Futebol na Rússia e na União Soviética no século XX – o caso do clube Spartak Moscou

Por Jorge Knijnik*

Nélson Rodrigues dizia que “toda unanimidade é burra”. Mas eu creio que algo praticamente unânime entre os frequentadores deste blog é o prazer da leitura. Segurar um livro que na verdade nos “segura” e faz com que “viajemos” com ele para todos os lugares é uma experiência absolutamente divina, uma das melhores coisas da vida.

Foi isso o que ocorreu comigo há alguns meses. Eu li com uma curiosidade, uma intensidade e uma emoção incríveis as quase 350 páginas do livro Spartak Moscow: A History of the People’s Team in the Worker’s State (Spartak Moscou – Uma historia do time do povo no Estado dos Trabalhadores), escrito por Robert Edelman e publicado em 2009 pela Cornell University Press. É sobre este livro, cheio de história(s) do esporte e do futebol que eu gostaria de comentar.

Na verdade, se eu fosse um “videomaker” e fosse filmar o livro de Robert Edelman, eu poderia fazê-lo usando três ângulos diferentes, usando formatos tão diversos que acabaria fazendo três filmes absolutamente distintos.

Usando este livro como roteiro, eu poderia filmar um documentário histórico muito bem detalhado, mostrando a historia do clube Spartak e as relações entre futebol e as gigantescas mudanças histórico-sociais que abalaram a Rússia (e a União Soviética) durante o século XX.

Entretanto, eu poderia usar o mesmo livro para produzir um filme sobre esportes, contando a história de um dos mais famosos times russos, o Spartak – o filme mostraria suas vitórias e derrotas, seus títulos, suas táticas inovadoras. Neste filme, eu colocaria depoimentos dos jogadores, técnicos e dirigentes do Spartak, e também mostraria as emoções de sua enorme legião de fãs, mostrando assim a paixão que todos tinham (e têm) pelo futebol do Spartak.

Agora, o mesmo livro ainda me possibilitaria produzir um eletrizante filme policial, no qual o espectador ficaria sem folego durante duas horas, e sempre se perguntando: “E agora? O que vai rolar?”, pois este filme falaria dos bastidores de um estado-policial, no qual o maior rival do Spartak (o Dínamo Moscou) era o clube apoiado pela policia secreta, era o time do órgão do Estado que a qualquer momento podia mandar os seus rivais esportivos direto para a cadeia e para os gélidos campos de concentração soviéticos.

Porem, como eu sou apenas um leitor sortudo (e não um péssimo “moviemaker”) eu encontrei todos estes aspectos reunidos neste maravilhoso livro: Spartak Moscou, a historia do time do povo é um livro repleto de detalhes e com inúmeras fontes, as quais fazem a alegria de qualquer um interessado na historia social do esporte.  O autor, sempre que possível, apresenta os dados históricos e simultaneamente questiona a versão oficial, chamando atenção para o fato de que o livro conta com fontes que são humanas! “Memórias falham. As pessoas contam histórias para si mesmas e acabam acreditando nelas” (p. 38). Essa frase, em conjunto com os esforços que o autor coloca para encontrar fontes as mais variadas possíveis, faz com que este livro seja um recurso extremamente valioso para o leitor com interesse na história social dos clubes europeus de futebol, sobretudo russos.

O livro começa na pré-história do futebol russo, na transição entre os séculos XIX e XX. Edelman mostra como as mudanças que ocorriam na sociedade russa, que passava por uma grande e acelerada urbanização, estavam causando uma “fluidez” nas identidades pessoais e sociais. Neste quadro, o autor demonstra como o futebol foi um agente essencial na construção de novos laços sociais entre os homens jovens que migravam para as cidades russas. O esporte era um dos espaços privilegiados para a construção de novas masculinidades, diferentes e diametralmente opostas àquela masculinidade tradicional do camponês russo, que era a norma vigente na Rússia ate então. Edelman afirma que “o futebol forneceu aos diversos tipos de Moscovitas, ricos e pobres, um jeito novo e diferente de mostrarem em um espaço publico sua masculinidade, sua forca física e virilidade” (p. 40). 

Tanto o futebol russo como o soviético sempre foram espaços dominados por homens, e Edelman argumenta que a questão das identidades sociais foi central na historia do Spartak. Jovens trabalhadores, que não tinham acesso aos campos esportivos das elites, jogavam futebol em qualquer espaço que encontrassem, sobretudo nas ruas (parece a América do Sul!). Estes jogos eram chamados de “futebol marginal” (dikki) e foram essenciais para a “pré-história do Spartak” (p. 16). Ao apresentar as raízes daquilo que se tornaria o Spartak, Edelman chama a atenção para o fato de que “o ímpeto para a criação do time não veio de cima, mas sim das ruas de Krasnaia Presnia” (p. 50). A autonomia e a espontaneidade encontradas naqueles jovens trabalhadores que jogavam nas ruas, e que se tornaram os fundadores do Spartak, são hoje consideradas a verdadeira “ideologia Spartakiana”. Essas raízes do Spartak influenciaram a identidade e a masculinidade destes jovens fundadores do time. Mais tarde, durante o século XX, a enorme legião de fãs do Spartak era formada por trabalhadores (o povo) que incorporaram uma masculinidade agressiva, indisciplinada e rebelde, diferente e oposta a masculinidade rígida, militarizada e disciplinada demonstrada pelos bem-comportados torcedores do Dínamo Moscou.

Krasnaia Presnia (Presnia é o bairro onde o clube nasceu e Krasnaia significa a cor vermelha, adjetivo apenso ao nome do bairro para simbolizar a revolução de 1917) foi o time que veio a se tornar o Spartak. Ele se localizava em uma região de trabalhadores braçais, lotada de fabricas, cortiços e favelas – e também cheia de grupos de bandidos que faziam daquela uma área perigosa e violenta. Foi na região de Presnia que os irmãos Starostin  cresceram. Aleksandr, Pavel, Anatoly and Nikolai Starostin possuíam uma condição social levemente melhor que seus vizinhos. Eles se educaram e cresceram ao mesmo tempo nas arriscadas ruas de Presnia – onde o futebol acabava por fornecer uma segura rede social de proteção  para os jovens meninos contra “um mundo de bebidas, drogas, apostas ilegais, sexo facil e assassinatos” (p. 29) – e em escolas comerciais que seus pais podiam pagar. Foi em uma destas escolas que Nikolai, o mais velho dos Starostin, foi introduzido ao futebol.

Conhecer a família Starostin é essencial para entender tanto o desenvolvimento do Spartak quanto do próprio futebol russo – mas também para entender como Edelman transforma o seu livro em uma apaixonante historia futebolística. Edelman conta as historias dos irmãos Starostin, que jogaram juntos no Spartak e viraram ídolos do futebol soviético. O autor mostra como Nikolai, o primogênito e líder dos irmãos Starostin não era somente um jogador e o capitão do time, mas também era um empresário de visão extraordinária, que colocou o Spartak no topo do futebol russo, e o trouxe para este futebol o reconhecimento internacional.

É neste momento do livro que “os três formatos de filme” que eu falei no início, começam a se reunir em uma coisa só. Sem se afastar um milímetro das suas rigorosas e detalhadas fontes históricas, Edelman relata as glórias do Spartak Moscou – cuja torcida gritava bei militsia (“peguem os policiais!”) quando eles jogavam contra o Dínamo Moscou, um clássico que parava a cidade, literalmente. O autor mostra as evoluções táticas do time, seus altos e baixos, seus jogos incríveis… E mostra tudo isso de um modo no qual fica claro que ser torcedor do Spartak durante o stalinismo era uma maneira de dizer “não” a polícia secreta, ao passo que torcer para o Spartak na época pós-stalinista era um jeito de dizer “sim” para as desejadas mudanças sociais. Ao mesmo tempo, Edelman conta a excitante historia dos irmãos Starostin, que conseguiram prosperar dentro do futebol russo, atraindo muita inveja no interior de um estado-policial no qual milhares eram assassinados ou enviados para campos de trabalhos forcados, em meio a uma atmosfera de intriga politica e terror. A cada página a curiosidade do leitor vai crescendo, afinal a grande duvida é saber se os irmãos Starostin serão mandados para os campos de prisioneiros, e afinal o que poderá acontecer com o Spartak sem eles.

Edelman continua contando a história dos Starostin e do Spartak, usando todas as fontes disponíveis. O leitor não consegue se desgrudar do livro, que conta com fotos incríveis do futebol no início do século XX, além de três apêndices com os resultados do Spartak e o “hall da fama” do autor, e mais 22 páginas com notas detalhadas para cada capítulo, e um index final muito claro.

É importante mencionar que o trabalho de Edelman foi premiado, em 2009, como o melhor livro da Associação Norte-Americana de Historia do Esporte. Independentemente do tipo de “moviemaker” que você seja, com certeza se beneficiara muito com esta leitura. Spasibo, Edelman, por nos contar historias tão excepcionais em um livro tão delicioso!  

http://www.cornellpress.cornell.edu/book/?GCOI=80140100191990

http://www.spartak.com/en/main/

* Esta crônica “baixou” na minha cabeça em uma ensolarada manha de domingo em Sydney, quando dirigia meu carro escutando e dançando com Lobão e sua indefectível ‘Radio Bla’. De modo que dedico esta resenha a todos e todas que “não conseguem controlar”, sobretudo aos meus queridos amigos Antenor Nicanor,  Marcelo Massa e Marcos Waca – sabem lá porque!

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