A Copa do Mundo de 1950 no Estádio Independência

Olá amigos e amigas do História(s) do Sport.

No post de hoje vou falar um pouco sobre os jogos da Copa do Mundo de Futebol de 1950 realizados no Estádio do Independência, em Belo Horizonte.

O estádio foi construído por ocasião da Copa, e foi entregue incompleto às vésperas do primeiro jogo entre Suíça e Iugoslávia. Mas isso é um assunto pra um outro post.

O Relatório Oficial da Copa do Mundo de 1950, produzido pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD), nos permite analisar melhor as condições de realização desta competição e a participação de Belo Horizonte. Abaixo, uma tabela com alguns dados importantes sobre as partidas do Campeonato.

Copa do Mundo de 1950: jogos por cidade, público e arrecadação

Cidade Jogo Data Público Pagante Arrecadação

(Cr$)

Rio de Janeiro Brasil 4 x 0 México 24/06 81.649 2.565.020,00
  Inglaterra 2 x 0 Chile 25/06 29.703 976.197,00
  Espanha 2 x 0 Chile 29/06 19.790 663.288
  Brasil 2 x 0 Iugoslávia 01/07 142.429 4.619.620,00
  Espanha 1 x 0 Inglaterra 02/07 74.462 2.510.241,50
  Brasil 7 x 1 Suécia 09/07 138.886 4.996.197,50
  Brasil 6 x 1 Espanha 13/07 152.772 5.782.637,50
  Brasil 1 x 2 Uruguai 16/07 173.850 6.272.959,00
São Paulo Itália 2 x 3 Suécia 25/06 36.502 1.483.550,00
  Brasil 2 x 2 Suíça 28/06 42.032 1.534.720,00
  Itália 2 x 0 Paraguai 02/07 25.811 853.770,00
  Espanha 2 x 2 Uruguai 09/07 44.802 1.660.130,00
  Uruguai 3 x 2 Suécia 13/07 7.987 248.550,00
  Suécia 3 x 1 Espanha 16/07 11.227 330.550,00
Belo Horizonte Suíça 0 x 3 Iugoslávia 25/06 7.336 232.750,00
  Inglaterra 0 x 1 Estados Unidos 29/06 10.151 310.780,00
  Uruguai 8 x 0 Bolívia 02/07 5.284 160.720,00
Porto Alegre Iugoslávia 4 x 1 México 28/06 11.078 320.690,00
  Suíça 2 x 1 México 02/07 3.580 94.800,00
Curitiba Espanha 3 x 1 Estados Unidos 25/06 9.511 398.320,00
  Suécia 2 x 2 Paraguai 29/06 7.903 273.860,00
Recife Estados Unidos 2 x 5 Chile 02/07 8.501 288.010,00
Total 22 jogos *** 1.045.246 36.577.360,50

Fonte: Confederação Brasileira de Desportos – IVº Campeonato Mundial de Futebol – Taça Jules Rimet 1950. p. 82.

A Copa do Mundo de Futebol de 1950 aconteceu em seis cidades brasileiras: Rio de Janeiro, que recebeu oito jogos; São Paulo, onde foram realizadas seis partidas; Belo Horizonte, com três jogos, seguido por Porto Alegre e Curitiba, com duas partidas; completa a lista a cidade de Recife, que recebeu uma partida.Vale destacar que os dados da tabela se referem ao público pagante.

Belo Horizonte foi a terceira cidade com o maior número de partidas realizadas, atrás apenas de Rio de Janeiro e São Paulo, metrópoles já consolidadas economicamente e com a maior e melhor estrutura de estádios. Apesar disso, a cidade teve a segunda pior média de público da competição, a frente apenas da cidade de Porto Alegre.

O jogo entre Suíça e Iugoslávia contou 7.736 pessoas. Na segunda partida, entre Inglaterra e Estados Unidos, 10.151 pessoas pagaram ingresso, sendo esse o maior público da Copa em Belo Horizonte. Finalmente, o jogo entre Uruguai e Bolívia contou com a assistência de 5.284 pessoas, o segundo menor público de toda a competição.

Cabe ressaltar que nenhuma das partidas realizadas em Belo Horizonte teve lotação completa no Estádio Independência. Mas a questão do público presente aos jogos no Estádio do Independência merece análises e questionamentos. Onde estariam as multidões esportivas de Belo Horizonte em 1950? Obviamente, uma cidade que começava a experimentar uma onda de desenvolvimento industrial e crescimento econômico gostaria de figurar entre as cidades sedes, mostrando ao mundo seu estádio lotado de torcedores.

Devemos analisar primeiro o interesse provocado por cada jogo. Por questões econômicas e visando a maior arrecadação, as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo receberam os jogos mais interessantes da competição. Eles foram realizados nos maiores estádios brasileiros (Maracanã e Pacaembu). Sabe-se também que as duas cidades eram as mais preparadas para receber os turistas estrangeiros, que apareceram em pequeno número, como mostrei nesse post aqui mesmo do blog.

Sendo assim, vejamos como a imprensa analisou os jogos da capital mineira.

Suiça 0 x 3 Iugoslávia

O primeiro jogo da Copa do Mundo em Belo Horizonte valeu por toda a expectativa em torno da conclusão do Estádio do Independência e do início da Copa do Mundo.

O primeiro encontro do magno certame mundial, no estádio Independência, acabou sendo um espetáculo de marcante grandiosidade. Não, evidentemente, no sentido técnico que, sem haver se perdido totalmente nas sombras da mediocridade, esteve muito longe de se colocar em um plano destacado. O acontecimento valeu, e muito, pelo que pôde oferecer de inédito. Nesse particular, o fato de se abrirem oficialmente os portões do terceiro estádio do Brasil, para um jogo do certame mundial, envolvendo a participação de equipes de valor mais ou menos desconhecido, representando duas nações da velha e civilizada Europa, ganhou uma expressão invulgar, superando mesmo à expectativa geral. (…) Calculadamente, um terço da lotação do Independência, ou pouco mais do que isto foi tomado pela assistência popular. Ainda assim, considerável foi a massa popular que se instalou em suas amplas dependências, tranquilamente, sem atropelos, desde que havia muito espaço para todos. (Diário da Tarde, 26 de junho de 1950, p. 7. Matéria não assinada. Grifos meus)

As seleções, por sua vez, pareciam não empolgar muito os jornais e nem os torcedores, que compareceram em menor número e tiveram bastante espaço para se instalar nas arquibancadas.

Uruguai 8 x 0 Bolívia

O terceiro jogo foi a goleada do Uruguai – que se sagraria campeão ao final do torneio – de 8 x 0 sobre a Bolívia. A cobertura do jogo mostra como nem sempre o gol garante o interesse e a emoção de uma partida.

Um espetáculo futebolístico de panorama inexpressivo, desses que deixam o público mal satisfeito, realizou-se terça-feira última no “Estádio Independência”, encerrando a série de jogos da Copa do Mundo programados para a nossa capital. Aliás, o aficionado já sabia perfeitamente da superioridade indiscutível do Uruguai sobre a Bolívia, motivo porque diminuta em relação à assistência das partidas anteriores foi a que esteve presente no “match”. (O Estado de Minas, 4 de julho de 1950, p. 8. Matéria não assinada. Grifos meus.)

Da mesma forma, um jogo tão desinteressante para o andamento do campeonato contou com o pior público dos jogos em Belo Horizonte (5.824 pagantes)

Inglaterra 0 x 1 Estados Unidos

Deixei por último – e de forma proposital – a análise do segundo jogo. A cobertura da imprensa destoa de forma marcante dos outros dois jogos realizados no Independência.

Jamais o público belorizontino poderia pensar em assistir a uma luta tão empolgante, como a que se desenrolou, ontem, no Estádio Independência. Foi a nossa capital palco de um duelo futebolístico desse que não vão apenas uma página de real grandeza nas atividades esportivas que entre nós se realizem, mas acontecimento marcante na história do esporte de duas grandes nações. A importância do “match” que travaram as seleções da Inglaterra e dos Estados Unidos, tinha para cada uma delas um valor diferentes. Não vimos em campo dois antagonistas encarando tão somente a posição no certame mundial, mas sim rivais prontos para uma batalha acirrada, visando em primeiro plano o triunfo das cores de suas bandeiras.       Enfim, participantes de um espetáculo magnífico sob todos os aspectos e indelével pelo seu desenrolar, sensacional, desses que passam à história. E lá estava a presenciá-lo a maior multidão já presente a um estádio, com os olhos fitos nas jogadas, sem se descuidar um só instante, pois cada minuto oferecia uma fase nova, um lance vibrante, uma demonstração de um futebol de linhagem como não estamos acostumados a ver.

Maior, porém, foi a surpreendente vitória dos ianques, que saíram de sua aparente mediocridade, para subir a uma situação elevada e impor um revés à grande academia do futebol mundial. Espetacular, dramática, a luta em todos os seus detalhes, disputada com alma, com fira e entusiasmo pelos americanos, com serenidade e confiança pelos ingleses. Sem dúvida, um acontecimento ímpar na esfera esportiva de Minas, uma tarde memorável de aristocrática esportividade. (Futebol de alta linhagem num jogo em que a vitória não veio para os perfeitos. O Estado de Minas, 30 de junho de 1950, p. 7. Matéria não assinada. Grifos meus.)

O gol dos Estados Unidos sobre a Inglaterra no Estádio Independência. Fonte: Confederação Brasileira de Desportos – IVº Campeonato Mundial de Futebol – Taça Jules Rimet 1950. p. 45.

O gol dos Estados Unidos sobre a Inglaterra no Estádio Independência. Fonte: Confederação Brasileira de Desportos – IVº Campeonato Mundial de Futebol – Taça Jules Rimet 1950. p. 45.

A partida foi assistida por 10.151 torcedores pagantes, o maior público dos jogos realizados em Belo Horizonte. O levantamento do contexto histórico seja de confrontos bélicos, conflitos diplomáticos, políticos e econômicos entre duas nações que se enfrentam no campo esportivo é um fator recorrente – geralmente feito pela imprensa – na história do esporte. Obviamente tais fatos são levantados e podem ou não se manifestar, ou servir de incentivo, no momento da partida. Mas o fato é que o desenrolar do jogo, somado às diferenças entre Inglaterra e Estados Unidos – tanto do ponto de vista das relações históricas como na qualidade de suas seleções de futebol – contribuíram para que a partida ganhasse uma importância e dimensões especiais. Os valores do esporte e a busca pelo sucesso na competição fizeram com que “o triunfo de suas bandeiras” fosse ainda mais acirrado.

O jogo entre Inglaterra e Estados Unidos é considerado uma das maiores “zebras” da história das Copas.

As análises dos jogos nos mostram que o contexto do confronto, sua importância dentro da competição e a tradição das equipes estão relacionadas ao interesse da torcida mineira pelo certame.

Belo Horizonte tinha um estádio novo, uma cidade em crescimento que experimentava pela primeira vez uma grande competição de nível internacional.

A Copa do Mundo no Estádio Independência foi um importante acontecimento para Belo Horizonte, que nas décadas de 50 e 60 se consolidaria como a terceira capital do país, e veria também expandir a sua cultura esportiva.

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