao redor do papel é utilizado para a sua respectiva preservação.

Pensando nisso, fiquei imaginando sobre o que poderíamos selecionar hoje no meio jornalístico esportivo para incluir em uma cápsula para ser aberta daqui a 50 anos. Exercício interessante, mas decidi fazer o inverso. Se formos abrir uma hoje, enterrada há 50 anos, o que acharíamos?

Ou seja, o que interessou a imprensa esportiva (no caso a carioca), no dia 14 de agosto de 1967? Utilizamos, então, o Jornal dos Sports (JS). Vejamos, então, o resultado:

Em pleno regime militar, com poucos meses do Governo Costa e Silva, a imprensa esportiva do Rio de Janeiro ocupava-se do campeonato carioca. A Taça Guanabara disputada naquele ano era o torneio do qual o Jornal dos Sports (JS) mais se concentrava. A principal manchete garrafal dizia:

América afasta Vasco da Taça

Com um público pagante de 70.146, o jogo terminara 3 x 1 para o time rubro (gols de Edu e Eduardo, que fizera 2, e Paulo Bim para o Vasco). Interessante é que o registro do público acrescentava que além dos pagantes, assistiram 9.776 menores de idade, totalizando 79.922 expectadores. Não há notícias dos demais (cadeira cativa, por exemplo), nem se existiam alguma gratuidade. Chama a atenção a presença do público infantil em grande quantidade, além da própria totalidade dos números de público presente.

Desta forma, como dia 14/08 era uma segunda-feira, a cobertura do domingo do futebol carioca era o grande tema para o JS. Mas, cabem duas informações para compreendermos o torneio: 1) as competições regionais deste período iniciavam em julho e terminavam em dezembro. 2) a Taça Guanabara não era o primeiro turno do campeonato carioca, mas considerada um torneio a parte ou ainda um pré-torneio do campeonato carioca. Em 1967, fora disputada pelos 6 times mais tradicionais da cidade: Vasco, Fluminense, Flamengo, Botafogo, América e Bangu. Na final, Botafogo vencera o América, conforme podemos visualizar no vídeo abaixo:

 

 

Os demais, clubes com menores investimentos (Bonsucesso, São Cristóvão, Campo Grande, Portuguesa, Olaria e Madureira) disputavam um torneio similar chamado de Taça José Trócoli.

Nelson Rodrigues em sua crônica escrevia que: “Amigos, ontem, à saída do Estádio Mário Filho, dizia-me um americano: – ‘Você precisa escrever sobre o América! Basta de Fluminense’. Achei graça e passei adiante. Mas claro que não basta de Fluminense. O tricolor continua sendo um destes assuntos obsessivos e eternos. Todavia, o América merece que eu abra, hoje, com o seu nome e com sua vitória (…).” Nelson Rodrigues enfatizava sua paixão pelo time tricolor e aproveitava para valorizar a rivalidade com o Vasco ao apontar uma vitória convincente do América, clube que segundo ele era importante, mas estava passando por dificuldades para se manter na elite do futebol carioca.

Interessante é perceber que neste ano inexistiu um clube do interior na disputa das principais competições do estado do Rio de Janeiro.

O JS ainda na sua capa apresentava o principal resultado do campeonato mineiro: “Atlético derrota América” e as notícias do campeonato paulista viriam publicadas apenas na página 2. Hierarquização entre Minas Gerais e São Paulo, no interesse do público carioca? Leviano afirmar isso, sem pesquisar as fontes com mais cuidado, mas poder uma boa pista.

Na página 6, destaque para o futebol amador com a final do campeonato Série IV Centenário, realizado em Santa Cruz (zona oeste do Rio de Janeiro). Matéria de quase meia página e com destaque para o andamento do jogo e com imagem dos jogadores em disputa.

Não confundir, todavia, com o campeonato de peladas, torneio promovido pelo jornal, disputado nos campos do Aterro do Flamengo.

Apenas na página 7, uma matéria sobre a participação das modalidades aquáticas do Brasil nos Jogos Panamericanos de Winnipeg (Canadá) que havia terminado em 6 de agosto. Dentre as principais críticas do jornal, a denúncia de que a equipe de saltos ornamentais não tinha técnico e o waterpolo só viajara com um goleiro (ainda assim, conseguira a medalha de prata), sem falar nos maus resultados do remo (apenas uma de medalha de bronze).

Finalmente, na penúltima página, os resultados do turfe, tradicional espaço publicado desde a criação do jornal (1931).

Bem, este post bem descritivo não tem apenas o objetivo de pensar uma análise do que fora publicado no JS há 50 anos, mas também de compreendermos a necessidade de analisarmos melhor o espraiamento do futebol em suas diversas camadas de organização (só por aqui, vimos 4 delas); as críticas ao esporte brasileiro que representava o país em eventos olímpicos (além, é claro, da sua própria capacidade organizativa), a longevidade e importância do trabalho de Nelson Rodrigues assim como a descontinuidade dos textos subjetivos de múltiplos cronistas que atuaram na década anterior no próprio jornal. E ainda a relação do JS com outros veículos de comunicação como a televisão pois era comum a propaganda de programas como o de J. Silvestre na TV Rio, por exemplo.

Ou seja, possibilidades múltiplas para compreendermos o esporte por meio da imprensa, para além de sua restrita descrição.

 

Referências:

JARVIS, William. Time Capsules: A Cultural History. McFarland, 2002.

JORNAL DOS SPORTS. N.º 11.934. Rio de Janeiro. 14 de agosto de 1967.

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: