A formação em Educação Física na Bahia

Coriolano P. da Rocha Junior

No Brasil a formação acadêmica civil em nível superior da Educação Física (EF) iniciou-se em 1939, quando foi criada a Escola Nacional de Educação Física e Desportos (ENEFD)[1], vinculada a Universidade do Brasil (UB)[2]. Sua base legal foi o Decreto Lei 1.212 de 17 de abril de 1939. Pelo decreto, a ENEFD teria como funções: formar profissionais de EF; imprimir unidade teórico-prática no ensino; difundir conhecimentos da área e realizar pesquisa, além de capacitar quadros de todo o país, para que estes, ao retornarem aos seus estados de origem dinamizassem a área pelo Brasil e contribuíssem na criação de outros cursos.

Ao pensarmos a Bahia identificamos o Estado tardou a ter um Curso Superior de Educação Física. Embora tivesse ao longo dos tempos ocorrido várias tentativas, foi mesmo só em 1973 que se criou o primeiro. No caso, o da Universidade Católica de Salvador (UCSAL), em 1973, reconhecido em 23 de junho de 1977.

Sendo assim, causa estranhamento o fato de ter sido numa instituição privada, com apoio do poder público, que tenha acontecido a instalação de um Curso Superior de Educação Física na Bahia, ao contrário do que era corrente em outros lugares, onde eram nas Universidades Federais que se montavam os cursos.

Na Bahia, várias foram às tentativas para a criação de uma escola de EF e muitas, senão todas, movidas pelos próprios e poucos professores licenciados pela ENEFD. Todavia, por motivos diversos, nenhuma das investidas deu resultado e até o início da década de 1970 a Bahia continuava sem ter seu curso, ficando para trás em relação a vários estados brasileiros, inclusive alguns do nordeste.

A organização de cursos de formação de professores pelo Brasil, em sua fase inicial, seguia o mesmo padrão da ENEFD, tanto em sua organização curricular como nos métodos adotados, foi provavelmente o meio mais eficaz de moldar a EF brasileira. Na Bahia não foi diferente. É importante ressaltar que os idealizadores e articuladores do primeiro curso de EF eram quase todos graduados na ENEFD.

Esses professores, somados a outros, criaram a Associação dos Professores de Educação Física da Bahia (APEFB)[3]. Tal entidade ao longo de seu funcionamento transformou o objetivo da criação de um curso em seu interesse maior, pra tanto, constituiu uma comissão executiva. Esta comissão tinha o papel de visitar autoridades, entidades e órgãos da imprensa, visando sensibilizá-los para a criação da escola de EF.

A iniciativa da comissão ganhou repercussão nos jornais baianos, que procuravam tratar o assunto, dando destaque ao valor da criação de um curso de EF na Bahia. De certa maneira, a publicação de matérias sobre o assunto acabou sendo uma forma de pressão. Eis alguns exemplos:

  • Escola de Educação Física é importante meta para a Bahia (A Tarde, 10 de agosto de 1971)[4];
  • Comissão executiva para a Escola de Educação Física (A Tarde, 14 de agosto de 1971)[5];
  • Professores movimentam-se pela Escola de Educação Física. (A Tarde, 20 de agosto de 1971)[6];
  • Educação para o esporte (A Tarde, 24 de agosto de 1971)[7];
  • Funcionamento da Escola de Educação Física não demora (A Tarde, 26 de agosto de 1971)[8];
  • Escola de Educação Física em funcionamento é a meta (A Tarde, 17 de setembro de 1971)[9];
  • Educação Física é valor excepcional de um povo. (A Tarde, 28 de setembro de 1971)[10].

Ainda com a ideia firme de montar um Curso de Educação Física na Bahia, alguns professores, dentre outras iniciativas, procuraram uma forma de sensibilizar o então governador do Estado, Antônio Carlos Magalhães, quando de uma visita sua ao Colégio Estadual da Bahia (Central).

Os professores incluíram numa programação festiva do colégio uma demonstração de ginástica, com aproximadamente 500 alunos, ocupando, praticamente todo o espaço físico das instalações desportivas e áreas adjacentes. Após a demonstração, a comissão executiva da APEFB e mais três alunos da escola foram solicitar ao governador a instalação de uma escola de EF.

O Governador deu a seguinte resposta: “escola superior isolada na Capital eu não crio, instalamos Universidades no interior”. A comissão não recuou e fez-lhe uma contraproposta, que foi a de firmar convênio com a Universidade Católica do Salvador, para principalmente fazer uso das instalações da Vila Olímpica (propriedade do Estado). A isso, o Governador de pronto respondeu: “topo”.

Com a perspectiva da criação de um curso de EF numa instituição privada, a UCSAL, o Estado da Bahia aplicou somas de recursos públicos, tanto em instalações (Vila Olímpica), quanto em material, para viabilizar a materialização daquele que se tornou o primeiro curso na Bahia. Assim, essa posição do Governador atendeu a uma dificuldade apontada pela UCSAL (quando em outro momento se tentou a instalação), ausência de espaços, dando margem à criação do curso.

Em relação a esse fato, o jornal A Tarde, em 29 de junho de 1972[11] apresentou a seguinte matéria: “Educação Física tem Escola na Bahia”

Na oportunidade, o Governador Dr. Antônio Carlos Magalhães manifestou a disposição do seu governo em prestigiar a juventude universitária em particular, e a toda mocidade da Bahia, em geral, adiantando que, com este convênio, a juventude terá condições de realizar suas atividades, trazendo assim benefícios não só para o Governo, como para a UCSAL e para toda a comunidade baiana.

A partir de então, com a afirmação do convênio entre UCSAL e o estado da Bahia, o grupo de professores viveu meses de expectativa para a aprovação do curso no Conselho Universitário e sua criação efetiva e ainda, a realização do vestibular. Foi só em 27 de dezembro de 1972, após reunião do Conselho Universitário, que o curso de EF da UCSAL foi aprovado, com o início de seu funcionamento previsto para 1973.

Vemos então que a meta maior, instalação de um curso de EF foi alcançada e isso, a partir de um convênio entre uma Universidade já existente, que faria uso de sua estrutura acadêmica e o Estado, que entraria basicamente com instalações e equipamentos na esfera esportiva. A fase seguinte seria a viabilização do funcionamento do curso.

Cabe salientar que a efervescência para a criação e subseqüente materialização do primeiro curso de EF na Bahia (1973), se deu numa época em o país vivia um contexto político no qual os ventos democráticos estavam reprimidos.

Assim, a perspectiva de formação estava pautada por esse contexto e mesmo, pelas possibilidades teóricas da área, que claramente se diferem do entendimento que hoje podemos ter. E foi assim, nesse contexto e nessas condições que o curso se iniciou.

A estrutura curricular do curso de EF da UCSAL possuía 36 disciplinas. Era perceptível a separação entre as disciplinas para homens e para mulheres, mais notadamente nos 5º e 6º semestres, mas ambos os gêneros eram obrigados a cumprir 36 disciplinas para a conclusão do curso. Das 36 disciplinas do currículo da UCSAL na sua fundação, 05 organizavam seus conteúdos à luz das Ciências Humanas, 06 tratavam do conhecimento pedagógico, 08 se pensavam com base nas Ciências Biológicas e 17 eram de cunho técnico-desportivo.

Sendo assim, a Bahia tardiamente instalou um Curso Superior em Educação Física e ainda, também de forma diferente de outras localidades, isto se deu numa instituição particular. Foi só em 1988 que a Universidade Federal da Bahia criou o seu curso. Certamente, este cenário e estas peculiaridades deram e dão a Bahia, um tom diferente na formação e atuação na área da Educação Física.

 

[1] A partir da reforma universitária de 1968, a ENEFD deixa de ser escola padrão e se torna a ainda hoje existente Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

[2] Na atualidade é a Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

[3] Esta entidade trabalhava na organização da Educação Física e esportes na Bahia, numa tentativa de organizar e sistematizar a área e suas atividades no estado.

[4] A Tarde, 10 de agosto de 1971, p. 9.

[5] A Tarde, 14 de agosto de 1971, p.10.

[6] A Tarde, 20 de agosto de 1971, p. 12.

[7] A Tarde, 24 de agosto de 1971, p.4.

[8] A Tarde, 26 de agosto de 1971, p.7.

[9] A Tarde, 17 de setembro de 1971, p.12.

[10] A Tarde, 28 de setembro de 1971, p.12.

[11] A Tarde, 29 de junho de 1972, p.13.

Este texto tempo por base o artigo – PRIMEIRO CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA NA BAHIA – TRAJETÓRIAS E PERSONAGENS – de autoria de Coriolano Rocha Junior, Roberto Gondim Pires e Felipe Marta, publicado na Revista Brasileira de Ciências do Esporte,  v. 36, n. 1, p. 205-223, jan./mar. 2014

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