Sea Club Overall Skate Show: tecnologia e espetáculo no Projeto SP (1988)

18/11/2018

Por Leonardo Brandão

A prática do skate vertical (realizada em grandes rampas no formato de “U”) passou, durante a segunda metade da década de 1980, por um grande desenvolvimento no país. Um marco desse período foi o “Sea Club Overall Skate Show”, um grande campeonato ocorrido no dia 09 de abril de 1988 na cidade de São Paulo, dentro de uma casa de show chamada “Projeto SP”. Esse evento, que chegou a ser exibido no programa “Esporte Espetacular” da Rede Globo, foi produzido numa parceria entre a empresa Sea Club e uma revista especializada em skate, chamada Overall.

Esse evento foi, segundo o editor dessa revista, algo tão bem organizado que até mesmo o obrigou a mudar o tempo verbal de seus editoriais, os quais sempre projetavam o skate como um esporte do futuro e/ou em crescimento. Agora, segundo ele, o skate já era um esporte do presente, um jovem tornado adulto. No editorial reproduzido abaixo, a presença do termo “atleta” como sinônimo de “skatista” demonstra bem a pretendida transição:

Dessa vez é no presente!

O tempo verbal empregado na construção das frases da maioria dos editoriais da Overall, ao longo desses mais de dois anos de trabalho, foi o futuro. Hoje, a realidade nos permite mudar o tempo dos verbos […]. Esta edição especial da Overall, com 84 páginas, sela definitivamente o início da fase adulta deste esporte no Brasil. O SEA CLUB OVERALL SKATE SHOW foi a prova final. O campeão mundial de skate vertical, e outro que está entre os dez melhores skatistas do mundo, desceram do Olimpo e vieram conferir e aplaudir o estágio de desenvolvimento que o esporte atingiu no Brasil. Não só eles, mas toda a imprensa nacional (mais a revista norte-americana Transworld) voltaram objetivas e máquinas de escrever para o maior evento de skate que o Brasil já teve (Revista Overall, n. 9, 1988, p. 08).

A presença de dois dos maiores ídolos do skate estadunidense, Tony Hawk e Lance Mountain, ambos pela primeira vez no país, ajudou a atrair a presença da grande imprensa e atiçar o júbilo público. Oferecido como espetáculo para as massas, o skate reinventava-se para além de seus nichos, seduzindo uma plateia ávida por movimentos arriscados, pirotecnias do corpo e da ação.

Para além do campeonato em si, é preciso notarmos que essa condução do skate vertical em direção ao esporte e, neste caso, ao espetáculo, ocorreu articulada ao que os sociólogos Norbert Elias e Eric Dunning chamaram de “o aparecimento do profissionalismo no desporto”, isto é, de um grupo de pessoas que, ao se tornarem profissionais em determinadas práticas, acabam por desenvolver “um nível de perfeição que dificilmente poderá ser alcançado por pessoas que se dedicam às atividades desportivas no seu tempo de lazer e apenas por prazer” (1992, p. 99). O fato é que os skatistas profissionais passaram a criar um conjunto de técnicas corporais diferenciadas e muito mais especializadas que os demais skatistas amadores ou somente praticantes de fim de semana; e isso acabou por conferir a esse grupo restrito as condições necessárias para protagonizarem um verdadeiro “espetáculo” para os admiradores dessa atividade.

Outro aspecto que merece destaque foi a comercialização do vídeo deste campeonato, tido como a “fita VHS do mais radical show de skate já visto no Brasil”. A presença do público (nove mil pessoas), dos dois skatistas convidados dos Estados Unidos e dos “24 melhores skatistas verticais do Brasil” eram os ingredientes oferecidos. O show de imagens, sem dúvida, transformava o skate – e, por conseguinte, o corpo desses skatistas – num espetáculo televisivo; uma vez que, como afirmou o sociólogo Pierre Bourdieu, “a constituição progressiva de um campo relativamente autônomo reservado a profissionais é acompanhada de uma despossessão dos leigos, pouco a pouco, reduzidos ao papel de espectadores” (BOURDIEU, 1990, p. 217).

Assim, a exibição das manobras de skate evidenciava um uso dessa atividade que implicava tecnologia e espetáculo – que uma vez adquiridos, poderiam ser vistos repetidas e repetidas vezes através da união do videocassete com a televisão. A transformação das competições em experiências midiáticas passou a refabricar a emoção do espectador, isto é, a criar novas formas e maneiras de vê-las. Diferentemente dos 9 mil espectadores que estavam presentes no Sea Club Overall Skate Show, e que por isso podiam ver a exibição in loco dos skatistas apenas do ângulo que estavam posicionados na plateia, a experiência do vídeo (filmado por diversas câmeras, sob vários ângulos e depois editado) ampliava as possibilidades de quem os comprasse de poder admirar melhor a performance de cada competidor, visualizando as muitas manobras efetuadas nos dois lados das rampas (“U”).

Figura 1: Capa do VHS “Sea Club Overall Skate Show”

Fonte: Revista Overall, n.9, 1988, p. 81.

A grandiosidade deste campeonato chamou à atenção da revista Veja, que publicou uma reportagem sobre ele, destacando o fato dos 24 participantes inscritos competirem com patrocínios; citando, como exemplo, o skatista Reginaldo dos Santos Neto, apelidado de “Pankeka” e patrocinado pela fábrica de skates H-Prol. Segundo a Veja, Pankeka recebia um salário de 50.000 cruzados por mês, além de equipamentos para os treinos e apoio também nas demais competições que participava.

Interessante notarmos que, embora a Veja se valesse desse campeonato para noticiar o skate em sua página dedicada aos “esportes”, a competição em si fora algo pouco abordado pela mesma. A revista não se preocupou em publicar os resultados (o ranking) e nem deu destaque aos melhores competidores. O interesse da reportagem era outro, anunciado claramente na seguinte manchete: “O skate entra na era do profissionalismo” (Revista Veja, 20/04/1988, p. 67).

Esse campeonato incentivou o aparecimento de outros eventos do mesmo porte no universo do skate vertical, todos elaborados para atrair um grande público, com estrutura de organização, cobertura midiática e ampla divulgação. No ano seguinte, por exemplo, um evento da mesma magnitude voltou a ocorrer, mas desta vez na cidade do Rio de Janeiro. Era a Copa Itaú de Skate, patrocinada pelo banco Itaú e realizada numa grande estrutura montada na praia de Ipanema. Era, enfim, a consolidação do profissionalismo no skate, dos grandes campeonatos e da elevação dessa prática realizada em grandes rampas ao patamar de um esporte espetacular.

Para saber mais:

BRANDÃO, Leonardo. A década de 1980 e o desenvolvimento do skate vertical. In: Recorde, Rio de Janeiro, v. 10, n. 2, p. 1 – 28, jul/dez de 2017.

Referências

BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1990.

ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: DIFEL, 1992.

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Aventuras juvenis, ficção e a cultura do surfe

11/11/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

The Grommets: The Secret of Turtle Cave é um livro ficcional ilustrado voltado para o público infanto-juvenil. Foi escrito por Mark-Robert Bluemel e publicado de forma independente/amadora em 2007. Teve uma sequência em 2014, com o título The Grommets: Big Island Justice. O autor é um advogado e surfista que vive em San Diego (Califórnia, EUA). Trata-se da estreia do autor no universo ficcional. Embora eu tenha classificado a produção como independente/amadora (em função de características do projeto gráfico, erros de revisão etc.), o exemplar que li integra a segunda edição, o que sugere que a primeira foi vendida até se esgotar.

A obra conta uma história envolvendo três adolescentes: Buzz (o narrador), Oz e Jimbo. A história não menciona uma cidade ou ano em que se situe, mas uma série de elementos sugerem o Sul da Califórnia e o início dos anos 1990 como espaço e tempo da trama. No caso do litoral Sul da Califórnia: a diferença de temperatura do mar entre o verão e o inverno; a existência de encostas com pedras e cavernas no litoral; a descrição das origens étnico-raciais dos adolescentes (algo muito relevante na sociedade estadunidense como um todo, não apenas no estado em questão): um descendente de peruanos, outro de “nórdicos”; o fundo de areia sobre o qual quebram as ondas; a casa “amarela com telhado em estilo espanhol” em que o protagonista Buzz vive com os pais (p. 13); o crowd de surfistas no mar; a ideia de recorrer aos livros disponíveis na biblioteca pública local quando precisam buscar informações sobre um assunto (a presença de cavernas no litoral).

Quanto à época em que se passa a trama, ainda não existiam telefones celulares: boa parte dos contatos entre as pessoas se dão com ligações entre telefones fixos. Frequentemente, com interferências indesejadas (para os adolescentes) por parte dos pais, que atendem as ligações e controlam o acesso aos aparelhos, quase sempre localizados na sala das residências. Tampouco há computadores para uso pessoal nas casas, nem menção à existência de internet. Mas há um aparelho de TV que, acoplado a um videocassete, permite aos adolescentes “assistir ao boletim das ondas e vídeos de surfe” (p. 49).

Dois deles residem próximo ao litoral (levam 10 minutos de bicicleta, enquanto o terceiro leva 45) e um deles pretende passar o verão auxiliando o pai em tarefas em troca de pagamento de forma a juntar dinheiro para comprar uma prancha nova. A vitrine da surf shop local é uma referência importante de consumo e de desejo para os adolescentes, que sonham em especial com as pranchas novas expostas. No quarto do protagonista, que narra o livro em primeira pessoa, há “nas paredes pôsteres de revistas de surfe” (p. 13).

Lendo a obra, especialmente as passagens relativas a sensações experimentadas ao surfar, lembrei-me de artigos em que o historiador Douglas Booth argumenta que a história do esporte dedica escasso tempo e atenção a essa questão (como este). Em The Grommets há descrição de várias sensações envolvidas no ato de surfar: ao descer ondas, realizar manobras, furar ondas. Refiro-me não apenas a uma descrição dos movimentos corpóreos realizados, mas daquilo que o surfista sente: prazer, alegria, êxtase, hesitação, medo. Ou cansaço: ao voltar para casa de bicicleta, com a prancha debaixo do braço, após horas de esforço físico surfando. Logo no início, o narrador afirma: “você realmente tem que amar o esporte para acordar de madrugada e pular na água gelada” (p. 1).

Na tentativa de transmitir ao leitor tais sensações, o autor lança mão de expressões comuns no universo do surfe: a comparação com uma “boneca de pano dentro de uma máquina de lavar” para emular as sensações que um surfista tem ao levar um caldo violento; a afirmação de que o tempo parece parar quando se está dentro do tubo; a sensação de voar ao descer a onda e ao realizar certas manobras (mesmo sem dar aéreos, manobra restrita ao repertório de poucos surfistas amadores naquela época). Ainda nesse âmbito, há características que remetem à experiência pessoal vivenciada no esporte. Por exemplo, a noção de que há dias bons e dias ruins. Nos primeiros, têm-se a sensação de que tudo dá certo e a confiança adquirida ajuda a acertar ainda mais. Nos últimos, acontece o contrário, e a perda de confiança em geral estimula a piora de desempenho.

Há também descrições/explicações mais técnicas: movimentos e manobras e de como muitos destes têm nomes específicos (dentro de um vocabulário corrente da modalidade, como acontece com outras práticas corporais); da formação das ondas. Algumas passagens misturam uma descrição de características do esporte com um tom de advertência em relação a possíveis riscos, como no caso das correntes/correntezas (um potencial risco à vida de nadadores e surfistas que não as percebam e nadem na direção contrária). As recomendações e conselhos sobre o que fazer e que não fazer, noções de certo e errado e afins, na maioria das vezes, aparecem em falas do pai de Buzz. Mas, às vezes, nas do protagonista, como quando diz que um surfista nunca deve rabear outro (p. 17). Em três ou quatro momentos, recomenda-se que surfistas novatos devem evitar os dias em que o mar está muito forte, com ondas grandes. Isso os faz evitar riscos desnecessários para si próprios e para os demais surfistas. Em The Grommets é possível encontrar recomendações como não mentir para os país, não desapontá-los etc., o que me parece ser comum neste tipo de literatura. No caso, os riscos e problemas decorrentes da desobediência às vezes têm a ver diretamente com o surfe – como Buzz desrespeitar a proibição de pegar onda próximo a pedras e falésias.

A narrativa se desenvolve praticamente toda em torno de um verão. As férias escolares, o sol e o calor permitem ao protagonista aproveitar o tempo livre com uma série de atividades com seus melhores amigos – e, imagino, ao autor elaborar uma narrativa que também seja uma leitura atraente para adolescentes (de férias ou não, californianos ou não). Segundo May (2002), desde meados dos anos 1950, houve na sociedade estadunidense – sobretudo na indústria cultural, mas não só – um intenso processo de construção da Califórnia como o destino de sonho nos Estados Unidos. Tal imagem de lugar onde se deseja viver e/ou passar as férias permanece muito forte no imaginário do país. Particularmente o Sul daquele estado – cidades como San Diego – é um dos lugares mais procurados no turismo interno do país. Trata-se de uma obra divertida e leve. Talvez possa também ser usado como livro livro paradidático, pois conta com passagens e elementos que podem ser facilmente apropriados para aulas de matérias como Biologia, Geografia, Física e História. No caso da última, por exemplo, há referências ao enriquecimento de contrabandistas (traficantes) durante o período da Lei Seca. O que me interessa aqui, na linha de outros textos que venho escrevendo neste blogue, é traçar alguns apontamentos que permitam observar essa obra e esse tipo de obra – obras literárias para o público infanto-juvenil – como uma fonte histórica para a história do esporte.

O foco da trama são peripécias na exploração de uma caverna. Secundariamente, a relação de amizade que os três estabelecem com Nana, a idosa que vive à beira-mar e que é salva por eles de se afogar. Nana fazia exercícios matinais de natação e teve cãimbras em ambas as pernas. O episódio diz respeito a um aspecto comum do universo do surfe, mas pouco presente em suas representações artísticas e midiáticas: tanto a presença física dos surfistas no mar ajuda a perceber situações de afogamento (às vezes difíceis de enxergar desde a praia) como o fato de usarem pranchas facilita o salvamento (a prancha é um objeto flutuante ao qual a pessoa que está se afogando pode se agarrar, evitando colocar em risco a vida de quem tenta resgatá-la).

O enredo não tem propriamente vilões, apenas um antagonista com escassa presença. Também é surfista, mas, na situação em que é apresentado, usa uma camisa de um time de futebol americano. Tampouco há conflitos entre surfistas de diferentes grupos (geracionais, longboarders x shortboarders, exímios x iniciantes, etc.).

O surfe ocupa papel central na vida do trio de adolescentes (e não só porque estão de férias) e o consumo midiático é parte importante do processo. Buzz fica excitadíssimo quando recebe pelo correio, a cada mês, a edição da revista Surfer’s World, da qual tem uma assinatura. A principal punição recebida dos pais quando faz algo errado é ficar impedido de surfar por uma certa quantidade de dias (em se tratando de algo grave, geralmente é combinada com proibição de ver TV, falar no telefone e encontrar os amigos). O protagonista adora passar tempo com amigos no próprio quarto, lendo “revistas de surfe” e assistindo vídeos sobre surfe.

Quando não há ondas, uma das atividades favoritas de Buzz, Oz e Jimmy é andar de skate. Eles consideram que o skate permite emular os movimentos corporais e manobras do surfe – e, em alguma medida, as sensações proporcionadas. “Temos alguns amigos que amam o skate e só surfam ocasionalmente, por brincadeira. Somos exatamente o contrário. Meus amigos e eu preferimos surfar todo dia!” (p. 53) A comparação ressalta a diferença quando se cai: no skate, geralmente o corpo atinge o asfalto. Por isso, “é sempre necessário para qualquer um usar equipamentos de segurança e um capacete quando você anda no cimento”. Natação (no mar), skate (shortboard e longboard), mergulho, pesca submarina, remo, andar de bicicleta e escalar cordas também são mencionados na trama, embora quase sempre como exercícios, atividades de lazer ou parte da rotina, mas não propriamente como esportes.

Perto do fim da trama, evidentemente, a aproximação do fim das férias de verão – e do retorno das aulas escolares – apavora os adolescentes. No entanto, como esperado, há um final feliz – surfisticamente falando, inclusive. Graças a uma recompensa recebida, realizam o desejo de comprar uma prancha nova e uma nova roupa de neoprene – mas os pais os obrigam a depositar a maior parte do valor numa poupança com o objetivo de juntarem dinheiro para pagar a universidade. Coisas de um país que não conta com ensino superior público e integralmente financiado pelo estado, como (ainda) é o caso do Brasil.

Referências bibliográficas

BOOTH, Douglas. História, cultura e surfe: explorando relações historiográficas. Recorde, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 1-24, jan./jun. 2015. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/Recorde/article/view/2307/1951 .

MAY, Kirse Granat. Golden State, Golden Youth: The California Image in Popular Culture, 1955-1966. Chapel Hill, London: The University of North Carolina Press, 2002.

Para saber mais

  • Um exemplo de livro infanto-juvenil brasileiro abordando temática dos esportes radicais: Nas ondas do surf, de Edith Modesto. Apesar do título, a trama é sobre bodyboard, e não surfe.
  • Victor Melo tem publicado artigos e livros abordando livros de ficção como objeto e fonte histórica. Ver, por exemplo, este artigo a respeito de Os Maias.
  • Douglas Booth tem publicado artigos com diversas provocações a respeito da necessidade de o historiador lançar mão de sensações, sentimentos, emoções e afetos na escrita da história do esporte.

Dois Fluminenses em Niterói

02/11/2018

por Victor Andrade de Melo

Todo mundo conhece o Fluminense Futebol Clube, uma das primeiras agremiações do Rio de Janeiro a se dedicar ao velho esporte bretão. A cidade de Niterói, curiosamente, tem dois “Fluminenses” ainda vivos!

Esse post é parte do livro que estou escrevendo sobre o esporte na Cidade Sorriso. Compartilho um pedacinho dessas descobertas.

Vejamos a imagem abaixo.

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Remadores do Sport Club Fluminense, 1923
Disponível em: <https://www.facebook.com/OlharNictheroy/&gt;

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O Sport Club Fluminense foi fundado, em 1916, na Ponta D´Areia, na Avenida Visconde do Rio Branco (Rua da Praia).  Promovia suas regatas na parte do litoral conhecida como Praia Grande (de onde, inclusive, veio o primeiro nome que Niterói teve, em 1819: Vila Real da Praia Grande). Isso é, tratava-se de uma região que ficava à esquerda da atual estação das barcas (olhando do mar para o continente). O clube se encontrava perto do antigo Mercado de Peixe São Pedro, que avançava pelo mar.

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Antigo Mercado de São Pedro
Disponível em: <http://www.mercadodepeixesaopedro.com.br/index.php?page=historia&gt;

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Durante anos, aquela zona ficou conhecida como Praia do Esporte, em função das atividades da agremiação náutica (mas que também se dedicou ao futebol). No mapa abaixo, fica mais claro onde o clube se localizava.

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Em laranja, a região do Sport Club. Em azul, a Praia Grande. Em amarelo, a estação das barcas. Em vermelho, o que hoje é a UFF (construída num aterro; a oficina da Cantareira ainda está lá). Em lilás, a praça em frente ao campus, onde atualmente se encontra o restaurante Tio Coto, A Mineira e a Igreja de São Domingos, que está lá desde o século XIX. Seguindo um pouquinho em direção ao Forte de Gragoatá, marcado em rosa, o Clube de Regatas Gragoatá, criado em 1895.

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Difícil conceber essa paisagem nos dias de hoje em função de tantos aterros, mas os rastros da história são lindos. Vejamos a imagem abaixo, com as mesmas legendas acima.

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O Gragoatá e sua sede são mais conhecidos, mas o que pouca gente lembra é que a sede do Sport Club Fluminense continua de pé. Hoje é o Fluminense Natação e Regatas. Vejamos as imagens abaixo:

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Não confundir esse clube com Fluminense Atlético Clube, também fundado na década de 1910, conhecido como Fluminensinho de Niterói, localizado na Rua Xavier de Brito.

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Fachada do Fluminense Atlético Clube

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Em tempo, os clubes centenários de Niterói que se mantem vivo são:

Grupo de Regatas Gragoatá
Clube de Regatas de Icaraí (está mal das pernas, mas ainda está de pé)
Rio Cricket Associação Atlética (antigo Rio Cricket and Athletic Association)
Rio Yacht Clube (antigo Rio Sailling)
Iate Clube Brasileiro
Fluminense Natação e Regatas (antes Sport Club Fluminense)
Fluminense Atlético Clube (fundo como Rio Branco Futebol Clube)
Fonseca Atlético Clube
Canto do Rio Futebol Clube

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Como se pode ver, foi intensa a vida esportiva da Cidade Sorriso.

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“Taça Flamengo”: primeira competição esportiva periódica entre militares da Marinha do Brasil e do Exército Brasileiro

22/10/2018

por Karina Cancella

Nas primeiras décadas do século XX, militares da Marinha do Brasil (MB) e do Exército Brasileiro (EB) iniciaram o processo de institucionalização da prática esportiva com a criação da Liga de Sports da Marinha (LSM) e a Liga Militar de Football (LMF), ambas no ano de 1915. Inicialmente, as duas ligas organizavam competições apenas entre seus quartéis, batalhões e navios, promoviam treinamentos e mediavam a participação de seus militares em competições organizadas por instituições civis na condição de convidados. Eventos esportivos envolvendo as duas forças ainda não eram um ponto de interesse nos primeiros anos de atividade das ligas.

A primeira competição planejada exclusivamente para envolver militares da MB e do EB foi patrocinada pelo Clube de Regatas Flamengo. No mês de junho de 1917, a LSM e a LMF receberam a doação de uma taça que iniciou a disputa de uma competição específica entre Marinha e Exército que se prolongou até a década de 1920. Na sessão da Diretoria de 27 de junho de 1916, registrou-se “officio de 19 do corrente, recebido a 24, do Clube de Regatas Flamengo (C.R. Flamengo), declarando oferecer uma taça para ser disputada annualmente entre Exercito e Marinha, e pedindo o comparecimento de um representante da Liga no dia 21, para fixar as fases da disputa”.[1]

A disputa da chamada “Taça Flamengo” é a primeira competição organizada pelas LSM e LMF, em parceria com o C.R. Flamengo, onde há referência direta à cobrança de ingressos para espectadores:

Com relação ao jogo contra o Exercito, em disputa da taça offerecida pelo C.R. Flamengo, com consta a acta da sessão de 27 de junho do anno passado, o Director Secretario communica que fixou com o 1o Secretario da Liga Militar de Football, ao referendum das respectivas directorias, as seguintes bases para a disputa deste anno: 1o. Os teams serão de praças; 2o. O arbitro será indicado pelo Club do Flamengo e aceito por ambas as Ligas; 3o. Si o jogo terminar em empate o desempate será feito em outro dia segundo o modo que se combinará; 4o. A renda liquida dos portões será dividida assim: 50% do Club offertante; 25% a cada uma das Ligas; 5o. Os secretários das duas Ligas ficaram com poderes plenos das duas Directorias para combinarem os detalhes de encontro e as fixarem com o C.R. Flamengo. Foram unanimente approvadas estas bases. Resolveo-se mais com relação ao mesmo assumpto: convocar o Conselho Director para o dia 22, as 4 ½ pm, com o fim de solicitar autorisação de organisar um scratch team para jogar contra o Exercito, visto que de tal não cogitar os Estatutos; e, apos a autorisação referida, convidar o Cap. Tenente Soares de Pinna para organisar o scratch team, e dar os mais passos necessários com relação ao caso.[2]

A primeira disputa da Taça Flamengo foi realizada em 29 de abril de 1917 e seu resultado divulgado na sessão da Diretoria da LSM de 02 de maio do mesmo ano.

Venceo o team da Liga de Sports da Marinha, que bateo o do Exercito por 4×1. No torneio de cabo de guerra, que se fez no mesmo dia entre teams de Exercito e Marinha, tomaram parte, pela Marinha, Batalhão Naval, Bahia, Benjamin Constant e Flotilha de Submersíveis. Nas eliminatórias da Marinha venceo o C. Bahia, que jogou a final contra o team do 2o. Reg. de Infantaria, vencedor nas finaes, alias, eliminatórias do Exercito. Foram na mesma occasião executados exercício de gymnastica sueca, pela C. Minas Geraes e um de esgryma de bayoneta, pelo Batalhão Naval. Compareceram a festa os Srs. Presidente da Republica, Ministro da Marinha e varias pessoas de posição official convidadas. Todas as demais pessoas pagaram entrada.[3]

Este evento gerou uma discussão intensa entre Exército e Marinha na organização da segunda edição, no ano de 1918. Nas sessões de Diretoria da LSM dos dias 12 de março, 22 de março e 25 de março de 1918 registraram-se os debates sobre a disputa. Em 12 de março, foi recebida autorização para a realização da Taça Flamengo, contra o Exército, nos mesmos termos da competição do ano anterior, a ser realizado no campo do Flamengo. Na ata de 22 de março, foi registrado que a Diretoria, em comunicação telefônica com o Capitão Castelo Branco, 1o. Secretario da Liga Militar de Football, soubera que a LMF tinha a intenção de não enviar seu time para o campo do Flamengo no dia combinado para realizar a disputa da Taça. As justificativas eram as más condições do campo e que a LMF não conseguiu reunir um bom time para a competição. Havia, por parte da liga do EB, a pretensão de adiar o jogo e publicar notícias nos jornais informando o cancelamento da partida. A Diretoria da LSM, na mesma comunicação, disse ao representante da LMF que seria melhor não noticiar nos jornais, por achar que seria o caso de uma comunicação direta entre as Ligas e porque o jogo deveria sim ser realizado, já que as combinações e convites oficiais já haviam sido feitos, inclusive ao Presidente da República. No entanto, mesmo sendo solicitada a não comunicação na imprensa sobre o cancelamento do jogo, em 21 de março de 1918, na página 9 do jornal “O Imparcial”, foi divulgada uma nota da LMF informando que não seria mais realizada a disputa da Taça Flamengo daquele ano.[4]

Após discussão com os diretores da LSM presentes na reunião, ficou aprovada a manutenção da realização do jogo e não aceitar o adiamento proposto pela LMF, mandando o time a campo na data combinada. O Diretor-Presidente da LSM ainda informou que iria tomar providências para desfazer os convites oficiais realizados e que, em comunicação com o C.R. Flamengo, foi confirmada a disponibilidade do campo para a realização do evento no dia 24. Em 25 de março, registrou-se que os diretores da LSM e seu time compareceram no dia anterior ao campo do Flamengo para o torneio agendado. O time da Liga Militar de Football não compareceu e foi registrado um atestado pelo C.R. Flamengo sobre o fato. Resolveram, então, enviar ofício para a liga do EB informando que a LSM enviou seu time no dia 24 para o torneio acompanhado de uma fatura de sua parte das despesas contraídas em comum pelas duas Ligas para a realização da disputa da Taça Flamengo.[5]

Nas atas seguintes não há retorno de debate sobre a competição não realizada, mas os episódios relatados demonstram certa animosidade entre as duas Ligas Militares no processo de organização da disputa de 1918. No entanto, um aspecto interessante foi a manutenção do evento, mesmo sabendo da intenção de não comparecimento declarada pela Liga do EB, em vista dos custos já contraídos para a preparação da competição. Além disso, mesmo com a não realização, a cobrança, ao menos em tese, da parcela que seria de obrigação do Exército pode ser compreendida como uma forma de penalidade financeira pelo não cumprimento de um compromisso esportivo (CANCELLA, 2014).

A Taça Flamengo foi disputada, segundo os registros localizados, até 1924. No ano de 1919, no entanto, não há registro de realização da competição por conta da ocorrência da Primeira Grande Guerra. A LSM paralisou a organização de atividades esportivas durante o período de mobilização e atuação da Divisão Naval de Operações de Guerra (DNOG).[6]

Em junho de 1919, a LSM retomou suas atividades com a organização de uma “festa sportiva militar” em homenagem à tripulação da DNOG que regressava ao Brasil. A proposta era a realização do evento no C.R. Flamengo e o programa envolvia “jogo de bola”; corrida da serpente; jogo de dado; cabo de guerra para marinheiros, navais e reserva; corrida de obstáculos; esgrima de baioneta; ginástica sueca; match de futebol entre marinheiros e navais e a execução do hino nacional.[7]

A revista Careta publicou, nas edições de 14 de junho, 21 de junho e 28 de junho de 1919, fotografias de diferentes aspectos da recepção da Divisão Naval. Uma das imagens retratava os militares que a integraram, fazendo referência na legenda ao Capitão-Tenente Lemos Basto, que se afastou da diretoria da LSM pela convocação para esta comissão; imagens das crianças das escolas municipais que estiveram presentes no evento; fotografias da festa sportiva promovida pela LSM aos marinheiros que regressaram da guerra com as partidas de futebol realizadas entre os marinheiros nacionais e o Batalhão Naval e os diferentes grupos presentes na festa a bordo do Encouraçado Minas Gerais.[8]

1

Fotografias publicadas na Revista Careta retratando as competições esportivas realizadas no festival em homenagem ao retorno da Divisão Naval de Guerra. Fonte: Revista Careta 21 de junho de 1919, p. 23.

 

A revista Careta também divulgou aspectos das competições da Taça Flamengo nos anos de 1920 e 1921.

2

Fotografias publicadas na revista Careta da Festa Esportiva Militar realizada entre Exército e Marinha no campo do Clube de Regatas Flamengo – Taça Flamengo 1920. Fonte: Revista Careta 30 de outubro de 1920, p. 20.

3

Fotografias publicadas na revista Careta da Festa Esportiva Militar realizada entre Exército e Marinha no campo do Clube de Regatas Flamengo – Taça Flamengo 1921. Fonte: Revista Careta 15 de outubro de 1921, p. 22.

 

A Taça Flamengo também fez parte do programa de competições dos Jogos do Centenário, realizados no Rio de Janeiro em 1922.[9] A imagem abaixo faz parte do acervo do Museu de Desporto do Exército e apresenta uma imagem do estádio durante a realização da disputa.

4

A Taça Flamengo inaugurou esse sistema de competições esportivas periódicas entre membros das Forças Armadas brasileiras. Ao longo do século XX, inúmeras outras competições foram organizadas entre Marinha e Exército e, a partir de sua criação, também Força Aérea Brasileira. Os eventos envolviam times de quartéis, batalhões, navios e escolas de formação. Ano a ano, um intenso calendário de competições foi se construindo e se estende até os nossos dias, sendo atualmente gerenciado pelas Comissões Desportivas de Marinha, Exército e Aeronáutica (CDM, CDE e CDA) e pela Comissão Desportiva Militar do Brasil (CDMB).

 

Referências:

CANCELLA, Karina. O esporte e as Forças Armadas na Primeira República: das atividades gymnasticas às participações em eventos esportivos internacionais. Rio de Janeiro: BibliEx, 2014.

 

Notas:

[1] “Sessão da Diretoria de 27 de junho de 1916”. Livro Histórico Departamento de Esportes da Marinha – Volume I – Anexo I.

[2] “Sessão da Diretoria de 19 de janeiro de 1917”. Livro Histórico Departamento de Esportes da Marinha – Volume I – Anexo I.

[3] “Sessão da Diretoria de 02 de maio de 1917”. Livro Histórico Departamento de Esportes da Marinha – Volume I – Anexo I.

[4] O Imparcial 21 de março de 1918, p. 9.

[5] “Sessão da Diretoria de 12 de março de 1918”, “Sessão da Diretoria de 22 de março de 1918”, “Sessão da Diretoria de 25 de março de 1918”. Livro Histórico Departamento de Esportes da Marinha – Volume I – Anexo I.

[6] “Sessão da Diretoria de 23 de abril de 1918”, “Sessão da Diretoria de 25 de fevereiro de 1919”. Livro Histórico Departamento de Esportes da Marinha – Volume I – Anexo I.

[7] “Sessão da Diretoria de 02 de junho de 1919”. Livro Histórico Departamento de Esportes da Marinha – Volume I – Anexo I.

[8] Revista Careta 14 de junho de 1919, p. 16; Revista Careta 21 de junho de 1919, p. 23; Revista Careta 28 de junho de 1919, p. 16.

[9] Para saber mais sobre esse evento, veja o post “E o Rio de Janeiro já foi quase ‘olímpico’”. Link: https://historiadoesporte.wordpress.com/2016/08/15/e-o-rio-de-janeiro-ja-foi-quase-olimpico/


Esporte, Política e Humor: o Golpe de 2016 (parte 2)

20/08/2018

por Fabio Peres

As práticas esportivas parecem ser “boas para pensar” a vida política brasileira. Mesmo em situações difíceis, vários artistas lançam mão do esporte – com muito bom humor – para explicitar ainda mais o tom crítico com que vêem a conjuntura social e política.

Isto, aliás, não é uma novidade dos nossos tempos. Ao que tudo leva a crer, humor e política estiveram desde a gestão do campo esportivo associados às diferentes modalidades e aos contextos culturais que lhe conferiam sentido.

De fato, no século XIX o esporte (aqui entendido como práticas corporais institucionalizadas) “ajudava” a jogar uma nova luz – seja por meio de contraste zombeteiro, seja por incongruência irônica – sobre o mundo político.  Joaquim Manuel de Macedo (em 1855), Machado de Assis (1894) e Artur Azevedo (1885), apenas para citar alguns entre tantos cronistas do século XIX, escreveram sobre política tendo como argumento humorístico o esporte. Mesmo de maneira mais sutil e ampla, a política aparece em narrativas que tratam ou fazem uso do tema. Ou longe disso, quando a intenção é justamente articular de forma mais contundente humor, política e esporte; como no caso do grande espetáculo, em 1837,  de “equilíbrios gymnasticos” entre a Madame Injustiça e Mr. Patronato.

Mesmo que esta relação não corresponda ipis litteris  a uma realidade objetiva e absoluta, o que para importa para nós é que todos estes autores tinham a expectativa de que seus interlocutores compreendessem as nuances  simbólicas que garantiriam o humor, a graça e, justamente por isso, a crítica.

Em tempos de profundo esgarçamento das instituições democráticas, talvez não seja por acaso o aumento considerável de produções jornalísticas e/ou artísticas que procuram “valer-se” do esporte para expressar irreverências políticas. Sobretudo, quando a “história junta Olimpíadas, Copa do Mundo e Golpe.

O uso da camisa da seleção brasileira, não apenas produziu versões vermelhas da amarelinha, mas também gerou debates similares 1, 2, 3, 4 aos que ocorreram na Ditadura Civil-Militar (1964-1985); algo retratado em diversos relatos, romances e filmes que tratam do período ( exemplos podem ser vistos no filme O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias de Cao Hamburger, no romance A Resistência de Julián Fuks e na crônica de Luís Fernando Veríssimo, Nosso Time). Nesse contexto, bastou a Copa do Mundo da Rússia (2018) ter início, logo surgiram cartuns e charges sobre a (re)apropriação da camisa da seleção:

Maíra Colares, Hexou, 15 de junho de 2018.

 

 

Autor não identificado, 1(?) de junho de 2018.

 

As representações esportivas da crise econômica e política também procuraram, seja através do futebol, seja através de outras modalidades, criticar ironicamente as ações do governo :

Hubert. Folha de São Paulo, 6 de junho de 2018.

 

 

Jaguar. Folha de São Paulo, 15 de junho de 2018.

 

 

André Dahmer, Facebook do autor, 17 de junho de 2018.

 

 

Mor. Folha de São Paulo, 22 de junho de 2018.

 

 

A performance de Neymar também não passou despercebida. Metáforas e trocadilhos foram usados por artistas em conglomerados de mídia e comunicação que apoiaram o Golpe:

André Dahmer. O Globo, 27 de junho de 2018.

 

Bennett. Folha de São Paulo, 25 de junho de 2018.

 

A Justiça desacreditada, em função de sua participação e manutenção do Golpe de 2016, foi duramente criticada por meio de analogias com a atuação dos árbitros de futebol:

Laerte. Folha de São Paulo, 19 de junho de 2018.

 

 

Maíra Colares, Arbitrariedade, 15 de junho de 2018.

 

Até mesmo a infame entrevista da, então pré-candidata à presidência, Manuela D’Ávila (PCdoB) no programa Roda Viva (TV Cultura), não deixou de ser relacionada ao futebol:

 

Montanaro. Folha de São Paulo, 28 de junho de 2018.

 

 

As 62 interrupções que a deputada sofreu, não apenas evidenciaram o machismo e as desigualdades de gênero que as candidatas mulheres progressistas são alvo, mas especialmente as estratégias que as forças políticas conservadoras lançam mão:

No caso de Manuela, o mais grave nem foi a montagem de um pelotão de fuzilamento, que evidentemente excluía a diversidade eticamente necessária em programas que desejem promover um debate esclarecedor, mas a ocultação da filiação ideológica de alguns dos convidados. Coube à candidata apontar o vínculo de Frederico d’Ávila, apresentado apenas como diretor da Sociedade Rural Brasileira, com a campanha de Jair Bolsonaro (Sylvia Moretzsohn, The Intercept, 27 de Julho de 2018).

De acordo com o colunista da Folha, Maurício Stycer, foi um dos “piores momentos” da história do Roda Viva. O caso talvez tenha ajudado a aproximar ainda mais Chico Buarque, que em 2016 desautorizou o uso de sua música pelo programa homônimo, da deputada que atualmente compõe a candidatura de Lula. No último domingo (19), Manuela, além de postar fotos com o compositor, compartilhou uma fotografia de Chico segurando uma camisa vermelha, onde se lê:

Mas essa é uma outra história…

 

 

 

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* As opiniões aqui emitidas são exclusivamente de responsabilidade do autor da postagem, não correspondendo as intenções e/ou representações dos artistas mencionados.


O surfe e a diplomacia cultural dos EUA

11/06/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

The Endless Summer (no Brasil, Alegria de Verão), dirigido e produzido por Bruce Brown, é, provavelmente, o filme de surfe mais famoso já feito. A película narra a trajetória de surfistas dos EUA que viajam ao redor do mundo em busca de ondas desconhecidas e do verão sem fim do título. Segundo o historiador Scott Laderman (2014), “gravado em 1963, The Endless Summer percorreu o circuito tradicional dos filmes de surfe em centros culturais públicos e auditórios de escolas secundárias na Califórnia, Havaí, Austrália e África do Sul ao longo dos dois anos subsequentes” (p. 48). Laderman e outros pesquisadores da história do surfe afirmam que o documentário foi fundamental para disseminar a ideia de viajar como um valor positivo dentro da subcultura do surfe. O autor afirma ainda que o filme foi “um dos documentários de maior sucesso em todos os tempos” e que “seu impacto cultural foi profundo”, tendo sido decisivo para dar visibilidade ao surfe ao redor do mundo (p. 49).

Contudo, este texto não é uma resenha de Alegria de Verão ou do livro de Laderman (o que já fiz). Meu objetivo é apresentar a descrição e análise de Lazerman a respeito do seguinte: “(…) de formas que ainda não foram exploradas pelos pesquisadores, The Endless Summer também ilustra como, durante o auge da Guerra Fria, os Estados Unidos vieram a enxergar o surfe como uma arma ideológica em sua cruzada anticomunista, pois, em maio de 1967, anunciou-se que o documentário apareceria, sob patrocínio do Departamento de Estado, no bienal Festival de Cinema de Moscou” (p. 49).

De acordo com o autor, algumas características da trama motivaram a escolha. A elas se aliava a liberdade de viajar demonstrada pelos protagonistas – “diferentemente da maioria daqueles vivendo no bloco soviético” -, o que serviria para evidenciar a superioridade do capitalismo. Havia ainda as tentativas simpáticas de contato face-a-face com populações locais de diferentes continentes, “pintando um retrato dos Estados Unidos como uma potência benevolente e simpática” (p. 50). O filme acabaria sendo cortado do festival por iniciativa de uma entidade representativa dos estúdios de Hollywood (MPAA – Motion Picture Association of America). Após a organização decidir que um único documentário dos EUA seria exibido, a entidade escolheu o documentário indicado pelo estúdio Columbia Pictures, que o produzira, em detrimento do filme independente de Bruce Brown.

Mas “aqueles que estavam a cargo da diplomacia cultural americana deram outra chance ao surfe algum tempo depois. O ano era 1970, o local era o Japão, e o cenário era a primeira exposição universal realizada na Ásia: a Exposição Universal do Japão, ou Expo’70, em Osaka” (p. 51). Documentos oficiais do governo dos EUA consultados pelo autor atestam que a participação na exposição converteu-se em mais um campo de disputas com a União Soviética. A organização ficou a cargo da United States Information Agency (USIA). A exposição do Pavilhão dos EUA foi dividida em sete temas – um deles, “esportes”. “Foi lá, no interior da exibição de esportes, que, até onde tenho conhecimento, o surfe tornou-se, pela primeira vez, assunto oficial da diplomacia cultural dos EUA” (p. 52).

Segundo Laderman, “os organizadores deram ao surfe papel de destaque na exibição” de esportes (p. 53). Havia uma instalação com 13 pranchas produzidas por shapers dos EUA (Dewey Weber, Rick Stoner e Bob White), reprodução de imagens cinematográficas de surfe feitas por Bruce Brown e fotografias de surfistas no Havaí. Segundo Laderman, o surfe moderno fora introduzido no Japão após a Segunda Grande Guerra, a partir da presença de militares estadunidenses. Ressalto que isto não ocorreu apenas no arquipélago japonês. Tal foi o caso, por exemplo, da Andaluzia, na Espanha (Esparza, 2015).

Naquele momento (1970), o surfe já era bastante conhecido no Japão e tinha praticantes em diversas partes do litoral. Tamio Katori, um surfista japonês, visitou mais de uma vez a exposição e “escreveu para as autoridades dos EUA perguntando se ele poderia adquirir as pranchas para seu clube de surfe após o término da exposição” (p. 54). Segundo ele, as pranchas poderiam contribuir para a “amizade entre ambos os países”. Eis como termina o episódio: “Três das 13 pranchas haviam sido emprestadas por Bob White e tinham que ser devolvidas ao shaper de Virginia Beach, mas as outras dez tinham sido adquiridas pela USIA. Para os Estados Unidos, atender à solicitação de Katori seria uma maneira eficiente de descartar objetos volumosos e, ao mesmo tempo, contribuir para a globalização daquele que era, agora, o mais americano dos passatempos prazerosos, além de estimular a amizade transpacífica. Não havia o que pensar. As pranchas foram vendidas” (p. 55).

Laderman destaca dois aspectos neste episódio. Primeiro, as ligações cada vez mais comuns entre o surfe e o “poder norte-americano global” (p. 55), como ficaria evidenciado na circulação de surfistas estadunidenses ao redor do globo, na presença de surfistas militares (ou militares surfistas) em praias de dezenas de países (aproveitando a existência de bases militares, especialmente as numerosas unidades da Marinha no Oceano Pacífico), na circulação de produtos de mídia (surf music, cinema, revistas) e no estabelecimento do inglês como língua-padrão da modalidade. Segundo, a exposição de 70 “ilumina o quanto o surfe, tal qual o Havaí, haviam se tornado naturalizados como, de alguma forma, americanos” (p. 55).

Acrescento um terceiro: a questão da nacionalidade, da identidade nacional e das distintas apropriações (culturais e de outras naturezas) do surfe ao redor do mundo são um tema bastante atual. Em março último, foram divulgados os critérios para classificação dos 40 atletas que disputarão, pela primeira vez, medalhas olímpicas na modalidade. Este ano, os atletas que disputam a divisão principal do Circuito Mundial passaram a competir com bandeiras dos países desenhadas no ombro de seus uniformes (acentuando-se a construção, no âmbito da principal liga de surfe profissional, da associação entre competição individual e nacionalidade) – e pelo menos dois deles (Kanoa Igarashi e Tatiana Weston-Webb) trocaram de nacionalidade, de olho em maiores probabilidades de se qualificarem para competir em Tóquio. Ambos criados e residentes em território estadunidense (ele, na Califórnia; ela, no Havaí) e filhos de pais estrangeiros. Ele passou a competir pelo Japão; ela, pelo Brasil. Com isso, ambos evitam participar da dificílima briga por vaga entre americanos e havaianos.

Bibliografia

ESPARZA, Daniel. Hacia una historia del surf en Andalucía: génesis y consolidación del surf en Cádiz y Málaga. Materiales para la Historia del Deporte, n. 13, p. 47-62, 2015. Disponível em: <http://upo.es/revistas/index.php/materiales_historia_deporte/article/view/1327/1210>. Acesso em 10 jul. 2015.

FORTES, Rafael. Surfe, política e relações internacionais. [Resenha de Empire in Waves]. Topoi, v. 18, n. 35, p. 453-456, abr.-ago. 2017. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/topoi/v18n35/2237-101X-topoi-18-35-00453.pdf . Acesso em 10/6/2018.

LADERMAN, Scott. Empire In Waves: A Political History of Surfing. Berkeley: University of California Press, 2014.


A juventude sônica de Spike Jonze

15/01/2018

Por Leonardo Brandão (brandaoleonardo@uol.com.br)

É com muita alegria que escrevo este primeiro texto para “História(s) do Sport”, blog que já acompanhava há um tempo e que fui convidado para escrever sobre as relações entre história, juventude e esportes radicais. Neste texto inaugural, quero retomar a conversa iniciada pelo Rafael Fortes neste blog, em texto publicado no dia 27/11/2017 e que teve o seguinte título: “Videoclipe como fonte histórica”. Nele, Fortes abordava algumas possibilidades para se compreender o videoclipe, na esteira dos estudos sobre cinema, música e imagens, como mais uma possibilidade de fonte para a história dos esportes, do lazer e dos divertimentos com o corpo.

Pensemos que o videoclipe é algo que envolve a produção, necessariamente, de música com imagens em movimento. De fato, existe uma relação muito rica entre os chamados “esportes radicais” (ou “esportes californianos”) com a música, em especial, com o rock e seus matizes. E essa relação não começou hoje, ela tem uma – ou várias – história(s). Parte dessas histórias podemos observar em determinados videoclipes de bandas que fizeram uso dessas práticas. Esses videoclipes, ainda subutilizados para a pesquisa histórica, podem nos servir como um farto material de análise e reflexão.

Aqui, não pretendo realizar uma análise, mas apenas algumas considerações sobre um videoclipe lançado no ano de 1992. Trata-se do videoclipe da canção “100%”, da banda norte-americana “Sonic Youth”. Além disso, irei trazer algumas informações sobre seu diretor, chamado Spike Jonze. Minha intenção é apenas chamar à atenção para esse videoclipe, para a obra de Spike Jonze e suas relações com o skate. Num futuro breve, talvez isso possa motivar análises e discussões mais consistentes. Primeiramente, entretanto, vamos assistir ao videoclipe:

Sonic Youth foi uma banda formada no ano de 1981 na cidade de Nova York. A proposta musical da banda girou em torno do chamado “rock alternativo”, trazendo elementos do pós-punk e do noise. Um dos seus integrantes marcantes foi sua baixista, Kim Gordon. Ela, filha de um professor de sociologia, formou-se em Artes Plásticas na UCLA (Universidade de Los Angeles). Gordon roubava as cenas nas apresentações da banda, se declarava feminista e surfava nas horas vagas. A música do clipe acima, “100%”, foi lançada no ano de 1992, sendo o primeiro single do álbum “Dirty” (o sétimo do conjunto). Essa música foi escrita em homenagem a Joe Cole, um amigo dos membros da banda, que acabou morto por um homem armado em 1991.

“100%” é uma canção que fala de uma garota que se apaixona por um rapaz sem grana, mas que “mexia com as garotas” e que acabou assassinado. O fato dele não ter grana não era um problema.  Num certo momento de êxtase, a canção diz: “All I know is you got no money but that’s got nothing to do with a good time” (“tudo o que sei é que você não tem dinheiro, mas isso não tem nada a ver com um tempo bom”). E, neste momento do vídeo, um skatista olha para a sua carteira vazia, sem dinheiro, mas com um sorriso nos lábios, e continua a andar de skate pela cidade.

Mas o que vemos sobre skate neste videoclipe? Simplesmente boas manobras pela cidade. Mas isso – apenas – já não nos diz muito sobre o que era essa atividade juvenil no início da década de 1990? O skate neste período, sobretudo o skate de rua, pode ter sido predominantemente praticado por diversão, sem grandes pretensões mercadológicas, sem muitos ídolos milionários. Em uma palavra: sem muita grana envolvida. Jason Lee, o principal skatista que aparece nesse vídeo (ao lado de Guy Mariano), era tão somente um talentoso skatista de rua (e não o célebre Jason Lee que conhecemos hoje, famoso por ter sido o protagonista do seriado “My name is Earl”, e indicado como melhor ator para o Globo de Ouro nos anos de 2006 e 2007).

O videoclipe apresenta duas tomadas, uma com a banda tocando a música num show dentro de uma casa, com jovens bebendo e esparramados pelos sofás, e outra nas ruas, onde os skatistas aparecem fazendo manobras pela cidade. Esse clipe foi dirigido por Spike Jonze, que na época era tão somente um jovem que gostava de filmar seus amigos praticando skate (e praticava junto também).

Spike Jonze começou a se interessar por esportes alternativos quando jovem, aos 15 anos, e se interessou primeiramente pela BMX. Ele foi o fundador da revista Dirt, uma publicação direcionada para o mundo das bicicletas. Mas, logo em seguida, veio a paixão pelo skate e sua profissionalização enquanto diretor de videoclipes de bandas musicais.

Após “100%”, Spike dirigiu, em 1994, o videoclipe da música “Sabotage” dos Beastie Boys; e depois muitos outros, de bandas como: Fatboy Slim, Weezer, Chemical Brothers, R.E.M, Björk etc. Dirigiu também muitos filmes de skate, como “Goldfish” (1994), “Las Nueve Vidas De Paco” (1995), “Mouse” (1996), “”Chocolate Tour”” (1999), “Yeah Right!” (2003) e “Fully Flared” (2007), considerado seu melhor trabalho com o skate. Dos videoclipes para o cinema foi um caminho rápido. A primeira experiência veio em 1999, com o longa “Como ser John Malkovich”. Neste mesmo ano ele se casou com Sofia Coppola (filha de Francis Ford Coppola), com quem veio a se divorciar em 2009, no mesmo ano em que dirigiu o longa “Onde vivem os monstros”, uma adaptação de um livro do ilustrador Maurice Sendak, de 1963. Seu sucesso mais recente foi “Her”, de 2014, que conquistou cinco indicações ao Oscar.

Mas retornando ao videoclipe de “100%”. O que nos vem à mente quando o assistimos? O skate está lá, ele é um elemento central, mas sem pretensões, apenas skate de rua, improvisos, escadas, corrimãos. Do ponto de vista técnico, aparecem manobras desafiadoras para a época, como os truques em corrimão, escadarias e, certamente, o salto que finaliza o vídeo, executado por Jason Lee, um pulo seguido de uma virada de 180 graus de costas no ar, realizado com estilo e leveza (o nome da manobra em inglês é “backside ollie 180”).

Recuperando algumas ideias lançadas pelo Rafael Fortes no texto “Videoclipe como fonte histórica”, podemos atinar para os seguintes elementos: “Ano/época/contexto/lugar” de produção deste videoclipe, o que nos ajuda a pensar o início da década de 1990. Para uma análise de fato deste videoclipe, quantos elementos não seriam necessários? A noção de Tribos Urbanas, a ideia da cidade apropriada para diversão (qual cidade aparece no vídeo? Los Angeles?), o skate como arte corporal (como contracultura? Como subcultura? Como esporte?) e, além disso: Esse videoclipe dialoga com outras produções dessa mesma época? Creio que sim, e o mais emblemático talvez seja o filme Kids, produzido no ano de 1994 e dirigido por Larry Clark.

Falaremos sobre Kids em um outro momento. Por enquanto, ficamos com a inquietação: como melhor aproveitar esse rico universo dos videoclipes para a pesquisa em história dos esportes, em especial, para a história dos esportes californianos? Não somente o skate, mas o surfe, a BMX e tantos outros. Essa é uma ideia ainda inicial, em desenvolvimento, mas não podemos fechar os olhos para o seu grande potencial.