AS TOURADAS DE 1808

por Victor Andrade de Melo

Jamais a cidade vira touradas como aquelas! É verdade que, desde o século XVIII, com frequência os eventos taurimáquicos eram organizados no Rio de Janeiro, sempre acompanhados com grande interesse. Mas, como as de 1808, nunca antes houvera!

 O motivo era justificado: as comemorações pela chegada da família real portuguesa, que estrategicamente fugia dos conflitos napoleônicos, transferindo a sede do Império Português para sua principal colônia, o Brasil.

 A movimentação já se fazia sentir por ocasião da prévia montagem das arenas:

Se o movimento se fazia sentir ativo e vivo nas casas, nas lojas e oficinas, transformando o aspecto patriarcal e tranqüilo da cidade, não menos vivo e ativo era o que ia pelos campos indicados para o levantamento de um anfiteatro, onde pudessem ser corridos touros e cavalos, exibidos danças e carros alegóricos. Trabalhavam carapinas vindos de toda parte; pedreiros e pintores de brocha até de madrugada, à luz de cabeças de alcatrão, que a escravaria carregava. E de um amontoado de lonas, de madeiras que carretas cuspiam sem descanso ao redor da praça, surgia, enfim, a grande peça de arquitetura, que se dispunha a impressionar os basbaques do tempo (Edmundo, 2000, p.104).

O autor pondera, contudo, que, em função da falta de conhecimento técnico adequado, as construções estavam longe do aspecto de suas congêneres européias, da mesma forma que o era a própria arquitetura colonial como um todo. Isso em nada diminuía o entusiasmo do público:

Quer as corridas de touros, quer as cavalhadas, eram consideradas a parte nobre do espetáculo na praça de curro, e às vezes realizavam-se umas, às vezes outras, pois os festejos duravam vários dias (…). A repetição era aliás necessária para permitir que maior número de pessoas pudesse presenciar nas bancadas as corridas (…) (Silva, 1978, p.64).

As touradas eram constantemente realizadas por ocasião das festividades promovidas pelos representantes da Corte nas primeiras décadas do século XIX. Uma corrida de touros que merece destaque foi a realizada como parte da comemoração do casamento de D. Pedro, nosso futuro imperador, com D. Leopoldina, em 1817. A arena foi construída onde hoje é o Campo de Santana (Centro da cidade). Desta instalação existe uma gravura aquarelada de autoria de Franz Josef Fruhbeck.

 touradas

A partir de 1820 as touradas tornam-se mais organizadas. Alguns empresários, entre os quais José Inácio da Costa Florim, traficante de escravos que parecia disposto a mudar de ramo, passam a organizar na praça do curro (Centro da cidade) tanto mais edições das corridas de touros quanto outros divertimentos, como exibições de acrobacia, ginástica e circos de cavalos.

 Mas isso é história para outra oportunidade…

 * Mais informações:

EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro no tempo dos Vice-Reis: 1763-1808. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000.

SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Cultura e sociedade no Rio de Janeiro (1808-1821). São Paulo: Editora Nacional, 1978.

MELO, Victor Andrade de. O que é “sport”? Tensões na definição do campo esportivo na cidade do Rio de Janeiro do século XIX. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a.169, n.439, p.9-36, 2008b.

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 Mas a “corrida de touros” é um esporte?

 Não vamos antecipar a resposta. É para dar essas e outras informações que o Blog História(s) do Sport hoje entra no ar, uma iniciativa do “Sport”: Laboratório de História do Esporte e do Lazer. O intuito é fazer uma ponte entre as investigações acadêmicas sobre o assunto e o grande público.

 É sim um blog acadêmico, mas escrito em linguagem leve; sem a pretensão de informar com profundidade, pretende antes captar a curiosidade do leitor, demonstrando que essa manifestação cultural com a qual nos deliciamos cotidianamente está profundamente articulada com tudo o mais que existe em uma sociedade: é algo bastante sério em seu caráter lúdico – é esse equilíbrio que aqui pretendemos.

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 O time está escalado: 11 craques, dirigidos por nosso mago da internet, Rafael Fortes, já conhecedor dos mistérios e antigo freqüentador da “blogosfera”. A atualização obrigatoriamente será semanal, ficando cada um de nós responsável por um assunto específico (veja a coluna Quem Somos). Todavia, o time está livre para “improvisar”, postar e fazer comentários quando desejar. Assim é bem possível que o “jogo” fique ainda mais animado! Vida longa a nosso Blog!

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 Esse flamenguista que vos escreve ficará responsável por dois assuntos: os primórdios do esporte no Brasil do século XIX/década inicial do XX e as relações entre esporte e arte (menos cinema, que está a cargo de nosso querido Luiz Carlos). O post de hoje antecipa o que espero fazer: apresentar assuntos que a principio podem parecer curiosos ou exóticos, mas devem ser entendidos como fundamentais na configuração desse maravilhoso espetáculo em todas suas dimensões: o esporte.

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 Afinal, as touradas podem ser consideradas como um esporte? Sigam nos acompanhando, em alguma oportunidade esta resposta será dada.

 Sejam bem-vindos!

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