AS NOITES DANÇANTES DE BANGU

Nei Jorge dos Santos Junior

A noite de sábado do dia 27 de janeiro de 1923 foi marcada por comemorações no bairro operário de Bangu[1]. O baile a fantasia das Sociedades Dançantes Prazer das Morenas e Flor da Lyra movimentaram a região, nos quais membros e simpatizantes das “queridas sociedades” tiveram muitos momentos de diversão até alta madrugada[2]. Pelo lado do Prazer das Morenas, adjetivos como “sucesso”, “grandiosa” e “brilhante” definiram o evento em homenagem às Sociedades Dançantes Suburbanas, destacando, principalmente, a comissão de festas do clube, composta pelas senhoritas Herondina Freire, Adelina Gama, Alice Teixeira, Erresedina Parada, Nair Oliveira e as irmãs Noêmia Guimarães e Benedicta Guimarães[3].

Além da organização, formada sempre por mulheres, indicando um protagonismo feminino no preparo dos bailados, que recebera, aliás, aplausos e elogios das diversas colunas de entretenimento que ali cobriam a festa, outras questões também chamaram a atenção dos jornais[4]. A primeira delas, o entusiasmo dos convidados, “abrilhantados” pela “Caravana Musical”, dirigida pelo Maestro Tenente Gentil Pereira Gonçalves, que não deu trégua aos frequentadores, transformando o baile a fantasia, na opinião de alguns cronistas, o melhor festejo realizado até o momento pela “estimada sociedade”[5]. Certamente, o bairro há de se orgulhar do brilhantismo que compõe a comissão de festas, “constituindo uma das notas mais vibrantes das pugnas carnavalescas da aprazível localidade”, sinalizou o entusiasmado redator do periódico O Imparcial[6].

Nos intervalos das contradanças, houve um leilão de prendas, doadas pelo Sr. José Costa, mais conhecido no bairro como “José Pião”[7]. O segundo ponto, está no especial “lunch” aos representantes da imprensa, além de brindes e uma contradança especial oferecida pelas “gentis morenas” da comissão[8], o qual revela certa ambiguidade na relação imprensa e agremiações populares, que será tratada com maior profundidade mais adiante.

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Entre os membros da Flor da Lyra a paixão parecia ainda maior, destacaram os periódicos[9]. A festa teve início às 20h, na “lindíssima” sede do marco 6, em Bangu. Rapidamente o baile lotou, não só com a “enorme presença das principais famílias da localidade como de toda circunvizinhança”[10]. Afinal, a festa foi “abrilhantada” pela orquestra do maestro Gastão Bomfim, “que não deu uma folga sequer nas contradanças até alta madrugada”[11].

O baile seguia “extraordinário”[12]. Para o cronista do Jornal do Brasil, “os inúmeros pares mal conseguiam se movimentar no vasto salão, lindamente engalanado e iluminado por centenas de lâmpadas multicores”[13]. Compartilhando da mesma opinião, o cronista do jornal O Imparcial vai além, para ele “é de lamentar-se o salão não ser cinco ou seis vezes maior, devido a entusiasmada animação que despertam os bailes da Flor da Lyra”[14].  Por fim, como uma espécie de “mimosidade”[15], os cronistas foram agraciados com uma bela valsa, lavrada pelo aplaudido maestro Gentil Gonçalves.

Àquela altura, já eram muitas as pequenas sociedades voltadas para o lazer nos subúrbios da cidade. Para além das homenagens expostas acima, tratava-se de mais um dos muitos bailes ofertados mensalmente pelos diversos clubes da região, os quais mereciam a cobertura dos principais órgãos da imprensa carioca, entre eles, O Imparcial, a Gazeta de Notícias, O Paiz e o Jornal do Brasil.

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Além de revelar o espaço cada vez mais privilegiado que os veículos dedicavam aos festejos suburbanos, as “brilhantes festas”, parafraseando o termo utilizado por vários autores que cobriam os bailes, são importantes indicadores para compreendermos o universo de entretenimento nos arrabaldes da cidade. Ali, festejavam homens e mulheres coletivamente, em sociedades espalhadas por diferentes bairros, produzindo uma infinidade de práticas, linguagens e costumes. Através delas, podemos desvendar teias de sociabilidade expressivas nas disputas por legitimidade e na atribuição de significados, analisando as tensões latentes sob os sentidos e representações de diversão à moda suburbana.

Não por acaso que o número de festas em Bangu já se mostrava um relevante hábito social consolidado. Afinal, como sustenta Pereira, fala-se dos bailes suburbanos, capazes de desertar o entusiasmo dos moradores se transformando em elemento fundamental da experiência de seus pares[16]. Contudo, é importante chamar a atenção que essa relação não deixou de ter seus matizes, tampouco esvaziado de contradições. Na verdade, como já tratado em outros textos no blogue, é justamente sobre essa relação tênue e dúbia que merece atenção, não somente referente às oscilações da grande imprensa e suas representações sobre o comportamento suburbano, notadamente pelos discursos de subtração dos bárbaros folguedos tradicionais, como também a demarcação de grupos mais apropriados e bem colocados incorporados a um desenho hierárquico do conjunto das manifestações populares.

[1] Jornal do Brasil, 27 de janeiro de 1923, Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923; O Paiz, 27 de janeiro de 1923; Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1923.
[2] Jornal do Brasil, 27 de janeiro de 1923, Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923; O Paiz, 30 de janeiro de 1923; Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1923.
[3] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923 e Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1923.
[4] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[5] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[6] O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[7] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[8] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[9] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923; O Imparcial, 30 de janeiro de 1923; O Paiz, 30 de janeiro de 1923.
[10] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923.
[11] Ibid.
[12] O Imparcial, 30 de janeiro de 1923.
[13] Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1923.
[14] Ibid.
[15] Ibid.
[16] PEREIRA, L. A. M. O Prazer das Morenas: bailes ritmos e identidades no Rio de Janeiro da Primeira República. In: MARZANO, A. e MELO, V. Vida Divertida: histórias do lazer no Rio de Janeiro (1830-1930). Rio de Janeiro: Apicuri, 2010, p.276.
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