A primeira árbitra de futebol credenciada pela FIFA é brasileira

por Silvana Vilodre Goellner
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Léa Campos (Asaléa de Campos Micheli), nascida em Belo Horizonte no ano de 1945, é uma mulher avante do seu tempo. Em plena Ditadura Militar formou-se árbitra pela Federação Mineira de Futebol, a despeito dos papéis de gênero estabelecidos como adequados para aquele contexto cultural. Diplomada em Educação Física e Jornalismo, teve muito trabalho para fazer valer sua vontade e o reconhecimento de seu diploma pela FIFA se deu apenas no ano de 1971. Para tanto, enfrentou pessoas e instituições como  a CBF e seu presidente João Havelange que não reconhecia nem permitia que desempenhasse sua função. Léa buscou apoio de diferentes modos recorrendo, inclusive, ao então presidente Emílio Garrastazu Médici, que ao recebê-la assinou uma carta autorizando-a a atuar.

Uma vez reconhecido o seu título pelo governo brasileiro, Léa arbitrou em vários estados e em países da Europa e das Américas sendo elogiada pela sua competência e dedicação.

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Praia de Atlântida, Rio Grande do Sul – década de 1970

Praia de Atlântida, Rio Grande do Sul – década de 1970

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Em 1971 representou o Brasil em um Campeonato Mundial de Futebol Feminino realizado no México, competição que possibilitou o reconhecimento de  seu diploma pela FIFA. Vale lembrar que neste período estava em vigência a Deliberação n. 7 de 2 de agosto de 1965 do Conselho Nacional de Desportos (CND) que nomeava as modalidades proibidas às mulheres complementando, assim a determinação do Decreto Lei n. 3199, de 14 de abril de 1941 que considerava a prática de alguns esportes incompatíveis  com a  “natureza feminina”. O Decreto, assinado pelo então Presidente do CND, General Eloy Massey Oliveira de Menezes, asseverava  que não era permitida às mulheres a  prática de lutas , futebol, futebol de salão, futebol de praia, pólo-aquático, pólo, rugby, halterofilismo e baseball. Ou seja, as mulheres não podiam praticar jogando mas nenhuma  referência era feita à prática da  arbitragem. O que conferiu à Lèa o direito de atuar.

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Praia de Atlântida, Rio Grande do Sul – década de 1970

Praia de Atlântida, Rio Grande do Sul – década de 1970

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Em 1974 Léa sofreu um acidente que prejudicou sobremaneira sua carreira. Com dificuldades de locomoção por dois anos usou cadeiras de rodas. Recuperada do acidente aproximou-se do universo das lutas dedicando-se à luta livre e o boxe, modalidades que como sabemos não eram (e não são) recomendadas para as mulheres.

Exitosa em sua trajetória, o protagonismo de Léa Campos evidencia que a presença das mulheres na arbitragem é um direito de quem deseja seguir a profissão. Sua presença nos campos abriu caminhos para que muitas mulheres possam concretizar este desejo, pois faz ver que não existem justificativas plausíveis que limitem ou impeçam  essa atuação senão o preconceito e a ignorância.  Por essas é outras  que se torna fundamental narrar a sua história e reconhecer a importância que esta mulher tem para a história do esporte brasileiro. Quiçá possamos ver publicada no Brasil a biografia Lea Campos: rules can be broken, escrita por Luis Eduardo Medina em 2001. Quiçá possamos conhecer mais além dessas parcas informações que aqui registro. Este é um de meus objetivos para 2015. Aguardem!!!!

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