Muito além de Neymar: o Catar e o investimento no Paris Saint-Germain como forma de projeção internacional

 

Por Maurício Drumond

Na quarta-feira passada, o mundo do futebol parou para assistir o primeiro duelo entre duas das maiores potências do futebol mundial: Real Madrid x Paris Saint-Germain. Na imprensa, muito se falou (e ainda se fala) da disputa implícita entre Cristiano Ronaldo e Neymar, dois dos maiores postulantes ao prêmio de melhor jogador de futebol do ano da FIFA. A vitória por 3 a 1 do Real Madrid, com dois gols de Cristiano Ronaldo, e a não destacada atuação de Neymar teriam supostamente dado a vantagem ao jogador português nessa disputa. Mas o segundo jogo, agora em Paris, ainda poderia mudar esse quadro.

Esse tem sido o principal destaque dado ao jogo na grande mídia, mas não é o ponto que me interessa nesse artigo. Outra disputa implícita no confronto da semana passada me parece ser mais interessante. A disputa entre dois modelos de representação nacional através de clubes de futebol. De um lado o modelo representado pelo Real Madrid Club de Fútbol, onde o sucesso esportivo de uma equipe é por vezes mobilizado em prol do prestígio nacional. Do outro, um novo modelo de projeção nacional baseada no esporte, capitaneado pelo Catar através do clube Paris Saint-Germain.

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Peça publicitária do jogo das oitavas-de-final da Liga dos Campeões da UEFA, ressaltando a disputa entre Cristiano Ronaldo e Neymar.

O primeiro modelo, que pode ser visto como “tradicional” dentro dos estudos do esporte, é em geral atribuído ao papel desempenhado por uma seleção nacional ao representar seu país, mas em determinados casos pode ser identificado com um clube específico, no caso o Real Madrid, com alto desempenho internacional e forte apelo nacional. Muitos estudos já se dedicaram a esse modelo de projeção nacional através do esporte, sendo por vezes associado ao estudo de identidades nacionais de nacionalidades não soberanas, como no caso de Barcelona e a identidade catalã ou do Athletic Club (de Bilbao) e a identidade basca.

Já o segundo modelo, que pode ser visto como “novo” e, por isso, objeto de ainda poucos estudos, merece maior atenção. No Brasil, a presença do Catar nos esportes foi mais profundamente notada no momento da negociação de Neymar com o Paris Saint-Germain, envolvendo valores até então nunca vistos no futebol. No entanto, a atuação do pequeno país do Oriente Médio vai muito além e se iniciou muito antes do contrato com o craque brasileiro. É mais especificamente sobre essa atuação do Catar no mundo do futebol internacional e sua proposta de reconhecimento e prestígio através do clube francês que esse texto se aventura.

Catar e o Futebol Internacional

O Catar é um país soberano do Oriente Médio, situado na costa oriental da Península Arábica. O país é governado por uma monarquia absoluta hereditária, liderada pela família Al Tahani. Sua população é estimada em cerca de 2,6 milhões de habitantes, dos quais apenas cerca de 12% são de nacionalidade catari (pouco mais de 300 mil). Sua economia, como era de se esperar em um país da região, é altamente dependente da produção de petróleo e gás natural. E o envolvimento do país com o esporte está diretamente ligado à sua intenção em diversificar sua economia, tendo em vista a finitude de seus ainda vastos campos petrolíferos. Mas como veremos adiante, essa ligação vai além disso.

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Mapa da península Arábica. Fonte: Google Maps.

O envolvimento do Catar com o esporte internacional não é recente e nem se limita ao futebol. Antigo protetorado britânico que ganhou sua independência somente em 1971, o país fundou seu Comitê Olímpico em 1979 e enviou atletas para os Jogos Olímpicos pela primeira vez em 1984, em Los Angeles. Em 1988, foi sede da Copa da Ásia de futebol masculino e em 1995 da Copa do Mundo FIFA Sub-20. No entanto, em 2004 o país decide começar a investir de forma mais pesada em esportes. A partir de eventos esporádicos, pode ser visto um aumento expressivo e continuado de realização de grandes eventos esportivos internacionais, culminando na futura realização da Copa do Mundo FIFA de futebol masculino de 2022.

Apesar de sua pequena população de nacionais, o país já conquistou quatro medalhas de bronze nos Jogos Olímpicos de verão, mais do que seu influente e proporcionalmente populoso vizinho, a Arábia Saudita. Dos quatro, apenas as duas medalhas obtidas em Londres 2012 (no tiro e no salto em altura, masculinos) foram conquistadas por nacionais catari. As outras duas foram resultado da política de nacionalização de atletas, que afeta diversos esportes do país, como o próprio futebol. Entre os jogadores mais convocados pelo técnico uruguaio Daniel Carreño para os jogos pela eliminatória da Copa do Mundo de 2018, pode-se encontrar mais de um time formado por estrangeiros naturalizados, como brasileiros Rodrigo Tabata e Luiz Junior (Ceará). A estratégia não é nova, e jogadores mais famosos como Emerson Sheik e Araújo já defenderam a seleção catari, mas a proximidade da Copa de 2022 no país, na qual o Catar já está classificado por ser país sede, intensifica ainda mais o processo. O mesmo ocorreu no handebol, onde o país sediou a Copa do Mundo do esporte em 2015 e montou uma equipe com grandes jogadores naturais de outros países, terminando na segunda colocação do evento.

A política de naturalização de atletas tem alcance limitado, especialmente no futebol, onde a FIFA impôs a regra de que no caso de um atleta já ter jogado pela seleção profissional de um país, não pode atuar por outro, a não ser em casos muito específicos como o de Kosovo (ver post).

Além de buscar o sucesso de suas equipes nacionais, o governo do Catar também busca associar a imagem de seu país com times de sucesso internacional como o Barcelona e o Paris Saint-Germain (PSG). As relações do Catar com esses clubes se deram principalmente através da agência Qatar Sports Investments (QSI), um ramo de investimentos no esporte da Qatar Investment Authority, um fundo soberano do país. Em 2011, a QSI firmou um acordo de patrocínio de camisa com o Barcelona FC, que deu fim à tradição do clube catalão de não utilizar patrocínios comerciais em suas camisas (o clube utilizava o logo da Unicef desde 2006), através da empresa Qatar Foundation, que em 2013 foi substituída pela Qatar Airways, até meados de 2017.

 

Catar e o PSG

Já com o PSG, a ligação foi ainda mais profunda. Em 2011 a QSI comprou o clube e colocou seu CEO, Nasser Ghanim Al-Khelaïfi, como presidente do clube. Al-Khelaïfi é um ex-atleta de tênis, próximo ao xeque Tamim bin Hamad Al-Thani, Emir do Catar. Além de presidente da Federação de Tênis do Catar e diretor da Confederação de Tênis da Ásia, além de ser ex-diretor da rede Al Jazeera. A gestão de Al-Khelaïfi tinha como maior propósito alçar o PSG para a elite do futebol europeu, e para isso foram realizadas diversas contratações de grande peso para a equipe, como as de Neymar (€222 milhões) e Mbappé (€180 milhões), ambas em 2017, entre muitas outras, totalizando mais de 1 bilhão de euros desde 2011. E isso apenas em contratações.

Mas por que o Catar, através da QSI, investiu tanto no futebol, ainda por cima em um clube francês, radicado em Paris? Certamente que não foi apenas para promover o turismo no país. Da mesma forma que o Brasil não gastou R$ 1,4 bilhão no estádio Mané Garrincha, em Brasília, R$ 583 milhões na Arena Pantanal, em Cuiabá, ou R$ 400 milhões na Arena Amazônia, em Manaus, simplesmente para atrair mais turistas para as cidades após a Copa de 2014. Então, quais seriam as possíveis razões que teriam influenciado o Catar a investir tanto no PSG?

Uma das chaves para se compreender o alto investimento catari nos esportes, e mais especificamente no PSG, é a necessidade de diferenciação do país em relação a seus vizinhos do Oriente Médio. O esporte é um dos meios pelos quais o país busca ganhar reconhecimento internacional, seja através da organização de grandes eventos, como a Copa do Mundo de 2022, seja com o patrocínio estampado nas camisas do Barcelona, ou com grandes e chamativas contratações de sua própria equipe na França, o PSG. Ações de branding como essas proporcionam acesso de sua imagem a um mercado mundial de espectadores/consumidores, demonstrando poder econômico, político e cultural.

No caso do Catar, significa ter seu país conhecido não apenas como mais um país boiando no petróleo do Golfo Pérsico, mas como um país cosmopolita, em modernização, mais próximo dos valores culturais ocidentais (ainda que apenas na aparência), elementos profundamente identificados com o esporte. Além do esporte, outros símbolos do Catar que atuam nessa mesma direção são a Qatar Airways, uma das empresas aéreas de maior crescimento nos últimos anos, e a rede Al Jazeera, que desde 2006 passou a ser também transmitida e publicada em inglês, aumentando o seu alcance e dando à rede uma imagem de rede internacional, como uma alternativa à grande mídia ocidental. A rede conta desde 2003 com um canal de esportes, que foi renomeada como beIN Sports em 2012. A transmissão dos principais eventos esportivos, especialmente de futebol, contribuíram muito para essa nova imagem.

James M. Dorsey, chega a afirmar que “o soft power é chave na estratégia de defesa e segurança do Catar”, uma vez que devido à sua diminuta população, o país nunca terá força militar para se defender militarmente, independentemente do equipamento bélico que comprar ou do número de estrangeiros que recrutar para suas Forças Armadas. Ele complementa afirmando que “o esporte é central para uma estratégia de soft power delineada para inserir e popularizar o Catar na Comunidade Internacional, de forma a garantir que o mundo venha em seu auxílio em tempos de necessidade, como no caso da força liderada pelos EUA que expulsaram tropas de ocupação iraquiana do Kuwait em 1990” (link para o artigo de Dorsey).

A projeção internacional gerada por sua participação no futebol seria assim um dos meios utilizados pelo Catar nessa iniciativa de construir soft power. Mas nem tudo são flores. O Catar ainda enfrenta diversas denúncias que vão de encontro à imagem de nação moderna e pacífica que o país procura transmitir, como acusações de financiamento de grupos extremistas islâmicos, de compra de votos para sua escolha como sede da Copa do Mundo de 2022 e de violação de direitos humanos devido a condições extremamente precárias de trabalhadores imigrantes não qualificados – de que trabalhariam em regimes análogos à escravidão. Localmente, o país ainda enfrenta a oposição de vizinhos importantes, uma vez que Arábia Saudita, Egito, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Líbia, Iêmen e Maldivas romperam relações diplomáticas com o governo de Doha e ligações de transporte com o país por um suposto apoio que este estaria dando a grupos extremistas islâmicos. Nesse cenário, o esporte funcionaria como um símbolo de modernidade, estabilidade e paz.

O sucesso do PSG seria assim um dos eixos da política internacional catari de projeção internacional. Neymar seria um importante garoto propaganda, mas a proposta vai além disso. Envolve a criação de uma marca internacional de sucesso. Mas para concluir seu grande objetivo, ainda falta um importante passo para o PSG, a conquista da Liga dos Campeões da UEFA. E para isso o duelo de volta contra o Real Madrid será fundamental. Estaremos acompanhando.

 

Para saber mais:

Dorsey, James. Qatar’s sports-focused public diplomacy backfires. The Turbulent World of Middle East Soccer [online], 03 fev. 2014.

REICHE, Danyel. Investing in sporting success as a domestic and foreign policy tool: the case of Qatar. International Journal of Sport Policy and Politics, 2014.

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