CONIFA: a representação internacional através do futebol, para além da FIFA

por Maurício Drumond

Neste final de semana foi realizada a primeira edição do primeiro campeonato sulamericano de futebol organizado pela Confederação de Associações de Futebol Independentes (CONIFA), no Chile. Chamada de Copa América 2022, a competição contava inicialmente com a participação de 4 equipes, sendo 3 do Chile. Além das federações Aimara, Mapuche e Maule Sur, a Federação Alternativa de Desporto de Estado de São Paulo (FAD) se inscreveu na competição, mas não viajou ao Chile. Sem a participação de seu 4º representante, o torneio foi modificado para um triangular disputado entre os dias 17 e 19 de junho e teve como vencedora a seleção de Maule Sur. As equipes Mapuche e Aimara ficaram em segundo e terceiro, respectivamente.

Equipe de Maule Sur, campeã da Copa América da ConIFA de 2022.

Mas o que seria a CONIFA? Em um de meus primeiros posts aqui no bolgue (link), escrevi sobre a Nouvelle Fédération-Board (NF-Board), uma confederação criada em 2003 que possuía associações como Tibet, Chechênia, Groenlândia, Ilhas de Páscoa e Mônaco (a seleção do principado, não o clube). Escrito em 2009, o artigo cita a realização das três primeiras edições da Copa do Mundo VIVA, organizada pela entidade. A Copa VIVA teria ainda mais duas edições. Em 2010, em Gozo, na República de Malta, a Copa contou com seis seleções participantes, tendo a Padânia como campeã e a delegação da região do Curdistão em segundo lugar. Já em 2012, em sua última edição, a competição contou com a participação recorde de nove equipes, sendo realizada na região do Curdistão, no Iraque. A equipe anfitriã levou o título, com a seleção da república Turca do Chipre do Norte em segundo lugar.

Cartaz da V Copa do Mundo Viva, no Curdistão

Em 2013 a NF-Board é desarticulada e a ConIFA surge em seu lugar. De acordo com Joel Rockwood (2020), a ConIFA foi criada com base nas experiências da NF-Board, tentando propor uma estrutura mais profissional para a organização. Mas qual seria a proposta dessas confederações? Quais seriam sua “federações-alvo”?

A princípio, destacam-se as federações de regiões ou grupos que buscam reconhecimento internacional por meio do futebol. Como aponta a chamada no site da CONIFA para novos membros, são convidados representantes de equipes que “representem uma nação, minoria, região isolada ou região cultural” (https://www.conifa.org/en/join-now/). São esses os casos como o da Somalilânida, por exemplo, um Estado de facto, com sua própria Constituição, forças armadas, impostos, moeda, placas de automóveis e mais de 3 milhões de habitantes, mas que não é reconhecido internacionalmente por outros países. Nesses casos, o esporte se torna uma importante ferramenta na luta por reconhecimento internacional. Como a própria federação somalilandesa destaca em sua apresentação no site da CONIFA,

A Somália ainda declara que a Somalilândia é uma região autônoma da Somálila. Independente de seu estatuto oficial de reconhecimento, a somalilândia é de facto independente e autogovernada e por isso tem uma excelente razão para ter sua própria seleção nacional. A Associação de Futebol da Somalilândia foi fundada em 2011 e representa a Somalilândia e os somalilandeses de todo o mundo (tradução minha, https://www.conifa.org/en/members/somaliland/).

O mesmo ocorre com os Estados de reconhecimento limitado da Abcásia e da Ossétia do Sul, regiões autônomas que se declaram independentes da Geórgia. Ambos os casos são apoiados pelo governo russo e têm reconhecimento internacional da Rússia, Nicarágua, Venezuela e de alguns outros estados de reconhecimento limitado. Sua semelhança de identificação com a Somalilândia pode ser vista também no texto de apresentação no site da confederação internacional, indicando um possível modelo pré-produzido entregue às confederações no momento da formulação sa página eletrônica. Acompanhado de algumas informações particulares ao caso da associação específica, está o mesmo texto destacado acima:

A Geórgia ainda declara que a [Abcásia/Ossétia do Sul] é uma parte da Geórgia. Independente de seu estatuto oficial de reconhecimento, a [Abcásia/Ossétia do Sul] é de facto independente e autogovernada e por isso tem uma excelente razão para ter sua própria seleção nacional. A Associação de Futebol da Somalilândia foi fundada em 2011 e representa a Somalilândia e os somalilandeses de todo o mundo (tradução minha, https://www.conifa.org/en/members/abkhazia/ e https://www.conifa.org/en/members/south-ossetia/).

O mesmo texto, com leves variações, pode ser encontrado na apresentação de outras associações como Artsaque. Um outro grupode nações representadas são regiões que se entendem como ocupadas, e buscam a representação internaciona como forma de afirmação de sua identidade, que por vezes não tem a possibilidade de vir à tona em outras áreas. As federções do Tibete e do Turquestão Oriental são dois exemplos. Na apresentação do Turquestão Oriental, afirmam que “dois anos antes de invadirem o Tibete, o Estado comunista Chinês anexou a República Oriental do Turquistão, em 1949. Como uma nação ocupada, os turquestaneses orientais possuem uma herança cultural e linguística única, que são significativamente diferentes daquela da dinastia han chinesa” (tradução minha, https://www.conifa.org/en/members/east-turkistan/).

No entanto, não são apenas Estados em busca de reconhecimento internacional que buscam a filiação à CONIFA. Povos minoritários também utilizam a filiação internacional como ferramenta para aumentar sua representatividade no cenário internacional. As federações do Povo Romani, Rohingya, Mapuche, Aimara e das Primeiras Nações da Austrália, por exemplo, demonstram a iniciativa de afirmação de grupos étnicos e culturais minoritários. Como destaca a apresentação da federação Aimara, ao dizer que “a seleção representa o povo Aimara do Chile, Peru, Bolívia e Argentina, com a missão de promover a cultura aimara pelo mundo” (tradução minha, https://www.conifa.org/en/members/aymara/).

Podemos perceber ainda a presença de federações que buscam celebrar/reafirmar identidades culturais regionais. Dentre esses pode-se destacar a federação da Cornuállia, de Yorkshire e da Ilha de Man, no Reino Unido, do condado de Nice e da Occitânia, na França, ou ainda da Sicília e da Padânia, na Itália. Nesses casos, majoritariamente em território europeu, a identidade local não é monilizada de forma a se separar a identidade nacional. A valorização da identidade local é atrelada ao nacional, ainda que por vezes essa valorização esteja também associada a movimentos por maior autonomia regional, como no caso da Padânia, cuja autonomia é uma bandeira do partido de extrema-direita italiano Liga Norte, cujo nome oficial é Lega Nord per l’Indipendenza della Padania.

Outro elemento relevante, que ganha força com muitas dessas associações, é a possibilidade da filiação de entidades não profissionais que busquem uma filiação internacional fora da FIFA, de forma a atrair talentos e filiações de clubes, em geral amadores. A federação do Condado de Nice deixa isso evidente em sua apresentação, ao afirmar que “busca representar sua região cultural e histórica no palco global, e deseja promover talentos locais através de sua Associação de Futebol” (tradução minha, https://www.conifa.org/en/members/county-of-nice/). Como apresentado em sua página inicial, a CONIFA se caracteriza como  “a federação de futebol para todas as associações fora da FIFA” (https://www.conifa.org/en/). Vemos assim um outro grupo de entidades, qe possuem um leve – e por vezes inexistente – pretexto cultural para sua filiação. Na Europa, as federações da Ilha de Elba e das Duas Sicílias parecem se aproximar mais desse caso, ainda que uma investigação mais detalhada deva ser efetuada para podermos afirmar com certeza. Nas Américas, a ANBM (ASOCICACIÓN NACIONAL DE BALOMPIÉ MEXICANO) e Cascadia, na América do Norte, também aparentam seguir esse caminho. No Brasil, a adesão da Federação Alternativa de Desporto do Estado de São Paulo (FAD), também demonstra esse lado da filiação. A FAD é uma associação amadora paulista sem nenhum elemento de valorização cultural ou identitária.

Em 2022, a CONIFA planeja organizar competições regionais na África, América do Sul e o campeonato munidal de futebol feminino. A Copa Africana contou apenas com 3 equipes, tendo a seleção de Biafra se sagrado campeã. Na América do Sul, vimos anteriormente que a seleção de Maule Sur foi a vencedora. Já o campeonato feminino será realizado no início de julho, sediado pela feeração do Tibete. O campeonato europeu masculino, a Euro 2022 CONIFA, seria realizada no início de junho, em Nice, mas foi cancelada e a entidade ainda não declarou se ainda irá promover uma nova competição europeia este ano.

Ainda que pequena e de pouco alcance midiático, a CONIFA busca se estabelecer em um campo onde outras entidades já atuaram. O modelo atual parece ser mais aberto e propenso a um modelo mais comercial. No entanto, ainda que muito aquém do futebol profisional, para muitas dessas entidades é uma das possíveis formas de representação internacional, dentro de um quadro de poucas possibilidades.

Referências
ROCKWOOD, Joel. The politics of ConIFA: Organising and managing international football events for unrecognised countries. Managing Sport and Leisure, 25 (1-2), p. 6-20.

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