A solidão do corredor de longa distância (RU, Tony Richardson, 1962)

Colin Smith (interpretado por Tom Courtenay):
Correr sempre foi algo importante em nossa família. Especialmente correr da polícia. (…). Tudo o que sei é que se deve correr. Correr sem saber porque pelos campos e bosques. E ser o vencedor não é a meta. Mesmo que torcedores malucos estejam vibrando como idiotas. Assim é a solidão de um corredor de longa distância.

A película que trago para esta breve apresentação de hoje não é sobre futebol (como de costume). Venho variando a modalidade e acho que vou continuar assim. Não obstante, até podemos encontrar o jogo bretão nesse magnífico filme de Tony Richardson: A Solidão do Corredor de longa distância (The loneliness of the long distance runner). Trata-se de uma primeira disputa desportiva do protagonista, o jovem Colin Smith (vivido por Tom Courtenay), com seus companheiros de reformatório. Smith rouba a bola de seu desafeto, Stacy (Philip Martin), demonstrando velocidade e chamando a atenção do diretor do Ruxton Towers (Michael Redgrave). A referência ao futebol fica por aí. A não ser, talvez, pela importante advertência que o mesmo diretor faz repetidamente ao seus internos: “Se vocês jogarem conosco, nós vamos jogar com vocês” (If you play ball with us, we play ball with you”). Pra quem não topa jogar (colaborar) é pão e água por três dias. Em Ruxton Towers a regra é clara.

Mas, como nosso jovem foi parar nessa instituição? Isso nós só ficamos sabendo ao longo da fita, a qual se inicia exatamente com o áudio transcrito em epígrafe e o qual sintetiza belamente a proposta da obra. No entanto, ofereçamos uma mini-sinopse, para localização.

Colin Smith é um rapaz pobre, de família complicada na cidade de Nottingham. Seu pai está muito doente (vindo a falecer rapidamente) e a mãe já tem outro pretendente e interesses. Para se distrair, Colin tem o amigo Mike (James Bolam) e uma quase-namorada, Audrey (Topsy Jane). Também sem muita consequência ou reflexão, cometem alguns delitos. “Empréstimo” de carro e, posteriormente, invasão e furto. É por este último motivo que Colin, descoberto, acaba parando no Reformatório. Ao se destacar como corredor, passa a se posicionar melhor na hierarquia e na graça do Diretor. Este último aposta todas as suas fichas no garoto. Sua obsessão é vencer a Cross Conty (uma corrida de 7,5 km), em um torneio que pela primeira vez vai colocar a Ruxton Towers frente a uma Public School inglesa, a Ranley. Esse é o enredo básico.

Esta, porém, não é uma película trivial. É parte importante do chamado novo cinema inglês. Foi baseada em um conto de autoria de Allan Sillitoe, que o publica em 1959. É ele próprio, inclusive, que assina o roteiro do filme. Sillitoe nasceu na mesma Nottingham, na qual se passa a história do nosso corredor. Era filho de um curtidor de peles analfabeto e desempregado durante muitos dos anos da depressão de 1930. “Fez parte do grupo dos ‘angry young men’ dos anos 50”. Escreveu seu primeiro romance, “Saturday night, Sunday morning” (1958), que também virou filme, novamente marcando a nouvelle vague inglesa (Ver: https://www.pipoca3d.com.br/2020/04/o-que-foi-nouvelle-vague-inglesa.html).

A repercussão da obra de Silltoe é considerável. O Iron Maiden produziu uma música homônima a nossa película (https://www.letras.mus.br/iron-maiden/79653/traducao.html). O Economista João Paulo Velloso escreveu um livro, recente, sobre os descaminhos do desenvolvimento nacional e, adivinhem, também o nomeou da mesma forma (https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/livros/livros/livro_asolidaodocorredor.pdf; para mais dezenas de referências, ver https://stringfixer.com/pt/The_Loneliness_of_the_Long-Distance_Runner).

Diretor (Tom Richardson) e atores (Michael Redgreve e, principalmente, Tom Cortenay) apresentam trajetórias importantes no cinema bretão e internacional.  Richardson assinou mais de 40 filmes e foi agraciado com vários prêmios internacionais (https://www.imdb.com/name/nm0724798/?ref_=nmawd_awd_nm). Caberia aqui, portanto, algumas palavras sobre as características da filmagem, produção e afiliação (talvez em outro escrito), mas vou ficar apenas com dois comentários.

A solidão do corredor de longa distância é sugestiva, de cara. Não seria preciso nem ver o filme para intuí-la. Trata-se de um exercício solitário, árduo, longo, exaustivo, no qual a tentação/possibilidade de se parar, de se dar um basta, pode aparecer a cada momento do trajeto. Simultaneamente (talvez estranhamente), as demonstrações de contentamento, satisfação, apego ou de liberdade parecem fazer parte de um rol de lugares-comuns na descrição da atividade por atletas e amadores. Paralelamente, as correlações metafóricas para com a existência de cada um de nós são por demais evidentes. O filme, porém, vai além. De uma dupla forma.

Primeiro, circunstancia uma situação. A difícil rotina de uma parcela da classe trabalhadora (ou sem trabalho) na Inglaterra do fim dos anos 50 e início dos 60 (um contraponto importante e uma presença fílmica fundamental para a trajetória do cinema como expressão cultural). Essa localização no tempo e no espaço (e pelo que se pode inferir, na trajetória do autor do texto/roteiro) confere estofo humano e histórico à trama.

Em segundo lugar (não menos relevante), essa obra, que teria tudo para se inserir no que se pode chamar de filme esportivo ou filme de esporte, é quase um anti-filme esportivo (pelo menos no sentido em que destoa de boa parte dos filmes que tematizam o esporte). Não trata de vencedores; mas também não é uma narrativa da derrota (de como lidar com a derrota). É uma história da conquista (efetivamente solitária e irremediavelmente individual) de uma escolha e de uma decisão potente na qual cruzar ou não a linha de chegada em primeiro lugar se torna uma coisa efetivamente menor do que a maneira como você vai percorrer a longa jornada. Não tenho dúvida que o desfecho narrativo desaponte uma parte da audiência, mas é nele que reside o diferencial e o atrativo da película. Existe um jogo poético entre o modo como a corrida (a competição) acaba e como a vida continua no reformatório, ilustrado pela última sequência fílmica. E existe, é claro, um jogo político entre o mesmo desfecho e a sinalização anterior de Smith, ainda no começo do filme (por volta do minuto 31):

Deixarei eles pensarem que me domesticaram. Mas nunca conseguirão, os desgraçados!

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