Histórias do esporte e das práticas corporais em Rubem Fonseca (parte 2)

Por Fabio Peres

Em A grande arte (1983), romance de Rubem Fonseca, o protagonista-narrador Mandrake nos conta que:

[…] lembrava do primeiro dia: uma noite, ia passando pela avenida Ataulfo de Paiva e vi as janelas iluminadas de uma academia de ginástica. Desde os tempos de Eva Cavalcanti Meier eu ficara fascinado pelas mulheres que faziam ginástica. Mas essa era outra história. Na academia várias mulheres corriam em fila, ao som de música que não se ouvia da calçada. A frente, de malha preta, uma mulher alta e magra, de pernas longas e fortes, o pescoço meio curvado, movimentava-se sem esforço. Esperei a aula acabar e ela sair. Abordei-a na rua. “Estava vendo você fazer ginástica. Parecia um cavalo num quadro de Ucello”, eu disse. “Eu sei quem é Ucello”, ela disse, “da Uffizi”. Não era o da Uffizi era o do Louvre, o negro do centro, com as patas levantadas, mordendo os freios, o focinho torcido para a esquerda. Ela não falava com estranhos, mas meu rosto inspirava confiança a todas as mulheres do mundo. Além disso, era a primeira vez que alguém lhe dizia que ela parecia um cavalo (grifos nossos).

Em um post anterior, defendi que talvez poderíamos usar o adjetivo esportivo para qualificar a literatura de Rubem Fonseca, escritor recém falecido no último dia 15.

O argumento – na época de publicação do post – era que, não apenas o fenômeno esportivo esteve frequentemente presente desde os seus primeiros escritos, como também as diferentes narrativas para representar as práticas esportivas e corporais  eram impregnadas de temporalidades e espacialidades que lhe conferiam uma, por assim dizer, consciência histórica.

A Batalha de San Romano (c. 1435 a 1440). Paolo Uccello. Museu do Louvre (Paris, França). Obra mencionada em A Grande Arte (FONSECA, 1983), na qual a ginástica realizada por uma personagem é comparada ao cavalo negro representda no centro do quadro.

Ao defender a possibilidade de tratar a literatura de Fonseca como objeto ou fonte histórica, a provocação era uma forma de perturbar os limites e as fronteiras do campo da História do Esporte; uma maneira de nos ajudar a entrever histórias justapostas e entrecruzadas à prática esportiva: histórias “do corpo, de gênero, da cidade, de classe, da discriminação racial, da homofobia”, entre tantas outras, que a obra fonsequina é capaz de revelar.

Se as histórias são mais ou menos conservadoras ou críticas, lineares ou complexas, ambíguas ou unívocas, sem nuances, é algo que a História do Esporte ainda precisa melhor investigar. Constitui um duplo e intrincado desafio de reconstruir o universo do autor, historicamente situado, e o “mundo” que o texto procura expressar.

Como forma de homenagear o “realismo feroz” de sua obra, como definiu Antonio Candido (1989, p.210), e sua literatura esportiva, reproduzo a seguir o conto O desempenho, publicado em 1969 no livro Lúcia McCartney, no qual uma luta de Vale-tudo é narrada em primeira pessoa.

Clique na imagem para acessar O desempenho (1969).

Sem dúvida, a “vida pregressa como boxeador, jogador de basquete, atleta aquático (chegou a nadar três vezes por semana do Morro da Viúva à Praça 15)” de Rubem Fonseca – como relata seu amigo, jornalista, também escritor, Sergio Augusto (2020) – ajuda a entender a presença e a estética atribuída a tais práticas em suas obras. Mas essa história ficará para um próximo post.

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AUGUSTO, Sérgio. Zé Rubem. Estado de S. Paulo. Especial, H8, 25 de abril de 2020.

CANDIDO, Antonio. A educação pela noite & outros ensaios. Rio de Janeiro: Ática, 1989.

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