Bola no asfalto (Ballon sur Bitume, França, Jesse Adang, 2016)

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“Sempre haverá um garoto que adora jogar futebol e que sonha em viver disso” (Bernard Diomèd, selecionador da equipe francesa sub 17).

“De cinco mil garotos só um se profissionaliza. De cem garotos num centro de treinamento oitenta e seis saem aos 16 anos, sem qualquer diploma ou habilitação” (Ferhat Cicek, técnico de futebol).

“O desenvolvimento do futebol profissional pelo mundo afora deve muito às peladas disputadas nas ruas da França” (Sinopse promocional do filme, disponível em: https://www.netflix.com/br/title/80184974. Consultado em 11/03/2019).

 

Bom início de ano, após os feriados momescos, caro leitor!

Hoje faremos um breve comentário sobre o documentário intitulado Bola no asfalto, produção francesa de 2016. As três citações acima servem-nos de guia. Cada uma delas expressa, além do seu conteúdo manifesto, linhas marcantes na condução narrativa da obra. A película consiste em uma série de depoimentos e imagens de peladas e torneios de futebol de rua e futebol de salão. Sempre em algum subúrbio ou departamento francês, com imensa maioria de jovens e atletas negros e imigrantes diversos. De cara já nos apresenta uma paisagem urbana, étnica e social menos conhecida e difundida da capital e do país em questão. Entre outros aspectos deparamo-nos com o mundo de um futebol comunitário, juvenil, jogado com regras mais flexíveis e adaptado às condições e limitações de equipamento. Bem próximo às nossas peladas, à moda Bangu, ao golzinho marcado com havaianas …

Não obstante, se pudermos generalizar a exposição narrativa do filme, a organização, profusão e capilaridade desse futebol espetacular e popular parece se mostrar incrivelmente pujante. Na verdade, parte de uma cultura juvenil (que incluí o Rap, estilos visuais) enfronhada em comunidades pobres e periféricas. É disso que a obra trata.

Relativamente às epígrafes acima, podemos desenvolvê-las nas suas respectivas matizes, que compõe a costura discursiva em jogo. A primeira se refere a uma dimensão lúdica do jogo (qualquer jogo) e, no caso, especificamente do futebol (modalidade que já demonstrou à exaustão seu grande apelo altamente compartilhado e apreciado, mundo afora). Aqui temos um tom universalizante; a paixão, a entrega à brincadeira, a seriedade das relações e regras informais que presidem o ritual da escolha de times, dos termos da disputa (da competitividade: “São amigos, mas não no campo”), a trajetória de amizades que começam num campinho, na infância, e atravessam a vida adulta… E o sonho, na maior parte das vezes frustrado, de esticar essa vida (boa) de garoto para o mundo profissional (“Quem nunca sonhou em ser um jogador de futebol?” – Skank: https://www.letras.mus.br/skank/72339/).

A intervenção de Ferhat Cicek, treinador de futebol, cria do mesmo ambiente dos meninos que são mostrados incessantemente no documentário, oferece o contraponto realista e bastante ponderado sobre as efetivas limitações dessas pretensões. O importante, segundo o mesmo Cicek, é se divertir saudavelmente, mas o “futuro depende da escola e não do futebol”.  Mas qual garoto quer ouvir isso?

O terceiro trecho em epígrafe parece uma assinatura francesa. Mais universal que a ludicidade do jogo e das trajetórias infantis, só mesmo a pretensão gálica: o desenvolvimento do futebol profissional mundial aparece como tributário das peladas de rua francesas. Não das inúmeras associações formais e informais para o jogo, no mundo inteiro, que há décadas fazem parte da história de vida de gerações de dezenas de nações… Enfim, c’est la vie.

 

Ficha técnica.

Ballon sur Bitume

França, 2016, 51’. Classificação 12 anos.

Documentário de Jesse Adang.

Fonte: https://filmow.com/bola-no-asfalto-t241246/ficha-tecnica/.

 

Para complementos e outras visões acessar LIMA, Arthur. Bola no asfalto: a cultura própria do futebol de rua francês. Disponível em: http://www.alambrado.net/bola-no-asfalto-a-cultura-propria-futebol-rua-frances/ ; GONÇALVES, Nathan. O futebol de rua e a socialização dos pobres na França. França. Disponível em: https://medium.com/pirata-cultural/o-futebol-de-rua-e-a-socializa%C3%A7%C3%A3o-dos-pobres-na-fran%C3%A7a-4c610ff1d954. Consultados em 11/03/2019.

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