Histórias do esporte em Rubem Fonseca (parte 1)

17/04/2017

por Fabio Peres

Cruel, realista, desconcertante, brutal, mórbido. Entre tantos termos utilizados para descrever a literatura de Rubem Fonseca, talvez possamos também adicionar o adjetivo esportivo. Afinal, basta uma breve leitura de sua obra para perceber que não são poucos os contos e romances em que o esporte e as atividades físicas, em geral, ocupam lugar – ora mais, ora menos – privilegiado.

Desde a publicação de Os Prisioneiros (1963), primeira coletânea de contos do autor, o objeto está lá, por assim dizer, em suas variadas formas; às vezes de maneira mais clara ou quase desapercebido de modo sútil. Como aponta a escritora Maria Alice Barroso, Rubem já se destacava no conto Fevereiro ou março (1963)  pela incorporação de “um excelente tipo à galeria de personagens da literatura brasileira: o atleta vagabundo, frequentador das academias de boxe, portador de uma ética toda sua” (apud AUGUSTO, 2009, posfácio)[i].

Capa da edição de 1963 de Os Prisioneiros

O personagem-narrador inicia a história descrevendo como a condessa Bernstroa, mulher casada com a qual teve um caso, explicava a manutenção de suas formas corporais:

Era uma velha, mas podia dizer que era uma mulher nova e dizia. Dizia: põe a mão aqui no meu peito e vê como é duro. E o peito era duro, mais duro que os das meninas que eu conhecia. Vê minha perna, dizia ela, como é dura. Era uma perna redonda e forte, com dois costureiros salientes e sólidos. Um verdadeiro mistério. Me explica esse mistério, perguntava eu, bêbado e agressivo. Esgrima, explicava a condessa, fiz parte da equipe olímpica austríaca de esgrima — mas eu sabia que ela mentia.

O personagem continua desfiando a história explicando como foi seu dia, um sábado de carnaval, marcado por certa imprevisibilidade e também, não por acaso, por certa angústia:

Era de manhã, no primeiro dia de carnaval. Ouvi dizer que certas pessoas vivem de acordo com um plano, sabem tudo o que vai acontecer com elas durante os dias, os meses, os anos. […] Eu — eu vaguei pela rua, olhando as mulheres. De manhã não tem muita coisa para ver. Parei numa esquina, comprei uma pera, comi e comecei a ficar inquieto. Fui para a academia.

A descrição dos exercícios na academia é acompanhada por uma série de sentidos, pensamentos, práticas e gestos:

[…] comecei com um supino de noventa quilos, três vezes oito. O olho vai saltar, disse Fausto, parando de se olhar no espelho grande da parede e me espiando enquanto somava os pesos da barra. Vou fazer quatro séries pro peito, de cavalo, e cinco para o braço, disse eu, série de massa, menino, pra homem, vou inchar. E comecei a castigar o corpo, com dois minutos de intervalo entre uma série e outra para o coração deixar de bater forte; e eu poder me olhar no espelho e ver o progresso. E inchei: quarenta e dois de braço, medidos na fita métrica.

A academia, por sua vez, é lugar de encontros, de construção (e também de desconstrução) de vínculos e laços sociais. Os amigos, frequentadores de academia -ao que tudo indica de um bairro da Zona Sul carioca –, organizam a “diversão” para aquele carnaval:  “porrada pra todo lado”. A ideia era simples. Se fantasiar de mulher e então:

O povo cerca a gente pensando que somos bichas, nós estrilamos com voz fina, quando eles quiserem tascar, a gente, e mais vocês, se for preciso, põe a maldade pra jambrar e fazemos um carnaval de porrada pra todo lado. Vamos acabar com tudo que é bloco de crioulo, no pau, mesmo, pra valer. Você topa?

Após alguns desdobramentos (e outras referências aos sentidos e usos do corpo), o narrador se auto descreve para o marido da condessa, adquirindo assim características de um novo “tipo” inserido em um meio social com senso moral e ético próprios, como chamou atenção Maria Alice Barroso:

na academia eu faço ginástica de graça e ajudo o João, que é o dono, que ainda me dá um dinheirinho por conta; vendo sangue pro banco de sangue, não muito para não atrapalhar a ginástica, mas sangue é bem-pago e o dia em que deixar de fazer ginástica vou vender mais e talvez viver só disso, ou principalmente disso. Nessa hora o conde ficou muito interessado e quis saber quantos gramas eu tirava, se eu não ficava tonto, qual era o meu tipo de sangue e outras coisas. Depois o conde disse que tinha uma proposta muito interessante para me fazer e que se eu aceitasse eu nunca mais precisaria vender sangue, a não ser que eu já estivesse viciado nisso, o que ele compreendia, pois respeitava todos os vícios. Não quis ouvir a proposta do conde, não deixei que ele a fizesse; afinal eu tinha dormido com a condessa, ficava feio me passar para o outro lado. Disse para ele, nada que o senhor tenha para me dar me interessa. Tenho a impressão que ele ficou magoado com o que eu disse […] Por isso, continuei, não vou ajudar o senhor a fazer nenhum mal à condessa, não conte comigo para isso. Mas como?, exclamou ele, […], mas eu só quero o bem dela, eu quero ajudá-la, ela precisa de mim, e também do senhor, deixe-me explicar tudo, parece que uma grande confusão está ocorrendo, deixe-me explicar, por favor. Não deixei. Fui-me embora. Não quis explicações. Afinal, elas de nada serviriam.

No mesmo livro (Os prisioneiros de 1963) novamente a ginástica, a “malhação”, bem como as competições de “físico”, típicas de academia, seriam mencionadas no conto Os inimigos; para alguns críticos da época o melhor da coletânea. Além disso, o conto que dá nome ao livro curiosamente se inicia por uma conversa entre uma psicanalista e um cliente sobre a inconveniência e mesmo inadequação de usar roupa “esportiva” no Centro da cidade, lugar por excelência de trabalho.

O panorama, por assim dizer, esportivo da literatura de Rubem Fonseca, de fato, é vasto e instigante. Por exemplo, o ambiente e os frequentadores de academia voltariam a fazer parte da obra do autor em 1965 no conto A Força Humana (do livro A Coleira do cão). Na realidade, trata-se em certo sentido de uma continuação de Fevereiro ou março. Já em 1969, o antigo Vale-Tudo seria objeto central do conto O Desempenho no famoso livro Lúcia McCartney.

Em 1979, breves referências ao futebol e ao balé apareceriam em O cobrador (no livro homônimo). Na mesma obra menções à ginástica retornariam em Mandrake (além do xadrez) e, em 1992, em o Romance Negro. Por outro lado, uma competição inusitada no Pantanal está em AA (abreviação do “esporte” de mesmo nome) em 1998 no livro a Confraria dos Espadas. Também em 1992, há uma menção à rua do Jogo da Bola – uma prática de diversão que esteve presente na cidade do Rio de Janeiro no século XVIII e XIX[ii] – em A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro.

Em 2001, exercícios aeróbicos, de alongamento e de musculação são citados em Copromancia, na obra Secreções, excreções e desatinos. Corrida na praia aparece em Caderninhos de nomes no ano seguinte em Pequenas criaturas. Em Laurinha surge mais uma vez uma referência ao futebol no livro Ela e outras mulheres de 2006. E a relação de Lima Barreto com o futebol é citada no romance O seminarista de 2009.

Mas essas e outras histórias ficarão para os próximos posts. Em todo caso, mais do que uma mera provocação, denominar a literatura de Rubem Fonseca de esportiva pode ser uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira talvez que nos ajude a entrecruzar várias histórias: do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia, das diferentes modalidades e práticas esportivas, das emoções, da estética, da literatura, entre muitas outras histórias.

___________________________________________

[i] AUGUSTO, Sergio. Estreia consagradora. In: FONSECA, Rubem. Os prisioneiros. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

[ii] Maiores informações ver MELO, Victor Andrade de. MUDANÇAS NOS PADRÕES DE SOCIABILIDADE E DIVERSÃO: O jogo da bola no Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). História,  Franca ,  v. 35,  e105,    2016 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742016000100514&lng=en&nrm=iso>. access on  17  Apr.  2017.  Epub Dec 19, 2016.  http://dx.doi.org/10.1590/1980-436920160000000105.


Os museus de surfe da Califórnia

06/02/2017

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Como prometi, hoje trato dos cinco museus de surfe localizados na Califórnia. Neste texto, estou usando a categoria nativa, ou seja, considero museus de surfe as cinco instituições que se classificam como tais. Eles se estendem desde Oceanside, no sul do estado, até Santa Cruz. Seguirei este trajeto sul-norte na ordem de apresentação. Todas as fotos sem crédito de autor foram feitas por mim. Informações específicas sobre itens dos acervos estão nas legendas das fotos.

California Surf Museum (CSM, Oceanside)

Este slideshow necessita de JavaScript.

Foi o museu em que estive mais vezes. Fica perto da estação de trem e do píer onde surfam e treinam locais e/ou profissionais – o píer aparece constamentemente em séries do canal Off.

Tem uma excelente coleção de revistas, que ficam numa sala confortável e exclusiva para pesquisadores. A pesquisa neste museu fez parte de uma experiência maior, daquelas que não têm preço nessa vida: durante o ano em que vivi na Califórnia, fui respeitado como pesquisador de história do surfe e da mídia do surfe de uma forma como raramente aconteceu noutros lugares – incluindo o Rio de Janeiro e o Brasil – em mais de dez anos dedicados ao tema.

Comandada pela historiadora Jane Schmauss, a equipe é prestativa e simpática – quando solicitadas por mim, as pessoas sorriam e se interessavam pelo meu trabalho, em vez de rosnarem, como acontece noutros lugares e cidades por aí. Conta com voluntários e trabalhadores assalariados. Segundo me explicou Jane, o museu recebe cerca de 25 mil visitantes anuais. O imóvel onde está há alguns anos pertence à Prefeitura de Oceanside – cuja sede fica próxima -, que o alugado a preço subsidiado. Ali pertinho também está a biblioteca municipal (a visita à biblioteca da cidade é um programa bacana, assim como em várias cidades e bairros californianos).

O forte do acervo, como em três outros museus, são as pranchas. Entre doações, empréstimos, exposição permanente e temporária, é possível ter contato com boa parte da produção de pranchas do sul da Califórnia desde os anos 1950. Há também exemplares mais antigos: paipos havaianos, pranchas para salvamento no mar etc. Mas o foco está nos shapers da própria região – vários dos quais são sócios contribuintes do próprio museu e doaram e/ou emprestaram pranchas de sua lavra. Algumas estão autografadas pelos shapers, outras, pelos que as surfaram. Há doações de Kelly Slater e de outros atletas famosos do esporte profissional e/ou das ondas grandes (nas ocasiões em que estive lá, a exposição temporária era sobre surfe em ondas grandes; preparava-se uma exposição sobre surfe durante a Guerra entre os EUA e o Vietnã). Há também seções dedicadas a outros aspectos, como bodyboard e surfe de peito. Tem uma vitrine muito interessante com jogos e brinquedos que têm o surfe como tema – de Barbie a Banco Imobiliário – e outra com dezenas de parafinas.

Sou suspeito para falar, pois nesse museu fiz parte de minha pesquisa de pós-doutorado. Além disso, tive uma experiência bacana como usuário (e não como pesquisador) em todas as ocasiões em que estive lá. Isso porque está em exibição a prancha de Bethany Hamilton – de quem eu nunca ouvira falar até recentemente. Trata-se de uma havaiana, de uma família de surfistas, que teve um braço arrancado por um tubarão enquanto pegava onda com uma amiga, aos 12 anos de idade. A história está contada em dois filmes (um documentário e um de ficção) e um livro. Bethany tornou-se ícone dos e das adolescentes e tem sua própria linha de produtos de beleza. Além disso, o que mais me impressionou: continuou surfando. E bem: embora não corra o circuito mundial, volta e meia participa de um etapa como convidada. Em 2016, chegou à semifinal da de Fiji – é bom lembrar, Bethany surfa com a desvantagem de não ter um braço para remar, se equilibrar e, dependendo do lado para o qual a onda quebra, adequar a velocidade colocando a mão na parede da onda e/ou segurando a borda da prancha.

Enfim, a experiência definitiva de visitante é ficar sentado num pufe, perto da prancha de Bethany, e esperar para ver alguma criança se aproximar (a Califórnia é cheia de crianças, tanto locais quanto turistas). A cara de surpresa que as crianças fazem é indescritível. Cobrem a boca com a mão, mordem os dedos, andam para trás, correm para chamar a atenção de alguém. Ao que parece, todas conhecem a história de Bethany (e por isso a reação). Fica a dica: se você, leitor(a) um dia for ao CSM, e a prancha de Bethany ainda estiver lá, fique uns minutos na área central, como quem não quer nada, até que chegue uma criança ou grupo de crianças à parte dedicada à surfista. A reação delas valerá a visita.

Surfing Heritage and Culture Center (SHACC, San Clemente)

Este slideshow necessita de JavaScript.

Para quem vem do sul, San Clemente é a primeira cidade litorânea do Condado de Orange (vulgo OC). Nesta importante cidade de surfe está o SHACC. A entrada para a exposição, que consiste basicamente de pranchas (ver informações no álbum de fotos), custa US$ 5. Para fazer pesquisa no acervo, que conta com revistas, livros e outros documentos, como cartas, é preciso ser membro da associação, o que custa US$ 50 por ano. A reprodução de materiais (uso de scanner etc.) é paga à parte.

Assim como o congênere de Oceanside, o museu é obra do esforço de um conjunto de surfistas, boa parte deles sócios que doam tempo e/ou dinheiro para a manutenção e desenvolvimento do local. Servem também como espaço para a realização de lançamentos de livros e filmes, homenagens, leilões (nos quais se leiloam pranchas e outros objetos para arrecadar recursos para o próprio museu), jantares de homenagem e/ou de arrecadação de fundos para as próprias entidades e para outros fins. Quando estive lá, fui atendido de forma muito simpática por Barry Haun, que, de bermuda e chinelo, me deu informações, forneceu contatos que poderiam ser úteis à minha pesquisa e, enquanto eu fazia a visita, fez a gentileza de telefonar para uma das pessoas para avisar que eu entraria em contato.

International Surfing Museum (Huntington Beach)

Este é o museu em que fui recebido com menos simpatia. Talvez as condições fossem desfavoráveis: era um domingo, ali pela hora do almoço, e havia dezenas de torcedores ruidosos do San Francisco 49ers tocando o terror assistindo ao jogo num pub em frente. (Tocando o terror nos padrões dos EUA, evidentemente; brincadeira de criança, quando se compara com as torcidas de futebol no Brasil.) O que me pareceu mais interessante do acervo foram itens específicos do surfe na própria cidade, sede de importantes campeonatos ao longo de décadas.

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

Santa Cruz Surf Museum (Santa Cruz)

Este slideshow necessita de JavaScript.

O Santa Cruz Surf Museum é tão pequeno que não daria para o acervo focar em pranchas – elas não caberiam no local. Contudo, tem seus atrativos. O primeiro deles é ficar dentro de um farol. Segundo, fica num lugar belíssimo, à beira-mar, em cima da ponta onde, logo abaixo, está Steamer Lane, uma das ondas mais famosas da Califórnia. Ou seja, a visita ao museu pode ser combinada com uma sessão nas gélidas águas locais – ou, em casos como o meu, com a assistência. O mesmo estacionamento é usado pelos visitantes do museu e pelos surfistas. Terceiro, tem entrada gratuita. Quarto, o acervo tem algumas fotos interessantes, assim como informações sobre aspectos do surfe local, como… ataques de tubarão.

Além de importante cidade de surfe californiana, conhecida pelas boas ondas e pelo mar frio, Santa Cruz é o lugar de origem de um dos principais fabricantes de roupas térmicas para surfe do mundo: O’Neill.

Santa Barbara Surf Museum (Santa Barbara)

Deste, não sei por que, não consegui encontrar as fotos. Assim como o de Santa Cruz, o forte são as pranchas. Há também muitas capas de discos e cartazes de filmes. De todos, foi o que me pareceu mais amador: na verdade, parece uma iniciativa pessoal de um apaixonado pelo surfe. O inacreditável: no domingo em que estive lá, não vi ninguém no museu. Isso mesmo: desde o momento que cheguei até a hora em que saí, não havia absolutamente ninguém lá dentro. O museu não cobra entrada, e é possível levar um adesivo deixando numa caixinha, em troca, uma doação de US$ 1. A casa onde funciona é meio difícil de achar, pois fica numa daquelas ruas meio estranhas: termina do nada numa linha de trem e recomeça do outro lado, só que você olha e não sabe por onde atravessar (pois há grades e muros). E uma vantagem, sem dúvida, é ficar na linda Santa Barbara.


Puerto Rico Olímpico: Soberanía, identidad y colonialismo.

16/01/2017

por Antonio Sotomayor
University of Illinois

.

El año 2016 para Puerto Rico fue trascendental y servirá como un año clave en su historia política y cultural. Políticamente, el Tribunal Supremo de los Estados Unidos declaró en dos importantes casos que el Estado Libre Asociado de Puerto Rico carece de autonomía y que es el Congreso de los EEUU el que retiene total soberanía sobre el territorio. También, el Congreso de los EEUU (liderado por el Partido Republicano) y el Presidente Barak Obama (Partido Demócrata) aprobaron el establecimiento de una Junta de Control Fiscal (llamada PROMESA por sus siglas en inglés). Esta Junta, cuyos miembros no fueron electos democráticamente por el pueblo de Puerto Rico, tiene estatutos y provisiones que muchos los consideran como poderes dictatoriales.  En el ámbito cultural me refiero a los deportes. Deportivamente, el año 2016 fue también inolvidable para Puerto Rico, particularmente dentro del Movimiento Olímpico. El 13 de agosto marca el día en que Puerto Rico obtuvo su primera medalla de oro en los Juegos Olímpicos desde que comenzó a participar en 1948. Esta medalla llegó en manos de la tenista Mónica Puig, quien a pesar de estar clasificada #34 en el mundo, derrotó a la clasificada #2 Angelique Kerber (Alemania), después de también derrotar a la doble-campeona de Wimbeldon Petra Kvitová (República Checa) y la campeona del Abierto de Francia Garbiñe Muguruza (España). En declaraciones luego de la victoria, y teniendo en mente la crisis por la cual atraviesa Puerto Rico, Puig dijo “creo que he unido una nación.” Atletas puertorriqueños también se destacaron en el tenis de mesa. Con tan solo 16 años, Adriana Diaz ganó el Abierto de Estados Unidos y está clasificada como la mejor tenimesista de Latinoamérica. Su primo, Brian Afanador, también conquistó suficientes victorias para también colocarse como el mejor tenimesista de Latinoamérica. Ambos fueron miembros de la delegación a los Juegos de Rio 2016.

Estas victorias Olímpicas y deportivas puertorriqueñas contrastan con la crisis económica, social y política que atraviesa Puerto Rico en el presente. Como muy bien señaló Puig, el deporte Olímpico puertorriqueño une a una nación. Esta aseveración podría ser similar en otras naciones latinoamericanas y caribeñas. Pero las de Puerto Rico adquieren un valor diferente, pues ocurren dentro de un estatus político colonial. Oficialmente, Puerto Rico no es parte, pero le pertenece, a los Estados Unidos y sus habitantes adquieren ciudadanía estadounidense al nacer en el territorio. Mientras que el Congreso mantiene poderes plenarios sobre el territorio, los puertorriqueños no pueden enviar representación adecuada al Congreso y no pueden votar por el Presidente de los EEUU. En otras palabras, las victorias le la nación puertorriqueña a nivel internacional se dan bajo una relación oficial y directamente colonial, y por atletas portando la ciudadanía de otro país olímpico. Aunque esta situación olímpica/política no es singular, y se ha dado y ocurre con otros países/naciones (Jamaica entre 1930 y 1966, Taiwán/China Taipéi, Palestina), es única en América Latina. Para una nación olímpica relativamente exitosa como Puerto Rico (de las 41 naciones olímpicas en América Latina y el Caribe, Puerto Rico ocupa la posición número 12), esta situación merece atención y entendimiento. Es decir, Puerto Rico es la única nación de América Latina que tiene soberanía olímpica, sin tener soberanía política.

El tema de las soberanías, tanto olímpica como política, en Puerto Rico es el tema de mi reciente libro titulado “The Sovereign Colony: Olympic Sport, National Identity, and International Politics in Puerto Rico” (Lincoln: University of Nebraska Press, 2016). La historia de cómo los puertorriqueños lograron obtener soberanía olímpica, a pesar de no tener soberanía política es compleja y se debe entender en sus contextos deportivos, culturales, y políticos tanto en Puerto Rico, como en América Latina, Estados Unidos y países en desarrollo. Cuando Estados Unidos invade a Puerto Rico durante la Guerra Hispano-Americana de 1898, los puertorriqueños habían alcanzado una anhelada autonomía de España que protegía los intereses hegemónicos locales de una clase burguesa que se identificaba tan puertorriqueña como española, pero que percibía a los Estados Unidos como el epicentro de modernidad y progreso. No dispuestos a perder el grado de hegemonía local ante el nuevo régimen estadounidense, los puertorriqueños negocian un proceso de Americanización impuesto por el creciente imperio donde aceptan, por ejemplo, un modelo de educación proveniente del norte, incluyendo los deportes, pero rechazan la sustitución del idioma español por el inglés. Béisbol, baloncesto, voleibol, atletismo y muchos otros deportes son adoptados con mucho entusiasmo tanto en las escuelas públicas y recién establecidas universidades, como por el pueblo en general.

Durante los años 1930, un grupo de intelectuales embarcan en un proceso de definición nacional, conocido como la Generación del 30, similar a otros en la región. También, el radical Partido Nacionalista logra ejercer suficiente presión para desestabilizar la colonia desatando violentos enfrentamientos.  En este contexto Puerto Rico entra oficialmente en el Movimiento Olímpico al ser invitado a los Segundos Juegos Centroamericanos y del Caribe en la Habana, Cuba de 1930. Se puede decir que el entusiasmo del deporte olímpico sirvió como una herramienta de estabilización ya que fue apoyado y celebrado por diversos grupos de diferentes ideologías. Pero también desde este comienzo se pueden observar intereses diplomáticos y coloniales de esta participación ya que Puerto Rico representaba a los Estados Unidos dada su condición como territorio no-incorporado y ser ciudadanos estadounidenses. En otras palabras, a los diplomáticos y políticos estadounidenses y puertorriqueños les interesaba la participación de Puerto Rico en eventos mega-deportivos para adelantar una imagen positiva de la influencia estadounidense durante tiempos como los de la política del Buen Vecino. Las mismas razones se pueden observar más adelante en tiempos de la Segunda Guerra Mundial, movimientos descolonizadores de medio-siglo y la Guerra Fría. También se discutían las posibilidades del turismo y los beneficios económicos que las delegaciones de Puerto Rico podían traer a la isla. Estas razones diplomáticas y económicas protagonizaron las discusiones entre los círculos políticos en Washington y San Juan en torno a si los puertorriqueños podían participar en eventos olímpicos o si debieran tratar de entrar en la delegación estadounidense. Las discusiones aplicaban a todos los eventos olímpicos donde Puerto Rico participó, entiéndase Juegos Centroamericanos y del Caribe (JCAC) desde 1930, Juegos Panamericanos (JPA) desde 1951 (la discusión comienza en 1941) y Juegos Olímpicos (JO) de verano desde 1948.

Las razones diplomáticas y económicas eran ponderadas dentro de una especial alianza tanto del liderato político en el Departamento de Estado de los EEUU, como por los gobernadores, Secretarios de Estado y líderes olímpicos en Puerto Rico (p.ej. Julio Enrique Monagas) y Estados Unidos (p.ej. Avery Brundage). Sin embargo, fueron muchos atletas puertorriqueños que utilizaron el podio olímpico para rechazar colonialismo y dejar evidenciado la existencia inequívoca de la nación. La segunda ocasión donde Puerto Rico participó en los JCAC en El Salvador en 1935, el nacionalista Juan Juarbe Juarbe usó la bandera puertorriqueña (entonces prohibida y símbolo nacionalista) en el desfile inaugural causando la furia del Consulado estadounidense. En su mayoría, estos atletas, a pesar de tener ciudadanía estadounidense, confraternizaron con atletas de otros países latinoamericanos como latinoamericanos, y no necesariamente como estadounidenses. La bandera puertorriqueña que usa hoy en día la delegación se izó por primera vez en los JO en Helsinki en 1952 ante un pequeño, pero emocionado grupo de puertorriqueños que disfrutaron de un sueño hecho realidad. Y es que las razones diplomáticas y/o políticas no explican completamente la existencia olímpica puertorriqueña. El fervor de un pueblo amante de los deportes, a modo cultural, que ve en la delegación olímpica una sagaz fuente de identidad nacional, hace que sea difícil negarle un espacio a Puerto Rico en el umbral de las naciones olímpicas. Desde el 1930, atletas puertorriqueños han sido recibidos como héroes y heroínas nacionales, nutriendo un robusto orgullo nacional.

Por lo tanto, no es de extrañarnos que el recibimiento de Monica Puig en Puerto Rico fue todo un evento de envergadura. Puig fue recibida en el Salón de los Gobernadores del aeropuerto por el gobernador Alejando García Padilla quien dijo orgullosamente que “La Borinqueña sonó en las olimpiadas y nuestra bandera subió a la más alta de las astas.” Dos meses después de la victoria de Puig, los puertorriqueños en sus elecciones generales votaron a favor de un gobernador que aspira a que Puerto Rico se convierta en un estado federado de los EEUU mientras observaron, sin poder participar, en las elecciones en los EEUU. Gran parte de este sector “estadista” afirma que de Puerto Rico ser admitido como estado federado a los EEUU puede mantener su comité olímpico por éste ser una entidad privada y no gubernamental. El debate es complicado, pero la historia es clara. Los comités olímpicos nacionales han estado envueltos tanto en políticas identitarias como estatales, y el caso de Puerto Rico no es diferente. Mientras la discusión casi ya perene de la descolonización de Puerto Rico continúa, la soberanía olímpica de Puerto Rico continúa existiendo en las precarias, pero consistentes, aguas del colonialismo.

.


3, 2, 1… Colombia en los Juegos Olímpicos

01/08/2016

Por:
David Quitián

Esta semana empieza la trigésimo primera edición de los Juegos Olímpicos de la era moderna. Los “Juegos Olímpicos de verano” –como también se les conoce- se realizarán en la estación de invierno del hemisferio sur; detalle nominal que delata la eugenesia del evento inventado por el Barón Pierre Fredy de Coubertin (1863-1937).

Es la primera vez que las justas realizadas por el Comité Olímpico Internacional, COI, se escenifican en una nación lusófona y en suelo sudamericano. De esa forma Brasil comparte con México una doble coincidencia: ser los únicos países de América Latina que fueron sede y que –además- asumieron el doble reto de organizar también una Copa Mundo de fútbol en un lapso de dos años (México lo hizo a la inversa: Olímpicos en 1968 y Mundial en 1970).

Jorge Perry fue el primer colombiano en Olímpicos (el desmayo en su debut contribuyó a su leyenda).

              Jorge Perry Villate fue el primer colombiano en Juegos Olímpicos (el desmayo en su debut contribuyó a su leyenda).

Colombia inició su historia olímpica antes de constituir una entidad filial del COI: fue en Los Ángeles 1932 y desde entonces, con la excepción de Helsinki 1952, nunca dejó de participar en el programa atlético que tributa a la diosa griega Nike. Esa primera participación se dio con un boyacense de ascendencia inglesa y española que logró ser admitido para la prueba del maratón: Jorge Perry Villate apenas correría 10 kilómetros de la competencia, pero ganó medalla al mérito de la organización y pasó a la historia como el primer atleta olímpico del país.

Esa participación brindó el empujón que faltaba para que el Comité Olímpico Colombiano, COC, fuese creado el 03 de julio de 1936, días antes del siguiente programa olímpico en Berlín en el que competirían 5 atletas en representación del pabellón patrio. La fecha de creación de la entidad olímpica nacional fue motivo de celebración hace pocas semanas cuando se recordó la octogésima efeméride: en la fundación del COC –hace 80 años- estuvieron representantes del tenis, basquetbol, fútbol y atletismo; con la veeduría de periodistas de El Tiempo, El Espectador y El Mundo al Día.

Son en total 19 participaciones, para un total de 826 deportistas, de ellos 228 mujeres. La primera participación femenina fue en las justas de México a las que acudieron cinco atletas; pero fue desde los primeros juegos del milenio, en Sidney 2000, cuando la presencia de ellas alcanzó tal vigor al punto de superar la representación masculina en Londres 2012 (46 hombres y 58 mujeres) y estar igualada para el torneo en suelo carioca: al momento de publicar este post se han clasificado 73 mujeres y 75 hombres.

María Isabel Urrutia levantó en arranque 110 y en envión 135 kgs para ganar el oro en Sidney 2000

María Isabel Urrutia levantó en arranque 110 y en envión 135 kgs para ganar el oro en Sidney 2000

Sin embargo la eficacia femenina es superior: de las 19 medallas cosechadas en la historia de los juegos, nueve han sido conquistadas por ellas. Una razón más para el orgullo femenino es que los dos únicos oros fueron ganados por mujeres: María Isabel Urrutia en la prueba de levantamiento de pesas (75 kgs) en Sidney 2000 y Mariana Pajón en bicicrós hace cuatro años.

Las 19 medallas sumadas por las delegaciones colombianas a lo largo de los juegos (una en promedio por cada edición), se distribuyen así: 11 de bronce, 6 de plata y 2 de oro. Todas obtenidas en deportes individuales, en ocho disciplinas distintas, que incluyen pódiums de dos de los deportes nacionales: el ciclismo y el boxeo. La estadística es esta:

• Halterofilia: 4 (1 oro, 2 plata, 1 bronce)
• Ciclismo: 4 (1 oro, 1 plata, 2 bronce)
• Tiro deportivo: 2 (2 plata)
• Atletismo: 2 (1 plata, 1 bronce)
• Boxeo: 3 (3 bronces)
• Lucha: 2 (2 bronces)
• Judo: 1 (1 bronce)
• Taekwondo: 1 (1 bronce)

Esas cifras permiten plantear algunas generalidades que merecen mayor desarrollo en otro espacio académico:

• Las mujeres son más eficaces y su progreso es más notorio (9 medallas en 11 juegos)
• Los atletas afrocolombianos han ganado más del 50% de las medallas (10 de las 19)
• Antioquia (7 medallas, una de oro), Valle del Cauca (4 medallas, una de oro) ratifican internacionalmente su supremacía en el ámbito colombiano.
• Medellín es la ciudad de más campeones olímpicos (4), seguida por Barranquilla (2)
• La costa atlántica, como región, es la otra gran aportante de atletas y medallas olímpicas (5 preseas)
• El boxeo en Colombia es caribeño: casi la totalidad de los clasificados por ese deporte son costeños y los tres bronces cosechados hasta el momento son de pugilistas de esa región.
• Las medallas de halterofilia y boxeo han sido cosechadas por afrocolombianos; las de ciclismo por andinos (todos de Antioquia).
• Los logros en ciclismo demuestran que este es el deporte nacional por excelencia: 2 hombres y 2 mujeres (ambas han sido abanderadas) han colectado medallas en tres de las cuatro pruebas olímpicas del ciclismo: la ruta, la pista y el BMX.

Mariana Pajón es llamada la "reina de las pistas" del bicicrós. Medalla de oro del BMX en Londres 2012

Mariana Pajón es llamada la “reina de las pistas” del bicicrós. Medalla de oro del BMX en Londres 2012 y con posibilidades de repetir en Rio. 

Se viene el encendido de la pira olímpica, la cuenta regresiva ya es de un dígito. En breve comenzará a escribirse el libreto de unos juegos que –a juzgar por el cubrimiento de los medios nacionales- puede parecerse en emoción a lo vivido en el Mundial de Brasil 2014: habrá más periodistas colombianos que nunca (especialmente de pequeños medios regionales) y puede darse la llegada de un número de aficionados que se acerque a los 120 mil que vinieron hace dos años.

Por ahora la sensación es que son unos juegos “casi en casa” (de hecho, la Selección femenina de fútbol juega cerca de la frontera, en Manaos) y eso puede estimular una faena parecida a la histórica cifra de ocho medallas conseguidas en Londres 2012.

Llegan estos juegos en medio de un clima de efervescencia por el reciente título de Atletico Nacional en Copa Libetadores y de los podiums de los ciclistas (los “escarabajos”) en el Giro de Italia y el Tour de France.

Se da la largada para RIO 2016 y los que podemos estar en la “cidade maravilhosa” agradecemos la feliz oportunidad.

Twitter: @quitiman


Ali e as estrelas do Dream Team: quando os ídolos viraram crianças

04/06/2016

Por Rafael Fortes

Morreu Muhammad Ali.

Lembrei de uma bela homenagem a ele, Cassius Marcelo Clay, de Jorge Ben Jor (então Ben), ao que parece, em parceria com Toquinho. A canção faz parte do espetacular disco Negro É Lindo (1971). É uma das numerosas pérolas pouco conhecidas de Benjor.

Não sou grande acompanhador de boxe. E, mais importante, não tive idade para ver Ali lutar e acompanhar sua trajetória esportiva e pessoal. Talvez por isso (e por só haver conhecido a música de Benjor há coisa de 10-12 anos) sempre me impressionou a ampla admiração por ele nos EUA, especialmente intensa entre atletas negros (de todas as modalidades). A cena que me fez entender isso – cair a ficha, como se diz – ocorreu numa partida a que eu assistia pela televisão e está capturada no vídeo abaixo.

Durante os Jogos de Atlanta em 1996, Ali recebeu uma medalha do Comitê Olímpico Internacional (COI), pois, segundo consta, muitos anos antes perdera a que conquistara lutando nos Jogos de Roma, em 1960. A princípio, pode parecer estranho que se tenha escolhido o intervalo de um jogo de basquete masculino – e não de um evento de boxe – para realizar a cerimônia. Certamente o basquete – e particularmente os jogos do Dream Team – tinha muito mais visibilidade que o boxe, em se tratando de Olimpíada. Veja o vídeo e o que acontece poucos segundos após Ali receber a medalha:

Em 2’56”, num curto corte de câmera, já se pode ver Karl Malone aplaudindo e se esticando para espiar. Pouco depois, a maioria dos jogadores dos EUA não se contém. Entram na quadra e cercam o ídolo, num gesto/momento que, mesmo visto 20 anos depois, continuo considerando emocionante e de rara beleza. Olajuwon, O’Neal, Pippen, Barkley, Hardaway, Malone, Payton e outros, eles próprios grandes ídolos e homens enormes, reúnem-se como crianças pequenas em torno do seu herói. (Na sequência, os jogadores da Iugoslávia – sim, da Iugoslávia -, capitaneados por Divac, também posam para a foto.)

A Olimpíada de 1996 foi realizada em Atlanta. Conhecida por ser a sede da Coca-Cola e de emissoras de televisão como CNN e TNT, a cidade é a capital da Geórgia, no sul dos EUA, um dos estados que compuseram a Confederação durante a Guerra Civil Americana. Região de cultura e tradição barra-pesada de escravidão e racismo. Naquele time olímpico de basquete, Charles Barkley, por exemplo, nasceu e foi criado no Alabama (outro estado barra-pesada) e, hoje comentarista de TV, volta e meia conta histórias pessoais e/ou faz críticas sobre o racismo quando participa de mesas-redondas, como num excelente debate no programa Open Court durante o Mês da História Negra, em fevereiro deste ano (infelizmente, não consegui achar o vídeo na internet).

Observando a extensa e sentida reação à notícia da morte de Ali, noto a variedade de razões pelas quais as pessoas o admiravam. Surpreso, não mais; de novo impressionado, sem dúvida.


Futebol e “sacanagem”: ocasionalidades nas trajetórias

21/04/2016

Por Victor Andrade de Melo

Ao ver o título deste post, o(a) leitor(a) pode pensar que se trata de um texto sobre os cartolas do futebol brasileiro, sobre as desigualdades salariais que grassam entre os jogadores ou sobre os problemas relativos à organização da Copa do Mundo de 2014, tais como gastos excessivos na construção de estádios, remoções de comunidades ou dinheiro público desperdiçado em um suposto legado que nunca veio.

.

VLT de Cuiabá – o sistema não funciona, a despeito de ser uma das obras mais caras do Estado

VLT de Cuiabá – o sistema não funciona, a despeito de ser uma das obras mais caras do Estado

.

Pois bem, quero de pronto acalmar (ou decepcionar) o(a) leitor(a). Aqui não tratarei disso. O uso do termo “sacanagem” remete-nos à transição dos anos 1970/1980, quando comumente era usado como sinônimo ou para fazer referência a algo relativo ao sexo.

Por exemplo, algumas pornochanchadas, gênero que fez muito sucesso no período, eram chamadas de “filmes de sacanagem”. Quando jovem, tinha inveja de alguns amigos que conseguiam burlar os pais e ver algumas dessas películas que passavam uma vez por semana, bem tarde, numa emissora de televisão (se não me engano, na Bandeirantes, num programa chamado “Sala Especial”).

.

eroticas.2.

Nos dias de hoje, esses filmes têm sido exibidos no Canal Brasil. Na verdade, tinham um padrão de exibição corporal que, se comparado ao que na atualidade vemos mesmo na TV aberta, pode parecer algo bem pueril. Na época, contudo, habitavam o sonho erótico da meninada, junto com umas revistas vendidas na banca com uma tarja preta, chamadas, não sei bem o porquê, de “suecas”.

Pois bem, é sobre isso que pretende tratar este post, mais especificamente do primeiro filme brasileiro de sexo explícito, lançado em 1982, “Coisas Eróticas”, dos diretores Raffaele Rossi e Laerte Callichio.

.

Cartaz do filme

Cartaz do filme

.

Antes, contudo, deixe-me abordar a segunda parte do título do post – “ocasionalidades na trajetória”.

———-xxxxxxxxxx———-

Um dos temas que mais me interessa é a intensa presença da prática esportiva em nosso cotidiano, os rastros que deixa no dia-a-dia, nos mais diferentes âmbitos. No passado, chamei esse esforço de prospectar tal ocorrência como uma tentativa de “arqueologia social do esporte”. Em muitas situações são ocasionalidades. De toda forma, ajudam a lançar um olhar sobre o tema.

Por exemplo, chama-me a atenção como o futebol foi relevante para os membros de dois grupos culturais importantes dos anos 1970, os Novos Baianos e o Nuvem Cigana. Destaca-se a importância dada ao velho esporte bretão nas entrevistas disponíveis em dois belíssimos recentes documentários dedicados às trajetórias desses movimentos (Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano, disponível aqui https://www.youtube.com/watch?v=d57VtNeR9W8; e As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana, informações aqui https://www.facebook.com/As-Incr%C3%ADveis-Artimanhas-da-Nuvem-Cigana-448283485269672/).

.

Capa de LP dos Novos Baianos

Capa de LP dos Novos Baianos

.

O velho esporte bretão, curiosamente, aparece na trajetória de um dos responsáveis pelo primeiro filme brasileiro de sexo explícito – Raffaele Rossi

———-xxxxxxxxxx———-

Tomei conhecimento desse filme pelo incrível e louvável trabalho de Denise Godinho e Hugo Moura, que se dedicaram a recuperar esse capítulo pouco conhecido da história do cinema brasileiro.

– Sobre o livro “Coisas eróticas”, ver  http://blooks.com.br/dica-blooks-coisas-eroticas-de-hugo-moura-e-denise-godinho/

– Sobre o documentário “A primeira vez do cinema brasileiro”, ver https://aprimeiravezdocinemabrasileiro.net/

– O filme “Coisas Eróticas” está largamente disponível na internet

.

Capa do livro

Capa do livro

.

Os autores recuperaram com esmero todas as fases do projeto – a ideia, o convencimento dos técnicos envolvidos, a seleção e convencimento de atores e atrizes, as filmagens com precários recursos, as dificuldades com a censura, o lançamento (decidido de forma abrupta para dar conta da tristeza que acometia a população em função da desclassificação da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982), os desdobramentos na própria produção cinematográfica e para os personagens envolvidos.

Raffaele Rossi, que até o lançamento do filme era um polêmico e menos valorizado diretor da Boca do Lixo paulistana, enriqueceu com “Coisas Eróticas”. Sua principal decisão para investir sua fortuna foi criar um…time de futebol de salão!

.

Cartaz de O Homem Lobo, filme dirigido do Rossi

Cartaz de O Homem Lobo, filme dirigido do Rossi

.

A decisão tinha em conta a paixão do diretor pelo esporte e, obviamente, uma enorme imprevidência, que o levou inclusive a perder tudo o arrecado com o filme em uma década de gastos excessivos. De toda forma, em 1983, criou o Grêmio Recreativo Rossi, com sede no próprio sítio onde passava dias com a família e oferecia festas inesquecíveis.

.

Grêmio Recreativo Rossi

Grêmio Recreativo Rossi

.

Rossi investiu alto na iniciativa, tanto na construção de instalações adequadas, com o que havia de mais moderno, quanto na formação da equipe, trazendo inclusive três jogadores do Paraguai, na época vice-campeão mundial da modalidade. O primeiro jogo fez crescer no diretor a certeza de que se tratava de um bom investimento – 3 X 2 no poderoso Banespa.

O futuro, contudo, não exponenciaria o esperado. O time faliu junto com seu criador.

– Mais informações sobre o time, ver https://aprimeiravezdocinemabrasileiro.net/ (1h07min. a 1h08min.)

———-xxxxxxxxxx———-

Dinheiro da “sacanagem” bancando o esporte. Nesse caso da equipe de Rossi, nenhum problema. Sacanagem da braba, no pior sentido do termo, estava na mesma época ocorrendo na articulação entre cartolas do futebol e de escolas de samba, gente do jogo do bicho, setores da ditadura e da polícia, assunto magistralmente tratado por Aloy Jupiara e Chico Otavio em “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado” (http://www.blogdaeditorarecord.com.br/2015/11/30/os-poroes-da-contravencao-de-aloy-jupiara-e-chico-otavio/). De fato, iria crescer muito o número de sacanagens ao redor do esporte-rei do Brasil.

A comparação é plausível. “Coisas Eróticas” hoje parece coisa de criança, como o pareciam frente a ele aqueles filmes da “Sala Especial” que povoavam nossas imaginações (e movimentavam nossos corpos) infantis.

.


Os Garotos da Praia de Waikiki: surfe, turismo, homens e mulheres

10/04/2016

Por Rafael Fortes

Num livro publicado em 2011, o historiador Isaiah Helekunihi Walker celebra o surfe como prática de resistência no Havaí durante o século XX. Entre os méritos da obra estão o uso de fontes que transcendem o inglês – sobretudo jornais em havaiano – e o destaque à articulação do surfe com movimentos políticos do arquipélago. Tem também problemas, comWalker - Waveso a grande facilidade para enxergar resistências e o esforço de corrigir textos de memória e jornalísticos – frequentemente, rechaçando os mitos apenas para colocar outros em seu lugar. Contudo, esse texto não é uma resenha do livro. Avisos aos navegantes: todas as citações do livro estão originalmente em inglês e foram traduzidas por mim; os vídeos, quando narrados, o são em inglês.

O que me interessa discutir é um trecho – intitulado “Garotos da Praia: Empurrando Mulheres e Fronteiras” (p. 70-77) – do capítulo três. O capítulo trata da rivalidade entre os frequentadores da praia de Waikiki, em Honolulu, que se agruparam em torno de dois clubes: o Outrigger Canoe Club, “formado em 1908 por (…) Alexander Hume Ford” e composto majoritariamente por haoles brancos nascidos no continente (p. 59); e o Hui Nalu, fundado e composto por membros de famílias históricas havaianas, entre os quais Duke Kahanamoku e o príncipe Jonah Kūhiō Kalanianaʻole, membro da família real deposta na última década do século XIX, antes da anexação pelos EUA, em 1898 (não confundir este clube com o Hui O He’e Nalu, formado nos anos 1970 e existente até hoje, cujos membros se tornaram conhecidos no Brasil como black trunks). O Hui Nalu, “embora existisse de forma pouco organizada desde 1905, (…) foi oficialmente formado (…) em 1911” (p. 62). Waikiki era e continua sendo a praia mais turística do arquipélago.

De acordo com Walker, “a partir de 1915, surfistas do Hui Nalu abriram lucrativos negócios sob concessão em Waikiki” e passaram a ser conhecidos como os “Garotos da Praia de Waikiki” (p. 70). Eles “eram salva-vidas, guarda-costas, instrutores, animadores e guias turísticos para os visitantes. Por um preço relativamente alto, levavam clientes para a arrebentação para descer ondas em canoas e pranchas.” Faziam e vendiam artesanato e davam aulas de ukelele.  À medida que os negócios se desenvolveram, alguns garotos passaram a atuar em tempo integral como funcionários particulares de famílias ou indivíduos de alta renda que visitavam Waikiki: levavam para passeios, atuavam como secretários particulares e desempenhavam funções diversas por períodos que variavam de “duas semanas até três meses” (p. 71).

As informações contidas e as histórias contadas nesta parte do capítulo se baseiam majoritariamente em entrevistas de história oral feitas com os próprios Garotos da Praia (a maioria, feitas em 1985 e disponíveis num banco de dados). Ao narrarem as relações com os e, principalmente, as turistas, a coisa fica mais animada.

Entre as graças que faziam para entreter os clientes, contavam histórias e piadas e surfavam sentados em cadeiras de praia ou na companhia de um cachorro. Este vídeo identifica um dos irmãos Kahanamoku como um surfista que descia ondas com seu cão Spot, o que pode ser visto em 3’19”. (Adendo: em outras ondas, a prancha em que está o cachorro não consegue ser captada pela câmera, o que provavelmente se deve à dificuldade de manejar o equipamento e à diferença de velocidade entre a prancha filmada e a canoa em que, suponho, encontrava-se a câmera.)

“À medida que ostentavam suas habilidades sociais e surfísticas, eles se tornaram celebridades locais capazes de atrair mais do que dinheiro. Garotas e mulheres brancas se aglomeravam na praia para aprender a surfar com os Garotos da Praia havaianos. ‘Naquela época’, recordou Louis Kahanamoku, ‘especialmente as wahine [mulheres] brancas iam todas nos Garotos da Praia. Os Garotos da Praia eram conhecidos por cortejar diversos tipos de mulheres de fora – divorciadas, ricas, vedetes e filhas de visitantes ricos” (p. 72).

Havia turistas que confiavam suas filhas aos cuidados dos Garotos da Praia. Houve histórias de amor entre os Garotos e vedetes que deram em casamento. E evidentemente, havia quem os considerasse “um bando de homens preguiçosos que se prostituem ganhando a vida em cima de desquitadas do continente” (p. 72).

Uma das principais formas de ensinar as damas a surfar, e também de “impressioná-las”, era descer as ondas junto com elas, na mesma prancha. Por exemplo, levantando-as sobre os ombros, o que, de acordo com um dos Garotos, “convidava a manobras excitantes e íntimas”. Na volta, “subiam em cima da parte de trás das garotas haoles” na remada para o outside (p. 72). O vídeo abaixo mostra, em 2’20”, uma sorridente mulher descendo uma onda em surfe duplo. (No último vídeo deste texto, há também um amplo sorriso captado em 5’07, em meio à excitação de descer uma onda numa canoa.)

(Breve comentário sobre o vídeo acima: como se pode ver, ele traz fartura de boas ondas surfadas com desenvoltura – e grande estilo – por um cachorro, que abre os trabalhos no sonrisal em 2’44” e depois manda ver no hang ten.)

Cenas com homens aproveitando a aproximação dos corpos para certos contatos e iniciativas, embora mantendo uma postura que cinicamente permita alegar que nada demais está acontecendo, também aparecem em Gidget, produção de 1959 com trama situada no litoral da Califórnia. Eis o trecho:

A partir de 0’16”, um dos personagens fala: “Aí está, querida! Reta como uma panqueca, hein?! Quase, né? (…) Posso te deixar mais à vontade?” Ao final, o mesmo personagem diz: “Muito bom para a primeira vez, né? Agora vou um levá-la um pouco mais fundo!” O filme, de acordo com vários pesquisadores, foi decisivo para espalhar a febre do surfe pelos EUA. A situação da personagem adolescente Gidget, que busca aceitação e tenta aprender a surfar em meio a vagabundos de praia mais velhos, é muito distinta daquela das turistas que buscavam e contratavam os serviços dos Garotos da Praia de Waikiki – elementos que podem permitir uma boa e complexa discussão sobre consentimento, abuso, vulnerabilidade etc.

Voltando a Waikiki… Quando na areia, a legítima preocupação de evitar queimaduras pela exposição ao sol levava os Garotos a realizar, “com frequência regular”, sessões de massagem para aplicação de óleos na pele de quem estava sob seus cuidados (p. 73).

À noite, vestindo smoking, os Garotos cantavam e tocavam instrumentos musicais, atraindo especial interesse do público feminino. As letras de algumas músicas tratam destas interações, do clima de romance e do duplo sentido em movimentos e gestos. Após o encerramento das atividades, os pares/casais se espalhavam em diversas direções – alguns, rumo ao mar, para novas sessões de surfe a dois.

O vídeo a seguir reitera esta narrativa da “boa vida” dos Garotos com diversas fotos, especialmente a partir de 3′ (e, diga-se de passagem, tem uma visão ainda mais positiva e idílica que Walker).

Como se pode imaginar, “por meio de tais interações, os Garotos da Praia de Waikiki violavam regras sociais de uma sociedade americana governada por leis antimiscigenação e ameaçavam a hegemonia haole por conquistarem propriedade que haviam construído e que era seu privilégio” (p. 75). Para Walker, isto evidencia que o mar – e, particularmente, a prática do surfe – constituía um espaço de exceção, de inversão de valores. Ali os homens havaianos eram poderosos, admirados e desejados. “Enquanto a indústria do turismo promovia as ilhas como uma ‘mulher’ a ser conquistada, os homens havaianos não eram propagandeados como objetos sexuais da maneira como ocorria com as mulheres dançarinas de hula-hula. Portanto, estes homens não estavam desempenhando ou se adequando a expectativas de conquista sexual de turistas; em vez disso, as desafiavam” (p. 75-6). Embora o argumento tenha valor, eu sugeriria que eles estavam também se adequando às expectativas das turistas.

No início dos anos 1930, num contexto de intensa crise econômica; acusações de estupro; e o transplante, para as ilhas, do discurso racista e histérico a respeito do negro como um predador sexual, o clamor social legitimou uma intensa reorganização do espaço social e econômico da praia de Waikiki, que passou a ser completamente controlada pelos brancos ligados ao Outrigger. Restou aos Garotos se sujeitarem a trabalhar em condições muito piores que as anteriores, tentarem ganhar a vida como frilas ou simplesmente abandonar a praia. A Segunda Grande Guerra fecharia as praias do arquipélago – de acordo com Walker, Waikiki foi cercada com arame farpado.

Bibliografia

WALKER, Isaiah Helekunihi. Waves of Resistance: Surfing and History in Twentieth-Century Hawai’i. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2011.