UM PADRINHO ESPORTIVO: JOÃO FERRER E O BANGU A. C.

Nei Jorge Santos Junior

Entre os anos de 1903 a 1919, João Ferrer exerceu a função de diretor-chefe da Companhia Progresso Industrial do Brazil. Contratado para substituir o antigo diretor-gerente da Fábrica, o português Eduardo Gomes Ferreira, Ferrer, com sua visão moderna para o período, foi responsável por uma série de melhorias na região, as quais não estavam circunscritas às questões de infraestrutura, permitindo dotar de conforto a pequena vila operária, mas também oferecendo várias formas de lazer à sua população.

O benemérito João Ferrer, em fotografia de 1905.

ferrer

Fonte: MOLINARI, C. Mestres estrangeiros; operariado nacional: resistências e derrotas no cotidiano da maior fábrica têxtil do rio de janeiro (1890 – 1920). 2015. 259 f., il. Dissertação (Mestrado em História) —Universidade de Brasília, Brasília, 2015.

Certamente, a de maior impacto foi a participação na criação do Bangu A. C. Como já fora exposto em outros posts no blog, seus fundadores do clube, todos trabalhadores da Companhia Progresso Industrial do Brasil, bem que tentavam desde 1897 organizar uma agremiação esportiva[1], mas os diretores da empresa não pareciam dispostos a apoiar tal iniciativa. O antigo administrador da fábrica, o português Eduardo Gomes Ferreira, alegava ser contra qualquer tipo de jogo e, por isso, impedia a criação de qualquer agremiação esportiva. Os ingleses, porém, não esmoreceram e continuaram a pedir recursos para a fundação do clube.

Contudo, desdobramentos externos transformariam de vez as relações de lazer da região. Durante a greve geral de 1903, mesmo tendo a Fábrica Bangu participação pouco expressiva no movimento, curiosamente o diretor-gerente da Companhia, Eduardo Gomes Ferreira, pediu exoneração do cargo em 17 de agosto daquele ano, alegando problemas de saúde[2]. Na ocasião, o cargo acabou nas mãos do até então tesoureiro espanhol João Ferrer, que há tempos mantinha ligações estreitas com a cúpula da empresa.

Logo após a ascensão do espanhol ao cargo de administrador, as restrições em relação aos jogos chegariam ao fim, pois João Ferrer enxergava com bons olhos a criação de uma agremiação.

Rapidamente, a notícia se espalhara por toda fábrica. Para compor o quadro de associados, sem qualquer distinção de cargos ou nacionalidade, bastava aos interessados darem seus nomes ao secretário Andrew Procter, responsável pela filiação[3]. Naquele momento formou-se, aos 17 dias de abril de 1904, na longínqua estação de Bangu, um “club athletic sob a denominação de “Bangu Athletic Club”, tendo “por fins os jogos de football, cricket, lawn tennis e outros jogos variados.”[4]

A relação entre o espanhol Ferrer e a agremiação não ficou circunscrita às ações daquele dia. Pelo contrário, frequentemente o clube recorria aos subsídios oferecidos pelo então dirigente espanhol, entre eles, um terreno de propriedade da fábrica para a instalação do campo de futebol e a construção da sede social. Além disso, o diretor também  liberava com frequência um quantia em dinheiro, a fim de complementar seu orçamento, que incluía despesas com conservação[5], limpeza da sede social e do campo, pagamento de impostos, energia elétrica, compra de uniformes[6], transporte de jogadores e outras, por exemplo, o pedido feito em janeiro de 1906, em que o clube recorreria novamente ao Sr. João Ferrer, desta vez, “pedindo auxílio para aumentar as arquibancadas e colocar no campo diversos jogos e exercícios atléticos para o divertimento dos sócios e seus familiares aos domingos e feriados”[7].

Como uma espécie de extensão recreativa da fábrica, essa área representava uma continuidade do espaço do trabalho. A força dos operários e seu empenho na estruturação do Bangu se estendiam para além das questões trabalhistas, embora diretamente ligadas ao mundo do trabalho, a partir do qual se mobilizavam e com o qual reiteradamente dialogavam.

Dessa forma, percebe-se que Ferrer exercia um papel de benfeitor, liberando frequentemente recursos ao clube arrabaldino. Para facilitar a liberação da verba, o clube agia da seguinte forma: a solicitação de fundos era encaminhada ao Presidente Honorário do clube, cargo definido claramente no artigo sete de seus estatutos – “será conferido sempre o título de – Presidente Honorário –  o Diretor Gerente da Companhia Progresso Industrial do Brasil, o qual será consultado em todas as resoluções tomadas pela diretoria, estranhas a estes estatutos”[8]. Isto é, o administrador gerente avaliava e designava os recursos necessários para o bom andamento do clube, no qual suas ações interferiam diretamente na política do grêmio, principalmente no controle e na composição de seus quadros e dirigentes. Vale salientar que, qualquer obra ou evento realizado pelo clube, por ter sua sede no terreno da companhia, precisava de autorização prévia da fábrica, até mesmo jogos e torneios, como a disputa da Taça Ferrer, em que o administrador impôs o número de competidores, data e condição de participação: “só poderá tomar parte neste torneio, jogadores que são empregados da Cia. Progresso Industrial do Brasil”[9].

No entanto, o benfeitor espanhol teve sua reputação abalada por conta da crise econômica enfrentada pelas indústrias de tecidos em decorrência da Primeira Guerra Mundial. Silva sustenta que a verificação de irregularidades, que vinham sendo encobertas ano após ano pelo corpo de diretores por meio de recursos, provocou o abandono do seu posto em 27 de janeiro de 1919[10].

Após a saída do cargo, inúmeras denúncias sobre fraudes fiscais e irregularidades de diversos tipos vieram à tona. Além disso, a Gazeta de Notícias publicou uma série de denúncias intitulada: “Ladrões do fisco: o contrabando da fábrica Bangu”[11].

No entanto, mesmo frente à sequência de escândalos, algumas agremiações, que tanto se beneficiaram das ações patriarcais do ex-diretor, não esqueceram suas benesses. Acreditamos que as redes socais locais estabelecidas entre Ferrer e o Bangu A. C. marcaram fortemente o modus operandi da região, assumindo papel determinante na inclusão de suas pautas locais não só no debate sobre condições de trabalho e moradia, mas também sobre as múltiplas opções de entretenimento do bairro.

[1] MOLINARI, C. Mestres estrangeiros; operariado nacional: resistências e derrotas no cotidiano da maior fábrica têxtil do rio de janeiro (1890 – 1920). 2015. 259 f., il. Dissertação (Mestrado em História) —Universidade de Brasília, Brasília, 2015.
[2] Ibid.
[3] Ata de Fundação, The Bangu Athletic Club, 1904.
[4] Ibid.
[5] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 19 de janeiro de 1906.
[6] De acordo com a Ata de fundação, logo após a escolha das cores do uniforme, coube ao Sr. Stark, a missão de conseguir, junto ao Diretor da Fábrica, o pano necessário para fazer o fardamento do clube. Além disso, por diversas vezes, essa mesma atitude pode ser vista nas atas de reunião do clube. Ver: Ata de Fundação, The Bangu Athletic Club, 1904; Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 19 de janeiro de 1906.
[7] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 19 de janeiro de 1906.
[8] Art. 7 dos Estatutos do Bangu Athletic Club de 20 de abril de 1913, p. 1-2.
[9] Acta da Sessão da Diretoria do Bangu Athletic Club de 21 de março de 1911.
[10] SILVA, G. A. A. Bangu: a fábrica e o bairro. Um Estudo Histórico (1889-1930). Dissertação (Mestrado em História Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1985.
[11] Gazeta de Notícias, 28 de junho de 1920.
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