A história do esporte gaúcho: um caso único

23/09/2017

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

A história do esporte do Rio Grande do Sul apresenta uma série de peculiaridades que o tornam caso singular no Brasil. O estado mais austral do país, devido a fatores diferenciados como as suas características geográficas, sua relação e integração com a fronteira nacional, além de uma formação étnica singular, o tornam distinto. É fácil visualizar diferentes percepções e uma relação única entre a tradição e a inovação. No extremo sul do Brasil o novo e o tradicional se fundem, se acomodam e se integram de maneira diferenciada em relação ao resto do país. Foi esta mescla que formou o esporte gaúcho, sempre aliando o moderno ao conservador e o caracterizando de maneira original.

Para exemplificarmos estas questões basta fazermos uma simples análise e uma comparação que pode parecer, inicialmente, um tanto desconexa: e relação entre as touradas e o turfe praticado em Porto Alegre no século XIX com a construção da Arena do Grêmio, inaugurada no final de 2012.

No caso das touradas, a relação dos circos de touros com os gaúchos era especial. Basta dizer que as mesmas companhias tauromachicas que se apresentavam por todo o Brasil e pelos países do Rio da Prata, também excursionavam por Porto Alegre e pelas principais cidades do estado. No entanto, para atrair o público sulista, atrações diferenciadas eram oferecidas. “Touritos” eram ofertados para as crianças brincarem, assim como autênticos “campeiros” disputavam a bravura com os artistas portugueses e espanhóis frente aos touros. Uma postura totalmente diferente do que acontecia, por exemplo, no Rio de Janeiro, capital imperial até 1889, onde as touradas eram vistas como praticas que beiravam a barbárie. No Rio Grande do Sul, nada mais era que um divertimento que trazia o cotidiano campeiro para a cidade e entretinha o povo urbano.

Da mesma forma, o turfe dividia opiniões. Se, por um lado, a prática do esporte inglês em substituição às consideradas “selvagens” carreiras de cancha reta exigia novos modos, técnicas, regras e ambientes que o tornasse cada vez mais próximo ao que era desenvolvido no velho continente, havia, também, muitos representantes que eram partidários, pelo menos em parte, às velhas disputas, obsoletas aos mais progressistas. Os cavalos puro sangue ingleses, representantes da mais refinada raça de acordo com os europeus, ficariam ainda melhores se cruzados com os equinos crioulos, diziam os periódicos porto alegrenses de grande circulação da época. Os jockeys britânicos possuíam eficientes técnicas, mas não se comparavam aos “centauros dos pampas”, como eram chamados os cavaleiros gaúchos. Cavalos mestiços, jockeys de bombacha e categorias diferenciadas fizeram do turfe gaúcho oitocentista outro caso especial. Enquanto em São Paulo e Rio de Janeiro, centros econômicos e políticos do Brasil, o discurso era favorável a cópia da prática britânica, nos hipódromos do Rio Grande do Sul os cavalos crioulos e seus ginetes eram celebrados.

Chegando ao século XXI, temos outro exemplo desta peculiar relação do Rio Grande do Sul com a tradição e a inovação nos esportes. Foi inaugurado no dia 8 de dezembro de 2012 um moderno estádio multiuso chamado de Arena do Grêmio em substituição ao defasado Estádio Olímpico Monumental que servia de casa ao time do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense desde 1954. Mesmo sendo um dos mais avançados e modernos palcos para o futebol do Brasil e seguindo as mais exigentes tendências mundiais, o clube decidiu não instalar cadeiras na parte inferior do setor norte, devido a uma reivindicação de parte da torcida. Esta gostaria de se manter fiel a antiga tradição de torcer em arquibancadas e não em cadeiras. Desta forma, a Arena do Grêmio se mostra como mais um exemplo onde o inovador se mescla com o tradicional no esporte do Rio Grande do Sul. Enquanto que vários modernos estádios são construídos pelo mundo, Porto Alegre o faz de maneira excêntrica, aliando tendências contemporâneas com as rústicas arquibancadas.

De fato, a história do esporte no Rio Grande do Sul é peculiar. Sendo nos circos de touros, nos hipódromos ou nos estádios de futebol, os gaúchos tem uma maneira diferenciada de tratar com as renovações. A modernidade gaúcha tem essas especificidades. Adaptações, negociações, acomodações fazem do esporte do Rio Grande do Sul um caso à parte. Se no Brasil e no mundo os esportes se popularizaram, ganharam no extremo sul do país a marca gaúcha.

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A GINÁSTICA COMO PRÁTICA EDUCATIVA NA BAHIA (1850-1920)

17/07/2017

Aline Gomes Machado

O século XIX, no Brasil, representou um momento de mudanças significativas nos diversos setores. Via-se a efervescência de uma busca pela modernização do país. Civilização e modernidade se convertiam, neste momento, em palavras de ordem; virando instrumento de batalhas, além de fotografias de um ideal alentado.

 A Bahia, como a antiga capital do país, não ficou de fora desse processo. Também ela viu fervilhar o desejo pela modernidade, por novos ares, modos de vida, novos comportamentos e hábitos, inclusive, os de saúde e higiene.

Sabemos que a essa época, Salvador era uma cidade sem nenhum tipo de cuidado com o esgoto, estava sempre suscetível a moléstias infectocontagiosas, que atacavam sua população. Especialmente, a camada negra e pobre era a mais massacrada pelas epidemias que tomavam a cidade, já que era mais exposta às situações de risco sanitário.

Muito em função disso e por possuir em suas terras, uma escola médica, tida como um cenário de ciência, um dos discursos de modernização na Bahia assentou-se no pressuposto de que o saber científico possuía uma proposição especial para promover o desenvolvimento.

Dessa forma, a ciência tornou-se fundamental, por, pretensamente, apresentar caminhos objetivos para solucionar os problemas sociais, especialmente a ciência médica. Sendo assim, vimos que a camada ‘letrada, científica e lógica’, apoiada nos poderes políticos, dirigiu diretamente o projeto de modernidade, inclusive o baiano, justo por conta do papel de destaque dado ao conhecimento científico.

Assim, na Bahia, pautados nos pressupostos higienistas, os senhores da ciência constatavam as mazelas e indicavam os meios para se atingir os objetivos de uma melhor higiene, como podemos perceber no Relatório do Conselho Interino de 1856, elaborado pelo secretário da Commissão de Hygiene Publica, Dr. Malaquias Avares dos Santos:

Nas demais comarcas existem também muitas causas de insalubridade, como sejam mais geralmente habitações húmidas, e mal arejadas, alimentação irregular e de má qualidade, pântanos de todos os gêneros, e nenhum apuro na educação physica; ao que demais se ajunctam muitos vicios na educação.” moral e intelectual dos habitantes, o que se encontra ainda n’esta capital e mormente, nos seus suburbios.

O discurso médico figurou no movimento de modernidade baiano, articulando o progresso, a necessidade de higiene. A exemplo disso temos a fala de Mathias de Campos Velho, na tese apresentada para conclusão do curso de medicina na Faculdade de Medicina da Bahia em 1886, aonde afirma que a higiene:

esta quasi sempre em razão directa com a civilização de um povo e constitue fonte de riqueza, porque concede dous thesouros preciosos, a saude e a ordem (p.70) e, neste sentido diz, também, que o homem civilisado tem sempre em vista: a hygiene geral (p.67).

Dentre as estratégias elaboradas para atingir a higiene necessária, os higienistas reconheciam a importância de uma educação que se enquadrasse nos objetivos desse movimento. Objetivos esses que não se restringiam ao controle das variáveis físicas, biológicas, mas também buscavam uma retidão moral, uma disciplinarização necessária para atender as demandas sociais da época. Assim, os higienistas indicavam quais medidas deveriam ser tomadas pela população e governo, inclusive nas instituições escolares.

Contando com o apoio de articulistas, os higienistas apontavam como elemento basilar para formar o homem higiênico, o cuidado com o corpo, onde a prática de atividades físicas possuía fundamental importância. Dentre eles, a ginástica aparecia como a prática dileta.

Sabemos que a ginástica, como uma prática educativa, era tratada como algo que atuaria na formação de novos corpos e mentes, tida como uma extensão dos poderes e saberes gerados pela higiene, ganhando assim, a defesa de médicos e articulistas que se encarregavam de garantir os porquês da importância dessa atividade, não apenas fundamentando os benefícios corporais, mas também para formação moral do ‘homem vigoroso’.

Como justificativas a este apoio a uma nova ação ‘educativa’, a ginástica, encontramos nos jornais baianos questionamentos, inclusive, sobre a forma como os mais ricos educavam seus filhos. O Correio Mercantil (02 de junho de 1838, p.02) apontava que “os mimos e branduras com que as pessoas mais ricas e poderosas custumão criar os filhos os fazem commummente aleminados e de débil compleição”, e coloca a ginástica “com o exercício acertado” como corretiva desta situação, e segue garantindo que “a gymnastica, porém, nas cidades he absolutamente precisa, não para formar arlequins, como o para cuidado, mas para educar homens vigorosos”.

Por conta de pensamentos como esse, os discursos voltaram-se, então para a prática da ginástica como instrumento capaz de fornecer os idealizados objetivos dessa sociedade modernizada, civilizada e higiênica.

A partir da influência de um saber científico, os propósitos conferidos à prática metódica se tornaram mais expressivos com o passar do século XIX, demarcando que a ginástica valorizada era aquela cujos princípios básicos seriam a disciplina, a saúde e a higiene, distanciando-a de uma prática mais livre e expressiva. Era preciso uma ‘ginástica científica’ que se enquadrasse nos ideais modernizadores e higiênicos, que apresentasse caminhos para resolver as mazelas sociais que se circundavam todo país.

Nesse sentido, o Brasil e a Bahia, sob o prisma do higienismo, esforçando-se para acompanhar o desenvolvimento dos países modernos do continente europeu, adotavam muitas de suas práticas culturais e educacionais como símbolos de modernidade. Se na Europa a ginástica era parte da educação oferecida pelos principais colégios, aqui, ela seria utilizada num sentido semelhante.

A tese Hygiene Pedagogica, de Umbelino Heraclio Muniz Marques, apresentada a Faculdade de Medicina da Bahia, procurou demonstrar como uma educação higiênica, digamos assim, seria o símbolo de uma modernidade

A higiene pedagógica, que aliás age decisivamente sobre o desenvolvimento da creança, e sobre a conservação de sua saude, ainda nos paizes, mais adiantados deixa muito a desejar…(1886, p.01).

O mesmo Umbelino ainda afirma como uma educação higiênica “adapta todas as potencias physycas, intellectuaes e moraes de cada individuo á função plena do papel que lhe esteja destinado desempenhar na coletividade” (p.02). Perceba como a preocupação está centrada em tornar harmônica esta tríade das faculdades humanas para que o sujeito possa desempenhar seu papel sem alterar a ordem social desejada, que neste caso é a ordem para o progresso, a modernização.

Desta forma, nesse momento aqui tratado, vimos, na Bahia, um movimento que visou, sobretudo, civilizar os costumes, moralizar as condutas e moldar comportamentos e corpos para alicerçar as bases da sociedade higiênica e moderna. Este movimento configurou as principais estratégias do projeto higienista. Essa foi à intenção e motivação, agora saber como se deu e mesmo se alcançou tal objetivo, fica para outros escritos.

 


Uma festa de atiradores em Santa Cruz do Sul/RS

29/04/2017

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

A colônia de Santa Cruz, distante 150 km de Porto Alegre, foi fundada em 1849 e elevada a município em 1877. Ela foi um dos principais destinos de milhares de imigrantes de origem germânica que tinham o Brasil como objetivo. Esta especificidade marcou fortemente a cidade que rapidamente se desenvolveu e se tornou um dos principais municípios do Rio Grande do Sul. Em Santa Cruz do Sul as características culturais alemãs se mantiveram vivas, se fundindo e se miscigenando às demais etnias que formaram o povo gaúcho. Nesta região de forte influência germânica os sul-rio-grandenses adquiriram hábitos peculiares que traduzem este marcado hibridismo.

Uma das peculiaridades dos imigrantes germânicos que desembarcavam no Rio Grande do Sul nos séculos XIX e XX era a sua organização em associações culturais e esportivas nos locais onde se reuniam. Em Santa Cruz do Sul não foi diferente. Aliás, foi o município precursor com a primeira associação esportiva destinada ao tiro ao alvo do Rio Grande do Sul, fundada em 1863 e denominada Schützengilde, que significa “corporação de atiradores”.

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Praticamente em todos os centros de imigração alemã existiam clubes de tiro. No entanto, o município se tornou uma referência desta prática. Em 1924, havia pelo menos 81 sociedades de atiradores nas áreas de colonização germânica no Rio Grande do Sul, dentre as quais 30 sediadas no município de Santa Cruz do Sul. Estas associações tinham como objetivo a diversão e a educação. Os clubes de tiro (Schiessklub) ou sociedade de atiradores (Schützverein) eram locais privilegiados e palcos de integração entre os moradores dos municípios.

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Atiradores da Deutscher Schützenverein (Sociedade Alemã de Atiradores) Sinimbu, 1887,
(antigo distrito de Santa Cruz do Sul).

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Nas associações de tiro (Schützenverein) se praticava, assim como nos clubes de caça europeus, o tiro ao alvo, que buscava identificar o melhor atirador entre todos os participantes. As competições de tiro são, portanto, derivadas da prática da caça, necessária a sobrevivência em remotas épocas, assim como são derivadas dos treinamentos militares, responsáveis por preparar os homens para o combate. Com o fim das guerras e da necessidade das caçadas, o tiro ao alvo se transformou em esporte e diversão.

Estas associações cultivavam uma data em especial. Esta festividade era a comemoração mais esperada do ano e se denominava a “festa do tiro” ou Schützenfest. Realizada, normalmente, em um domingo, era marcada pelas provas de tiro, escolha do melhor atirador, através de disputas e grandes festejos com dança, música e cerveja. Tiro ao Rei (Konigschiess) era como se denominava o torneio onde quem tivesse o maior número de pontos era considerado Rei e os seguintes colocados, os cavalheiros. Este grande evento social e cultural era muito comum na região de Santa Cruz do Sul e nas áreas onde esses clubes atuavam.

Ao Rei do Tiro se impunha uma faixa, geralmente de couro com placa de prata e a data da competição. A colocação da fita simbólica no campeão era comemorada com um baile no dia da conquista ou no seguinte, muitas vezes na data de aniversário da sociedade. Na festa a primeira valsa era do Rei com sua acompanhante. Um segundo bailado era dançada pelos Reis e seus pares de outras sociedades de atiradores presentes.

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Festa na Schutzenverein Rio Pardinho

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Diversão, disciplina, esporte, bebida, dança e festa, faziam parte dos clubes de tiro do interior do Rio Grande do Sul. Em Santa Cruz do Sul esta era uma das mais tradicionais festividades. Para além dos grandes centros do país ou até mesmo do Rio Grande do Sul, o desenvolvimento esportivo é o resultado de um conjunto imenso de variáveis que faz dessas pequenas regiões interioranas significativos casos de análise que valem o olhar atento do pesquisador. É, justamente, a diversidade cultural e histórica brasileira e todas as suas peculiaridades que legitimam a sua riqueza.

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Mais sobre cricket em Salvador

20/02/2017

Coriolano P. da Rocha Junior

Neste blog, mais uma vez falamos sobre o cricket em Salvador, desta vez, com mais dados e imagens sobre o tema.

A prática aportou em terras brasileiras pelas mãos dos ingleses. Essa atividade se desenvolveu por algum tempo, todavia, sem efetivamente se estruturar na cidade, restringindo-se a uma pequena parcela da população.

O esporte chegou a Salvador em meados do século XIX. Normalmente os jogos ocorriam no Campo Grande (LEAL, 2002), embora também haja notícias de partidas na Fonte do Boi[1] e Quinta da Barra (GAMA, 1923), no Campo da Pólvora[2] e no Largo da Madragoa[3].

cricket-brasil

Imagem 1: Jogo de cricket no Campo Grande. Ilustração de J. J. Wild.

Fonte: http://www.salvador-antiga.com/campo-grande/cricket.htm

Vejamos alguns exemplos: “no dia 1 de janeiro terá lugar no Campo Grande um grande jogo de críquete entre alguns sócios do Bahia Críquete Clube – uma partida de estrangeiros. Terá início ao meio dia em ponto”[4]. Também sobre o uso do Campo Grande como sede dos jogos, vemos esta chamada: “Sociedade Brazilian Críquete Clube. Pedindo licença para fazer jogos de bolas no Campo Grande…”[5].

Gama (1923, p.319) afirma que em Salvador foram:

membros da colonia inglesa, que fizeram a introdução de um jogo, cuja disputa, para eles, tinha já o cunho de esporte, – pois sendo a sua Pátria o berço do esporte moderno – tinham a noção exacta da significação do vocábulo. Esse jogo, foi o críquete, de origem genuinamente inglesa […]. Esse críquete de então, era disputado no local hoje denominado Praça Duque de Caxias.

Um clube inicialmente fundado para o críquete, logo depois assumiu o futebol, o Clube de Críquete Vitória, criado por brasileiros em maio de 1899, que passou a se chamar Esporte Clube Vitória. Ainda houve o Clube Internacional de Críquete, fundado por ingleses, em novembro de 1899, além dos já citados Sociedade Brazilian Críquete Clube e Bahia Críquete Clube[6].

Em Salvador, o críquete, teve trajetória, de curta duração, iniciada como uma atividade dos ingleses, contando com participação de brasileiros. Assim, logo a prática da modalidade se manteve limitada aos membros da colônia britânica, até se tornar pouco significativa; enquanto isso, em solo baiano, outras práticas ganhavam o interesse da população.

Sobre esse “esquecimento” do esporte, A Tarde[7] apresentou uma matéria em que questionava as razões do seu possível abandono em Salvador: “não sabemos porque motivo ficou inteiramente abandonado pelos nossos sportmen, o interessante e nobre jogo inglês, o críquete. A Bahia, teve nesse jogo, a muitos annos, sua primeira manifestação esportiva”.

O jornal, na mesma matéria, valorizava sua importância inicial e as formas com que foi jogado, tanto pelos ingleses quanto pelos baianos, ressaltando os valores civilizadores do esporte e o quanto sua prática contribuia para a formação de novos hábitos, por meio de um espaço onde os “nobres” homens da Inglaterra tinham a chance de praticar um esporte que simbolizava os ares de sua terra e os brasileiros podiam vivenciar um esporte que era digno de um mundo moderno, como também Salvador deveria se tornar.

Um possível elemento da curta duração da prática e do pouco interesse da população pelo críquete pode ter sido o fato dos clubes terem sido constituídos originalmente por ingleses e só depois brasileiros – neste caso, com a mesma organização dos de estrangeiros. Assim, o esporte teve uma limitada circulação pelas cidades, dificultando sua apropriação por parte dos diferentes estratos da população.

No período da instalação dos clubes de críquete, a cidade ainda mantinha um aspecto colonial e, assim, também os hábitos e gostos não estavam ajustados a uma prática moderna. De toda forma, os clubes de criquete foram importantes, pois foi a partir deles que se estruturam outros que ampliaram as experiências esportivas.

[1] Localizada no bairro do Rio Vermelho. Diário da Bahia, Salvador, 25 de janeiro de 1902, p.

[2] Diário de Notícias, Salvador, 24 de março de 1903, p. 3 e 12 de setembro de 1903, p. 3.

[3] Diário da Bahia, Salvador, 11 de janeiro de 1902, p. 1. Localizado na Cidade Baixa, na área do bairro da Ribeira.

[4] Jornal da Bahia, Salvador, 31 de dezembro de 1874, p. 2.

[5] Correio da Bahia, Salvador, 25 de janeiro de 1873, p. 2.

[6] Diário de Notícias, Salvador, 2 de setembro de 1876, p. 2.

[7]A Tarde, Salvador, 08 de novembro de 1912, p. 2.


Educação Física, Higiene e Saúde Pública na Corte – Parte 3

20/11/2016

por Fabio Peres[i]

No século XIX, a educação física e, em particular, a ginástica se tornaram pouco a pouco em um domínio defendido pelo saber médico. Como mencionado em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), tratou-se de uma relação que se consolidou no decorrer daquele século, apesar de inúmeras controvérsias. Não apenas a comunidade médico-científica teve que “lutar” pela legitimação de suas práticas e saberes junto ao Estado e à sociedade, como também teve que lidar internamente com a regulação dos conflitos e dilemas dessa mesma comunidade.

A própria emergência da educação física nos periódicos médicos do século XIX pode ser lida como justaposição entre, por um lado, a formação e, por isso, controle de uma comunidade médico-científica que estava se conformando no período e, por outro, a instrução de um público mais amplo, reforçando a sua legitimação enquanto saber médico.

Um capítulo dessa história, mostrado em um post anterior, foi a elaboração em 1830 do relatório da Comissão de Salubridade Geral, no qual o tema foi abordado[ii]. Outro indício importante desse processo se deu dois anos depois, em 1832. A ginástica voltaria a ser objeto de atenção no Semanário de Saúde Pública (11/08/1832, n.113). A ata da sessão realizada no dia 14 de julho daquele ano informa que o capitão Guilherme Luiz Taube entregou à Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (SMRJ), para avaliação, uma memória intitulada A Short Treatise on the Physic, and Moral Effects of Gymnastic, and Kalistenic Exercises.

Taube na ocasião tinha em mente duas iniciativas: a tradução do material apresentado, escrito em inglês e abrir um estabelecimento para oferecer aulas de ginástica. O sueco exercera o cargo de mestre em um colégio de ginástica em Nova York. No Brasil, atuara como capitão do Exército Imperial (é possível, portanto, que tenha chegado depois de 1822), tendo se casado com uma brasileira. Ficara desempregado em função dos desdobramentos da Lei de 24 de Novembro de 1830[iii], motivo pelo qual desejava ministrar aulas.

Guilherme Taube solicitava que a SMRJ emitisse um parecer sobre seu tratado, atestando os benefícios dos exercícios ginásticos. A intenção era que a escola de ginástica, que pretendia estabelecer na capital, tivesse o respaldo científico da entidade. Na mesma sessão, ficara definido que o relator do parecer seria o médico De-Simoni, membro titular e secretario perpétuo da SMRJ.

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

 

Menos de um mês depois, o relatório foi lido em uma das sessões da SMRJ, sendo depois publicado nas edições do Semanário de Saúde Pública[iv] (o relatório completo pode ser acessado aqui). Luiz Vicente De-Simoni percebe a validade do material, mesmo reconhecendo que carece de base científica:

A Memória que o Sr. Guilherme Luiz Taube apresentou a esta Sociedade, e de cujo exame vos dignastes encarregar-me, não é trabalho de um escritor que se proponha ilustrar esta parte da ciência, mas sim de um indivíduo, que, tencionando estabelecer neste pais uma escola, aonde os exercícios ginásticos sejam praticados debaixo da sua direção; dirige-se a prevenir o público em favor do seu estabelecimento, e do objeto dele; o que, para acreditar perante o mesmo público a utilidade física, e moral deles, assim como a veracidade das asserções com que ele a afiança no seu escrito, recorre a esta Sociedade submetendo ao seu juízo e aprovação o mencionado seu trabalho; não para ela julgar da sua perfeição como obra, mas da sua veracidade como peça dirigida a um público que pode duvidar dos princípios nela expendidos, e da utilidade da instituição que ele se propõe (1832, n.119, p. 413).

Mesmo não tendo acesso ao tratado entregue à SMRJ, é possível dimensionar, pelo relatório escrito por De-Simoni, os principais argumentos que Guilherme Taube utilizou para solicitar um parecer favorável da instituição médica. Além da descrição dos possíveis benefícios físicos (como desenvolvimento da força muscular; aumento da flexibilidade, da agilidade e da energia; diminuição dos efeitos da vida sedentária) e dos morais (como a interdependência do intelecto e do físico, o incremento do brio, da coragem, da confiança, entre outros), Guilherme Taube “assevera que em diferentes partes do mundo, entre as nações mais clássicas, os exercícios ginásticos têm sido adotados, animados, e muito proveitosos, e como tais julgados necessários pelos Médicos” (1832, p. 414).

Para além dos argumentos utilizados por Taube, segundo De-Simoni já havia na época posições consolidadas, pelo menos em parte da comunidade médica, sobre o valor da ginástica:

A Sociedade sem garantir a perfectibilidade do método que o Sr. Taube se propõe empregar, o que ele não expende, pode emitir o seu parecer em geral acerca da utilidade dos estabelecimentos ginásticos, o afiançar que quanto o Sr. Taube assevera no seu escrito, sobre esta utilidade é uma verdade reconhecida por todos os Médicos, e escritores ilustrados […]. Os Médicos mais distintos por seu saber tem abonado a ginástica em todos os tempos e em todas as partes do mundo instruído (1832, p. 414).

De acordo com o membro titular da SMRJ, o parecer positivo refere-se a uma preocupação maior, ao reconhecimento da relação entre saúde e condições sociais, tão cara à naquele início de século:

[…] pois o fim desta declaração não é somente beneficiar um indivíduo que os estabelece, mas a população no meio da qual o estabelecimento vai ser erigido; por isso que as vantagens que este pode produzir podem ser grandes, e gerais, e são incontestáveis, e certas quando os exercícios sejam nele praticados com método, e debaixo dos preceitos da higiene. Trata-se neste caso, não de favorecer a instituição de hum simples estabelecimento particular, mas a de um estabelecimento público cujas vantagens poderão ser aproveitadas por muitas pessoas, e principalmente pela classe mais débil, e enferma da população; estabelecimento que até poderá influir sobre a conservação da saúde dos que o não forem, e sobre o melhoramento da constituição individual da nossa mocidade; desenvolvendo melhor seus órgãos, e a sua forca para melhor defender e servir a pátria, quer como Soldados, quer como Cidadãos, e artífices (1832, p. 414).

Para De-Simoni, a prática poderia “exercer uma grande influência sobre o caráter, a glória, e prosperidade de uma nação, e não só ela é capaz de a beneficiar debaixo de um ponto de vista higiênico, como também social, e politico” (1832, p. 415). O médico enfatizou que a relação entre a prática corporal e as ciências médicas não era uma novidade, lançando mão de um artifício argumentativo: uma mobilização da história:

As vantagens pois da ginástica não são problemáticas a face da Medicina; elas são atestadas pela história, e afiançadas pela ciência; nada há mais reconhecido, e provado do que elas. A opinião favorável dos Médicos de todos os países e de todos os séculos podemos francamente adicionar a nossa, e favorecer com ela a instituição de um estabelecimento a ela destinado, tal como o que se propõe o Sr. Taube (1832, p. 416).

Não temos informação se Guilherme Luiz Taube abriu, de fato, o referido estabelecimento que ofereceria aulas de ginástica na Corte. O que sabemos, através dos jornais, é que Taube foi nomeado mestre de ginástica do Colégio Pedro II em 1841[v].

De todo modo, pode-se entrever que já naquele momento não se tratava somente de uma ginástica, mas de uma ginástica médica, que se institucionalizava à luz dos preceitos da higiene e da saúde pública, mesmo que ainda de forma incipiente.

Anos mais tarde, a tentativa de fundar um instituto ginástico e ortopédico na Corte evidenciaria cisões e divergências na comunidade médica. Mas essa história ficará para um próximo post.

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[i] Esse post é um desdobramento das pesquisas realizadas com Victor Andrade de Melo no pós-doutorado, entre 2012-2015, no PPGHC/IH/UFRJ. Parte dele foi publicado em MELO, V. A.; PERES, F.F. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.

[ii] A ata da sessão da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (19/6/1830), em que houve a aprovação do relatório,  foi posteriormente publicada no Semanário de Saúde Pública (9/4/1831).

[iii] Brasil. Lei de 24 de Novembro de 1830. Fixa as forças de terra para o anno financeiro de 1831-1832 (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1830, p. 55, v. 1, pt. I). Disponível em: <http://www2.camara.gov.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-37992-24-novembro-1830-565665-publicacaooriginal-89410-pl.html>. Acesso em: 18 de novembro de 2016. Por essa lei, à exceção daqueles que participaram da campanha da independência, foram mutilados ou gravemente feridos em conflitos, os estrangeiros foram demitidos e proibidos no Exército.

[iv] Inicialmente, uma síntese do parecer emitido por De-Simoni foi publicada no número 117 de 8 de setembro de 1832 (p. 405). Foi depois publicado na íntegra no número 119 de 22 de setembro de 1832 (p. 413-416).

[v] Jornal do Commercio, 8/10/1841, p.1


Preiskegeln in Porto Alegre: o “bolão” no Rio Grande do Sul

10/07/2016

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

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O Rio Grande do Sul possui uma série de singularidades em muitos aspectos em relação ao restante do Brasil. No campo esportivo esta é uma constatação bem visível, resultado de um conjunto de variáveis que o fazem um estado peculiar em relação ao restante do país. O bolão, neste contexto, é um exemplo. Este esporte encontrou em Porto Alegre no final do século XIX e início do XX condições favoráveis ao seu desenvolvimento, principalmente, pela grande quantidade de imigrantes europeus, notadamente alemães que são os precursores desta prática e o trouxeram para o sul brasileiro.

Este jogo conhecido popularmente como bolão, também chamado de kegeln, preiskegeln, ou ainda jogo da bola, é uma prática com grande popularidade entre os germânicos e seus descendentes. É uma versão anterior, um pouco diferenciada e mais rústica que o boliche. É o seu antepassado. Existem algumas variações, especialmente em relação ao século XIX e hoje, mas, essencialmente, o objetivo é arremessar bolas de 23 kg sob uma prancha de madeira para tentar derrubar os nove pinos.

Uma possibilidade bem plausível, é que a prática do bolão tenha sido inserida em Porto Alegre através dos imigrantes teutos que ali se encontravam. Visto que este esporte vem de uma tradição nitidamente germânica e que estes adventícios e seus descendentes fundaram uma série de associações esportivas no Rio Grande do Sul, consideramos como relevante esta hipótese. Acontece que temos informações acerca desta prática somente a partir da década final do século XIX, mais de 60 anos após a chegada dos pioneiros germânicos.

Uma primeira informação no Rio Grande do Sul nos remete a cidade de Pelotas, município muito próspero a época e um dos principais destaques econômicos, principalmente pela atividade das charqueadas. É pela ocasião de uma divulgação do Parque Pelotense em Porto Alegre no ano de 1891 que vemos pela primeira vez o jogo da bola ser citado. Associado às grandes atrações que o local possuía, uma espaçosa praça destinada ao recreio onde se encontrava rink, carroussel, balanços, diversos aparelhos de ginástica, equilíbrio e jogos de bola!

Na cidade de Porto Alegre verificamos a existência dos jogos de bola no ano de 1894, visto o aviso de cobrança da intendência municipal para o recolhimento dos impostos que incidiam sobre uma série de atividades, entre elas as agências de loterias, os bilhares públicos e os jogos de bola. Desta forma, é possível inferir que esta já era uma atividade consolidada na cidade, já que possuía até mesmo tributação sobre a sua prática. No entanto, não nos parece, ainda, uma diversão/esporte que se organizava em clubes e associações, o que verificamos posteriormente. E, também, não podemos identificar de forma mais precisa o início desta atividade no município, que somente com o início do século XX se organizaria em agremiações.

No ano de 1901 é que notamos uma maior convergência para a prática do jogo de bola em clubes. É o que aconteceu com o Clube Júlio de Castilhos, pela ocasião da reforma de um prédio situado a rua Sete de Setembro, onde esteve a intendência municipal, e que seria a sua sede. Estas remodelações, realmente, fariam com que o clube possuísse um suporte muito bem estruturado, com salas de leitura, sala de diversões diversas e biblioteca no andar inferior, um restaurante no andar superior, e no extenso pátio, jogos de bola e tiro ao alvo.

Temos notícia, que em março do ano seguinte, 1902, houve um campeonato de bolão no clube Júlio de Castilhos. A partir do ano 1903 estes torneios aconteceram com uma frequência muito grande, tendo uma periodicidade praticamente mensal e, segundo relatos, a sua prática, seu treino, era quase diário entre os amadores. Parece que a partir deste momento os clubes e associações porto-alegrenses passaram a se dedicar, também, a esta atividade. Agremiações que tinham os mais variados objetivos principais passaram a engrossar a quantidade dos amantes do jogo da bola, como a Turnerbund, Radfahrer Verein Blitz, Germânia, Leopoldina, Lemeintziger Verein e Clube 15 de Novembro. Também era constante a visita de competidores de cidades próximas para “desafios”, principalmente aquelas de colonização alemã, como Novo Hamburgo ou São Leopoldo onde a prática do bolão era ampla.

A estrutura dos bolonistas porto-alegrense parece ter se desenvolvido de forma substancial com o desenrolar da primeira década do século XX. Não raras eram as exaltações, a animação existente nas várias canchas da cidade. Segundo a imprensa, era tanto aos domingos quanto nos dias úteis que elevado número de jogadores afluíam nos clubes disputando este esporte.

No ano de 1918 temos notícia da formação de uma “Liga de Grupos de Bola”, que aparentemente se constituiu pelo sucesso do esporte em Porto Alegre. Também, organizado pela Liga, se realizou um primeiro campeonato que recebeu a inscrição de nada menos que treze clubes bolonistas da capital do Rio Grande do Sul. A competição deveria ter sempre um fiscal da liga presente às disputas que se realizavam concomitantemente em canchas de três clubes distintos, cada dia, passando por todas as sociedades em turno e returno. Cada instituição deveria apresentar oito jogadores, devendo cada um deles atirar dez bolas. O “match” ganho contava como dois pontos e o empatado um. O jogador que fizesse o maior número de pontos ao longo de todo o torneio receberia uma medalha de ouro. Para a imprensa da época, os jogos da “Liga da Bola” continuavam despertando franco entusiasmo entre os amantes deste esporte.

É interessante perceber que a prática do bolão se manteve mesmo com a popularização de outros esportes, no mesmo método. Ou seja, eram departamentos autônomos em clubes com finalidades distintas. O bolão permanece sendo praticado atualmente, principalmente no sul do Brasil em cidades com notada influência germânica.

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Sobre críquete e futebol no Rio de Janeiro do século XIX

02/04/2016

Por Victor Andrade de Melo

Estava eu escrevendo um artigo sobre os clubes de críquete que existiram no Rio de Janeiro do século XIX quando encontrei algumas evidências interessantes sobre a prática de futebol na cidade, indícios que apontam, com um pouco mais de segurança, que o ludopédio vinha sendo por aqui jogado antes do que supomos.

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Lord's cricket ground, London, 1793 (1912). From Imperial Cricket, edited by P F Warner and published by The London and Counties Press Association Ltd (London, 1912). Acervo Getty Images

Lord’s cricket ground, London, 1793 (1912). From Imperial Cricket, edited by P F Warner and published by The London and Counties Press Association Ltd (London, 1912). Acervo Getty Images

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Alguns autores já argumentaram que isso ocorreu – marinheiros ingleses, funcionários de fábricas ou algumas experiências escolares –, mas tais afirmações, em geral, carecem de maior evidência. Com esses indícios encontrados, creio, podemos lançar um olhar mais preciso sobre o fenômeno, inclusive fugindo do risco de “buscar as origens” por mera curiosidade, o fazendo para entender mais adequadamente os primórdios da organização de um campo.

Neste post, apresento apenas breves informações, não somente por ter em conta a natureza de nosso blog, como também porque registrei essas investigações em artigos que foram submetidos para avaliação em periódicos (caso sejam aprovados, em breve divulgo sua veiculação).

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Meninos jogando críquete Vista dos fundos do Instituto de Nova Friburgo, 1843 Litografia da oficina Ludwig & Briggs

Meninos jogando críquete
Vista dos fundos do Instituto de Nova Friburgo, 1843
Litografia da oficina Ludwig & Briggs

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Os documentos referem-se a alguns clubes de críquete que se fundaram no Rio de Janeiro. Assim como ocorreu em várias cidades onde se instalaram os britânicos, na capital do Brasil também criaram agremiações dedicadas a um de seus esportes mais tradicionais.

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Jornal do Comércio, 14 ago. 1854, p. 2.

Jornal do Comércio, 14 ago. 1854, p. 2.

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Por aqui fundaram, entre outros, o British Cricket Club (c. 1854) e o Rio Cricket Club (1872). Esse último, por motivos diversos, deixou de existir e foi substituído pelo Club Brazileiro de Cricket (1893), menos britânico, mais misturado com nacionais. No final do século, transformou-se no Paysandú Cricket Club (1899), até hoje existente com o nome de Paissandu Atlético Clube.

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Rua Paissandu vista de dentro do Palácio Guanabara. À direita, a sede do Rio Cricket/Club Brazileiro de Cricket/Paysandú Cricket Club. Foto sem data, impressa em cartão postal da editora F. Manzieri de São Paulo.

Rua Paissandu vista de dentro do Palácio Guanabara. À direita, a sede do Rio Cricket/Club Brazileiro de Cricket/Paysandú Cricket Club. Foto sem data, impressa em cartão postal da editora F. Manzieri de São Paulo.

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Importantes jogos pioneiros de futebol foram disputados na célebre sede desse clube, que ficava na esquina de Rua Guanabara e Rua Paissandu, em frente ao Palácio Guanabara, um terreno que ia até o Morro Mundo Novo.

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Sede do Rio Cricket/Club Brazileiro de Cricket/Paysandú Cricket Club junto ao Morro Novo Mundo

Sede do Rio Cricket/Club Brazileiro de Cricket/Paysandú Cricket Club junto ao Morro Novo Mundo

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Todavia, interessante mesmo são as evidências que há sobre a prática do futebol no Rio Cricket and Athletic Club, fundado em 1897, em Niterói, por um grupo de britânicos que se afastou da agremiação do Rio de Janeiro tendo em conta se reunir em uma sociedade mais exclusiva da colônia britânica.

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Visão do Campo do Rio Cricket

Visão do Campo do Rio Cricket

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Uma primeira referência mais concreta ao futebol surge já na inauguração da sua sede, em 1898, quando a direção claramente anunciou que preparara as instalações também para a prática do velho esporte bretão.

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Sede do Rio Cricket And Athletic Association Revista da Semana, 8 set. 1901, p. 574

Sede do Rio Cricket And Athletic Association
Revista da Semana, 8 set. 1901, p. 574

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No decorrer dos últimos dois anos do século XIX e dois primeiros da centúria seguinte, outras evidências encontramos sobre a prática do futebol, bem antes do mítico primeiro jogo “oficial” da cidade, que, a propósito, não foi realizado no dia 1 de agosto de 1901, mas sim em 23 de setembro.

Neste post, apresento apenas uma dessas fontes que me pareceu mais interessante, um primeiro calendário para jogos de futebol, inserido na temporada programada para 1902 pelo Rio Cricket and Athletic Association.

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The Brazilian Review, 11 mar. 1902, p. 130

The Brazilian Review, 11 mar. 1902, p. 130

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De lá para cá, muita água rolou, muito gol foi feito e muito há ainda a investigar sobre a conformação e presença de nosso esporte-rei em nossa Cidade Maravilhosa.

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