As ideias de Jahn na sociedade da Corte: Deutscher Turnverein

24/11/2019

Fabio Peres e Victor Melo[i]

 

Em 1859, se estruturou, no Rio de Janeiro, a Sociedade Alemã de Ginástica (nos jornais também, por vezes, chamada de Clube Ginástico Alemão), a pioneira agremiação dessa natureza na América do Sul. Sua primeira sede se localizava na Praia de Santa Luzia[ii], no centro da cidade, provavelmente na residência de um dos membros da diretoria, H.W. Reimer[iii].

Em 1861, o clube foi convocado a se ajustar ao decreto 2.711, de 19 de dezembro de 1860[iv]. Deveria solicitar tanto autorização para funcionamento quanto a aprovação de seus estatutos, para que não incorresse no artigo 5º do decreto 2.686, de 10 de novembro de 1860[v]. Quase um ano depois, em outubro de 1862, a agremiação recebeu a licença para continuar a funcionar[vi].

Seus estatutos, contudo, sofreram alterações, claramente indicações do exercício do controle governamental. Uma das exigências estabelecidas é que fosse suprimido o artigo que indicava que a Sociedade seria regida pelas regras germânicas. Exigia-se ainda que o uniforme do clube somente fosse “usado dentro dos edifícios, e lugares sociais, e não nas ruas, ou praças públicas”[vii]. No futuro, o mesmo não será solicitado de outros grupos ginásticos. Tal decisão, naquele momento, pode ter algumas razões: a preocupação com a exibição pública de símbolos de outras nações; ou mesmo simples mudanças de critérios, que, de fato, nem sempre foram muitos claros.

Devemos lembrar que a Alemanha somente concretizou o seu processo de unificação em 1871. Esse aspecto deve ser levado em conta para melhor entendermos o perfil das agremiações germânicas no Brasil instaladas, inclusive o caso da Sociedade Ginástica Alemã. Ajuda a compreender, por exemplo, a força com que certos símbolos eram cultuados, um sinal de desejo de fortalecimento de uma identidade que, embora de construção bastante antiga, ainda estava se estruturando como Estado-Nação[viii].

Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro (RJ), 1867, p.378.

Nos estatutos, estabeleceu-se um nome alemão de referência junto a sua denominação (“Deutscher Turnverein, Sociedade Ginástica Alemã”), bem como o idioma germânico como o que deveria ser adotado nas reuniões. Além de deixar claros os vínculos com a Alemanha, esses artifícios estabeleciam um perfil desejado de associado.

Havia três categorias de sócios: ativos, aqueles que participavam dos exercícios ginásticos; passivos, que não participavam dessas atividades; e alunos de ginástica, categoria destinada aos menores de 18 anos. Somente aos primeiros era concedida a prerrogativa de deliberar nas assembleias, sinal de que a prática era mesmo considerada de importância na agremiação.

Os intuitos do clube eram assim explicitados:

a) Cultivar as forças físicas e intelectuais dos seus membros;

b) Estabelecer relações entre todos os Alemães existentes no Brasil[ix].

Sua fundação tinha motivações semelhantes às que levaram à criação de outras congêneres alemãs, como a Sociedade Germânia, fundada em 1821 e até hoje existente[x]. Era a materialização do desejo de um grupo de estrangeiros de estabelecer laços de sociabilidade ao redor de hábitos culturais de seu lugar de origem. Deixava-se claro nos estatutos que “Cada novo membro é considerado como irmão e amigo”.

Estabeleceu-se como divisa “Frisch, Fromm, Froehlirh, Frei (Fresco, bom, allegre, livre)” e como saudação “Gut Heil (boa ventura)”[xi]. Tratava-se de uma clara vinculação com as ideias de Friedrich Jahn, principal líder do movimento alemão de ginástica, no qual a prática era concebida como uma escola de vida, com regras morais muito bem definidas[xii]. Nas Turnverein, que no Brasil foram muito atuantes em outras cidades (como São Paulo, Juiz de Fora e cidades da região sul do país), concebia-se que os exercícios deveriam estar a serviço da aquisição de determinados comportamentos[xiii].

Essas concepções manifestavam-se claramente na dinâmica cotidiana da sociedade. Os estatutos procuravam garantir de forma rigorosa o seu bom funcionamento. O presidente gozava de grande poder, mas tinha que se reportar, em muitos casos, ao Conselho, uma diretoria formada por 11 membros. Entre os cargos, percebe-se a valorização de algumas atividades: além da ginástica, o canto e a leitura.

Muitos eram os itens destinados a regulamentar a prática da ginástica. Havia indicações sobre a manutenção dos espaços e aparelhos, bem como sobre a dinamização dos ensaios/aulas, dirigidos pelos que melhor desempenho demostrassem: “Os ensaiadores serão escolhidos entre os membros da primeira divisão[xiv]. Superioridade na execução dos exercícios e vivo interesse para a Sociedade decidem a escolha”[xv]. Mais ainda, previa-se: “Os ensaiadores executam os exercícios uma vez por semana na presença do Presidente”[xvi].

Vejamos, portanto, que, a princípio, não se previra a contratação de professores. Os ensaiadores eram escolhidos entre os sócios, considerados personalidades de grande importância. Todos deveriam seguir suas determinações nas aulas/ensaios. Previa-se que:

“Ao ensaiador é lícito excluir da sua divisão qualquer membro que não se portar convenientemente; deverá, porém findos os exercícios, comunicá-lo ao Presidente, cuja resolução determinará mais especialmente as providências que se devem dar”.

Com o decorrer do tempo, houve professores contratados? Não conseguimos identificar. De fato, das sociedades ginásticas que existiram no Rio de Janeiro, o clube dos alemães foi o mais discreto. Nas fontes consultadas, somente eventualmente se vislumbra algo de suas atividades. Por exemplo, em um relatório publicado na Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, a respeito do funcionamento do Jardim Botânico, ficamos sabendo que, em 1884, a colônia alemã organizou uma festividade em honra do Príncipe da Prússia, composta por um banquete, música, canto, ginástica e dança”[xvii]. Não muito mais do que isso. Vejamos que a informação sequer foi publicada em um periódico de grande circulação.

De toda maneira, é possível perceber que o clube se manteve bem ativo no decorrer do século XIX, não só no que se refere aos exercícios ginásticos, como também promovendo atividades sociais, como bailes, saraus, passeios, reuniões de associados[xviii].

Mais conhecida e ativa na vida social da Corte foi a Sociedade Francesa de Ginástica, fundada em 1863. Mas essa história ficará para um próximo post.

 

[i] Texto foi publicado originalmente em MELO, Victor Andrade de; PERES, Fabio de Faria. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7Letras/Faperj, 2014. (Coleção Visão de Campo).

[ii] Em 1874, o clube já estava instalado na Ladeira do Castelo. Em 1884, transferiu-se para a rua do Riachuelo (na Imperial Fábrica de Cerveja Nacional, de Henrique e Leon Leiden). Dois anos depois se localizava na rua da Misericórdia (próxima ao Castelo); em 1888, na rua da Ajuda (nas redondezas da atual Cinelândia).

[iii] Almanak Laemmert, 1862.

[iv] Brasil. Decreto nº 2.711, de 19 de dezembro de 1860. Contém diversas disposições sobre a criação e organização dos Bancos, Companhias, Sociedades anônimas e outras (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1860, p. 1125, v. 1, pt II). Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-2711-19-dezembro-1860-556868-publicacaooriginal-77043-pe.html>. Acesso em: 26 mai. 2013.

[v] Brasil. Decreto nº 2.686, de 10 de Novembro de 1860. Marca o prazo dentro do qual os Bancos e outras Companhias e Sociedades anônimas, suas Caixas Filiais e agências, que atualmente funcionam sem autorização e aprovação de seus Estatutos, devem impetra-las (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1860, p. 1061, v. 1, pt II). Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-2686-10-novembro-1860-556835-publicacaooriginal-77005-pe.html>. Acesso em: 26 mai. 2013.

[vi] Brasil. Decreto nº 2.980, de 2 de Outubro de 1862. Concede á Sociedade Alemã de Ginástica autorização para continuar a exercer as suas funções, e aprova os respectivos Estatutos (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1862, p. 348, v. 1, pt. II). Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-2980-2-outubro-1862-555720-publicacaooriginal-75087-pe.html>. Acesso em: 26 mai. 2013.

[vii] Brasil, 1862, op. cit.

[viii] Para mais informações, ver Andrade (2007).

[ix] Brasil, 1862, op. cit.

[x] Para mais informações sobre a Sociedade Germânia, ver <http://cidadesportiva.wordpress.com/2011/08/27/germania-o-mais-antigo-clube/>. Acesso em: 26 mai. 2013.

[xi] Brasil, 1862, op. cit.

[xii] Para mais informações sobre as propostas de Jahn, ver estudo de Quitzau (2011).

[xiii] Na verdade, a ideia de turnen, que em sentido literal se refere à ginástica (como verbo ou substantivo), também incluía jogos, caminhadas, teatro e coral (TESCHE, 2000).

[xiv] Havia um ensaiador para cada divisão, turma formada por nível de desempenho.

[xv] Brasil, 1862, op. cit.

[xvi] Entre os ensaiadores, sabemos, por exemplo, por uma homenagem pelo clube realizada, que um dos mais ativos foi o dinamarquês Adolphe Jorge Guilherme Hamann. Em 1866, quando a Sociedade era presidida pelo mestre de ginástica H. Frey, um professor de esgrima é admitido no Conselho (M. Sturzenecker).

[xvii] Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, março de 1884, p. 123.

[xviii] Para um olhar sobre a presença de alemães na sociedade da Corte, ver Lenz (1999) e Kelli (2011).


Francisco Pontes, o “Manolete” do Brasil

28/07/2019

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

Em recente visita a um importante centro de prática e estudos sobre as touradas no mundo, a cidade de Córdoba, região da Andaluzia, na Espanha, pude sentir de perto toda a fascinação que os espanhóis possuem pela prática, assim como toda a sua significação histórica e identitária. Os toureiros, assim como os touros, são admirados e elevados a celebridades carregadas de virtudes. Nesse contexto, se destaca um personagem no cenário local, Manuel Laureano Rodríguez Sánchez, mais conhecido como Manolete, nascido em Córdoba em 1917 e falecido em Linares, também na Espanha, em 1947, com apenas 30 anos de idade após um golpe fatal de um touro Miura.

Sua morte comoveu país inteiro, sendo que, na época, o próprio ditador Franco ordenou três dias de “luto nacional”, durante os quais hinos fúnebres eram ouvidos no rádio. Em 2007 foi realizado um filme sobre a sua vida, “Manolete – Sangue e Paixão”. Tanto no Museu Taurino de Córdoba, quanto pelas ruas estreitas da cidade histórica, são inúmeras as referências a este, que pode ser considerado o mais celebrado toureiro de todos os tempos.

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Busto de Manolete – Museu Taurino de Córdoba

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No entanto, não foi somente no velho continente que esta admiração pelos astros da tauromaquia pôde ser notada. Guardadas as devidas proporções e o cuidado com as anacronias, o Brasil também teve o seu astro dos redondéis, o português Francisco Pontes, um dos mais notáveis toureiros a atuar no Brasil. Seu destaque se deu em grande parte do território brasileiro onde comandava um circo de touros itinerante. No Rio de Janeiro, se tornara um dos grandes responsáveis pela popularização da tauromaquia no século XIX, por sua notável performance nas arenas, por sua capacidade de organizar espetáculos de qualidade e por seu constante envolvimento com a filantropia. Pontes era considerado o maior artista tauromáquico a visitar o Brasil.

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Francisco Pontes
O Toureiro, 1877

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Em Porto Alegre, Pontes tornou-se, também, renomado. Na temporada de 1881, chegou a receber de presente uma valsa, “Primavera”, composta por João Fernandes de Souza Lima, a ele oferecida como prova de simpatia e admiração pelos seus méritos artísticos.

O toureiro sempre procurava retribuir o carinho do público. Por exemplo, nas corridas de 11 de agosto de 1889, tanto os bilhetes de sol como os de sombra foram acompanhados de seu retrato, que poderia ser retirado pela pessoa que os comprar antes de entrar para a corrida. Explicitamente desejava agradecer o público e a imprensa da capital sulina, pela maneira generosa que o acolhera, revelada nos abundantes aplausos prodigalizados à sua companhia e na valiosa proteção que lhe foi dispensada.

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Arena de touradas, Porto Alegre, 1909 (ver fundo da imagem)
Disponível em: https://lealevalerosa.blogspot.com/2010/05/circo-de-touros-em-porto-alegre.html

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Ainda que em algumas ocasiões houvesse ressalvas à atuação da companhia de touros, em geral os toureiros, além de Pontes, receberam grande destaque, ressaltando-se sua destreza e coragem. Lourenço Delgado, por exemplo, tornou-se um ídolo por sua capacidade de realizar técnicas muito distintas e arrojadas. Geminiano de Carvalho ganhou fama por ser um “artista ginástico”. Isso tinha relação com o fato de que tinha força para suspender um touro, bem como porque aceitava desafios de luta romana, realizados em plena arena.

Nas corridas de Porto Alegre houve mulheres lidando com os touros. Em 1889, atuaram Petrona Nogueira, Maria Soares e, com muito destaque, a espanhola Maria Dolores, considerada “valente e corajosa heroína”. Ela chegou a enfrentar um touro com “aspas nuas”, além de encarar o quase onipresente Tigre Rochedo, afamado touro.

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Arena de touradas, Porto Alegre, 1901 (ver fundo da imagem)
Disponível em: https://lealevalerosa.blogspot.com/2010/05/circo-de-touros-em-porto-alegre.html

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Já na temporada de 1875, se apresentara Julia Rachel, casada com o afamado toureiro Miguel Tranzado, anunciada como a única neste difícil trabalho em toda a América do Sul. Suas proezas eram anunciadas com grande alarde, o mesmo que ocorreu com outra pioneira, que atuara nas corridas de 1881: Zulmira da Conceição.

Como era usual em outras cidades, também em Porto Alegre foram organizadas touradas com fins beneficentes, uma iniciativa que ajudava a aumentar o reconhecimento social para com a prática. No caso das corridas que promoveu Pontes, era também uma forma de expressar sua vinculação a certas causas políticas, como as abolicionistas, por exemplo.

No Rio de Janeiro, o toureiro se envolveu profundamente com a luta contra a escravidão. Na capital gaúcha, uma das ocasiões em que isso se manifestou foi em uma sessão dedicada à Sociedade Floresta Aurora, uma ativa agremiação de negros.

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Em tudo o que pudemos verificar nas touradas do século XIX no Brasil, nenhum outro “artista” tauromaquico logrou tanto sucesso quanto Francisco Pontes. Manolete na Espanha ou Pontes no hemisfério sul, o fato é que este desafio entre o homem e o animal, entre a força e a habilidade, aflorava sentimentos extremos por onde fora praticado. Na capital do império ou na Província de São Pedro, o toureiro conquistou o seu público, sua fama e está marcado na História. Afinal, o Brasil também tem o seu Manolete.

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Para mais informações:

* Tradição e modernidade: as touradas na Porto Alegre do século XIX
Cleber Eduardo Karls, Victor Andrade Melo
História Unisinos, v. 18, n. 2 (2014)
http://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/view/htu.2014.182.11


A História de uma Policronofonia (parte 2): apontamentos sobre a educação física e a ginástica no Rio de Janeiro do século XIX

23/06/2019

Fabio Peres

No dia 27/09/1876, o jornal O Globo, em sua seção de Espetáculos, publicava um anúncio (de tamanho expressivo) do Circo Chiarini. O Circo se apresentaria em São Cristóvão às 20h daquela noite.

Logo abaixo de uma imagem de animais que se assemelhavam a zebras, o anúncio destacava “10 razões incontestáveis” para visitar o circo. Entre elas, argumentava-se que o espetáculo era:

*popular

* composto por artistas enciclopédicos;

* um divertimento para todas as inteligências;

Além desses motivos, por mais inusitado que possa parecer, o anúncio elencava como a 10ª razão para o público comparecer ao espetáculo o fato de o Circo Chiarini ser a verdadeira escola de educação física.

Afinal, desde a década de 1830 (ou seja, cerca de 40 anos até o espetáculo que seria realizado em São Cristovão), a família Chiarini se apresentava no Rio de Janeiro em circos de sua propriedade (como o Círculo Olímpico, inaugurado em 1837, no Largo da Ajuda, atual Cinelândia), depois renomeado Circo Olímpico).

O espetáculo era constituído de exercícios de força, ginástica e equilíbrio, bem como de saltos, lutas e apresentações equestres. Além também de malabarismo, dança, teatro, palhaços, entre outras performances.

E não poucas vezes a família usou a denominação “escola” para designar as práticas corporais de seu estabelecimento.

Por outro lado, cerca de 3 anos antes, em 1873, o renomado editor Alambary Luz do periódico A Instrução Pública, um dos primeiros periódicos brasileiros voltado especificamente para o campo da educação, não apenas defendia e celebrava a união das “vozes” da medicina e da pedagogia quando o assunto era a educação física e a ginástica (19/10/1873, p.385), como também demonstrava sua repugnância com a possibilidade de confusão entre “esta arte fundada nos sãos preceitos das sciencias médicas [isto é, a verdadeira ginástica] e o acrobatismo”. E conclui o seu texto: “ninguém espera saltimbancos”.

Mas afinal, quem era, naquele momento, portador legítimo da “verdadeira” educação física, da ginástica ou de outras práticas corporais?

 

Fantasmas e anacronismos

Um anacronismo comum na história da educação física e, em geral, das práticas corporais se refere a tentação de dotar certos protagonistas e instituições sociais do conhecimento do que aconteceu depois: como se aqueles atores sociais (investigados) antecipassem ou tivessem conhecimento do que eles se tornariam no futuro (NOVAIS, 2000). O historiador muitas vezes esquece que ele conhece a história, mas os personagens da história não.

Esse “pecado dos pecados, o pecado dentre todos imperdoável”, como o denominou Lucien Febvre (2009, p.33), embora nem sempre fácil de se desvencilhar no cotidiano da pesquisa[1],  consiste em “vestir” determinados atores  e contextos “com as roupas talhadas em outras épocas” e em outros lugares (ALENCASTRO, 1991).

Ainda caímos no contrassenso de pensar certos atores e instituições sociais com “roupas” de outras épocas e de outros lugares.

No caso da ginástica e da educação física, alguns estudos sugerem que era fraca sua manifestação no Rio de Janeiro do século XIX (MORENO, 2001), bem como enfatizam uma matriz médica e pedagógica na sua conformação (PAIVA, 2003; GONDRA, 2004).

Com frequência a história narrada sobre as práticas corporais não leva em consideração que as instituições relacionadas à educação, à medicina e às “forças” armadas no século XIX não eram nem como elas se auto representavam naquele momento, nem o que elas se tornariam posteriormente e tampouco que eram exatamente equivalentes às que existiam na Europa.

Ainda que discursivamente os agentes estatais, os médicos, bem como os militares e os educadores dissessem o contrário, as instituições a que pertenciam estavam longe de ser, pelo menos no século XIX, o que certas leituras apontam.

A questão não reside no fato da ginástica e da educação física terem sido incorporadas enquanto saber médico, pedagógico ou das “armas”.

De fato, saberes sobre a prática foram sendo paulatinamente incorporados e difundidos por atores e instituições que se atribuíam o domínio de tal conhecimento (como mostrado aqui, aqui e aqui). Mas esses eram mais heterogêneos e estavam mais em disputa do que determinadas narrativas parecem fazer acreditar: por exemplo, a “modernidade da ginástica” supostamente mostraria a “sua submissão, quase total, ao mundo da higiene, da medicina e da moral” (SOARES, 2009, p. 140).

Mesmo reconhecendo a pertinência de alguns desses argumentos – ou seja, as relações entre medicina, ciência, educação, ginástica e exercícios corporais diversos – o que estamos sugerindo é que elas não são suficientes para dar conta de entender a complexidade da presença da modalidade no cenário fluminense no decorrer daquele século.  Mas os pormenores dessa história ficarão para um próximo post.

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[1] Observa-se, aliás, que outros fantasmas rodam outras disciplinas, como é o caso do etnocentrismo na antropologia.


UM PIONEIRO CLUBE DO BARRETO (NITERÓI)

27/01/2019

Por Victor Andrade de Melo

Como já informei em outro post, em breve, se tudo der certo, lançarei um livro sobre a vida esportiva de Niterói. Este post é um extrato dessa obra, a parte dedicada a discutir uma pioneira agremiação que foi fundada no Barreto, um dos bairros mais interessantes da Cidade Sorriso.

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Foi em 1881 que surgiram, em Niterói, os primeiros indícios de fundação de uma agremiação dedicada às corridas a pé, uma reunião realizada no Congresso Literário Guarany. Em julho, realizou-se a primeira atividade do Clube Atlético Brasileiro, evento promovido nas terras de Domingos Moutinho – conhecido dirigente da Companhia Carris Urbano –, localizadas no Largo do Barreto, na ocasião situado à beira da Praia dos Coqueiros.

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Anúncio de corridas do Clube Atlético Brasileiro
O Fluminense, 17 jul. 1881, p. 4.

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Na ocasião, o Barreto começava a passar por um processo de transição, deixando de ser somente caracterizado pela existência de propriedades rurais e tornando-se mais urbanizado, alterações que se intensificariam mais ao fim do século, quando foram instaladas diversas iniciativas industriais.

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Em vermelho, o Largo do Barreto (atual Praça Enéias de Castro), local do Clube Atlético Brazileiro. Em azul, a Praia dos Coqueiros. Em laranja, o Cemitério do Maruí. Em lilás, a Ponta D´Areia. Em verde, o Hipódromo Guanabara.

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Uma das principais responsáveis pela dinamização do Clube Atlético Brasileiro foi a família Tutte do Couto. Proprietários de terras no bairro, talvez por sua ascendência britânica, alguns de seus membros tiveram forte envolvimento com o esporte. Frederico (futuramente um dos protagonistas da criação do Hipódromo Guanabara e do Clube Olímpico Guanabarense), Alberto, Henrique e Julieta atuaram como dirigentes, organizadores de eventos e competidores nas provas.

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Vista panorâmica do Barreto
Disponível em: <http://grupoprazerdejogar.blogspot.com/&gt;

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Outras importantes personalidades de Niterói ajudaram na dinamização e participaram ativamente das iniciativas do Clube Atlético Brasileiro, em geral, como usual, gente ligada à burguesia urbana da cidade. Entre os mais conhecidos, podemos citar os March, moradores do Barreto, filhos do médico Guilherme March -– o comerciante W. March, o tipógrafo Jorge March, os futuros médico e professor Adolfo March e o Edmundo March.

A agremiação manteve-se ativa entre os anos de 1881 e 1888, promovendo eventos que contavam com participação de grande público, majoritariamente gente de Niterói, especialmente do Barreto. A possibilidade de apostar, bem como a presença de uma banda de música, normalmente uma sociedade musical local, garantia a animação. As provas, para homens e mulheres, mesclavam corridas de diferentes distâncias e formatos com alguns jogos atléticos, como saltos.

Os competidores eram associados do Clube Atlético, ainda que, a partir de determinado momento, bastasse pagar uma taxa para qualquer interessado poder tomar parte nas contendas. Pelo pioneirismo, citemos os nomes das mulheres que mais usualmente disputaram provas, um envolvimento considerado um sinal de que a cidade progredia e passava a respeitar mais o novo protagonismo feminino: a já citada Julieta Couto; Amanda Peña, filha do comerciante e consul do Uruguai Eric Peña; a filha do maestro Oscar Guanabarino, Julieta Guanabarino.

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Cemitério do Maruí, Capela de São Pedro, 1918
Disponível: < https://www.facebook.com/OlharNictheroy/&gt;

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Os cronistas de Niterói costumeiramente saudaram as iniciativas do Clube Atlético, as considerando como contributos para a “educação física” da população, uma necessidade urbana relacionada às preocupações com a higiene e a saúde, sem as quais, no seu olhar, a capital não progrediria e superaria seu aspecto rural e colonial.

Além disso, seria uma feliz estratégia para combater o pernicioso ócio e ocupar, de forma adequada e produtiva, o tempo livre, como bem sugeriu o cronista Genesdio, o sempre atento Alfredo Azamor:

É com esses exercícios que se prepara uma geração de fortes e animosos cidadãos; é com esses clubes que se arrancam dezenas de jovens da ociosidade e do vício (…). Um abraço fraternal, pois, a esses moços que sabem atrair-se útil e honestamente, fortalecendo o corpo para revigorar o espírito. Parabéns a Niterói, parabéns ao Clube Atlético do Barreto (O Fluminense, 28 jul. 1882, p. 1).

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Anúncio do Clube Atlético Brasileiro
O Fluminense, 19 jun. 1885, p. 4

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Outro importante cronista, Luiz Fernandes, encarava as iniciativas como forma de combater o marasmo em Niterói. Para ele, uma cidade que aspirava consolidar-se como capital não podia ser tão rebelde a divertimentos, já que esses eram uma marca do desenvolvimento civilizacional. A seu ver, o esporte era uma diversão superior que poderia contribuir para forjar novos comportamentos da população niteroiense.

Para esse cronista, a grande contribuição da agremiação teria sido gestar um gosto pelos exercícios físicos, algo que estimulou a criação de dois outros clubes semelhantes. Um deles teve trajetória de curta duração e foi de menor alcance, ainda que não menos elogiado pelos periodistas. Dinamizado pelos alunos do Liceu Popular, o Clube Atlético Juvenil funcionou entre 1886 e 1888, sendo suas provas promovidas no Largo da Memória, atual Praça do Rink. A outra iniciativa causou maior impacto e deixou muitas marcas na memória de Niterói: o Clube Olímpico Guanabarense.

Isso é tema para outro post…ou para quem desejar ler o livro que, oxalá, logo estará disponível!

PS: Informações mais aprofundadas sobre o Clube Atlético Brasileiro em breve estarão disponíveis em um artigo aprovado na revista História da Educação (O espetáculo que educa o corpo: clubes atléticos na cidade de Niterói dos anos 1880).

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Dois Fluminenses em Niterói

02/11/2018

por Victor Andrade de Melo

Todo mundo conhece o Fluminense Futebol Clube, uma das primeiras agremiações do Rio de Janeiro a se dedicar ao velho esporte bretão. A cidade de Niterói, curiosamente, tem dois “Fluminenses” ainda vivos!

Esse post é parte do livro que estou escrevendo sobre o esporte na Cidade Sorriso. Compartilho um pedacinho dessas descobertas.

Vejamos a imagem abaixo.

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Remadores do Sport Club Fluminense, 1923
Disponível em: <https://www.facebook.com/OlharNictheroy/&gt;

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O Sport Club Fluminense foi fundado, em 1916, na Ponta D´Areia, na Avenida Visconde do Rio Branco (Rua da Praia).  Promovia suas regatas na parte do litoral conhecida como Praia Grande (de onde, inclusive, veio o primeiro nome que Niterói teve, em 1819: Vila Real da Praia Grande). Isso é, tratava-se de uma região que ficava à esquerda da atual estação das barcas (olhando do mar para o continente). O clube se encontrava perto do antigo Mercado de Peixe São Pedro, que avançava pelo mar.

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Antigo Mercado de São Pedro
Disponível em: <http://www.mercadodepeixesaopedro.com.br/index.php?page=historia&gt;

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Durante anos, aquela zona ficou conhecida como Praia do Esporte, em função das atividades da agremiação náutica (mas que também se dedicou ao futebol). No mapa abaixo, fica mais claro onde o clube se localizava.

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Em laranja, a região do Sport Club. Em azul, a Praia Grande. Em amarelo, a estação das barcas. Em vermelho, o que hoje é a UFF (construída num aterro; a oficina da Cantareira ainda está lá). Em lilás, a praça em frente ao campus, onde atualmente se encontra o restaurante Tio Coto, A Mineira e a Igreja de São Domingos, que está lá desde o século XIX. Seguindo um pouquinho em direção ao Forte de Gragoatá, marcado em rosa, o Clube de Regatas Gragoatá, criado em 1895.

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Difícil conceber essa paisagem nos dias de hoje em função de tantos aterros, mas os rastros da história são lindos. Vejamos a imagem abaixo, com as mesmas legendas acima.

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O Gragoatá e sua sede são mais conhecidos, mas o que pouca gente lembra é que a sede do Sport Club Fluminense continua de pé. Hoje é o Fluminense Natação e Regatas. Vejamos as imagens abaixo:

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Não confundir esse clube com Fluminense Atlético Clube, também fundado na década de 1910, conhecido como Fluminensinho de Niterói, localizado na Rua Xavier de Brito.

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Fachada do Fluminense Atlético Clube

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Em tempo, os clubes centenários de Niterói que se mantem vivo são:

Grupo de Regatas Gragoatá
Clube de Regatas de Icaraí (está mal das pernas, mas ainda está de pé)
Rio Cricket Associação Atlética (antigo Rio Cricket and Athletic Association)
Rio Yacht Clube (antigo Rio Sailling)
Iate Clube Brasileiro
Fluminense Natação e Regatas (antes Sport Club Fluminense)
Fluminense Atlético Clube (fundo como Rio Branco Futebol Clube)
Fonseca Atlético Clube
Canto do Rio Futebol Clube

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Como se pode ver, foi intensa a vida esportiva da Cidade Sorriso.

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Desenvolvimento do Esporte: na trilha do Lazer?

12/08/2018

Por Flávia Cruz (flacruz.santos@gmail.com)

No post anterior, meu primeiro aqui no História(s) do Sport, tentei apresentar, ainda que brevemente, indícios de que a industrialização não foi um elemento tão decisivo assim, para a configuração do esporte na cidade de São Paulo. Terminei compartilhando a seguinte pergunta: não haveria elementos mais importantes do que a industrialização, para o desenvolvimento dos esportes na capital paulista? Alguns indícios empíricos de pesquisa, me levam a suspeitar que sim.

Um desses indícios, está ligado à natureza do esporte no século XIX paulistano. Em pesquisa sobre a história do conceito de divertimento, realizada a partir da proposta da história conceitual do historiador alemão Reinhart Koselleck, uma prática que identifiquei como divertimento foi justamente o esporte. Não é que isso seja, exatamente e completamente, uma novidade. Inúmeros trabalhos de Victor Andrade de Melo[1] sobre o Rio já apontaram a indissociação entre esporte e diversão, quando dos seus primórdios. Sobre a cidade de São Paulo, Edivaldo Gois, em artigo, também já indicou tais imbricamentos, mesmo em momento posterior, já no século XX.

Mas o fato de o esporte ser uma das atividades englobadas pelo polissêmico conceito de divertimento, de ser buscado pelos paulistanos quando desejavam alegria, prazer, regozijo, de estar ao lado de práticas como os bailes, o teatro, a música, as zombarias, as touradas, os jogos, a leitura, compartilhando com elas sentimentos, expectativas e funções pode ser um indicativo de como se deu sua configuração. A novidade então, no Brasil, seria compreender o esporte, sua configuração e desenvolvimento na trilha de outras práticas culturais de divertimento.

Tendo em vista que o esporte foi a última prática cultural a chegar à cidade de São Paulo – das que identifiquei como divertimento até 1889 –, e que quando isso aconteceu outras práticas já gozavam de um desenvolvimento mais avançado, como as touradas, o teatro, a dança, não seria pertinente pensar que o esporte se desenvolveu na esteira dos divertimentos que o antecederam, que ele encontrou condições para a sua configuração graças a essas práticas?

Para dar um exemplo, vejamos o caso das touradas em São Paulo, estudado por Victor Melo e por mim e publicado em artigo. Tal divertimento acontecia na capital paulista desde o século 18, patrocinado pelo Estado. Durante o século 19, as touradas assumem novo formato, se tornam eventos empresariais. O Estado, ao invés de ter gastos com sua organização, como outrora, passou a obter receitas, tendo em vista o pagamento de impostos pelas empresas de tauromaquia para a realização dos espetáculos. Os empresários precisavam contratar profissionais, entre eles os toureiros, precisavam pedir licença à Câmara, adquirir gado, divulgar o evento, vender ingressos.

Esse último elemento, colocava uma nova exigência aos organizadores do espetáculo: agradar ao público. Sem isso, o negócio não prosperava, pois o público não comparecia e ainda reclamava, o que, por vezes, gerava incidentes. A necessidade de agradar ao público, fez com que os empresários lançassem mão, rotineiramente, de “novidades”. Eram mais ou menos o que chamaríamos hoje de estratégias mercadológicas. Se os touros ou toureiros não eram bons, a novidade era uma mulher toureira, ou números cômicos e musicais nos intervalos, a realização de sorteios, bem como a diversificação das técnicas de tourear.

Havia, constantemente, a tentativa de aperfeiçoar o espetáculo, de agradar ao público. Quanto maior a expertise do empresário, maior o sucesso das touradas. Em São Paulo o grande nome desse “gênero de divertimento” foi Francisco Pontes. Com passagem por cidades do Brasil e da Europa, esse empresário sabia adequar o espetáculo às exigências dos novos tempos. Instituiu uma diferenciação nos preços dos ingressos, criando o modelo “sol e sombra”, usava estratégias discursivas nos anúncios dos espetáculos, se ligava à causas de interesse público, sua trupe era competente, ele mesmo possuía muitas habilidades como toureiro. É um bom exemplo de empresário do ramo do entretenimento já no século XIX.

As mulheres eram presença frequente nos espetáculos tauromáquicos, como público. Mas foram também, em algumas ocasiões, toureiras e cavaleiras. Nomes como os de Maria de Aguiar Barbosa, Anna Angelica do Espírito Santo, Julia Rachel, Josephina Baggossi, figuraram nas arenas paulistanas, causando frenesi.

O que tento demonstrar com esse exemplo, é que os divertimentos anteriores ao esporte criaram não apenas uma certa ambiência para o desenvolvimento esportivo, mas condições concretas para que isso se desse. A estrutura organizacional, a exibição do corpo humano, inclusive o feminino, em exercício, a exposição ao perigo, a organização de arenas, as estratégias de mercado, são alguns dos elementos que as touradas desenvolveram ou ajudaram a desenvolver, e que podem ter sido aproveitadas pelo esporte para sua configuração. O teatro, a dança, a música, também podem ter oferecido contribuições ao esporte e à sua estruturação?

As questões bem como o raciocínio aqui apresentados tem algumas implicações. Significa e torna necessário pensar o esporte de modo menos autônomo, como uma prática que se desenvolveu em relação com outras, podendo, inclusive, ter se aproveitado de certas estruturas e elementos, desenvolvidos por essas outras práticas, para avançar.

[1] Alguns exemplos: MELO, Victor Andrade de. Esporte e lazer: conceitos – uma introdução histórica. Rio de Janeiro: Apicuri/Faperj, 2010. MELO, Victor Andrade de. O esporte como forma de lazer no Rio de Janeiro do século XIX e década inicial do XX. In: MARZANO, Andrea; MELO, Victor. (orgs.). Vida divertida: histórias do lazer no Rio de Janeiro (1830-1930). Rio de Janeiro: Apicuri, 2010.


Proezas Ginásticas no Rio de Janeiro do século XIX: aproximações de uma história corporal da história da cidade

18/03/2018

Por: Fabio Peres e Victor Melo[i]

Em posts anteriores tentamos argumentar que a ginástica – em suas diferentes conotações, formas e tipos – fazia parte da paisagem do Rio de Janeiro do século XIX.  

Mas algo que parece ser central, que constitui ainda um desafio pouco explorado no campo da História do Esporte no Brasil, é corpo per se  tomado como domínio ou objeto de investigação histórica.  

De forma provocativa, podemos dizer que, via de regra, a história das práticas corporais são pouco ou quase nada, com as devidas exceções, corporal.  

No nosso caso, por exemplo, devemos discutir melhor a possibilidade do papel das exibições de ginástica na gestação de um (talvez novo?) ethos corporal na cidade.

A ausência de tipos variados de fontes, sem dúvida, é um obstáculo. Mas será que não haveria formas de se aproximar, mesmo que de maneira ainda incipiente, das representações do corpo?

No decorrer do século XIX, circos que destacavam proezas ginásticas como uma atração se tornaram comuns e muito apreciados na cidade. Mesmo que essa “ginástica-espetáculo” não tivesse grande número de praticantes, sempre cativou um público ávido por novidades; ao que parece de distintos estratos sociais. Temos defendido, inclusive, que antes dos exercícios oferecidos em escolas e agremiações, ela ajudou a gestar uma sensibilidade pública para com a prática.

A especificidade desses espetáculos é que seu poder de sedução estava atrelado diretamente ao próprio corpo, o que incomodava alguns intelectuais, que desejavam anexar à ginástica uma base moral e sanitária.

Devemos lembrar que “a crítica aos exageros do desenvolvimento muscular por ele mesmo e ao funambulismo é ponto passível em todos os educadores que pensaram a educação física escolar nesse momento de transição da sociedade brasileira” (HEROLD JUNIOR, 2005, p. 247).

Para o público, todavia, essa não era uma preocupação. Mesmo quando cresceram as contestações, continuou sendo observável a influência circense nos mais distintos âmbitos.

Se a ginástica era uma das atrações de muitos espetáculos, que tipos de exercícios eram realizados?

Vejamos, por exemplo, a apresentação de Mr. Vally no “Pomposo espetáculo ginástico e dramático, para ser representado perante S. M. o Imperador, o Senhor D. Pedro II, a Augusta Família Imperial”, no Teatro Constitucional Fluminense, em abril de 1838. O “mestre de ginástica de Londres e de Paris” (O Despertador, 27/2/1839, p. 3) prometia executar “na coluna giratória, e nas duas colunas, os mais lindos e delicados exercícios ginásticos, forças, e posições acadêmicas” (O Despertador, 19/4/1838, p. 3).

cap.1.figura 5. O Despertador, 27.2.1839, p. 3.

O Despertador, 27/2/1839, p. 3.

Algumas dessas proezas se tornariam comuns não só nas exibições artísticas como também no cotidiano das sociedades ginásticas e clubes.

Era o caso de números como “A flor da ginástica”, a “Escada perigosa” e o “Salto do Niágara”, “de cujo desempenho deixa o espectador extasiado” (Correio Mercantil, 18/1/1863, p. 4). Em muitas outras ocasiões, os exercícios foram fartamente descritos, um belo retrato de como se organizava a ginástica naquela ocasião).

Vally tornou-se também modelo da Academia Imperial de Belas Artes, em função da sua compleição corporal e por executar as “mais elegantes Estátuas, tiradas da mitologia e da história antiga” (Ver Diário do Rio de Janeiro, 4/4/1839, p. 2.). Vale o registro de como um novo padrão de corpo começava a circular e ser apreciado na cidade, antecipando um movimento que se tornará mais perceptível no quartel final do século XIX e começo do XX (MELO, 2011).

Nos circos melhor constituídos, a ginástica dividia espaço com as atividades equestres e dramáticas, ainda que seja difícil precisar exatamente os limites de cada termo.

Em março de 1840, por exemplo, promoveu um espetáculo João Bernabó, que trabalhara com Chiarini e tinha parcerias constantes com E. G. Mead. Suas apresentações ocorreram em um curro de propriedade de Manoel Luiz Alves de Carvalho, situado no Campo de São Cristóvão, onde também seriam organizadas corridas de touros. A imagem do anúncio, uma parada de mão realizada em um cavalo em movimento, nos permite ver o quanto os exercícios equestres e ginásticos se mesclavam.

cap.1.Imagem6

Diário do Rio de Janeiro, 16/5/1840, p. 3.

Outros detalhes conseguimos saber na atuação da Companhia do francês Fouraux, que se apresentou, em 1852, no mesmo Circo Olympico. Na programação das funções de fevereiro, num rol de 11 atividades divididas em duas partes, cinco referem-se a exercícios de equilíbrios, entre os quais “a luta ginástica, e vários saltos perigosos por cima de seis cavalos, executada por todos os artistas da companhia”, e “exercícios ginásticos e salto dos duplos toneis” (Correio Mercantil, 12/2/1852, p. 4).

Uma informação merece ser destacada no que tange à atuação dessa companhia: “O Sr. Fouraux tem a honra de prevenir o público que dá lições de equitação” (ibid.). Na realidade, vários foram os profissionais que trabalharam nos dois âmbitos, no espetáculo e no ensino, importante indício de que houve um trânsito de informações e referências.

Vejamos outro exemplo. Ao comentar a performance de Neal e Rogers, do Circo Grande Oceano, um cronista lembra que muitos amadores buscavam os ginásios para se exercitarem, e que as atividades acrobáticas eram as mais difíceis e apreciadas. Informa que os dois artistas dirigiam uma escola de ginástica própria, além de encantarem por sua exibição:

Uma vez são as provas de uma força hercúlea o que admira a todos, outra a flexibilidade dos seus corpo, como se fossem de borracha, os graciosos movimentos, as transformações incríveis, as posições incompreensíveis (Correio Mercantil, 24/6/1862, p. 4),

Nas exibições ginásticas utilizavam-se implementos diversos: camas elásticas, cordas, pórticos, barras e trapézios, material que também seria adotado em escolas e clubes. Força, equilíbrio, flexibilidade, agilidade eram valências físicas mobilizadas. Coragem e ousadia eram valores destacados. O risco era a dimensão mais comumente exaltada, tida como importante fator de atração de “um público que sabe reconhecer o quanto custa um trabalho cheio de perigos, pela incerteza que há nesta arte”.

cap.1.Imagem2

Correio Mercantil, 22/1/1860, p. 4

Vejamos essa longa descrição de um cronista sobre as sensações causadas pelo espetáculo de dois ginastas no Politeama Fluminense:

Todos os corações como que deixam de palpitar; o sangue gela-se nas veias; o sistema nervoso sofre violentas impressões e das mãos frias do espectador dessora uma transpiração gélida e incomoda. Só volta o coração a sua regular oscilação de pêndulo da vida, e o calor se espalha pelo corpo, quando os dois artistas terminaram aquele perigosíssimo exercício. Então as mãos aplaudem freneticamente e o entusiasmo transborda em todos os peitos (Gazeta da Tarde, 30/7/1881, p. 2).

Essas impressões mobilizaram a cidade de tal maneira que chegaram a ser desencadeadas iniciativas de controle por parte das autoridades:

O Sr. Desembargador chefe de polícia expediu circular aos subdelegados determinando que obriguem os empresários de circos ginásticos a usar redes e outros aparelhos de salvação, próprios para guardarem a vida dos artistas que se arriscam em tais trabalhos (O Globo, 1/9/1877, p. 2).

De fato, eventualmente vemos pelos jornais algum incidente, em número bem menor do que fazia crer as propagandas dos circos, que exageravam para atrair o público. Vejamos a notícia de um acidente: “No espetáculo da tarde de ontem no circo Grande Oceano, teve lugar um deplorável acontecimento. O Sr. Julius Buislay teve a infelicidade de cair de um dos trapézios da altura de 30 pés, ficando com o braço direito fraturado em duas partes” (A Atualidade, 13/7/1863, p. 3). Essas ocasiões, de alguma forma, ajudavam a reforçar a ideia de que aquela atividade era mesmo perigosa. Curiosamente, uma das companhias em que mais incidentes foram registrados foi a do Teatro-Circo, que se apresentava como a “nec plus ultra da ginástica”, isso é, “a que não pode ser ultrapassada”. De fato, suas apresentações eram marcadas por números muito arriscados, chamando muito a atenção do público.

Desafiar e superar as condições naturais eram claramente dimensões mobilizadas nos espetáculos, intencionalidades que vão marcar, seja qual for o teor do discurso, a prática da ginástica na Corte. Isso por vezes era mais sutil, por outras era explícito. Vejamos como se anuncia a apresentação de Jeronymo Lauriano da Costa, que sem os braços executava várias proezas somente com os pés: “Prodígio e aborto da natureza” (Correio Mercantil, 5/2/1860, p. 4).

Uma vez mais o circo refletia um dos dramas da modernidade. Era possível superar os limites divinos por um processo de produção racional de conhecimento. Doenças podiam ser superadas pela medicina. Pontes superavam obstáculos naturais. As técnicas permitiam aos homens “flutuar”. A ginástica dos circos transitava por padrões de racionalidade tanto quanto a dos médicos. A diferença era a especificidade do diálogo.

As proezas ganhavam diferentes definições, tais como: “Grandes volteios aéreos, e saltos por cima das tiras, executados pela Sra. Varin”; “Diferentes exercícios de equilíbrio e força, pelo Sr. Francisco”; “Trabalho grotesco de elevações, passando por cima de diferentes objetos e pipas, executados pelo Sr. Joanny Fouraux” (Correio Mercantil, 11/3/1852, p. 4). Da mesma forma, muitas eram as denominações utilizadas: salto ginástico, salto aéreo, elevações ginásticas, volteios ginásticos.

Um exercício muito conhecido era assim descrito: “As argolas volantes, ou os suplícios romanos, trabalho de forças e grande dificuldade, executado pelo Sr. Francisco” (Correio Mercantil, 16/5/1852, p. 4). Voos e saltos eram muito valorizados. Por exemplo, a “Grande luta ginástica e acadêmica” tratava-se da execução de “saltos mortais em diferentes sentidos, por cima de muitos cavalos” (Correio Mercantil, 24/6/1852, p. 4.)

Em muitas ocasiões relacionavam-se as cenas a feitos “históricos” (como “O grego heroico em combate com o mouro rebelde”), “primitivos” (como “o selvagem do norte no exercício da caça) ou “exóticos” (como “a carreira rápida do volteador chinês” e “a carreira veloz da sílfide”). Todas essas atrações integraram a programação do Circo Olympico de 27 de maio de 1860 (Correio Mercantil, 27/5/1860, p. 4).

No decorrer do século XIX vários sentidos se cruzavam ao redor da palavra “gymnastica”, bem como diversos termos tocavam em dimensões que se relacionavam com a prática, tais como “exercício”, “athleta”, “lucta”. Não surpreende, assim, que alguns circos tenham abrigado atividades correlatas.

Por exemplo, em dezembro de 1856, o Circo da Guarda Velha anuncia a realização de “Grande luta de assalto” (Correio Mercantil, 19/12/1856, p. 4), da qual participariam “jovens atletas desta capital”. Tratava-se de uma eliminatória: ao fim do dia sairia o campeão. Os promotores, Duffaud e Hyppolite, não somente convidavam a tomar parte “os amadores destas partidas de ginástica”, como anunciam que “dão lições particulares da luta Chausson, ou de pés e pugilato, ou de socos, etc”.

Enfim, como já apontamos em outras ocasiões, parecia mesmo onipresente no Rio do século XIX, inclusive corporalmente, nossa estimada ginástica.

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[i] Parte deste texto foi publicado originalmente em MELO, Victor Andrade de; PERES, Fabio de Faria. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7Letras/Faperj, 2014. (Coleção Visão de Campo)


Esporte em São Paulo

12/03/2018

Por Flávia da Cruz Santos (flacruz.santos@gmail.com)

Cidade atualmente instigante, sobre a qual abundam estudos que tratam de sua contemporaneidade, São Paulo tem seu passado mal conhecido quando o tema são os divertimentos em geral e os divertimentos esportivos, mais especificamente. Uma das maiores potencias esportivas nacionais, a capital paulista tem os primórdios de seus esportes quase desconhecidos.

Soa estranha tal afirmação, que pode ser facilmente contestada com o argumento de que existem sim estudos, não muitos, sobre os esportes na capital paulista na transição dos séculos 19 e 20, momento tido com inicial na configuração do campo esportivo brasileiro. Algumas questões, no entanto, são: os indícios que nos ajudariam a compreender tal fenômeno não estariam presentes na cidade desde momentos anteriores? Não valeria a pena estudá-los? Porque toma-se como certa a ideia de que não há esporte em São Paulo antes dessa data?

Parte da resposta a essas questões, reside no fato de que a industrialização, tida como sinônimo de modernidade, é considerada condição para a configuração do campo esportivo (tema abordado no post anterior, por Rafael Fortes). Como antes da virada do século, a industrialização em São Paulo era insipiente, não se fala, ou pouco se fala, em esporte antes desse momento.

Mais do que uma cidade de industrialização insipiente, a fama da São Paulo oitocentista não é nada boa, e tão pouco demostra qualquer continuidade com o que sabemos da cidade que nos é contemporânea. Ao contrário, nos faz pensar que se trata mesmo de outra cidade:

Daqui a cinco minutos podemos estar à vista da cidade. Há de vê-la desenhando no céu suas torres escuras e seus casebres tão pretos de noite como de dia, iluminada, mas sombria como uma eça de enterro.

(…)

Demais, essa terra é devassa como uma cidade, insípida como uma vila, e pobre como uma aldeia. Se não estás reduzido a dar-te ao pagode, a suicidar-te de spleen[1], ou alumiar-te o rolo, não entres lá. É a monotonia do tédio. Até as calçadas![2]

Muitos são aqueles que viveram a São Paulo daquele tempo, ou que ao menos lá estiveram, e que nos deixaram relatos sombrios como este, de Álvares de Azevedo, importante nome da dramaturgia paulistana. Exemplos muito conhecidos e usados na historiografia são os relatos de viajantes como os alemães Spix, Martius e Rugendas, os franceses Alcide D’Orbigny e Saint-Hilaire, e o inglês Jonh Mawe. Informados por certos valores e sentimentos, eles possuíam compreensão nada positiva da cidade. Compreensão essa que se disseminou pelos estudos que focalizam tal contexto.

Essa São Paulo não convida o historiador do esporte a investigá-la, não é nem um pouco atraente ou condizente com o que se espera de uma cidade em que há esporte. E aqui outra questão: não deveríamos desconfiar dessa versão, desconfiar que a atual, e já há algum tempo, fervilhante cidade possa ter sido forjada, de repente, em um curto espaço de tempo?

Soma-se a essa compreensão de São Paulo e ao pressuposto da industrialização, o fato de que é em 1875 que surgem agremiações esportivas na cidade, como o Jockey Club e o São Paulo Críquete Clube, e que no ano seguinte foi inaugurado o primeiro hipódromo paulistano. Daí para frente as novidades esportivas não param.

Antes disso, no entanto, numa São Paulo que ainda construía as condições para sua industrialização, os divertimentos esportivos já estavam presentes. Em 1864 já se jogava críquete numa chácara no Campo Redondo[3]. No ano da chegada das ferrovias, 1868, por exemplo, foi constituído um clube de tiro, sobre o qual pouco se sabe. Ele destinava-se à prática do tiro com pistola ao alvo, que era tido como “um novo e útil exercício”[4]. As regatas também já faziam parte do cotidiano da cidade a essa altura, ainda que desenvolvidas no porto de Santos, para onde grande quantidade de paulistanos se dirigia.

Não haveria, então, elementos mais importantes do que a industrialização para o desenvolvimento dos esportes na capital paulista? Não seria tal capital mais dinâmica do que se costuma apregoar? Convido o/a leitor/a, nesse primeiro momento, a me ajudar a pensar na pertinência dessas questões.

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[1] Spleen foi termo difundido por Charles Baudelaire, e significa um estado de desencanto e melancolia, que resulta em apatia e indiferença e pode levar à transgressão e perversão. Caracteriza o ser romântico (ANFORA, pp. 13-15).

[2] AZEVEDO, Álvares de.  Macário. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988. Disponível em: <http://www.aliteratura.kit.net&gt;. Acesso em: 11 dez. 2014, grifo no original.

[3] Correio Paulistano, 6 de setembro de 1864, p. 2.

[4] Correio Paulistano, 1 de abril de 1868, p. 1.

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Esporte e industrialização

08/03/2018

Por Rafael Fortes (raffortes@hotmail.com)

Esta semana, discutimos no Laboratório Sport o capítulo “Industrialization and Sport”, de Wray Vamplew, professor emérito de Estudos do Esporte na University of Stirling. O texto integra o volume The Oxford Handbook of Sports History, organizado por Robert Edelman (University of California, San Diego) e Wayne Wilson (LA84 Foundation) e publicado em 2017. Trata-se de um ensaio que realiza um balanço bibliográfico da produção acadêmica em inglês sobre os temas mencionados no título, com ênfase nos EUA e na Grã-Bretanha.

Como destacou Luiz Carlos Sant’ana, o texto relativiza algumas relações que costumam ser tomadas como dadas nos estudos (históricos) do esporte. Por exemplo, as imbricações entre: a) esporte moderno e industrialização; b) disseminação do esporte e o espraiamento do império britânico no mundo. O fato de o autor ser um historiador econômico lhe permite lançar um olhar muito interessante e ainda pouco presente na maioria dos trabalhos de história do esporte – que, no Brasil, tem muito mais influência das histórias cultural e social (mais da primeira do que da segunda), conforme ressaltou Victor Melo.

A julgar por este capítulo, seria muito bom que o volume fosse logo traduzido e publicado no Brasil.

De minha parte, o que motivou estas breves notas foi considerar que o ensaio de Vamplew traz ao menos cinco contribuições para questionar/problematizar certos discursos e pressupostos sobre o esporte que persistem em alguns trabalhos sobre o tema na área de Comunicação – mas não só nela. O olhar de historiador econômico lhe dá elementos (e dados/conhecimento) para trabalhar por fora de categorias que são tomadas como dadas/estruturais quando, como alguns na Comunicação, se observa o plano das representações midiáticas como algo autônomo ou descolado em relação à vida concreta dos indivíduos, grupos, classes sociais e sociedades.

Eis as cinco contribuições:

1) As diferenças que existem entre um time, clube e/ou empresa esportiva e uma empresa comum.

2) A relação simbiótica de natureza diversificada – inclusive comercial – entre mídia e esporte desde, pelo menos, o finzinho do século XVIII (o texto fala de uma revista especializada publicada desde 1792!). Naquele momento, isto se restringia aos impressos (não custa lembrar: rádio, televisão e outros são invenções posteriores).

3) A fabricação de equipamentos para algumas modalidades atingiu graus de industrialização e comercialização em massa já no século XIX.

4) Dos pontos de vista comercial, econômico e profissional, há diferenças entre o modelo de organização em torno de clubes (Grã-Bretanha) e de franquias com proprietários (Estados Unidos).

5) Houve atletas recebendo para competir e obtendo recursos oriundos de fontes diversas antes mesmo da industrialização. A dicotomia amadorismo versus profissionalismo, muito presente nas primeiras décadas do século XX, dá conta de apenas uma parte das múltiplas e complexas relações entre esporte, mercado de entretenimento, lucro, trabalho e circulação de dinheiro.


Machado de Assis, João do Rio, Olavo Bilac e os novos padrões corporais no Rio de Janeiro da transição dos séculos XIX e XX

17/11/2017

Por Victor Andrade de Melo

Março de 1871 (no tempo da ficção, já que a obra foi escrita nos anos finais do século XIX). Bentinho e Capitu uma vez mais deixam sua casa na Glória para jantar na residência de Escobar e Sancha, na Praia do Flamengo. Em certo momento da noite, na janela a ouvir o barulho do mar em ressaca (como os olhos de Capitu, conforme sugeria o protagonista), perdido em pensamentos, Bentinho percebe o amigo se aproximar:

– O mar amanhã está de desafiar a gente, disse-me a voz de Escobar, ao pé de mim.
– Você entra no mar amanhã?
– Tenho entrado com mares maiores, muito maiores. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter estes pulmões disse ele batendo no peito, e estes braços; apalpa.

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Banhistas na Praia do Flamengo/década de 1910

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Bentinho assume que, a princípio, em Sancha lembrou quando apalpou o braço de Escobar. Todavia, logo uma sensação constrangedora lhe acometeu: “achei-os mais grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; acresce que sabiam nadar”. No retorno à Glória, inebriado pelo forte ruído do oceano, Bentinho se dá conta do incômodo que lhe causava a figura de Escobar, materializado numa fotografia que possuía em casa.

Entre tantas leituras possíveis, podemos ver em Dom Casmurro um embate entre modelos de masculinidade. Machado de Assis, na composição de seu personagem “másculo”, o destaca, entre outras características, pela compleição muscular e pelo hábito de praticar um esporte. O comerciante e empreendedor Escobar enfrenta mares bravios com seus bons pulmões e braços fortes. Morre não por covardia, mas sim por ousadia. Bentinho, ao contrário, toma ciência de sua fraqueza e inveja o amigo: sabe-se débil em muitos sentidos.

Podemos também considerar que se trata de uma dramatização de um embate entre o homem da tradição bacharelesca, que só se dedica às coisas da “mente” e do “espírito”, e o novo burguês, que expressa com seu corpo os comportamentos e posturas que marcam uma personalidade disposta a aceitar desafios. Enfrentar o oceano com seus próprios braços é um sinal definidor do perfil desse homem.

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Remadores na Praia do Flamengo/Década de 1920

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O que bem capta Machado de Assis são as mudanças de perfil e de padrão de exposição corporal na cena fluminense das últimas décadas do século XIX, tão bem definidas por João do Rio alguns anos mais tarde. No início do século XX, ele sugeriu que “Fazer esporte há 20 anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça, quando um dos meninos arranjava um altere. Estava perdido. Rapaz sem um pincenez, sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era um homem estragado”. A contrário disso, na virada de centúrias, segundo seu olhar,

Rapazes discutiam “muque” em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta fina e a perna nervosa e a musculatura herculeana dos braços. Era o delírio do rowing, era a paixão dos esportes. Os dias de regatas tornavam-se acontecimentos urbanos.

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Regata na Enseada de Botafogo/1ª década do século XX

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Não que o esporte fosse uma novidade na cidade. Desde a primeira metade do século XIX, diversas modalidades já vinham se estruturando, em conjunto com outras práticas corporais (ginástica, dança, patinação), expressões da valorização crescente de uma vida pública, materializada, inclusive, pela conformação progressiva de um mercado ao redor dos entretenimentos.

Naquela transição de séculos, contudo, no quadro de um Rio de Janeiro em mudanças, no qual se percebe ainda maior adesão ao ideário e imaginário da modernidade, bem como fortalecimento das relações com parâmetros simbólicos do continente europeu, as atividades físicas deixaram de ser uma exceção, venceram resistências culturais e, incorporando preocupações com a saúde e higiene, tornaram-se valorizadas por um significativo estrato da população, consideradas mesmo como um modelo de um novo padrão de vida que deveria se desejar para que o país pudesse progredir.

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Remadores do Clube Boqueirão do Passeio

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Os homens, como bem observa Luiz Edmundo, “já começam a mostrar corpos rijos e bem desenhados de músculos, muito orgulhosos de suas linhas, exibindo-se em calções, mas dos longos, dos que vão abaixo da linha do joelho” (1957, p. 840). Os remadores se tornam um exemplo.

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Remadores do Vasco da Gama

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O remo era representado como o esporte do “exercício physico”, termo-chave sempre usado pelos que defendiam e propagavam os benefícios dessa prática. Era encarado como o esporte da saúde; do desafio, contra o outro e contra o mar, que educa o músculo e a moral. Seria supostamente uma prática adequada para forjar uma juventude altiva, forte e com “liberdade de espírito” suficiente para conduzir a nação ao progresso necessário.

Olavo Bilac, ardoroso defensor do progresso e da modernização do país, celebrava:

Essa geração, que está se educando no mar, face a face com o perigo, criando a energia muscular e energia moral, já é mais bela, mais forte, mais nobre do que a minha. Os adolescentes de hoje já não são como os de ontem, magros e tristes, macambúzios e histéricos, criados entre o rigor do carrancismo paterno e a brutalidade dos mestres boçais, entre sustos e palmadas, sem exercício físico e sem liberdade de espírito (…) os meninos de hoje já são bravos como homens.

Assim, sempre que se falava dos atletas de remo, procurava-se destacar suas formas físicas, sua vigorosidade, sua “saúde”. O remador campeão brasileiro de 1903 era apresentado física e moralmente como uma figura próxima da perfeição: “Arthur Amendoa, é de estatura mediana, moreno, bela estatura, bela complexão de atleta, bastante musculoso, dotado de muito bom gênio e no trato é cortes; excelente companheiro e amigo leal”. As fotos de remadores exibem para o grande público a nova formação corporal que melhor expressava o que se esperava dos novos tempos.

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Remadores do Clube de Regatas Gragoatá

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Para mais informações

MELO, Victor Andrade de Melo. Cidade sportiva. Rio de Janeiro: Relume Dumará/Faperj, 2001.

MELO, Victor Andrade de Melo. Corpos, bicicletas e automóveis: outros esportes na transição dos séculos XIX e XX. In: PRIORE, Mary del, MELO, Victor Andrade de (org.). História do esporte no Brasil: do Império aos dias atuais. São Paulo: Editora Unesp, 2009. p. 70-106.

MELO, Victor Andrade de Melo. O corpo esportivo nas searas tupiniquins – um panorama histórico. In: PRIORE, Mary del, AMANTINO, Marcia. (orgs.). História do corpo no Brasil. São Paulo: Editora da Unesp, 2011. p. 123-145.

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