As Exposições Internacionais e suas influências nos Jogos Bolivarianos (Bogotá, 1938)

Eduardo Gomes (eduardogomes.historia@gmail.com)

A Exposição Internacional de 1893, em Chicago, influenciou os caminhos da Colômbia nas décadas seguintes. Foto: Reprodução

No século XIX, os parâmetros da modernidade se espalharam mundo a fora, notadamente a partir da expansão cultural, econômica e política oriundas da Inglaterra e demais nações europeias, até então entendidas como “modelos” globais. Uma das formas de explicitar tal parâmetro, por parte de tais países, foram as realizações de Exposições Internacionais, que visavam consolidar perante o mundo um modelo a ser seguido enquanto padrão de civilidade. Destaca Elias, que

Na verdade, nossos termos “civilizado” e “incivil” não constituem uma antítese do tipo existente entre o “bem” e o “mal”, mas representam, sim, fases em um desenvolvimento que, além do mais, ainda continua. É bem possível que nosso estágio de civilização, nosso comportamento, venham despertar em nossos descendentes um embaraço semelhante ao que, às vezes, sentimos ante o comportamento de nossos ancestrais. O comportamento social e a expressão de emoções passaram de uma forma e padrão que não eram um começo, que não podiam em sentido absoluto e indiferenciado ser designados de “incivil”, para o nosso, que denotamos para a palavra “civilizado”. […] A “civilização” que estamos acostumados a considerar como uma posse que aparentemente nos chega pronta e acabada, sem que perguntemos como viemos a possui-la, é um processo ou parte de um processo em que nós mesmos estamos envolvidos. (ELIAS, 1994, p. 73).

Com base nas referências acima, é possível inferir que aquilo que buscava-se impor ou se colocar como civilizado, está normalmente relacionado a um conjunto de valores ou culturas que passam a ser entendidos como padrões a serem seguidos, dentro de um recorte espacial e temporal específico da história e das relações humanas. O processo do século XIX exacerba tais relações, pois nos faz pensar a partir de uma perspectiva de civilização em proporções globais, exposta pelas classes então dominantes.

Essa tentativa de difundir um ideário universal de civilidade, pôde ser identificada nas exposições internacionais, já que as tinham como parâmetro e princípio. Trata-se da expansão de uma “cultura universal”, ligada aos modelos da modernidade oriunda da industrialização. Cultura essa que, obviamente, não pertencia a todos os povos, mas que moldados pelos parâmetros civilizatórios expostos acima, se incluíam dentro de um conjunto de fatores que determinadas nações buscam para efetivar um caminho homogêneo globalmente. Era a tentativa de povos entendidos como “civilizados” definirem, também, a cultura a ser seguida pelos povos “não-civilizados” (GÁLVEZ, 2012, capítulo 2).

A nomenclatura das exposições variava, de acordo com o ano, local e forma de divulgação. “Exposição Universal”, “Feira Mundial” e “Exposição Internacional”, foram alguns dos nomes mais utilizados. Debater qual seria a forma correta de se referir aos eventos, não é o nosso objetivo, por considerar que mais importante que a nomenclatura, é saber o que esses momentos representavam no cenário social de então. Destaca Nelson Sanjad, como os estudiosos do campo não devem perder de vista:

(a) o termo “exposição”, a partir do século XIX, sofreu um alargamento semântico à medida que novos museus foram surgindo e os megaeventos foram sendo organizados, sob diversos pretextos e roupagens; (b) é importante atentar para a maneira como cada evento é apresentado pelos seus próprios organizadores, sobretudo em estudos comparativos que buscam semelhanças e diferenças entre as mostras; (c) somente em 1928 foi assinada a primeira convenção internacional destinada a normatizar e definir regras, prazos e a periodicidade de exposições internacionais, pois se tornou inviável a participação dos países em todos os eventos (SANJAD, 2017, p. 788).

A primeira exposição, ocorrida em 1851 em Londres, reuniu 25 nações e mais 15 países que ainda eram colônias naquele contexto, dando a conotação mundial ao evento. Na França, a primeira exposição ocorrida nessas características se deu em 1855. Em alguns anos, como em 1888, chegou-se a ocorrer cinco mostras simultâneas: Barcelona, Espanha (Exposição Universal); Bruxelas, Bélgica (Exposição Universal e Internacional e Grande Concurso Internacional de Ciência e Indústria), Copenhague, Dinamarca (Exposição Nórdica da Indústria, Agricultura e Arte), Glasgow, Escócia (Exposição Internacional de Ciência, Arte e Indústria) e Melbourne, Suécia (Exposição do Centenário) (SANJAD, 2017).

O cenário latino-americano não ficou de fora das relações que ocorriam globalmente na Europa ou nos Estados Unidos. Tais eventos se fizeram importantes para a construção cultural da América Latina na transição do século XIX para o XX. O período da Bélle Époque, inclusive, estimulou disputas e questões, onde cidades como Rio de Janeiro e Buenos Aires, por exemplo, lançavam discursos como aqueles que as idealizavam como a “Paris dos trópicos”.

Portanto, é notório que a recepção da cultura europeia que se expandia, fez parte de um processo de consolidação imperialista de tais países, mas também de inserção no sistema-mundo por parte de algumas das nações independentes da América Latina. Nesse espaço, que desde então já rivalizavam com a hegemonia dos Estados Unidos (porém não com tanta força como atualmente), países da Europa viram seus padrões culturais e econômicos se disseminarem. Todavia, tal disseminação se deu dentro de um processo de ressignificação cultural, marcado por um caminho singular em cada país.

Desde seus primórdios, as exposições já contavam com a participação de nações latino-americanas nos eventos, inseridas de diferentes formas. Era comum países da América Latina, alguns ainda com fortes vínculos coloniais com as antigas metrópoles, participarem como expositores de “hábitos e natureza exóticas” (GÁLVEZ, 2012).

No século XX, entretanto, em um cenário de redefinição das ideias de nação latino-americanas, os países da região passavam a não só participar dos eventos europeus, como também organizar suas próprias exposições internacionais, tendo destaque o caso do Brasil em seu centenário da independência no ano de 1922. Em um cenário inicial, buscaram copiar o que era produzido no “velho mundo” para, em um segundo momento, estabelecerem eventos com uma caracterização mais autoral e nacionalista. Sanjad destaca que

Apesar de situadas em contexto periférico, no qual os efeitos da industrialização e massificação só começaram a ser sentidos em prática no século XX, as elites das sociedades latino-americanas portaram-se como eco das discussões e debates teóricos desenvolvidos nesses principais centros culturais em torno do tema da representação. Sua “tarefa principal” era aprender, imitar e divulgar as concepções “civilizadas” do progresso, artes, ciências e indústria apreendidas através das Exposições. […] Cosmopolitismo e nacionalismo eram conceitos tanto desejosos como conflitivos pelas representações latino-americanas. […] As nações latino-americanas, desejosas por valorizar seus países através de reações nacionalistas, desejavam também fazer parte do cosmopolitismo, isto é, serem parte do grande grupo civilizado, enquanto tinham necessidade de gerar, para esta afirmação, uma cultura e ciência de caráter único (GÁLVEZ, 2012, p. 34).

No cenário latino-americano, o campo de investigação que se dedica a essas questões e, por que não, tensões, é bem vasto. Analisam, assim, as relações entre o nacional e o regional, tal como “a forma como as elites locais ou regionais representavam seus estados/províncias, muitas vezes em oposição ao poder central ou em competição com outros estados/províncias” (SANJAD, 2017, p. 809).

Mesmo nesse caminho, não devemos desprezar as variações locais que cada processo gera nesse cenário híbrido que se colocava. A construção nacionalista dos países latino-americanos, em contato ou não com seus vizinhos da região, passa necessariamente por um cenário histórico das relações internacionais em que a influência (tal como as tensões) dos países europeus se faz presente. Como explicita Sanjad,

Pensar nas mostras latino-americanas como partes de um sistema descentralizado que se ampliou e transformou ao longo do tempo e do espaço permitiria incluí-las em um panorama mundial, complexo e diverso. Exigiria, contudo, um esforço de investigação que considerasse a constituição das comunidades intelectuais que conceberam, apoiaram e materializaram as exposições latino-americanas, e como essas comunidades interagiram com as de outros países, que conceitos e práticas adotaram, por onde circularam, que ideias fizeram circular sobre nação, progresso, raça, classe, gênero, cultura e natureza, entre outras. Exigiria, ainda, a análise da produção do “nacional” como uma via de mão dupla, isto é, observando tanto as negociações políticas internas quanto os intercâmbios transculturais, nos quais textos, objetos, imagens, edificações, espetáculos, alimentos etc. ganham uma dimensão simbólica capaz de influenciar processos identitários de diversos grupos sociais no próprio país e em outros países (SANJAD, 2017, p. 815).

Ainda com uma ideia de nação bem incipiente e com particularidades bem peculiares em cada caso, foi entre as décadas de 1910 e 1950 que boa parte dos países da região passaram por uma reconfiguração de seus padrões identitários e nacionalistas. Inclui-se entre esses o caso da Colômbia, notadamente a partir das décadas de 1920 e 1930.

Desde o século XIX e indo até os dias atuais, a Colômbia participou de distintas exposições internacionais espalhadas mundo a fora, apesar de não ter tido, em nenhum momento, um evento dessa natureza organizado em seu território.

Entretanto, os colombianos estão presentes nas exposições internacionais desde os seus primórdios, em 1851, quando o país ainda atendia pela nomenclatura de “República de Nova Granada”. Mesmo tendo tido poucos objetos ou materiais para expor, diplomaticamente já marcava sua presença e consolidava um pouco de sua posição enquanto nação na modernidade que se expandia.

No auge das exposições do século XIX, a Colômbia marcou presença nos seguintes anos, além de Londres em 1851: Paris, em 1855, 1867, 1878 e 1889; Madri em 1892; e Chicago em 1893, tendo essa última se relacionado com o cenário latino-americano, pois teve como temática central os festejos do IV centenário da chegada de Cristóvão Colombo na América (BONILLA PARDO, 2016).

A experiência política dos anos 1930 na Colômbia gerou diferentes efeitos e mudanças no país. Após um período de domínio do Partido Conservador no poder, indo de 1886 até 1930 (conhecido como “Hegemonia Conservadora”), se iniciou nesse mesmo ano o período conhecido como “República Liberal”, onde até 1946 apenas presidentes do Partido Liberal se mantiveram no poder. Entre esses, reforço a importância de López Pumarejo, que governou o país durante dois mandatos nesse período (1934-1938 e 1942-1945), na construção de símbolos e padrões identitários para se pensar a nação colombiana.

Dentro do longo período da “hegemonia conservadora”, o país ficou sem participar de eventos com natureza global como eram tais exposições, tendo retornado a esse circuito apenas em 1929, em Sevilha na Espanha, com a mostra de produtos agrícolas (BONILLA PARDO, 2016).

Nos primórdios de sua participação nas exposições internacionais, no decorrer do século XIX, a Colômbia teve uma área de 500 “pés quadrados” para realizar suas mostras, o que representa pouco mais de 45 metros quadrados. Teve assim, de acordo com os diários oficiais, sido esse espaço entendido como “justo” para o país na época (BONILLA PARDO, 2016). É destacado que

Sobre los productos presentados, estos fueron principalmente cacao, tapioca, nuez moscada y algunas esmeraldas de Muzo”80 las cuales estaban en estado en bruto y vienen en diferentes estados de pureza. Las de mayor tamaño tienen un color suave y con pocos defectos. Además de ser clasificadas dentro de la Clase 1 del Reino Unido y al ser comparadas con otros ejemplares, mostraron una gran ventaja y superioridad81. Este tipo de reconocimiento también lo obtuvo el tabaco, el cacao y los metales. Para la Exposición de 1878 se muestra evidencia del progreso de Colombia en los campos de la botánica y la pedagogía, los cuales se traducen en una premiación en ambas categorías. El área de pedagogía gana una medalla de bronce y en el área de la botánica gana una medalla de oro gracias a los trabajos realizados a partir de la Comisión Corográfica, especialmente por el estudio de la quina85, además de un reconocimiento por las autoridades gubernamentales de Colombia86. No obstante este reconocimiento, Colombia llegó a último momento, sin mayor presupuesto ni “riquezas” y su comitiva fue alojada en un pequeno espacio dentro del pabellón de Guatemala (BONILLA PARDO, 2016).

Mesmo com essa inserção, a participação colombiana na agenda das exposições, continuava a ser secundária. O que não quer dizer que não tenha gerado influências na formação identitária do país. Porém, que ideia de nação seria essa? Como teve participações mais específicas e entendidas como secundárias, se comparadas com as de outros países, será que pode-se definir que tal cenário influenciou na construção simbólica do nacionalismo colombiano? Destaca-se ser provável que toda essa cena favoreceu para se pensar a Colômbia como um

País pequeño, sin industria y atrasado más no un país bárbaro; los reconocimientos obtenidos por sus avances en las ciencias, la lingüística y la botánica y zoología, daban cuenta de un país en progreso y relativamente comprometido con ello, pero definitivamente no de uno industrializado y moderno, motivo por el cual Colombia no pudo obtener la tan anelada inmigración que se necesitaba para industrializar el país […] (BONILLA PARDO, 2016, p. 32).

No decorrer do início do século XX, houve a tentativa de se repensar o país. Mesmo com vários incentivadores tratando da importância de se continuar participando dos eventos, como já explicitado, o país só voltou a se inserir em 1929. Nacionalmente teve uma exceção, que foi a organização da exposição do centenário de independência da Colômbia em 1910, organizada apenas em seu âmbito e sem outras nações enquanto participantes.

Quando retornou ao circuito das exposições internacionais em 1929, mesmo com percalços, a Colômbia deixou sua marca com a explicitação de produtos de qualidade, tal como referendou diplomaticamente sua posição política e cultural. Mesmo sem ainda se encontrar em um estado de centralidade, se colocar à mostra, tendo em vista a transição política no país entre conservadores e liberais que já se anunciava, fazia parte dos planos relacionados aqueles que estariam no poder a partir de 1930.

Nesse evento em questão, os responsáveis pela apresentação da Colômbia foram o então cônsul colombiano em Sevilha, Sr. Ernesto Restrepo Tirado, e o comissário geral do país na Exposição, Sr. Roberto Pinto Valderrama (BONILLA PARDO, 2016). A posição colombiana, em um evento organizado no território de seus antigos colonizadores, foi de buscar enfatizar uma identidade para além da Espanha, pois

los delegados de Colombia reconsideraron la evidente hispanidad del edificio y decidieron que lo más conveniente para Colombia, era exaltar nuevamente su passado milenario, pues a pesar de ser hijos de España, había algo mucho más antiguo y digno de presentar como propio, “constituyéndose como el mejor símbolo de indigenismo en la Iberoamericana y la mejor síntesis de manifestaciones artísticas que reflejan el relato cosmológico y el origen del hombre como expresión de la identidad nacional” (BONILLA PARDO, 2016, p. 34).

Ao analisar o cenário de construção dos Jogos Bolivarianos de 1938 na Colômbia, identifica-se que tal evento se inclui em um conglomerado de festejos inerentes ao IV Centenário de Bogotá.

Cerimônia nos Jogos Bolivarianos de 1938. Foto: Reprodução

No caso do esporte no país, essa relação com a modernidade se iniciou no ano de 1936, quando no âmbito da Olimpíada de Berlim ocorrida nesse ano, se definiu a realização dos primeiros Jogos Bolivarianos em 1938, como parte dos festejos do IV centenário de Bogotá. Isso era também, de certa forma, uma maneira de se inserir nos parâmetros (mesmo que tardios) de modernidade que o país buscava se enquadrar durante o período de governos liberais, com moldes exemplificados pelas experiências das outrora importantes exposições internacionais.

A escolha de uma agenda esportiva como forma de se comemorar os quatrocentos anos da maior e mais importante cidade do país, explicita o quanto o esporte passava a ser entendido como um modelo a ser difundido no país moderno que se pensava para a Colômbia.

Assim, pode-se perceber o quanto a idealização dos Jogos Bolivarianos fez também parte de um projeto político de internacionalização da nova ideia de nação pensada na Colômbia de López Pumarejo, sendo assim uma forma de enquadrar o país dentro de discursos de modernidade e de difusão política no contexto em questão.

Referências

BENNETT, Tony. The birth of the museum: history, theory, politics. London: Routledge. 1995.

BONILLA PARDO, David. Espectáculo de Identidades Nacionales: presentación de Colombia em las Exposiciones Internacionales de 1992, 1998, 2010. Monografia (Graduação em História) – Escola de Ciencias Humanas, Universidad Colegio Mayor de Nuestra Señora del Rosario.

CANCLINI, Néstor Gárcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Edusp, 2015.

ELIAS, Nobert. O processo civilizador – Volume 1: uma História dos Costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.

GÁLVEZ, Marcia Furriel Ramos. Dois pavilhões em Exposições Internacionais do século XX – ideias de uma arquitetura brasileira. Dissertação (Mestrado em História Social da Cultura). Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). 2012. 164 f.

GONZÁLEZ STEPHAN, Beatriz; ANDERMANN, Jens (Ed.). Galerías del progreso: museos, exposiciones y cultura visual en América Latina. Rosario: Beatriz Viterbo. 2006.

MOTTA, Marly. Exposição Internacional do centenário da independência do Brasil. In: https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/EXPOSIÇÃO%20INTERNACIONAL%20DO%20CENTENÁRIO%20DA%20INDEPENDÊNCIA.pdf

RASMUSSEN, Anne. Les classifications d’exposition universelle. In: Schroeder-Gudehus, Brigitte; Rasmussen, Anne. Les fastes du progrès: le guide des expositions universelles, 1851-1992. Paris: Flammarion. p.21- 38. 1992.

SANJAD, Nelson. Exposições Internacionais: uma abordagem historiográfica a partir da América Latina. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.24, n.3, jul.-set. 2017, p.785-826.

SCHUSTER, Sven. (Ed.). La nación expuesta: cultura visual y procesos de formación de la nación en América Latina. Bogotá: Editorial Universidad del Rosario. 2014a.

https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos20/CentenarioIndependencia/ExposicoesUniversais

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