Esporte em São Paulo

Por Flávia da Cruz Santos (flacruz.santos@gmail.com)

Cidade atualmente instigante, sobre a qual abundam estudos que tratam de sua contemporaneidade, São Paulo tem seu passado mal conhecido quando o tema são os divertimentos em geral e os divertimentos esportivos, mais especificamente. Uma das maiores potencias esportivas nacionais, a capital paulista tem os primórdios de seus esportes quase desconhecidos.

Soa estranha tal afirmação, que pode ser facilmente contestada com o argumento de que existem sim estudos, não muitos, sobre os esportes na capital paulista na transição dos séculos 19 e 20, momento tido com inicial na configuração do campo esportivo brasileiro. Algumas questões, no entanto, são: os indícios que nos ajudariam a compreender tal fenômeno não estariam presentes na cidade desde momentos anteriores? Não valeria a pena estudá-los? Porque toma-se como certa a ideia de que não há esporte em São Paulo antes dessa data?

Parte da resposta a essas questões, reside no fato de que a industrialização, tida como sinônimo de modernidade, é considerada condição para a configuração do campo esportivo (tema abordado no post anterior, por Rafael Fortes). Como antes da virada do século, a industrialização em São Paulo era insipiente, não se fala, ou pouco se fala, em esporte antes desse momento.

Mais do que uma cidade de industrialização insipiente, a fama da São Paulo oitocentista não é nada boa, e tão pouco demostra qualquer continuidade com o que sabemos da cidade que nos é contemporânea. Ao contrário, nos faz pensar que se trata mesmo de outra cidade:

Daqui a cinco minutos podemos estar à vista da cidade. Há de vê-la desenhando no céu suas torres escuras e seus casebres tão pretos de noite como de dia, iluminada, mas sombria como uma eça de enterro.

(…)

Demais, essa terra é devassa como uma cidade, insípida como uma vila, e pobre como uma aldeia. Se não estás reduzido a dar-te ao pagode, a suicidar-te de spleen[1], ou alumiar-te o rolo, não entres lá. É a monotonia do tédio. Até as calçadas![2]

Muitos são aqueles que viveram a São Paulo daquele tempo, ou que ao menos lá estiveram, e que nos deixaram relatos sombrios como este, de Álvares de Azevedo, importante nome da dramaturgia paulistana. Exemplos muito conhecidos e usados na historiografia são os relatos de viajantes como os alemães Spix, Martius e Rugendas, os franceses Alcide D’Orbigny e Saint-Hilaire, e o inglês Jonh Mawe. Informados por certos valores e sentimentos, eles possuíam compreensão nada positiva da cidade. Compreensão essa que se disseminou pelos estudos que focalizam tal contexto.

Essa São Paulo não convida o historiador do esporte a investigá-la, não é nem um pouco atraente ou condizente com o que se espera de uma cidade em que há esporte. E aqui outra questão: não deveríamos desconfiar dessa versão, desconfiar que a atual, e já há algum tempo, fervilhante cidade possa ter sido forjada, de repente, em um curto espaço de tempo?

Soma-se a essa compreensão de São Paulo e ao pressuposto da industrialização, o fato de que é em 1875 que surgem agremiações esportivas na cidade, como o Jockey Club e o São Paulo Críquete Clube, e que no ano seguinte foi inaugurado o primeiro hipódromo paulistano. Daí para frente as novidades esportivas não param.

Antes disso, no entanto, numa São Paulo que ainda construía as condições para sua industrialização, os divertimentos esportivos já estavam presentes. Em 1864 já se jogava críquete numa chácara no Campo Redondo[3]. No ano da chegada das ferrovias, 1868, por exemplo, foi constituído um clube de tiro, sobre o qual pouco se sabe. Ele destinava-se à prática do tiro com pistola ao alvo, que era tido como “um novo e útil exercício”[4]. As regatas também já faziam parte do cotidiano da cidade a essa altura, ainda que desenvolvidas no porto de Santos, para onde grande quantidade de paulistanos se dirigia.

Não haveria, então, elementos mais importantes do que a industrialização para o desenvolvimento dos esportes na capital paulista? Não seria tal capital mais dinâmica do que se costuma apregoar? Convido o/a leitor/a, nesse primeiro momento, a me ajudar a pensar na pertinência dessas questões.

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[1] Spleen foi termo difundido por Charles Baudelaire, e significa um estado de desencanto e melancolia, que resulta em apatia e indiferença e pode levar à transgressão e perversão. Caracteriza o ser romântico (ANFORA, pp. 13-15).

[2] AZEVEDO, Álvares de.  Macário. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988. Disponível em: <http://www.aliteratura.kit.net&gt;. Acesso em: 11 dez. 2014, grifo no original.

[3] Correio Paulistano, 6 de setembro de 1864, p. 2.

[4] Correio Paulistano, 1 de abril de 1868, p. 1.

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