“Os espetos se embandeiraram com costelas e matambres que plugavam lágrimas de sangue e gordura sobre as brasas do fogão”: um clube à gaúcha

Cleber Eduardo Karls
cleber_hist@yahoo.com.br

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Porto Alegre, final do século XIX. Tempos de evolução tecnológica, intensa imigração europeia, desenvolvimento de práticas esportivas e de entretenimento. A principal urbe do Rio Grande do Sul estava perfeitamente inserida em um contexto de modernização e adoção de hábitos ditos civilizados, provenientes, em sua maioria, dos países do Velho Continente. Da mesma forma como as demais importantes cidades do Brasil o antigo Porto dos Casais almejava civilizar-se.

No entanto, antagonicamente a toda esta tendência surgiu no meio urbano da capital sulina uma sociedade voltada ao culto dos antepassados sul-rio-grandenses. Como os próprios identificavam, tratava de “reviver os costumes simples, francos e sãos”. Esta foi denominada Grêmio Gaúcho e foi fundada em 22 de maio de 1898. Entre suas ações corriqueiras estavam atividades culturais e de divertimento, sempre inspiradas no passado do Rio Grande do Sul.

Esta sociedade, no entanto, não era constituída por migrantes ou retirantes rurais na sua maioria, mas, principalmente, por militares e intelectuais. Além destes, “muitos bons doutores e moços da primeira sociedade que passeiam na Rua da Praia”, como pudemos ler no periódico A República de 25 de junho de 1898. O mesmo descreveu uma das festividades promovidas pela entidade, da qual trataremos a seguir.

Os seus festejos pareciam reinterpretar um ambiente rural e pecuarista, característico da região fronteiriça e pampeana do estado, exótica e, de certa forma,  anacrônica aqueles impetuosos nativistas sócios do Grêmio. Inclusive os trajes “do antigo gaúcho”, que já não eram mais os seus do cotidiano passaram a ser evocados e exaltados como a essência da sua existência.

Nesta comemoração realizada em junho de 1898, canções e danças do folclore sulista passaram a ser interpretadas na empolgação do encontro que acontecia na região do bairro Glória: “chegaram mais gaúchos e muitas famílias e desde então começou o baile, ora com danças de categoria polka, ora bailados gaúchos como o anú e a chimarrita”.

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A dança do “anu” interpretada pelo Centro de Tradições Gaúchas Lanceiros de Santa Cruz

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Além do interesse na valorização dos costumes do passado, o Grêmio Gaúcho também procurava exaltar aqueles que considerava grandes personagens do tempo remoto sulino. Expunham paredes ornadas com as armas e os feitos dos farrapos rodeadas pelos retratos de Bento Gonçalves, Netto e Canabarro, líderes da Revolução Farroupilha, além de armas antigas, objetos de uso campeiro, quadros de costumes e poesias populares manuscritas.

Em meio a churrasco, chimarrão e danças, havia uma área específica onde os participantes montados a cavalo pousavam para fotografias, comprovando, definitivamente, que aquele ambiente artificial não era o deles. Conforme o próprio periódico alertou: “não se pensem que eram gaúchos de fora”. Esta estranheza foi ratificada pelo próprio jornalista que depôs e aspirava, de fato, visualizar um gaúcho típico do campo e não aqueles seres urbanos fantasiosos que ali se apresentavam como arquétipo de um tipo ideal que almejavam:

– Acho que aqui falta uma pessoa.

– Quem é? Me perguntaram, a autoridade?

– Não, é aquele gauchito que há pouco tempo desbancou os touros lá no circo; porque esse mocito ao meu ver é a mais viva representação do gaúcho cavalariano, aqui nos redores da capital. Por que não lembram que ele foi fazer de improviso aquilo que os toureiros diziam que era uma grande arte?

– Eu não havia fechado a boca, que me disseram: lá vem ele.

E de fato, chegou o mocito, entrou, pediu para inscrever-se sócio e assinou: Ernesto Weirauch.

De fato, Porto Alegre que estava inserida em um contexto de franco desenvolvimento da indústria do entretenimento apresentava especificidades que a colocavam como caso singular no Brasil. Era uma importante cidade que tinha uma destacada ligação com europeus, principalmente alemães, que foram os propulsores da fundação de uma série de clubes e associações esportivas e de divertimento. Além disso, era um local estratégico de trânsito de companhias itinerantes como as circenses e tauromaquicas que circulavam por todo o Brasil e América, especialmente pelos países platinos dos quais é fronteiriço.

Ao mesmo tempo era uma cidade provinciana, muito ligada ao interior e aos costumes do campo. Estes estavam presentes na lembrança mas já não eram mais os praticados no cotidiano, pelo menos por uma parcela significativa da população. Definitivamente, a capital do Rio Grande do Sul era tudo isso, um local entre o rural e o urbano onde confluíam valores modernos, progressistas e se hibridizavam aos tradicionais. A diversão se fazia tanto através de artistas europeus, clubes alemães, companhias circenses estrangeiras, mas, também, através da exaltação de um passado que se transformou em glorioso pelo olhar dos seus provedores. Estas questões estão latentes tanto na formação social dos gaúchos quanto nos divertimentos e nos esportes.

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