Grandes estádios e a memória da ditadura

Por Rafael Fortes (rafael.soares@unirio.br)

Durante o período da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985), dezenas de estádios de futebol foram construídos e inaugurados. Uma parcela importante – 14 estádios com grande capacidade – foi erguida e, posteriormente, administrada por governos estaduais que tinham à frente políticos da Aliança Renovadora Nacional (Arena). Dez deles receberam o nome do próprio governador que os construiu e inaugurou.

O assunto é explorado no artigo “‘Brasil-grande, estádios gigantescos’: toponímia dos estádios públicos da ditadura civil-militar brasileira e os discursos de reconciliação, 1964-1985“, escrito por João Malaia, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e por mim e publicado no dossiê Lugares de memória e de consciência na América Latina da revista Tempo (UFF).

Abordamos superfaturamentos e fraudes em licitações (condizente com a dinâmica mais ampla de atuação e fortalecimento de empreiteiras descrita e analisada por Campos (2014) ), acidentes e confusões nas inaugurações (com dezenas de feridos e levando a prisões e acusações arbitrárias), evasão de divisas por meio da administração posterior dos estádios e complexos esportivos e o papel predominantemente adesista e celebratório da imprensa esportiva (não só à época, mas também nas décadas seguintes).

Um de nossos objetivos é inserir tal fenômeno nas discussões historiográficas sobre construção de consentimento durante o período e após – considerando que a maioria permanece com os mesmos nomes nos dias atuais. Já no subcampo da história do esporte, embora um número razoável de trabalhos sobre esporte e ditadura tenha sido publicado nos últimos anos, aspectos como a construção de consensos, o papel dos clubes e de seus dirigentes, a atuação de governos estaduais (tanto de governadores quanto de entidades criadas para administrar os estádios, como as superintendências estaduais de desportos) e os estádios têm ficado em segundo plano. A atenção frequentemente se volta para experiências de resistência (em geral utilizando como exemplo um jogador, treinador ou time) e para a seleção brasileira, sobretudo durante o governo Medici.

O teor e os sentidos políticos de tais nomeações, que duram décadas, fazem parte da construção e manutenção, no presente, de imagens positivas do regime ditatorial entre setores da sociedade brasileira. Mesmo entre os pesquisadores e ativistas mais atentos, é pouco provável que tais nomes de estádios chamem a atenção quanto a uma possível identificação com o regime civil-militar. Em outras palavras, tais nomes de governadores – lideranças políticas civis no interior do regime – não causam identificação imediata, diferentemente do que acontece, por exemplo, com as homenagens, em todo o país, aos generais ex-presidentes Medici, Castelo Branco e Costa e Silva.

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Amanhã (terça-feira, 24/8/2021) João Malaia e eu falaremos sobre o assunto no III Seminário Brasil Republicano, organizado pelo Instituto de História da Universidade Federal Fluminense. Transmissão pelo canal do Ludopédio: https://www.youtube.com/watch?v=NS87p9dJ5Ew.

Referências

CAMPOS, Pedro Henrique Pedreira. Estranhas catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988. Niterói: Editora da UFF/Faperj, 2014.

MALAIA, João Manuel Casquinha; FORTES, Rafael. “‘Brasil-grande, estádios gigantescos’: toponímia dos estádios públicos da ditadura civil-militar brasileira e os discursos de reconciliação, 1964-1985”. Tempo, v. 27, n. 1, p. 165-183, jan.-abr. 2021. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/tem/a/dxyZ4FpZVhkw6KB6sb7K4Tn/?lang=pt>. Acesso em 18 ago. 2021.

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