Mais sobre cricket em Salvador

20/02/2017

Coriolano P. da Rocha Junior

Neste blog, mais uma vez falamos sobre o cricket em Salvador, desta vez, com mais dados e imagens sobre o tema.

A prática aportou em terras brasileiras pelas mãos dos ingleses. Essa atividade se desenvolveu por algum tempo, todavia, sem efetivamente se estruturar na cidade, restringindo-se a uma pequena parcela da população.

O esporte chegou a Salvador em meados do século XIX. Normalmente os jogos ocorriam no Campo Grande (LEAL, 2002), embora também haja notícias de partidas na Fonte do Boi[1] e Quinta da Barra (GAMA, 1923), no Campo da Pólvora[2] e no Largo da Madragoa[3].

cricket-brasil

Imagem 1: Jogo de cricket no Campo Grande. Ilustração de J. J. Wild.

Fonte: http://www.salvador-antiga.com/campo-grande/cricket.htm

Vejamos alguns exemplos: “no dia 1 de janeiro terá lugar no Campo Grande um grande jogo de críquete entre alguns sócios do Bahia Críquete Clube – uma partida de estrangeiros. Terá início ao meio dia em ponto”[4]. Também sobre o uso do Campo Grande como sede dos jogos, vemos esta chamada: “Sociedade Brazilian Críquete Clube. Pedindo licença para fazer jogos de bolas no Campo Grande…”[5].

Gama (1923, p.319) afirma que em Salvador foram:

membros da colonia inglesa, que fizeram a introdução de um jogo, cuja disputa, para eles, tinha já o cunho de esporte, – pois sendo a sua Pátria o berço do esporte moderno – tinham a noção exacta da significação do vocábulo. Esse jogo, foi o críquete, de origem genuinamente inglesa […]. Esse críquete de então, era disputado no local hoje denominado Praça Duque de Caxias.

Um clube inicialmente fundado para o críquete, logo depois assumiu o futebol, o Clube de Críquete Vitória, criado por brasileiros em maio de 1899, que passou a se chamar Esporte Clube Vitória. Ainda houve o Clube Internacional de Críquete, fundado por ingleses, em novembro de 1899, além dos já citados Sociedade Brazilian Críquete Clube e Bahia Críquete Clube[6].

Em Salvador, o críquete, teve trajetória, de curta duração, iniciada como uma atividade dos ingleses, contando com participação de brasileiros. Assim, logo a prática da modalidade se manteve limitada aos membros da colônia britânica, até se tornar pouco significativa; enquanto isso, em solo baiano, outras práticas ganhavam o interesse da população.

Sobre esse “esquecimento” do esporte, A Tarde[7] apresentou uma matéria em que questionava as razões do seu possível abandono em Salvador: “não sabemos porque motivo ficou inteiramente abandonado pelos nossos sportmen, o interessante e nobre jogo inglês, o críquete. A Bahia, teve nesse jogo, a muitos annos, sua primeira manifestação esportiva”.

O jornal, na mesma matéria, valorizava sua importância inicial e as formas com que foi jogado, tanto pelos ingleses quanto pelos baianos, ressaltando os valores civilizadores do esporte e o quanto sua prática contribuia para a formação de novos hábitos, por meio de um espaço onde os “nobres” homens da Inglaterra tinham a chance de praticar um esporte que simbolizava os ares de sua terra e os brasileiros podiam vivenciar um esporte que era digno de um mundo moderno, como também Salvador deveria se tornar.

Um possível elemento da curta duração da prática e do pouco interesse da população pelo críquete pode ter sido o fato dos clubes terem sido constituídos originalmente por ingleses e só depois brasileiros – neste caso, com a mesma organização dos de estrangeiros. Assim, o esporte teve uma limitada circulação pelas cidades, dificultando sua apropriação por parte dos diferentes estratos da população.

No período da instalação dos clubes de críquete, a cidade ainda mantinha um aspecto colonial e, assim, também os hábitos e gostos não estavam ajustados a uma prática moderna. De toda forma, os clubes de criquete foram importantes, pois foi a partir deles que se estruturam outros que ampliaram as experiências esportivas.

[1] Localizada no bairro do Rio Vermelho. Diário da Bahia, Salvador, 25 de janeiro de 1902, p.

[2] Diário de Notícias, Salvador, 24 de março de 1903, p. 3 e 12 de setembro de 1903, p. 3.

[3] Diário da Bahia, Salvador, 11 de janeiro de 1902, p. 1. Localizado na Cidade Baixa, na área do bairro da Ribeira.

[4] Jornal da Bahia, Salvador, 31 de dezembro de 1874, p. 2.

[5] Correio da Bahia, Salvador, 25 de janeiro de 1873, p. 2.

[6] Diário de Notícias, Salvador, 2 de setembro de 1876, p. 2.

[7]A Tarde, Salvador, 08 de novembro de 1912, p. 2.


Educação Física, Higiene e Saúde Pública na Corte – Parte 3

20/11/2016

por Fabio Peres[i]

No século XIX, a educação física e, em particular, a ginástica se tornaram pouco a pouco em um domínio defendido pelo saber médico. Como mencionado em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), tratou-se de uma relação que se consolidou no decorrer daquele século, apesar de inúmeras controvérsias. Não apenas a comunidade médico-científica teve que “lutar” pela legitimação de suas práticas e saberes junto ao Estado e à sociedade, como também teve que lidar internamente com a regulação dos conflitos e dilemas dessa mesma comunidade.

A própria emergência da educação física nos periódicos médicos do século XIX pode ser lida como justaposição entre, por um lado, a formação e, por isso, controle de uma comunidade médico-científica que estava se conformando no período e, por outro, a instrução de um público mais amplo, reforçando a sua legitimação enquanto saber médico.

Um capítulo dessa história, mostrado em um post anterior, foi a elaboração em 1830 do relatório da Comissão de Salubridade Geral, no qual o tema foi abordado[ii]. Outro indício importante desse processo se deu dois anos depois, em 1832. A ginástica voltaria a ser objeto de atenção no Semanário de Saúde Pública (11/08/1832, n.113). A ata da sessão realizada no dia 14 de julho daquele ano informa que o capitão Guilherme Luiz Taube entregou à Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (SMRJ), para avaliação, uma memória intitulada A Short Treatise on the Physic, and Moral Effects of Gymnastic, and Kalistenic Exercises.

Taube na ocasião tinha em mente duas iniciativas: a tradução do material apresentado, escrito em inglês e abrir um estabelecimento para oferecer aulas de ginástica. O sueco exercera o cargo de mestre em um colégio de ginástica em Nova York. No Brasil, atuara como capitão do Exército Imperial (é possível, portanto, que tenha chegado depois de 1822), tendo se casado com uma brasileira. Ficara desempregado em função dos desdobramentos da Lei de 24 de Novembro de 1830[iii], motivo pelo qual desejava ministrar aulas.

Guilherme Taube solicitava que a SMRJ emitisse um parecer sobre seu tratado, atestando os benefícios dos exercícios ginásticos. A intenção era que a escola de ginástica, que pretendia estabelecer na capital, tivesse o respaldo científico da entidade. Na mesma sessão, ficara definido que o relator do parecer seria o médico De-Simoni, membro titular e secretario perpétuo da SMRJ.

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

Relatorio sobre huma memoria do Sr. Guilherme Luiz Taube acerca dos effeitos physicos e moraes dos exercicios gymnasticos: lido na Sociedade de Medecina do Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1832 (Simoni, Luiz Vicente de, 1792-1881)

 

Menos de um mês depois, o relatório foi lido em uma das sessões da SMRJ, sendo depois publicado nas edições do Semanário de Saúde Pública[iv] (o relatório completo pode ser acessado aqui). Luiz Vicente De-Simoni percebe a validade do material, mesmo reconhecendo que carece de base científica:

A Memória que o Sr. Guilherme Luiz Taube apresentou a esta Sociedade, e de cujo exame vos dignastes encarregar-me, não é trabalho de um escritor que se proponha ilustrar esta parte da ciência, mas sim de um indivíduo, que, tencionando estabelecer neste pais uma escola, aonde os exercícios ginásticos sejam praticados debaixo da sua direção; dirige-se a prevenir o público em favor do seu estabelecimento, e do objeto dele; o que, para acreditar perante o mesmo público a utilidade física, e moral deles, assim como a veracidade das asserções com que ele a afiança no seu escrito, recorre a esta Sociedade submetendo ao seu juízo e aprovação o mencionado seu trabalho; não para ela julgar da sua perfeição como obra, mas da sua veracidade como peça dirigida a um público que pode duvidar dos princípios nela expendidos, e da utilidade da instituição que ele se propõe (1832, n.119, p. 413).

Mesmo não tendo acesso ao tratado entregue à SMRJ, é possível dimensionar, pelo relatório escrito por De-Simoni, os principais argumentos que Guilherme Taube utilizou para solicitar um parecer favorável da instituição médica. Além da descrição dos possíveis benefícios físicos (como desenvolvimento da força muscular; aumento da flexibilidade, da agilidade e da energia; diminuição dos efeitos da vida sedentária) e dos morais (como a interdependência do intelecto e do físico, o incremento do brio, da coragem, da confiança, entre outros), Guilherme Taube “assevera que em diferentes partes do mundo, entre as nações mais clássicas, os exercícios ginásticos têm sido adotados, animados, e muito proveitosos, e como tais julgados necessários pelos Médicos” (1832, p. 414).

Para além dos argumentos utilizados por Taube, segundo De-Simoni já havia na época posições consolidadas, pelo menos em parte da comunidade médica, sobre o valor da ginástica:

A Sociedade sem garantir a perfectibilidade do método que o Sr. Taube se propõe empregar, o que ele não expende, pode emitir o seu parecer em geral acerca da utilidade dos estabelecimentos ginásticos, o afiançar que quanto o Sr. Taube assevera no seu escrito, sobre esta utilidade é uma verdade reconhecida por todos os Médicos, e escritores ilustrados […]. Os Médicos mais distintos por seu saber tem abonado a ginástica em todos os tempos e em todas as partes do mundo instruído (1832, p. 414).

De acordo com o membro titular da SMRJ, o parecer positivo refere-se a uma preocupação maior, ao reconhecimento da relação entre saúde e condições sociais, tão cara à naquele início de século:

[…] pois o fim desta declaração não é somente beneficiar um indivíduo que os estabelece, mas a população no meio da qual o estabelecimento vai ser erigido; por isso que as vantagens que este pode produzir podem ser grandes, e gerais, e são incontestáveis, e certas quando os exercícios sejam nele praticados com método, e debaixo dos preceitos da higiene. Trata-se neste caso, não de favorecer a instituição de hum simples estabelecimento particular, mas a de um estabelecimento público cujas vantagens poderão ser aproveitadas por muitas pessoas, e principalmente pela classe mais débil, e enferma da população; estabelecimento que até poderá influir sobre a conservação da saúde dos que o não forem, e sobre o melhoramento da constituição individual da nossa mocidade; desenvolvendo melhor seus órgãos, e a sua forca para melhor defender e servir a pátria, quer como Soldados, quer como Cidadãos, e artífices (1832, p. 414).

Para De-Simoni, a prática poderia “exercer uma grande influência sobre o caráter, a glória, e prosperidade de uma nação, e não só ela é capaz de a beneficiar debaixo de um ponto de vista higiênico, como também social, e politico” (1832, p. 415). O médico enfatizou que a relação entre a prática corporal e as ciências médicas não era uma novidade, lançando mão de um artifício argumentativo: uma mobilização da história:

As vantagens pois da ginástica não são problemáticas a face da Medicina; elas são atestadas pela história, e afiançadas pela ciência; nada há mais reconhecido, e provado do que elas. A opinião favorável dos Médicos de todos os países e de todos os séculos podemos francamente adicionar a nossa, e favorecer com ela a instituição de um estabelecimento a ela destinado, tal como o que se propõe o Sr. Taube (1832, p. 416).

Não temos informação se Guilherme Luiz Taube abriu, de fato, o referido estabelecimento que ofereceria aulas de ginástica na Corte. O que sabemos, através dos jornais, é que Taube foi nomeado mestre de ginástica do Colégio Pedro II em 1841[v].

De todo modo, pode-se entrever que já naquele momento não se tratava somente de uma ginástica, mas de uma ginástica médica, que se institucionalizava à luz dos preceitos da higiene e da saúde pública, mesmo que ainda de forma incipiente.

Anos mais tarde, a tentativa de fundar um instituto ginástico e ortopédico na Corte evidenciaria cisões e divergências na comunidade médica. Mas essa história ficará para um próximo post.

______________________________________________________

[i] Esse post é um desdobramento das pesquisas realizadas com Victor Andrade de Melo no pós-doutorado, entre 2012-2015, no PPGHC/IH/UFRJ. Parte dele foi publicado em MELO, V. A.; PERES, F.F. A gymnastica no tempo do Império. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.

[ii] A ata da sessão da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (19/6/1830), em que houve a aprovação do relatório,  foi posteriormente publicada no Semanário de Saúde Pública (9/4/1831).

[iii] Brasil. Lei de 24 de Novembro de 1830. Fixa as forças de terra para o anno financeiro de 1831-1832 (Coleção de Leis do Império do Brasil – 1830, p. 55, v. 1, pt. I). Disponível em: <http://www2.camara.gov.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-37992-24-novembro-1830-565665-publicacaooriginal-89410-pl.html>. Acesso em: 18 de novembro de 2016. Por essa lei, à exceção daqueles que participaram da campanha da independência, foram mutilados ou gravemente feridos em conflitos, os estrangeiros foram demitidos e proibidos no Exército.

[iv] Inicialmente, uma síntese do parecer emitido por De-Simoni foi publicada no número 117 de 8 de setembro de 1832 (p. 405). Foi depois publicado na íntegra no número 119 de 22 de setembro de 1832 (p. 413-416).

[v] Jornal do Commercio, 8/10/1841, p.1


Preiskegeln in Porto Alegre: o “bolão” no Rio Grande do Sul

10/07/2016

por Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

.

O Rio Grande do Sul possui uma série de singularidades em muitos aspectos em relação ao restante do Brasil. No campo esportivo esta é uma constatação bem visível, resultado de um conjunto de variáveis que o fazem um estado peculiar em relação ao restante do país. O bolão, neste contexto, é um exemplo. Este esporte encontrou em Porto Alegre no final do século XIX e início do XX condições favoráveis ao seu desenvolvimento, principalmente, pela grande quantidade de imigrantes europeus, notadamente alemães que são os precursores desta prática e o trouxeram para o sul brasileiro.

Este jogo conhecido popularmente como bolão, também chamado de kegeln, preiskegeln, ou ainda jogo da bola, é uma prática com grande popularidade entre os germânicos e seus descendentes. É uma versão anterior, um pouco diferenciada e mais rústica que o boliche. É o seu antepassado. Existem algumas variações, especialmente em relação ao século XIX e hoje, mas, essencialmente, o objetivo é arremessar bolas de 23 kg sob uma prancha de madeira para tentar derrubar os nove pinos.

Uma possibilidade bem plausível, é que a prática do bolão tenha sido inserida em Porto Alegre através dos imigrantes teutos que ali se encontravam. Visto que este esporte vem de uma tradição nitidamente germânica e que estes adventícios e seus descendentes fundaram uma série de associações esportivas no Rio Grande do Sul, consideramos como relevante esta hipótese. Acontece que temos informações acerca desta prática somente a partir da década final do século XIX, mais de 60 anos após a chegada dos pioneiros germânicos.

Uma primeira informação no Rio Grande do Sul nos remete a cidade de Pelotas, município muito próspero a época e um dos principais destaques econômicos, principalmente pela atividade das charqueadas. É pela ocasião de uma divulgação do Parque Pelotense em Porto Alegre no ano de 1891 que vemos pela primeira vez o jogo da bola ser citado. Associado às grandes atrações que o local possuía, uma espaçosa praça destinada ao recreio onde se encontrava rink, carroussel, balanços, diversos aparelhos de ginástica, equilíbrio e jogos de bola!

Na cidade de Porto Alegre verificamos a existência dos jogos de bola no ano de 1894, visto o aviso de cobrança da intendência municipal para o recolhimento dos impostos que incidiam sobre uma série de atividades, entre elas as agências de loterias, os bilhares públicos e os jogos de bola. Desta forma, é possível inferir que esta já era uma atividade consolidada na cidade, já que possuía até mesmo tributação sobre a sua prática. No entanto, não nos parece, ainda, uma diversão/esporte que se organizava em clubes e associações, o que verificamos posteriormente. E, também, não podemos identificar de forma mais precisa o início desta atividade no município, que somente com o início do século XX se organizaria em agremiações.

No ano de 1901 é que notamos uma maior convergência para a prática do jogo de bola em clubes. É o que aconteceu com o Clube Júlio de Castilhos, pela ocasião da reforma de um prédio situado a rua Sete de Setembro, onde esteve a intendência municipal, e que seria a sua sede. Estas remodelações, realmente, fariam com que o clube possuísse um suporte muito bem estruturado, com salas de leitura, sala de diversões diversas e biblioteca no andar inferior, um restaurante no andar superior, e no extenso pátio, jogos de bola e tiro ao alvo.

Temos notícia, que em março do ano seguinte, 1902, houve um campeonato de bolão no clube Júlio de Castilhos. A partir do ano 1903 estes torneios aconteceram com uma frequência muito grande, tendo uma periodicidade praticamente mensal e, segundo relatos, a sua prática, seu treino, era quase diário entre os amadores. Parece que a partir deste momento os clubes e associações porto-alegrenses passaram a se dedicar, também, a esta atividade. Agremiações que tinham os mais variados objetivos principais passaram a engrossar a quantidade dos amantes do jogo da bola, como a Turnerbund, Radfahrer Verein Blitz, Germânia, Leopoldina, Lemeintziger Verein e Clube 15 de Novembro. Também era constante a visita de competidores de cidades próximas para “desafios”, principalmente aquelas de colonização alemã, como Novo Hamburgo ou São Leopoldo onde a prática do bolão era ampla.

A estrutura dos bolonistas porto-alegrense parece ter se desenvolvido de forma substancial com o desenrolar da primeira década do século XX. Não raras eram as exaltações, a animação existente nas várias canchas da cidade. Segundo a imprensa, era tanto aos domingos quanto nos dias úteis que elevado número de jogadores afluíam nos clubes disputando este esporte.

No ano de 1918 temos notícia da formação de uma “Liga de Grupos de Bola”, que aparentemente se constituiu pelo sucesso do esporte em Porto Alegre. Também, organizado pela Liga, se realizou um primeiro campeonato que recebeu a inscrição de nada menos que treze clubes bolonistas da capital do Rio Grande do Sul. A competição deveria ter sempre um fiscal da liga presente às disputas que se realizavam concomitantemente em canchas de três clubes distintos, cada dia, passando por todas as sociedades em turno e returno. Cada instituição deveria apresentar oito jogadores, devendo cada um deles atirar dez bolas. O “match” ganho contava como dois pontos e o empatado um. O jogador que fizesse o maior número de pontos ao longo de todo o torneio receberia uma medalha de ouro. Para a imprensa da época, os jogos da “Liga da Bola” continuavam despertando franco entusiasmo entre os amantes deste esporte.

É interessante perceber que a prática do bolão se manteve mesmo com a popularização de outros esportes, no mesmo método. Ou seja, eram departamentos autônomos em clubes com finalidades distintas. O bolão permanece sendo praticado atualmente, principalmente no sul do Brasil em cidades com notada influência germânica.

.


Sobre críquete e futebol no Rio de Janeiro do século XIX

02/04/2016

Por Victor Andrade de Melo

Estava eu escrevendo um artigo sobre os clubes de críquete que existiram no Rio de Janeiro do século XIX quando encontrei algumas evidências interessantes sobre a prática de futebol na cidade, indícios que apontam, com um pouco mais de segurança, que o ludopédio vinha sendo por aqui jogado antes do que supomos.

.

Lord's cricket ground, London, 1793 (1912). From Imperial Cricket, edited by P F Warner and published by The London and Counties Press Association Ltd (London, 1912). Acervo Getty Images

Lord’s cricket ground, London, 1793 (1912). From Imperial Cricket, edited by P F Warner and published by The London and Counties Press Association Ltd (London, 1912). Acervo Getty Images

.

Alguns autores já argumentaram que isso ocorreu – marinheiros ingleses, funcionários de fábricas ou algumas experiências escolares –, mas tais afirmações, em geral, carecem de maior evidência. Com esses indícios encontrados, creio, podemos lançar um olhar mais preciso sobre o fenômeno, inclusive fugindo do risco de “buscar as origens” por mera curiosidade, o fazendo para entender mais adequadamente os primórdios da organização de um campo.

Neste post, apresento apenas breves informações, não somente por ter em conta a natureza de nosso blog, como também porque registrei essas investigações em artigos que foram submetidos para avaliação em periódicos (caso sejam aprovados, em breve divulgo sua veiculação).

.

Meninos jogando críquete Vista dos fundos do Instituto de Nova Friburgo, 1843 Litografia da oficina Ludwig & Briggs

Meninos jogando críquete
Vista dos fundos do Instituto de Nova Friburgo, 1843
Litografia da oficina Ludwig & Briggs

.

Os documentos referem-se a alguns clubes de críquete que se fundaram no Rio de Janeiro. Assim como ocorreu em várias cidades onde se instalaram os britânicos, na capital do Brasil também criaram agremiações dedicadas a um de seus esportes mais tradicionais.

.

Jornal do Comércio, 14 ago. 1854, p. 2.

Jornal do Comércio, 14 ago. 1854, p. 2.

.

Por aqui fundaram, entre outros, o British Cricket Club (c. 1854) e o Rio Cricket Club (1872). Esse último, por motivos diversos, deixou de existir e foi substituído pelo Club Brazileiro de Cricket (1893), menos britânico, mais misturado com nacionais. No final do século, transformou-se no Paysandú Cricket Club (1899), até hoje existente com o nome de Paissandu Atlético Clube.

.

Rua Paissandu vista de dentro do Palácio Guanabara. À direita, a sede do Rio Cricket/Club Brazileiro de Cricket/Paysandú Cricket Club. Foto sem data, impressa em cartão postal da editora F. Manzieri de São Paulo.

Rua Paissandu vista de dentro do Palácio Guanabara. À direita, a sede do Rio Cricket/Club Brazileiro de Cricket/Paysandú Cricket Club. Foto sem data, impressa em cartão postal da editora F. Manzieri de São Paulo.

.

Importantes jogos pioneiros de futebol foram disputados na célebre sede desse clube, que ficava na esquina de Rua Guanabara e Rua Paissandu, em frente ao Palácio Guanabara, um terreno que ia até o Morro Mundo Novo.

.

Sede do Rio Cricket/Club Brazileiro de Cricket/Paysandú Cricket Club junto ao Morro Novo Mundo

Sede do Rio Cricket/Club Brazileiro de Cricket/Paysandú Cricket Club junto ao Morro Novo Mundo

.

Todavia, interessante mesmo são as evidências que há sobre a prática do futebol no Rio Cricket and Athletic Club, fundado em 1897, em Niterói, por um grupo de britânicos que se afastou da agremiação do Rio de Janeiro tendo em conta se reunir em uma sociedade mais exclusiva da colônia britânica.

.

Visão do Campo do Rio Cricket

Visão do Campo do Rio Cricket

.

Uma primeira referência mais concreta ao futebol surge já na inauguração da sua sede, em 1898, quando a direção claramente anunciou que preparara as instalações também para a prática do velho esporte bretão.

.

Sede do Rio Cricket And Athletic Association Revista da Semana, 8 set. 1901, p. 574

Sede do Rio Cricket And Athletic Association
Revista da Semana, 8 set. 1901, p. 574

.

No decorrer dos últimos dois anos do século XIX e dois primeiros da centúria seguinte, outras evidências encontramos sobre a prática do futebol, bem antes do mítico primeiro jogo “oficial” da cidade, que, a propósito, não foi realizado no dia 1 de agosto de 1901, mas sim em 23 de setembro.

Neste post, apresento apenas uma dessas fontes que me pareceu mais interessante, um primeiro calendário para jogos de futebol, inserido na temporada programada para 1902 pelo Rio Cricket and Athletic Association.

.

The Brazilian Review, 11 mar. 1902, p. 130

The Brazilian Review, 11 mar. 1902, p. 130

.

De lá para cá, muita água rolou, muito gol foi feito e muito há ainda a investigar sobre a conformação e presença de nosso esporte-rei em nossa Cidade Maravilhosa.

.


“Os nobres cruzados porto-alegrenses”: religião, guerra e divertimento na cavalhada de maio de 1870

11/02/2016

Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

As cavalhadas eram folguedos comuns na capital do Rio Grande do Sul no século XIX. O cronista Achylles Porto Alegre chegou a registrar que “raramente havia uma festa religiosa ou cívica sem ‘cavalhada”. O escritor ainda sublinhou que estes festejos se inseriram nas tradições locais, tornando-se “uma festa ‘essencialmente gaúcha’, que revelaria a doçura poética romântica e ao mesmo tempo guerreira e cavalheiresca da índole dos sul-riograndenses”.
Consistiam em atividades lúdicas e recreativas, herdeiras de torneios e justas, onde as disputas aconteciam sempre entre dois grupos, divididos entre os azuis que representavam os cristãos e os vermelhos, os mouros. O fundamento da diversão era a dominação e a conversão dos muçulmanos que, invariavelmente, eram derrotados. Acontece que as cavalhadas envolviam uma série de outras características que extrapolavam o seu significado inicial e davam ar de competição a tradição, carregada de especificidades locais.
De que forma poderiam se relacionar de maneira tão intensa um folguedo de essência religiosa, a Guerra do Paraguai e disputadas de habilidade? Um exemplo deste sincretismo ocorreu em Porto Alegre, capital da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul em maio de 1870. A imprensa destacou que entre os dias 15, 16 e 17 daquele mês seria promovida uma grande cavalhada em homenagem ao fim da Guerra do Paraguai. Com a participação dos Voluntários da Pátria, a presença do Presidente da Província, e assado com couro como demonstração da tradição regional, os festejos aconteceriam no conhecido palco do entretenimento da cidade, o Campo da Redenção.
A vitória dos cristãos sobre os muçulmanos ganharia nova interpretação naquele momento, onde a imprensa bem descreveria esta nova representação com a chegada do 39º Batalhão de Voluntários da Pátria a Porto Alegre. Na véspera do dia designado para a primeira corrida, regressaram aqueles que seriam os próprios “atores” da festa. Estes foram exaltados em A Reforma de 08 de junho de 1870: “eram os nobres cruzados porto-alegrenses que tinham ido pelejar pela honra da pátria, e na pugna horrível se haviam coberto de louros e de glórias”.
Desta forma, com um grande público presente ao circo montado na Redenção, onde os locais destinados a plateia e camarote estavam lotados e o povo se fazia presente de forma efusiva, nada menos que 6 mil pessoas estavam presentes, relatava a imprensa. Nesta diversão medieval, reconfigurada com o contexto da Guerra do Paraguai, o tradicional enredo se desenvolveu e diversas disputas se deram onde a habilidade, destreza e coragem dos Voluntários da Pátria foram postos a prova. Entre as lutas de espadas entre cristãos e mouros e a vitória final e conversão dos muçulmanos, aconteceram uma série de competições, como o divertimento das cabeças que consistia em derrubar umas a lança, outras a tiro de pistola e a levantar outras do chão à espada. O jogo das argolinhas também foi um importante ponto das disputas da cavalhada. A habilidade ao cavalgar era posta a prova nas competições.
Independentemente se o que estava sendo festejado era a vitória dos cristãos sobre os mouros ou a glória do Brasil sobre o Paraguai, era desta forma que Porto Alegre em maio de 1870 conseguia associar diversas representações a jogos e disputas de habilidade. A conquista da “Terra Santa” se resignificava nas patas dos cavalos dos Voluntários da Pátria que retornavam do campo de batalha no Paraguai e garantiram para o Brasil, Uruguai e Argentina a vitória. Se o triunfo da tríplice aliança sobre seu vizinho era tão certo quanto a glória dos cristãos sobre os mouros no folguedo, também havia competições onde soldados e seus cavalos que há pouco pelejavam no front de guerra agora se divertiam, simulando batalhas ou, simplesmente, disputando, jogando e celebrando.

.


A História de uma Policronofonia: críticas (bem-humoradas) à prática de esportes e exercícios físicos no Rio de Janeiro do século XIX

01/02/2016

A presença e a força dos discursos médicos e pedagógicos no final daquele século eram incontestáveis. O desfio era convencer a população a efetivamente praticá-los no dia-a-dia, sem que antes ela duvidasse de certos argumentos e prescrições.  

por Fabio Peres

A história começa com um sonho esplendido, quase idílico. Naquele 24 de maio de 1895, dia da inauguração do Prado Brasileiro, a multidão se amontoava em torno da arena da nova sociedade esportiva, localizada provisoriamente na Praia de Botafogo, n.171 (sede do Bellódromo Guanabara). O céu era “de um azul lavado e fresco” (A Cigarra, 30/5/1895)[i].

Anúncio do Prado Brasileiro (O Paiz, 22/5/1895, p.8)

Anúncio do Prado Brasileiro (O Paiz, 22/5/1895, p.8)

Voando em pensamento, o cronista entregou a “alma a um sonho radiante”, viajou “para outro clima e para outra idade”. Viu área de jogos, piscinas de mármore, homens fortes, “robustecidos pelo exercício violente”, além de corridas a pé, carruagens, atletas, saltos, lutas e arremessos. Estava definitivamente na “jovem Grécia”.

O deleite provocado pelo sonho, seguido por um desanimo ao despertar, foram depois de um tempo sopesados:

Meu Deus! Cada roca com o seu fuso, e cada século com os seus exercícios. O culpado d’esses sonhos, d’essas saudades ansiosas que o jornalismo fluminense de hoje, de vez em quando, diz sentir pela rija educação física dos tempos heroicos,— o culpado dessa mania é Sr. Ramalho Ortigão que vive a fazer, em livros e artigos, a apologia da ginástica (A Cigarra, 30/05/1895, p.2)[ii].

Dialogando diretamente com os preceitos de saúde e educação física da época, o autor – em tom zombeteiro – chamava atenção para incompatibilidade e mesmo anacronismo entre os discursos de promoção e estimulo de práticas corporais, pautados por uma idealização da Grécia Antiga, e as práticas esportivas adequadas a um carioca de 1895, “com o câmbio a 8 e uma guerra civil de quatro anos de idade”. Tal modo de vida da Antiguidade não seria factível com as obrigações e condições de vida de um cidadão da “era moderna”:

Apanhem-me um honesto burguês destes desventurados tempos modernos. O homem é empregado público: o emprego rende-lhe duzentos mil réis. Mas o desgraçado tem oito filhas que precisam de marido: querem vestir-se, querem piano, fitas, teteias, teatros. E o infeliz, mesmo arranjando para a noite qualquer trabalho suplementar com que se estrompe a ganhar a vida, não consegue, no fim do mês, pagar todos os seus compromissos, Metam agora na cabeça desse burguês a convicção de que, para viver muito, o exercício físico é indispensável: mandem-no perder, de manhã, duas horas em ginástica de quarto, – de tarde, outras duas em corridas a pé, – de noite, outras duas em velocipedia. E digam-me que tempo lhe ficará para ganhar o pão de cada mês. O’ néscios! O problema capital da vida não é viver muito: é viver! Não é ter saúde: é ter dinheiro! Não é ser belo: é comer! (op. cit.)

De acordo com o bem-humorado cronista, o esporte moderno é bem concebido justamente pelo fato da prática ficar restrita somente aos que se “empregam nele, e se divertem quem tem tempo e dinheiro” para assistir. E, por fim, sentencia em clara oposição aos argumentos que “vestem” determinados contextos “com as roupas talhadas em outras épocas” [iii] e em outros lugares:

Nós não somos feitos para essas façanhas, amigos! Contentemo-nos com o que o século nos dá. E, em matéria de sport limitemo-nos a apostar neste ou naquele corredor, neste ou naquele cavalo, neste ou naquele pelotari. A idade heroica foi a dos jogos olímpicos. A idade moderna é a dos jogos de poules. E eu prefiro perder dinheiro, vendo correrem os outros, a ganhá-lo, correndo eu, para que os outros me vejam (A Cigarra, 30/05/1895, p.3).

Uma das chaves para compreender a prática de esportes e exercícios físicos na cidade do Rio de Janeiro do século XIX passa, por certo, pelos discursos pedagógicos e médico-higienistas. Contudo, esses discursos nem sempre, ou muitas vezes, se materializavam ipsis litteris na vida social da cidade.

Em 1892, aliás, um estrangeiro de velocípedes no Passeio Público foi alvo de chacotas: “corre nenê!”. De acordo com o comentarista, a prática de exercícios físicos em determinados espaços da cidade ainda era censurada pela população, onde “moços do Rio de Janeiro, salvas poucas exceções, não têm força muscular”[iv]; algo que certamente mudaria. Mas essa história ficará para um próximo post.

________________________________________

[i] Havia nos periódicos fluminenses uma certa expectativa em torno da estreia do empreendimento. Nos dias seguintes, porém, as matérias sobre o evento foram marcadas por controvérsias e críticas, sobretudo, em relação à qualidade técnica das provas (O Paiz, 25/5/1895, p.2; O Paiz, 26/5/1895, p.2).

[ii] Vale destacar que em 4/1/1888, a Gazeta de Notícias fazia uma promoção e oferecia livros aos que renovassem sua assinatura, entre os quais “Ginástica de quarto”, a obra de Schreber traduzida pelo renomado Ramalho Ortigão, que já fizera várias referências ao autor em seu “As Farpas: Crônica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes”.

[iii]  ALENCASTRO, Luiz Felipe. “Não sabem dizer coisa certa”.  Revista Brasileira de Ciências Sociais, n. 16, jun. 1991, p. 64. 14.

[iv] O Paiz, 10/6/1892, p.1


Algo mais sobre o turfe em Salvador

23/11/2015

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

Na Bahia, encontramos dados que apontam para a existência do turfe já no século XIX. O jornal A Locomotiva(1) dava notícias da abertura de um palco específico para a prática na cidade, na data de 30 de dezembro de 1888:

a inauguração do Hipódromo S. Salvador, que teve lugar no dia 30 passado, foi um verdadeiro acontecimento notável para os anais desta grande capital.
[…]
Tudo correu bem, fazendo-se notar apenas a grande demora em começarem as corridas, e os enormes intervalos entre uma as outras.

Podemos perceber que a abertura deste palco de diversões mobilizou um público grande, nesta altura, carente de espaços e práticas divertidas na cidade. A boa recepção a esta inauguração denota o quanto a cidade ansiava por locais onde as “belas” pessoas, como diz a nota, podiam se entreter, numa prática considerada nobre e elegante.
No decorrer do tempo, o hipódromo continuou a promover corridas, procurando mitigar as dificuldades e as deficiências vistas nas primeiras apresentações. O mesmo A Locomotiva (2), noticiava assim:

Não se pode negar que as corridas de cavalos captarão as simpatias do povo baiano; o Hipódromo S. Salvador, tem-se tornado o ponto de reunião do mundo elegante desta capital.

As corridas de cavalo, logo começaram a fazer parte do cotidiano da cidade. Os jornais seguiam dando notícias dos eventos, apresentando as corridas, as ocorrências, comentando o desempenho dos cavalos e dos jóqueis, bem como as reações do público. As matérias sempre buscavam associar essa atividade aos estratos sociais mais altos da cidade, dando destaque a presença feminina.
Outro aspecto que denota o valor dado ao turfe, já desde o início das atividades, foi à criação de um periódico específico, O Sport. Esse jornal, que noticiava apenas coisas do esporte, teve seu primeiro número lançado já em 27 de janeiro de 1889, ou seja, logo após a inauguração do Hipódromo São Salvador, dizendo-se um jornal dedicado aos dignos turfistas desta cidade.
O Sport em 1889 (3) cuidava de mostrar desde programas e resultados, até dicas sobre formas de vestir-se e de comportar-se num hipódromo. O surgimento de um jornal próprio do turfe, e a forma como este se apresentou, demonstra a motivação de tentar consolidar esta prática. Isso, justo por reconhecer nela uma possibilidade de diversão, além de poder ser um meio de fazer da cidade, um lugar mais moderno, elegante e nobre, trazendo para Salvador uma atividade que já existia e gozava de prestígio em outras cidades e países.
O sucesso do turfe se comprovou com a abertura de um segundo local de provas, desta vez, no bairro do Rio Vermelho. Vemos que o turfe, àquela altura, mesmo ainda em sua fase inicial, já começava a se incorporar ao cotidiano da cidade. Vale citar que o bairro do Rio Vermelho, era ainda bastante distante do local do primeiro hipódromo, localizado na Boa Viagem.
Desde a inauguração, o Derby Clube do Rio Vermelho apresentava a intenção de contar com grande público, tendo para tal preparado uma estrutura que, segundo os jornais, daria conta de oferecer conforto à plateia. Também vemos a preocupação em apresentar as condições de transporte, já que o Rio Vermelho, bairro de veraneio, era de difícil acesso.
Após a inauguração do hipódromo, as notícias e análises sobre esse fato se estenderam por dias. Como exemplo, no dia 27 de maio de 1888 se noticiou a abertura e os acontecimentos mais gerais, atribuindo grande sucesso ao evento. No dia 28, foram apresentados os páreos e seus resultados.
A abertura de um novo hipódromo na cidade não significou, a princípio, que o anterior tenha interrompido suas atividades. Ao contrário, os jornais seguiam noticiando seus programas, descrevendo as provas e convidando o público a participar dos eventos. Como exemplo disso, encontramos no Diário da Bahia (4) a seguinte matéria:

no Hipódromo S. Salvador, á Boa Viagem, realiza hoje a 2ª. Corrida deste ano, tomando parte os melhores parelheiros de nosso turfe.
Abrilhantará a função a conhecida Filarmônica Carlos Gomes, que nos intervalos executará peças de seu variado repertório.

Nos jornais também eram informados alguns páreos que destinavam renda a entidades beneficentes. Apesar de todo esse sucesso na sua fase inicial, em algum momento houve um esvaziamento de matérias sobre o turfe.
No tocante a esse esporte, dentro do período estudado, Salvador merece uma análise especial. Em fins do século XIX e início do XX, a modalidade figurava na cidade. Todavia, na década de 1910, foram encontradas poucas referências que fizessem menção à existência de sua prática formal nos jornais soteropolitanos. Nesse período, esporadicamente encontramos notas sobre corridas de cavalos como uma atividade de diversão, associada a alguma festa(5).
Algumas considerações podem ser feitas sobre as razões que motivaram esse intervalo na cobertura sobre o turfe em Salvador. Sarmento (2009, p. 113) afirma que a 1ª Grande Guerra causou fortes impactos na cidade, notadamente em sua vida econômica: “a população sofria com o aumento do custo de vida, especialmente com os altos preços dos alimentos. Diversas categorias profissionais foram prejudicadas com a guerra, que aumentou o desemprego”.
Como no esporte existia o hábito das apostas, podemos inferir que a menor circulação de dinheiro pode ter gerado um desestímulo pela modalidade, em função das dificuldades em se apostar e também porque a prática era uma atividade com altos custos de manutenção do espaço e dos animais. Outra razão pode ter sido a dificuldade de deslocamento até as áreas onde se localizavam os hipódromos.
A partir da década de 1920, o esporte passou novamente a ser noticiado, com sua prática acontecendo no mesmo hipódromo dos tempos iniciais, o da Boa Viagem, e também no do Rio Vermelho.
Essa retomada do turfe em Salvador foi, em grande parte, motivada pela constituição do Jóquei Clube, no Rio Vermelho, em 1919 (LOPES, 1984), que foi reinaugurado em 1923(6), na Boa Viagem.
Tratou-se de iniciativas de membros da elite baiana, que buscavam retomar os áureos tempos da prática turfística, suplantada pelo remo e principalmente pelo futebol. As tardes de turfe, como visto, se deram no antigo Derby do Rio Vermelho. Contudo, parece mesmo que foi o Hipódromo de Boa Viagem o palco principal da retomada do turfe: “…a dedicação de certos vultos de grande valor no esporte baiano como os Srs. Alberto Catharino, Fernando Petersen, Arthur Matos, Engenheiro Gantois, Dr. Couto Maia e outros incansáveis vêm agora dotar a Bahia de importante estádio”(8), representantes da mais alta sociedade soteropolitana, interessados em fazer Salvador retomar tempos em que as tardes de turfe representavam formas valorizadas de sociabilidade, um tempo de representação de poder e status.
De tudo, importa dizer que o turfe foi, em Salvador, uma prática inconstante, sem experimentar uma forte organização na forma de clube, fato só visto na década de 1920, com a criação do Jóquei Clube. Ainda assim, poucos não foram os problemas.
Apesar desse cenário de não regularidade, a participação do público era associada a “bons” modos de comportamento, exigindo-se uma vestimenta “chique”. Ir aos hipódromos significava ver e ser visto e também, circular por entre os da elite.
Estar na rua em contato com outras pessoas, bem como saber portar-se e vestir-se eram marcas das novas “posses” das camadas detentoras de poder. Além disso, apostar e mesmo ser proprietário de animais era sinal de status e, ainda, poderia contribuir para o enriquecimento.
Por fim, foi possível identificarmos a presença do turfe na cidade, tendo sido uma atividade que gerou interesse e mobilizou a população. Ao mesmo tempo, percebemos que sua prática foi inconstante, experimentando momentos de euforia e de apagamento, decorrentes de sua maior ou menor circulação e visibilidade. Diferentes estratos da população foram envolvidos pelas corridas de cavalos, assumindo papéis diversos nesse cenário. Ainda, os espaços de seu desenvolvimento também foram diferentes, ocupando locais na cidade, bastante distantes um do outro.

Notas:

1. A Locomotiva, Salvador, 15 de janeiro de 1889, p. 41.
2. A Locomotiva, Salvador, 22 de janeiro de 1889, p. 51.
3. O Sport, Salvador, 27 de janeiro de 1889, p. 1.
4. Diário da Bahia, Salvador, 06 de abril de 1902, p. 1.
5. A Tarde, Salvador, 17 de agosto de 1915, p. 2.
6. Semana Sportiva, 28 de abril de 1923, p. 5.
7. Semana Sportiva, Salvador, 21 de abril de 1923, p. 13.

Referências:

LOPES, Licídio. O Rio Vermelho e suas tradições: memórias de Licídio Lopes. Salvador: FUNCEB, 1984.

ROCHA JUNIOR, Coriolano Pereira da. Esporte e modernidade: uma análise comparada da experiência esportiva no Rio de Janeiro e na Bahia nos anos finais do século XIX e iniciais do século XX. 2011. Tese (Doutorado em História Comparada), Programa de Pós-Graduação em História Comparada, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.

SARMENTO, Sílvia Noronha. A raposa e a águia: J.J. Seabra e Rui Barbosa na política baiana da Primeira República. Dissertação (mestrado em História). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, UFBA, Salvador, 2009.