O Desencanto como instrumento de crítica aos interventores

No momento em que se aproxima mais uma Copa do Mundo de Futebol e novas Eleições Presidenciais acredito que estamos vivendo uma conjuntura histórica nebulosa e contraditória no que diz respeito à mobilização em torno desses dois importantes eventos coletivos para a sociedade brasileira.

Faltando exatamente um mês para a bola rolar na Rússia não sinto a motivação de outrora, não vejo as ruas pintadas, bandeiras nas janelas e mesmo com um time que ressuscitou nas mãos do técnico Tite um futebol, no mínimo bastante competitivo, não percebo entre os torcedores e nem entre especialistas dos meios de comunicação a empolgação de outras Copas. Diversos fatores são apontados e podem estar contribuindo para este possível desencanto coletivo: o 7×1 contra a Alemanha, a consciência da tragédia dos gastos públicos com os megaeventos, os escândalos envolvendo a C.B.F e a F.I.F.A, a crise política e econômica que assola o país, além da extrapolação do processo de mercantilização e midiatização do futebol cujo ápice simbólico acontece a cada quatro anos com a realização dos torneios mundiais de seleções.

A partir desta ideia de desencantamento popular, gostaria de retroceder quarenta anos para o torneio realizado na Argentina que foi o objeto da minha tese de doutorado e mais especificamente às fontes brasileiras que pesquisei: a revista Placar e o Jornal do Brasil, para abordar o olhar sobre um presidente militar. Não me refiro ao presidente da República Ernesto Geisel cujas revelações mais recentes a partir de documentos da CIA reforçam relatos da Comissão da Verdade sobre a postura extremamente fechada, permanente e genocida do seu governo, mas ao presidente da C.B.D, o Almirante Heleno Nunes.

Nestes importantes veículos da imprensa brasileira também pude perceber uma espécie de desencanto, porém com um sentido distinto, com um discurso velado mas engajado politicamente, com um objetivo político.

A seleção brasileira acabou sendo bastante criticada mesmo permanecendo invicta, conseguindo um terceiro lugar, que foi o melhor resultado desde o tricampeonato de 1970 até a conquista da Copa do Mundo de 1994, além das polêmicas envolvendo a classificação argentina após a goleada sobre os peruanos por 6×0 surgidas principalmente a posteriori.

Na minha interpretação isso ocorreu em função da associação da equipe brasileira com a caserna. A suposta “militarização” do futebol brasileiro tinha dois símbolos principais, o técnico Cláudio Coutinho e seu planejamento tático moderno que segundo diversas reportagens descaracterizaria o “genuíno” futebol brasileiro com os overlapings e pontos futuros, e o Almirante Heleno Nunes que é constantemente apresentado como um interventor do futebol brasileiro, o “ditador” da C.B.D que seria uma  instituição controlada por um Estado centralizador e autoritário, com diversos cartolas cheios de privilégios e que durante o mundial estariam esbanjando a arrecadação de uma loteria nacional que tinha sido entregue para a preparação da equipe.

Um exemplo do que seriam os gastos abusivos dos cartolas foi a descrição da festa de inauguração do centro de informações da CBD, instalado no hotel Plaza:

Um jornalista uruguaio ao ver parte das mesas para o coquetel de inauguração do centro de informações da C.B.D, instalado no Hotel Plaza onde se hospedam os beneficiários da mordomia patrocinada pelo povo brasileiro via Heleno Nunes não conseguiu esconder a revolta.

‒ Mas isso é uma terrível ofensa à fome que parte da humanidade passa. É realmente fantástico.

E era mesmo: perus, leitões, presuntos, camarões, vinhos e até caipirinhas servidas como exótico aperitivo espalhavam-se por três largas mesas por onde gente de toda parte se acotovelava.

Ainda bem que o jornalista uruguaio não chegou a ver na sala ao lado de portas fechadas, idêntico estoque de iguarias em maior quantidade. Era com todos os detalhes uma festa brasileira, ou melhor, uma festa de cartolas brasileiros…

Seu Evandro recepcionava os convidados. Para os colunistas, gente que podia falar de seu trabalho, ele tinha sempre um segredo, contado ao pé-de-ouvido, ou uma apresentação importante masculina, ou feminina: Veja fulano, como tudo está perfeito e espere só para ver quem vem aqui; o Havelange e o Pelé.

Como se o Havelange não fosse figura obrigatória, perfeito arroz de festa, e como se Pelé faturando alto à custa do Café do Brasil não estivesse obrigado por contrato a comparecer. Devia chegar as 18:30 e só apareceu 45 minutos depois comboiados por guarda-costas e apalpados por cartolas.

A festa começou oficialmente com a sua chegada, então as portas foram abertas e os olhos dos estrangeiros presentes se arregalaram frente a presença imponente do ex-rei do futebol” (PLACAR, n. 424, 9 jun. 1978 , p. 40).

Os relatos sobre a ostentação e a grandiosidade do evento, que deveria ser um simples marco da presença de um centro de informações da Confederação durante o torneio, não se configuram apenas em curiosidades jocosas, mesmo sendo superdimensionados.

Perus, leitões, camarões e até caipirinhas teoricamente servidas para convidados ilustres e jornalistas, além da presença em Buenos Aires de um grande grupo de privilegiados “cartolas”, teria sido possível devido às verbas públicas destinadas à preparação da seleção brasileira. Apesar do tom caricato, a reportagem é extremamente crítica à gestão econômica de Heleno Nunes e, consequentemente, ao controle estatal do futebol.

As críticas explícitas a outras duas personalidades brasileiras que também considero marcantes nas representações sobre o torneio são bem categóricas. Tanto Havelange, o arroz de festa, quanto Pelé, o garoto-propaganda, estão presentes no evento da CBD por interesses políticos e econômicos. São figuras centrais na legitimação simbólica da realização do torneio na Argentina e participam ativamente dos mais glamorosos eventos sociais que envolvem a Copa do Mundo da Argentina.

O fato de um militar, político da Arena, estar comandando o esporte mais popular no país, após 17 anos da gestão do civil João Havelange em uma conjuntura em que se clamava por uma abertura política e econômica, potencializou as críticas e as representações autoritárias em torno do dirigente. Inclusive Havelange se tornou seu desafeto público em 1974,  pois queria acumular a presidência da FIFA e da C.B.D, mas por interesses políticos militares o Almirante assumiu a presidência.

Outros episódios que fortaleceram a imagem de interventor e não de presidente da C.B.D teriam sido a conturbada relação do militar com o centroavante Reinaldo, pois para muitos jornalistas ele impediria a convocação do atleta para o mundial em função das suas convicções políticas, e o episódio envolvendo as mudanças da equipe para a terceira e decisiva partida da primeira fase contra a Áustria. As entradas de Jorge Mendonça, Rodrigues Neto e principalmente Roberto Dinamite de quem o Almirante era declaradamente fã em função também de sua paixão pelo Vasco da Gama são atribuídas a ordens de Heleno Nunes. Em reportagem intitulada “O Almirante interventor, mais técnico que o técnico” esse fato é destacado bem como a utilização política do futebol pelos militares.

“O Almirante Heleno Nunes volta da Argentina orgulhoso do seu papel de interventor. Não apenas da CBD, onde ele o é de fato, desde a queda de João Havelange, mas também na própria seleção brasileira, cuja formação mais bem-sucedida nesta Copa do Mundo (com Roberto, Jorge Mendonça e Rodrigues Neto nos lugares de Reinaldo, Zico e Edinho), foram praticamente impostas por ele a Claudio Coutinho…

Quando assumiu a presidência da CBD, o Almirante Heleno Nunes era também presidente da Arena fluminense. Esse acúmulo de cargos longe de ser uma coincidência era uma forma nem ao menos velada de o Partido do Governo utilizar-se do futebol com fins eleitorais. E o grande veículo disso ‒ foi e ainda tem sido o Campeonato Nacional, onde a incessante multiplicação de clubes participantes, quase sempre determinada por motivos políticos acabou num gigantismo sem precedentes com 72 times envolvidos…  (JORNAL DO BRASIL, CADERNO DE ESPORTES, n. 79, 26 jun. 1978, p. 4)”.

A encarnação simbólica do “Almirante interventor” foi na minha análise uma possibilidade dos jornalistas contrários à ditadura atacarem de forma velada, porém corajosa e engajada o próprio regime militar a partir do esporte que é um tema que possibilita uma espécie de licença flexível maior para as críticas mesmo nos regimes militares conforme já assinalou João Malaia em importante artigo sobre os primórdios da Revista Placar.

Retornando ao tempo presente pela perspectiva do desencanto, o que temos hoje na gestão do futebol brasileiro e do próprio país as vésperas de mais uma superfaturada Copa e uma  nebulosa eleição?

O modelo de gestão do esporte brasileiro se transformou completamente a partir da criação da C.B.F um ano depois da Copa da Argentina, principalmente com as alterações estabelecidas pela Constituição de 1988 que ao considerarem a autonomia privada das Confederações e Federações desportivas abriram o caminho para a apropriação de patrimônios culturais brasileiros por organizações mafiosas, corruptas que gerenciam o esporte brasileiro em diversos níveis e lucram muito dentro da nova lógica ultra-mercantil do esporte moderno.

E politicamente ,paradoxalmente, mesmo com novas denúncias e provas históricas, a militarização da sociedade as vésperas de novo pleito eleitoral parece estar sendo exaltada por grande parte da população que não enxerga mais o perigo de amantes da tortura, repressão, censura se tornarem presidentes para depois virarem interventores.

Que o desencanto que serviu de energia crítica contra os Helenos e os Ernestos se materialize atualmente contra novos símbolos intervencionistas. É melhor já ir lutando! Que o desencanto não se transforme em medo!

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