Historias Australianas: cultura, educação e esporte no outro lado do mundo

Por Jorge Knijnik

Mais um livro !!! Auto-promoção! Olha, na verdade fiquei em duvida sobre publicar uma ‘auto-resenha’ sobre o meu ultimo livro. Entretanto, desde que assumi o posto avançado de correspondente na Oceania do Historia(s) do Sport, eu escrevi um bocado sobre este assunto aqui… o que acabou me fornecendo uma inspiração danada de boa para escrever o “Historias Australianas”. Assim, fica aqui a introdução do livro, com um convite para a leitura do mesmo – ou pelo menos, a ultima parte, onde trato apenas de esporte e esporte – ou de algumas maluquices que aqui na Oceania sao chamadas de esporte!

Austrália: modos de usar e de viver

Este livro é um recurso essencial para todo e qualquer brasileiro e brasileira que pretenda imigrar para a Austrália, quando as fronteiras se abrirem após a pandemia do novo Coronavírus. Neste novo contexto, tanto os empreendedores quanto os diversos níveis do governo Australiano (estaduais e federais) estarão buscando pessoas qualificadas, que conheçam a cultura do país para o qual pretendem imigrar, seja temporária ou permanentemente. Assim, escrevi o livro  tendo em mente os diversos brasileiros e brasileiras que irão  se aventurar por este maravilhoso país-continente nos próximos anos: do estudante que pretende passar uma temporada por aqui para aprimorar o seu inglês, passando por aquela jovem que deseja se aperfeiçoar na sua profissão, por meio de um estágio profissional ou de um curso de especialização ou pós-graduação; e também pelo turista que gostaria de conhecer mais profundamente a cultura Australiana, até chegar naquele casal que pretende construir uma vida no exterior e considera a Austrália um lugar ideal para criar a sua família. Cada capítulo do livro irá ajudar os leitores a entender, de modo aprofundado, diversos aspectos da vida cotidiana aqui, observados por alguém que trabalha e cria a família na Austrália há mais de uma década, viveu todas as transformações do país neste período e entende tanto o ‘jeitão Australiano’ quanto a ‘cabeça’ brasileira. 

Eu moro na Austrália desde 2009, trabalhando na Faculdade de Educação da Western Sydney University. Mesmo após todo este tempo, não há semana em que eu não receba várias mensagens de antigos alunos e colegas brasileiros, com questões especificas sobre as universidades, e também perguntas gerais sobre a vida Australiana. Impressionados pelas imagens e pequenas informações que recebem da Austrália, pelo ‘clima tropical’, pelas praias Australianas, pelo sucesso no esporte que as campanhas olímpicas Australianas inspiram, meus amigos querem vir para cá. Afinal, quem não deseja se aventurar ‘do outro lado do mundo’? Ainda mais na Austrália, um país que segue atraindo muitos brasileiros ultimamente, devido a sua fama de ter uma juventude bonita, descolada, com grandes festas …. Uma natureza linda, com muito esporte de praia. ‘O Brasil que deu certo’ muitos pensam… Um país que conseguiu controlar a COVID-19. Se todo estudante ou profissional brasileiros desejam e necessitam aprender e aperfeiçoar seu inglês, um contingente cada vez maior prefere vir a um lugar com um clima tropical ao invés de ‘congelar’ na América do Norte ou na Europa.

Design da capa: Alex Knijnik (meu filho!)

Parece que os brasileiros pensam que irão ‘se dar bem’ por aqui, e que a adaptação será tranquila. Mas isso está longe de refletir a realidade. O processo de adaptação é complicado, as diferenças culturais são enormes, e entende-las com ‘cabeça de brasileiro’ é difícil. 

Esta é a razão deste livro. Em suas crônicas, eu procuro traduzir, de um modo bem didático, a realidade cotidiana do mundo aqui ‘do outro lado’. Tento explicar para o graduado brasileiro o significado de tentar fazer um ‘masters’ em uma faculdade aqui – pois muita gente vem, achando que vai cursar um ‘mestrado’, e somente depois percebe que comprou gato por lebre, se frustrando muito, além de perder dinheiro, tempo e energia. 

O livro está dividido em três partes –cultura, educação e esporte – as quais são extremamente relevantes aos brasileiros que se interessem em realmente conhecer a Austrália e seu povo. Estes tópicos fazem com que os leitores se aprofundem na vida australiana, proporcionando uma compreensão que sai da superfície daqueles que passam por aqui, mas se mantem apenas na ‘beira da praia’, sem tentar melhorar seu entendimento sobre este continente. Conhecer a história cultural do país, ao mesmo tempo que se informar sobre os sistemas educacionais e as tradições esportivas australianas, com certeza fornecem ao viajante e ao imigrante recém-chegados várias vantagens adicionais. O aprofundamento cultural ajuda e muito a entender a vida que levamos hoje em dia na Austrália, facilitando a integração dos ‘novatos’ nos diversos grupos sociais e profissionais. Entender o esporte aperfeiçoa e enriquece o inglês das pessoas, enquanto as ajuda a fazer novas amizades. Saber como funcionam os diversos sistemas educacionais, da escola primaria a pós-graduação, facilita as famílias e também quem pretende adquirir novos conhecimentos nas universidades daqui.

As crônicas deste livro vão além de meros relatos de pontos turísticos, e possibilitam com que os leitores possam realmente entender como as pessoas e as várias comunidades australianas pensam e agem em seu dia a dia.  Morar no ‘outro lado do mundo’ é um grande desafio. A cultura, a formação, o jeito que encaram a atividade esportiva, a relação com a natureza, com o espaço público …. As escolas, a educação universitária, tudo é muito diferente por aqui. O ‘outro lado do mundo’ oferece suas vantagens, mas cobra um preço: compreender as atitudes e os valores em jogo favorece uma maior integração social, auxilia seu bem-estar mental e ajuda inclusive em nível profissional.  

Desta forma, neste livro, eu narro as coisas essenciais da vida em sociedade na Austrália, inclusive como é viver em um país que possui diversos tipos de ‘futebóis’ – e no qual nem sempre o ‘nosso’ é o principal assunto das capas de jornal – tampouco das páginas centrais ou periféricas destes.  

A minha história com a Austrália começou de forma acadêmica. Em 2007 eu me inscrevi em um Congresso de História do Esporte que aconteceria em Canberra, a capital Australiana. Confesso que na época eu não conhecia quase nada sobre este país. O Congresso me pareceu interessante, com bons palestrantes, e eu mandei um resumo de um trabalho sobre futebol e mulheres no Brasil, o qual foi aprovado para apresentação, após algumas idas e vindas e conversas amigáveis com os avaliadores do trabalho.

Curiosamente, antes de fazer minhas malas, comecei a fazer amigos aqui. O presidente daquele Congresso, interessado no meu trabalho, me convidou para um estágio de professor visitante na universidade dele. Ao mesmo tempo, na lista de e-mails que circulava nas semanas anteriores ao evento, com os últimos informes sobre o mesmo, descobri uma pessoa que queria dividir um quarto no hotel do congresso. Após algumas mensagens muito amigáveis – afinal, aquele senhor, Bill Murray, era um dos mais famosos historiadores de futebol do mundo, e quando soube que eu era brasileiro, já começou a falar sobre o assunto e decidimos dividir o quarto no hotel, e começamos uma amizade que perdura até hoje em dia. 

A minha participação no congresso foi peculiar. Não era um evento muito grande, a maioria dos presentes era australiano mesmo, e meu trabalho atraiu uma boa audiência. Nos intervalos consegui conversar com algumas pessoas bacanas, fiz mais amigos, entre eles um pianista que conhecia muita música brasileira, sobretudo bossa nova. Conversamos bastante, trocamos impressões sobre música, e cantarolamos juntos.

Qual não foi minha surpresa quando, na noite do jantar oficial do Congresso, em meio a umas brincadeiras e gincanas que os organizadores faziam sobre a história do esporte local – confesso que não sabia nada, eu era uma nulidade na minha mesa – o mestre de cerimonias anunciou: “e agora, diretamente do Brasil, ‘George’ vai cantar ‘A Garota de Ipanema’! Sentado ao piano, no centro de um lindo salão da Universidade de Canberra, o tal pianista com quem eu conversara na hora do cafezinho me aguardava, com um sorriso maroto…. Empurrado pelas circunstancias, fui obrigado a  cantar…Sucesso internacional imediato!

Depois daquele dia, fiquei muito ‘famoso’ entre os membros daquela sociedade que realizava o congresso. Após voltar para o Brasil, continuei me correspondendo com alguns deles, até que, cerca de um ano depois, uma mensagem de um daqueles amigos insistia para que eu fosse para a Austrália, para morar. Ele queria que eu imigrasse! O rapaz me dava a dica de me inscrever em um concurso para docente na University of Western Sydney – que depois mudou de nome para Western Sydney University.  

Meio incrédulo me inscrevi na última hora no processo seletivo, ao final de agosto de 2008. Mandei curriculum, e escrevi uma carta respondendo às perguntas que estavam no site que o meu amigo enviou. Em meio a correria paulistana, ministrando dezenas de aulas durante três períodos em três universidades diferentes, me esqueci daquela história. 

Ao final de novembro de 2008, fui chamado para uma entrevista naquela universidade. No Natal do mesmo ano, o diretor me telefona. Estava me oferecendo uma vaga – com todo o suporte para me mudar com minha família. Em junho de 2009, empacotamos tudo, dissemos adeus ao Brasil, e rumamos para a nossa aventura imigratória.

Viver do outro lado do mundo não é o fim do mundo! Entretanto, eu garanto que este livro aqui vai lhe preparar bem melhor para entender como é a vida por aqui – e ter informações para poder aproveitar muito mais tudo aquilo que a Austrália oferece.  Me manda um zap quando chegar!

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