Relações entre esporte e guerra: algumas publicações

por Karina Cancella

Desde a década de 1980, estudos sobre as relações estabelecidas entre militares e as práticas esportivas têm sido realizados em diferentes partes do mundo. Ao longo dos últimos anos, o número de publicações específicas sobre essa temática tem aumentado, especialmente aquelas envolvendo as relações entre esporte e guerra. Esse movimento, de acordo com Arnaud Waquet (2010), teria relação com o período de comemorações do centenário da Primeira Grande Guerra, que trouxe ao centro do debate outras facetas da guerra e das Forças Armadas deixando de lado o enfoque exclusivo em narrativas de “História Batalha” ou de estudos sobre tática e estratégia.[1] Nesta postagem, tenho como objetivo compartilhar breves informações sobre alguns trabalhos com os quais tomei contato durante pesquisas realizadas nos últimos anos e que podem ser de interesse para aqueles que buscam iniciar ou aprofundar estudos sobre esse tema.

Robert Baumann, no ano de 1988, publicou o artigo “The Central Army Sports Club (TsSKA) Forging a Military Tradition in Soviet Ice Hockey” no Journal of Sport History em que debate o processo de inserção dos esportes no Exército Soviético, culminando com as análises sobre o desempenho superior dos militares no ice hockey. No artigo, Baumann aborda o processo de introdução do esporte e da ginástica no cotidiano do Exército Soviético ainda no século XIX, quando passaram a integrar o Programa Oficial de formação dos Cadetes, e estende suas análises debatendo o processo de ampliação do movimento esportivo naquela instituição ao longo do XIX e anos iniciais do século XX. (BAUMANN, 1988).

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A obra “Sport and the Military: the British Armed Forces 1880-1960”, de autoria de Tony Mason e Eliza Riedi publicada em 2010, dedica-se a analisar o processo de estabelecimento das práticas esportivas entre os militares britânicos. Os autores iniciam a obra afirmando que, ainda nos dias de hoje, o esporte não é tema central de estudos de História Militar, sendo citado (quando citado) como parte de um pacote de reformas destinadas a melhorar a preparação do soldado comum, de estímulo para recrutamento nas últimas décadas do século XIX ou como um elemento de diversão que poderia ser desfrutado pelos soldados do serviço ativo nas pequenas guerras do período imperial. As análises dos autores apresentam a inserção do esporte entre os militares britânicos como um dos itens de um movimento que buscava o desenvolvimento de recreações racionais entre os soldados e marinheiros e aprofundam os debates abordando os diferentes usos do esporte em serviço ao longo da primeira metade do século XX. (MASON; RIEDI, 2010).

Para o caso francês, a tese de doutorado defendida na Universidade de Lion em 2010, de autoria de Arnaud Waquet intitulada “Football en guerre: l’acculturation sportive de la population française pendant La Grande Guerre (1914-1919)” dedica-se a discutir o processo de aculturação esportiva ocorrido durante a Primeira Guerra, identificando uma significativa redução na prática da ginástica e ampliação do que chama de “desporto inglês”, com especial atenção para o futebol. Partindo dessa premissa, analisa as relações entre o futebol e a guerra e seus impactos sobre a população da França (WAQUET, 2010).

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Também trabalhando com a realidade francesa, Thierry Terret, no livro “Les Jeux interalliés de 1919: sport, guerre et relations internationales”, discute o processo de organização dos Jogos Interaliados de 1919, primeiro evento esportivo internacional no pós-guerra[2] realizados em junho daquele ano, em Paris. O autor analisa todo o processo de planejamento do evento, as relações estabelecidas entre os países participantes e os impactos de sua realização para a sociedade francesa naquele momento de reestruturação após o conflito. (TERRET, 2003).

 

Recentemente, foram publicadas duas obras tratando especificamente das relações entre o esporte e a guerra. O livro “Sport, Militarism and the Great War: Martial Manliness and Armageddon”, publicado em 2012 e organizado pelos professores Thierry Terret e J. A. Mangan, dedica-se a discutir os aspectos da prática do esporte entre os militares e suas relações com o conflito armado no contexto da Primeira Grande Guerra. A obra é estruturada em duas partes: a primeira, composta por 7 artigos, destina-se a debater a realidade francesa; e a segunda parte do livro aborda a realidade inglesa naquele contexto em 8 artigos, sendo 6 deles de autoria individual ou em parceria com J. A. Mangan. Apesar de discutir exclusivamente os casos de França e Inglaterra, a obra aborda também questões mais gerais sobre o contexto de atuação em conflito e as relações com as práticas esportivas. (TERRET; MANGAN, 2012).

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51LBniVSENL._SX341_BO1,204,203,200_-1Já a obra “Le Sport et La guerre: XIXe et XXe siècles” foi publicada em 2013 e organizada pelo professor Luc Robène. Os textos que compõem o livro foram apresentados no “Colóquio Internacional O esporte e a guerra nos séculos XIX e XX” que ocorreu na Universidade de Rennes 2 entre 28 e 30 de outubro de 2010. A obra possui quase 600 páginas, dividida em 6 partes, com artigos de 52 autores sobre os mais diversos temas da relação entre esporte e guerra. Há artigos específicos, por exemplo, sobre Portugal, Estados Unidos da América, um item exclusivo sobre as guerras coloniais africanas e outro sobre os desdobramentos na área do esporte e da Educação Física no interior das Forças Armadas em diferentes países. (ROBÈNE, 2013).

Sobre o contexto estadunidense, destaco o livro “Playing to Win: sports and the American Military, 1898-1945”, de autoria de Wanda Wakefield e publicado em 1997. A obra analisa as relações estabelecidas pelas Forças Armadas dos Estados Unidos da América com as práticas esportivas desde fins do século XIX. As discussões analisam o processo de introdução e sistematização dessas atividades e a implementação de suas ligas e competições, sempre relacionando-as com os diversos conflitos com participação do país ao longo do século XX, seguindo até a Segunda Guerra. (WAKEFIELD, 1997).

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Por fim, desejo boas leituras e pesquisas para os interessados nessa temática e até a próxima postagem!

 

[1] Para mais informações sobre as abordagens da chamada Nova História Militar, ver: Parente, 2009.

[2] Por ocorrência dos conflitos, os Jogos Olímpicos de 1916, previstos para ocorrerem em Berlim, não foram realizados, interrompendo a sequência de edições a cada quatro anos desde os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna, promovidos em 1896.

Referências:

BAUMANN, R. The Central Army Sports Club (TsSKA) Forging a Military Tradition in Soviet Ice Hockey. Journal of Sport History, v. 1.5, n. 2, p. 151-166, 1988.

MASON, T.; RIEDI, E. Sport and the military: the British Armed Forces 1880-1960. Cambridge: University Press, 2010.

PARENTE, P. A construção de uma nova História Militar. Revista Brasileira de História Militar. Edição especial de lançamento, p. 1-13, dez. 2009.

ROBÈNE, L. Le sport et la guerre: XIXe et XXe siècles. Rennes: PUR, 2013.

TERRET, T. Les Jeux Interalliés de 1919: sport, guerre et relations internationales. Paris: L’Harmattan, 2003.

TERRET, T.; MANGAN, J.A. Sport, Militarism and the Great War: Martial Manliness and Armageddon. New York: Routledge, 2012.

WAKEFIELD, W. Playing to win: sports and the American Military, 1898-1945. Albany: State University of New York Press, 1997.

WAQUET, A. Football en guerre: l’acculturation sportive de la population française pendant la Grande Guerre (1914-1919). 2010. 487 f. Thèse (Doctorat) – Ecole Doctorale Interdisciplinaire Sciences-Sante, Mention Sciences Et Techniques Des Activites Physiques Et Sportives, Université Claude Bernard – Lyon 1, Lyon, 2010.

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