Pelé – o nascimento de uma lenda (EUA/BRA, 2016, Jeff Zimbalist e Michael Zimbalist)

CARTAZ PELÉ - O NASCIMENTO DE UMA LENDA (2016)

 

Senhoras e senhores: segurem seus chapéus. Ainda temos dez minutos no segundo tempo. Vamos sambar!

(narrador em voice over, durante jogo entre o time infantil do King e o Shoeless ones, equipe capitaneada por Dico/Pelé).

 

Entenderam o trecho acima? Nem eu…

Hoje vamos falar do mais novo empreendimento cinematográfico (longa) envolvendo a mítica figura de Pelé. Já comentamos, aqui mesmo, pelo menos uma das aventuras ou desventuras fílmicas do nosso grande atleta (ver post Os Trombadinhas, 1979 – https://historiadoesporte.wordpress.com/2011/12/05/os-trombadinhas-1979/). Mas a lista de produções envolvendo o “maior atleta do século” é bem razoável. O professor Victor Melo relacionou 24 filmes nos quais Pelé atua ou é representado (MELO, V. & DRUMOND, M. (orgs). Esporte e Cinema: novos olhares, RJ, Apicuri, 2009, p. 230).

Atentemos, no entanto, ao “nascimento de uma lenda”. Essa película deveria ter estreado em julho, com a Copa do Brasil, em 2014, mas assim como parte considerável das obras de cal e pedra também não cumpriu o calendário inicial. O filme abarca o período que vai da infância de Pelé até a conquista da Copa de 1958, na Suécia, a primeira vitória do selecionado nessa competição. Na oportunidade, Pelé contava com apenas 17 anos.

Pois bem, o filme não foi bem recebido pela crítica (ver http://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2016/05/pele-o-nascimento-de-uma-lenda-bate-um-bolao-so-nas-cenas-de-futebol.html; https://observatoriodocinema.bol.uol.com.br/criticas/2017/10/critica-pele-o-nascimento-de-uma-lenda; https://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/pele-birth-of-a-legend/?key=138225. Consultadas em 21 de dezembro de 2017).  De modo justo. Eu também não gostei. Não como filme, como material para se pensar é um prato cheio…

O trecho em epígrafe indica o tom estereotipado (caricaturizado mesmo) da obra. Mas o conjunto é pior. Se quiséssemos sintetizar poderíamos resumir a tese do filme como uma luta pela afirmação da “ginga” do futebol brasileiro (tendo Pelé como sua apoteose) contra a forma europeia de se praticar o esporte. Essa “ginga”, aliás, não definiria somente o futebol nacional, mas o “espírito brasileiro”. Há um ilustrativo diálogo fictício (a obra é pródiga em encenar situações que nunca aconteceram e de estabelecer diálogos ou desdobramentos inverossímeis) entre Waldemar de Brito e o jovem Pelé. A conversa se passa em uma estação de trem, em Santos, na qual o aspirante espera o trem para voltar para Bauru, descontente por sua incapacidade de satisfazer as condições solicitadas pelo treinador do clube. Pelo inusitado do enredo, vale a transcrição:

Waldemar de Brito – Os portugueses chegaram no Brasil com os escravos africanos. Mas a determinação dos africanos era forte. E muitos fugiram para o mato. Para se protegerem, os escravos africanos apelaram para a ginga. A base da capoeira, a arte marcial de guerra. Quando a escravidão foi abolida, saíram do mato e descobriram que a capoeira foi posta na ilegalidade. Eles viram o futebol como a maneira ideal de praticar a ginga sem serem presos. Era a forma mais atualizada de ginga. E em pouco tempo a ginga evoluiu, se adaptou, até não ser somente nossa [da população afro-descendente brasileira, presumo]. Era o ritmo dentro de todos os brasileiros. Mas, na Copa de 1950, muitos acharam que nosso estilo era o culpado pela derrota e passaram a repudiar tudo que era ligado a nossa herança africana. Assim como seu treinador tem tentado tirar a ginga do seu jeito de jogar, nós temos tentado tirar de nós mesmos, do nosso povo, desde então.

Mas a ginga é muito forte em você, Dico [apelido de Edson Arantes, quando criança]. Então, nos mostre o que acontece quando você tem a coragem de aceitar quem você realmente é ou você pode pegar esse trem e nunca saberá.

Todo o filme está baseado nessa caracterização, reforçada em vários trechos. Essa cinebiografia (epopeia, fantasia) de Pelé equivale a uma narrativa da assunção e ascensão dessa tal “ginga” por parte dos negros e de toda população brasileira, protagonizada pelo herói de ébano. Dá pano pra muita manga…

Aliás, as mangas, esse nosso produto tropical abundante, têm um papel importante. É com elas que o pai de Pelé, Dondinho (segundo o filme), treinava suas habilidades de controle: “as verdes para chutar, as maduras para as embaixadinhas”. Essa técnica revolucionária teria sido passada para o filho o qual, depois, em campo, ganha cenas alternadas para evidenciar o link entre essa estratégia tropical e o domínio da bola nos gramados. Lembra as dezenas de filmes de Kung Fu e seus treinamentos mirabolantes (Olá senhor Miyagi ! Karate Kid, 1984, John Avildsen).

É um filme curioso. Há ainda a construção de uma animosidade entre Mazola (José Joel Altafini) e Pelé. Veja, segundo o enredo, esses dois grandes jogadores que conquistaram a primeira Copa do Mundo para o Brasil se conheciam desde criança. A mãe de Pelé (numa construção fílmica) trabalhava para a família de Mazola e este, quando pequeno, zombava do filho da empregada (Dico, o futuro Pelé), vindo encontrar-se com ele no escrete de 1958.

O Mazola do filme é um contraponto a Pelé. O primeiro quer ser estrangeiro, jogar como estrangeiro e Pelé representaria a autenticidade nacional (receosa de afirmação, mas irrebatível quando assumida). O conjunto de representações, simplificações e visões bem vale uma apreciação mais detida (para um outro momento). Para finalizar estas considerações iniciais, apenas indicaria algumas referências cinematográficas que saltam aos olhos na edificação narrativa em questão.

Primeiramente, alguém já aludiu que a tal da ginga se assemelha ao fenômeno da “força” nos filmes de Star Wars (“a ideia de dizer que a ginga é uma espécie de força Jedi originada da capoeira é demais pra cabeça de qualquer um. GOMES, Fábio S. Disponível em: https://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/pele-birth-of-a-legend/?key=138225. Consultado em 21 de dezembro de 2017). A afirmação do personagem de Waldemar de Brito destacando que “a ginga é muito forte” em Dico parece uma caricatura hollywoodiana para um pretenso e nacional Luke Skywalker de chuteiras.

A tese da “ginga”, evidentemente tem raízes na caracterização Freiriana de nosso futebol flamboyant, mas, filmicamente, não há como não pensar no título Ginga – alma do futebol brasileiro (Brasil, Hank Levine, Marcel Machado e Tocha Alves, 2004; para mais informações ver SANT’ANA, L. C. “Ginga: alma nacional, expressão universal – representações e aspirações de nacionalidade e pertencimento”. In MELO, V. A. & DRUMOND, M. 2009, op. cit.). A tese é quase a mesma, embora a qualidade das obras seja distinta (o filme Besouro, Brasil, 2009, de João Tikhomiroff, que apresenta similaridades com a obra em questão, também é imageticamente citado).

A oposição Pelé  X  Mazola faz lembrar quase imediatamente àquela entre Mozart e Saliere, no filme de Milos Forman, Amadeus (1984), para ficarmos com uma referência apenas.

A performance de Pelé (toda vez que se permite incorporara a “ginga”), aliás, está mais para a plástica dos games de futebol, também expressa, por exemplo, na peça de propaganda da Nike, intitulada “O último jogo”(Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=59t31RqeY88. Acessado em 21 de dezembro de 2017). Está muito mais para malabarismo com bola do que para futebol.

Enfim, uma película curiosa, disso não se pode duvidar.

Um belo fim de ano para todos nós é o que este comentarista e este blog desejam a todos.

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