FUTEBOL: O ÓPIO DO POVO?

por Maurício Drumond

O futebol é o ópio do povo? Se depender do senso comum, parece que sim. Especialmente em anos de Copa do Mundo (que desde 1994 coincidem com anos de eleições presidenciais no Brasil), escutamos e lemos os mais diversos “especialistas” proclamarem o tão batido jargão. O velho esporte bretão seria o novo panem et cirsenses, e tais críticos os novos Juvenais. Em 2014 o caso foi ainda mais extremo, visto que a Copa do Mundo ocorreu no Brasil e as eleições presidenciais se mostraram a mais disputada (ao menos no resultado final) de nossa história.

No entanto, a questão merece um pouco mais de reflexão. Sempre pensei que a ideia do pão e circo era um pouco simplista em demasia: o povo – seja na Roma Antiga ou no Brasil contemporâneo – é vista como um coletivo passivo e monolítico, como mera massa de manobra que oblitera todos seus problemas cotidianos para desfrutar de alguma diversão. No entanto, como historiador, fui buscar alguma evidência que corrobore, ou não, essa visão. Por  mais difícil que seja constatar, de fato, o grau de influência que o futebol exerce sobre a vida das pessoas, algumas indicações podem nos ser úteis para pensar o tema.

Dessa forma, decidi olhar para os anos em que se realizaram Copas do Mundo de futebol masculino e eleições presidenciais no Brasil: 1950, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014. As Copas do mundo foram escolhidas como momentos chave para a análise, visto que são ocasiões singulares onde a esmagadora maioria de torcedores brasileiros se unem na torcida pela mesma equipe, e outros ainda, que não têm o costume de acompanhar o esporte, participam da festa que toma conta das ruas. Já as eleições presidenciais nos fornecem um olhar unificado sobre todo o país, sendo o único pleito eleitoral em que todos os cidadãos aptos votam no mesmo grupo de candidatos. Ocasiões como essas, em que todos anseiam pelo mesmo resultado no futebol (a vitória do Brasil) e participam da escolha do mesmo cargo (a presidência da República), podem nos ajudar a perceber o real impacto do esporte sobre a política nacional.

Para observar isso, elaborei o quadro abaixo, onde destaco os referidos anos, acompanhados dos resultados da seleção brasileira em Copas do Mundo e o resultado das eleições presidenciais, cujas campanhas ocorrem paralelamente à Copa do Mundo. Para facilitar a observação, marco em azul os resultados tidos como “positivos” (a vitória do Brasil na Copa do Mundo / a vitória da situação nas eleições presidenciais) e em vermelho os “negativos” (a derrota do Brasil / a vitória da oposição). É importante notar que, no caso das eleições presidenciais, não me prendo ao fato da vitória ser de um candidato da esquerda ou da direita, ou em minha opinião pessoal sobre que candidato deveria vencer. O mais importante aqui é perceber se a campanha brasileira no certame mundial aparenta ter influenciado a visão dos eleitores sobre a qualidade do atual governo e, por consequência, a campanha do candidato que representa a continuação desse governo.

 

Em um primeiro olhar, a tese do Ópio do povo parece perder força. Não é possível observar diretamente uma relação entre o sucesso no futebol e o sucesso na política, e nem mesmo seu oposto – o fracasso na Copa do Mundo e a derrota nas eleições. Não obstante, um olhar mais específico sobre cada um desses momentos pode nos revelar ainda mais sobre o tema.

 

1950

Não há dúvidas de que a Copa de 50 foi um dos momentos mais significativos no futebol brasileiro. Até o Brasil x Alemanha de 8 de julho de 2014, a final dessa Copa era indubitavelmente a maior tragédia do nosso futebol. O famoso Maracanazzo. Nas eleições presidenciais, a vitória de Vargas ocorreu com grande folga, obtendo 48,7% dos votos, enquanto seus principais adversários somaram 29,6% (Eduardo gomes) e 21,5% (Cristiano Machado). Apesar de se colocar como oposição à Eurico Gaspar Dutra, Getúlio contava com apoio de amplos setores do partido governista, e o próprio Dutra havia sido eleito, 5 anos antes, como sucessor de Getúlio, após o breve governo de Nereu Ramos que sucedeu a deposição de Getúlio ao fim do Estado Novo (para ler um pouco mais sobre as eleições de 1950, sugiro o site do CPDOC/FGV).

O sucesso de Getúlio, no entanto, não pode ser creditado ao infortúnio brasileiro perante o Uruguai. Vargas ainda era uma das principais forças políticas do país, especialmente junto aos grupos populares. Não é muito arriscado afirmar que Getúlio seria eleito com vitória ou derrota da seleção nacional.

1994

Depois de um longo período em que Copas do Mundo e eleições não coincidiram – agravado pelo período de ditadura militar entre 1964-85 e por mandatos presidenciais de cinco anos -, elas voltariam a se encontrar em 1994. Nesse ano, o Brasil conquistava seu quarto título mundial nos Estados Unidos e Fernando Henrique Cardoso se elegia como sucessor de Itamar Franco.

A vitória na Copa do Mundo, em 17 de julho de 1994, ocorreu em um período em que Fernando Henrique está em ascensão, rumo à vitória no primeiro turno, de acordo com pesquisa do Datafolha.

No entanto, não devemos creditar o sucesso eleitoral de FHC à conquista do Tetra, ao menos não substancialmente. Em 94, a maior estrela da campanha de Fernando Henrique era o recém lançado Plano Real, como pode ser percebido nos primeiros minutos desse longo video:

1998

Emenda Constitucional n. 16, aprovada em 1997, instituiu a possibilidade de reeleição para cargos do executivo e reduziu seus respectivos mandatos para 4 anos, fazendo com que as eleições presidenciais sempre coincidam com edições de Copas do Mundo.

Em 1998, o Brasil fez sua segunda final de Copa do Mundo consecutiva, perdendo para França em um dos episódios mais controversos de nossa seleção. A derrota por 3 a 0 para os donos da casa, no entanto, não afetou a popularidade do presidente, que conseguiu se reeleger, estando sempre a frente da oposição em toda a campanha eleitoral. Se olharmos as pesquisas eleitorais do período da Copa do Mundo (junho/julho) e seus momentos posteriores, podemos perceber que FHC mantém um ritmo de crescimento, apesar da derrota brasileira.

 

2002

Em 2002, o Brasil conquistou o pentacampeonato mundial, na primeira Copa do Mundo sediada por dois países (Coreia e Japão). No entanto, nem mesmo a vitória brasileira, marcada pela incrível recuperação de Ronaldo, foi suficiente para evitar a derrota do candidato de Fernando Henrique Cardoso, José Serra. Se olharmos as pesquisas mais um vez, podemos ver que no período da Copa, Serra apresentava-se em queda, perdendo a segunda posição para Ciro Gomes, enquanto Lula, candidato da oposição, mantinha-se em crescimento.

2006 e 2010

Em 2006, a derrota do Brasil para a seleção francesa parece não ter tido influencia maior na campanha de reeleição presidencial de Lula, que se mantém na frente e obtém 48,61% dos votos válidos no primeiro turno, derrotando Geraldo Alkmin no segundo com pouco mais de 60%.

Já em 2010, com nova derrota da seleção, dessa vez para a Holanda, o governo consegue emplacar Dilma como presidenta eleita.

2014

Como dito anteriormente, 2014 foi um ano excepcional. A Copa do Mundo, realizada no Brasil, e o grande acirramento da disputa tornam essa ano único para os dois eventos. Fica aqui a pergunta: podemos associar o acirramento eleitoral com a derrota da seleção? Acredito que não. Para tanto, mais uma vez, a análise de pesquisas eleitorais mostra-se muito útil.

Disponível em http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2014/10/04/intencao_de_voto_presidente.pdf

Disponível em http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2014/10/04/intencao_de_voto_presidente.pdf

As pesquisas de 15 e 16/7/14, realizadas logo após a derrota da seleção brasileira (em 8/7), não mostram grandes mudanças. Sem dúvidas, o fato que mais influenciou as campanhas eleitorais foi o falecimento de Eduardo Campos, em 13 de agosto. Nas pesquisas subsequentes, vemos o acentuado crescimento de Marina Silva , conquistando grande parte dos eleitores indecisos (os percentuais de Dilma e Aécio Neves, nesse momento, não apresentam mudanças significativas). Ou seja, mesmo com uma das maiores derrotas da seleção brasileira, em uma tragédia de proporções épicas, as pesquisas de intenções de votos não mostraram mudanças significativas. Um importante elemento para pensarmos o papel do futebol como “ópio do povo”.

 

E o ópio do povo?

Após tudo isso, podemos chegar a uma conclusão?

Bem, vejo esses elementos empíricos como indicadores de que o futebol não deve ser visto como ópio do povo. E isso não é uma conclusão apenas minha. Muitos estudos acadêmicos mais recentes trabalham também a partir dessa hipótese. A espetacularização da sociedade e sua midiatização são fatores que podem apontar outras chaves para melhor entendermos o papel do futebol – assim como das novelas, dos carnavais, da música etc. – na sociedade. Se realmente há um ópio do povo, temos que procurá-lo não em fenômenos pontuais, mas nas características mais amplas de nossa sociedade capitalista. Mas isso é uma outra história.

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